sexta-feira, 6 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,20-25

 


Na  sexta-feira  da 7ª  semana  da Páscoa  de 2025 , no texto  Um breve olha sobre João  21, 15-19 escutamos a voz do Ressuscitado junto à fogueira,  lembrando  que  o calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,20-25 é proclamado no sábado da sétima semana da Páscoa, no limiar da Solenidade de Pentecostes. Essa localização não é acidental, mas teologicamente estruturante: a Igreja encerra o Tempo Pascal ouvindo o último trecho do quarto Evangelho exatamente quando se prepara para a efusão do Espírito Santo narrada em At 2,1-13.   Jesus convida Pedro a amar mais profundamente: “Tu me amas? Apascenta minhas ovelhas”.O apóstolo  talvez ainda inseguro, talvez ainda ferido por sua tríplice negação, se inquieta com o destino daquele que estivera tão próximo do Mestre até a cruz. Jesus, porém, responde com firmeza e amor: "Que te importa? Tu, segue-me!". Essa resposta de Jesus não é um mero desvio de assunto; é uma convocação a uma maturidade espiritual que rompe com a lógica da comparação e da competitividade. Numa sociedade marcada pelo narcisismo, pela cultura do desempenho e pela obsessão com status e influência também presentes nas estruturas eclesiásticas e religiosas, o seguimento de Jesus nos chama a nos libertar da vaidade de querermos saber mais sobre o outro do que sobre o nosso próprio caminho. João  21, 20-25  nos  traz  Jesus e comunidade apostólica diante do calor brando das brasas e do peso existencial da missão, Pedro volta o olhar para o discípulo amado.   O Ressuscitado deixa de ser percebido na visibilidade histórica direta para tornar-se presença sacramental, comunitária e pneumática na Igreja. O Evangelho termina como texto escrito, mas não termina como acontecimento. Nas tradições orientais, especialmente na liturgia bizantina, o Evangelho de João é lido como Evangelho da luz, da vida e da nova criação durante todo o tempo pascal. No Ocidente, católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos reconhecem nesse epílogo uma síntese do discipulado, da memória apostólica e da continuidade viva do Cristo na história.
A fogueira acesa pelo próprio Jesus (Jo 21,9). Não é um detalhe trivial. No simbolismo bíblico, o fogo é presença divina, memória da aliança, lugar de epifania e purificação. E essa fogueira da manhã, acesa na luz do dia, dialoga diretamente com outra fogueira: a da noite escura da negação (Jo 18,18). Ali, Pedro aquecia-se no pátio do sumo sacerdote, envolto pelas sombras da noite, tomado pelo medo, pela insegurança, pela pressão social. Ao redor do fogo, negou conhecer Aquele a quem prometera fidelidade até o fim.

Agora, ao amanhecer, Pedro se encontra novamente diante de uma fogueira — mas desta vez, não nas trevas da covardia, e sim na claridade da graça. A noite da traição dá lugar à manhã da reconciliação. O fogo que antes aquecia um coração dividido, agora aquece um coração restaurado. Jesus não o confronta com acusações, mas o reconfigura com amor. E o lugar da queda se torna o lugar do recomeço. A psicologia existencial nos ajuda a compreender que a memória do trauma só é curada quando revisitamos o espaço ferido com um novo sentido. A cena da fogueira matinal revela esse processo espiritual e humano de ressignificação. A pedagogia do Ressuscitado é profundamente simbólica e terapêutica: ele não anula o passado, mas o integra, purifica e transfigura. É no mesmo espaço simbólico que a dor é visitada para se tornar graça. Pedro não apaga a noite que viveu, mas a transforma com o sol da presença de Cristo ressuscitado. Onde antes houve medo, agora há missão. Onde houve negação, agora há apascentamento.

Na raiz da pergunta de Pedro ecoa uma tentação antiga e humana: a de medir nosso valor em relação ao outro. A antropologia nos mostra como o desejo mimético (René Girard) gera rivalidade, conflitos e até violência, quando desejamos não apenas o que o outro tem, mas desejamos ser o outro. A pergunta “E este, que será dele?” carrega não apenas curiosidade, mas a insegurança de quem ainda mede sua própria dignidade pela comparação. O Evangelho, porém, propõe outra lógica: cada discípulo é chamado a seguir Jesus a partir de sua própria história, vocação e resposta. Não há lugar para competição entre irmãos e irmãs no discipulado. O  discípulo amado representa o seguimento silencioso, fiel e contemplativo, que reconhece Jesus no partir do pão, que permanece aos pés da cruz e que não se coloca em evidência, mas testemunha com profundidade. Pedro, por sua vez, representa o seguimento ativo, comunitário, pastoral. Ambos são necessários à Igreja, e nenhum é superior ao outro. A diversidade de carismas e vocações só é fecunda quando está submetida ao único critério do amor: “como eu vos amei” (Jo 13,34)

