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sábado, 25 de abril de 2026

MENSAGEM DOS BISPOS DO BRASIL AO POVO DE DEUS

A mensagem dos Bispos no final  da 62ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em Aparecida, nasce de um envio que não permite acomodação. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). Não é palavra para enfeitar celebração. É direção de vida. 

Se percebe  uma sintonia com Papa Leão XIV e no caminho aberto por Papa Francisco, os bispos recordam que a Igreja ou é sinodal ou perde o Evangelho de vista. Sinodalidade não é moda eclesial. É conversão de mentalidade. É sair da lógica de poder e entrar na dinâmica do serviço. Pelo Batismo, todos têm voz, dignidade e responsabilidade. Onde isso não acontece, algo do Evangelho foi silenciado. A paz aparece como dom e tarefa. Não nasce de discursos religiosos vazios, mas de corações converstidos e de relações justas. A Escritura já denunciava isso quando ligava paz e justiça como inseparáveis. Falar de paz ignorando a fome, a violência e a exclusão é espiritualizar o sofrimento alheio. É fé sem encarnação.

O texto valoriza os leigos, reconhece os jovens como presença viva de Deus e reafirma o cuidado com a Casa Comum. Aqui há um ponto decisivo. A fé cristã não é fuga do mundo, é compromisso com ele. Quem comunga o Corpo de Cristo e ignora o corpo ferido do povo não entendeu a Eucaristia. A mesa do altar e a mesa da vida não podem estar separadas. Mas é preciso dizer com honestidade. Há distância entre o que se afirma e o que se vive. Fala-se de comunhão, mas a Igreja ainda carrega divisões internas. Fala-se de participação, mas o clericalismo continua fechando portas. Fala-se dos jovens, mas muitos já não encontram sentido em estruturas que não escutam. Fala-se da criação, mas pouco se muda no concreto.

A nossa  observação  aqui não é contra a Igreja. É em favor de sua fidelidade ao Evangelho. Como lembram os profetas, Deus não se deixa impressionar por palavras quando a justiça não se torna prática. A fé que não toca a realidade corre o risco de se tornar ideologia religiosa.

No fim, a mensagem é clara. O envio de Cristo continua atual. A Igreja é chamada a viver o que anuncia. Menos discurso autorreferencial e mais presença junto aos pobres, mais escuta verdadeira, mais coragem de mudar estruturas que já não servem ao Reino. Se isso for assumido, a mensagem deixa de ser apenas um documento e se torna caminho. Caso contrário, será mais um texto correto, mas incapaz de transformar a vida. E o Evangelho nunca foi neutro nem decorativo. Ele sempre exigiu decisão.

Vamos a mensagem   e tire você  mesmo sua  conclusão.

DNonato -  Em comunhão  com a Igreja  Sinodal 

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Jesus disse de novo: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21)

Reunidos em Aparecida, junto à Padroeira do Brasil, nós, Bispos Católicos, por ocasião da 62ª Assembleia Geral da CNBB, de 15 a 24 de abril, dirigimos esta mensagem de esperança e unidade a todo o Povo de Deus. Fortalecidos pela oração, reafirmamos o compromisso de evangelizar, sendo uma Igreja Sinodal que escuta, acolhe e serve a Jesus Cristo com amor e fidelidade.

Unimo-nos ao Papa Leão XIV em seu profético empenho pela paz, que não pode ser um ideal distante, mas uma realidade concreta. Exortamos todos a reconhecer que a paz, dom do Ressuscitado, brota da conversão dos corações, do diálogo fraterno e da solidariedade com os mais pobres.

O Batismo é a fonte de todas as vocações e, por meio dele, somos chamados à santidade e à comunhão. Revestidos todos da mesma dignidade, tornamo-nos corresponsáveis pela missão da Igreja, qualquer que seja o ministério que exerçamos. Nesta harmonia, reconhecemos a riqueza dos dons e carismas que, na diversidade dos ministérios, dinamizam o serviço na Igreja e na sociedade.

Manifestamos nossa gratidão a todo o Povo de Deus, que se mantém fiel no seguimento a Jesus Cristo, e expressamos nossa proximidade a todos os cristãos leigos e leigas, consagrados e consagradas, e ministros ordenados que sofrem calúnias e agressões por seu compromisso com o Evangelho, principalmente junto aos pobres e na defesa da Casa Comum.

Pedimos a todos um esforço contínuo pela unidade, fazendo de nossas comunidades ambientes onde o diálogo se manifeste na superação das polarizações. Empenhemo-nos na valorização da diversidade dos dons, onde todos os ministérios sejam vividos como serviço ao próximo, num caminho de comunhão, participação e missão.

Somos gratos aos cristãos leigos e leigas, chamados a ser sal da terra e luz do mundo nas realidades sociais e eclesiais (cf. Mt 5,13-16). Enaltecemos, igualmente, a vocação matrimonial e a família, cuja missão reside em gerar e cuidar da vida, na educação das novas gerações e na transmissão da fé.

Esse mesmo olhar queremos dirigir aos diáconos e presbíteros, chamados, a exemplo do Bom Pastor, a serem conosco os primeiros, dentre o Povo de Deus, servidores na comunidade e dispensadores da graça sacramental, construindo um caminho de unidade e comunhão. Reconhecemos também a importância da vida consagrada e seu compromisso missionário, especialmente junto aos mais fragilizados, como um sinal profético de doação da própria vida e um testemunho da alegria no discipulado.

Iluminados pelo magistério do Papa Francisco, que nos animou a ser uma “Igreja em saída”, reconhecemos o trabalho incansável de todos os fiéis que se dedicam às iniciativas de cuidado dos pobres e da Casa Comum, atuando nas periferias geográficas e existenciais. A doação de suas vidas, nesta missão, impulsiona-nos a uma sensibilidade e abertura missionária permanentes.

Agradecemos, de modo especial, a todos os jovens presentes em nossas comunidades. Vocês são o “agora de Deus”, e nos ajudam a ser uma Igreja viva e renovada. Ao mesmo tempo, convidamos todas as lideranças eclesiais a acolherem e caminharem junto aos jovens, no cuidado, na escuta e no discernimento.

Convidamos todos a um renovado compromisso na construção da cultura vocacional, fazendo de nossas comunidades espaços de encontro, testemunho e missão. Ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia, em cada domingo, unamo-nos na oração pelas vocações e pela perseverança dos que se colocam a serviço da evangelização.

Neste espírito de comunhão, como um só corpo (cf. Rm 12,5), assumamos, com renovado ardor, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Elas são a expressão concreta de nossa acolhida ao caminho sinodal, que nos leva a redescobrir a beleza da variedade das vocações, carismas e ministérios.

Somos uma Igreja ministerial e, sob o olhar amoroso da Virgem Aparecida, Mãe das Vocações, renovamos nosso compromisso de evangelizar, anunciando Jesus Cristo com alegria e esperança, para que cheguemos à plenitude do Reino de Deus.

