A insistência litúrgica nesse texto revela uma pedagogia espiritual profunda: antes de qualquer prática religiosa, exigência moral ou estrutura institucional, a fé cristã nasce de um acontecimento que desloca a história e interpela a existência concreta. O Tempo Comum, longe de ser um tempo menor ou residual no calendário litúrgico, é o espaço privilegiado onde o Evangelho se encarna na rotina da vida, no trabalho cotidiano, nas relações sociais e nas escolhas que moldam a existência. É nesse chão aparentemente ordinário que o chamado de Jesus ressoa com força decisiva: “Vinde após mim”.
Marcos inicia o relato com uma afirmação carregada de densidade histórica, política e teológica: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, proclamando o Evangelho de Deus”. A prisão de João Batista não é um simples marco cronológico, mas uma chave hermenêutica de leitura de todo o ministério de Jesus. João está inserido na longa tradição profética de Israel, na linhagem de Elias, Amós, Isaías, Jeremias e tantos outros que foram perseguidos por denunciarem alianças espúrias entre poder, religião e injustiça. Amós é expulso do santuário por confrontar o rei (Am 7,10-17); Jeremias é silenciado por anunciar a queda do templo (Jr 26); Elias foge do poder homicida de Jezabel (1Rs 19). João é preso porque ousa dizer que o poder não pode tudo, que a Lei de Deus está acima dos interesses do trono. Historicamente, Herodes Antipas o prende por denunciar uma relação ilegítima; teologicamente, ele é preso porque a profecia sempre ameaça estruturas que se absolutizam.
É exatamente após esse silenciamento da voz profética que Jesus entra em cena. O Evangelho nasce no conflito, não na neutralidade. Isso desmonta qualquer tentativa de reduzir a fé a uma experiência intimista, espiritualizada ou despolitizada. A Boa-Nova não surge em um mundo pacificado, mas em uma realidade marcada por violência institucional, desigualdade social e manipulação religiosa. O próprio Jesus deixará claro que sua presença provoca divisões, porque desestabiliza falsas seguranças (Mt 10,34-36). O Reino de Deus não se acomoda ao status quo; ele o confronta desde dentro.
Jesus dirige-se à Galileia, região desprezada pelas elites religiosas e culturais de Jerusalém. Trata-se de uma terra marcada pela pobreza, pela miscigenação cultural e pela proximidade com o mundo pagão. Ao escolher a Galileia como ponto de partida, Jesus realiza uma inversão radical de expectativas. Isaías havia anunciado que a luz surgiria justamente nessa região marginalizada (Is 8,23–9,1), profecia retomada explicitamente por Mateus (Mt 4,12-17). Marcos não cita o texto, mas o encarna narrativamente. Sociologicamente, essa escolha desloca o centro do poder; antropologicamente, redefine quem é digno de receber a revelação; teologicamente, manifesta a opção preferencial de Deus pelos pobres, que mais tarde será assumida explicitamente pela teologia latino-americana e pelo magistério da Igreja.
Jesus proclama: “O tempo se completou e o Reino de Deus está próximo”. O termo kairós indica um tempo qualitativo, decisivo, carregado de sentido histórico e salvífico. Não se trata do simples correr dos dias, mas do momento em que Deus intervém de forma nova e definitiva na história humana. Essa afirmação ecoa a esperança escatológica de Israel, presente nos profetas (Is 52,7; Dn 7,13-14; Ml 3,1) e nos Salmos reais (Sl 96; Sl 98). O Reino anunciado por Jesus não é uma ideia abstrata, nem um projeto futuro desconectado do presente, mas a ação concreta de Deus que restaura a vida, confronta a injustiça e inaugura novas relações.
