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segunda-feira, 16 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,43-48

A perícope do amor aos inimigos Mateus 5,43-48 sendo uma  continuação  direta  da leitura  de ontem . Essa passagem ocupa  um lugar central no ensinamento de Jesus. Presente tanto no Sermão da Montanha, em Mateus (Mt 5,43-48), quanto no Sermão da Planície, em Lucas (Lc 6,27-38), ela nos apresenta uma das propostas mais revolucionária do Evangelho: amar não apenas os amigos, mas também aqueles que nos ofendem, perseguem ou rejeitam. A Igreja, como sábia pedagoga da fé, coloca esta Palavra diante de nós em diversos momentos do ano litúrgico.

  • Nos Domingos, ela é proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum:   no Ano A segundo Mateus 5,38-48 e no Ano C segundo Lucas 6, 27-38
  • Na Quaresma, tempo de conversão e retorno ao essencial, a mesma mensagem ressoa no Sábado da 1ª Semana (Mateus) e na Segunda-feira da 2ª Semana (Lucas), convidando-nos a examinar a profundidade de nossa mudança de vida.
  • No ciclo  semanal ela  retoma na Terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 23ª Semana, lembrando-nos que o amor evangélico deve ser vivido todos os dias.

Seja no domingo festivo, no caminho penitencial da Quaresma ou na simplicidade dos dias comuns, Jesus nos convida a ultrapassar a lógica humana da reciprocidade e da vingança para entrar na lógica divina da misericórdia. O discípulo não é chamado a amar apenas quem o ama, mas a refletir o próprio coração de Deus, cuja bondade alcança justos e injustos. Abramos, portanto, nosso coração a esta Palavra exigente e libertadora, pedindo a graça de aprender a amar como o Pai ama.  

Ele diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Estao é uma convocação à transformação integral do coração e da ação, que transcende o instinto natural de autoproteção, o desejo de vingança e a lógica social do merecimento. O verbo grego agapate implica uma decisão deliberada de amar, uma ação ética e gratuita que não depende de reciprocidade. Este amor é distinto do afeto natural ou do carinho espontâneo; é um amor que busca o bem do outro, mesmo quando este nos prejudica ou nos odeia. Trata-se de uma participação concreta no próprio modo de amar de Deus, que se revela ao longo de toda a Escritura como “misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor” como proclama Êxodo 34,6.

Jesus falava a uma sociedade profundamente marcada por códigos de honra, retaliação e regras legais restritivas. O mandamento do olho por olho, dente por dente em Êxodo 21,24 e Levítico 24,20 limitava a violência desproporcional, mas ainda preservava a lógica da retribuição. No entanto, já no Antigo Testamento encontramos sementes de superação dessa lógica. Provérbios 20,22 aconselha: “Não digas: Vou pagar o mal; espera no Senhor, e ele te salvará”. Provérbios 24,17 recomenda: “Se teu inimigo cair, não te alegres”. Em Jó 31,29 o justo declara que nunca se alegrou com a desgraça de seu inimigo. O próprio livro dos Provérbios 25,21 ensina: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”, texto que Paulo retoma explicitamente em Romanos 12,20 ao exortar os cristãos a vencerem o mal com o bem.

O ensino de Jesus, portanto, não é ruptura com a revelação anterior, mas plenitude e radicalização. Ele não anula a Lei, mas a leva ao seu cumprimento, como já afirmara em Mateus 5,17. Amar o inimigo é o ápice da justiça superior à dos escribas e fariseus mencionada em Mateus 5,20. Trata-se de uma justiça que nasce do coração renovado, como prometido em Jeremias 31,33, quando Deus diz que escreverá sua lei no íntimo do ser humano. É também cumprimento da promessa de Ezequiel 36,26, na qual Deus promete dar um coração novo e um espírito novo ao seu povo. O texto de Mateus enfatiza ações concretas: fazei o bem a quem vos odeia. O amor cristão é prático, histórico, verificável. Ele ecoa o mandamento maior já presente em Deuteronômio 6,5, amarás o Senhor teu Deus, e em Levítico 19,18, amarás o teu próximo como a ti mesmo. Jesus amplia o conceito de próximo, como já demonstrara na parábola do bom samaritano em Lucas 10,33, onde o estrangeiro e desprezado torna-se modelo de compaixão. O inimigo, portanto, entra no campo do amor. A lógica tribal é superada pela lógica do Reino.

Os símbolos do sol e da chuva em Mateus 5,45 revelam a universalidade da graça divina. O Salmo 145,9 afirma que o Senhor é bom para todos e sua misericórdia se estende sobre todas as suas obras. O Salmo 103 recorda que Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas faltas. Lamentações 3,22-23 proclama que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. A imagem da chuva recorda Deuteronômio 11,14, onde a chuva é bênção da fidelidade divina, e Isaías 55,10-11, onde a chuva que desce do céu simboliza a eficácia da Palavra de Deus que produz vida.

Quando Jesus ordena orar pelos perseguidores, ele aponta para sua própria prática. Na cruz, segundo Lucas 23,34, ele suplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estêvão, em Atos 7,60, repete esse gesto ao pedir que o pecado de seus algozes não lhes seja imputado. Aqui vemos a tradição apostólica encarnando o mandamento do Mestre. Pedro, em 1Pedro 3,9, exorta a não pagar mal por mal, mas a abençoar. João, em 1João 4,20, declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. O amor ao inimigo torna-se critério de autenticidade espiritual..A compreensão deste ensinamento exige uma antropologia realista. Gênesis 4 apresenta Caim incapaz de dominar a violência que bate à porta de seu coração. O ser humano, marcado pelo pecado, tende à rivalidade e à vingança. No entanto, já em Gênesis 50,20, José, traído pelos irmãos, reconhece que Deus pode transformar o mal em bem. Esta é a lógica do Reino. Romanos 5,8 afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Efésios 2,14 proclama que Cristo é nossa paz, aquele que derrubou o muro de separação e fez de dois povos um só. O amor aos inimigos não é idealismo ingênuo, mas participação na reconciliação cósmica inaugurada por Cristo.

No contexto contemporâneo, marcado por polarizações e discursos de ódio, a palavra de Jesus permanece provocativa. A sabedoria bíblica adverte contra a língua que fere. Provérbios 18,21 ensina que a morte e a vida estão no poder da língua. Tiago 3 compara a língua a um fogo capaz de incendiar florestas inteiras. Amar o inimigo implica também purificar a linguagem, romper com a violência simbólica, recusar a difamação e a mentira. Efésios 4,31-32 convida a afastar toda amargura e a ser bondoso e compassivo, perdoando como Deus nos perdoou em Cristo..A perfeição mencionada em Mateus 5,48 não é perfeccionismo moral, mas plenitude do amor. O termo grego teleios indica maturidade, completude. Em Gênesis 17,1 Deus diz a Abraão: anda na minha presença e sê íntegro. A integridade bíblica é totalidade de coração. Colossenses 3,14 afirma que o amor é o vínculo da perfeição. A maturidade cristã consiste em amar como o Pai ama. Não se trata de sentimentalismo, mas de decisão constante pela misericórdia.

A cruz permanece o centro desta pedagogia. Isaías 53 descreve o servo sofredor que não abre a boca diante dos que o oprimem e que carrega as iniquidades de muitos. Filipenses 2,5-8 mostra Cristo que se esvazia e assume a condição de servo. Hebreus 12,2 exorta a contemplar Jesus que suportou a cruz desprezando a vergonha. O amor aos inimigos encontra aqui sua fonte e seu critério. A Igreja, chamada a ser sinal e instrumento de unidade segundo Lumen Gentium, deve encarnar essa ética. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. Evangelii Gaudium recorda que a fé autêntica implica desejo de mudar o mundo. Fratelli Tutti insiste que ninguém se salva sozinho e que a fraternidade é caminho político e espiritual. Deus Caritas Est recorda que o amor é tarefa da comunidade inteira. O amor aos inimigos não é opção devocional, mas exigência estrutural do discipulado.

A crítica às espiritualidades centradas apenas no sucesso individual encontra base bíblica em Lucas 12,15, quando Jesus alerta contra toda ganância, e em Mateus 6,19-21, onde exorta a não acumular tesouros na terra. O Reino não é prosperidade egoísta, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo como afirma Romanos 14,17. Amar o inimigo rompe a idolatria do eu e desloca o centro para o outro..O discípulo que vive Mateus 5,43-48 torna-se sinal escatológico. Ele antecipa o tempo anunciado em Isaías 2,4, quando as espadas se transformarão em arados. Ele participa da visão de Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima e elimina a morte. Cada gesto concreto de perdão é semente desse futuro.

Diante dessa palavra, resta a pergunta que atravessa as Escrituras desde Miqueias 6,8: o que o Senhor pede de ti senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e caminhes humildemente com teu Deus. Amar o inimigo é caminho de cruz e ressurreição. É participar do mistério pascal. É deixar que o Espírito produza em nós o fruto descrito em Gálatas 5,22, amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Amar os inimigos é revolucionário: desafia meritocracia, lógica de poder e punição, polarização, discursos de ódio, exclusão social e religiosa. É educação ética, psicológica e espiritual, um caminho que transforma indivíduos, comunidades e sociedades. O Evangelho, proclamado na liturgia, é convite contínuo à conversão do coração, à vivência da misericórdia, à justiça restaurativa e à solidariedade com os marginalizados.