Aparecida – SP, 24 de abril de 2026.
62ª Assembleia Geral da CNBB

Dom Jaime Cardeal Spengler 
 Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre – RS 
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia – GO
1º Vice-Presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife – PE
2º Vice-Presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília – DF 
Secretário-Geral da CNBB


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 6,12-19

O Evangelho proclamado  na Terça-feira da  23ª semana do Tempo Comum (Lucas 6,12-19) é uma passagem que também aparece em outras ocasiões da liturgia, sobretudo quando a Igreja celebra a memória dos santos apóstolos, pois trata diretamente da escolha dos Doze. Essa narrativa é ao mesmo tempo simples e grandiosa: Jesus passa a noite em oração, escolhe aqueles que, pelo nome, se tornarão testemunhas de sua vida e de sua obra, e desce da montanha para se encontrar com uma multidão de pessoas vindas de toda parte, que o escutam, buscam sua cura e experimentam a força que dele saía e que a todos curava. Não é apenas uma memória distante; é um acontecimento que fala à vida da Igreja em todos os tempos, porque nela se radica a origem da comunidade missionária e participativa que somos chamados a ser.

O primeiro elemento que chama atenção é que Jesus não age de modo precipitado nem isolado. Antes de tomar decisões, retira-se para rezar. Lucas sublinha com frequência essa dimensão orante de Jesus, mais até do que Marcos e Mateus. Aqui vemos que ele passa a noite inteira em oração a Deus (Lc 6,12). Isso remete imediatamente à necessidade de discernimento: a escolha dos Doze não é resultado de estratégia política, nem fruto de cálculos humanos, mas brota do diálogo profundo com o Pai. Nisso se manifesta uma chave hermenêutica fundamental: o Reino não é obra de indivíduos geniais nem de líderes carismáticos autossuficientes, mas nasce da obediência ao desígnio de Deus e se concretiza em comunidade. É importante notar que, em diversas passagens do Antigo Testamento, as grandes decisões são precedidas por escuta e oração: Samuel, ainda menino, aprende a responder “Fala, Senhor, teu servo escuta” (1Sm 3,10); Moisés permanece no Sinai em diálogo com Deus antes de guiar o povo (Ex 24,18). Jesus, novo Moisés, reatualiza e plenifica esse dinamismo: sobe ao monte não para receber tábuas de pedra, mas para se oferecer ao Pai e deixar-se conduzir por Ele.

Na tradição sinótica, encontramos paralelos que iluminam essa cena. Marcos 3,13-19 mostra Jesus subindo ao monte e chamando os que ele quis, instituindo doze para estarem com ele e para serem enviados a pregar e expulsar demônios. Mateus 10,1-4, por sua vez, enfatiza que lhes deu autoridade sobre espíritos impuros e sobre doenças, vinculando a missão diretamente à experiência do envio. Lucas, diferentemente, ressalta primeiro a oração de Jesus e depois o chamado pelo nome, destacando a dimensão da relação pessoal e comunitária. Há ainda um paralelo mais amplo com a experiência de Moisés no Sinai: ele sobe à montanha para estar diante de Deus, recebe as tábuas da Lei e desce para o povo. Jesus, novo Moisés, sobe para rezar, desce para chamar e formar um novo povo, sinal da nova aliança, não fundada em pedras, mas em pessoas concretas, frágeis e chamadas pelo nome.

Essa escolha pelo nome é significativa antropologicamente e biblicamente. O nome, na tradição semita, não é mero rótulo, mas identidade, vocação, missão. Chamar alguém pelo nome é reconhecer sua singularidade e dignidade. Isaías já havia proclamado em nome de Deus: “Eu te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). O próprio Jesus revela em João 10,3 que o bom pastor “chama as suas ovelhas pelo nome”. O chamado pelo nome é também promessa de futuro, como no caso de Abraão, que recebe um novo nome como sinal de missão (Gn 17,5). Ao nomear Simão como Pedro, Jesus confere uma missão específica; ao escolher Judas, mesmo sabendo de sua traição futura, mostra que a graça de Deus passa também pelo mistério da liberdade humana. Isso revela que a comunidade não é formada por perfeitos, mas por homens concretos, com suas luzes e sombras, chamados a caminhar juntos. Davi, escolhido entre os filhos de Jessé, não era o mais forte nem o mais promissor segundo critérios humanos, mas Deus viu seu coração (1Sm 16,7). Assim também acontece com os apóstolos: a eleição não se baseia em currículos, mas em confiança divina.

Aqui emerge também uma crítica necessária às tendências individualistas de nossa época. Quantas vezes, em nossas pastorais e comunidades, repetimos a lógica da autossuficiência, acreditando que sozinhos podemos resolver tudo, e que os outros mais atrapalham do que ajudam. Essa mentalidade gera clericalismo, em que o padre se vê como dono da paróquia; gera pastoralismo individualista, em que líderes leigos concentram poder e não permitem participação; gera espiritualidades de mercado, em que pregadores digitais buscam likes e não comunhão. Jesus rompe essa lógica: ele poderia, de fato, ter realizado sua missão sozinho, mas escolhe o caminho da partilha e da comunhão. A Igreja é, por essência, sinodal, comunitária, participativa, como recorda o Vaticano II: “Aprouve a Deus salvar e santificar os homens não individualmente e separados de qualquer ligação, mas constituí-los em povo que O conhecesse em verdade e O servisse em santidade” (Lumen Gentium 9). O Papa Francisco retoma esse ensinamento em Evangelii Gaudium (n. 31), ao afirmar que não podemos reduzir a missão a uma elite clerical, mas é necessário abrir espaço para os leigos, para as mulheres, para todos os batizados corresponsáveis. E em Fratelli Tutti (n. 95-96), denuncia os fechamentos grupais e as falsas seguranças que nos impedem de construir fraternidade universal.

Do ponto de vista psicológico, podemos perceber aqui um ensinamento profundo. A tentação do perfeccionismo, da centralização e do controle absoluto nasce muitas vezes da insegurança e da incapacidade de confiar no outro. Projetamos nos outros nossas próprias sombras e acabamos excluindo-os em nome de uma pretensa eficiência. A escolha de Jesus desconstrói isso: ele confia em pessoas frágeis, forma um grupo heterogêneo, dá poder e envia. É um ato de confiança radical na ação do Espírito. Como diria Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermo 169). Ou seja, Deus nos chama a colaborar, mesmo sendo imperfeitos. Esse ensinamento tem também uma dimensão pedagógica: Jesus não escolhe pessoas prontas, mas acompanha, educa, corrige, forma ao longo do caminho. É um modelo de liderança servidora que confia no processo e não descarta quem falha.