A proximidade do Reino inaugura uma tensão constitutiva da fé cristã: o já e o ainda não. O Reino já está presente na pessoa, nas palavras e nas práticas de Jesus, mas ainda não se realizou plenamente. Paulo expressa essa tensão ao afirmar que a criação inteira geme aguardando a libertação definitiva (Rm 8,18-25) e que vivemos como quem já experimentou as primícias do Espírito (2Cor 1,22). Essa perspectiva impede tanto o triunfalismo religioso, que promete soluções fáceis e imediatas, quanto o conformismo que sacraliza a ordem vigente. O Reino não legitima estruturas injustas nem se reduz a uma promessa alienante para o além.
Diante da proximidade do Reino, Jesus convoca: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A conversão, metanoia, é uma transformação profunda da mente, do coração e da direção da vida. Não se limita à esfera moral individual, mas implica uma ruptura com lógicas estruturais de morte. Os profetas já haviam denunciado um culto desvinculado da justiça social (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8), e Jesus retoma essa crítica ao afirmar que a árvore se conhece pelos frutos (Mt 7,16-20). Aqui se desmascaram frontalmente as teologias da prosperidade e do domínio, que transformam Deus em instrumento de sucesso, enriquecimento ou conquista de poder. O Reino anunciado por Jesus não promete acumulação nem hegemonia, mas justiça, misericórdia e fidelidade ao Deus que escuta o clamor dos pobres (Ex 3,7).
Jesus caminha à beira do mar da Galileia e chama pescadores. O mar, na simbologia bíblica, representa o caos, o perigo e as forças que ameaçam a vida (Gn 1,2; Sl 69; Sl 107,23-30). Os pescadores vivem na fronteira entre a sobrevivência e o risco, dependentes da natureza e do esforço coletivo. Ao chamá-los, Jesus revela que o Reino nasce no cotidiano do trabalho e da precariedade, e não nos espaços protegidos do poder religioso. O Concílio Vaticano II afirmará que o Filho de Deus trabalhou com mãos humanas e assumiu a condição histórica do ser humano (GS 22), dignificando o trabalho e a vida comum.
O chamado é profundamente relacional: “Vinde após mim”. Não se trata de adesão a um sistema doutrinário ou moral abstrato, mas de seguimento de uma pessoa concreta. João expressará isso na linguagem do encontro: “Vinde e vede” (Jo 1,39). Marcos destaca a resposta imediata: “Eles deixaram as redes e o seguiram”. As redes simbolizam o trabalho, mas também as seguranças, os vínculos sociais e os sistemas que nos mantêm presos a uma lógica de sobrevivência individual. Deixar as redes é um gesto de fé, risco e liberdade. Psicologicamente, implica atravessar o medo da perda; filosoficamente, rompe com a repetição do mesmo; espiritualmente, inaugura uma existência aberta à alteridade e à confiança.
Tiago e João deixam o pai no barco. Esse detalhe revela que o Evangelho relativiza até mesmo as estruturas mais sagradas da cultura patriarcal e tradicional. Não se trata de negar a família, mas de deslocar o centro absoluto. Jesus afirmará que sua verdadeira família são aqueles que fazem a vontade do Pai (Mc 3,31-35). Aqui se desmascara tanto o individualismo moderno, que absolutiza o eu, quanto o clericalismo e o institucionalismo religioso, que absolutizam cargos, títulos e hierarquias. No Reino de Deus, o centro não é a instituição, mas Cristo que chama, forma e envia.
Os paralelos sinóticos aprofundam essa compreensão. Mateus (4,18-22) reforça a urgência e a radicalidade do chamado. Lucas (5,1-11) amplia a cena com a pesca milagrosa, introduzindo a experiência do fracasso humano e da confiança na palavra de Jesus. Pedro reconhece sua indignidade: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador”, desmontando qualquer espiritualidade meritocrática ou elitista. João (1,35-42) destaca o papel do testemunho e da mediação comunitária, mostrando que o seguimento nasce da escuta e do encontro.
O Concílio Vaticano II oferece chaves fundamentais para a leitura desse texto. Lumen Gentium afirma que todo o povo de Deus participa da missão profética, sacerdotal e real de Cristo, superando uma visão clericalizada da Igreja. Ad Gentes recorda que a missão não é expansão de poder, mas testemunho do amor de Deus no mundo. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos pobres são também as da Igreja (GS 1), colocando a realidade social no centro da reflexão teológica.
