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domingo, 2 de agosto de 2026

Continuemos Gentis, Iluminados e Iluminadores

  • Padre Zezinho Scj, a gratidão de um discípulo formado pela sua missão 

A GOTA D’ÁGUA 

Pe Zezinho scj

A partir do próximo domingo , dia 2 de agosto silenciarei na internet,  na qual  entrei a conselho de bispos e de um  irmão de congregação .   Apenas conversarei com meus 100 catequistas da WhatsApp . Devo isso a eles !   Não sei se voltarei às outras redes sociais .   Cansei de ser chamado “câncer da Igreja”  por pregar a Teologia da Libertação devidamente  corrigida por São João Paulo II em carta de 9.4.1986  sendo eu discípulo do advogado e sociólogo  Padre Dehon ,  lutei em defesa da Doutrina Social da Igreja ( DSI) .   Outros irmãos de outra corrente social gritaram  mais alto do que eu !  Foram 60 anos tentando dialogar sobre catequese católica ! 

Minha simples resposta paterna sobre o jeito de pregar ao microfone virou confronto político e discórdia entre católicos de  diferente corrente e postura pastoral ! 

Não fiquei padre para ouvir o que ouvi e li  no dia 19 de julho ! Quem postou aquele confronto e a maneira como foi postado quis me cancelar e alcançou   seu objetivo !  Reitero minha opinião de que a catequese deve ser sempre gentil , mesmo dizendo verdades exigentes .  

Padre Zezinho scj

Poucas frases conseguem resumir tão bem uma vida inteira. Foi com essas palavras que José Fernandes Oliveira  o Padre Zezinho, SCJ, anunciou, no dia 2 de agosto, Dia das Vocações Sacerdotais, que encerrava sua atuação nas redes sociais leia o texto acima. Não é um gesto de desistência, nem um adeus à missão. É a decisão serena de quem sabe que o Evangelho não depende de uma plataforma para continuar transformando vidas. Os meios de comunicação mudam; a missão permanece. Ao ler sua mensagem, senti tristeza, mas, acima de tudo, gratidão. Gratidão porque sua despedida das redes sociais não representa um silêncio. Quem evangelizou durante tantas décadas por meio da música, dos livros, dos artigos, da rádio, da televisão, das palestras e dos retiros jamais deixará de falar. Sua voz continuará ecoando nas comunidades, nas famílias, nas salas de catequese, nas igrejas e no coração de milhões de pessoas..Na verdade, aquela breve mensagem soou como um verdadeiro testamento espiritual. Padre Zezinho recordou que o púlpito é um lugar sagrado; que o microfone católico existe para anunciar Jesus Cristo, nunca para espalhar ódio, humilhação ou condenação; que o Evangelho pode ser anunciado com firmeza sem perder a delicadeza; e que a verdade nunca precisa ser agressiva para permanecer verdade. 

Ao recordar os Boanerges, os "filhos do trovão", que desejaram fazer cair fogo do céu sobre aqueles que pensavam diferente, Padre Zezinho trouxe à memória a resposta do próprio Jesus, que repreendeu aquele espírito de intolerância. Em tempos marcados por radicalismos, polarizações e discursos violentos, essa reflexão é profundamente evangélica e extraordinariamente atual. Ela nos lembra que o discípulo de Cristo não é chamado a vencer discussões, mas a testemunhar o amor que brota do Evangelho..  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho permaneceu fiel a esse princípio. Sacerdote do Sagrado Coração de Jesus, compositor, escritor, comunicador, pregador e catequista, tornou-se um dos maiores evangelizadores que a Igreja no Brasil conheceu. Sua missão ultrapassou fronteiras. Suas músicas foram traduzidas, gravadas e cantadas por inúmeras comunidades. Seus livros formaram gerações de catequistas, ministros, religiosos, seminaristas, padres e leigos. Seus artigos ensinaram milhares de pessoas a pensar a fé, enquanto seus programas de rádio levaram esperança a incontáveis famílias.

Mais do que produzir canções ou escrever livros, Padre Zezinho ajudou a traduzir para a linguagem do povo a riqueza do Concílio Vaticano II. Mostrou, com palavras simples e profunda fidelidade ao Magistério da Igreja, que ela é chamada a ser Mãe e Mestra, missionária, acolhedora, misericordiosa e profundamente humana. Ensinou que fidelidade ao Evangelho jamais significa intolerância e que a verdade de Cristo caminha sempre de mãos dadas com a caridade..Por isso, sua despedida das redes sociais não é um ponto final. É apenas o encerramento de uma etapa de uma história que continuará sendo escrita na vida daqueles que foram formados por sua missão.

Particularmente  cheguei à Igreja Católica aos 17 anos de idade, na década de 1990. Era um jovem em busca de ideal, de um projeto,  na verdade  buscava Deus,  precisava  de respostas e de um sentido para a vida,  como tantos outros, procurava algo que desse direção à minha existência. Foi na Igreja que encontrei Jesus Cristo e, pouco tempo depois, tive a graça de ser chamado para servir como Ministro da Palavra. Começava ali uma caminhada de fé, de estudo, de oração e de serviço ao povo de Deus..Naquele tempo, eu ainda não imaginava quantas pessoas Deus colocaria em meu caminho para ajudar na minha formação. Entre todas elas, uma ocupa um lugar muito especial: Padre Zezinho.

Conheci primeiro sua voz. Depois vieram as músicas, os livros, os artigos, os LPs, naquele tempo  ainda  era os LPs e as reflexões. Sem perceber, eu estava sendo catequizado por um sacerdote que conseguia unir profundidade teológica, fidelidade à Igreja, amor à Sagrada Escritura, sensibilidade humana, compromisso social e uma linguagem simples, acessível e profundamente cristã..Com o passar dos anos, compreendi que Padre Zezinho nunca foi apenas um compositor,  mas um educador da fé e  nunca foi apenas um cantor.  Ele é  um catequista,  também  nunca foi apenas um escritor,  na  verdade  é  um mestre que ajudava e ajuda  o povo de Deus a pensar, rezar e viver o Evangelho.

Foi por meio de sua obra que descobri uma verdade que levo comigo até hoje: a música também pode evangelizar, pode formar consciências, ensinar teologia, despertar vocações, fortalecer famílias, alimentar a esperança e aproximar as pessoas de Jesus Cristo. Sem exagero, posso dizer que minha formação como jovem católico, como Ministro  leigo comprometido com a Igreja foi profundamente marcada pela riqueza espiritual, humana e catequética de sua missão. Foi ela que ajudou a moldar minha maneira de compreender a fé, viver a Igreja e anunciar o Evangelho.  Foi justamente por isso que, ao saber de sua despedida das redes sociais, senti a necessidade de escrever estas palavras. Não apenas para agradecer por sua trajetória, mas para testemunhar que sua missão continua viva na história de inúmeras pessoas.

 Jamais imaginei que Deus ainda me concederia uma graça maior: encontrá-lo pessoalmente. Antes desse encontro, porém, sua obra já havia se tornado presença constante na minha caminhada de fé. E  sua  obra carrega um convite à conversão, à oração e ao compromisso com o Evangelho. Suas músicas não são apenas melodias bonitas, mas verdadeiras reflexões sobre Deus, sobre a vida humana e sobre a missão cristã no mundo e sem  perceber, fui sendo formado também por suas canções, que acompanharam diferentes momentos da minha história de fé.

Como não  agradecer  ao Mestre Padre Zezinho SCj  as musicas, os textos  aa reflexões  e tudo mais. Como não  lembrar de; 

  • "Maria de Minha Infância"  que despertou em mim um profundo amor filial pela Mãe de Jesus. Por meio daquela canção, Maria deixou de ser apenas uma personagem da história da salvação para tornar-se uma presença materna na minha vida espiritual. 
  •  "Mãe do Céu Morena"  que  me abriu um novo horizonte. A curiosidade despertada por essa música levou-me a conhecer a história de Nossa Senhora de Guadalupe, sua aparição a São Juan Diego e a riqueza espiritual da Padroeira das Américas..Com o passar dos anos, essa descoberta transformou-se em devoção. Hoje, com alegria, posso dizer que sou guadalupano. Minha devoção à Virgem de Guadalupe nasceu, em grande parte, porque essa  canção abriu meu coração para conhecer essa manifestação tão bonita do amor de Deus através de Maria. Talvez Padre Zezinho jamais tenha imaginado quantas histórias semelhantes nasceram por causa dessa música. Na minha vida, ela foi muito mais do que uma composição: tornou-se um caminho de evangelização.
  • "Oração pela Família"  ensinou-me que a família é uma verdadeira Igreja doméstica, onde o amor, o diálogo, o perdão e a oração sustentam a vida cotidiana. Em tempos de tantas dificuldades para as famílias, essa canção continua lembrando que a presença de Deus dentro do lar é fonte de força e esperança.
  • "Família do Brasil" ampliou meu olhar, mostrando que o Evangelho não se limita às paredes de nossas casas. A família cristã também possui uma responsabilidade diante da sociedade, chamada a promover o cuidado com o próximo, a solidariedade e o compromisso com o bem comum.
  • "Jovem Galileu". Nela encontrei um Jesus próximo, humano e amigo, capaz de caminhar ao lado dos jovens e continuar fazendo o mesmo convite de sempre: "Vem e segue-me." Não era um Cristo distante, mas o Mestre que chama cada pessoa para uma vida nova.
  • Cristo Inconstante e Meu Cristo Jovem, lançado em dois  LPs de reflexão, obras que guardo com especial carinho. Elas ajudaram-me a compreender que seguir Jesus exige conversão permanente.
São músicas que não oferecem uma fé superficial, mas provoca perguntas, desperta  a consciência e convida  a um cristianismo autêntico, no qual aquilo que professamos precisa estar unido àquilo que vivemos.  Padre Zezinho também me ensinou que a espiritualidade cristã não pode ignorar o sofrimento humano.

  •  Em "País Paraplégico", conheci uma dimensão muito pessoal de sua história. Ao transformar a experiência vivida com seus pais em uma reflexão sobre dignidade, perseverança, amor e esperança, mostrou que a dor, quando iluminada pela fé, pode tornar-se testemunho.
  • Em "Briga com Deus", encontrei uma das mais belas expressões da dor humana transformada em oração. Ao narrar o sofrimento de pais que perderam um filho, mostrou que a fé não elimina as lágrimas nem proíbe as perguntas. Como Jó, Jeremias e tantos salmistas, também podemos apresentar nossas dores diante de Deus. Essa canção ensinou-me que até o silêncio de Deus pode se transformar em lugar de encontro com Ele.

