Mostrando postagens com marcador #SegueMe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #SegueMe. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 1,14-20

Na segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum, logo após o Batismo do Senhor nos  e no 3º domingo do Tempo Comum no ciclo dominical B, a Igreja proclama Marcos 1,14-20, um texto que ocupa um lugar estrutural na liturgia, na teologia e na espiritualidade cristã. Ele funciona como verdadeiro portal de entrada para todo o Evangelho segundo Marcos e, de modo mais amplo, para a compreensão do discipulado cristão. Trata-se da abertura do ministério público de Jesus diante da assembleia litúrgica, como anúncio inaugural que concentra o núcleo do Evangelho: o tempo se cumpriu, o Reino se fez próximo, e a resposta exigida é conversão e adesão.

A insistência litúrgica nesse texto revela uma pedagogia espiritual profunda: antes de qualquer prática religiosa, exigência moral ou estrutura institucional, a fé cristã nasce de um acontecimento que desloca a história e interpela a existência concreta. O Tempo Comum, longe de ser um tempo menor ou residual no calendário litúrgico, é o espaço privilegiado onde o Evangelho se encarna na rotina da vida, no trabalho cotidiano, nas relações sociais e nas escolhas que moldam a existência. É nesse chão aparentemente ordinário que o chamado de Jesus ressoa com força decisiva: “Vinde após mim”.

Marcos inicia o relato com uma afirmação carregada de densidade histórica, política e teológica: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, proclamando o Evangelho de Deus”. A prisão de João Batista não é um simples marco cronológico, mas uma chave hermenêutica de leitura de todo o ministério de Jesus. João está inserido na longa tradição profética de Israel, na linhagem de Elias, Amós, Isaías, Jeremias e tantos outros que foram perseguidos por denunciarem alianças espúrias entre poder, religião e injustiça. Amós é expulso do santuário por confrontar o rei (Am 7,10-17); Jeremias é silenciado por anunciar a queda do templo (Jr 26); Elias foge do poder homicida de Jezabel (1Rs 19). João é preso porque ousa dizer que o poder não pode tudo, que a Lei de Deus está acima dos interesses do trono. Historicamente, Herodes Antipas o prende por denunciar uma relação ilegítima; teologicamente, ele é preso porque a profecia sempre ameaça estruturas que se absolutizam.

É exatamente após esse silenciamento da voz profética que Jesus entra em cena. O Evangelho nasce no conflito, não na neutralidade. Isso desmonta qualquer tentativa de reduzir a fé a uma experiência intimista, espiritualizada ou despolitizada. A Boa-Nova não surge em um mundo pacificado, mas em uma realidade marcada por violência institucional, desigualdade social e manipulação religiosa. O próprio Jesus deixará claro que sua presença provoca divisões, porque desestabiliza falsas seguranças (Mt 10,34-36). O Reino de Deus não se acomoda ao status quo; ele o confronta desde dentro.

Jesus dirige-se à Galileia, região desprezada pelas elites religiosas e culturais de Jerusalém. Trata-se de uma terra marcada pela pobreza, pela miscigenação cultural e pela proximidade com o mundo pagão. Ao escolher a Galileia como ponto de partida, Jesus realiza uma inversão radical de expectativas. Isaías havia anunciado que a luz surgiria justamente nessa região marginalizada (Is 8,23–9,1), profecia retomada explicitamente por Mateus (Mt 4,12-17). Marcos não cita o texto, mas o encarna narrativamente. Sociologicamente, essa escolha desloca o centro do poder; antropologicamente, redefine quem é digno de receber a revelação; teologicamente, manifesta a opção preferencial de Deus pelos pobres, que mais tarde será assumida explicitamente pela teologia latino-americana e pelo magistério da Igreja.

Jesus proclama: “O tempo se completou e o Reino de Deus está próximo”. O termo kairós indica um tempo qualitativo, decisivo, carregado de sentido histórico e salvífico. Não se trata do simples correr dos dias, mas do momento em que Deus intervém de forma nova e definitiva na história humana. Essa afirmação ecoa a esperança escatológica de Israel, presente nos profetas (Is 52,7; Dn 7,13-14; Ml 3,1) e nos Salmos reais (Sl 96; Sl 98). O Reino anunciado por Jesus não é uma ideia abstrata, nem um projeto futuro desconectado do presente, mas a ação concreta de Deus que restaura a vida, confronta a injustiça e inaugura novas relações.

A proximidade do Reino inaugura uma tensão constitutiva da fé cristã: o já e o ainda não. O Reino já está presente na pessoa, nas palavras e nas práticas de Jesus, mas ainda não se realizou plenamente. Paulo expressa essa tensão ao afirmar que a criação inteira geme aguardando a libertação definitiva (Rm 8,18-25) e que vivemos como quem já experimentou as primícias do Espírito (2Cor 1,22). Essa perspectiva impede tanto o triunfalismo religioso, que promete soluções fáceis e imediatas, quanto o conformismo que sacraliza a ordem vigente. O Reino não legitima estruturas injustas nem se reduz a uma promessa alienante para o além.

Diante da proximidade do Reino, Jesus convoca: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A conversão, metanoia, é uma transformação profunda da mente, do coração e da direção da vida. Não se limita à esfera moral individual, mas implica uma ruptura com lógicas estruturais de morte. Os profetas já haviam denunciado um culto desvinculado da justiça social (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8), e Jesus retoma essa crítica ao afirmar que a árvore se conhece pelos frutos (Mt 7,16-20). Aqui se desmascaram frontalmente as teologias da prosperidade e do domínio, que transformam Deus em instrumento de sucesso, enriquecimento ou conquista de poder. O Reino anunciado por Jesus não promete acumulação nem hegemonia, mas justiça, misericórdia e fidelidade ao Deus que escuta o clamor dos pobres (Ex 3,7).

Jesus caminha à beira do mar da Galileia e chama pescadores. O mar, na simbologia bíblica, representa o caos, o perigo e as forças que ameaçam a vida (Gn 1,2; Sl 69; Sl 107,23-30). Os pescadores vivem na fronteira entre a sobrevivência e o risco, dependentes da natureza e do esforço coletivo. Ao chamá-los, Jesus revela que o Reino nasce no cotidiano do trabalho e da precariedade, e não nos espaços protegidos do poder religioso. O Concílio Vaticano II afirmará que o Filho de Deus trabalhou com mãos humanas e assumiu a condição histórica do ser humano (GS 22), dignificando o trabalho e a vida comum.

O chamado é profundamente relacional: “Vinde após mim”. Não se trata de adesão a um sistema doutrinário ou moral abstrato, mas de seguimento de uma pessoa concreta. João expressará isso na linguagem do encontro: “Vinde e vede” (Jo 1,39). Marcos destaca a resposta imediata: “Eles deixaram as redes e o seguiram”. As redes simbolizam o trabalho, mas também as seguranças, os vínculos sociais e os sistemas que nos mantêm presos a uma lógica de sobrevivência individual. Deixar as redes é um gesto de fé, risco e liberdade. Psicologicamente, implica atravessar o medo da perda; filosoficamente, rompe com a repetição do mesmo; espiritualmente, inaugura uma existência aberta à alteridade e à confiança.