O Documento de Medellín e, posteriormente, o Documento de Aparecida, assumidos pelo CELAM, explicitam que não há discipulado sem compromisso com a justiça e com os pobres. Aparecida afirma que o discípulo missionário é chamado a sair de si, ir às periferias e assumir uma conversão pastoral permanente. O Papa Francisco retoma essa intuição ao insistir numa Igreja em saída, que não se fecha em si mesma nem se acomoda a privilégios (EG 20). Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata e uma religião que se deixa capturar pela lógica do mercado (EG 53-55).
A CNBB, em suas diretrizes e documentos sociais, ecoa essa tradição profética ao denunciar a concentração de renda, a fome, a exclusão social e a negação de direitos básicos. Essa denúncia não é ideológica, mas profundamente evangélica. Marcos 1,14-20 oferece o fundamento dessa postura: o Reino começa na Galileia, entre trabalhadores pobres, e convoca para uma transformação pessoal e estrutural.
A expressão “pescadores de gente” não autoriza práticas de conquista religiosa, marketing da fé ou proselitismo agressivo. Ela deve ser lida à luz da missão libertadora de Deus, que resgata vidas ameaçadas pelas forças do caos social, econômico e espiritual. A fé transformada em mercadoria, vendida em troca de promessas de sucesso, é uma perversão do Evangelho. O Reino não se compra, não se negocia, não se acumula; ele se acolhe e se vive na partilha, como testemunham as primeiras comunidades cristãs (At 2,42-47; At 4,32-35).
Historicamente, essas comunidades compreenderam o seguimento como um projeto alternativo de sociedade, marcado pela fraternidade, pela partilha de bens e pela solidariedade com os mais vulneráveis. Essa memória crítica interpela a Igreja de hoje, frequentemente tentada a se acomodar ao sistema dominante, a buscar prestígio social ou a reduzir o Evangelho a produto religioso.
Marcos 1,14-20 preserva, sem atenuações, sua força profética e sua capacidade de desinstalar consciências. Seguir Jesus hoje continua exigindo rupturas reais: deixar redes de privilégios, barcos ideológicos, seguranças institucionais e alianças com poderes que produzem exclusão, violência e morte. Não se trata de um convite espiritualizado ou genérico, mas de um chamado que atravessa a história concreta e desmascara toda tentativa de acomodação religiosa. A conversão, no horizonte do Evangelho, não admite adiamentos estratégicos nem se reduz a discursos bem-intencionados; ela exige deslocamento, decisão e coragem.
“O tempo se completou” não é uma fórmula piedosa, mas um juízo sobre a história. É o anúncio de que as velhas lógicas perderam legitimidade e de que não há mais espaço para uma fé que negocia com a injustiça ou se refugia em neutralidades cúmplices. “O Reino está próximo” não significa que ele esteja distante da realidade, mas perigosamente perto: tão próximo que desestabiliza privilégios, rompe consensos e questiona toda espiritualidade desvinculada da vida. Por isso, o chamado de Jesus não acontece nos centros do poder religioso ou político, mas nas margens, entre trabalhadores anônimos, onde a sobrevivência depende da rede, do barco e do risco cotidiano.
No início do Tempo Comum, o Evangelho nos recorda que a vida cristã não é repetição ritual nem consumo espiritual, mas resposta cotidiana, concreta e arriscada ao Deus que continua passando pelas margens da história. Ali, onde poucos olham e muitos descartam, Ele segue chamando. Com autoridade que não oprime e ternura que não anestesia, Jesus continua dizendo: “Segue-me”. E esse “segue-me” permanece sendo critério de verdade da fé: quem o escuta de fato não permanece onde está, não conserva tudo como antes e não segue ileso. Seguir Jesus é sempre um êxodo — e nunca uma instalação confortável.
DNonato- Teólogo do Cotidiano


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