Mostrando postagens com marcador Jejum. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jejum. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,14-17.

 Vinho Novo, Odres Vivos. 

No sábado da 13ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos convida a refletir sobre Mateus 9,14-17. Essa mesma tradição também é preservada nos Evangelhos Sinóticos: em Marcos 2,18-22, proclamado na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, e em Lucas 5,33-39, proclamado na sexta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum. A narrativa tem início com uma pergunta feita pelos discípulos de João Batista a respeito do jejum. Já tratamos em outro momento  abordamos os conflitos iniciais entre os discípulos de João e os de Jesus, bem como o contexto em que essas tensões surgiram. Agora, voltamos nosso olhar para o significado da resposta de Jesus e para a novidade do Reino que ela revela
A pergunta feita pelos discípulos de João Batista  “Por que motivo nós e os fariseus jejuamos, e os teus discípulos não jejuam?” Vai além de uma simples dúvida ascética. Revela, na verdade, um conflito mais profundo: o embate entre estruturas religiosas antigas e o novo horizonte que Jesus inaugura. O jejum, prática comum entre os judeus do Segundo Templo, era sinal de penitência, súplica e preparação messiânica (cf. Joel 2,12; Zac 8,19). Contudo, neste contexto, aparece como símbolo de um tempo em transição, que exige discernimento espiritual e abertura profética. Jesus responde com três imagens simbólicas: o esposo, o remendo e o vinho novo — cada uma reveladora de sua identidade e da radical novidade do Reino.

Ao se autodefinir como “o esposo”, Jesus retoma uma imagem profundamente enraizada na teologia profética do Antigo Testamento. Deus é o esposo de Israel (cf. Os 2,16-22; Is 54,5-8; Jr 2,2), e a aliança entre YHWH e o povo é descrita como um matrimônio. Quando Jesus afirma que seus discípulos não jejuam porque “o esposo está com eles”, está anunciando que, n’Ele, Deus se faz presente de modo íntimo e jubiloso — não como doutrina abstrata, mas como presença viva e transformadora. É tempo de núpcias, e ninguém jejua em meio à festa do casamento. O jejum voltará, mas apenas quando o esposo lhes for tirado — alusão velada à sua paixão e morte (cf. Mt 26,31; Mc 2,20).


Nos Evangelhos Sinópticos, essa passagem encontra paralelos em Marcos 2,18-22 e Lucas 5,33-39, mantendo estrutura semelhante: o questionamento sobre o jejum, a resposta com a imagem do esposo e as parábolas do remendo e dos odres. Em todos os relatos, Jesus responde não com condenação, mas com profunda densidade simbólica. O foco não está em proibir o jejum ou exaltá-lo, mas em reinterpretar o tempo presente à luz de sua vinda: é o kairós — o tempo oportuno e fecundo (cf. 2Cor 6,2) — no qual as práticas religiosas precisam ser reformuladas à altura do acontecimento do Reino. A fidelidade a Deus já não pode ser medida apenas por práticas exteriores, mas pela adesão interior a uma nova lógica: a do Evangelho.

As imagens do remendo novo em roupa velha e do vinho novo em recipientes ressequidos reforçam a tensão entre a novidade trazida por Jesus e as estruturas religiosas endurecidas, incapazes de acolher o dinamismo do Espírito. O remendo novo rasga ainda mais o tecido antigo, e o vinho em fermentação rompe o odre ressequido. Ambas as imagens anunciam o risco de tentar conter o Reino dentro de formas obsoletas. A antropologia e a sociologia nos ajudam a perceber como culturas e instituições, quando cristalizadas em sistemas rígidos, tendem a rejeitar tudo aquilo que desafia suas certezas. A tentativa de adaptar o Evangelho a estruturas esgotadas só amplia o rasgão — a violência é inevitável quando a graça é comprimida por estruturas mortas.

Há, portanto, um apelo radical à renovação — não apenas uma conversão pessoal, mas uma reforma da Igreja, das relações e das estruturas que a sustentam. A Igreja, segundo o Concílio Vaticano II, é chamada a uma perene reforma (semper reformanda) (cf. Unitatis Redintegratio, n. 6), pois carrega “um tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7). A patrística recorda que o Espírito Santo sopra onde quer (Jo 3,8), e Santo Agostinho adverte: “Teme o Espírito que passa e não volta”. Os odres novos simbolizam a renovação do coração, a abertura do entendimento (cf. Rm 12,2), o abandono de modelos religiosos legalistas e moralistas que sufocam a liberdade dos filhos e filhas de Deus (cf. Gl 5,1).