Tiago e João deixam o pai no barco. Esse detalhe revela que o Evangelho relativiza até mesmo as estruturas mais sagradas da cultura patriarcal e tradicional. Não se trata de negar a família, mas de deslocar o centro absoluto. Jesus afirmará que sua verdadeira família são aqueles que fazem a vontade do Pai (Mc 3,31-35). Aqui se desmascara tanto o individualismo moderno, que absolutiza o eu, quanto o clericalismo e o institucionalismo religioso, que absolutizam cargos, títulos e hierarquias. No Reino de Deus, o centro não é a instituição, mas Cristo que chama, forma e envia.

Os paralelos sinóticos aprofundam essa compreensão. Mateus (4,18-22) reforça a urgência e a radicalidade do chamado. Lucas (5,1-11) amplia a cena com a pesca milagrosa, introduzindo a experiência do fracasso humano e da confiança na palavra de Jesus. Pedro reconhece sua indignidade: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador”, desmontando qualquer espiritualidade meritocrática ou elitista. João (1,35-42) destaca o papel do testemunho e da mediação comunitária, mostrando que o seguimento nasce da escuta e do encontro.

O Concílio Vaticano II oferece chaves fundamentais para a leitura desse texto. Lumen Gentium afirma que todo o povo de Deus participa da missão profética, sacerdotal e real de Cristo, superando uma visão clericalizada da Igreja. Ad Gentes recorda que a missão não é expansão de poder, mas testemunho do amor de Deus no mundo. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos pobres são também as da Igreja (GS 1), colocando a realidade social no centro da reflexão teológica.

O Documento de Medellín e, posteriormente, o Documento de Aparecida, assumidos pelo CELAM, explicitam que não há discipulado sem compromisso com a justiça e com os pobres. Aparecida afirma que o discípulo missionário é chamado a sair de si, ir às periferias e assumir uma conversão pastoral permanente. O Papa Francisco retoma essa intuição ao insistir numa Igreja em saída, que não se fecha em si mesma nem se acomoda a privilégios (EG 20). Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata e uma religião que se deixa capturar pela lógica do mercado (EG 53-55).

A CNBB, em suas diretrizes e documentos sociais, ecoa essa tradição profética ao denunciar a concentração de renda, a fome, a exclusão social e a negação de direitos básicos. Essa denúncia não é ideológica, mas profundamente evangélica. Marcos 1,14-20 oferece o fundamento dessa postura: o Reino começa na Galileia, entre trabalhadores pobres, e convoca para uma transformação pessoal e estrutural.

A expressão “pescadores de gente” não autoriza práticas de conquista religiosa, marketing da fé ou proselitismo agressivo. Ela deve ser lida à luz da missão libertadora de Deus, que resgata vidas ameaçadas pelas forças do caos social, econômico e espiritual. A fé transformada em mercadoria, vendida em troca de promessas de sucesso, é uma perversão do Evangelho. O Reino não se compra, não se negocia, não se acumula; ele se acolhe e se vive na partilha, como testemunham as primeiras comunidades cristãs (At 2,42-47; At 4,32-35).

Historicamente, essas comunidades compreenderam o seguimento como um projeto alternativo de sociedade, marcado pela fraternidade, pela partilha de bens e pela solidariedade com os mais vulneráveis. Essa memória crítica interpela a Igreja de hoje, frequentemente tentada a se acomodar ao sistema dominante, a buscar prestígio social ou a reduzir o Evangelho a produto religioso.

Marcos 1,14-20 preserva, sem atenuações, sua força profética e sua capacidade de desinstalar consciências. Seguir Jesus hoje continua exigindo rupturas reais: deixar redes de privilégios, barcos ideológicos, seguranças institucionais e alianças com poderes que produzem exclusão, violência e morte. Não se trata de um convite espiritualizado ou genérico, mas de um chamado que atravessa a história concreta e desmascara toda tentativa de acomodação religiosa. A conversão, no horizonte do Evangelho, não admite adiamentos estratégicos nem se reduz a discursos bem-intencionados; ela exige deslocamento, decisão e coragem.

“O tempo se completou” não é uma fórmula piedosa, mas um juízo sobre a história. É o anúncio de que as velhas lógicas perderam legitimidade e de que não há mais espaço para uma fé que negocia com a injustiça ou se refugia em neutralidades cúmplices. “O Reino está próximo” não significa que ele esteja distante da realidade, mas perigosamente perto: tão próximo que desestabiliza privilégios, rompe consensos e questiona toda espiritualidade desvinculada da vida. Por isso, o chamado de Jesus não acontece nos centros do poder religioso ou político, mas nas margens, entre trabalhadores anônimos, onde a sobrevivência depende da rede, do barco e do risco cotidiano.

No início do Tempo Comum, o Evangelho nos recorda que a vida cristã não é repetição ritual nem consumo espiritual, mas resposta cotidiana, concreta e arriscada ao Deus que continua passando pelas margens da história. Ali, onde poucos olham e muitos descartam, Ele segue chamando. Com autoridade que não oprime e ternura que não anestesia, Jesus continua dizendo: “Segue-me”. E esse “segue-me” permanece sendo critério de verdade da fé: quem o escuta de fato não permanece onde está, não conserva tudo como antes e não segue ileso. Seguir Jesus é sempre um êxodo — e nunca uma instalação confortável.

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,15-19

 

«Simão, filho de João, tu amas-Me?» (Jo 21,15)

No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,15-19 proclamado  na sexta-feira  da 7ª semana da Páscoa, sendo uma das leituras que  ocupa lugar privilegiado dentro do Tempo Pascal, sobretudo no Terceiro Domingo da Páscoa do Ano C, quando a liturgia proclama o texto  dentro  do Evangelho de João  21,1-19 e conduz a assembleia ao encontro do Ressuscitado às margens do mar da Galileia, unindo a pesca milagrosa, a refeição junto ao fogo e a restauração de Pedro. A perícope retorna  no horizonte da expectativa de Pentecostes, quando a Igreja contempla a missão apostólica iluminada pela vitória do Ressuscitado. Em celebrações ligadas ao ministério petrino, ordenações episcopais e reflexões pastorais sobre o serviço eclesial, este texto reaparece como fundamento espiritual e eclesiológico. Nas tradições orientais, especialmente bizantina, siríaca e ortodoxa, a narrativa é recebida no horizonte pascal da restauração apostólica e da vitória da vida sobre a morte; entre anglicanos, luteranos e outras Igrejas históricas, permanece associada ao discipulado reconciliado e à missão. Esta recepção ampla mostra algo teologicamente importante: a Igreja nunca leu João 21 apenas como memória privada de Pedro, mas como espelho de sua própria história, uma comunidade constantemente chamada ao recomeço..A cena não pode ser compreendida isoladamente. O diálogo às margens do mar de Tiberíades é o desfecho de um longo caminho iniciado ainda nas primeiras páginas do discipulado. O mesmo Pedro que agora escuta “Tu me amas?” é aquele chamado junto ao lago em Mt 4,18-20; Mc 1,16-18 e Lc 5,1-11, quando deixa redes, barcos e seguranças para seguir Jesus. É o discípulo que ousa caminhar sobre as águas em Mt 14,28-31 e afunda quando o medo supera a confiança; é aquele que professa a fé em Cesareia de Filipe: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16), mas que logo depois tenta afastar Jesus do caminho da cruz e escuta a repreensão: “Afasta-te de mim, Satanás” (Mt 16,23). A Escritura constrói Pedro como figura profundamente humana. Nele convivem coragem e fragilidade, generosidade e medo, fé e incompreensão. A antropologia bíblica não idealiza seus personagens. Jacó sai mancando após lutar com Deus (Gn 32,31); Moisés hesita diante do chamado (Ex 4,10); Elias foge para o deserto desejando a morte (1Rs 19,4); Jeremias resiste dizendo “sou apenas uma criança” (Jr 1,6); Jonas foge da missão; Paulo fala do espinho na carne (2Cor 12,7-10). O Deus bíblico não chama perfeitos; chama pessoas reais.