Outras músicas ampliaram meu olhar sobre as exigências do Evangelho. 

  • " Mais um Irmão" despertou em mim a consciência de que seguir Cristo significa defender a vida, promover a paz e reconhecer a dignidade de toda pessoa humana. 
  • "Menores Abandonados" fez-me compreender que a opção pelos pequenos, pelos pobres e pelos esquecidos pertence ao coração da Boa-Nova anunciada por Jesus.
  • "A Verdade Vos Libertará" e "A Verdade é Bem Maior" ensinaram-me que a verdade do Evangelho está acima de nossas preferências pessoais, ideológicas ou partidárias. Cristo continua sendo a Verdade que liberta e conduz à verdadeira liberdade.
Em muitos momentos da minha vida no silêncio vem a mente 

  • "Estou Pensando em Deus" transformou-se em oração. 
  • "Chuva no Telhado" mostrou-me que Deus também se revela na simplicidade do cotidiano,  quando  chove e estou bem abrigafo e meu irmão  sem um lugar para  morar,  nos pequenos gestos e no silêncio.
  •  "Quando Jesus Passar" fortaleceu minha esperança, lembrando-me de que um encontro verdadeiro com Cristo é capaz de transformar completamente uma existência.
  • "Amar Como Jesus Amou" tornou-se, para mim, uma síntese do próprio Evangelho: não existe verdadeira espiritualidade cristã sem amor, porque o amor é o caminho deixado por Jesus.
Entre tantas canções, "Utopia" ocupa um lugar especial me faz lembrar do meu pai, da minha mae  e irmãs e irmãos.  As  canções  alimentaram  em mim o sonho de uma Igreja mais fraterna, misericordiosa, missionária e fiel ao Evangelho; uma Igreja que dialoga sem perder sua identidade, acolhe sem abandonar a verdade e anuncia Cristo sem transformar o altar em tribunal.

Na  mensagem com que Padre Zezinho se despede das redes sociais, reconheci exatamente essa mesma esperança. É a continuidade de tudo aquilo que ele sempre cantou, escreveu e testemunhou ao longo da vida e  é  assim que compreendo que Padre Zezinho nunca escreveu simplesmente canções religiosas. Fez teologia em linguagem popular, transformou poesia em catequese, música em evangelização e arte em formação humana e cristã.  Milhões de pessoas aprenderam a rezar, a amar a Igreja e a seguir Jesus Cristo por meio de sua missão e  posso afirma que: Eu sou uma delas.

Depois de tantos anos de caminhada ouvindo suas músicas, lendo seus livros e sendo formado por suas reflexões, Deus concedeu-me uma graça que guardo com profundo carinho: conhecer pessoalmente Padre Zezinho. Nas celebrações do Jubileu de Ouro da criação da Diocese de Nova Iguaçu em 2010, tive a alegria de participar de um momento que jamais esquecerei. Fui responsável por conduzi-lo ao local do show comemorativo daquele jubileu e traze-lo,  esta no palco fazendo a algumas fotos pra Diocese. Para muitos, poderia parecer apenas uma tarefa de organização, mas para mim, porém, foi um presente de Deus.

Ali, eu não estava simplesmente acompanhando um sacerdote conhecido em todo o Brasil, estava convivendo, ainda que por poucas horas, com alguém que já fazia parte da minha história de fé muito antes daquele encontro. As canções que marcaram minha juventude, os livros que alimentaram minha formação e as reflexões que tantas vezes iluminaram meu caminho agora ganhavam o rosto de uma pessoa que eu podia ouvir, observar e conhecer de perto, e era mesmo padre, alguém  perto  e real.  Ele não  é  personagem  de palco, ele é   único 

Aqueles  dias ficaram  gravado em minha memória não apenas pelo evento, pelo palco ou pela multidão que aguardava sua chegada, mas, sobretudo, pelos momentos simples que compartilhamos. Sentamo-nos à mesma mesa no café da manhã, no almoço e no jantar,  nao teve ego de pop star. Foi justamente nessa convivência cotidiana que confirmei aquilo que durante tantos anos havia percebido em suas obras. Por trás do compositor admirado, do escritor reconhecido e do evangelizador que alcançou milhões de pessoas havia um sacerdote simples, acolhedor e profundamente humano. Ele conversava com naturalidade, tratava todos com respeito e demonstrava uma serenidade que não precisava de discursos para se revelar, a simplicidade que transparecia em suas músicas também estava presente em seus gestos.

Guardo com especial carinho uma lembrança daquele café da manhã. Em razão do diabetes, Padre Zezinho comentou sobre os cuidados com a alimentação e disse, de maneira muito espontânea, que o açúcar era um veneno no café da manhã e que todo excesso acaba fazendo mal. À primeira vista, parecia apenas uma observação sobre hábitos alimentares,  no entanto, aquela frase carregava uma sabedoria que ia muito além da mesa, quando tomo café e coloco açúcar. Lembro dessa frase e naquele instante compreendi, mais uma vez, que a fé cristã toca a vida concreta. Ela se manifesta também nas pequenas escolhas, no equilíbrio, na prudência, no cuidado consigo mesmo e com os outros...Era a mesma coerência que eu encontrava em seus livros e canções: um Evangelho vivido no cotidiano, sem artificialismos, sem espetáculo e sem distância da realidade.

Ao final daquele dia, saí com uma certeza ainda mais profunda: A grandeza de uma pessoa não se mede apenas pelo número de livros escritos, de discos gravados ou de pessoas que a conhecem. Mede-se, sobretudo, pela maneira como ela trata quem está ao seu lado quando os holofotes não estão acesos.

O Padre Zezinho que encontrei naquele jubileu era exatamente o mesmo que eu conhecia por meio de suas músicas: um homem de fé, sensível ao sofrimento humano, apaixonado por Jesus Cristo e comprometido com a missão de evangelizar..Não havia diferença entre o sacerdote do palco e o sacerdote da mesa; entre o comunicador admirado e o homem simples do convívio cotidiano. Essa coerência talvez seja um dos maiores testemunhos que sua vida oferece à Igreja e por isso, quando  leio a  sua decisão de deixar as redes sociais, lembrei-me imediatamente daquele dia. Compreendi que os instrumentos de comunicação podem mudar, mas o testemunho permanece. As redes sociais deixam de receber suas publicações, mas sua presença continua viva em cada comunidade que canta suas músicas, em cada catequista que utiliza seus livros, em cada jovem que reencontra a esperança por meio de suas palavras e em cada família que aprende, com suas canções, que amar é o caminho do Evangelho.

Sua  vida inteiramente dedicada a Cristo não termina quando uma atividade chega ao fim. Ela continua produzindo frutos na existência de todos aqueles que foram alcançados pelo testemunho de quem viveu para anunciar o Reino de Deus. É por isso que Padre Zezinho não está encerrando uma missão. Apenas conclui uma etapa de um ministério que continuará ecoando na memória, na fé e no coração de milhões de pessoas.

Ao chegar ao fim desta homenagem, percebo que ela fala tanto sobre Padre Zezinho quanto sobre a ação de Deus na minha  vida  e daqueles que ele ajudou a formar. Quando olho para minha própria caminhada, reconheço que muitas das sementes lançadas em meu coração chegaram por meio de sua missão.  Deus serviu-se de suas canções, de seus livros, de seus artigos e de seu testemunho sacerdotal para fortalecer minha fé, ampliar minha compreensão do Evangelho e ensinar-me que seguir Jesus Cristo é um caminho de conversão permanente.  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho mostra  a milhares de pessoas que é possível anunciar a verdade sem abrir mão da caridade, defender a fé sem transformar o altar em tribuna de ataques e exercer uma voz profética sem perder a ternura.

Vivemos  tempos em que tantos utilizam a religião para alimentar divisões, ressentimentos e intolerâncias, seu testemunho permanece como um convite a redescobrir o coração do Evangelho: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Foi ouvindo suas canções, lendo seus livros e acompanhando suas reflexões que compreendi, cada vez mais, que a Igreja é chamada a ser sinal de comunhão, misericórdia e esperança. Uma Igreja que acolhe sem relativizar a verdade, que corrige sem humilhar, que evangeliza sem condenar e que jamais deixa de enxergar, em cada pessoa, um filho amado de Deus. Essa talvez seja uma das maiores marcas de sua missão. Padre Zezinho nunca apresentou um cristianismo baseado no medo, na agressividade ou na exclusão. Sempre apontou para uma fé profundamente humana porque profundamente enraizada no Evangelho. Por isso, sua voz continuará necessária, mesmo que já não esteja presente diariamente nas redes sociais.

Obrigado, Padre Zezinho, por tudo o que o senhor plantou na Igreja do Brasil e além de suas fronteiras, pelas canções que se transformaram em oração, pelos livros que se transformaram em formação, pelos artigos que despertaram reflexão, pelas palavras que iluminaram consciências e pelo testemunho sacerdotal que mostrou que é possível permanecer fiel a Cristo sem perder a simplicidade, a sensibilidade e a humanidade,  por ter ajudado a formar minha caminhada de fé desde aquele jovem de dezessete anos que chegou à Igreja em busca de sentido para a vida e encontrou, no serviço como Ministro da Palavra, uma vocação de leigo comprometido com o Reino de Deus. 

Obrigado!

Hoje, olhando para trás, reconheço, com profunda gratidão, que uma parte importante dessa história também foi construída pela sua presença. Peço ao Sagrado Coração de Jesus, a quem Padre Zezinho consagrou sua vida como religioso dehoniano, que continue sustentando sua saúde, sua paz e sua missão. Peço também à Virgem de Guadalupe, cuja devoção floresceu em meu coração por meio de uma de suas canções, que continue intercedendo por sua caminhada com ternura de Mãe.

Padre Zezinho deixa as redes sociais, mas permanece onde sempre esteve: na memória agradecida da Igreja, nas comunidades que continuam cantando suas músicas, nos catequistas que formam novas gerações, nas famílias que rezam inspiradas por suas composições e no coração de milhões de pessoas que aprenderam, por meio de sua missão, que anunciar Jesus Cristo é anunciar também a misericórdia, a verdade e o amor.