Assim, Mateus 5,43-48 não é conselho opcional, mas revelação do coração do Pai. É convite à conversão profunda, pessoal e comunitária. É chamado à maturidade espiritual e à responsabilidade histórica. É anúncio de que a última palavra não é o ódio, mas o amor que tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, como proclama 1Coríntios 13,7. E é certeza de que, permanecendo no amor, permanecemos em Deus, como assegura 1João 4,16.

Oração 

Senhor, ensina-nos a amar como Tu amas. Livra-nos da armadilha da indiferença e do ódio travestido de justiça. Que possamos viver o Evangelho com coragem profética, mesmo quando isso nos custar conforto, prestígio ou segurança. Que sejamos luz, sal e testemunho do Teu Reino, atuando na transformação do mundo pelo amor incondicional. Amém.

DNonato - Teólogo do cotidiano


domingo, 15 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,38-42

 “Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, vos digo: não enfrenteis quem é malvado; ao contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a outra.” 

(Mateus 5,38-39)








Para refletirmos sobre Mateus 5,38-42, é interessante recordar que este ensinamento de Jesus ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja. A passagem em que o Mestre convida seus discípulos a romperem a lógica da vingança  “não resistais ao malvado” e “oferece a outra face” é proclamada regularmente tanto na liturgia diária quanto na liturgia dominical. No ciclo anual, ela é lida na Segunda-feira da 11ª Semana do Tempo Comum; já no ciclo dominical, aparece inserida na leitura mais ampla de Mateus 5,38-48, proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano A. A mesma mensagem ecoa no Evangelho de Lucas, dentro do Sermão da Planície (Lc 6,27-38), sendo proclamada na Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum e também no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano C.

Essa repetida presença no calendário litúrgico revela a importância que a Igreja atribui a este ensinamento. Longe de ser uma proposta de passividade diante da injustiça, Jesus apresenta um caminho de resistência ativa que rompe o ciclo da violência e da revanche. Em uma sociedade marcada pelo princípio do “olho por olho e dente por dente”, o Reino de Deus inaugura uma nova lógica, fundada na misericórdia, na dignidade humana e na força transformadora do amor. Ao ouvirmos essas palavras, somos convidados a examinar nossas relações, nossas reações diante das ofensas e nossa disposição de construir uma convivência marcada não pela retaliação, maspela reconciliação e pela justiça que nasce do amor.Jesus, ao dizer essas palavras no Sermão da Montanha, está rompendo com uma lógica jurídica que já atravessava séculos. A chamada Lex Talionis, “olho por olho, dente por dente”  não nasce originalmente da tradição hebraica revelada, mas sim da civilização mesopotâmica, mais precisamente do Código de Hamurábi, redigido por volta de 1750 a.C. Esse código, um dos mais antigos conjuntos de leis escritos, expressava uma visão de justiça baseada na equivalência da punição. O artigo 196 dizia com clareza: “Se um homem destruir o olho de outro homem, destruir-se-á o seu olho.” Esse princípio seria posteriormente incorporado à legislação mosaica, como vemos em Êxodo 21,24  “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”  e também em Levítico 24,20 e Deuteronômio 19,21. A intenção original dessas passagens não era estimular a violência, mas conter a vingança desproporcional, tão comum nas culturas tribais da Antiguidade. Era, de certo modo, um avanço civilizatório. No entanto, mesmo esse avanço já revelava suas falhas: a justiça, ainda que escrita, não era cega  ela via a classe social do acusado e da vítima. Prova disso é que, no próprio Código de Hamurábi, a aplicação da pena variava conforme a classe da pessoa envolvida. Se um homem nobre causasse um dano a outro nobre, sofreria a pena conforme a regra. Mas se causasse o mesmo dano a um pobre, bastava pagar uma indenização. Se fosse o pobre a ofender o rico, era punido com toda severidade. A desigualdade não era exceção, mas parte da estrutura legal. Assim como hoje, o peso da lei recaía sobre os ombros dos pequenos, enquanto os poderosos, com posses e influência, escapavam por frestas abertas pelas próprias regras. A lei existia, mas a justiça, não para todos..

É neste contexto que a palavra de Jesus se torna escandalosa. Quando ele diz “Eu, porém, vos digo...”, não está apenas reinterpretando a lei; está fundando uma nova ordem ética, a partir do Reino de Deus. A proposta de Cristo é profundamente subversiva: interromper o ciclo da violência, não por resignação, mas por uma resistência ativa e profética, que desarma o agressor sem assumir sua lógica. Oferecer a outra face, caminhar a segunda milha, dar a túnica, são gestos que desestabilizam o opressor, pois negam a ele a reciprocidade da violência e o forçam a confrontar a própria injustiça, revelando sua crueldade, mas sem que o oprimido perca sua dignidade. Jesus não propõe submissão, mas liberdade interior. Ele não está dizendo “aceite tudo”, mas: não se torne aquilo que você combate. O apóstolo Paulo, inspirado nesta ética do Reino, vai reforçar essa mesma espiritualidade: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12,21). E antes disso, já havia afirmado: “A ninguém pagueis o mal com o mal... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos” (Romanos 12,17-18). Paulo reconhece a dificuldade, mas aponta o caminho..Ao longo da história, cristãos e não cristãos que acolheram o espírito dessa mensagem mudaram o mundo:
  •  Gandhi, profundamente inspirado pelo Sermão da Montanha, afirmou: “Se todos os livros sagrados se perdessem, mas restasse o Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” Sua luta contra o Império Britânico não se fez com armas, mas com jejum, resistência civil e dignidade. Gandhi foi um hindu que compreendeu  e viveu  melhor que muitos cristãos batizados o que significa “dar a outra face”.
  • Nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr., pastor batista e teólogo, levou adiante essa ética em sua luta contra o racismo. Marchou, pregou, foi preso e ameaçado  e nunca revidou com ódio. Dizia: “A escuridão não pode expulsar a escuridão; só a luz pode. O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode.” Sua fidelidade ao Evangelho não era ingênua: era politicamente eficaz. Sua fé mudou leis e consciências. Ele viveu o Evangelho como cruz, e por isso foi martirizado como Cristo. 
  • No Brasil, Dom Helder Câmara resistiu à ditadura com o Evangelho como escudo. Nunca incitou à violência, mas denunciou o sistema opressor. Dizia: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Sua opção pelos pobres não era ideológica, mas evangélica. Caminhava com os humildes, sem medo dos poderosos.
  • Dorothy Stang, religiosa assassinada no Pará por defender os camponeses e a floresta, lia as bem-aventuranças momentos antes de ser morta. Foi fiel até o fim. A irmã Dorothy mostrou que a não violência não é passividade: é fidelidade escandalosa ao Cristo dos pobres. 
  • Oscar Romero, arcebispo mártir de El Salvador, foi assassinado enquanto celebrava a Missa. Denunciava os crimes da elite e do Estado. Nunca pregou o ódio, mas a justiça do Reino. Sua morte revelou que o Evangelho, quando vivido com radicalidade, se torna intolerável para os senhores deste mundo..
A lógica do “olho por olho” ainda vive, infelizmente, nos sistemas penais e nas ideologias de morte. A pena de morte, por exemplo, ainda é aplicada em muitos países  entre eles, regimes islâmicos com interpretação radical da Sharia, e também Estados dos EUA sob forte influência da extrema direita cristã. Nesses contextos, a punição é irreversível, mesmo quando se descobre depois que o acusado era inocente. Uma justiça sem misericórdia se torna uma máquina de matar.

Hoje, vemos com preocupação como certas lideranças religiosas inclusive cristãs defendem armamentismo, extermínio de “bandidos”, e clamam por penas duríssimas em nome de Deus. Transformam a cruz em fuzil, o púlpito em palanque ideológico. Essa religião punitivista nega o Cristo que morreu perdoando seus algozes, e rebaixa a fé à ideologia..Jesus nos oferece outra estrada: a do perdão, da reconciliação e da justiça restaurativa. Ele não veio revogar a Lei, mas levá-la à plenitude (cf. Mt 5,17). E a plenitude da Lei é o amor (cf. Rm 13,10). Ele não nos convida à neutralidade, mas a uma militância que resiste sem matar, que enfrenta o mal sem repetir sua lógica. Essa ética do Reino exige uma conversão do coração e das estruturas. É preciso abandonar o desejo de vingança e buscar a justiça que repara e liberta.

Como disse Jesus, “se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5,20). A justiça do Reino não é medida por leis, mas por misericórdia. E a misericórdia verdadeira não ignora o mal, mas o transforma..A espiritualidade que brota do Sermão da Montanha não é alienada, mas revolucionária. Não se trata de sofrer calado, mas de resistir com amor. O mundo não será salvo pela espada, mas pela cruz. Como afirmou o profeta Isaías, descrevendo o Servo Sofredor: “Maltratado, humilhou-se, e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro” (Isaías 53,7). Foi assim que o mal foi vencido  não com mais violência, mas com entrega.

Essa mesma profecia messiânica já havia sido anunciada em Isaías 2,4, quando o profeta vislumbra o dia em que Deus julgará com justiça entre as nações, e então “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices. Uma nação não levantará espada contra outra, e não se aprenderá mais a fazer guerra.” Aqui, Isaías nos apresenta o projeto de Deus: a superação da lógica bélica, do castigo, da punição e da morte, substituída por um mundo onde as ferramentas da guerra são convertidas em instrumentos de cultivo, paz e vida.

Essa visão de Isaías é a mesma que se realiza em Jesus: o Cristo não pegou em armas, mas tomou a cruz. Ele não feriu ninguém, mas foi ferido por todos. Seu caminho não destrói o inimigo, mas oferece redenção até ao que o trai. Ao transformar a espada em arado, Jesus nos convida a trocar a lógica da vingança pela da fecundidade, a construir pontes no lugar de muros, a semear justiça no lugar da violência.