João situa esta cena depois do colapso da paixão. A comunidade apostólica havia experimentado a dispersão anunciada por Jesus em Mt 26,31, retomando Zc 13,7: “Ferirei o pastor e as ovelhas serão dispersas”. O trauma da cruz não significou apenas a morte do Mestre, mas o desmoronamento das expectativas messiânicas. A confissão dos discípulos de Emaús em Lc 24,21 expressa esta ruptura: “Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel”. A esperança parecia vencida. Pedro retorna à pesca, e este retorno possui enorme densidade antropológica. Diante do sofrimento, o ser humano frequentemente procura refúgio nos lugares conhecidos. O pescador volta ao lago. O discípulo volta ao passado. A psicologia da experiência humana reconhece esse movimento como tentativa de reorganização depois do trauma. O mar da Galileia, também chamado lago de Genesaré (Lc 5,1) e mar de Tiberíades (Jo 6,1), não é apenas cenário. Constitui importante eixo econômico da Palestina do século I. A pesca estava integrada ao sistema tributário romano e herodiano; pescadores trabalhavam sob taxações e dependências econômicas. Jesus inicia sua missão justamente entre trabalhadores, pescadores e camponeses, distantes do centro sacerdotal de Jerusalém. Já aqui aparece a inversão do Reino anunciada por Maria: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1,52); “encheu de bens os famintos” (Lc 1,53). Não é irrelevante que o Ressuscitado volte precisamente à Galileia. Jerusalém era o centro religioso; Roma era o centro imperial; a Galileia era periferia. Deus retorna à periferia.

A noite da pesca fracassada em Jo 21,3 possui forte simbolismo joanino. Em João, a noite frequentemente expressa crise e incompreensão. Nicodemos procura Jesus de noite (Jo 3,2); Judas sai para entregá-lo e “era noite” (Jo 13,30). Os discípulos trabalham e nada encontram. O fracasso torna-se imagem espiritual. O esforço humano isolado revela seus limites. O Salmo 127 parece ecoar silenciosamente: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores”. Quando o Ressuscitado aparece, não é imediatamente reconhecido. O mesmo ocorre com Maria Madalena em Jo 20,14 e com os discípulos de Emaús em Lc 24,16. O reconhecimento pascal exige caminho interior. A pesca abundante remete explicitamente a Lc 5,1-11. Em Lucas ela inaugura a missão; em João a renova. A rede permanece íntegra apesar da abundância dos peixes, imagem que a tradição patrística interpretou como símbolo da universalidade e unidade da Igreja. A cena dialoga ainda com Mt 13,47, onde o Reino é comparado a uma rede lançada ao mar que recolhe peixes de toda espécie. A comunidade cristã nasce para acolher diversidade sem perder comunhão. Esta imagem possui enorme atualidade em tempos marcados por polarizações sociais, religiosas e políticas.

Quando chegam à margem, os discípulos encontram pão, peixe e uma fogueira acesa. João utiliza novamente o termo anthrakia, o mesmo usado em Jo 18,18 quando Pedro se aquece junto ao fogo durante a negação. O lugar da queda torna-se o lugar da cura. Deus não destrói o passado humano; transforma-o. José já havia intuído isso ao dizer aos irmãos: “Vós pensastes o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem” (Gn 50,20). A espiritualidade bíblica não consiste em apagar cicatrizes, mas em redimi-las. A memória ferida encontra novo sentido. Depois da refeição vem a pergunta: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,15). O Ressuscitado não começa pela culpa, nem pela missão, nem pelo ministério. Começa pelo amor. O detalhe de chamá-lo “Simão” é significativo. Antes do apóstolo existe o homem. Antes da função existe a pessoa. A antropologia bíblica insiste nisso desde Gn 1,27, quando o humano é apresentado como imagem de Deus. Jesus continuamente recoloca a pessoa acima das estruturas: “O sábado foi feito para o homem” (Mc 2,27). Em João 21, a restauração de Pedro não ocorre pela competência institucional, mas pela reconstrução da relação.

A tríplice pergunta corresponde às três negações narradas em Jo 18,17.25-27. Entretanto, não há tribunal. Não há condenação. O Ressuscitado não pergunta “por que me negaste?”, mas “tu me amas?”. O amor torna-se maior que a queda. Pedro já não é o discípulo que dizia “ainda que todos te abandonem, eu jamais te abandonarei” (Mt 26,33). A autossuficiência foi quebrada. Agora resta a humildade: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. O fracasso destruiu a arrogância, mas não destruiu o amor. Cada resposta de Pedro gera uma missão: “Apascenta meus cordeiros”, “apascenta minhas ovelhas”. O pano de fundo veterotestamentário é decisivo. Ezequiel 34 denuncia os pastores que exploravam o povo: “Não fortalecestes as fracas, não curastes as doentes, não procurastes as desgarradas” (Ez 34,4). Jeremias lamenta os líderes que dispersam o rebanho (Jr 23,1-4). Zacarias denuncia os pastores infiéis (Zc 11,17). O pastoreio bíblico possui dimensão ética, social e política. Jesus retoma essa tradição ao declarar: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11). Em João 21, Pedro participa desse cuidado, mas sob nova lógica: não recebe poder, recebe responsabilidade; não recebe privilégios, recebe pessoas.

Aqui emerge uma reflexão necessária sobre o ministério episcopal. Se João 21 está na raiz do pastoreio e da sucessão apostólica, então toda compreensão do episcopado deve nascer desta praia da Galileia e não dos palácios do poder. O bispo, segundo a eclesiologia católica e o Direito Canônico, não é proprietário da Igreja, nem administrador empresarial da fé, nem CEO religioso. O Código de Direito Canônico recorda que os bispos, pela instituição divina, sucedem os apóstolos como pastores da Igreja (cf. cân. 375 §1), recebendo missão de ensinar, santificar e governar (cf. cân. 381 §1). Entretanto, o mesmo direito exige que o bispo seja exemplo “na caridade, humildade e simplicidade de vida” (cân. 387) e recorda sua responsabilidade particular pelos pobres, sofredores e excluídos (cân. 383). O Direito Canônico, portanto, não legitima uma teologia do privilégio; sustenta uma teologia do serviço.