Os verdadeiros evangelizadores não desaparecem quando deixam os holofotes. Permanecem vivos nas vidas que ajudaram a transformar, na fé que despertaram, nas vocações que inspiraram e nas sementes do Reino que lançaram ao longo do caminho.

Muito obrigado, Padre Zezinho.

Que Deus continue abençoando sua vida e recompense, com a abundância de sua graça, todo o bem que o senhor realizou e continua realizando na Igreja. E que suas palavras, que atravessaram gerações e chegaram ao coração de tantas pessoas, continuem ecoando como um convite para todos nós:

"Continuemos gentis, iluminados e iluminadores."

DNonato - Ainda aprendendo a amar como Jesus amou.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,36-43

A explicação da parábola do joio entre o trigo, registrada em Mateus 13,36-43, ocupa um lugar privilegiado na tradição litúrgica da Igreja porque constitui a interpretação dada pelo próprio Jesus a uma de suas parábolas mais densas sobre o Reino de Deus. No Lecionário Romano da Igreja Católica, esta perícope é proclamada anualmente na terça-feira da décima sétima semana do Tempo Comum, no ciclo ferial, depois de a Igreja ter proclamado a parábola do joio (Mt 13,24-30) no sábado da décima sexta semana do Tempo Comum. Ela também integra o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A (Mt 13,24-43, ou Mt 13,24-30 na forma breve), juntamente com as parábolas do grão de mostarda e do fermento, proclamada  na segunda-feira  da  17ª  semana  do Tempo Comum Mateus 13, 31-35   oferecendo uma ampla catequese sobre o Reino dos Céus.  A proclamação desse texto no 16º Domingo do Tempo Comum e sua distribuição para a proclamação no sábado  da 16ª Semana do Tempo Comum e na segunda-feira e na terça-feira da 17ª Semana do Tempo Comum, no calendário litúrgico ferial, têm como propósito levar os fiéis a refletir, de forma detalhada, sobre o Reino dos Céus. Essa pedagogia é aplicada da seguinte forma: 
  • Primeiro, a comunidade escuta a parábola do joio
  • Segundo  contempla as parábolas do grão de mostarda e do fermento, que revelam o crescimento silencioso e transformador do Reino
  • Terceiro recebe do próprio Cristo a interpretação da parábola do joio. 
A Igreja respeita, assim, o ritmo do próprio Evangelho, conduzindo gradualmente os fiéis à compreensão dos mistérios do Reino. As Igrejas Ortodoxas Bizantinas também utilizam esse conjunto de parábolas em sua tradição litúrgica, especialmente nos domingos dedicados aos ensinamentos sobre o Reino dos Céus. Da mesma forma, as tradições Anglicana, Luterana, Reformada, Metodista e outras Igrejas históricas conservam esse texto em seus lecionários, normalmente durante o período após Pentecostes ou no Tempo Comum, reconhecendo nele uma das mais importantes reflexões evangélicas sobre o discernimento, a paciência divina e o juízo de Deus.

Convém observar que a parábola do joio entre o trigo e sua explicação constituem uma tradição exclusiva do Evangelho de Mateus. Diferentemente da parábola do semeador, do grão de mostarda e do fermento, preservadas também por Marcos e Lucas (Mc 4,1-20.30-32; Lc 8,4-15; 13,18-21), a narrativa do joio (Mt 13,24-30) e sua interpretação (Mt 13,36-43) pertencem à teologia própria do primeiro evangelho. Isso não significa isolamento, mas aprofundamento. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce por si mesma (Mc 4,26-29), exclusiva de sua tradição, ressaltando o crescimento misterioso do Reino; Lucas enfatiza a misericórdia de Deus e a universalidade da salvação; Mateus contempla de modo particular a convivência dramática entre o bem e o mal na história, insistindo na paciência divina e na certeza do juízo escatológico. Os três evangelistas convergem ao anunciar que o Reino já está presente, embora sua manifestação plena permaneça como esperança futura. A perícope de Mateus 13,36-43 não pode ser compreendida isoladamente. Ela nasce de um longo processo narrativo cuidadosamente construído pelo evangelista. Depois da crescente oposição das autoridades religiosas contra Jesus, especialmente a partir do capítulo 12, quando os fariseus decidem eliminá-lo (Mt 12,14), o Mestre passa a ensinar preferencialmente por meio de parábolas. Não se trata apenas de um recurso pedagógico. As parábolas revelam e escondem ao mesmo tempo: iluminam aqueles que se abrem à Palavra e permanecem enigmáticas para quem endureceu o coração. Cumpre-se, assim, a profecia de Isaías: "Ouvireis, mas não entendereis; olhareis, mas não vereis" (Is 6,9-10; Mt 13,14-15). A linguagem parabólica manifesta que o Reino não se impõe pela força, mas exige abertura interior, conversão e disposição para abandonar antigas formas de pensar Deus, o mundo e a própria religião.

Antes da explicação da parábola, Jesus já havia contado a parábola do semeador (Mt 13,1-23), a do joio (Mt 13,24-30), a do grão de mostarda (Mt 13,31-32) e a do fermento (Mt 13,33), encerrando essa primeira série de ensinamentos com a citação do Salmo 78,2: "Abrirei a boca em parábolas; proclamarei coisas escondidas desde a fundação do mundo" (Mt 13,34-35). Mateus apresenta Jesus como aquele que revela os mistérios do Reino ocultos desde a criação, mostrando que toda a história da salvação encontra nele seu pleno sentido. A explicação da parábola acontece somente depois que Jesus deixa a multidão e entra na casa. Esse detalhe, aparentemente simples, possui grande força simbólica. A multidão permanece às margens do lago, enquanto os discípulos entram na intimidade da casa. Na tradição bíblica, a casa representa o espaço da comunhão, da família da fé, da escuta e da formação. É nesse ambiente de proximidade que Jesus revela o significado profundo da parábola. A revelação exige convivência. Não basta ouvir Jesus de longe; é preciso permanecer com Ele, perguntar, escutar e deixar-se formar por sua Palavra.

O pedido dos discípulos revela uma atitude fundamental da espiritualidade cristã: "Explica-nos a parábola do joio do campo" (Mt 13,36). Diferentemente das lideranças religiosas que julgavam possuir todas as respostas, os discípulos reconhecem seus limites. A humildade intelectual e espiritual torna-se condição indispensável para compreender os mistérios do Reino. Toda autêntica exegese começa pela consciência de que a Palavra de Deus é sempre maior do que nossas interpretações e não pode ser aprisionada por sistemas ideológicos, interesses particulares ou leituras fundamentalistas. Jesus inicia sua explicação identificando cada elemento da parábola: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do Maligno; o inimigo que o semeou é o diabo; a colheita é o fim dos tempos; os ceifeiros são os anjos" (Mt 13,37-39). Chama a atenção que o campo não representa a Igreja, mas o mundo inteiro. A missão do Reino nunca esteve confinada aos limites institucionais da comunidade eclesial. Deus continua semeando sua vida em toda parte, inclusive onde muitos imaginam que Ele esteja ausente. O título "Filho do Homem" remete diretamente à visão de Daniel 7,13-14, onde aquele que vem sobre as nuvens recebe de Deus um reino eterno fundamentado na justiça. Mateus apresenta Jesus como o verdadeiro Filho do Homem que inaugura esse Reino esperado por Israel. Contudo, seu reinado manifesta-se de maneira surpreendente: não elimina imediatamente o mal nem destrói os pecadores, mas continua semeando vida, esperança e misericórdia em meio às ambiguidades da história.

O cenário agrícola descrito por Jesus corresponde fielmente à realidade da Palestina do primeiro século. O joio, provavelmente identificado com a planta Lolium temulentum, era extremamente semelhante ao trigo durante boa parte de seu desenvolvimento. Somente quando ambos amadureciam tornava-se evidente a diferença entre eles. Arrancar o joio antes do tempo significava colocar em risco toda a plantação, pois suas raízes se entrelaçavam às do trigo. O ensinamento de Jesus nasce da observação concreta da vida camponesa. Seu Evangelho nunca é abstrato. Deus fala através da terra, das sementes, das estações, da chuva, do trabalho dos agricultores e da experiência cotidiana do povo..No antigo Oriente, a agricultura estruturava praticamente toda a organização econômica e social. Uma colheita perdida significava fome, endividamento, escravidão e, muitas vezes, morte. O trigo era muito mais do que alimento; representava vida, futuro e sobrevivência coletiva. Assim, quando Jesus fala de uma plantação ameaçada, seus ouvintes compreendem imediatamente a gravidade da situação. O Reino não é apresentado como uma teoria religiosa, mas como aquilo que sustenta a existência humana em todas as suas dimensões.

Entretanto, a parábola introduz um elemento desconcertante: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O mal aparece como ação clandestina, silenciosa e parasitária. Ele não cria nada. Apenas corrompe aquilo que Deus já criou como bom. Desde o Gênesis, a Escritura insiste que toda a criação saiu boa das mãos do Criador (Gn 1,31). O mal não possui existência própria nem poder criador. Ele vive da falsificação, da mentira e da distorção. Como afirma Jesus em outro contexto, o diabo é "pai da mentira" (Jo 8,44). A imagem revela uma verdade permanente sobre a experiência humana. O mal raramente chega de maneira explícita. Quase sempre apresenta-se disfarçado de bem, de eficiência, de patriotismo, de moralidade, de religiosidade ou de prosperidade. A tentação narrada em Gênesis 3 jamais propõe o mal como mal, mas promete autonomia absoluta, poder e conhecimento. Da mesma forma, as tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11) oferecem soluções aparentemente legítimas para necessidades reais. O discernimento espiritual consiste justamente em aprender a distinguir aquilo que parece bom daquilo que verdadeiramente conduz à vida.

É significativo que os servos desejem arrancar imediatamente o joio. A lógica humana prefere respostas rápidas, condenações sumárias e soluções violentas. A lógica divina, porém, é diferente. O senhor responde: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Esta resposta não significa indiferença diante do mal nem relativização da justiça. Significa reconhecer que os seres humanos possuem enorme dificuldade para julgar definitivamente o coração das pessoas. A precipitação frequentemente destrói vidas inocentes em nome de uma suposta pureza.

Ao longo da história bíblica, Deus revela repetidamente esta paciência. Espera por Caim antes de condená-lo (Gn 4,6-7), oferece inúmeras oportunidades de conversão a Israel através dos profetas, envia Jonas para anunciar misericórdia a Nínive (Jn 3,1-10) e faz nascer o sol sobre justos e injustos (Mt 5,45). Como recorda o livro da Sabedoria, "mostras tua força sendo paciente" (Sb 12,16-19). A verdadeira onipotência divina manifesta-se mais na misericórdia do que na destruição.