E é por esse caminho que a Igreja deve andar: desarmada, fiel, compassiva. Não se trata de ser fraco, mas de ser forte o suficiente para não precisar revidar. A verdadeira força do Evangelho está na capacidade de perdoar, amar os inimigos e romper o ciclo do ódio. Por isso, hoje e sempre, Jesus nos diz: “Eu, porém, vos digo...”, convidando-nos a escolher, a cada dia, o caminho da vida sobre a lógica da morte.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


sexta-feira, 13 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,33-37

 O Evangelho de Mateus 5,33-37 é mais do que uma instrução moral acerca do uso da linguagem. Ele representa uma convocação radical à autenticidade, à fidelidade ao Reino de Deus e à transformação integral do ser humano em sua relação com a verdade. Jesus, ao afirmar: "Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. Tudo o que passar disso vem do Maligno", não está apenas proibindo o juramento em si, mas está revelando um princípio fundamental do discipulado cristão: a integridade interior como reflexo de uma adesão real ao Reino.


Na tradição judaica, os juramentos eram usados como garantia de veracidade, especialmente quando a palavra humana havia se tornado suspeita. A Lei mosaica já regulava os juramentos (cf. Lv 19,12; Nm 30,3; Dt 23,22), proibindo o uso do nome de Deus em vão e exigindo que fossem cumpridos. No entanto, o que vemos nos tempos de Jesus é um uso casuístico dos juramentos, permitindo que, dependendo da fórmula utilizada, a pessoa pudesse se esquivar da responsabilidade moral. Jesus denuncia esse sistema e aponta para algo mais profundo: uma sociedade onde a palavra não vale mais por si mesma está corrompida em sua base relacional.

Sob uma perspectiva hermenêutica, este trecho se insere no conjunto das "antíteses" do Sermão da Montanha (Mt 5,21-48), em que Jesus não revoga a Lei, mas a leva à plenitude (cf. Mt 5,17). O que está em jogo não é a letra da norma, mas o espírito que a anima. A ética do Reino é uma ética da transparência, da coerência entre o interior e o exterior, entre o discurso e a prática. Assim, a palavra que não reflete a verdade do coração é palavra vazia — e, portanto, cúmplice do Maligno.

Hoje, vivemos em um contexto onde a mentira se sofisticou. A duplicidade não se manifesta apenas no cotidiano interpessoal, mas também nas estruturas de poder político, religioso e midiático. A extrema-direita, por exemplo, tem se apropriado de símbolos religiosos e da linguagem cristã para legitimar projetos de poder autoritários e excludentes. Essa apropriação ideológica do cristianismo constitui, na prática, uma perversão da fé. Ao invocar o nome de Jesus para defender políticas que atentam contra os direitos humanos, a dignidade dos pobres, dos migrantes, das minorias e da criação, comete-se um pecado grave: instrumentaliza-se o Evangelho para fins mundanos.

Essa crítica está em consonância com a longa tradição profética das Escrituras. Os profetas denunciavam não apenas a idolatria religiosa, mas também a injustiça social (cf. Is 1,11-17; Jr 7,3-11; Am 5,21-24; Mq 6,6-8). Isaías acusa um povo que honra a Deus com os lábios, mas cujo coração está distante (Is 29,13). Jeremias censura o culto que ignora o cuidado com o órfão, a viúva e o estrangeiro (Jr 22,3). Miqueias resume: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8).

O próprio Jesus retoma essa crítica contra o farisaísmo religioso, que privilegia a aparência em detrimento da verdade interior (Mt 23,25-28). A condenação aos que juram falsamente e usam a linguagem de forma hipócrita é também uma condenação à religião usada como fachada. Como bem afirmou o Papa Francisco, de saudosa memória, “não se pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24; cf. Evangelii Gaudium, n. 55). Francisco nos alertou sobre os riscos de uma fé aliada ao poder econômico e político, que perde sua dimensão profética e encarnada.

A Doutrina Social da Igreja, a partir de documentos como a Gaudium et Spes, a Evangelii Nuntiandi e a Laudato Si’, reforça essa visão: não há Evangelho sem compromisso com os pobres, com a justiça social e com a integridade da criação. O uso da linguagem, portanto, não é apenas uma questão ética, mas teológica e política. A palavra que sai da boca do cristão deve ser um reflexo da Palavra que se fez carne (Jo 1,14).

Vivemos tempos em que as fake news, os discursos de ódio e a manipulação da fé são amplamente utilizados para legitimar injustiças. A fidelidade ao Evangelho exige que nos posicionemos com clareza: nosso “sim” ao Reino de Deus deve implicar um “não” corajoso a todas as estruturas de mentira, opressão e idolatria. O Apóstolo Tiago ecoa Jesus ao afirmar: “Que o vosso sim seja sim, e o vosso não, não, para que não caiais em condenação” (Tg 5,12). Paulo, em Efésios 4,25, exorta: “Por isso, deixai a mentira e falai a verdade cada um com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.”

Importa reconhecer que as fake News — embora hoje impulsionadas por algoritmos e redes digitais — não são uma invenção da era da internet. Desde os tempos bíblicos, a mentira organizada foi usada como instrumento de poder e opressão. Os profetas eram frequentemente alvos de difamações e campanhas de descrédito por denunciarem as injustiças dos reis e sacerdotes (cf. Jr 20,7-10). Jesus, ele próprio, foi vítima de fake news políticas e religiosas ao ser acusado falsamente de blasfêmia e subversão contra Roma (cf. Lc 23,1-2). Ao longo da história, vimos o uso sistemático da calúnia para manipular as massas, legitimar perseguições — como na Inquisição, no antissemitismo cristão e na propaganda fascista — e silenciar vozes proféticas. Hoje, essas mentiras vêm embaladas em discursos religiosos e travestidas de verdade divina, mas continuam a servir aos mesmos interesses: manter o poder, oprimir os vulneráveis e desfigurar a imagem de Deus nos rostos humanos. Nesse sentido, a palavra se torna ato profético. Dizer a verdade em uma sociedade marcada pela mentira é uma forma de resistência. Como João Batista, somos chamados a preparar o caminho do Senhor com coragem (Lc 3,4-14), mesmo quando isso implica confronto com Herodes ou com o templo. O Evangelho não pode ser neutro diante da injustiça. O silêncio cúmplice, o discurso morno ou a ambiguidade frente ao mal são formas de traição à verdade de Cristo.

O clericalismo, igualmente, contribui para essa deformação da fé. Quando a autoridade religiosa se distancia da vida do povo, fecha-se em uma sacralidade autorreferencial e legitima poderes opressores, ela trai o Cristo Servo. O Papa Francisco denunciou o clericalismo como uma das maiores pragas da Igreja contemporânea (cf. Carta ao Povo de Deus, 2018). A verdadeira autoridade cristã é serviço, não dominação (cf. Mc 10,42-45). Por isso, é urgente uma espiritualidade da verdade e da coerência. O batismo nos configura a Cristo, que é Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6). Ser discípulo é viver com transparência, com retidão, com integridade. Não basta frequentar celebrações ou ostentar símbolos religiosos: é preciso encarnar o Evangelho no cotidiano, nas relações, nas escolhas políticas, no cuidado com os pobres e com a criação. 

Como nos alerta o Apocalipse: “Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, estou para vomitar-te da minha boca” (Ap 3,15-16). O tempo da ambiguidade passou. É hora de assumir com coragem a vocação profética de dizer "sim" ao Reino e "não" a tudo que o contradiz. 

Eis o tempo de levantar a voz como trombeta, denunciar a hipocrisia revestida de religiosidade, de romper com alianças cúmplices e proclamar a justiça do Reino. Que sejamos profetas da Palavra e da ação, testemunhas fiéis do Cristo que não pactua com a mentira, com a violência institucionalizada nem com a opressão justificada por discursos piedosos. É tempo de decisão. É tempo de coragem. É tempo de profecia.

Que o Espírito Santo, Espírito da Verdade (Jo 16,13), nos conduza em fidelidade e ousadia.

Amém.



DNonato – Teólogo do Cotidiano, em algum momento  já foi vítima  de fake news 




quinta-feira, 12 de junho de 2025

Um breve olhar sobre sobre Mateus 5,27-32.

 



O Evangelho de Mateus 5,27-32, proclamado liturgicamente na sexta-feira da 10ª semana do Tempo Comum nos anos ímpares e no sábado após a Quarta-feira de Cinzas, nos convida a revisitar com seriedade — mas também com misericórdia — a radicalidade evangélica proposta por Jesus diante do adultério e do repúdio. Jesus não suaviza a exigência do Reino. Ao contrário, Ele a aprofunda e a desloca do comportamento externo para o interior do coração: “Todo aquele que olhar para uma mulher com desejo impuro já cometeu adultério com ela em seu coração.” A proposta de Jesus é de conversão e não de exclusão; de cura e não de punição — uma visão de libertação que se contrapõe à opressão e à condenação.

Essa radicalidade, no entanto, tem sido mal interpretada por setores moralistas e clericais da Igreja que, ao longo da história, instrumentalizaram a moral sexual para controlar, excluir e condenar. Muitos desses grupos — especialmente os ligados à extrema-direita religiosa e política — usam esse trecho do Evangelho como arma para julgar os outros e reforçar uma doutrina de exclusão. Esquecem-se, porém, de que Jesus nunca usou a Lei para oprimir, mas para libertar.