Entretanto, a história mostra que o episcopado nem sempre permaneceu fiel a este horizonte evangélico. Em diversos períodos, absorveu lógicas cortesãs, aristocráticas e burocráticas. O pastor tornou-se administrador de estruturas; o irmão tornou-se autoridade distante; o servidor transformou-se em figura cercada por protocolos, precedências e honrarias. Surge então aquilo que o Papa Papa Francisco chamou repetidamente de mundanismo espiritual. O moralismo episcopal torna-se particularmente perigoso quando fala mais de normas que de misericórdia, mais de disciplina que de compaixão, mais de comportamento privado que de injustiça estrutural. Jesus advertia contra isso em Mt 23,4: “Amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros”. João 21 desmonta esta lógica. O primeiro pastor da Igreja não recebe a missão num trono, mas diante de uma fogueira; não vestido de honra, mas carregando a memória da própria queda; não depois da perfeição, mas depois do arrependimento. Toda forma de episcopado excessivamente preocupada com pose, títulos, precedências, distinções e autopreservação institucional corre o risco de trair a praia da Galileia. A sucessão apostólica não é sucessão de privilégios; é sucessão de serviço. O báculo não é cetro de poder; é sinal do pastor que caminha. A cátedra não é pedestal de superioridade; é lugar de ensino e escuta. A mitra não é coroa. O anel não é insígnia aristocrática. Tudo perde sentido quando o pastor se distancia do povo. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 27, afirma que os bispos exercem autoridade para edificação e não para dominação. Christus Dominus insiste na proximidade pastoral. O Documento de Aparecida convoca pastores próximos das periferias e das dores humanas.

A crítica profética torna-se ainda mais necessária quando setores do episcopado concentram energia em vigiar costumes individuais enquanto permanecem tímidos diante da fome, da desigualdade, do racismo, da violência, da devastação ambiental e das instrumentalizações políticas da religião. Os profetas bíblicos nunca fizeram isso. Amós denunciou quem vendia o pobre por um par de sandálias (Am 2,6). Isaías condenou jejuns vazios desconectados da justiça (Is 58,6-7). Miqueias resumiu a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus” (Mq 6,8). Jesus iniciou seu ministério proclamando libertação aos pobres e oprimidos (Lc 4,18). O bispo que fala muito de moral privada e pouco das cruzes sociais corre o risco de tornar-se guardião da ordem e esquecer o Reino..O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. Gaudium et Spes abre-se afirmando que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. Medellín denunciará estruturas injustas na América Latina; Puebla aprofundará a opção preferencial pelos pobres; Santo Domingo falará da evangelização inculturada; Aparecida convocará uma Igreja em saída missionária. Toda esta tradição encontra eco em João 21: apascentar significa cuidar da vida concreta.

Nosso tempo exige escutar esta passagem de forma profética. A religião continua sendo instrumentalizada por projetos de poder; discursos autoritários vestem linguagem religiosa; a teologia da prosperidade transforma o Evangelho em mercado; a teologia do domínio converte discipulado em conquista cultural e política. Entretanto, Jesus rejeita o messianismo triunfalista em Jo 6,15, recusa o poder nas tentações do deserto (Mt 4,8-10) e afirma diante de Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36). O Evangelho não legitima exclusão. Isaías denuncia jejuns vazios (Is 58,6-7); Amós exige que a justiça corra como rio (Am 5,24); Miqueias resume a vontade divina em justiça e misericórdia (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nesta tradição quando proclama em Lc 4,18: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”. Em Mt 25,31-46 identifica-se com famintos, migrantes, enfermos e presos. Em Lc 6,20 proclama bem-aventurados os pobres. Em 1Jo 4,20 declara-se impossível amar a Deus desprezando o irmão. Tiago pergunta: “Que proveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2,14-17).

Assim, a pergunta “Tu me amas?” ultrapassa a esfera devocional e torna-se discernimento histórico e humana. Amar Cristo implica amar aqueles que Ele amou. O amor possui consequência social. Não existe seguimento desencarnado. O Verbo se fez carne (Jo 1,14), e a carne humana tornou-se lugar teológico. A teologia nos ensina que Deus se revela na história, e a antropologia cristã nos mostra que o humano é lugar teológico. Logo, todo projeto que despreza a dignidade humana e reduz o outro a inimigo contradiz frontalmente a revelação de um Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8). O amor a Cristo se mede pelo amor aos seus — especialmente aos que foram marginalizados, silenciados ou esquecidos. Por isso, a missão da Igreja não pode ser cúmplice de regimes violentos nem de discursos que demonizam os pobres, os migrantes, as mulheres, os indígenas, os LGBTQIA+ ou os trabalhadores. A fidelidade cristã não está garantida pela doutrina, mas pelo seguimento. Não basta confessar com os lábios; é preciso viver como Ele viveu. Como escreveu Bento XVI:No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa” (Deus Caritas Est, 1). E essa Pessoa nos pergunta, todos os dias: «Tu me amas?» O amor é, pois, critério de autenticidade e de discernimento. Fora do amor, tudo é ruído.

Hoje, renovamos nossa resposta: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo.” Mas sabemos também que esse amor nos compromete. Como Igreja sinodal, missionária e profética, não podemos amar Jesus sem amar o mundo que Ele amou até o fim (cf. Jo 13,1). O amor vivido e confessado exige de nós coragem para denunciar injustiças, para servir sem honrarias, para dar a vida com generosidade.Sigamos, como Pedro, não por causa da força de nossas promessas, mas sustentados pela fidelidade de um Deus que nos ama até quando O negamos. O Ressuscitado caminha conosco, refaz as pontes quebradas, acende fogueiras na praia e nos convida novamente: “Segue-Me” (Jo 21,19). A pergunta d’Ele não cessa. E a resposta, que damos com a vida, faz da nossa fragilidade lugar de graça, da nossa pobreza, lugar de envio, e do nosso amor, ainda vacilante, a pedra sobre a qual Ele segue construindo a sua Igreja.

O texto termina com uma palavra simples: “Segue-me” (Jo 21,19). É a mesma palavra do início do discipulado, mas agora atravessada pela cruz e pela ressurreição. Pedro compreende que seguir não é triunfar, mas servir; não é dominar, mas cuidar; não é ocupar tronos, mas repartir o pão.

À beira do lago nasce novamente a Igreja. Não uma Igreja triunfalista, mas reconciliada. Não uma Igreja de castas, mas de irmãos. Não uma Igreja capturada pelo poder, mas sustentada pela memória daquele que continua acendendo fogueiras nas praias da história.

 À beira do lago, o Ressuscitado não devolve a Pedro o passado; devolve-lhe o futuro. Aquele que negara diante da fogueira agora é enviado diante de outra fogueira. O amor torna-se missão, e a fragilidade transforma-se em serviço. A Igreja nasce novamente não do triunfo, mas da reconciliação. E continua ouvindo, nas praias da história, a pergunta que sustenta o discípulo continua atravessando os séculos, os templos, as crises humanas, os pastores, os bispos, as comunidades e cada discípulo: “Tu me amas?”

A resposta não é apenas verbal.

É uma vida transformada em cuidado.