Essa paciência de Deus constitui uma crítica permanente a toda forma de fundamentalismo religioso. Sempre que grupos humanos se arrogam o direito de separar definitivamente os bons dos maus, os puros dos impuros, os salvos dos condenados, acabam ocupando um lugar que pertence somente ao Senhor da história. Jesus conheceu essa tentação entre alguns fariseus, entre setores rigoristas do judaísmo e até mesmo entre seus discípulos, que desejavam fazer descer fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54-56). Sua resposta permanece atual para toda comunidade cristã que transforma a fé em instrumento de exclusão em vez de caminho de conversão. É precisamente aqui que a parábola começa a iluminar o nosso tempo: ela denuncia o mal com clareza, mas recusa transformar pessoas em objetos descartáveis. A justiça de Deus jamais se separa da misericórdia, e sua misericórdia nunca elimina a exigência da verdade. Nessa tensão fecunda entre justiça e compaixão começa a revelar-se o verdadeiro rosto do Reino dos Céus.  A explicação da parábola prossegue afirmando: "Assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, assim acontecerá no fim dos tempos. O Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que são causa de pecado e os que praticam a iniquidade" (Mt 13,40-41). Essas palavras exigem uma leitura hermenêutica cuidadosa para que não sejam reduzidas a uma linguagem de medo nem utilizadas como instrumento de ameaça religiosa. Ao longo da história, não foram poucas as interpretações que enfatizaram apenas o aspecto punitivo desta passagem, produzindo espiritualidades marcadas pelo temor diante de Deus. Entretanto, quando lida no conjunto do Evangelho de Mateus, a imagem do juízo aparece como expressão da justiça restauradora de Deus, que não permite que a violência, a mentira e a opressão tenham a última palavra sobre a história.

O Evangelho de Mateus apresenta, do início ao fim, um Deus comprometido com a justiça dos pequenos. O nascimento de Jesus já acontece sob a perseguição de Herodes (Mt 2,13-18). No Sermão da Montanha, são proclamados felizes os pobres, os mansos e os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,3-10). Mais adiante, Jesus identifica-se com quem tem fome, sede, está doente, preso ou é estrangeiro (Mt 25,31-46). Assim, quando a parábola anuncia que Deus removerá tudo aquilo que produz injustiça, ela não alimenta o desejo de vingança, mas oferece esperança às vítimas da história. O Reino não consiste apenas em consolar os que sofrem, mas também em desmantelar definitivamente tudo aquilo que produz sofrimento. A expressão "os que são causa de pecado" traduz o termo grego skándala, que designa armadilhas, obstáculos e tudo aquilo que faz alguém tropeçar no caminho da vida. O pecado, portanto, não aparece apenas como ato individual, mas também como realidade estrutural. Essa perspectiva encontra profunda ressonância na Doutrina Social da Igreja. São João Paulo II, na Sollicitudo Rei Socialis, fala das "estruturas de pecado"; o Catecismo da Igreja Católica recorda que o pecado gera situações sociais contrárias ao projeto de Deus; e o Documento de Aparecida denuncia estruturas econômicas, culturais e políticas que produzem exclusão, miséria e morte, incompatíveis com o Reino anunciado por Cristo.

Essa compreensão impede reduzir o Evangelho a uma espiritualidade intimista. O joio cresce não apenas no coração humano, mas também nas instituições, nas economias, nos sistemas políticos e até mesmo nas organizações religiosas. Sempre que uma estrutura produz exclusão permanente, desprezo pelos pobres, racismo, violência, destruição ambiental, exploração econômica ou manipulação das consciências, manifesta algo da lógica do joio infiltrado no campo do mundo. A denúncia profética da Escritura nunca separa pecado pessoal de pecado social. Amós condena os que compram o pobre por um par de sandálias (Am 8,4-7); Isaías denuncia governantes que fazem leis injustas (Is 10,1-2); Miqueias acusa os que acumulam terras expulsando famílias de suas propriedades (Mq 2,1-2); Jeremias combate uma religião que frequenta o templo enquanto oprime órfãos, viúvas e estrangeiros (Jr 7,1-15). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer leitura da parábola que ignore a dimensão social do pecado permanece incompleta. O Filho do Homem não vem apenas julgar indivíduos isolados, mas confrontar toda realidade que transforma pessoas em objetos descartáveis. Em nossos dias, isso inclui economias que absolutizam o lucro acima da dignidade humana, políticas que alimentam o ódio para preservar privilégios, sistemas de comunicação que lucram com a mentira e culturas que naturalizam a desigualdade como se fosse vontade divina. O Reino de Deus confronta tudo aquilo que impede a vida de florescer em abundância (Jo 10,10).

Essa crítica alcança também determinadas formas de religião. Ao longo da história, a fé foi frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder. O Deus libertador do Êxodo foi transformado em garantia dos faraós de cada época, e a cruz de Cristo chegou a ser utilizada para justificar guerras, colonialismos e perseguições. Ainda hoje, sempre que o Evangelho é identificado automaticamente com projetos partidários, ideológicos ou nacionalistas, perde-se de vista a soberania de Deus para colocá-la a serviço de interesses humanos. Jesus jamais permitiu essa instrumentalização. Quando tentaram fazê-lo rei segundo expectativas nacionalistas, retirou-se sozinho para a montanha (Jo 6,15). Diante de Pilatos, declarou que seu Reino "não é deste mundo" (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo a lógica da dominação, da violência e da imposição. Isso não significa alienação da vida pública, mas afirma que toda política deve estar submetida ao serviço do bem comum, da justiça e da dignidade humana. Essa perspectiva exige discernimento também diante das expressões religiosas que absolutizam líderes, transformam ministros em figuras incontestáveis ou confundem fidelidade ao Evangelho com obediência cega a pessoas. O clericalismo, tantas vezes denunciado pelo Magistério contemporâneo, representa precisamente essa deformação. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, recuperou a imagem da Igreja como Povo de Deus, no qual todos os batizados participam da missão de Cristo segundo a própria vocação. Em continuidade com esse ensinamento, o Papa Francisco advertiu repetidas vezes que o clericalismo infantiliza os leigos, concentra poder e enfraquece a corresponsabilidade eclesial. Onde o serviço se transforma em privilégio e a autoridade perde sua dimensão de diaconia, o joio cresce silenciosamente entre o trigo.

Hoje  voltamos a ideia do  farisaísmo, só  tem bênção se tiver sucesso  financeiro com a  teologia da prosperidade  que  desloca o centro do Evangelho. Jesus nunca prometeu riqueza como sinal automático da bênção divina. Ao contrário, advertiu que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), chamou felizes os pobres (Lc 6,20), alertou para o perigo das riquezas (Mc 10,23-27) e viveu ele próprio na simplicidade. Quando a fé é transformada em mecanismo para obtenção de sucesso financeiro ou ascensão social, o Reino deixa de ser dom gratuito para converter-se em produto religioso. Desaparece a centralidade da cruz, enfraquece-se a solidariedade e os pobres acabam sendo responsabilizados por sua própria condição, em flagrante oposição à lógica das Bem-aventuranças. Ainda temos o perigo  das chamadas teologias do domínio contradizem a pedagogia do Reino. Jesus apresenta o Reino como fermento escondido na massa (Mt 13,33), como grão de mostarda (Mt 13,31-32) e como semente que cresce silenciosamente (Mc 4,26-29). Sua força reside na transformação interior das pessoas e das relações humanas, nunca na imposição autoritária ou na conquista de poder. Sempre que a religião procura controlar consciências ou identificar a vontade de Deus com interesses ideológicos, distancia-se do caminho percorrido por Cristo. Hoje  mais que  ontem, torna-se necessário discernir criticamente qualquer forma de instrumentalização política da fé.

 O Evangelho não pode ser instrumento  de poder  ou ser identificar  com projetos de poder da  direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente ideológica. Sua liberdade profética impede que seja reduzido aos interesses de partidos ou governos. Exatamente por essa liberdade, porém, o Evangelho denuncia toda proposta política que absolutize o poder, despreze os pobres, relativize a dignidade humana, incentive a violência, destrua a democracia, negue direitos fundamentais ou transforme adversários em inimigos absolutos. A missão profética da Igreja consiste em iluminar a história à luz do Reino de Deus, jamais em servir como instrumento de dominação. Essa compreensão encontra sólido fundamento no Magistério contemporâneo: 

  • A Evangelii Gaudium denuncia a mundanidade espiritual, a economia da exclusão e a cultura do descarte (EG 53-60; 93-97; 120). 
  • A Fratelli Tutti propõe a fraternidade universal como resposta às polarizações e aos nacionalismos excludentes.
  •  Medellín denunciou a violência institucionalizada da miséria
  •  Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; 
  • Santo Domingo insistiu na promoção integral da pessoa humana
  • Aparecida reafirmou que a evangelização não pode ser separada do compromisso com a justiça.
  •  A CNBB,  na carta ao Povo e  outros  em numerosos documentos, recorda que a missão evangelizadora inclui a defesa da democracia, dos direitos humanos, da paz e da dignidade de toda pessoa humana.

É importante notar que a parábola não autoriza ninguém a identificar previamente quem é trigo e quem é joio. Essa decisão pertence exclusivamente ao Senhor da colheita. Sempre que pessoas ou comunidades pretendem ocupar esse lugar, acabam reproduzindo justamente aquilo que Jesus proibiu. O discernimento cristão consiste em denunciar o pecado sem negar a possibilidade permanente da conversão. Saulo tornou-se Paulo; Pedro, que negara Jesus, tornou-se testemunha da Ressurreição; Zaqueu abandonou a exploração econômica (Lc 19,1-10); a mulher pecadora encontrou perdão (Lc 7,36-50); o bom ladrão recebeu a promessa do paraíso (Lc 23,43). Enquanto há história, permanece aberta a possibilidade da graça.  A expressão "filhos do Maligno" deve ser compreendida à luz da linguagem apocalíptica do judaísmo do século I, jamais como afirmação de que determinadas pessoas tenham sido criadas por Deus para a perdição. Toda a Escritura testemunha o contrário: Deus não tem prazer na morte do pecador (Ez 18,23.32), quer que todos sejam salvos (1Tm 2,4) e é paciente, desejando que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). A parábola descreve escolhas históricas, não destinos previamente determinados.