O moralismo religioso tem se tornado uma caricatura da santidade, reduzindo a ética cristã à normatividade sexual e silenciando os pecados sociais — os verdadeiros adultérios contra o Evangelho: corrupção, exploração, injustiça, racismo, violência, ganância, misoginia, discriminação de gênero. Esses, sim, são pecados estruturais que ferem profundamente a dignidade humana e traem a aliança com Deus. E, no entanto, são frequentemente ocultados por líderes religiosos que preferem fazer guerra cultural em torno do corpo alheio enquanto escondem os pecados do sistema — e os abusos do próprio clero. Isso perpetua um outro adultério: trair o Cristo vivo para se aliar ao César da vez.

Entre os grupos mais vulnerabilizados por esse moralismo excludente estão os casais em segunda união. Estes irmãos e irmãs, muitas vezes afastados da participação sacramental e pastoral, carregam o estigma de um “adultério permanente”, como se o Evangelho não fosse caminho de reconciliação e acolhida. A interpretação legalista do texto de Mateus leva muitos a afirmar que não há salvação para quem se separou e formou uma nova família. Isso não é doutrina — é farisaísmo, pura e simplesmente.

O Papa Francisco, em Amoris Laetitia, rompe com essa lógica punitiva ao afirmar que “ninguém pode ser condenado para sempre, porque essa não é a lógica do Evangelho” (AL 297). A exortação convida a um discernimento pastoral atento, compassivo e pessoal, no qual se considera não apenas a norma, mas a história concreta, as limitações e as possibilidades de crescimento no amor de cada pessoa.

A fidelidade evangélica não se mede pela rigidez da lei, mas pela busca sincera da justiça, da misericórdia e da verdade. Como afirmou São João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II: “Hoje a Igreja prefere usar o remédio da misericórdia ao invés de brandir as armas da severidade.”

Essa distorção moralista não nasce do Evangelho, mas do clericalismo — um sistema de poder piramidal e autorreferencial, que se apropria da Palavra para manter controle sobre os corpos, os afetos e as consciências, especialmente das mulheres. Sacrifica a compaixão em nome da ortodoxia, silencia a profecia com obediência cega. O resultado? Uma Igreja que fecha as portas a quem mais precisa: os pobres, os divorciados, os feridos, os pecadores — justamente os preferidos de Jesus.

Ao falar do adultério como realidade que começa no coração, Jesus desconstrói a moral aparente dos fariseus e aponta para uma conversão que é interior, mas também social. Ele não veio condenar a sexualidade, mas libertá-la do uso egoísta e opressor. A sexualidade, em sua plenitude e beleza, é dom de Deus — não deve ser reduzida a um campo de culpa e repressão. A perversão não está no desejo, mas na instrumentalização do outro, na negação da alteridade, na ruptura da justiça amorosa.

Num mundo onde a infidelidade estrutural ao Reino se expressa em sistemas que exploram corpos, destroem famílias pela fome e perpetuam violências cotidianas, a Igreja precisa levantar sua voz profética. No entanto, parte dela permanece calada — ou cúmplice —, encantada com o poder, com alianças políticas espúrias e com a idolatria da tradição.

É urgente uma pastoral que olhe para os casais em segunda união não com os olhos de um tribunal, mas com os olhos de Jesus diante da mulher adúltera (cf. Jo 8,1-11): “Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai, e não peques mais.” Esse gesto nos ensina que a fidelidade maior é à dignidade humana, e que a justiça do Reino se realiza não na condenação, mas na reintegração. Casais em segunda união muitas vezes demonstram maturidade afetiva, compromisso, amor profundo, dedicação aos filhos — sinais claros de uma nova vida que deve ser acolhida e discernida, não rechaçada sumariamente. Como recorda o Concílio Vaticano II em Gaudium et Spes (n. 24): “O ser humano só se realiza plenamente no dom sincero de si mesmo.” A sexualidade e o matrimônio são espaços onde esse dom se concretiza. Negar esse dom é negar a força reconciliadora da graça.

Portanto, a leitura de Mateus 5,27-32, celebrada nas liturgias da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares e no sábado após a Quarta-feira de Cinzas, deve ser entendida não como uma ameaça punitiva, mas como um convite radical à integridade amorosa, à responsabilidade relacional e à misericórdia ativa.

A Igreja não pode ser guardiã do moralismo, mas deve ser serva do Evangelho, profética diante dos poderes que violentam a dignidade humana e maternal diante das fragilidades dos seus filhos e filhas. Uma Igreja que se cala diante das injustiças sociais, mas grita contra os pecadores frágeis, é cúmplice dos fariseus de ontem e de hoje.

O Evangelho exige mais: exige justiça com ternura, verdade com caridade, fidelidade com liberdade. E, sobretudo, exige uma conversão pastoral que devolva a cada pessoa — inclusive aos casais em segunda união — o direito de participar plenamente da vida e do amor de Deus, sem medo, sem vergonha, sem exclusão.

O moralismo clerical não apenas oprime os corações, mas constrói uma Igreja que é fortaleza de exclusão, e não hospital de cura. A palavra de Jesus — “Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra” (cf. Jo 8,7) — precisa ser vivida com a mesma coragem com que se deve denunciar os abusos clericais que violentam corpos e consciências. A Igreja que deseja ser fiel ao Evangelho precisa ser radicalmente misericordiosa, atenta aos sinais dos tempos — especialmente à desigualdade estrutural que oprime milhões e perpetua uma religiosidade vazia, que serve mais aos poderosos do que ao Reino de Deus.

Nos documentos do Magistério, como Evangelii Gaudium (n. 235), o Papa Francisco insiste: é preciso uma conversão pastoral preocupada em gerar frutos de misericórdia, cuidado com os pobres e inclusão dos feridos. Ao contrário da rigidez de uma moral que separa, a Igreja deve viver o amor que une, a graça que cura, a justiça que liberta. Na visão ecumênica que deve orientar a Igreja, a busca pela unidade não se faz pela uniformidade de pensamento, mas pela acolhida mútua. A reflexão sobre o adultério deve, portanto, ser ampliada para além da condenação de atos isolados, considerando a estrutura social que envolve cada pessoa, suas histórias de dor, seus processos de cura e reintegração.

O Reino de Deus — onde os últimos serão os primeiros — exige que a Igreja seja esse lugar de acolhida para todos, sem exceção.

O desafio é grande, mas o caminho da misericórdia e da justiça nunca foi fácil. Que a Igreja, à luz do Evangelho de Mateus, se permita transformar-se, não apenas na celebração de ritos, mas na construção de uma comunidade que seja verdadeiramente sal da terra e luz do mundo.

Isso exige coragem profética — a mesma de Jesus —, que nos exorta a não temer os poderosos, a desafiar o clericalismo e a moral sexual excludente, e a denunciar, com firmeza e clareza, toda religiosidade que, em vez de aproximar de Deus, distancia os pobres da esperança do Reino.



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DNonato – Teólogo do Cotidiano, Na esperança de uma Igreja libertadora, misericordiosa e profética


quarta-feira, 11 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,20-26


 A Justiça que Transforma: “Se a vossa justiça não for maior que a dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus.” (Mt 5,20)
A perícope de Mateus 5,20-26 é proclamada na 6ª-feira da 1ª semana da Quaresma e também na 5ª-feira da 10ª semana do Tempo Comum. A Igreja a coloca diante da assembleia tanto no tempo forte da conversão quanto na cadência ordinária da caminhada cristã. Isso não é casual. Trata-se de um texto estruturante do discipulado. Ele não pertence apenas a um momento penitencial, mas ao coração permanente da vida no Reino. Na Quaresma, ele desinstala. No Tempo Comum, ele fundamenta. Em ambos, ele julga nossas práticas religiosas.

Aqui tenos uma crítica frontal ao legalismo religioso e uma convocação radical à justiça verdadeira, uma justiça que nasce do amor, da reconciliação e da coerência de vida. Jesus não propõe uma moral superior nos moldes farisaicos, mas uma ruptura epistemológica: não basta parecer justo — é preciso ser justo. Aqui, Jesus se revela como profeta, à semelhança de Amós (cf. Am 5,24) e Isaías (cf. Is 1,17), que denunciam a religião cúmplice da opressão e anunciam a conversão ao Deus que deseja misericórdia, não sacrifícios (cf. Os 6,6). A “justiça maior” que Jesus exige (Mt 5,20) é uma crítica contundente à religião institucionalizada, ao clericalismo que transforma o templo em mercado e o altar em palco. Denuncia, ainda hoje, os que manipulam a fé como ferramenta de dominação ideológica, sobretudo aqueles que a colocam a serviço da extrema direita e dos interesses do capital. Este farisaísmo contemporâneo se manifesta na piedade de fachada, na defesa seletiva da “família tradicional”, enquanto se criminalizam os pobres, excluem-se os diferentes, devastam-se as florestas e se militariza a fé. A espiritualidade evangélica, no entanto, caminha na contramão dessa idolatria do poder. Jesus apresenta uma ética da ternura, da não violência, da paz ativa: “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Sua justiça é a dos pequenos, dos pacificadores, dos que perdoam, dos que têm fome e sede de justiça (cf. Mt 5,6). O Reino não pertence aos fortes, mas àqueles que se deixam tocar e transformar pela graça.
O versículo 20 estabelece a chave de leitura de todo o Sermão da Montanha. “Se a vossa justiça não for maior que a dos mestres da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.” A palavra grega dikaiosýne traduz a noção hebraica de tsedaqah, que não significa mera conformidade legal, mas fidelidade relacional, retidão diante de Deus e compromisso com o direito do pobre. No Antigo Testamento, justiça e misericórdia caminham juntas. O Salmo 85,11 canta que justiça e paz se abraçam. Miquéias 6,8 resume a vontade divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Portanto, Jesus não contrapõe Lei e graça, mas revela a plenitude da Lei como vida reconciliada.