A compreensão de João 21,20-25 exige o retorno ao conjunto do Evangelho. O prólogo afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), estabelecendo a encarnação como chave hermenêutica de toda a narrativa. Deus não se revela em abstrações, mas na carne, na história, no cotidiano. Jesus atravessa os espaços concretos da vida humana: encontra Nicodemos em Jo 3, dialoga com a samaritana em Jo 4, alimenta multidões em Jo 6, cura o cego de nascença em Jo 9, ressuscita Lázaro em Jo 11, lava os pés dos discípulos em Jo 13 e entrega sua vida na cruz em Jo 19. Quando o Evangelho parece encerrado em Jo 20,30-31, o capítulo 21 reabre a narrativa e reconduz os discípulos à Galileia, ao espaço das redes, do trabalho e da vida ordinária. Esse retorno não é repetição, mas transfiguração: a ressurreição não abandona a história, mas a reorganiza a partir de dentro.

O cenário geográfico é decisivo. O mar da Galileia ou lago de Tiberíades (Lc 5,1; Jo 6,1) situa-se numa região marcada por tensões sociais e econômicas no século I, sob domínio romano e administração herodiana. Pescadores e camponeses viviam sob sistemas de tributação e dependência que frequentemente geravam empobrecimento e vulnerabilidade. Jesus forma sua comunidade nesse contexto periférico. O Reino de Deus não nasce no centro do poder religioso de Jerusalém nem nas estruturas imperiais de Roma, mas entre trabalhadores, pescadores e marginalizados. A encarnação já anunciada em Jo 1,14 continua aqui sua lógica histórica. A narrativa inicia-se com a noite da pesca infrutífera: “Naquela noite nada apanharam” (Jo 21,3). Em João, a noite possui densidade simbólica: Nicodemos procura Jesus à noite (Jo 3,2), Judas sai na noite da traição (Jo 13,30). Agora os discípulos também estão na noite, expressão da experiência humana de vazio, fracasso e desorientação. Essa experiência permanece profundamente atual. O homem contemporâneo vive entre excesso de produção e escassez de sentido. O Eclesiastes já interrogava essa condição ao dizer: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). A psicologia contemporânea descreve esse fenômeno como crise existencial marcada por ansiedade, esgotamento e perda de sentido.

É nesse contexto que o Ressuscitado aparece ao amanhecer (Jo 21,4). A luz rompe a noite como em Gn 1,3, inaugurando uma nova criação. João retoma sua própria teologia da luz: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5) e “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O Ressuscitado não apenas ressuscita, ele recria. Ao chegarem à margem, os discípulos encontram pão, peixe e um fogo aceso (Jo 21,9). O termo anthrakia aparece apenas aqui e em Jo 18,18, quando Pedro nega Jesus. O mesmo fogo da negação torna-se fogo da reconciliação. A memória da queda não é eliminada, mas transfigurada. A espiritualidade cristã não é negação do passado, mas sua cura. Após a tríplice pergunta “Tu me amas?” (Jo 21,15-17), que reverte as três negações de Pedro (Jo 18,15-27), Jesus anuncia o caminho da entrega: “Quando fores velho, estenderás as mãos” (Jo 21,18). O discipulado não é poder, mas fidelidade; não é domínio, mas doação. O Cristo ressuscitado permanece sendo o Cristo crucificado (Mc 8,34; Jo 12,24).

É nesse ponto que surge a pergunta de Pedro: “Senhor, e este?” (Jo 21,21). Essa pergunta revela uma das estruturas mais profundas da experiência humana: a tendência à comparação. Diante da própria vocação, o ser humano desloca o olhar para o outro. Em vez de habitar seu caminho, mede-se pelo caminho alheio. A antropologia e a psicologia contemporâneas reconhecem nesse movimento uma das fontes da ansiedade, da inveja e da desorientação existencial. O próprio Antigo Testamento já advertia contra essa dinâmica (Ex 20,17; Pr 14,30). Jesus responde de forma decisiva: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me” (Jo 21,22). Essa resposta condensa toda a espiritualidade cristã. O discipulado não é comparação, mas fidelidade. O Evangelho termina como começou: com um chamado ao seguimento (Jo 1,43). Seguir não é aderir a uma ideia, mas entrar em um caminho.