Somos chamados  a esperançar  e isso  que impede tanto o desespero quanto a ingenuidade e  o Evangelho reconhece a gravidade do mal, mas proclama que a misericórdia continua oferecendo novos começos, se  faz necessário  reconhecer  que a  paciência de Deus não é cumplicidade com a injustiça, mas tempo concedido para que o trigo amadureça e para que o joio, enquanto ainda é tempo, possa ser transformado pela força surpreendente da conversão. É nessa tensão entre verdade e misericórdia, justiça e esperança, juízo e graça que Mateus prepara o leitor para contemplar, na pessoa de Jesus crucificado e ressuscitado, a vitória definitiva do Reino de Deus sobre todas as formas de morte que ainda insistem em crescer no campo da história. A explicação da parábola alcança seu ponto culminante quando Jesus afirma: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça" (Mt 13,43). A conclusão parece simples, mas encerra uma das mais belas promessas de toda a Escritura. O verbo "brilhar" remete diretamente à visão de Daniel: "Os que tiverem conduzido muitos à justiça brilharão como as estrelas para sempre" (Dn 12,3). Mateus estabelece conscientemente essa ligação para afirmar que a esperança escatológica de Israel encontra seu cumprimento em Cristo. O destino último da humanidade não é a destruição, mas a participação na própria luz de Deus. A história não caminha para o triunfo das trevas, mas para a manifestação plena da vida divina. O juízo não constitui o último ato de um Deus irado, mas o momento em que toda mentira será desfeita, toda violência será vencida e toda lágrima será enxugada, como anunciará também o Apocalipse: "Ele enxugará toda lágrima de seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor" (Ap 21,4)..

A imagem da colheita pertence a uma longa tradição profética de Israel; 

  • Joel proclama: "Lançai a foice, porque a colheita está madura" (Jl 4,13), utilizando a ceifa como símbolo do discernimento definitivo de Deus sobre as nações. 
  • Jeremias (Jr 51,33), 
  • Oseias (Os 6,11) 
  •  Isaías (Is 27,12) recorrem à mesma linguagem para anunciar que Deus não abandona a história ao caos, mas conduz todas as coisas à sua plenitude. 
Jesus retoma essas imagens conhecidas de seus ouvintes e lhes confere um significado novo. O juízo não é apresentado como espetáculo de condenação, mas como a restauração definitiva da justiça, da verdade e da vida. Essa perspectiva impede que a escatologia cristã seja reduzida a um discurso sobre o medo do fim do mundo. O Novo Testamento fala do futuro para transformar o presente.

 Quem acredita que Deus fará novas todas as coisas (Ap 21,5) 

Quem acredita, não pode acomodar-se diante da injustiça. A esperança cristã não  pode ser uma alienação; ao contrário, ela deve  gera compromisso histórico. É precisamente porque o Reino definitivo pertence ao Deus da Vida  e  os discípulos são chamados a antecipar seus sinais na história por meio da justiça, da misericórdia, da reconciliação e da paz. O Evangelho de Mateus desenvolve essa convicção ao longo de toda a sua narrativa. Das Bem-aventuranças ao Juízo Final, a fidelidade ao Reino manifesta-se em gestos concretos. Não basta dizer: "Senhor, Senhor" (Mt 7,21); é necessário fazer a vontade do Pai. Não basta conservar a ortodoxia das palavras; é indispensável produzir frutos de justiça. Não basta frequentar o templo; é preciso reconhecer Cristo no faminto, no sedento, no migrante, no enfermo e no encarcerado (Mt 25,31-46). A espiritualidade cristã jamais separa contemplação e compromisso. Quem verdadeiramente encontra Deus descobre inevitavelmente o irmão.

A parábola ainda  revela  um profundo conhecimento da alma humana. Em cada pessoa existe uma tensão permanente entre crescimento e destruição, generosidade e egoísmo, confiança e medo. Nenhum ser humano nasce completamente acabado; a personalidade vai sendo construída pelas escolhas, pelas relações e pelos valores assimilados ao longo da existência. A imagem do trigo crescendo lentamente recorda que a maturidade espiritual exige tempo. Deus não trabalha segundo a lógica da ansiedade, mas segundo o ritmo da vida. A cultura contemporânea, marcada pelo imediatismo e pela busca incessante de resultados rápidos, tem dificuldade para compreender essa pedagogia da paciência. O Reino cresce silenciosamente, como a semente descrita em Marcos 4,26-29, que germina enquanto o agricultor dorme, sem que ele saiba como. Em  todas as sociedades antigas ou atual  existe a tentação de construir identidades por meio da exclusão do outro. Povos, grupos e até religiões, quando adoecem, fortalecem sua identidade criando inimigos permanentes. Jesus rompe radicalmente essa lógica e  critério Dele e  da identidade cristã não é o ódio ao diferente, mas o amor que se faz serviço. O discípulo não é reconhecido por aquilo que combate, mas pela maneira como ama. "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,35).

Essa afirmação adquire especial relevância numa sociedade profundamente marcada pela polarização, pela fragmentação social e pela cultura do confronto permanente. As redes digitais frequentemente amplificam discursos de hostilidade, simplificam problemas complexos e transformam pessoas em caricaturas / memes . Nesse ambiente, torna-se cada vez mais difícil cultivar a escuta, o diálogo e o discernimento, todos querem  viralizar. A parábola do joio recorda que nem tudo o que parece evidente corresponde à verdade,  o discernimento exige paciência, humildade e consciência dos limites do próprio julgamento. Aqui  vale uma  advertência, que serve  igualmente para a vida eclesial. A Igreja corre o risco de perder sua identidade:

  •  Quando se deixa capturar pelas disputas ideológicas do mundo
  • Quando comunidades cristãs organizam sua missão mais em torno de guerras culturais do que do anúncio do Evangelho
  • Quando  buscam  conquista de poder e ignoram  o serviço
  • Quando   defendem  os seu  privilégios e ignora a necessidade da acolhida dos pobres 
Com essaa  atitude  que  o trigo começa a ser sufocado pelo joio da autorreferencialidade. O Concílio Vaticano II oferece um importante antídoto contra esse risco. A Constituição Gaudium et Spes afirma que: 

  •  "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (GS 1)."

E a  Constituição Dei Verbum recorda que Deus continua dialogando com a humanidade através da história e que a Palavra deve ser continuamente acolhida, meditada e encarnada na vida do povo de Deus. Em sintonia com esse ensinamento, o Documento de Aparecida reafirma que toda evangelização autêntica conduz ao encontro pessoal com Jesus Cristo e ao compromisso com a transformação da realidade.  Nesse contexto, a opção preferencial pelos pobres, reafirmada por Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, não constitui uma ideologia, mas nasce da própria cristologia. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres, anunciou a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18), identificou-se com eles (Mt 25,40) e morreu fora dos muros da cidade como um condenado. Uma Igreja que esquece os pobres não apenas perde uma dimensão pastoral; obscurece o próprio rosto de Cristo. Por isso, a denúncia profética das estruturas que geram exclusão não representa um acréscimo sociológico ao Evangelho, mas consequência direta da fidelidade ao Reino. Ao mesmo tempo, essa denúncia conserva sempre sua dimensão espiritual. O combate cristão não se dirige contra pessoas, mas contra tudo aquilo que desfigura nelas a imagem de Deus. São Paulo recorda que "nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados e potestades" (Ef 6,12). O inimigo último do Reino não é um grupo social, um partido, uma nacionalidade ou uma cultura, mas toda força que produz mentira, idolatria, opressão e morte. Sempre que cristãos transformam adversários em inimigos absolutos, esquecem que Cristo morreu também por aqueles de quem discordamos. A cruz destrói toda pretensão de superioridade moral e recorda que todos dependemos igualmente da graça.

Existe ainda uma dimensão profundamente sacramental nesta parábola. O trigo destinado à colheita torna-se, pela ação humana e pela graça divina, pão oferecido sobre o altar. Na Eucaristia, o fruto da terra e do trabalho humano transforma-se no Corpo de Cristo, antecipando sacramentalmente a colheita definitiva do Reino. Aquele que escuta a Palavra participa da Mesa e é enviado novamente ao mundo para semear justiça, paz e misericórdia. A liturgia une inseparavelmente a escuta do Evangelho, a comunhão com Cristo e o compromisso histórico com os irmãos..A explicação da parábola termina com um apelo que atravessa toda a Escritura: "Quem tem ouvidos, ouça." Na tradição bíblica, ouvir significa acolher, obedecer e deixar-se transformar pela Palavra. O maior risco da religião não é a ignorância, mas a surdez espiritual. Podemos conhecer os textos sagrados, dominar conceitos teológicos e participar regularmente das celebrações, permanecendo incapazes de ouvir o clamor dos pobres, o sofrimento dos esquecidos e a voz discreta de Deus que continua falando na história.

A parábola do joio entre o trigo permanece extraordinariamente atual porque recusa tanto o pessimismo quanto a ingenuidade. Reconhece a presença real do mal, mas proclama com igual convicção a soberania de Deus. Denuncia a injustiça sem perder a esperança na conversão. Proclama o juízo sem abandonar a misericórdia. Convida à vigilância sem alimentar o medo. Sobretudo, anuncia que o Reino já está presente, crescendo silenciosamente em meio às ambiguidades da história, aguardando o dia em que Cristo será "tudo em todos" (1Cor 15,28). Enquanto esse dia não chega, a missão da Igreja permanece a mesma: lançar boa semente. Não a semente do medo, mas da esperança; não a do fanatismo, mas do discernimento; não a da intolerância, mas da misericórdia; não a do poder, mas do serviço; não a do privilégio, mas da fraternidade; não a da indiferença diante da pobreza, mas da solidariedade concreta; não a da manipulação religiosa, mas da liberdade dos filhos e filhas de Deus. O discípulo de Jesus é chamado a viver com os pés firmemente plantados na terra da história e o coração voltado para o horizonte do Reino, sabendo que nenhuma força de morte impedirá a colheita preparada pelo Senhor. A última palavra sobre o mundo não pertence ao ódio, à violência, ao autoritarismo, ao clericalismo, ao mercado transformado em ídolo nem às ideologias que instrumentalizam a fé para dominar consciências. A última palavra pertence ao Deus revelado em Jesus Cristo, cuja justiça é inseparável da misericórdia, cuja verdade nunca se separa do amor e cujo Reino continua germinando, muitas vezes de forma quase invisível, no coração daqueles que acreditam que a fraternidade é mais forte do que o medo, a compaixão mais fecunda do que a vingança e a Ressurreição a resposta definitiva de Deus a todas as cruzes da história.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano,  lutando  para permanecer  trigo 

sábado, 28 de junho de 2025

Olhando de novo Mateus 16, 13-19 / Stos Pedro & Paulo, dia do Papa


“Sobre esta Rocha”: Igreja viva entre fragilidades redimidas e fidelidade profética

Neste 29 de junho, celebramos a fé intrépida de Pedro e Paulo, pilares da comunidade cristã, vozes distintas que testemunharam o mesmo Cristo com suas vidas integralmente doadas até o martírio. Hoje é também o Dia do Papa, um símbolo da comunhão e do cuidado da Igreja, alicerçada não em sistemas, mas no testemunho vivo.