O contexto histórico ilumina a radicalidade da afirmação. O Evangelho de Mateus foi redigido num ambiente pós-70 d.C., após a destruição do Templo de Jerusalém. O judaísmo farisaico reorganizava-se em torno da Torá e das sinagogas. A comunidade mateana, formada por judeu-cristãos, dialogava e tensionava com esse processo. A crítica de Jesus aos fariseus deve ser compreendida como debate intra-judaico, não como rejeição do judaísmo, mas como denúncia de uma possível absolutização da norma em detrimento da vida. Jeremias 7 já advertia contra a falsa segurança no templo. Isaías 29,13 denunciava um povo que honra com os lábios enquanto o coração está longe. Jesus se insere nessa tradição profética.

Antes de chegar ao versículo 20, o Sermão da Montanha apresenta as Bem-aventuranças. Elas definem o sujeito da justiça maior. São felizes os pobres em espírito, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os pacificadores. A justiça maior nasce desse horizonte. Ela não é conquista elitista, mas caminho dos pequenos. A metáfora do sal e da luz, em Mateus 5,13-16, reforça a dimensão pública da fé. A justiça não é segredo devocional, mas testemunho visível.

Quando Jesus afirma “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás”, ele cita Êxodo 20,13 e Deuteronômio 5,17. Mas imediatamente aprofunda: “Eu, porém, vos digo”. Essa fórmula revela autoridade messiânica. Não se trata de abolir, mas de levar à raiz. O homicídio começa na ira que desumaniza. Gênesis 4 já mostrava que o assassinato de Abel nasce do ressentimento cultivado por Caim. Deus pergunta: “Onde está teu irmão?” A pergunta ecoa em Mateus 5. A justiça maior responde por essa pergunta com responsabilidade concreta.

Jesus menciona o tribunal, o Sinédrio e a geena. A geena remete ao vale de Hinom, associado a práticas idolátricas denunciadas em 2Reis 23,10 e Jeremias 7,31. Tornou-se símbolo de degradação e julgamento. Ao usar essa imagem, Jesus não alimenta medo supersticioso, mas revela que a violência interior já é participação na lógica da morte. A Primeira Carta de João 3,15 afirma que quem odeia seu irmão é homicida. Tiago 1,20 recorda que a ira humana não realiza a justiça de Deus.

A seguir, o texto desloca o centro da religiosidade. “Se estiveres apresentando tua oferta no altar e ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa tua oferta diante do altar e vai reconciliar-te.” O altar simboliza o coração do culto. No judaísmo do primeiro século, o sacrifício no Templo era o ápice da vida religiosa. Jesus subordina o rito à reconciliação. Isaías 1,15-17 já proclamava que mãos cheias de sangue invalidam a oração. Amós 5,21-24 rejeitava assembleias desvinculadas da justiça. Oséias 6,6 afirmava que Deus quer misericórdia e não sacrifício. A tradição profética converge aqui com o ensinamento de Cristo.

Essa prioridade da reconciliação possui implicações eucarísticas profundas. Em 1Coríntios 11,17-34, Paulo adverte a comunidade que celebra a Ceia ignorando os pobres. Comer e beber sem discernir o corpo é comer e beber condenação. O corpo não é apenas o pão consagrado, mas a comunidade ferida. A Eucaristia exige coerência social. Não há comunhão sacramental autêntica onde há desprezo estrutural.

A imagem do adversário no caminho amplia a dimensão existencial. “Procura reconciliar-te enquanto estás a caminho.” O caminho simboliza a história. Isaías 55,6 exorta a buscar o Senhor enquanto se pode encontrá-lo. A reconciliação tem urgência. Efésios 4,26 aconselha a não deixar o sol se pôr sobre a própria ira. A psicologia contemporânea reconhece que o ressentimento prolongado adoece indivíduos e comunidades. A justiça maior não é repressão emocional, mas transformação do conflito em possibilidade de restauração.

No horizonte cristológico, Jesus não apenas ensina a reconciliação, ele a encarna. Em 2Coríntios 5,18-20, Paulo afirma que Deus reconciliou o mundo consigo em Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Na cruz, conforme Colossenses 1,20, ele faz a paz pelo sangue derramado. A justiça maior culmina na kenosis descrita em Filipenses 2,6-11. O poder se revela como serviço. A violência não é reproduzida, mas absorvida e vencida pela entrega.

A tradição da Igreja aprofundou essa compreensão. 

  • Santo Agostinho via no Sermão da Montanha a forma perfeita da vida cristã. 
  • João Crisóstomo insistia que a pureza do coração é superior à observância exterior. O 
  • Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, afirmou que as alegrias e angústias dos pobres são também as da Igreja.
  • A Populorum Progressio declarou que o desenvolvimento é o novo nome da paz.
  1. A Fratelli Tutti convocou a uma fraternidade aberta que ultrapassa fronteiras ideológicas. 
  2. Medellín e Puebla reafirmaram a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica.
A proposta de Jesus é política? não no sentido partidário, mas no sentido mais profundo: ela reorganiza as relações sociais a partir dos pobres, dos excluídos, dos indesejados. É o oposto da religião dos fariseus e dos poderes que dizem “Senhor, Senhor”, mas negam o Cristo nos famintos, nos presos, nos indígenas, na comunidade LGBTQIA+, nos favelados e todos os denais que não se enquadram na lógica do Direito Canônico, do Catecismo ou mesmo da leitura bíblica distocida.

Precisamos ter consciência que o rosto do outro é o lugar da revelação de Deus. A sociologia crítica, como a de Pierre Bourdieu, nos ajuda a compreender como o campo religioso pode ser manipulado para manter privilégios, proteger hierarquias e perpetuar violências simbólicacomo se vê nas alianças entre setores religiosos e o bolsonarismo, ou em projetos de poder que negam os direitos humanos em nome de um “deus” patriarcal e beligerante.

Jesus se opõe ao uso instrumental da Lei. O mesmo Jesus que cura no sábado (cf. Mc 3,1-6), que toca os impuros (cf. Mc 1,40-45), que dialoga com samaritanos (cf. Jo 4,1-42), que denuncia os “sepulcros caiados” (cf. Mt 23,27), agora nos adverte: não basta não matar. É preciso não odiar, não insultar, não desejar a destruição do outro. O assassinato começa no coração, no olhar que despreza, na palavra que fere, no silêncio que exclui. Como afirma a Primeira Carta de João: “Quem odeia seu irmão é um homicida” (1Jo 3,15). Essa palavra de Jesus desarma toda religião baseada na performance exterior. A reconciliação torna-se critério essencial da espiritualidade

Nesse horizonte, torna-se inevitável confrontar espiritualidades que reduzem o Evangelho a prosperidade material. Mateus 6,19-24 adverte contra o acúmulo de tesouros na terra. Lucas 12,15 alerta para o perigo da avareza. A teologia da prosperidade, ao identificar bênção com enriquecimento individual, distorce a lógica do Reino. O Cristo que proclama felizes os pobres não legitima desigualdades como sinal de eleição divina. A espiritualidade individualista, centrada apenas na salvação privada, contradiz o Pai Nosso, oração comunitária por excelência.

Vozes proféticas contemporâneas recordaram essa verdade. 

  • Dom Oscar Romero afirmava que a Igreja deve estar onde estão os pobres e que uma fé que não se compromete com a justiça é caricatura do Evangelho. 
  • Pedro Casaldáliga proclamava que a neutralidade diante da injustiça é cumplicidade. 
  • Martin Luther King Jr. ensinava que a injustiça em qualquer lugar ameaça a justiça em todo lugar. 
  • Dietrich Bonhoeffer denunciava a graça barata que absolve sem conversão concreta. Desmond Tutu testemunhou que não há futuro sem perdão, mas também não há perdão sem verdade.
O ser humano é relacional. Gênesis 1,27 apresenta a imagem de Deus na comunhão. A ruptura fraterna fere essa imagem. Psicologicamente, processos de desumanização precedem violências coletivas. Quando discursos religiosos legitimam exclusões, repetem a lógica dos que chamaram Jesus de blasfemo para proteger privilégios. Mateus 23 revela a denúncia de uma religião que impõe fardos pesados e busca aplauso público.

A justiça maior é integral. Ela envolve coração, palavra e estrutura. Não se limita ao foro íntimo, nem se reduz a ativismo vazio. Tiago 2,17 recorda que a fé sem obras é morta. 1João 4,20 afirma que não se pode amar a Deus que não se vê se não se ama o irmão que se vê. A conversão quaresmal e a perseverança do Tempo Comum convergem aqui. Isaías 58 descreve o jejum que Deus deseja: repartir o pão, acolher o pobre, romper jugos. Ela desafia sistemas que produzem descartáveis. Mateus 25,31-46 identifica Cristo com os famintos, os presos, os estrangeiros. A fé que ignora essas presenças nega o próprio Senhor. Romanos 12,18-21 convida a vencer o mal com o bem, não por ingenuidade, mas por convicção de que o ódio perpetua ciclos de morte. A reconciliação não é passividade diante da opressão, mas transformação das relações a partir da verdade e da dignidade.