Porque somente quem ama pode apascentar

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, À sombra da Palavra, à escuta do Espírito, a caminho com o Povo.


domingo, 3 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 16,21-27 / 22º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia deste 22º Domingo do Tempo Comum, Ano A, coloca diante de nós Jeremias 20,7-9, o Salmo 62(63),2-4.5-6.8-9, Romanos 12,1-2 e Mateus 16,21-27. Esses quatro textos não aparecem como peças isoladas, mas como uma única caminhada espiritual que conduz da experiência interior da Palavra à transformação da existência, da sede de Deus ao discernimento, do discernimento à entrega e da entrega:

  1. Jeremias 20,7-9, apresenta a fidelidade  e o drama de quem foi alcançado por uma Palavra que não consegue mais silenciar que  nos introduz nesse caminho a partir de uma experiência profundamente humana. O profeta está cansado, ferido e decepcionado. Sua missão não lhe trouxe prestígio nem reconhecimento; trouxe resistência. Ele anuncia uma Palavra que incomoda e, por isso, experimenta oposição. Chega a desejar o silêncio, como se pudesse interromper sua vocação para escapar do conflito. Entretanto, descobre que não consegue tratar a Palavra como algo externo à sua existência. Ela se tornou fogo dentro de seus ossos. A imagem é extraordinariamente expressiva: a Palavra não é apenas uma mensagem que o profeta transmite aos outros, mas uma realidade que o atravessa, confronta sua consciência e reorganiza sua própria vida. Jeremias gostaria de calar, mas não consegue, porque a fidelidade à Palavra tornou-se uma necessidade interior. O profeta revela, assim, que uma experiência autêntica de Deus não deixa a pessoa exatamente como estava antes.
  2.  O Salmo 62(63) traz o salmista  que transforma a sede em busca de Deus. O Salmo amplia essa experiência por meio de outra imagem: a sede. “Minha alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água.” O salmista fala a partir de uma realidade na qual a água não representa luxo, mas sobrevivência. A terra seca depende da água para produzir vida, e o ser humano reconhece que também existe dentro dele uma sede que nenhuma conquista material consegue resolver definitivamente. O salmo não apresenta essa sede como fraqueza, mas como consciência da própria condição. A pessoa que reconhece sua necessidade deixa de imaginar que é autossuficiente. Ela descobre que precisa de uma fonte maior que seus próprios recursos. A sede de Deus, portanto, não é fuga da realidade; é reconhecimento de que a existência humana não encontra seu sentido último apenas naquilo que possui, controla ou conquista. Essa sede, porém, não pode ser espiritualizada de maneira que despreze as necessidades concretas. A Bíblia não coloca Deus contra o pão, a dignidade, a justiça ou a vida cotidiana. O próprio Jesus ensina seus discípulos a pedir o pão de cada dia e, diante das multidões famintas, não responde apenas com palavras religiosas, mas preocupa-se com aquilo que as pessoas precisam para viver. A espiritualidade bíblica reconhece simultaneamente a sede de Deus e a fome do ser humano. Por isso, buscar o Senhor não significa abandonar o mundo, mas aprender a enxergá-lo com outros olhos. Quanto mais profunda é a relação com Deus, maior deveria ser a sensibilidade diante daquilo que fere a dignidade humana
  3. Romanos 12,1-2 onde  Paulo  nos   mostra que essa experiência religiosa precisa alcançar o corpo, a mente, as escolhas e as relações e  o apóstolo  Paulo conduz a comunidade em Romanos 12,1-2. Depois de apresentar ao longo da Carta aos Romanos a iniciativa misericordiosa de Deus, ele pede que os cristãos ofereçam seus corpos como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. O corpo, aqui, representa a existência concreta. Paulo desloca a compreensão do culto: a adoração cristã não pode ficar confinada ao espaço religioso, porque a própria vida se torna lugar da resposta a Deus. O culto continua nas relações familiares, no trabalho, na maneira de exercer autoridade, na forma de tratar os vulneráveis, nas escolhas econômicas, na participação social, na utilização da palavra e na maneira como lidamos com quem pensa diferente. A celebração não termina quando deixamos o templo. Ela precisa tornar-se existência. Por isso Paulo acrescenta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Rm 12,2). O verbo utilizado aponta para uma mudança profunda na forma de pensar e discernir. Não se conformar não significa rejeitar tudo o que existe na sociedade nem imaginar que o cristão vive fora da história. Significa não aceitar automaticamente como normal aquilo que contradiz a dignidade humana e o projeto de Deus. A fé precisa desenvolver uma consciência capaz de perguntar: Quem está sendo beneficiados, quem está sendo silenciado, quem permanece à margem e quais valores estão orientando nossas decisões?Paulo não oferece uma teoria política ou econômica, mas estabelece um princípio ético: a mente renovada pelo Evangelho não pode simplesmente reproduzir a mentalidade dominante quando ela transforma pessoas em instrumentos, descarta os vulneráveis ou considera inevitável aquilo que poderia ser transformado. É justamente aqui que Romanos encontra Mateus. 
Jesus não chama seus discípulos apenas para uma experiência espiritual interior; chama-os para uma maneira diferente de existir. Mateus 16,21-27 aparece imediatamente depois da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe. Esse detalhe narrativo é decisivo. Pedro acabara de reconhecer: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.” Sua resposta estava correta, mas sua compreensão ainda era incompleta. Ele sabia dizer quem Jesus era, mas ainda não compreendia que tipo de Messias Jesus seria. O Evangelho mostra, portanto, que uma confissão correta pode coexistir com uma compreensão equivocada. É possível pronunciar o nome de Jesus e ainda carregar uma imagem dele moldada por expectativas humanas. Ele revela em Jesus o caminho concreto dessa transformação: reconhecer quem Ele é, compreender o sentido de sua missão e aceitar que segui-lo significa abandonar a centralidade do próprio ego para colocar a vida a serviço do Reino. A pergunta que atravessa toda a liturgia não é simplesmente quanto sofrimento estamos dispostos a suportar, mas que transformação acontece em nós quando levamos a sério a Palavra de Deus.

Jesus  esta em cesareia de Filipe, que  ficava ao norte da Galileia conforme  narrativa do 21⁰ domingo do Tempo Comum, uma região marcada por referências políticas, culturais e religiosas do mundo helenístico e romano. Ali, cercado por diferentes símbolos de poder, Jesus pergunta primeiro o que as pessoas dizem a seu respeito e depois pergunta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro responde com a confissão messiânica. Entretanto, imediatamente depois, Jesus começa a revelar o significado de sua missão: deverá ir a Jerusalém, sofrer nas mãos das autoridades, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. A sequência é fundamental para Mateus. O título “Messias” precisa ser reinterpretado à luz da cruz e da ressurreição. Jesus não corresponde à expectativa de um salvador que conquista pela força, elimina adversários e estabelece seu poder por meio da dominação. Seu messianismo se manifesta no serviço, na entrega, na misericórdia e na fidelidade ao Reino.

Jerusalém, nesse contexto, não é apenas um destino geográfico. É o centro religioso da Judeia, lugar do Templo e das principais instituições religiosas, inserido numa realidade política marcada pela presença romana. Jesus caminha para o centro onde religião, autoridade e poder se encontravam em relações complexas. Seu anúncio da paixão não deve ser interpretado como uma busca deliberada pelo sofrimento. Ele não escolhe a dor por amor à dor. O que ele escolhe é permanecer fiel à missão recebida. O conflito surge porque uma existência orientada pela justiça, pela misericórdia e pela verdade inevitavelmente confronta interesses que prefeririam conservar determinadas estruturas. A paixão é consequência de uma vida coerente com o Reino. Pedro, entretanto, não aceita essa perspectiva. Toma Jesus à parte e começa a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso jamais te acontecerá.” A reação parece nascer do afeto, mas contém uma tentativa de afastar Jesus do caminho que ele acaba de anunciar. Por isso Jesus responde de maneira severa: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mt 16,23). Satanás significa adversário. Pedro torna-se adversário não porque deixou de amar Jesus, mas porque seu amor está misturado com uma expectativa que pretende determinar o caminho do Mestre.