A liturgia deste dia solene nos propõe um itinerário profundamente eclesial: na primeira leitura (Atos 12,1-11), contemplamos Pedro aprisionado e milagrosamente libertado pela intervenção divina, enquanto a comunidade orava com insistência. O Salmo 33 (34) canta a confiança daqueles que buscam o Senhor: “De todas as tribulações, Deus os livrou.” A segunda leitura (2Timóteo 4,6-8.17-18) traz as palavras derradeiras de Paulo, que oferece sua vida como libação: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” E, por fim, no Evangelho segundo Mateus (16,13-19), ouvimos Pedro reconhecer Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo — e, sobre essa fé vivenciada na carne, Jesus proclama com autoridade: “Sobre esta rocha edificarei a minha Igreja.”

No domingo anterior, escutamos a versão lucana dessa mesma passagem no texto:  Um olhar  sobre  Lucas 9,18-24 - 12⁰  Domingo do Tempo Comum. Em Lucas, a ênfase residia na intimidade do momento e na exigência radical do discipulado: “Se alguém deseja seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz...” Hoje, em lemos  o texto de Mateus, texto que   já  visitamos em  2022 e 2023,  a narrativa adquire um significado eclesial mais profundo, mais fundacional. Diante da profissão de fé de Pedro, Jesus revela seu próprio desígnio: a edificação de uma nova comunidade, não como uma construção de pedras inertes e frias, mas como um povo convocado, um corpo vivo e um sinal visível do Reino de Deus em meio ao mundo.

É a primeira vez que Jesus emprega o termo “Igreja” (ekklesia) nos Evangelhos. Essa palavra, muito antes de denotar templos suntuosos ou instituições religiosas engessadas, designava no universo grego a assembleia dos cidadãos reunidos para deliberar sobre os rumos cruciais da pólis. No hebraico, há ressonâncias profundas do qahal YHWH, a comunidade peregrina do deserto, o povo que escuta atentamente a voz do Senhor e caminha unido, em solidariedade. O termo carrega em si uma tensão inerente entre escuta e missão, entre comunhão profunda e a dinâmica da história. Jesus não se refere a uma nova religião meramente, mas a um povo transformado, convocado à fidelidade amorosa.

Essa dimensão essencial de povo orante é acentuada de forma comovente na leitura dos Atos dos Apóstolos: enquanto Pedro jaz encarcerado, sob a ameaça iminente de morte imposta por Herodes, “a Igreja orava incessantemente a Deus por ele” (Atos 12,5). Essa imagem fala mais alto que muitos tratados teológicos complexos: a Igreja autêntica não se restringe a ensinar doutrinas ou governar hierarquicamente, mas é aquela que vela, que acompanha de perto, que intercede incansavelmente pelos seus. Ela não resgata Pedro com espadas de guerra ou decretos políticos, mas com joelhos curvados em oração e um coração em vigília constante. Quando a Igreja cessa de orar por seus membros feridos, pelos marginalizados e perseguidos, torna-se surda ao Espírito e, tristemente, cúmplice dos poderes que oprimem e injustiçam.

Desde os primórdios da revelação, Deus convoca um povo, não indivíduos isolados, desgarrados. No deserto do Sinai, constitui-se o qahal YHWH, a “assembleia do Senhor” (cf. Deuteronômio 4,10), reunida não por mérito humano, mas por eleição e aliança divina, por pura graça. O qahal é um povo em jornada, em travessia, entre a escravidão do Egito e a promessa de uma terra livre e abundante. É a comunidade que avança, tropeça, murmura, sucumbe e se reergue com persistência, mas que carrega consigo a presença viva de Deus em tendas provisórias e em sinais claros. Essa assembleia do Antigo Testamento é retomada e transfigurada por Jesus como ekklesia, um povo congregado não aos pés imponentes do Sinai, mas em torno do Ressuscitado, e posteriormente em Pentecostes — conforme lemos com clareza em Atos 2,32: “A este Jesus, Deus o ressuscitou; do que todos nós somos testemunhas oculares.”

Quando Jesus profere “a minha Igreja”, Ele não alude a um aparato clerical rígido, a um império espiritual dominador ou a uma fortaleza doutrinal inexpugnável. Ele se refere a um corpo vivo edificado sobre a fé confessada não apenas com os lábios, mas com a própria vida, no dia a dia. A Igreja brota do reconhecimento do Cristo, mas não pode, jamais, se aprisionar nesse reconhecimento. Ela existe para prolongar a missão libertadora do Cristo na história: servir com humildade, libertar os cativos, reconciliar os distanciados, denunciar as injustiças. Quando a Igreja se desvia desse propósito essencial, torna-se uma mera caricatura, uma sombra pálida de si mesma.

Pedro é designado “pedra” não por ser inabalável em sua própria força, mas por sua fragilidade intrínseca, que, paradoxalmente, permite que seja sustentado pela graça divina. A Igreja nasce precisamente da graça que acolhe a imperfeição humana e a transmuta em santidade. Por isso, a figura de Pedro é tão profundamente humana, tão próxima de nós: ele professa a fé com entusiasmo ardente, mas logo será repreendido por sua resistência à cruz; ele promete fidelidade incondicional, mas depois nega o Mestre por três vezes; ele chora amargamente seu erro, mas retorna humildemente ao rebanho. É sobre essa humanidade redimida, essa fragilidade amada, que Jesus edifica sua Igreja. Não sobre purezas idealizadas e inatingíveis, mas sobre testemunhos autênticos e reais, de carne e osso.

A promessa de Jesus não é que a Igreja será imaculada, sem falhas, mas que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18). Isso não implica invulnerabilidade institucional absoluta, mas a certeza inquebrantável de que o mistério pascal sustentará sua missão mesmo em seus momentos mais sombrios de falha humana ou perseguição brutal. A Igreja está sempre sob ameaça — externamente, por poderes hostis e ideologias opressoras, e internamente, por corrupções espirituais e institucionais. Contudo, sua vitalidade e sua força provêm unicamente do Ressuscitado, não de sua própria capacidade ou organização.

As “chaves do Reino”, confiadas a Pedro, não são instrumentos de dominação despótica, mas símbolos profundos de serviço e pastoreio. “Ligar e desligar” representam funções cruciais de discernimento comunitário, de reconciliação, de cura e de cuidado pastoral. São gestos simbólicos que implicam responsabilidade imensa e uma profunda, constante escuta do Espírito Santo. Quando a Igreja se apropria das chaves para fechar portas, excluir, julgar sem misericórdia, ela trai a essência mais pura do Evangelho. As chaves de Pedro deveriam, ao invés, abrir novos caminhos de esperança, acolher os desvalidos, os marginalizados, e conduzir todos ao coração compassivo do Pai.

Celebrar Pedro e Paulo conjuntamente é reconhecer que a Igreja nasce da diversidade rica de dons e se sustenta na tensão fecunda e criativa entre carismas complementares. Pedro, o pescador impetuoso e leal, representa a firmeza da comunhão, a escuta atenta da comunidade e a presença visível entre os irmãos. Paulo, o fariseu zeloso transformado em apóstolo incansável, encarna a profecia, a itinerância missionária incansável e a abertura ousada aos que ainda não foram alcançados pela mensagem salvadora. Um personifica a permanência da Tradição; o outro, o movimento dinâmico da evangelização. Ambos tiveram seus defeitos e qualidades, ambos caíram e se reergueram, ambos foram chamados por Cristo, ambos foram perseguidos implacavelmente, ambos permaneceram fiéis até o martírio supremo. Nenhum dos dois faleceu no conforto de um templo; ambos pereceram nas estradas empoeiradas do Império, testemunhando com suas vidas que o Cristo vivo não está restrito a fronteiras geográficas ou a sistemas humanos. Pedro, com sua impulsividade e negação, revela a vulnerabilidade humana que a graça transforma em fundamento; Paulo, com seu zelo inicial persecutório e posterior ardente missão, mostra a força de uma conversão radical que não se detém. Suas imperfeições não os desqualificaram, mas, redimidas pela fé, tornaram-se o solo fértil sobre o qual a Igreja se ergue como um milagre de persistência e amor.

Na primeira leitura, Pedro é libertado não por intervenção humana, mas por uma oração da comunidade que transpõe muros e barreiras de ferro. Na segunda, Paulo redige sua despedida final, não com ressentimento ou desespero, mas com profunda gratidão e paz: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” Ambos foram sustentados pela comunidade de fé e pelo Espírito Santo que os impulsionava. Ambos vivenciaram a verdade libertadora de que a Igreja é infinitamente maior que seus próprios limites, suas fragilidades, suas instituições.

No Dia do Papa, rememoramos que a função de Pedro persiste, não como um poder que oprime ou domina, mas como um ministério de serviço que une e congrega o rebanho de Cristo. O Papa Francisco, que dedicou grande parte de seu pontificado a reiterar que a Igreja deve ser “uma Igreja em saída” (Evangelii Gaudium 20), acolhedora, samaritana e pobre entre os pobres, foi um exemplo disso. Em profunda sintonia com o Concílio Vaticano II — especialmente a constituição Lumen Gentium, que descreve a Igreja como “sacramento universal de salvação” e “Povo de Deus” (LG 1,9) —, Francisco insistentemente sublinhou que a Igreja precisa ser sinodal, ou seja, um corpo que caminha em uníssono, escuta e discerne comunitariamente, valorizando cada voz batizada. Sua liderança ressoou nos Sínodos recentes e em sua convocação por uma Igreja livre do clericalismo, centrada na misericórdia e na escuta recíproca de todos.