Do ponto de vista sociológico, a escolha dos Doze tem um valor simbólico fundamental. O número doze remete às doze tribos de Israel, indicando que a comunidade de Jesus é o novo Israel, não substitutivo, mas plenitude da promessa. É um gesto de refundação da identidade do povo de Deus, agora aberto a todos os povos. O texto de Lucas mostra a multidão vinda não apenas da Judeia e de Jerusalém, mas também do litoral de Tiro e Sidônia, regiões estrangeiras. Já aí se insinua a dimensão universal da missão. O Reino não é propriedade de uma etnia ou de uma tradição religiosa fechada, mas dom de Deus para todos. Aqui também somos convidados a criticar toda forma de teologia do domínio que reduz o cristianismo a bandeira política de uma nação ou grupo ideológico. A Igreja não é partido nem milícia; é sacramento universal de salvação, sinal de unidade do gênero humano (Gaudium et Spes 42). Isso se torna ainda mais urgente quando assistimos à apropriação da fé por projetos de extrema-direita, que usam símbolos cristãos para legitimar exclusão, ódio e violência.

Quando Lucas afirma que “toda a multidão procurava tocar em Jesus, porque dele saía uma força que a todos curava” (Lc 6,19), encontramos um ponto de contato com a dimensão antropológica da fé. O ser humano busca cura, não apenas física, mas integral: deseja ser reconhecido, reintegrado, encontrar sentido e dignidade. O toque simboliza proximidade, confiança, vulnerabilidade. Em Marcos 5, vemos a hemorroíssa que toca o manto de Jesus e é curada. Em Mateus 14,36, muitos o tocavam e eram curados. O toque é linguagem de afeto e de fé. Em tempos de relações virtuais e de individualismos exacerbados, esse evangelho denuncia a falta de proximidade que corrói a vida comunitária e cria seres humanos isolados, presos em suas bolhas digitais. A cura de Jesus devolve pertença e identidade: quem estava excluído por doença, por possessão, por impureza, agora é reintegrado no povo de Deus.

A patrística percebeu essa dimensão com profundidade. Orígenes afirmava que a força que saía de Jesus era o próprio Logos, que curava não apenas corpos, mas também inteligências enfermas pela mentira e vontades adoecidas pelo pecado. São João Crisóstomo insistia que os apóstolos foram escolhidos não por seus méritos, mas para que ficasse claro que era Deus quem operava por meio deles. Essa leitura patrística reforça que a comunidade e a missão não são obras de homens geniais, mas da graça de Deus que age em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7). Santo Irineu, por sua vez, via nos Doze um ícone da recapitulação: como Israel foi formado pelas doze tribos, assim a Igreja nasce dos Doze apóstolos para recapitular a humanidade inteira em Cristo.

A filosofia nos ajuda a compreender o alcance da escolha comunitária. Emmanuel Levinas diria que a verdadeira transcendência se manifesta no rosto do outro, que me interpela e me retira do meu egocentrismo. Jesus, ao escolher os Doze, abre um horizonte ético: não posso salvar-me sozinho, mas somente com e pelos outros. A modernidade individualista, marcada pelo “cogito ergo sum” cartesiano, precisa ser convertida para o “sou porque somos”, que ressoa tanto na filosofia africana do ubuntu quanto na antropologia bíblica. Dietrich Bonhoeffer, mártir do nazismo, lembrava que “a Igreja só é Igreja quando existe para os outros”, e isso ecoa o gesto de Jesus que chama colaboradores e desce para servir as multidões.

A sociologia, por sua vez, alerta para os perigos de transformar a fé em mercadoria. As igrejas da prosperidade vendem bênçãos, prometem sucesso financeiro e fazem da religião uma empresa. Isso perverte o sentido do evangelho, que não é comércio, mas dom gratuito. Paulo já advertia contra tais falsificadores da palavra (2Cor 2,17). A crítica de Jesus aos vendedores do templo permanece atual: quando a fé se torna mercado, perde-se a gratuidade e a comunhão. A religião espetáculo, feita de palcos, holofotes e slogans motivacionais, cria “apóstolos-influencers” que substituem a cruz por câmeras e curtidas. Em contrapartida, o evangelho de hoje mostra um Jesus que desce da montanha não para brilhar, mas para tocar feridas e curar. Não é palco, mas encontro; não é performance, mas proximidade.

A teologia do domínio, que transforma o cristianismo em projeto de poder político, também é denunciada pelo evangelho de hoje. Jesus escolhe discípulos para anunciar, curar e libertar, não para conquistar territórios ou impor leis. “Entre vós não deve ser assim: quem quiser ser o maior, seja aquele que serve” (Mc 10,43). A Igreja trai sua identidade quando se alia a regimes autoritários, quando busca privilégios em vez de serviço. A instrumentalização política da fé produz ídolos que não salvam, falsos messias que prometem segurança e estabilidade, mas geram violência e exclusão.

O clericalismo, por sua vez, é uma das mais graves doenças espirituais de nosso tempo. Quando o clero se fecha em si mesmo, quando se vê como elite separada do povo, trai o gesto de Jesus que chama pelo nome e forma uma comunidade de irmãos. O Papa Francisco tem insistido: “O clericalismo anula a personalidade dos cristãos, apaga a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo e destrói a força da comunhão” (Carta ao Povo de Deus, 2018). O evangelho de hoje pede uma Igreja de irmãos, não de castas. Não há espaço para donos de comunidades, mas para servidores que caminham juntos.

Por fim, é importante lembrar que essa passagem de Lucas é proclamada em momentos litúrgicos significativos: nas memórias dos apóstolos, quando celebramos a origem apostólica da Igreja; em certas festas marianas, pois Maria é a mãe da Igreja apostólica; e nesta terça-feira da 23ª semana, quando somos convidados a redescobrir a dimensão comunitária da missão. A liturgia, que é sempre atualização do mistério, nos convida a viver hoje a mesma experiência: colocar-nos em oração antes das decisões, reconhecer que somos chamados pelo nome, e descer da montanha para encontrar a multidão de homens e mulheres que têm sede de cura, de sentido e de vida plena. Aqui ecoa a missão narrada em Atos 1,8: “Recebereis a força do Espírito Santo… e sereis minhas testemunhas até os confins da terra”. A força que saía de Jesus continua saindo pela Igreja quando ela é fiel à oração, à comunhão e ao serviço.

Diante disso, somos chamados a ser testemunhas proféticas. Num mundo marcado pela política de resultados, pela idolatria do sucesso e pela mercantilização da fé, a Igreja deve ser sinal de gratuidade, comunhão e serviço. Num tempo de fragmentação e individualismo, deve ser escola de fraternidade. Num contexto de clericalismo e autoritarismo, deve ser espaço de participação e corresponsabilidade. Como lembrava São Romero da América, “a Igreja não pode ser neutra diante da injustiça: ou está ao lado dos pobres, ou está ao lado dos opressores”. A profecia consiste exatamente em denunciar as falsas seguranças e anunciar o Reino que não se impõe pela força, mas se oferece como dom.

Jesus não quis realizar sozinho a obra do Reino, mas chamou e continua chamando colaboradores. Não há discípulos sem comunidade, nem missão sem partilha. O evangelho de hoje é, portanto, um convite a deixarmos de ser adoradores de nós mesmos para nos tornarmos servidores de um Reino que é sempre maior do que nós. Somos convocados a ser Igreja que ora antes de decidir, que chama pelo nome, que confia nos pequenos, que desce para servir, que toca e deixa-se tocar, que cura e reintegra, que denuncia idolatrias e anuncia esperança. Só assim poderemos dizer, com os primeiros cristãos, que “o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,3).