A expressão “vai para trás de mim” merece atenção especial. No texto grego, a ideia de estar “atrás” de Jesus reaparece imediatamente no chamado ao discipulado: “Se alguém quer vir após mim...” O discípulo precisa permanecer atrás do Mestre. Pedro havia começado seguindo Jesus, mas naquele momento tenta colocar-se à frente para indicar-lhe o caminho que deveria tomar. A repreensão de Jesus recoloca as posições: quem segue não pode ocupar o lugar daquele que conduz. Essa inversão continua sendo uma tentação religiosa. Uma comunidade pode começar seguindo o Evangelho e, pouco a pouco, passar a utilizar o Evangelho para legitimar seus próprios interesses. Pode afirmar que defende Cristo enquanto tenta moldar Cristo à sua imagem. Pode falar em nome de Deus e, ao mesmo tempo, proteger privilégios que o próprio Jesus questionaria. Essa advertência possui particular importância quando pensamos na autoridade dentro da Igreja. O problema não é a existência do ministério ordenado, que pertence à estrutura sacramental da tradição católica, mas a transformação do serviço em privilégio e da autoridade em domínio. Jesus estabelece outro princípio: “Entre vós não deve ser assim” (Mc 10,43). Na comunidade cristã, a grandeza não é medida pela capacidade de controlar, mas pela disposição de servir. João 13 apresenta Jesus lavando os pés dos discípulos. Aquele que é chamado de Senhor ajoelha-se diante daqueles que deve conduzir. O gesto redefine a autoridade. A liderança cristã não deveria produzir medo, dependência ou submissão cega, mas cuidado, responsabilidade, proteção e liberdade. Quando uma função pastoral se torna instrumento de autopreservação institucional, algo da lógica de Jesus foi perdido. É nesse momento que Jesus amplia o chamado para todos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A renúncia de si não significa desprezar a própria existência, destruir a personalidade ou odiar o próprio corpo. Significa retirar o ego do centro absoluto. É deixar de considerar nossos desejos, medos, interesses e certezas como medida de todas as coisas. Renunciar a si mesmo é reconhecer que a vida não foi recebida apenas para autopreservação. Ela possui uma dimensão de dom. A pessoa madura não vive apenas perguntando o que pode ganhar, mas também o que pode oferecer, quem precisa dela e que tipo de mundo suas escolhas estão ajudando a construir.

A  imagem da cruz precisa ser compreendida dentro do contexto histórico de Jesus. A crucificação era uma execução romana pública, marcada pela humilhação e pela exposição do condenado. Não era originalmente um símbolo religioso, mas um instrumento de violência utilizado também como mecanismo de intimidação. Falar de cruz naquele ambiente significava falar de um preço extremo que poderia ser imposto a quem entrasse em conflito com o poder. Por isso, quando Jesus chama seus discípulos a tomar a cruz, não está ensinando a procurar sofrimento. Está dizendo que o discípulo precisa estar disposto a permanecer fiel mesmo quando essa fidelidade tiver consequências. Essa distinção é fundamental. Nem todo sofrimento é uma cruz cristã. Existem dores próprias da condição humana, como enfermidades, perdas, lutos e limitações. Existem também sofrimentos produzidos pela ação humana: violência, exploração, abuso, fome, racismo, desigualdade, humilhação e exclusão. Não podemos dizer às vítimas que Deus deseja que permaneçam submetidas a essas situações. Jesus não transforma a injustiça em vontade divina. Pelo contrário, aproxima-se dos feridos, acolhe os excluídos e denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros. Em Mateus 11,28, chama os cansados e sobrecarregados para junto de si. Portanto, carregar a cruz significa assumir o custo de uma existência fiel ao amor, não santificar as cruzes que a sociedade fabrica para os vulneráveis.

A tradição profética ajuda a impedir uma interpretação acomodada do Evangelho. Isaías denuncia uma religiosidade cheia de ritos quando falta justiça; Amós rejeita celebrações quando o direito é esmagado; Miqueias resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. Jesus permanece nessa tradição. Em Mateus 23,23, critica aqueles que dão enorme importância aos detalhes religiosos enquanto negligenciam “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. A questão não é escolher entre oração e compromisso social, mas compreender que a oração perde sua autenticidade quando não produz uma vida transformada. É por isso que a sede do Salmo e o sacrifício vivo de Romanos se encontram no caminho de Jesus. Quem tem sede de Deus não deveria tornar-se indiferente à sede do outro. Quem oferece a própria vida a Deus precisa permitir que essa entrega alcance sua relação com os demais. Quem renova a mente deixa de aceitar passivamente os padrões de uma sociedade quando eles contradizem o Evangelho. A experiência espiritual torna-se discernimento e o discernimento torna-se prática. A Palavra que queimava dentro de Jeremias transforma-se em vida oferecida em Paulo e encontra em Jesus seu modelo definitivo de fidelidade. Essa perspectiva também questiona uma sociedade marcada pelo individualismo. Somos constantemente estimulados a medir o valor da existência pelo patrimônio, pelo consumo, pelo status, pela aparência, pelo número de seguidores ou pela capacidade de influência. A pergunta de Jesus permanece desconcertante: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” (Mt 16,26). Ele não condena o trabalho, a prosperidade ou o desejo legítimo de uma vida digna. O que denuncia é a inversão pela qual possuir se torna mais importante que ser, vencer mais importante que amar e acumular mais importante que repartir. Uma sociedade pode aumentar sua riqueza e, simultaneamente, produzir abandono; pode desenvolver tecnologias extraordinárias e conviver com pessoas sem acesso ao mínimo necessário para viver com dignidade.

O Evangelho também nos obriga a pensar sobre a violência. Jesus não apresenta a força armada como fundamento de seu Reino. Quando Pedro utiliza a espada para defendê-lo, Jesus manda guardá-la. A paz anunciada por Cristo não é passividade diante da injustiça, mas superação da lógica segundo a qual a violência é a resposta natural para todos os conflitos. “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Promover a paz exige enfrentar as causas da violência, proteger quem está vulnerável, defender a verdade e construir relações sociais nas quais a dignidade humana seja respeitada. A paz bíblica não é silêncio imposto aos fracos; é justiça capaz de criar condições para a vida. A manipulação religiosa também está sob o julgamento do Evangelho. Quando Deus é utilizado para controlar consciências, quando a Bíblia é empregada para impedir perguntas, quando a autoridade se torna intocável, quando uma instituição preocupa-se mais em preservar sua reputação do que em escutar pessoas feridas, ou quando o medo é apresentado como obediência, a religião corre o risco de afastar-se do caminho de Jesus. A verdade cristã não deveria produzir escravos de líderes. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Uma comunidade fiel ao Evangelho não precisa apagar a consciência das pessoas para manter sua autoridade; precisa formar consciências capazes de discernir, amar e assumir responsabilidade.

