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sexta-feira, 4 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,14-17.

 Vinho Novo, Odres Vivos. 

No sábado da 13ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos convida a refletir sobre Mateus 9,14-17. Essa mesma tradição também é preservada nos Evangelhos Sinóticos: em Marcos 2,18-22, proclamado na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, e em Lucas 5,33-39, proclamado na sexta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum. A narrativa tem início com uma pergunta feita pelos discípulos de João Batista a respeito do jejum. Já tratamos em outro momento  abordamos os conflitos iniciais entre os discípulos de João e os de Jesus, bem como o contexto em que essas tensões surgiram. Agora, voltamos nosso olhar para o significado da resposta de Jesus e para a novidade do Reino que ela revela
A pergunta feita pelos discípulos de João Batista  “Por que motivo nós e os fariseus jejuamos, e os teus discípulos não jejuam?” Vai além de uma simples dúvida ascética. Revela, na verdade, um conflito mais profundo: o embate entre estruturas religiosas antigas e o novo horizonte que Jesus inaugura. O jejum, prática comum entre os judeus do Segundo Templo, era sinal de penitência, súplica e preparação messiânica (cf. Joel 2,12; Zac 8,19). Contudo, neste contexto, aparece como símbolo de um tempo em transição, que exige discernimento espiritual e abertura profética. Jesus responde com três imagens simbólicas: o esposo, o remendo e o vinho novo — cada uma reveladora de sua identidade e da radical novidade do Reino.

Ao se autodefinir como “o esposo”, Jesus retoma uma imagem profundamente enraizada na teologia profética do Antigo Testamento. Deus é o esposo de Israel (cf. Os 2,16-22; Is 54,5-8; Jr 2,2), e a aliança entre YHWH e o povo é descrita como um matrimônio. Quando Jesus afirma que seus discípulos não jejuam porque “o esposo está com eles”, está anunciando que, n’Ele, Deus se faz presente de modo íntimo e jubiloso — não como doutrina abstrata, mas como presença viva e transformadora. É tempo de núpcias, e ninguém jejua em meio à festa do casamento. O jejum voltará, mas apenas quando o esposo lhes for tirado — alusão velada à sua paixão e morte (cf. Mt 26,31; Mc 2,20).


Nos Evangelhos Sinópticos, essa passagem encontra paralelos em Marcos 2,18-22 e Lucas 5,33-39, mantendo estrutura semelhante: o questionamento sobre o jejum, a resposta com a imagem do esposo e as parábolas do remendo e dos odres. Em todos os relatos, Jesus responde não com condenação, mas com profunda densidade simbólica. O foco não está em proibir o jejum ou exaltá-lo, mas em reinterpretar o tempo presente à luz de sua vinda: é o kairós — o tempo oportuno e fecundo (cf. 2Cor 6,2) — no qual as práticas religiosas precisam ser reformuladas à altura do acontecimento do Reino. A fidelidade a Deus já não pode ser medida apenas por práticas exteriores, mas pela adesão interior a uma nova lógica: a do Evangelho.

As imagens do remendo novo em roupa velha e do vinho novo em recipientes ressequidos reforçam a tensão entre a novidade trazida por Jesus e as estruturas religiosas endurecidas, incapazes de acolher o dinamismo do Espírito. O remendo novo rasga ainda mais o tecido antigo, e o vinho em fermentação rompe o odre ressequido. Ambas as imagens anunciam o risco de tentar conter o Reino dentro de formas obsoletas. A antropologia e a sociologia nos ajudam a perceber como culturas e instituições, quando cristalizadas em sistemas rígidos, tendem a rejeitar tudo aquilo que desafia suas certezas. A tentativa de adaptar o Evangelho a estruturas esgotadas só amplia o rasgão — a violência é inevitável quando a graça é comprimida por estruturas mortas.