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,15-19

 

«Simão, filho de João, tu amas-Me?» (Jo 21,15)

No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,15-19 proclamado  na sexta-feira  da 7ª semana da Páscoa, sendo uma das leituras que  ocupa lugar privilegiado dentro do Tempo Pascal, sobretudo no Terceiro Domingo da Páscoa do Ano C, quando a liturgia proclama o texto  dentro  do Evangelho de João  21,1-19 e conduz a assembleia ao encontro do Ressuscitado às margens do mar da Galileia, unindo a pesca milagrosa, a refeição junto ao fogo e a restauração de Pedro. A perícope retorna  no horizonte da expectativa de Pentecostes, quando a Igreja contempla a missão apostólica iluminada pela vitória do Ressuscitado. Em celebrações ligadas ao ministério petrino, ordenações episcopais e reflexões pastorais sobre o serviço eclesial, este texto reaparece como fundamento espiritual e eclesiológico. Nas tradições orientais, especialmente bizantina, siríaca e ortodoxa, a narrativa é recebida no horizonte pascal da restauração apostólica e da vitória da vida sobre a morte; entre anglicanos, luteranos e outras Igrejas históricas, permanece associada ao discipulado reconciliado e à missão. Esta recepção ampla mostra algo teologicamente importante: a Igreja nunca leu João 21 apenas como memória privada de Pedro, mas como espelho de sua própria história, uma comunidade constantemente chamada ao recomeço..A cena não pode ser compreendida isoladamente. O diálogo às margens do mar de Tiberíades é o desfecho de um longo caminho iniciado ainda nas primeiras páginas do discipulado. O mesmo Pedro que agora escuta “Tu me amas?” é aquele chamado junto ao lago em Mt 4,18-20; Mc 1,16-18 e Lc 5,1-11, quando deixa redes, barcos e seguranças para seguir Jesus. É o discípulo que ousa caminhar sobre as águas em Mt 14,28-31 e afunda quando o medo supera a confiança; é aquele que professa a fé em Cesareia de Filipe: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16), mas que logo depois tenta afastar Jesus do caminho da cruz e escuta a repreensão: “Afasta-te de mim, Satanás” (Mt 16,23). A Escritura constrói Pedro como figura profundamente humana. Nele convivem coragem e fragilidade, generosidade e medo, fé e incompreensão. A antropologia bíblica não idealiza seus personagens. Jacó sai mancando após lutar com Deus (Gn 32,31); Moisés hesita diante do chamado (Ex 4,10); Elias foge para o deserto desejando a morte (1Rs 19,4); Jeremias resiste dizendo “sou apenas uma criança” (Jr 1,6); Jonas foge da missão; Paulo fala do espinho na carne (2Cor 12,7-10). O Deus bíblico não chama perfeitos; chama pessoas reais.

João situa esta cena depois do colapso da paixão. A comunidade apostólica havia experimentado a dispersão anunciada por Jesus em Mt 26,31, retomando Zc 13,7: “Ferirei o pastor e as ovelhas serão dispersas”. O trauma da cruz não significou apenas a morte do Mestre, mas o desmoronamento das expectativas messiânicas. A confissão dos discípulos de Emaús em Lc 24,21 expressa esta ruptura: “Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel”. A esperança parecia vencida. Pedro retorna à pesca, e este retorno possui enorme densidade antropológica. Diante do sofrimento, o ser humano frequentemente procura refúgio nos lugares conhecidos. O pescador volta ao lago. O discípulo volta ao passado. A psicologia da experiência humana reconhece esse movimento como tentativa de reorganização depois do trauma. O mar da Galileia, também chamado lago de Genesaré (Lc 5,1) e mar de Tiberíades (Jo 6,1), não é apenas cenário. Constitui importante eixo econômico da Palestina do século I. A pesca estava integrada ao sistema tributário romano e herodiano; pescadores trabalhavam sob taxações e dependências econômicas. Jesus inicia sua missão justamente entre trabalhadores, pescadores e camponeses, distantes do centro sacerdotal de Jerusalém. Já aqui aparece a inversão do Reino anunciada por Maria: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1,52); “encheu de bens os famintos” (Lc 1,53). Não é irrelevante que o Ressuscitado volte precisamente à Galileia. Jerusalém era o centro religioso; Roma era o centro imperial; a Galileia era periferia. Deus retorna à periferia.

A noite da pesca fracassada em Jo 21,3 possui forte simbolismo joanino. Em João, a noite frequentemente expressa crise e incompreensão. Nicodemos procura Jesus de noite (Jo 3,2); Judas sai para entregá-lo e “era noite” (Jo 13,30). Os discípulos trabalham e nada encontram. O fracasso torna-se imagem espiritual. O esforço humano isolado revela seus limites. O Salmo 127 parece ecoar silenciosamente: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores”. Quando o Ressuscitado aparece, não é imediatamente reconhecido. O mesmo ocorre com Maria Madalena em Jo 20,14 e com os discípulos de Emaús em Lc 24,16. O reconhecimento pascal exige caminho interior. A pesca abundante remete explicitamente a Lc 5,1-11. Em Lucas ela inaugura a missão; em João a renova. A rede permanece íntegra apesar da abundância dos peixes, imagem que a tradição patrística interpretou como símbolo da universalidade e unidade da Igreja. A cena dialoga ainda com Mt 13,47, onde o Reino é comparado a uma rede lançada ao mar que recolhe peixes de toda espécie. A comunidade cristã nasce para acolher diversidade sem perder comunhão. Esta imagem possui enorme atualidade em tempos marcados por polarizações sociais, religiosas e políticas.

Quando chegam à margem, os discípulos encontram pão, peixe e uma fogueira acesa. João utiliza novamente o termo anthrakia, o mesmo usado em Jo 18,18 quando Pedro se aquece junto ao fogo durante a negação. O lugar da queda torna-se o lugar da cura. Deus não destrói o passado humano; transforma-o. José já havia intuído isso ao dizer aos irmãos: “Vós pensastes o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem” (Gn 50,20). A espiritualidade bíblica não consiste em apagar cicatrizes, mas em redimi-las. A memória ferida encontra novo sentido. Depois da refeição vem a pergunta: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,15). O Ressuscitado não começa pela culpa, nem pela missão, nem pelo ministério. Começa pelo amor. O detalhe de chamá-lo “Simão” é significativo. Antes do apóstolo existe o homem. Antes da função existe a pessoa. A antropologia bíblica insiste nisso desde Gn 1,27, quando o humano é apresentado como imagem de Deus. Jesus continuamente recoloca a pessoa acima das estruturas: “O sábado foi feito para o homem” (Mc 2,27). Em João 21, a restauração de Pedro não ocorre pela competência institucional, mas pela reconstrução da relação.