Hoje, essa missão continua nas mãos de Leão XIV, sucessor de Pedro e atual bispo de Roma, a quem cabe o delicado serviço de confirmar os irmãos na fé e de guiar a Igreja com espírito de escuta, diálogo e fidelidade ao Evangelho. Que ele seja sinal da unidade na diversidade, e da firmeza que nasce da fragilidade entregue a Deus.

O Documento de Aparecida (2007), um marco fundamental para a Igreja na América Latina, reforça essa dimensão de Povo de Deus em missão: “A Igreja é o povo de Deus, caminho no mundo” (DA 46). Ele aponta a premente necessidade de uma Igreja que seja capaz de ouvir o clamor dos empobrecidos e da criação, denunciando toda e qualquer forma de exclusão e injustiça social, construindo pontes de diálogo e esperança.

O Instrumentum Laboris do Sínodo para a Sinodalidade (2022) corrobora a visão de uma Igreja que “não é uma mera associação humana, mas a comunidade dos discípulos missionários, povo de Deus em caminho, que escuta a Palavra, celebra os sacramentos e caminha junto no serviço à missão” (§1). Este documento denuncia vigorosamente o clericalismo que paralisa a Igreja e clama por uma conversão pastoral que valorize a corresponsabilidade e a participação plena de todos os batizados, para que a Igreja seja um reflexo mais fiel do Reino.

A pergunta crucial de Jesus permanece viva e ecoa em nossos corações: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Mas agora ela se amplia e nos interpela com mais força: “E que Igreja edificais com vossa vida, com vossas escolhas, com vossas ações diárias?” Que sejamos Igreja como uma comunidade de escuta atenta, como o povo que ora fervorosamente por Pedro em sua prisão, como o corpo que se renova constantemente pela memória viva do Crucificado e pela esperança inabalável da ressurreição. Que sejamos, a exemplo de Pedro e Paulo, pedras vivas — imperfeitas, inacabadas, mas firmemente alicerçadas no Cristo.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,11b-17 - Corpus Christi: a Eucaristia que se faz compromisso

 

Celebrar a Solenidade de Corpus Christi é muito mais do que confeitar ruas com tapetes coloridos por onde passa o Corpo do Senhor em ostensório.
  Já  comentamos  no texto: para  transmitirr  ao mundo no ano 2012  sobre a origem  desta festa  e também  já  fizemos um vídeo  sobre  essa importante  celebração   da Igreja  Católica 
 Celebrar  esse  momento é mergulhar no coração do Evangelho, onde o pão que se parte revela o próprio Cristo que se dá. A beleza da festa só encontra sentido quando a forma se alinha com o conteúdo, quando a arte popular reflete uma fé encarnada na vida concreta, nas dores e esperanças do povo. O Evangelho de Lucas (9,11b-17) nos coloca diante de uma cena que é ao mesmo tempo denúncia e anúncio: o povo tem fome, os discípulos querem dispensá-lo, mas Jesus os desafia com firmeza: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Essa ordem de Jesus desestabiliza a lógica do comodismo. Ela é uma convocação à responsabilidade eclesial e pessoal. Jesus, que acabara de falar do Reino e de curar os doentes, não faz mágica para alimentar a multidão — convida à partilha. Os cinco pães e dois peixes, aparentemente insuficientes, tornam-se abundantes nas mãos daquele que não despreza o pouco oferecido com fé. Os doze cestos cheios que sobram falam de um Deus que não age por escassez, mas por superabundância da graça. A partilha é milagre quando brota da confiança e da solidariedade. A lógica do Reino não é a da acumulação, mas a do dom. Como dirá o profeta Isaías, no capítulo 55, o convite de Deus é para que todos venham à água e comam, mesmo sem dinheiro — porque a graça não é mercadoria, é gratuidade.

É importante perceber os símbolos e números presentes no texto. 

  • Os cinco pães aludem à Torá, fonte da vida e sabedoria de Israel
  •  Os dois peixes apontam para a totalidade da criação, o humano em sua integralidade. 
  • Os doze cestos que sobram remetem às doze tribos, ou seja, ninguém está excluído da mesa do Reino.

 Essa multiplicação não é apenas de alimentos, mas de sentido, de comunhão, de esperança. É a pré-figuração da Eucaristia, como nos lembrará Paulo ao narrar: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (1Cor 11,26). É o memorial do Cristo que se entrega, mas também da comunidade que se compromete. Por isso Santo Irineu dizia: “Nossa doutrina está de acordo com a Eucaristia, e a Eucaristia, por sua vez, confirma nossa doutrina”.

Essa cena ecoa o Banquete Messiânico prometido por Isaías: “O Senhor dos Exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de pratos suculentos, um banquete de vinhos refinados” (Is 25,6). A partilha não é apenas gesto ético, é sinal escatológico — antecipa a plenitude do Reino, onde não haverá mais fome nem lágrimas.

No contexto atual, a fome volta a ser um grito que atravessa nossas ruas, silenciado por discursos religiosos vazios e por líderes que abençoam o poder enquanto desprezam os pobres. Segundo a Rede PENSSAN, mais de 33 milhões de pessoas enfrentam a fome no Brasil. E não é por falta de alimentos, mas por excesso de injustiça, corrupção, concentração de renda e desprezo pelas políticas públicas. O pão está na mesa dos ricos, mas falta nos lares de milhões. E o milagre da multiplicação não virá do céu — ele começa quando rompemos o ciclo do egoísmo. Isaías já alertava que o jejum verdadeiro consiste em “partilhar o pão com o faminto, acolher os pobres sem abrigo, vestir o nu” (Is 58,6-7). E também o profeta Amós, com palavras duras, denuncia a religião descolada da justiça: “Odeio e desprezo as vossas festas, e com vossas assembleias solenes não tenho nenhum prazer. Mas corra o direito como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Am 5,21.24). Ignorar esse apelo é fazer da religião uma caricatura: um culto que agrada aos homens, mas desagrada a Deus.

Diante dessa realidade, é inaceitável que alguns ministros ordenados — padres e pastores — se contentem em rezar, consagrar e enviar o povo de volta para casa com fome. Tornam-se como os discípulos que queriam dispensar a multidão. Pregam um Cristo espiritualizado e inofensivo, alienado da carne sofredora do povo. A Eucaristia que celebram se torna contraditória: é culto sem compaixão, liturgia sem justiça, fé sem obras (cf. Tg 2,14-17). E como recordava o Papa Bento XVI em Deus Caritas Est (§14), “um cristianismo do culto, sem consequências éticas, é uma caricatura”. O risco de se viver uma fé sem encarnação é o mesmo que Jesus denunciou nos fariseus: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mt 15,8).

Mas não se trata apenas de crítica. Trata-se de conversão. Porque a verdadeira comunhão só se dá quando nos deixamos tocar pelas feridas do outro. A “fome de Deus”, de que tanto falamos, não se separa da fome de pão, de dignidade, de reconhecimento. Há uma profunda ligação entre o espiritual e o material, entre o culto e a vida. A antropologia nos ensina que o comer é um gesto de pertencimento, um elo entre os corpos e as culturas. A psicologia social fala em solidariedade afetiva: uma empatia ativa que rompe o isolamento e recria vínculos. E é exatamente por isso que Jesus escolhe o pão — simples, cotidiano — para se tornar presença permanente no meio de nós. Como dizia São João Paulo II, “o cristianismo é a religião da encarnação”, e não há Eucaristia autêntica onde o corpo do irmão é ignorado.

A psicologia também nos ajuda a compreender que a fome, em suas muitas formas, provoca angústia, desorientação, apatia. A fome não é só ausência de nutrientes — é ausência de sentido, de esperança, de vínculo. E quando falta pão, falta também confiança. Por isso, alimentar alguém não é apenas um ato de caridade: é um gesto de cura, é devolver ao outro a certeza de que ele importa. É dar à pessoa o que nenhuma doutrina sozinha pode dar: dignidade. A Eucaristia, nesse sentido, torna-se sacramento terapêutico — cura a solidão, a indiferença, o abandono. Ela não é prêmio para os perfeitos, mas remédio e sustento para os fracos, como bem frisou o Papa Francisco.

Na Bíblia, há outras multiplicações — como as narradas em Mateus 15 e Marcos 8 — mas todas apontam para o mesmo horizonte: o Reino de Deus se manifesta quando há partilha. E em todas elas, a iniciativa de Jesus contrasta com a inércia dos discípulos. No deserto, Deus alimentou o povo com o maná (Ex 16), mas o fez como ensaio para que aprendessem a confiar. No livro de Reis, Eliseu multiplica pães para cem homens (2Rs 4,42-44), sinal de que Deus age por meio de seus profetas. E hoje, quem serão os profetas que romperão o ciclo da indiferença? Onde estão os que anunciam e vivem a lógica do Reino, desafiando os mecanismos da exclusão?

Os documentos da Igreja são claros. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, afirma que “a Eucaristia é fonte e cume de toda a vida cristã” (LG 11), o que significa que tudo converge para ela, e tudo deve dela derivar. E o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, recorda que “o culto separado da promoção da justiça é inaceitável” (EG 183). A Eucaristia nos educa para a comunhão, mas também para a missão. Comungar é comprometer-se. É tornar-se pão para os outros. É assumir as dores dos crucificados da história. A Igreja não é fim em si mesma; é sacramento do Reino, e o Reino não é feito de teorias, mas de práticas que libertam. Como bem afirma Amoris Laetitia (§108):

“A Eucaristia exige a integração da dimensão social”.

É preciso lembrar, como dizia Santo Agostinho, que “ninguém comunga este corpo sem antes comungar o corpo místico de Cristo” — ou seja, os irmãos. Celebrar Corpus Christi não é apenas carregar Jesus pelas ruas, mas reconhecê-lo nos rostos esquecidos, feridos, invisibilizados. O mesmo Cristo que adoramos no altar está também no chão da vida, esperando que o reconheçamos como Ele mesmo nos alertou: “Tive fome e não me destes de comer...” (Mt 25,42). A procissão verdadeira é a que continua depois da missa, no cuidado com os que caíram à beira do caminho. É a liturgia que se estende nas calçadas, nas filas do hospital, nas periferias, nos centros de acolhida. É a Igreja em saída, que não teme se sujar nas ruas do mundo.