Há, portanto, um apelo radical à renovação — não apenas uma conversão pessoal, mas uma reforma da Igreja, das relações e das estruturas que a sustentam. A Igreja, segundo o Concílio Vaticano II, é chamada a uma perene reforma (semper reformanda) (cf. Unitatis Redintegratio, n. 6), pois carrega “um tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7). A patrística recorda que o Espírito Santo sopra onde quer (Jo 3,8), e Santo Agostinho adverte: “Teme o Espírito que passa e não volta”. Os odres novos simbolizam a renovação do coração, a abertura do entendimento (cf. Rm 12,2), o abandono de modelos religiosos legalistas e moralistas que sufocam a liberdade dos filhos e filhas de Deus (cf. Gl 5,1).

Essa crítica de Jesus às estruturas fossilizadas da religião encontra ressonância na filosofia contemporânea, especialmente nas denúncias à razão instrumental feitas por Adorno e Horkheimer, e no alerta de Nietzsche contra uma fé desconectada da vida. O jejum sem alegria, a religião sem festa, a fé sem amor — tudo isso são cascas ressecadas. Um cristianismo que apenas repete ritos, normas e doutrinas, mas não se deixa transformar pelo vinho novo do Espírito, torna-se apenas mecanismo de controle — letra que mata, como Paulo já alertava (2Cor 3,6).

No contexto atual, essa palavra ressoa com força profética. Vivemos tempos em que muitos desejam restaurar “odres velhos”: a rigidez litúrgica como identidade, o moralismo como medida da fé, a religião como instrumento de poder e exclusão. Há setores eclesiais que, em nome da “verdade”, jejuam da alegria do Evangelho, como se a graça fosse escassa ou racionada por mérito. Embora o Papa Francisco — que faleceu em abril de 2025 — tenha sido duramente combatido por tais grupos, ele insistiu até o fim: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium, n. 1). E esse é o vinho novo: uma Igreja que celebra a presença do Esposo é uma Igreja que dança, que canta, que cuida dos pobres e celebra a vida, mesmo em meio à dor.

Ao mesmo tempo, Jesus não despreza o jejum. Ele diz que chegará o tempo em que jejuarão — e isso remete à dimensão escatológica da esperança. O jejum cristão não é mera penitência, mas linguagem do desejo: expressão de uma sede que ainda não se saciou por completo. O Esposo está conosco, mas ainda esperamos sua plenitude. Por isso jejuamos. Por isso também celebramos. O cristão vive neste entre-tempo, onde jejum e festa convivem como ressonâncias do já e ainda não do Reino.

A simbologia do vinho tem profundo enraizamento nas Escrituras. Desde o Gênesis, onde Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão (Gn 14,18), até o Apocalipse, onde o vinho da ira de Deus é imagem do juízo (Ap 14,10), essa bebida representa tanto alegria quanto aliança. O salmista canta: “o vinho que alegra o coração do homem” (Sl 104,15), e os Provérbios alertam para seu uso excessivo (Pv 23,29-35). Na tradição bíblica, o vinho simboliza bênção, comunhão e festa — mas também responsabilidade e vigilância.

Na narrativa das bodas de Caná (Jo 2,1-11), Jesus transforma água em vinho — não qualquer vinho, mas o melhor vinho, guardado para o final. A cena é carregada de simbolismo: ali, o Esposo verdadeiro manifesta sua glória, inaugurando o tempo novo da abundância messiânica. O vinho novo em Caná antecipa o vinho novo do Reino. E esse mesmo vinho se tornará, na última ceia, o sangue da nova e eterna aliança (cf. Mt 26,28).

O apóstolo Paulo, por sua vez, aconselha Timóteo a não beber apenas água, mas também “um pouco de vinho, por causa do estômago e das frequentes enfermidades” (1Tm 5,23). Esse conselho pastoral e realista de Paulo confronta visões moralistas e puritanas que demonizam toda bebida alcoólica. O problema não está na substância, mas no excesso, na alienação e na hipocrisia daqueles que julgam os outros sem discernir o espírito da liberdade cristã (cf. Rm 14,17).