A tríplice pergunta corresponde às três negações narradas em Jo 18,17.25-27. Entretanto, não há tribunal. Não há condenação. O Ressuscitado não pergunta “por que me negaste?”, mas “tu me amas?”. O amor torna-se maior que a queda. Pedro já não é o discípulo que dizia “ainda que todos te abandonem, eu jamais te abandonarei” (Mt 26,33). A autossuficiência foi quebrada. Agora resta a humildade: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. O fracasso destruiu a arrogância, mas não destruiu o amor. Cada resposta de Pedro gera uma missão: “Apascenta meus cordeiros”, “apascenta minhas ovelhas”. O pano de fundo veterotestamentário é decisivo. Ezequiel 34 denuncia os pastores que exploravam o povo: “Não fortalecestes as fracas, não curastes as doentes, não procurastes as desgarradas” (Ez 34,4). Jeremias lamenta os líderes que dispersam o rebanho (Jr 23,1-4). Zacarias denuncia os pastores infiéis (Zc 11,17). O pastoreio bíblico possui dimensão ética, social e política. Jesus retoma essa tradição ao declarar: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11). Em João 21, Pedro participa desse cuidado, mas sob nova lógica: não recebe poder, recebe responsabilidade; não recebe privilégios, recebe pessoas.

Aqui emerge uma reflexão necessária sobre o ministério episcopal. Se João 21 está na raiz do pastoreio e da sucessão apostólica, então toda compreensão do episcopado deve nascer desta praia da Galileia e não dos palácios do poder. O bispo, segundo a eclesiologia católica e o Direito Canônico, não é proprietário da Igreja, nem administrador empresarial da fé, nem CEO religioso. O Código de Direito Canônico recorda que os bispos, pela instituição divina, sucedem os apóstolos como pastores da Igreja (cf. cân. 375 §1), recebendo missão de ensinar, santificar e governar (cf. cân. 381 §1). Entretanto, o mesmo direito exige que o bispo seja exemplo “na caridade, humildade e simplicidade de vida” (cân. 387) e recorda sua responsabilidade particular pelos pobres, sofredores e excluídos (cân. 383). O Direito Canônico, portanto, não legitima uma teologia do privilégio; sustenta uma teologia do serviço.

Entretanto, a história mostra que o episcopado nem sempre permaneceu fiel a este horizonte evangélico. Em diversos períodos, absorveu lógicas cortesãs, aristocráticas e burocráticas. O pastor tornou-se administrador de estruturas; o irmão tornou-se autoridade distante; o servidor transformou-se em figura cercada por protocolos, precedências e honrarias. Surge então aquilo que o Papa Papa Francisco chamou repetidamente de mundanismo espiritual. O moralismo episcopal torna-se particularmente perigoso quando fala mais de normas que de misericórdia, mais de disciplina que de compaixão, mais de comportamento privado que de injustiça estrutural. Jesus advertia contra isso em Mt 23,4: “Amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros”. João 21 desmonta esta lógica. O primeiro pastor da Igreja não recebe a missão num trono, mas diante de uma fogueira; não vestido de honra, mas carregando a memória da própria queda; não depois da perfeição, mas depois do arrependimento. Toda forma de episcopado excessivamente preocupada com pose, títulos, precedências, distinções e autopreservação institucional corre o risco de trair a praia da Galileia. A sucessão apostólica não é sucessão de privilégios; é sucessão de serviço. O báculo não é cetro de poder; é sinal do pastor que caminha. A cátedra não é pedestal de superioridade; é lugar de ensino e escuta. A mitra não é coroa. O anel não é insígnia aristocrática. Tudo perde sentido quando o pastor se distancia do povo. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 27, afirma que os bispos exercem autoridade para edificação e não para dominação. Christus Dominus insiste na proximidade pastoral. O Documento de Aparecida convoca pastores próximos das periferias e das dores humanas.

A crítica profética torna-se ainda mais necessária quando setores do episcopado concentram energia em vigiar costumes individuais enquanto permanecem tímidos diante da fome, da desigualdade, do racismo, da violência, da devastação ambiental e das instrumentalizações políticas da religião. Os profetas bíblicos nunca fizeram isso. Amós denunciou quem vendia o pobre por um par de sandálias (Am 2,6). Isaías condenou jejuns vazios desconectados da justiça (Is 58,6-7). Miqueias resumiu a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus” (Mq 6,8). Jesus iniciou seu ministério proclamando libertação aos pobres e oprimidos (Lc 4,18). O bispo que fala muito de moral privada e pouco das cruzes sociais corre o risco de tornar-se guardião da ordem e esquecer o Reino..O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. Gaudium et Spes abre-se afirmando que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. Medellín denunciará estruturas injustas na América Latina; Puebla aprofundará a opção preferencial pelos pobres; Santo Domingo falará da evangelização inculturada; Aparecida convocará uma Igreja em saída missionária. Toda esta tradição encontra eco em João 21: apascentar significa cuidar da vida concreta.

Nosso tempo exige escutar esta passagem de forma profética. A religião continua sendo instrumentalizada por projetos de poder; discursos autoritários vestem linguagem religiosa; a teologia da prosperidade transforma o Evangelho em mercado; a teologia do domínio converte discipulado em conquista cultural e política. Entretanto, Jesus rejeita o messianismo triunfalista em Jo 6,15, recusa o poder nas tentações do deserto (Mt 4,8-10) e afirma diante de Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36). O Evangelho não legitima exclusão. Isaías denuncia jejuns vazios (Is 58,6-7); Amós exige que a justiça corra como rio (Am 5,24); Miqueias resume a vontade divina em justiça e misericórdia (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nesta tradição quando proclama em Lc 4,18: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”. Em Mt 25,31-46 identifica-se com famintos, migrantes, enfermos e presos. Em Lc 6,20 proclama bem-aventurados os pobres. Em 1Jo 4,20 declara-se impossível amar a Deus desprezando o irmão. Tiago pergunta: “Que proveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2,14-17).

Assim, a pergunta “Tu me amas?” ultrapassa a esfera devocional e torna-se discernimento histórico e humana. Amar Cristo implica amar aqueles que Ele amou. O amor possui consequência social. Não existe seguimento desencarnado. O Verbo se fez carne (Jo 1,14), e a carne humana tornou-se lugar teológico. A teologia nos ensina que Deus se revela na história, e a antropologia cristã nos mostra que o humano é lugar teológico. Logo, todo projeto que despreza a dignidade humana e reduz o outro a inimigo contradiz frontalmente a revelação de um Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8). O amor a Cristo se mede pelo amor aos seus — especialmente aos que foram marginalizados, silenciados ou esquecidos. Por isso, a missão da Igreja não pode ser cúmplice de regimes violentos nem de discursos que demonizam os pobres, os migrantes, as mulheres, os indígenas, os LGBTQIA+ ou os trabalhadores. A fidelidade cristã não está garantida pela doutrina, mas pelo seguimento. Não basta confessar com os lábios; é preciso viver como Ele viveu. Como escreveu Bento XVI:No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa” (Deus Caritas Est, 1). E essa Pessoa nos pergunta, todos os dias: «Tu me amas?» O amor é, pois, critério de autenticidade e de discernimento. Fora do amor, tudo é ruído.