Ao final, o apelo de Jesus ecoa como um grito que não pode ser silenciado: “Dai-lhes vós mesmos de comer.” É um imperativo que não admite terceirização, nem desculpas, nem adiamentos. Não haverá milagre enquanto o pão estiver trancado em nossos celeiros, enquanto a fé for um discurso sem prática, enquanto a Igreja for um refúgio para os acomodados e não um abrigo para os necessitados.

Corpus Christi nos lembra que o milagre é possível. Mas ele começa quando abrimos as mãos, o coração, os olhos. Quando deixamos de nos esconder atrás da religiosidade e assumimos o Evangelho como estilo de vida. Quando, ao partilhar o pão, nos tornamos nós mesmos Eucaristia viva. Só assim a festa fará sentido. Só assim a procissão será autêntica. Só assim a Igreja será fiel ao seu Senhor.

DNonato - Teólogo do Cotidiano


domingo, 15 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,38-42

 “Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, vos digo: não enfrenteis quem é malvado; ao contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a outra.” 

(Mateus 5,38-39)








Para refletirmos sobre Mateus 5,38-42, é interessante recordar que este ensinamento de Jesus ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja. A passagem em que o Mestre convida seus discípulos a romperem a lógica da vingança  “não resistais ao malvado” e “oferece a outra face” é proclamada regularmente tanto na liturgia diária quanto na liturgia dominical. No ciclo anual, ela é lida na Segunda-feira da 11ª Semana do Tempo Comum; já no ciclo dominical, aparece inserida na leitura mais ampla de Mateus 5,38-48, proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano A. A mesma mensagem ecoa no Evangelho de Lucas, dentro do Sermão da Planície (Lc 6,27-38), sendo proclamada na Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum e também no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano C.

Essa repetida presença no calendário litúrgico revela a importância que a Igreja atribui a este ensinamento. Longe de ser uma proposta de passividade diante da injustiça, Jesus apresenta um caminho de resistência ativa que rompe o ciclo da violência e da revanche. Em uma sociedade marcada pelo princípio do “olho por olho e dente por dente”, o Reino de Deus inaugura uma nova lógica, fundada na misericórdia, na dignidade humana e na força transformadora do amor. Ao ouvirmos essas palavras, somos convidados a examinar nossas relações, nossas reações diante das ofensas e nossa disposição de construir uma convivência marcada não pela retaliação, maspela reconciliação e pela justiça que nasce do amor.Jesus, ao dizer essas palavras no Sermão da Montanha, está rompendo com uma lógica jurídica que já atravessava séculos. A chamada Lex Talionis, “olho por olho, dente por dente”  não nasce originalmente da tradição hebraica revelada, mas sim da civilização mesopotâmica, mais precisamente do Código de Hamurábi, redigido por volta de 1750 a.C. Esse código, um dos mais antigos conjuntos de leis escritos, expressava uma visão de justiça baseada na equivalência da punição. O artigo 196 dizia com clareza: “Se um homem destruir o olho de outro homem, destruir-se-á o seu olho.” Esse princípio seria posteriormente incorporado à legislação mosaica, como vemos em Êxodo 21,24  “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”  e também em Levítico 24,20 e Deuteronômio 19,21. A intenção original dessas passagens não era estimular a violência, mas conter a vingança desproporcional, tão comum nas culturas tribais da Antiguidade. Era, de certo modo, um avanço civilizatório. No entanto, mesmo esse avanço já revelava suas falhas: a justiça, ainda que escrita, não era cega  ela via a classe social do acusado e da vítima. Prova disso é que, no próprio Código de Hamurábi, a aplicação da pena variava conforme a classe da pessoa envolvida. Se um homem nobre causasse um dano a outro nobre, sofreria a pena conforme a regra. Mas se causasse o mesmo dano a um pobre, bastava pagar uma indenização. Se fosse o pobre a ofender o rico, era punido com toda severidade. A desigualdade não era exceção, mas parte da estrutura legal. Assim como hoje, o peso da lei recaía sobre os ombros dos pequenos, enquanto os poderosos, com posses e influência, escapavam por frestas abertas pelas próprias regras. A lei existia, mas a justiça, não para todos..

É neste contexto que a palavra de Jesus se torna escandalosa. Quando ele diz “Eu, porém, vos digo...”, não está apenas reinterpretando a lei; está fundando uma nova ordem ética, a partir do Reino de Deus. A proposta de Cristo é profundamente subversiva: interromper o ciclo da violência, não por resignação, mas por uma resistência ativa e profética, que desarma o agressor sem assumir sua lógica. Oferecer a outra face, caminhar a segunda milha, dar a túnica, são gestos que desestabilizam o opressor, pois negam a ele a reciprocidade da violência e o forçam a confrontar a própria injustiça, revelando sua crueldade, mas sem que o oprimido perca sua dignidade. Jesus não propõe submissão, mas liberdade interior. Ele não está dizendo “aceite tudo”, mas: não se torne aquilo que você combate. O apóstolo Paulo, inspirado nesta ética do Reino, vai reforçar essa mesma espiritualidade: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12,21). E antes disso, já havia afirmado: “A ninguém pagueis o mal com o mal... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos” (Romanos 12,17-18). Paulo reconhece a dificuldade, mas aponta o caminho..Ao longo da história, cristãos e não cristãos que acolheram o espírito dessa mensagem mudaram o mundo:
  •  Gandhi, profundamente inspirado pelo Sermão da Montanha, afirmou: “Se todos os livros sagrados se perdessem, mas restasse o Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” Sua luta contra o Império Britânico não se fez com armas, mas com jejum, resistência civil e dignidade. Gandhi foi um hindu que compreendeu  e viveu  melhor que muitos cristãos batizados o que significa “dar a outra face”.
  • Nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr., pastor batista e teólogo, levou adiante essa ética em sua luta contra o racismo. Marchou, pregou, foi preso e ameaçado  e nunca revidou com ódio. Dizia: “A escuridão não pode expulsar a escuridão; só a luz pode. O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode.” Sua fidelidade ao Evangelho não era ingênua: era politicamente eficaz. Sua fé mudou leis e consciências. Ele viveu o Evangelho como cruz, e por isso foi martirizado como Cristo. 
  • No Brasil, Dom Helder Câmara resistiu à ditadura com o Evangelho como escudo. Nunca incitou à violência, mas denunciou o sistema opressor. Dizia: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Sua opção pelos pobres não era ideológica, mas evangélica. Caminhava com os humildes, sem medo dos poderosos.
  • Dorothy Stang, religiosa assassinada no Pará por defender os camponeses e a floresta, lia as bem-aventuranças momentos antes de ser morta. Foi fiel até o fim. A irmã Dorothy mostrou que a não violência não é passividade: é fidelidade escandalosa ao Cristo dos pobres. 
  • Oscar Romero, arcebispo mártir de El Salvador, foi assassinado enquanto celebrava a Missa. Denunciava os crimes da elite e do Estado. Nunca pregou o ódio, mas a justiça do Reino. Sua morte revelou que o Evangelho, quando vivido com radicalidade, se torna intolerável para os senhores deste mundo..
A lógica do “olho por olho” ainda vive, infelizmente, nos sistemas penais e nas ideologias de morte. A pena de morte, por exemplo, ainda é aplicada em muitos países  entre eles, regimes islâmicos com interpretação radical da Sharia, e também Estados dos EUA sob forte influência da extrema direita cristã. Nesses contextos, a punição é irreversível, mesmo quando se descobre depois que o acusado era inocente. Uma justiça sem misericórdia se torna uma máquina de matar.

Hoje, vemos com preocupação como certas lideranças religiosas inclusive cristãs defendem armamentismo, extermínio de “bandidos”, e clamam por penas duríssimas em nome de Deus. Transformam a cruz em fuzil, o púlpito em palanque ideológico. Essa religião punitivista nega o Cristo que morreu perdoando seus algozes, e rebaixa a fé à ideologia..Jesus nos oferece outra estrada: a do perdão, da reconciliação e da justiça restaurativa. Ele não veio revogar a Lei, mas levá-la à plenitude (cf. Mt 5,17). E a plenitude da Lei é o amor (cf. Rm 13,10). Ele não nos convida à neutralidade, mas a uma militância que resiste sem matar, que enfrenta o mal sem repetir sua lógica. Essa ética do Reino exige uma conversão do coração e das estruturas. É preciso abandonar o desejo de vingança e buscar a justiça que repara e liberta.

Como disse Jesus, “se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5,20). A justiça do Reino não é medida por leis, mas por misericórdia. E a misericórdia verdadeira não ignora o mal, mas o transforma..A espiritualidade que brota do Sermão da Montanha não é alienada, mas revolucionária. Não se trata de sofrer calado, mas de resistir com amor. O mundo não será salvo pela espada, mas pela cruz. Como afirmou o profeta Isaías, descrevendo o Servo Sofredor: “Maltratado, humilhou-se, e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro” (Isaías 53,7). Foi assim que o mal foi vencido  não com mais violência, mas com entrega.

Essa mesma profecia messiânica já havia sido anunciada em Isaías 2,4, quando o profeta vislumbra o dia em que Deus julgará com justiça entre as nações, e então “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices. Uma nação não levantará espada contra outra, e não se aprenderá mais a fazer guerra.” Aqui, Isaías nos apresenta o projeto de Deus: a superação da lógica bélica, do castigo, da punição e da morte, substituída por um mundo onde as ferramentas da guerra são convertidas em instrumentos de cultivo, paz e vida.

Essa visão de Isaías é a mesma que se realiza em Jesus: o Cristo não pegou em armas, mas tomou a cruz. Ele não feriu ninguém, mas foi ferido por todos. Seu caminho não destrói o inimigo, mas oferece redenção até ao que o trai. Ao transformar a espada em arado, Jesus nos convida a trocar a lógica da vingança pela da fecundidade, a construir pontes no lugar de muros, a semear justiça no lugar da violência.

E é por esse caminho que a Igreja deve andar: desarmada, fiel, compassiva. Não se trata de ser fraco, mas de ser forte o suficiente para não precisar revidar. A verdadeira força do Evangelho está na capacidade de perdoar, amar os inimigos e romper o ciclo do ódio. Por isso, hoje e sempre, Jesus nos diz: “Eu, porém, vos digo...”, convidando-nos a escolher, a cada dia, o caminho da vida sobre a lógica da morte.

DNonato – Teólogo do Cotidiano