No fim, a exigência de Jesus não é ameaça, mas promessa. A justiça maior não aprisiona, liberta da superficialidade religiosa. Ela nos introduz no dinamismo do Reino, que já se faz presente onde a reconciliação vence o ódio. Hebreus 12,14 exorta a buscar a paz com todos e a santidade sem a qual ninguém verá o Senhor. A santidade, à luz de Mateus 5,20-26, não é isolamento devocional, mas coerência entre altar e vida.


“Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão” (Mt 5,24).

Não se pode celebrar a liturgia eucarística sem antes buscar a reconciliação com quem foi ferido. A liturgia se profana quando separada da justiça: “Eu não suporto vossas assembleias” (Am 5,21), “Ainda que multipliqueis as orações, não vos escutarei. Suas mãos estão cheias de sangue!” (Is 1,15).

Essas palavras são mais atuais que nunca, ressoando a profecia de Dom Oscar Romero, que advertia contra “missas injustas” e “semanas santas que não se praticam”. Para ele, a Eucaristia era o sacramento do Cristo que se faz presente nos sofrimentos dos pobres — e celebrá-la sem compromisso com a justiça era profanar o mistério da fé. A missa celebrada por mãos sujas de racismo, misoginia, homofobia ou indiferença aos pobres é idolatria. É idolatria política quando se benze a tortura e se canoniza a violência de Estado. Essa Palavra, proclamada na Quaresma e no Tempo Comum, nos lembra que a conversão não é um evento pontual, mas um modo de viver. A justiça do Reino se constrói no cotidiano: no gesto que acolhe, na palavra que edifica, na decisão de romper com o sistema de morte. O seguimento de Jesus exige uma justiça que desafia o status quo. Ele foi condenado pelos religiosos e políticos de seu tempo, porque sua justiça revelava a injustiça institucionalizada.

A Eucaristia se torna vazia quando não brota de uma vida reconciliada. O culto é mentira quando celebrado entre ódios e muros. Como escreveu o Papa Francisco, de saudosa memória, na Evangelii Gaudium (n. 71): “A piedade desconectada da justiça é uma falsificação do Evangelho.”
Quando se afirma que a missa celebrada por mãos sujas de racismo, misoginia, homofobia ou indiferença aos pobres se torna idolatria, não se trata de retórica inflamada, mas de coerência bíblica. A Escritura inteira testemunha que o culto desvinculado da justiça se converte em mentira religiosa. Amós declara que Deus rejeita cânticos quando o direito é esmagado. Isaías denuncia orações feitas por mãos manchadas de sangue. O próprio Jesus cita Oséias para recordar que o Pai quer misericórdia e não sacrifício. A ruptura que Mateus 5,20-26 propõe não é estética, é estrutural: não basta evitar o homicídio jurídico; é necessário desmontar as estruturas interiores e sociais que produzem morte.
Por isso, a denúncia contra a instrumentalização política da fé não é opcional. Quando o altar é transformado em palco para legitimar violência de Estado, quando se benze a tortura em nome da ordem, quando se espiritualiza a desigualdade como se fosse desígnio divino, o Evangelho é traído. Jesus foi condenado por uma aliança entre religião institucional e poder político. A cruz não é símbolo de domínio, mas de desmascaramento do domínio. Toda vez que a fé se alia a projetos autoritários e excludentes, repete-se o drama do Gólgota sob novas roupagens.
A justiça maior que Jesus exige não é moralismo aperfeiçoado, é mudança de paradigma. Trata-se de uma ruptura epistemológica, porque desloca o centro da religião da observância exterior para a transformação interior que se traduz em prática histórica. O farisaísmo contemporâneo não se identifica apenas com ritos minuciosos, mas com a defesa seletiva de valores que protegem privilégios enquanto ignoram a dignidade concreta dos pobres, dos migrantes, dos povos originários, das mulheres violentadas, da população carcerária, da comunidade LGBTQIA+, dos que vivem nas periferias urbanas. Quando a religião silencia diante dessas feridas ou as legitima, ela se distancia da justiça maior.

Hoje, mais do que nunca, essa Palavra clama por profetas. Gente como Dom Helder, Dom Pedro Casaldáliga, Irmã Dorothy, e tantos anônimos da fé que anunciam com a vida: 

Não há Eucaristia sem justiça. 

Não há fé sem reconciliação.

Precisamos  ter essa consciência:  Não há Cristianismo verdadeiro sem compromisso com os últimos.

Assim, proclamado tanto na Quaresma quanto no Tempo Comum, esse Evangelho insiste que conversão não é evento pontual, mas modo de existir e continua julgando nossas práticas e convidando a Igreja a constante reforma. Ele nos chama a uma espiritualidade encarnada, a uma fé que constrói pontes, a uma justiça que nasce do amor e se traduz em compromisso histórico. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Onde essa palavra é vivida, o Reino já começou
 A justiça maior não é heroísmo episódico, mas fidelidade cotidiana. Ela nasce do amor, se expressa na reconciliação e se traduz em compromisso histórico com os últimos. Onde essa coerência começa a florescer, ainda que de forma frágil, o Reino já se torna visível. E ali, no espaço onde o irmão é restaurado e o ódio perde terreno, a Palavra de Cristo deixa de ser apenas proclamada e passa a ser vivida,  .

DNonato - Teólogo do Cotidiano, com os pés no chão do povo e o coração no Evangelho de Jesus Cristo.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5, 13-16.

O texto de Mateus 5,13-16 é proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, no ciclo dominical, e também na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum sendo a continuação do Evangelho  da segunda-feira anterior. Ele faz parte do célebre Sermão da Montanha e traz imagens que sintetizam a vocação pública e transformadora dos discípulos de Jesus: ser sal da terra e luz do mundo. Não se trata de um chamado à superioridade, mas à responsabilidade.
Jesus usa  duas das imagens mais conhecidas do Evangelho: o sal da terra e a luz do mundo. Essas metáforas sintetizam a identidade e a missão dos discípulos de Jesus. Não são títulos honoríficos nem privilégios espirituais. São responsabilidades assumidas diante de Deus e da história. Ao ouvirmos Jesus declarar: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14), somos colocados diante de uma afirmação surpreendente. Jesus não diz que os discípulos deverão tornar-se sal ou que precisarão conquistar a condição de luz. Ele afirma que já são. A identidade precede a missão. Antes de qualquer atividade existe uma vocação; antes de qualquer obra existe uma graça recebida; antes de qualquer mérito existe um chamado.

Essa observação é fundamental para compreender o Sermão da Montanha. Mateus constrói cuidadosamente o caminho que conduz até essas palavras. Desde o início do Evangelho, Jesus é apresentado como o novo Moisés. Assim como Moisés foi ameaçado pelo faraó, Jesus é perseguido por Herodes ainda criança (Mt 2,13-18). Assim como Israel atravessou o deserto, Jesus é conduzido ao deserto e vence as tentações que haviam derrotado o povo antigo (Mt 4,1-11). Em seguida, inicia sua missão na Galileia (Mt 4,12-17), região frequentemente desprezada pelas elites religiosas de Jerusalém. Esse detalhe possui profundo significado teológico. Mateus mostra que a luz de Deus começa a brilhar precisamente nas periferias. Antes que os discípulos sejam chamados luz do mundo, Cristo é apresentado como a luz prometida pelos profetas. O evangelista cita Isaías: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16; Is 9,1-2). A luz não nasce da capacidade humana. Ela é recebida daquele que é a verdadeira luz que ilumina todo ser humano (Jo 1,9).

Ao subir à montanha para ensinar (Mt 5,1), Jesus realiza um gesto carregado de significado bíblico. Nas Escrituras, as montanhas são lugares de encontro com Deus e de revelação: 

  •  No Sinai, Moisés recebeu a Lei (Ex 19–20). 
  • No Carmelo, Elias enfrentou os falsos profetas (1Rs 18). 
  • No Horeb, Deus manifestou-se na brisa suave (1Rs 19,12). 
Agora, Jesus sobe à montanha para revelar o coração do Pai e apresentar o modo de vida próprio do Reino.

O Sermão da Montanha começa com as Bem-aventuranças (Mt 5,3-12). Elas descrevem quem são os discípulos: pobres em espírito, mansos, misericordiosos, promotores da paz, famintos de justiça e perseverantes na perseguição. Em seguida, Jesus mostra para que eles existem. Não são chamados a refugiar-se do mundo, mas a servir ao mundo. Desde Abraão, a lógica da eleição divina é missionária: Deus chama para enviar, escolhe para servir e abençoa para que outros sejam abençoados (Gn 12,1-3). A espiritualidade bíblica jamais foi uma fuga da realidade. A fé autêntica conduz ao encontro da história concreta, dos dramas humanos, das alegrias e sofrimentos do povo. Por isso, as imagens escolhidas por Jesus possuem uma dimensão profundamente pública. O sal existe para os alimentos. A luz existe para os ambientes. Ambos cumprem sua missão em benefício dos outros. O sal possuía enorme riqueza no mundo antigo, era  muito mais do que um simples tempero, o sal era um bem precioso. Servia para conservar alimentos, purificar, fortalecer alianças e integrar diversos ritos religiosos e até mesmo  já foi usado  como pagamento  a palavra salario tem sua origem no prefixo sal e  contexto  bíblico:  

  • Levítico 2,13, Deus determina que todas as ofertas sejam apresentadas com sal. 
  • Números 18,19 aparece a expressão “aliança perpétua de sal”. 
  • 2 Crônicas 13,5 a relação entre Deus e seu povo é descrita como uma “aliança de sal”.