Hoje a a liturgia nos convida a rever nossas estruturas religiosas, comunitárias e existenciais. 

  • Estamos tentando conter vinho novo em odres endurecidos? 
  • Temos remendado com doutrinas o que só o amor pode restaurar? 
  • Transformamos o cristianismo num peso ou nos tornamos testemunhas da leveza e da presença do Esposo em nosso meio?

A maturidade da fé se revela não na adesão exterior a costumes, mas na capacidade de discernir os tempos, de ser odre novo, de sustentar a fermentação do Espírito que renova todas as coisas. Que saibamos jejuar quando for necessário, mas também celebrar com a liberdade dos filhos e filhas que reconhecem: o Esposo está conosco — “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Para compreender melhor a profundidade desse gesto que Jesus reinterpreta, é preciso olhar como o jejum atravessa toda a Escritura. A palavra “jejum” e seus derivados aparecem mais de 70 vezes na Bíblia, com significados que vão muito além da privação alimentar. Moisés jejua quarenta dias no Sinai antes de receber as tábuas da Lei (Ex 34,28), Elias jejua enquanto caminha rumo ao encontro com Deus no Horeb (1Rs 19,8), Ester convoca um jejum coletivo em defesa do povo (Est 4,16), e o próprio Jesus inicia seu ministério com um jejum de quarenta dias (Mt 4,2). O livro de Isaías denuncia o jejum hipócrita (Is 58), ensinando que o jejum verdadeiro rompe correntes de injustiça. O Novo Testamento mostra que o jejum, quando praticado em comunidade, prepara o discernimento do Espírito (At 13,2-3). Assim, o jejum bíblico é sempre orientado para Deus e para o outro: gesto de humildade, de escuta, de solidariedade. Quando perde esse foco, torna-se apenas disciplina ou exibicionismo religioso.

No tempo de Jesus, o jejum dos fariseus — duas vezes por semana, às segundas e quintas — era sinal de devoção, mas também de distinção social e moral (cf. Lc 18,12). Jesus não invalida o jejum, mas o desloca de lugar: não é o rito em si que salva, mas a capacidade de discernir o tempo de Deus e responder com inteireza. Enquanto o Esposo está presente, a fome é transformada em festa. Quando Ele for tirado, o jejum voltará — mas como saudade ativa, desejo ardente, vigilância amorosa.

Já os odres, objetos típicos do cotidiano camponês e nômade da Judeia e da Galileia, eram feitos com peles inteiras de animais, geralmente cabras ou ovelhas. Depois de limpas e tratadas com sal e cinza, essas peles eram costuradas e impermeabilizadas para armazenar líquidos, especialmente o vinho. O vinho novo, em fermentação, produzia gases que exigiam flexibilidade do recipiente. Se o odre estivesse envelhecido e ressecado, rachava-se e o vinho se perdia. Daí o princípio: vinho novo só em odres novos. A metáfora é clara: o Evangelho exige estruturas e corações capazes de conter sua vitalidade. Um coração endurecido não suporta a expansão da graça; uma instituição presa ao legalismo não comporta o sopro do Espírito. Mais que metáfora, é um apelo escatológico: um novo mundo fermenta entre nós, e só odres renovados poderão contê-lo sem explodir.

Que nossos odres sejam renovados pela ternura e pela justiça. Que o vinho novo da alegria do Evangelho nos embriague de esperança. E que, em cada comunidade, o Esposo encontre festa, não jejum — porque onde Ele está, há liberdade, amor e ressurreição.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 16 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,43-48

A perícope do amor aos inimigos Mateus 5,43-48 sendo uma  continuação  direta  da leitura  de ontem . Essa passagem ocupa  um lugar central no ensinamento de Jesus. Presente tanto no Sermão da Montanha, em Mateus (Mt 5,43-48), quanto no Sermão da Planície, em Lucas (Lc 6,27-38), ela nos apresenta uma das propostas mais revolucionária do Evangelho: amar não apenas os amigos, mas também aqueles que nos ofendem, perseguem ou rejeitam. A Igreja, como sábia pedagoga da fé, coloca esta Palavra diante de nós em diversos momentos do ano litúrgico.