Mateus 16,27 completa esse ensinamento quando Jesus afirma que o Filho do Homem dará a cada pessoa segundo suas obras. A fé não pode permanecer apenas no discurso. Jesus insiste em outros momentos que não basta dizer “Senhor, Senhor”. Em Mateus 25, o critério do julgamento passa pelo modo como tratamos quem tem fome, sede, está enfermo, estrangeiro ou preso. A fé torna-se visível nas relações. Não basta perguntar se acreditamos em Cristo; precisamos perguntar se nossa maneira de viver torna reconhecível o Cristo em quem dizemos acreditar. A doutrina que não produz misericórdia permanece incompleta; a oração que não gera responsabilidade corre o risco de transformar-se em fuga; a celebração que não alcança a vida pode tornar-se apenas hábito religioso. Nesse sentido, a Eucaristia possui uma força particularmente profunda. O Cristo que caminha para Jerusalém é o mesmo que a tradição cristã reconhece no pão partido e no cálice partilhado. A Eucaristia recorda sacramentalmente uma vida oferecida. Por isso, participar da mesa do Senhor deveria ampliar nossa disposição para repartir a existência. Não faria sentido receber o pão eucarístico enquanto permanecemos indiferentes ao pão que falta na mesa de alguém. A comunhão celebrada no altar precisa tornar-se comunhão na vida. O sacramento não nos retira da realidade; envia-nos de volta a ela com uma responsabilidade renovada. Também por isso a cruz precisa ser contemplada sempre à luz da ressurreição. Jesus não anuncia apenas sofrimento e morte; anuncia também que ressuscitará ao terceiro dia. A cruz revela o preço da fidelidade, mas a ressurreição revela que a morte não possui a palavra final. Essa perspectiva impede duas distorções igualmente perigosas. De um lado, o triunfalismo religioso, que imagina que quem possui fé nunca enfrentará dificuldades. De outro, uma espiritualidade do sofrimento, que transforma a dor em destino inevitável e considera a resignação uma virtude absoluta. O Evangelho não promete uma existência sem lágrimas. Promete que as lágrimas não terão a última palavra.

A Bíblia é suficientemente realista para reconhecer a fragilidade humana. Jeremias cansou-se. Elias, em sua crise, desejou morrer. Jó questionou. Os salmos registraram abandono, medo e lágrimas. Jesus chorou diante da morte de Lázaro e experimentou profunda angústia no Getsêmani. A fé não exige que escondamos nossas feridas para parecer fortes. Ela nos ensina a atravessá-las sem permitir que elas destruam nossa capacidade de amar. A coragem cristã não consiste em nunca sentir medo, mas em não permitir que o medo determine sozinho nossas decisões. Há momentos em que perseverar significa simplesmente continuar fazendo o bem possível, mesmo sem aplausos e sem garantias. É aqui que Jeremias volta a iluminar Mateus. O profeta queria calar, mas havia um fogo dentro dele. Jesus sabe que o caminho de Jerusalém será difícil, mas permanece fiel. O discípulo, por sua vez, é chamado a não abandonar o Mestre quando a lógica do Reino contrariar suas expectativas. Não se trata de procurar inimigos, provocar perseguições ou considerar toda crítica uma prova de santidade. Existe uma diferença entre sofrer por fidelidade e sofrer pelas consequências de nossos próprios erros. A humildade cristã precisa reconhecer essa diferença. Podemos ser contestados porque defendemos a justiça, mas também podemos ser contestados porque fomos injustos. Podemos ser rejeitados por dizer a verdade, mas também podemos ser rejeitados porque não soubemos amar. O discernimento é indispensável.

Por isso, a renovação da mente de que fala Paulo é tão importante. A Palavra precisa converter não apenas nossas emoções, mas também nossos critérios. Uma fé adulta aprende a examinar a própria consciência. Pergunta se está defendendo o Evangelho ou apenas suas preferências; se está servindo aos pequenos ou protegendo privilégios; se está seguindo Jesus ou tentando fazer Jesus seguir suas próprias convicções. A conversão cristã não consiste somente em abandonar determinados comportamentos individuais. Consiste também em permitir que Deus transforme a maneira como interpretamos a realidade, exercemos autoridade, utilizamos nossos recursos e nos posicionamos diante do sofrimento alheio. Assim, a pergunta central deste domingo não é “quanto sofrimento consigo suportar?”, mas “que Jesus estou seguindo?”. Um Jesus sem cruz pode ser fabricado para satisfazer expectativas de poder. Um Jesus sem pobres pode ser utilizado para tranquilizar consciências. Um Jesus sem justiça pode ser transformado em símbolo de prestígio. Um Jesus sem misericórdia pode ser utilizado para condenar. O Jesus dos Evangelhos, entretanto, não se deixa aprisionar por essas imagens. Ele é o Messias que serve, cura, acolhe, confronta a hipocrisia, denuncia aquilo que desumaniza, perdoa, lava os pés dos discípulos e entrega a própria vida.

Segui-lo significa permitir que ele também desmonte nossas falsas imagens de Deus. Significa deixar morrer em nós a necessidade de controlar tudo, a arrogância de possuir sempre a razão, a indiferença diante do sofrimento e a tentação de transformar a religião em instrumento de superioridade. Significa reconhecer que autoridade sem serviço pode transformar-se em dominação, que fé sem justiça pode tornar-se aparência e que culto sem compromisso pode esconder uma consciência acomodada. A conversão começa no interior, mas não termina no interior. A Palavra recebida precisa tornar-se comportamento, relação, responsabilidade e compromisso com a vida. Quando a liturgia reúne Jeremias, o salmista, Paulo e Mateus, ela apresenta um movimento único. Jeremias mostra a Palavra que penetra e incomoda. O salmista revela a sede que reconhece nossa dependência de Deus. Paulo mostra que essa experiência deve renovar nossa mente e transformar nossa existência em culto vivo. Mateus apresenta Jesus como aquele que encarna plenamente esse caminho e chama os discípulos a segui-lo. Não são quatro mensagens diferentes. É uma única convocação: deixar Deus transformar a maneira como pensamos, desejamos e vivemos.  Talvez não consigamos mudar todas as estruturas que nos cercam. Algumas portas permanecerão fechadas, determinadas pessoas não compreenderão nossa caminhada e algumas feridas precisarão de tempo para cicatrizar. Isso, porém, não nos dispensa da responsabilidade sobre aquilo que está ao nosso alcance. Podemos escolher não devolver ódio com ódio. Podemos impedir que o sofrimento produza em nós desprezo pelos outros. Podemos defender quem foi silenciado, repartir aquilo que temos, corrigir nossos erros, pedir perdão, reparar danos quando possível, acolher quem está ferido e denunciar aquilo que produz morte. A fidelidade cristã não exige que controlemos o resultado de tudo; exige que sejamos responsáveis pelo modo como caminhamos.

Quando Jesus pergunta que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida, ele não está propondo uma existência de fracasso. Está perguntando pelo sentido. Podemos conquistar muitas coisas e perder aquilo que nos torna humanos. Podemos proteger tanto nossos interesses que já não conseguimos acolher ninguém. Podemos defender tanto nossa imagem que perdemos a capacidade de reconhecer nossos erros. Podemos construir uma religião tão preocupada consigo mesma que já não escuta o clamor de quem sofre. Podemos preservar estruturas e perder o Evangelho. A verdadeira renúncia, então, não é destruir nossa identidade, mas abandonar aquilo que impede nossa capacidade de amar.