Na mentalidade semita, o sal simbolizava permanência, fidelidade, preservação e incorruptibilidade. Quando Jesus afirma que seus discípulos são o sal da terra, está dizendo que eles devem tornar visível a fidelidade de Deus em meio a uma humanidade frequentemente marcada pela injustiça, pela violência e pela corrupção das relações humanas. O discípulo é chamado a preservar aquilo que é verdadeiramente humano quando tudo parece caminhar para a degradação da dignidade, da solidariedade e da verdade.

A advertência de Jesus surge imediatamente: “Mas se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído o sabor?” (Mt 5,13). A pergunta permanece inquietante. O problema não é apenas o mundo perder seus referenciais éticos. O problema é quando a própria comunidade de fé perde sua identidade e passa a reproduzir as mesmas lógicas de dominação, prestígio e interesses particulares que deveria questionar. Essa preocupação aproxima Jesus da grande tradição profética de Israel. Amós denunciou um culto desligado da justiça: “Corra antes o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Isaías condenou uma religiosidade incapaz de defender os vulneráveis: “Aprendei a fazer o bem. Procurai o direito. Corrigi o opressor” (Is 1,17). Miqueias resumiu a vontade divina em uma síntese admirável: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Jesus situa-se nessa mesma tradição. Sua preocupação não é preservar instituições por si mesmas, mas manter viva a fidelidade ao projeto de Deus. O sal perde sua função quando a religião se acomoda ao poder, quando a fé é transformada em mercado, quando o Evangelho é reduzido a espetáculo ou quando a espiritualidade deixa de produzir misericórdia.

A Comunidade  vive o  enfrentamento  para transmitir a fé  e  podem, em determinados momentos, preocupar-se mais com sua própria preservação do que com sua missão original. Quando isso acontece, o serviço é substituído pelo prestígio, o testemunho pelo poder e a missão pela autopreservação. Ser sal da terra significa resistir à deterioração ética da sociedade e, ao mesmo tempo, vigiar para que a própria comunidade cristã não perca sua capacidade de testemunhar o Reino. Significa conservar viva a memória da justiça em um mundo frequentemente seduzido pela acumulação, pela exclusão e pela violência. As civilizações  de ontem ds hoje construíram   e constroem sua identidade por meio de símbolos compartilhados, e o sal está entre os símbolos mais universais da experiência humana. Em diferentes culturas, ele representa aquilo que preserva relações, sustenta a convivência e dá sabor à existência. Nesse sentido, uma vida sem sentido torna-se uma vida sem sabor. Uma sociedade sem solidariedade torna-se uma sociedade sem sabor. Uma religião sem compaixão torna-se uma religião sem sabor. O Evangelho convida os discípulos a devolverem sabor à existência humana através da justiça, da fraternidade, da misericórdia e da esperança. Vivemos em uma época marcada por extraordinários avanços tecnológicos, mas também por profundas crises de sentido. Multiplicam-se as conexões digitais enquanto muitos experimentam crescente solidão. Expandem-se os recursos materiais enquanto aumentam a ansiedade, o esgotamento emocional e a sensação de vazio. Cresce a capacidade de comunicação e, paradoxalmente, diminui a qualidade dos vínculos humanos. Nesse contexto, o chamado de Jesus permanece atual. O discípulo é chamado a devolver sabor à vida coletiva, ajudando a reconstruir relações de confiança, laços de solidariedade e horizontes de esperança. O Evangelho não oferece uma fuga da realidade, mas uma forma profundamente humana de habitá-la.

É justamente a partir dessa perspectiva que a segunda imagem utilizada por Jesus adquire toda a sua força: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Se o sal fala da presença transformadora que atua discretamente na realidade, a luz fala da manifestação visível do Reino de Deus na história humana. A imagem da luz atravessa toda a Escritura e constitui um dos símbolos mais profundos da ação de Deus na história. A própria criação começa quando Deus pronuncia sua primeira palavra criadora: “Faça-se a luz” (Gn 1,3). Durante a caminhada do Êxodo, o povo é conduzido pela coluna luminosa que atravessa a noite do deserto (Ex 13,21),  os  Salmos celebram a Palavra divina como “lâmpada para os pés” e “luz para o caminho” (Sl 119,105), Isaías anuncia que o Servo do Senhor será constituído “luz das nações” (Is 49,6) e no Evangelho de João, Cristo é apresentado como a luz verdadeira que ilumina todo ser humano (Jo 1,9), e o próprio Jesus declara: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará nas trevas” (Jo 8,12).

Quando Jesus afirma aos discípulos: “Vós sois a luz do mundo”, está compartilhando com eles a sua própria missão. A Igreja não possui luz própria. Assim como a lua reflete a luz do sol, a comunidade cristã reflete a luz de Cristo. Sua missão não consiste em produzir uma luminosidade autônoma, mas em tornar visível a presença daquele que é a verdadeira luz. Essa observação possui profundas consequências espirituais e pastorais. Ao longo da história, comunidades cristãs foram frequentemente tentadas a buscar visibilidade sem testemunho, influência sem serviço e prestígio sem compromisso com o Evangelho. Contudo, a luz cristã não brilha pelo poder que acumula, mas pelo amor que oferece. Sua autoridade nasce da coerência. Sua credibilidade nasce do serviço. Sua força nasce da fidelidade.

Por isso Jesus acrescenta: “Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, mas sobre o candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão na casa” (Mt 5,15). A imagem era facilmente compreendida pelos ouvintes do século I. Nas pequenas casas da Palestina, uma única lâmpada iluminava todo o ambiente. Escondê-la significaria anular sua finalidade. Da mesma forma, a fé cristã não foi dada para permanecer escondida. Embora possua uma dimensão pessoal e interior indispensável, ela também possui uma dimensão pública, social e comunitária. O Evangelho é chamado a iluminar as relações familiares, os ambientes de trabalho, a educação, a cultura, a economia, a política e todas as dimensões da convivência humana.

É nesse contexto que Jesus conclui: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).

A expressão merece atenção. Jesus não afirma: “para que admirem vocês”. O centro não é o discípulo. O centro é Deus. As boas obras não existem para construir reputações religiosas nem para alimentar vaidades espirituais. O verdadeiro testemunho conduz as pessoas ao reconhecimento da ação divina. A exegese do texto revela um detalhe significativo. A expressão “boas obras” refere-se não apenas a ações moralmente corretas, mas a ações belas, nobres e capazes de revelar concretamente a presença de Deus na história. O discípulo evangeliza não somente pelo que diz, mas pela forma como vive.

Nesse ponto, Jesus retoma a grande tradição profética de Israel. O profeta não era apenas alguém que anunciava acontecimentos futuros. Era alguém que iluminava o presente com a luz de Deus e denunciava as trevas da injustiça e apontava caminhos de esperança. A comunidade cristã é chamada a exercer essa mesma missão profética no interior da sociedade. A luz do Evangelho torna-se visível quando os excluídos são acolhidos, quando a dignidade humana é defendida, quando os esquecidos são lembrados, quando a verdade prevalece sobre a mentira e quando a misericórdia vence a indiferença. A autenticidade da fé não é medida apenas pela intensidade das práticas religiosas, mas pela capacidade de produzir vida, justiça e compaixão.

Em linguagem contemporânea, Jesus alerta contra duas tentações permanentes. 

  • A primeira é a irrelevância: o sal que perde o sabor. 
  • A segunda é a invisibilidade: a luz escondida. Uma comunidade que deixa de servir ao mundo torna-se irrelevante. Uma comunidade que deixa de testemunhar torna-se invisível.

Ao contrário, quando os discípulos vivem as Bem-aventuranças, tornam-se naturalmente sal e luz. A mansidão, a misericórdia, a promoção da paz, a fome e sede de justiça e a solidariedade com os que sofrem produzem um testemunho que nenhuma estratégia de marketing religioso consegue substituir. O mundo contemporâneo não necessita apenas de discursos religiosos. Necessita de sinais concretos do Reino de Deus. Necessita de homens e mulheres cuja existência revele que outro modo de viver é possível. Pessoas que demonstrem, através de suas escolhas, que a fraternidade pode vencer o egoísmo, que a verdade pode resistir à mentira e que a esperança pode sobreviver mesmo em tempos difíceis.

A força dessas palavras torna-se ainda mais impressionante quando observamos quem estava ouvindo Jesus. Não eram governantes, sacerdotes influentes ou membros das elites econômicas. Eram pescadores, agricultores, mulheres simples, trabalhadores anônimos e pessoas frequentemente ignoradas pelos centros de poder. É  justamente a elas que Jesus declara: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo”.

Essa afirmação permanece profundamente revolucionária. Em uma sociedade que costuma medir o valor das pessoas pelo dinheiro, pela influência ou pela visibilidade, o Evangelho proclama que a verdadeira transformação da história frequentemente nasce dos pequenos gestos realizados por pessoas aparentemente comuns. Uma mãe que educa seus filhos na honestidade, um trabalhador que recusa a corrupção, um jovem que escolhe a verdade em vez da mentira, uma comunidade que acolhe os vulneráveis ou uma pessoa que permanece fiel à justiça mesmo quando isso lhe custa caro: tudo isso é luz brilhando no mundo.

O Reino de Deus cresce também através da fidelidade cotidiana, dos gestos silenciosos de amor e das pequenas sementes de esperança lançadas no solo da história. Deus continua agindo através de pessoas concretas, frágeis e limitadas, transformando a realidade a partir de dentro. Mas existe ainda uma dimensão fundamental desse texto que precisa ser aprofundada. Jesus não fala apenas a indivíduos isolados. Ele fala a uma comunidade inteira. O pronome utilizado é plural: “Vós sois”.