  • Nos Domingos, ela é proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum:   no Ano A segundo Mateus 5,38-48 e no Ano C segundo Lucas 6, 27-38
  • Na Quaresma, tempo de conversão e retorno ao essencial, a mesma mensagem ressoa no Sábado da 1ª Semana (Mateus) e na Segunda-feira da 2ª Semana (Lucas), convidando-nos a examinar a profundidade de nossa mudança de vida.
  • No ciclo  semanal ela  retoma na Terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 23ª Semana, lembrando-nos que o amor evangélico deve ser vivido todos os dias.

Seja no domingo festivo, no caminho penitencial da Quaresma ou na simplicidade dos dias comuns, Jesus nos convida a ultrapassar a lógica humana da reciprocidade e da vingança para entrar na lógica divina da misericórdia. O discípulo não é chamado a amar apenas quem o ama, mas a refletir o próprio coração de Deus, cuja bondade alcança justos e injustos. Abramos, portanto, nosso coração a esta Palavra exigente e libertadora, pedindo a graça de aprender a amar como o Pai ama.  

Ele diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Estao é uma convocação à transformação integral do coração e da ação, que transcende o instinto natural de autoproteção, o desejo de vingança e a lógica social do merecimento. O verbo grego agapate implica uma decisão deliberada de amar, uma ação ética e gratuita que não depende de reciprocidade. Este amor é distinto do afeto natural ou do carinho espontâneo; é um amor que busca o bem do outro, mesmo quando este nos prejudica ou nos odeia. Trata-se de uma participação concreta no próprio modo de amar de Deus, que se revela ao longo de toda a Escritura como “misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor” como proclama Êxodo 34,6.

Jesus falava a uma sociedade profundamente marcada por códigos de honra, retaliação e regras legais restritivas. O mandamento do olho por olho, dente por dente em Êxodo 21,24 e Levítico 24,20 limitava a violência desproporcional, mas ainda preservava a lógica da retribuição. No entanto, já no Antigo Testamento encontramos sementes de superação dessa lógica. Provérbios 20,22 aconselha: “Não digas: Vou pagar o mal; espera no Senhor, e ele te salvará”. Provérbios 24,17 recomenda: “Se teu inimigo cair, não te alegres”. Em Jó 31,29 o justo declara que nunca se alegrou com a desgraça de seu inimigo. O próprio livro dos Provérbios 25,21 ensina: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”, texto que Paulo retoma explicitamente em Romanos 12,20 ao exortar os cristãos a vencerem o mal com o bem.

O ensino de Jesus, portanto, não é ruptura com a revelação anterior, mas plenitude e radicalização. Ele não anula a Lei, mas a leva ao seu cumprimento, como já afirmara em Mateus 5,17. Amar o inimigo é o ápice da justiça superior à dos escribas e fariseus mencionada em Mateus 5,20. Trata-se de uma justiça que nasce do coração renovado, como prometido em Jeremias 31,33, quando Deus diz que escreverá sua lei no íntimo do ser humano. É também cumprimento da promessa de Ezequiel 36,26, na qual Deus promete dar um coração novo e um espírito novo ao seu povo. O texto de Mateus enfatiza ações concretas: fazei o bem a quem vos odeia. O amor cristão é prático, histórico, verificável. Ele ecoa o mandamento maior já presente em Deuteronômio 6,5, amarás o Senhor teu Deus, e em Levítico 19,18, amarás o teu próximo como a ti mesmo. Jesus amplia o conceito de próximo, como já demonstrara na parábola do bom samaritano em Lucas 10,33, onde o estrangeiro e desprezado torna-se modelo de compaixão. O inimigo, portanto, entra no campo do amor. A lógica tribal é superada pela lógica do Reino.