Hoje, renovamos nossa resposta: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo.” Mas sabemos também que esse amor nos compromete. Como Igreja sinodal, missionária e profética, não podemos amar Jesus sem amar o mundo que Ele amou até o fim (cf. Jo 13,1). O amor vivido e confessado exige de nós coragem para denunciar injustiças, para servir sem honrarias, para dar a vida com generosidade.Sigamos, como Pedro, não por causa da força de nossas promessas, mas sustentados pela fidelidade de um Deus que nos ama até quando O negamos. O Ressuscitado caminha conosco, refaz as pontes quebradas, acende fogueiras na praia e nos convida novamente: “Segue-Me” (Jo 21,19). A pergunta d’Ele não cessa. E a resposta, que damos com a vida, faz da nossa fragilidade lugar de graça, da nossa pobreza, lugar de envio, e do nosso amor, ainda vacilante, a pedra sobre a qual Ele segue construindo a sua Igreja.

O texto termina com uma palavra simples: “Segue-me” (Jo 21,19). É a mesma palavra do início do discipulado, mas agora atravessada pela cruz e pela ressurreição. Pedro compreende que seguir não é triunfar, mas servir; não é dominar, mas cuidar; não é ocupar tronos, mas repartir o pão.

À beira do lago nasce novamente a Igreja. Não uma Igreja triunfalista, mas reconciliada. Não uma Igreja de castas, mas de irmãos. Não uma Igreja capturada pelo poder, mas sustentada pela memória daquele que continua acendendo fogueiras nas praias da história.

 À beira do lago, o Ressuscitado não devolve a Pedro o passado; devolve-lhe o futuro. Aquele que negara diante da fogueira agora é enviado diante de outra fogueira. O amor torna-se missão, e a fragilidade transforma-se em serviço. A Igreja nasce novamente não do triunfo, mas da reconciliação. E continua ouvindo, nas praias da história, a pergunta que sustenta o discípulo continua atravessando os séculos, os templos, as crises humanas, os pastores, os bispos, as comunidades e cada discípulo: “Tu me amas?”

A resposta não é apenas verbal.

É uma vida transformada em cuidado.

Porque somente quem ama pode apascentar

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, À sombra da Palavra, à escuta do Espírito, a caminho com o Povo.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Um breve olha sobre João 17, 20-26

 

A perícope de João 17,20-26 ocupa um lugar profundamente significativo no itinerário litúrgico da Igreja, especialmente no Tempo Pascal, quando a comunidade cristã caminha entre a celebração da Ascensão do Senhor e a expectativa de Pentecostes, vivendo a tensão espiritual entre a ausência visível do Ressuscitado e a promessa da presença permanente do Espírito Santo (At 1,8; Jo 14,16-18) na quinta-feira  da sétima semana da Páscoa rito romano, este texto é proclamado durante a sétima semana da Páscoa, inserindo-se no movimento que conduz a Igreja da contemplação do Cristo glorificado para a missão no mundo. Em alguns ciclos litúrgicos, variantes desta oração aparecem associadas às celebrações ligadas à unidade dos cristãos e à missão eclesial. Nas tradições orientais, particularmente nas Igrejas bizantinas, esta passagem é contemplada como expressão do Cristo exaltado que continua intercedendo pelo povo diante do Pai (Hb 7,25; Rm 8,34). As Igrejas históricas oriundas da Reforma igualmente preservam esta leitura no ciclo pascal, reconhecendo nela um dos mais elevados testemunhos sobre a comunhão desejada por Cristo. Não se trata apenas da conclusão do ministério público de Jesus, mas do seu testamento espiritual às portas da paixão sendo  uma  continuação  direta  da leitura  da quarta-feira da sétima semana 

A oração de Jesus em João 17, 20-26 é uma reflexão ampliada e profética que ressoa com força em nosso tempo, clamando por comunhão em meio à crescente fragmentação. Antes mesmo da criação do mundo, antes de respirarmos nosso primeiro ar, Jesus já intercedia por nós. Sua oração não é um murmúrio distante, mas uma convocação poderosa que atravessa os séculos: “Que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti” (João 17,21). Esse é o mistério central da vida cristã,   a união profunda e inseparável do Pai e do Filho, um convite aberto para que participemos desse amor eterno.

Ao meditarmos esse chamado, recordamos o prólogo do Evangelho de João, que revela a origem e a eternidade dessa comunhão: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1,1). O Verbo, que é Jesus, não habita apenas a unidade trinitária, mas é a expressão viva e criadora desse amor. Assim, a oração de Jesus ecoa o “princípio” divino que sustenta toda a criação (João 1,3), convidando-nos a uma comunhão radical, que ultrapassa o tempo e as circunstâncias humanas. Esta leitura não surge isoladamente. Ela é continuidade orgânica do caminho iniciado nos dias anteriores. O itinerário joanino conduziu a comunidade desde o lava-pés (Jo 13,1-15), passando pelo mandamento novo do amor (Jo 13,34-35), pela promessa do Paráclito (Jo 14,16.26), pela imagem da videira e dos ramos (Jo 15,1-8), pela advertência sobre as perseguições (Jo 15,18-21) e pela promessa de que a tristeza seria transformada em alegria (Jo 16,20-22). Agora chegamos ao ápice. O Cristo deixa de falar diretamente aos discípulos e eleva os olhos ao Pai (Jo 17,1). Aquele que lavou os pés torna-se o sacerdote que oferece não animais nem vítimas externas, mas a própria vida (Hb 9,11-14). A oração sacerdotal emerge como síntese do Evangelho e antecipação da cruz.

Os Evangelhos Sinóticos apresentam este mesmo momento sob outra perspectiva. Mateus, Marcos e Lucas conduzem-nos ao Getsêmani (Mt 26,36-46; Mc 14,32-42; Lc 22,39-46), onde Jesus experimenta a angústia da hora, a solidão e a entrega total à vontade do Pai. João não descreve diretamente esta cena; em seu lugar, oferece-nos a oração sacerdotal. As tradições não se opõem, mas se completam. Nos Sinóticos contemplamos o Cristo que assume o peso da condição humana e enfrenta a proximidade da paixão; em João contemplamos o Cristo que interpreta teologicamente sua missão e transforma a iminência da cruz em revelação da glória e do amor.