A cruz de Cristo não glorifica a dor; revela a fidelidade. Não transforma a vítima em culpada; desmascara a violência que mata. Não pede submissão à injustiça; exige perseverança no amor. Não termina no sepulcro; abre-se para a ressurreição. Por isso, tomar a cruz não significa procurar sofrimento. Significa não abandonar o caminho do Reino quando esse caminho exigir coragem. A pessoa que segue Jesus não precisa fabricar conflitos para provar sua fé, mas também não pode abandonar a verdade apenas para preservar conforto, prestígio ou aaprovação  

Que a Palavra que ardeu em Jeremias também encontre espaço em nós, não para produzir ódio, mas responsabilidade. Que a sede do salmista nos liberte da ilusão de autossuficiência e nos conduza à fonte que dá sentido à existência. Que Paulo nos ensine a oferecer não apenas palavras religiosas, mas a própria vida, permitindo que nossa mente seja renovada para discernir o que corresponde ao Evangelho. Que Pedro nos recorde que até uma confissão sincera precisa passar pela conversão e que ninguém deve colocar-se à frente de Jesus para obrigá-lo a seguir nossas expectativas. Que a cruz nos ensine a fidelidade e que a ressurreição nos impeça de transformar a dor em destino e que a Igreja seja cada vez mais uma comunidade que escuta antes de julgar, serve antes de dominar, acolhe antes de excluir e protege os vulneráveis antes de defender privilégios. Que a autoridade seja serviço, que a doutrina seja acompanhada pela misericórdia, que a oração produza responsabilidade e que a Eucaristia nos torne mais sensíveis ao pão que falta na mesa dos pobres. Que não utilizemos Deus para legitimar interesses particulares, nem a religião para controlar consciências. Que saibamos distinguir fidelidade de arrogância, prudência de acomodação, sofrimento inevitável de injustiça produzida e perseverança de simples resistência em reconhecer nossos próprios erros.

E quando vierem as aflições, quando o caminho parecer longo, quando o reconhecimento não chegar e quando as lágrimas aparecerem sem aviso, possamos lembrar que Jesus nunca prometeu uma estrada sem dificuldades. “No mundo tereis aflições. Mas tende coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33). Essa palavra não elimina a dor, mas impede que ela se transforme em desespero. A ressurreição afirma que a morte não é soberana, que a violência não terá eternamente a última palavra, que a mentira não pode destruir definitivamente a verdade e que o amor não é ingenuidade diante da realidade. A esperança cristã não fecha os olhos para o sofrimento; atravessa-o acreditando que a vida pode nascer justamente onde o poder humano imaginou ter colocado um ponto ffinal..Seguir Jesus, portanto, é aprender uma nova maneira de existir. É permitir que a Palavra se torne fogo sem transformar esse fogo em violência. É reconhecer nossa sede sem tentar preenchê-la com ídolos de poder, consumo ou reconhecimento. É renovar a mente para não reproduzir automaticamente as injustiças do tempo presente. É colocar a existência concreta no altar do serviço. É permanecer próximo dos pequenos. É questionar a autoridade quando ela se transforma em dominação. É resistir à manipulação religiosa. É defender a dignidade humana sem transformar nossa defesa em arrogância. É continuar amando quando o amor tiver um preço. A grande conversão proposta por esta liturgia começa dentro de nós, mas não termina em nós. Jeremias pergunta se teremos coragem de escutar a Palavra quando ela nos incomodar. O salmista pergunta de que estamos realmente sedentos. Paulo pergunta se nossa mente está sendo renovada ou apenas reproduzindo a lógica do mundo. Jesus pergunta se somos capazes de segui-lo sem tentar substituir seu caminho pelas nossas expectativas. Essas perguntas se encontram numa única decisão: permitir que Cristo determine a direção de nossa existência. E se  faz necessário  saber:

  • Não precisamos ser fortes o tempo inteiro. 
  • Não precisamos possuir todas as respostas. 
  • Não precisamos procurar sofrimento para provar nossa fé.
 Precisamos porém:  

  • Estar dispostos a continuar no caminho quando a fidelidade ao amor exigir coragem. 
  • Reconhecer quando erramos, recomeçar quando caímos.
  • pedir perdão quando ferimos
  • Defender a vida quando ela estiver ameaçada 
  • Permanecer abertos à conversão
  •  Preciso  ter  consciência  que a santidade cristã não é uma imagem de perfeição construída para ser admirada; é uma existência que permanece em processo de transformação.

No fim, a pergunta de Jesus continua diante de nós: “Que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” A resposta do Evangelho está na própria maneira de Jesus viver. A vida não encontra seu sentido último no domínio, na acumulação ou na autopreservação absoluta, mas na capacidade de tornar-se dom. Renunciar ao egoísmo não significa empobrecer a existência; significa libertá-la para a comunhão. Tomar a cruz não significa amar a dor; significa permanecer fiel ao amor. Renovar a mente não significa fugir do mundo; significa aprender a discernir dentro dele. Ter sede de Deus não significa abandonar a realidade; significa encontrar uma fonte que nos torne mais humanos diante dela. Por isso, caminhemos atrás de Jesus. Não à frente dele, tentando determinar o que ele deveria fazer; não ao lado dele apenas quando o caminho for confortável; nem para longe dele quando sua mensagem contrariar nossas expectativas. Caminhemos atrás dele, como discípulos que ainda precisam aprender. Que nossa fé tenha mãos para servir, pés para caminhar, olhos para enxergar os invisíveis, ouvidos para escutar os feridos e coração para acolher. Que nossa oração tenha compromisso, nossa esperança tenha coragem, nossa autoridade tenha serviço e nossa religião tenha misericórdia. Que a Palavra recebida no domingo continue ardendo durante a semana e que a Eucaristia celebrada no altar se prolongue na vida cotidiana.

A cruz não será a última palavra. A ressurreição será. Por isso, não caminhamos porque somos invulneráveis, mas porque confiamos na graça; não porque nunca sentimos medo, mas porque o medo não precisa governar nossa existência; não porque sejamos superiores aos outros, mas porque também precisamos ser continuamente convertidos. Seguimos porque Jesus continua dizendo “segue-me”. E seguir esse chamado significa colocar a vida diante de Deus como oferta viva, renovar a mente, reconhecer a própria sede, assumir as consequências da fidelidade e permanecer comprometido com aquilo que Jesus colocou no centro de sua missão: a vida, a misericórdia, a justiça, a dignidade humana e o amor.. Que, ao final desta celebração, não saiamos apenas com uma ideia religiosa a mais, mas com uma decisão concreta. Que sejamos menos conformados com aquilo que desumaniza, menos preocupados em preservar privilégios, menos dispostos a utilizar Deus para justificar nossas escolhas e mais disponíveis para servir. Que saibamos ouvir a Palavra quando ela nos corrige, reconhecer nossa sede quando ela nos revela, renovar a mente quando ela nos desafia e seguir Jesus quando seu caminho contrariar nossas expectativas. Então nossa fé deixará de ser apenas discurso e se tornará existência. E nossa existência, oferecida como culto vivo, poderá testemunhar que perder a vida por amor não significa destruí-la, mas encontrá-la em sua forma mais verdadeira: aberta a Deus, comprometida com o próximo e colocada a serviço de um mundo no qual a justiça, a misericórdia, a dignidade e a vida tenham, finalmente, a última palavra.DNonato - Teólogo Cotidiano