Os símbolos do sol e da chuva em Mateus 5,45 revelam a universalidade da graça divina. O Salmo 145,9 afirma que o Senhor é bom para todos e sua misericórdia se estende sobre todas as suas obras. O Salmo 103 recorda que Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas faltas. Lamentações 3,22-23 proclama que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. A imagem da chuva recorda Deuteronômio 11,14, onde a chuva é bênção da fidelidade divina, e Isaías 55,10-11, onde a chuva que desce do céu simboliza a eficácia da Palavra de Deus que produz vida.

Quando Jesus ordena orar pelos perseguidores, ele aponta para sua própria prática. Na cruz, segundo Lucas 23,34, ele suplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estêvão, em Atos 7,60, repete esse gesto ao pedir que o pecado de seus algozes não lhes seja imputado. Aqui vemos a tradição apostólica encarnando o mandamento do Mestre. Pedro, em 1Pedro 3,9, exorta a não pagar mal por mal, mas a abençoar. João, em 1João 4,20, declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. O amor ao inimigo torna-se critério de autenticidade espiritual..A compreensão deste ensinamento exige uma antropologia realista. Gênesis 4 apresenta Caim incapaz de dominar a violência que bate à porta de seu coração. O ser humano, marcado pelo pecado, tende à rivalidade e à vingança. No entanto, já em Gênesis 50,20, José, traído pelos irmãos, reconhece que Deus pode transformar o mal em bem. Esta é a lógica do Reino. Romanos 5,8 afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Efésios 2,14 proclama que Cristo é nossa paz, aquele que derrubou o muro de separação e fez de dois povos um só. O amor aos inimigos não é idealismo ingênuo, mas participação na reconciliação cósmica inaugurada por Cristo.

No contexto contemporâneo, marcado por polarizações e discursos de ódio, a palavra de Jesus permanece provocativa. A sabedoria bíblica adverte contra a língua que fere. Provérbios 18,21 ensina que a morte e a vida estão no poder da língua. Tiago 3 compara a língua a um fogo capaz de incendiar florestas inteiras. Amar o inimigo implica também purificar a linguagem, romper com a violência simbólica, recusar a difamação e a mentira. Efésios 4,31-32 convida a afastar toda amargura e a ser bondoso e compassivo, perdoando como Deus nos perdoou em Cristo..A perfeição mencionada em Mateus 5,48 não é perfeccionismo moral, mas plenitude do amor. O termo grego teleios indica maturidade, completude. Em Gênesis 17,1 Deus diz a Abraão: anda na minha presença e sê íntegro. A integridade bíblica é totalidade de coração. Colossenses 3,14 afirma que o amor é o vínculo da perfeição. A maturidade cristã consiste em amar como o Pai ama. Não se trata de sentimentalismo, mas de decisão constante pela misericórdia.

A cruz permanece o centro desta pedagogia. Isaías 53 descreve o servo sofredor que não abre a boca diante dos que o oprimem e que carrega as iniquidades de muitos. Filipenses 2,5-8 mostra Cristo que se esvazia e assume a condição de servo. Hebreus 12,2 exorta a contemplar Jesus que suportou a cruz desprezando a vergonha. O amor aos inimigos encontra aqui sua fonte e seu critério. A Igreja, chamada a ser sinal e instrumento de unidade segundo Lumen Gentium, deve encarnar essa ética. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. Evangelii Gaudium recorda que a fé autêntica implica desejo de mudar o mundo. Fratelli Tutti insiste que ninguém se salva sozinho e que a fraternidade é caminho político e espiritual. Deus Caritas Est recorda que o amor é tarefa da comunidade inteira. O amor aos inimigos não é opção devocional, mas exigência estrutural do discipulado.

A crítica às espiritualidades centradas apenas no sucesso individual encontra base bíblica em Lucas 12,15, quando Jesus alerta contra toda ganância, e em Mateus 6,19-21, onde exorta a não acumular tesouros na terra. O Reino não é prosperidade egoísta, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo como afirma Romanos 14,17. Amar o inimigo rompe a idolatria do eu e desloca o centro para o outro..O discípulo que vive Mateus 5,43-48 torna-se sinal escatológico. Ele antecipa o tempo anunciado em Isaías 2,4, quando as espadas se transformarão em arados. Ele participa da visão de Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima e elimina a morte. Cada gesto concreto de perdão é semente desse futuro.