O cenário histórico e social desta oração não pode ser ignorado. Jerusalém do século I encontrava-se sob o domínio do Império Romano (Lc 2,1-2). A Palestina vivia marcada por desigualdades, tributos pesados e tensões religiosas (Mt 22,15-22). O Templo era simultaneamente centro espiritual, econômico e político (Mc 11,15-18). Fariseus, saduceus, essênios e zelotas apresentavam respostas distintas diante da ocupação romana e da esperança messiânica. O povo carregava o peso da pobreza, das exclusões e das expectativas de libertação (Lc 4,18-19). Nesse ambiente marcado por fragmentações, Jesus não organiza resistência armada (Mt 26,52), não constrói projetos de hegemonia (Jo 6,15) nem instrumentaliza o sagrado para fins políticos. Seu gesto derradeiro é rezar. Este detalhe possui enorme densidade teológica. Enquanto Roma impunha unidade pela espada, Cristo propõe unidade pela comunhão. Enquanto o império estruturava relações hierárquicas rígidas, Jesus reunia pescadores (Mc 1,16-20), mulheres (Lc 8,1-3), pobres (Lc 6,20), estrangeiros (Mt 8,5-13), publicanos (Lc 5,29-32) e marginalizados (Mc 1,40-45). Enquanto sistemas religiosos erguiam muros entre puro e impuro (Mc 7,1-23), ele atravessava fronteiras, dialogava com samaritanos (Jo 4,4-42), acolhia pecadores (Lc 19,1-10) e devolvia dignidade aos esquecidos. A oração sacerdotal nasce exatamente como resposta divina a um mundo fragmentado.

Quando Jesus afirma: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra” (Jo 17,20), o horizonte da oração rompe os limites do cenáculo. Pela primeira vez, o Evangelho inclui explicitamente todas as gerações futuras dentro da intercessão do Cristo. A oração atravessa os mártires (Ap 6,9-11), alcança as comunidades perseguidas (1Pd 4,12-16), acompanha a missão apostólica (Mt 28,19-20), chega às periferias humanas e existenciais, abraça os pobres, os migrantes, os esquecidos e os que ainda nascerão. Nós estamos dentro desta oração. Esta universalização remete imediatamente ao prólogo joanino: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). O Verbo pelo qual tudo foi criado (Jo 1,3; Cl 1,15-17) é o mesmo que agora intercede pela humanidade. O Cristo histórico revela-se Cristo cósmico. O princípio encontra sua plenitude. O Deus que cria por amor deseja restaurar a criação pela comunhão (Ef 1,9-10).

Chegamos então ao centro da oração: “Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21). Esta unidade não significa uniformidade institucional nem simples convivência social. O “como” joanino possui profundidade ontológica e relacional. Jesus não pede apenas coexistência; pede participação na própria comunhão trinitária. Aqui encontramos uma das maiores intuições da tradição cristã. Deus não aparece como solidão absoluta, mas como comunhão eterna. O Pai vive em relação ao Filho, o Filho permanece no Pai (Jo 14,10-11) e o Espírito torna presente esta comunhão (Jo 15,26). O universo nasce do encontro e não do isolamento.

A antropologia bíblica já anunciava esta verdade desde o Gênesis: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Este versículo ultrapassa a dimensão matrimonial e revela uma estrutura existencial profunda. O ser humano é criado para a alteridade. Ele realiza sua identidade na relação. O pecado rompe esta vocação. Caim destrói a fraternidade (Gn 4,8-10). Babel simboliza fragmentação e orgulho (Gn 11,1-9). Pentecostes restaura a comunhão entre os povos (At 2,1-11). Pentecostes aparece como resposta e reversão simbólica de Babel. Se em Babel a pretensão humana produz dispersão e ruptura, em Pentecostes o Espírito reúne os povos sem eliminar suas diferenças. Línguas, culturas e histórias permanecem distintas, mas tornam-se capazes de comunhão. A unidade desejada por Cristo não destrói identidades; ela reconcilia diferenças no amor. Assim, João 17 encontra em Atos 2 um dos seus primeiros cumprimentos históricos e eclesiais.

O pecado divide; o Espírito reúne. A sociologia contemporânea confirma esta crise justamente pela ausência. Nunca existiram tantas formas de conexão e, ao mesmo tempo, tanto isolamento. O individualismo moderno enfraqueceu vínculos comunitários. A lógica neoliberal frequentemente transforma pessoas em recursos e relações em utilidades. O outro torna-se concorrente. A experiência comunitária enfraquece e surgem solidão, ansiedade, perda de sentido e fragmentação social.

Durkheim já percebia que o rompimento dos laços sociais produzia anomia. A psicologia contemporânea mostra que a ausência de pertencimento afeta identidade, esperança e saúde emocional. João 17 aparece então como resposta profundamente humana. Na filosofia contemporânea, este drama existencial encontra eco na crítica de Martin Heidegger ao esquecimento do ser, que reduz o humano a mero recurso e objeto funcional. O Evangelho segue caminho oposto. A pessoa humana reencontra sua verdade na relação, porque foi criada à imagem do Deus-comunhão (Gn 1,26-27). Em Cristo, a identidade humana realiza-se não no isolamento, mas na alteridade e no encontro (Rm 12,4-5). João 17 ultrapassa, assim, o horizonte estritamente religioso e apresenta uma resposta antropológica, espiritual e existencial à crise contemporânea.

Jesus ora contra a solidão, contra a fragmentação e contra uma humanidade ferida. Entretanto, esta unidade não elimina as diferenças. Paulo oferece uma chave decisiva ao falar do corpo e dos muitos membros (1Cor 12,12-27). A diversidade não é ameaça; é dom. O Espírito distribui carismas distintos (1Cor 12,4-11). O corpo possui muitos membros e todos são necessários (Rm 12,4-8). O Apocalipse contempla povos, línguas e nações reunidos diante do Cordeiro (Ap 7,9). A comunhão cristã não destrói alteridades; ela as reconcilia.

Por isso, toda tentativa de construir unidade pela imposição contradiz o Evangelho. O autoritarismo produz uniformidade; Cristo produz comunhão. A uniformidade silencia; a comunhão escuta. A uniformidade elimina diferenças; a comunhão as acolhe e as transforma em riqueza. Esta reflexão torna-se inevitavelmente profética diante da realidade contemporânea. Vivemos tempos marcados por polarizações, instrumentalizações da fé e manipulações religiosas. Em muitos contextos, o Evangelho é transformado em instrumento ideológico, a religião converte-se em mecanismo de poder e o Cristo crucificado é reduzido a símbolo de projetos de dominação.

Os profetas já denunciavam esta deformação. Isaías criticava o culto vazio (Is 29,13; Is 58,1-8). Amós condenava liturgias separadas da justiça (Am 5,21-24). Jeremias denunciava a falsa segurança religiosa (Jr 7,1-11). Miqueias recordava que Deus pede justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,8). Jesus assume esta tradição. Ele denuncia a religião que oprime (Mt 23,1-36), critica o peso imposto pelos líderes (Mt 23,4), expulsa os vendilhões do Templo (Mt 21,12-13) e confronta a hipocrisia religiosa (Lc 11,37-54). A oração sacerdotal denuncia toda espiritualidade incapaz de ouvir o sofrimento humano.