Na tradição da Igreja, essa passagem é também compreendida como exortação à humildade e à liberdade interior. A resposta de Jesus desmonta qualquer pretensão de controle sobre a vocação do outro. Ela impede hierarquias espirituais absolutizadas e desautoriza qualquer tentativa de submeter o mistério de Deus a estruturas de domínio humano. O verdadeiro pastoreio não se exerce na verticalidade do poder, mas na horizontalidade do serviço, como o próprio Cristo demonstra no lava-pés de Jo 13,1-15. O Papa Francisco retoma constantemente essa lógica ao afirmar que o pastor deve caminhar com o povo e não acima dele. Essa perspectiva atinge diretamente o clericalismo, entendido como deformação da vida eclesial quando o ministério deixa de ser serviço e se transforma em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recupera a Igreja como Povo de Deus em caminho histórico. Antes da hierarquia está o batismo; antes da autoridade está o discipulado. Quando essa ordem se inverte, a Igreja perde sua configuração evangélica.

A tradição latino-americana aprofundou essa consciência. Conferência de Medellín denunciou estruturas de injustiça social. Conferência de Puebla reconheceu nos pobres o rosto de Cristo. Conferência de Aparecida reafirmou o discipulado missionário e a opção pelos pobres. Essas intuições não são acréscimos externos, mas consequências da encarnação. João 21 também exige discernimento crítico diante do uso instrumental da religião. A Escritura inteira denuncia a fusão entre fé e poder quando esta se converte em instrumento de dominação. Jesus rejeita o poder imperial em Mt 4,8-10, recusa a coroação política em Jo 6,15, entra em Jerusalém sobre um jumento em Mt 21,5 e morre fora das estruturas de poder em Lc 23,33. Sempre que a religião se associa a projetos autoritários, ela se afasta do Crucificado. Da mesma forma, as distorções da teologia da prosperidade e das teologias do domínio devem ser confrontadas. O Evangelho não promete riqueza, mas presença; não promete poder, mas comunhão. Jesus nasce pobre (Lc 2,7), vive sem segurança material (Mt 8,20) e proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20). Tiago denuncia a exploração dos pobres (Tg 5,1-6). O Ressuscitado de João 21 encontra discípulos cansados e redes vazias, oferecendo pão e sentido, não acumulação.

O Evangelho conclui com uma abertura radical: “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez... nem o mundo inteiro poderia conter os livros” (Jo 21,25). Essa afirmação não é apenas hipérbole literária, mas teologia da continuidade. Cristo não cabe no texto porque continua vivo na história. Cada gesto de misericórdia prolonga o Evangelho. Cada comunidade que reparte pão conforme At 2,42-47 continua João. Cada defesa da dignidade humana prolonga a presença do Ressuscitado. Por isso, o Evangelho termina sem fechamento definitivo e com um chamado que atravessa os séculos: “Tu, segue-me:"

  • Segue-me como Abraão em Gn 12,1.
  • Segue-me como Isaías em Is 6,8.
  • Segue-me como Maria em Lc 1,38.
  • Segue-me como os discípulos que deixaram as redes em Mt 4,20.

Segue-me até que o Reino anunciado pelos profetas encontre sua plenitude em Ap 21,1-5, quando Deus enxugará toda lágrima e fará novas todas as coisas. Porque o Evangelho termina, mas a missão continua. O livro fecha suas páginas, mas o Ressuscitado permanece caminhando pelas margens da história, junto aos pobres, aos feridos e aos que ainda regressam da noite trazendo redes vazias e esperança ferida e seguir Jesus é permanecer fiel no meio das contradições da história, sem ceder à lógica do poder, sem cair na comparação, sem transformar a fé em instrumento de dominação.

Seguir  é caminhar na direção da justiça, da misericórdia e da verdade. Assim, o Espírito que se aproxima em Pentecostes não é apenas força extraordinária, mas presença que conduz a Igreja a viver o mesmo caminho do Cristo: serviço, comunhão e fidelidade na história.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, Inspirado no Evangelho, na Teologia da Libertação e na fidelidade ao povo de Deus em sua peregrinação esperançosa.


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