Diante dessa palavra, resta a pergunta que atravessa as Escrituras desde Miqueias 6,8: o que o Senhor pede de ti senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e caminhes humildemente com teu Deus. Amar o inimigo é caminho de cruz e ressurreição. É participar do mistério pascal. É deixar que o Espírito produza em nós o fruto descrito em Gálatas 5,22, amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Amar os inimigos é revolucionário: desafia meritocracia, lógica de poder e punição, polarização, discursos de ódio, exclusão social e religiosa. É educação ética, psicológica e espiritual, um caminho que transforma indivíduos, comunidades e sociedades. O Evangelho, proclamado na liturgia, é convite contínuo à conversão do coração, à vivência da misericórdia, à justiça restaurativa e à solidariedade com os marginalizados.

Assim, Mateus 5,43-48 não é conselho opcional, mas revelação do coração do Pai. É convite à conversão profunda, pessoal e comunitária. É chamado à maturidade espiritual e à responsabilidade histórica. É anúncio de que a última palavra não é o ódio, mas o amor que tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, como proclama 1Coríntios 13,7. E é certeza de que, permanecendo no amor, permanecemos em Deus, como assegura 1João 4,16.

Oração 

Senhor, ensina-nos a amar como Tu amas. Livra-nos da armadilha da indiferença e do ódio travestido de justiça. Que possamos viver o Evangelho com coragem profética, mesmo quando isso nos custar conforto, prestígio ou segurança. Que sejamos luz, sal e testemunho do Teu Reino, atuando na transformação do mundo pelo amor incondicional. Amém.

DNonato - Teólogo do cotidiano


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Alguns observações sobre a participação na missa.