Neste horizonte, torna-se necessária uma crítica às expressões religiosas marcadas pela teologia da prosperidade, pela teologia do domínio e pelas instrumentalizações da fé. Quando o Reino é reduzido à lógica do mercado, desaparecem os pobres do centro do Evangelho. Mas Cristo continua identificando-se com famintos, estrangeiros e excluídos (Mt 25,31-46). Maria já anunciava esta inversão no Magnificat: “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). Jesus proclama felizes os pobres (Lc 6,20). O juízo final passa pelos pequenos (Mt 25,40). Tiago denuncia a opressão dos trabalhadores (Tg 5,1-6). O CELAM, em Medellín e Puebla, retomou esta tradição profética ao denunciar estruturas injustas e reafirmar a opção preferencial pelos pobres. Aparecida insistiu numa Igreja missionária e próxima das periferias. A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e sofrimentos dos pobres são também os da Igreja. O Documento de Aparecida aprofunda esta perspectiva ao recordar que os rostos concretos dos pobres, migrantes, povos originários, desempregados, pessoas em situação de rua, dependentes químicos e tantas periferias humanas interpelam diretamente a missão da Igreja (DAp 391-398). Evangelizar não é afastar-se das dores do mundo, mas aproximar-se delas à maneira do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). A comunhão desejada por Cristo torna-se concreta quando a Igreja assume a defesa da dignidade humana, da justiça social e da vida ameaçada.

Jesus prossegue: “Eu lhes dei a glória que me deste” (Jo 17,22). Na Escritura, glória não significa prestígio, mas presença divina. O kabod enche o tabernáculo (Ex 40,34), envolve o Sinai (Ex 24,16) e manifesta-se no Templo (1Rs 8,10-11). João, porém, desloca esta compreensão para a cruz. “O Filho do Homem foi glorificado” (Jo 13,31). O lugar da glória torna-se o Calvário. A cruz converte-se em trono. O amor revela-se mais forte que a violência. A entrega vence a lógica do domínio.

Esta visão desmonta toda teologia do poder. O Reino não cresce pela imposição, mas pelo serviço. “Quem quiser ser o primeiro seja servo” (Mc 10,44). O lava-pés torna-se chave hermenêutica da autoridade (Jo 13,12-15). Por isso o clericalismo representa grave deformação eclesial. Jesus advertiu: “O maior entre vós seja aquele que serve” (Mt 23,11). Pedro exorta os presbíteros a não dominarem o rebanho (1Pd 5,2-3). O Concílio Vaticano II recuperou em Lumen Gentium a imagem da Igreja como Povo de Deus. O batismo antecede funções. A comunhão precede estruturas. O ministério existe para servir.

A oração avança: “Eu neles e tu em mim” (Jo 17,23). Entramos aqui no horizonte místico da participação divina. Pedro fala da participação na natureza divina (2Pd 1,4). Paulo afirma: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20). A comunidade torna-se templo do Espírito (1Cor 3,16). Jesus promete: “Faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). A tradição oriental chamou este movimento de theosis. Não significa perder a humanidade, mas realizá-la plenamente. Irineu afirmava que a glória de Deus é o ser humano vivo.

Esta perspectiva possui enorme força ética. Se toda pessoa carrega dignidade, então exclusão, racismo, xenofobia, desigualdade e violência tornam-se escândalos espirituais. A oração sacerdotal converte-se em denúncia histórica contra estruturas que descartam vidas e silenciam marginalizados. Jesus conclui: “Pai, quero que onde eu estou estejam também comigo aqueles que me deste” (Jo 17,24). Surge aqui a dimensão escatológica. O Reino ainda não alcançou plenitude. Caminhamos entre promessa e esperança. O Apocalipse contempla a nova Jerusalém onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,1-5). Isaías anuncia novos céus e nova terra (Is 65,17). Paulo fala da criação que geme esperando redenção (Rm 8,18-23).

A esperança cristã não é fuga do mundo. É compromisso com a história. Quem espera o Reino trabalha pela justiça. Quem espera a paz constrói reconciliação. Quem espera a comunhão combate exclusões. A oração sacerdotal continua aberta na história. Ela ainda denuncia clericalismos, confronta instrumentalizações da fé e chama a Igreja à conversão. Num mundo marcado por desigualdade, violência e crise de sentido, João 17 continua sendo palavra profética e Boa Nova. Que a Igreja volte ao Evangelho dos pobres (Lc 4,18), escute o clamor dos oprimidos (Ex 3,7), torne-se casa de comunhão (Ef 2,19-22) e sinal do Reino (Mt 5,13-16). E que o amor trinitário revelado no Verbo eterno (Jo 1,1-18) conduza toda criação à plenitude em Cristo (Ef 1,10; Ap 22,1-5).

Na filosofia, esse drama existencial encontra eco na crítica à cultura do esquecimento do ser, que reduz o humano a mero recurso (cf. Heidegger). O Evangelho, ao contrário, nos chama a reencontrar o ser na comunhão, a realizar nossa identidade na relação com o outro, à imagem da comunhão trinitária (cf. Romanos 12,4-5). Teologicamente, a oração de Jesus em João 17 é o coração da sua missão: conduzir-nos à vida plena, que consiste em permanecer no amor recíproco entre o Pai e o Filho (cf. João 15,9-12). Essa vida não é um ideal abstrato, mas uma exigência concreta para a missão da Igreja, como nos lembrou o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 99), ressaltando que a Igreja “não pode estar fechada, dividida ou vivendo isolada”. Porém, diante desse chamado, denunciamos o vazio de fé que habita muitas práticas religiosas, onde os ritos perdem significado e a vivência do Evangelho se esvazia em discursos ideológicos desconectados do amor de Deus (cf. Isaías 29,13). O clericalismo, que o Papa Francisco combateu com vigor, essa chaga que paralisa a vida da Igreja, transformando-a em uma estrutura autoritária e excludente, em vez de uma casa de comunhão e serviço (cf. Mateus 23,1-12). A verdadeira autoridade cristã nasce do serviço humilde e da entrega, e não do poder ou da rigidez (cf. Marcos 10,42-45).

Assim, a oração de Jesus ilumina e denuncia o fechamento e a fragmentação que sufocam a Igreja e o mundo. Ela é um chamado urgente a resistir à cultura do medo, da exclusão e da intolerância, para construir uma comunhão que acolha a diversidade, fortaleça a escuta e viva a caridade, formando o corpo de Cristo em unidade (cf. 1 Coríntios 13). Que essa oração nos mova a sermos irmãos e irmãs que buscam o Reino da justiça, da paz e do amor (cf. Mateus 5,9), denunciando os poderes que se levantam contra a unidade e a vida plena, acolhendo a voz dos marginalizados e rompendo com o clericalismo que os silencia (cf. Mateus 25,40). Que a Igreja se torne, enfim, verdadeira casa de comunhão, testemunho vivo do amor trinitário para um mundo fragmentado e sedento de esperança.

O texto termina afirmando: “Para que o amor com que me amaste esteja neles” (Jo 17,26). Tudo converge para o amor. Ele é o centro da Lei (Mt 22,37-40), o cumprimento dos mandamentos (Rm 13,10), o vínculo da perfeição (Cl 3,14) e a realidade maior que permanece (1Cor 13,13).

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado, semeador da unidade num mundo fragmentado.