A missão é pessoal, mas nunca individualista. O testemunho cristão possui uma dimensão essencialmente comunitária. É justamente essa dimensão que nos conduz à reflexão sobre a vocação dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade.

A dimensão comunitária presente no “vós sois” de Jesus ajuda a compreender um aspecto fundamental da missão cristã que recebeu especial atenção na Igreja contemporânea: a vocação dos cristãos leigos e leigas. As palavras do Sermão da Montanha não foram dirigidas a um grupo restrito de especialistas da religião, mas a uma comunidade de discípulos formada por homens e mulheres inseridos na vida cotidiana, nas relações familiares, no trabalho e na convivência social. O chamado para ser sal da terra e luz do mundo pertence a todo o povo de Deus. Essa compreensão recebeu novo impulso com o Concílio Vaticano II. Ao refletir sobre a identidade da Igreja, os padres conciliares recordaram que todos os batizados participam da missão de Cristo. A evangelização não é responsabilidade exclusiva do clero ou da vida religiosa. Ela pertence a toda a Igreja.

A Constituição Dogmática Lumen Gentium ensina que os leigos participam da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo. Isso significa que sua presença no mundo não é um elemento secundário da vida eclesial. É parte constitutiva da própria missão da Igreja. Os ambientes da cultura, da educação, da política, da ciência, da economia, das artes, da comunicação social e da vida familiar não são espaços estranhos ao Evangelho. São lugares onde a luz de Cristo é chamada a brilhar.

No contexto brasileiro, essa visão recebeu uma formulação particularmente significativa através do Documento 105 aprovado em 2016 na 54ª Assembleia  Geral  da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, intitulado Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade: Sal da Terra e Luz do Mundo. Ao recorrer diretamente a Mateus 5,13-16, os bispos reafirmaram que a vocação laical encontra sua inspiração mais profunda nas palavras do próprio Jesus..O documento recorda que os leigos e leigas não são meros auxiliares ocasionais das atividades pastorais. São sujeitos eclesiais, discípulos missionários e protagonistas da evangelização. Sua missão ultrapassa os limites das estruturas internas da Igreja e alcança as realidades concretas onde a vida humana acontece. É ali que o sal deve preservar. É ali que a luz deve iluminar.

Essa compreensão possui raízes profundas na história do cristianismo. Desde os tempos apostólicos, a expansão do Evangelho ocorreu principalmente através de homens e mulheres comuns que testemunhavam sua fé no cotidiano. Famílias transformaram suas casas em espaços de acolhimento. Trabalhadores anunciaram Cristo em seus ambientes profissionais. Comerciantes levaram a Boa-Nova para novas cidades. Pais e mães transmitiram a fé às novas gerações. Muito antes da construção das grandes estruturas eclesiásticas, a Igreja crescia porque existiam discípulos que viviam como sal e luz nas realidades mais simples da vida. Essa dimensão continua atual. O Reino de Deus avança quando a vida cotidiana é iluminada pelo Evangelho. Avança quando a honestidade prevalece sobre a corrupção, quando a solidariedade vence a indiferença e quando a dignidade humana é defendida contra todas as formas de exclusão.

Ao mesmo tempo, essa missão não pode ser confundida com a busca de privilégios religiosos ou formas de dominação. Ao longo da história, sempre existiu a tentação de instrumentalizar a fé para justificar interesses particulares, legitimar exclusões ou sustentar projetos de poder. Jesus recusou esse caminho. Seu Reino não é construído pela imposição, mas pelo serviço. Não cresce pela força, mas pela verdade. Não se estabelece pela dominação, mas pelo amor.

Essa advertência continua atual. A luz do Evangelho não pertence a ideologias, nacionalismos ou projetos de poder. Ela pertence ao Reino de Deus. Sempre que a fé é utilizada para alimentar intolerâncias, justificar preconceitos ou negar a dignidade humana, corre-se o risco de obscurecer aquilo que deveria iluminar. Por outro lado, quando os cristãos se colocam ao lado dos que sofrem, quando defendem a vida, promovem a paz, acolhem os excluídos e trabalham pela justiça, tornam visível a presença de Cristo na história. O Reino manifesta-se quando os famintos são alimentados, os pobres são acolhidos, os esquecidos são lembrados e os feridos pela vida reencontram sua dignidade.

Por isso, a pergunta deixada por Mateus 5,13-16 não é apenas individual. É também comunitária e eclesial: 

  • Como nossas comunidades estão sendo sal da terra? 
  • Como estão sendo luz do mundo
  • Nossa presença torna a sociedade mais humana, mais fraterna e mais próxima do projeto de Deus?

A resposta passa necessariamente pela conversão. A palavra utilizada por Jesus é metanoia, termo grego que indica uma profunda mudança de mentalidade, de coração e de direção. 

  • Não basta ter sido luz em algum momento do passado. 
  • Não basta recordar tempos em que a comunidade cristã exerceu influência positiva na sociedade. Cada geração precisa redescobrir continuamente sua missão.

A história da Igreja revela essa tensão permanente entre fidelidade e acomodaçã e em muitos momentos, comunidades cristãs tornaram-se sinais luminosos de esperança. Fundaram escolas, hospitais, universidades, obras sociais e iniciativas de promoção humana. Defenderam os pobres, acolheram os marginalizados e anunciaram a dignidade da pessoa humana em contextos de violência e opressão. Em outros momentos, porém, também experimentaram crises provocadas pelo clericalismo, pela busca de privilégios, pela proximidade excessiva com o poder e pela incoerência entre o anúncio e a prática. O próprio Evangelho não esconde essa possibilidade. A advertência sobre o sal que perde o sabor e a luz que deixa de iluminar permanece sempre atual.

Por isso, quando refletimos sobre Mateus 5,13-16, não devemos perguntar apenas o que está errado na sociedade. Devemos perguntar também como está nosso testemunho? 

  1. Uma comunidade que anuncia a fraternidade, mas cultiva divisões, enfraquece sua luz.
  2. Uma comunidade que fala de misericórdia, mas pratica exclusões, perde seu sabor.
  3. Uma comunidade que proclama a justiça, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, obscurece o brilho do Evangelho.

Nesse sentido, o Sermão da Montanha permanece extraordinariamente atual. As Bem-aventuranças constituem o coração desse projeto de vida. O sal e a luz são suas consequências naturais.

  • Quem vive a misericórdia torna-se luz.

  • Quem promove a paz torna-se luz.
  • Quem tem fome e sede de justiça torna-se luz.
  • Quem permanece fiel ao amor mesmo em meio às dificuldades torna-se luz.
  • Quem se recusa a reproduzir a lógica do ódio, da violência e da exclusão torna-se sal da terra.

O mundo contemporâneo continua necessitando dessa luminosidade. Há muita informação, mas nem sempre há sabedoria. Há muitos discursos, mas nem sempre há verdade. Existem avanços tecnológicos impressionantes, mas persistem a fome, a desigualdade, a violência e inúmeras formas de sofrimento. Diante dessa realidade, Jesus não pede aos seus discípulos que sejam famosos, poderosos ou influentes. Pede algo muito mais exigente: que sejam fiéis. Porque uma pequena quantidade de sal ainda pode transformar uma refeição inteira. E uma pequena chama ainda pode romper a escuridão de uma grande noite.

Essa esperança atravessa toda a história da salvação. Deus frequentemente escolhe aquilo que parece pequeno para realizar grandes transformações. Escolheu Abraão, um peregrino sem terra. Escolheu Moisés, um homem inseguro diante de sua missão. Escolheu Davi, o menor entre seus irmãos. Escolheu profetas vindos das periferias da sociedade. Escolheu pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo. O Reino de Deus continua crescendo dessa maneira: silenciosamente, discretamente, mas com uma força capaz de transformar a história.

Por isso, ninguém deve considerar insignificante sua contribuição. Uma palavra de esperança pode mudar uma vida, um gesto de solidariedade pode restaurar uma dignidade ferida., uma atitude de justiça pode inspirar uma comunidade inteira e uma presença acolhedora pode revelar a misericórdia de Deus.

O Evangelho não exige que cada discípulo resolva todos os problemas do mundo. Exige que seja fiel no lugar onde foi chamado a viver. Ao final desta reflexão, permanecem ecoando duas  perguntas de Jesus:

  1. Se o sal perder o sabor, quem lhe devolverá o sabor?
  2. Se a luz for escondida, quem iluminará a casa?

O Evangelho responde não com teorias, mas com um chamado. Que cada discípulo redescubra sua vocação. Que cada comunidade reencontre sua missão. Que os cristãos leigos e leigas assumam cada vez mais sua responsabilidade missionária na Igreja e na sociedade. Que o povo de Deus continue sendo presença transformadora nos lugares onde a vida acontece. O mundo continua necessitando de sal que preserve a dignidade humana. Continua necessitando de luzes que apontem caminhos de justiça, compaixão e esperança. Continua necessitando de comunidades que testemunhem, por palavras e ações, que o Reino de Deus já está presente no meio de nós.

E toda vez que alguém escolhe amar em vez de odiar, servir em vez de dominar, construir em vez de destruir, reconciliar em vez de dividir, uma pequena luz se acende na história. E onde a luz de Cristo brilha, mesmo discretamente, as trevas jamais têm a última palavra.

"Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus" (Mt 5,16).

Prof. DNonato – Teólogo do cotidiano.