Pequenos detalhes que fazem a diferença e unem a Igreja[1]
Olhando para o texto tem muitas coisas que devem ser observada, contudo a casos de extremos que devem ser observado, por exemplo, os itens 18 e 19.  Não saia de seu lugar, como se a liturgia fosse um grupo de soldados em forma,  concordamos que  também não é pra fazer aquele passeio dentro da Igreja  para saudar a todas as pessoas e ainda dizer que deve esta preparado para comungar.
 Quem esta preparado? Quem pode comungar?
1.  
Não chegar atrasado. Lembre-se de que Deus está esperando você para enchê-lo com o seu amor, dar o seu perdão e um abraço, falar ao seu ouvido, e dizer o que o você precisa ouvir. Ele separou um lugar na mesa para você. Não o deixe esperando;
2.  
Não usar roupas provocantes. Não use vestuário que possa chamar a atenção ou provocar (decote, minissaia e shorts);
3.  
Não entre na igreja sem saudar o Senhor. Ao chegar, faça o sinal da cruz. Ele está lá, feliz por ver você. Agradeça-o, pois ele o convidou;
4.  
Não tenha preguiça de fazer a reverência ou a genuflexão. Se você passar em frente ao altar, que representa Cristo, faça a reverência. Se passar pelo Sacrário, onde está Cristo, faça a genuflexão (tocar o chão com o joelho);
5.  
Não masque chiclete nem coma ou beba. Só é permitida água e em caso de necessidade e por questão de saúde;
6.  
Não cruze as pernas. O ato de cruzar as pernas é considerado pouco respeitoso. O seu corpo deve expressar a sua devoção;
7.  
A mesma pessoa não deve fazer a Leitura e o Salmo. Se você vir um só leitor ou leitora, ofereça-se para ler, pois as Leituras e o Salmo devem ser proclamados por leitores diferentes (dois no meio da semana e três aos domingos ou dias festivos, quando há a Segunda Leitura);
8.  
Não adicione frases quando for fazer as Leituras e o Salmo. Não leia as letrinhas vermelhas nem diga: “Primeira Leitura” ou “Salmo Responsorial”;
9.  
Nunca recite o Aleluia antecipadamente. Não se adiante para dizer “Aleluia, Aleluia”. Espere alguns segundos, pois, certamente, alguém o cantará. Se nem o padre nem ninguém cantar, omita-o, mas nunca o recite;
10.    
Não faça o sinal da cruz na proclamação do Evangelho. Você só deve fazer três cruzes pequenas: uma na fronte, outra nos lábios e a última no peito;
11.    
Não responda no plural quando Credo é feito em forma de perguntas. Quem preside a Missa pode perguntar: “Creem em Deus Pai Todo Poderoso?” Neste caso, não responda “sim, cremos”, pois a fé é pessoal. Responda: “sim, creio”.
12.    
Não recolha a oferta durante a Oração Universal. A oferta deve ser recolhida durante a apresentação dos dons, quando todos estão sentados e o padre agradece a Deus pelo pão e o vinho e purifica as mãos;
13.    
Não se levante durante a apresentação dos dons. Às vezes, alguém se levanta e, por impulso, outros também ficam de pé. Talvez, ao ver o padre levantar o cálice e a hóstia, as pessoas pensam que já é a Consagração. Mas não é;
14.    
Não se ajoelhe logo depois do “Santo”. É preciso esperar que o padre peça que o Espírito Santo transforme o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Cristo. É neste momento que se deve ajoelhar-se (se houver sino, ajoelhe-se quando ele soar);
15.    
Não ficar sentado durante a Consagração. Se você não consegue se ajoelhar, fique de pé, mas nunca se sente, a menos que seja por alguma doença. É falta de respeito com Cristo, que se faz presente no altar;
16.    
Não dizer nada em voz alta durante a Consagração. Tem gente que, durante a Consagração, diz em voz alta: “Meu Senhor, Meu Deus”. Mas isso distrai quem está fazendo uma oração pessoal em silêncio;
17.    
Não diga em voz alta: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo…”. Só quem deve dizer isso é quem preside a Missa;
18.    
Não saia do seu lugar para ir dar a Paz. Você só deve cumprimentar quem está perto de você, não outras pessoas, em outros bancos. Tampouco deve aproveitar para ir felicitar alguém ou dar pêsames;
19.    
Se você não estiver preparado, não comungue. Você deve ter guardado o jejum eucarístico (não ter comido nem bebido nada uma hora antes de comungar) e não ter pecado grave;
20.    
Não fazer somente uma fila de Comunhão (a do padre). Jesus está presente na Hóstia Consagrada, não importa se é a hóstia segurada pelo padre ou por um Ministro Extraordinário da Eucaristia, que é uma pessoa preparada e autorizada pela Igreja para distribuir a Comunhão na Missa e levá-la aos idosos e enfermos;
21.    
Depois de comungar, não converse com os outros. Volte ao seu lugar e fale com o Senhor. Se você não comungou, faça uma comunhão espiritual e converse com Ele;
22.    
Quando terminar a distribuição da Comunhão, não continuar cantando. O canto da Comunhão deve terminar quando a última pessoa receber a hóstia, para que haja um silêncio sagrado, em que cada pessoa entra em diálogo com Deus;
23.    
Desligue o celular. Não fique mandando mensagens ou falando ao celular durante a Missa, pois isso distrai você e os outros. Dedique sua atenção ao Senhor, que está dedicando a atenção Dele a você;
24.    
Não perca as crianças de vista. Ensine-as a aproveitar a casa do Pai e a se comportar na Missa;
25.    
Não saia antes que a Missa termine. Não perca a bênção fina, através da qual o padre o envia ao mundo para dar testemunho em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Saia da Igreja com um propósito novo, que tenha sido inspirado no Senhor, para edificar o mundo, seu Reino de amor.


[1] Artigo originalmente publicado por Desde la fé, traduzido e adaptado ao português por Aleteia.