Essa crítica de Jesus às estruturas fossilizadas da religião encontra ressonância na filosofia contemporânea, especialmente nas denúncias à razão instrumental feitas por Adorno e Horkheimer, e no alerta de Nietzsche contra uma fé desconectada da vida. O jejum sem alegria, a religião sem festa, a fé sem amor — tudo isso são cascas ressecadas. Um cristianismo que apenas repete ritos, normas e doutrinas, mas não se deixa transformar pelo vinho novo do Espírito, torna-se apenas mecanismo de controle — letra que mata, como Paulo já alertava (2Cor 3,6).

No contexto atual, essa palavra ressoa com força profética. Vivemos tempos em que muitos desejam restaurar “odres velhos”: a rigidez litúrgica como identidade, o moralismo como medida da fé, a religião como instrumento de poder e exclusão. Há setores eclesiais que, em nome da “verdade”, jejuam da alegria do Evangelho, como se a graça fosse escassa ou racionada por mérito. Embora o Papa Francisco — que faleceu em abril de 2025 — tenha sido duramente combatido por tais grupos, ele insistiu até o fim: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium, n. 1). E esse é o vinho novo: uma Igreja que celebra a presença do Esposo é uma Igreja que dança, que canta, que cuida dos pobres e celebra a vida, mesmo em meio à dor.

Ao mesmo tempo, Jesus não despreza o jejum. Ele diz que chegará o tempo em que jejuarão — e isso remete à dimensão escatológica da esperança. O jejum cristão não é mera penitência, mas linguagem do desejo: expressão de uma sede que ainda não se saciou por completo. O Esposo está conosco, mas ainda esperamos sua plenitude. Por isso jejuamos. Por isso também celebramos. O cristão vive neste entre-tempo, onde jejum e festa convivem como ressonâncias do já e ainda não do Reino.

A simbologia do vinho tem profundo enraizamento nas Escrituras. Desde o Gênesis, onde Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão (Gn 14,18), até o Apocalipse, onde o vinho da ira de Deus é imagem do juízo (Ap 14,10), essa bebida representa tanto alegria quanto aliança. O salmista canta: “o vinho que alegra o coração do homem” (Sl 104,15), e os Provérbios alertam para seu uso excessivo (Pv 23,29-35). Na tradição bíblica, o vinho simboliza bênção, comunhão e festa — mas também responsabilidade e vigilância.

Na narrativa das bodas de Caná (Jo 2,1-11), Jesus transforma água em vinho — não qualquer vinho, mas o melhor vinho, guardado para o final. A cena é carregada de simbolismo: ali, o Esposo verdadeiro manifesta sua glória, inaugurando o tempo novo da abundância messiânica. O vinho novo em Caná antecipa o vinho novo do Reino. E esse mesmo vinho se tornará, na última ceia, o sangue da nova e eterna aliança (cf. Mt 26,28).

O apóstolo Paulo, por sua vez, aconselha Timóteo a não beber apenas água, mas também “um pouco de vinho, por causa do estômago e das frequentes enfermidades” (1Tm 5,23). Esse conselho pastoral e realista de Paulo confronta visões moralistas e puritanas que demonizam toda bebida alcoólica. O problema não está na substância, mas no excesso, na alienação e na hipocrisia daqueles que julgam os outros sem discernir o espírito da liberdade cristã (cf. Rm 14,17).

Hoje a a liturgia nos convida a rever nossas estruturas religiosas, comunitárias e existenciais. 

  • Estamos tentando conter vinho novo em odres endurecidos? 
  • Temos remendado com doutrinas o que só o amor pode restaurar? 
  • Transformamos o cristianismo num peso ou nos tornamos testemunhas da leveza e da presença do Esposo em nosso meio?

A maturidade da fé se revela não na adesão exterior a costumes, mas na capacidade de discernir os tempos, de ser odre novo, de sustentar a fermentação do Espírito que renova todas as coisas. Que saibamos jejuar quando for necessário, mas também celebrar com a liberdade dos filhos e filhas que reconhecem: o Esposo está conosco — “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Para compreender melhor a profundidade desse gesto que Jesus reinterpreta, é preciso olhar como o jejum atravessa toda a Escritura. A palavra “jejum” e seus derivados aparecem mais de 70 vezes na Bíblia, com significados que vão muito além da privação alimentar. Moisés jejua quarenta dias no Sinai antes de receber as tábuas da Lei (Ex 34,28), Elias jejua enquanto caminha rumo ao encontro com Deus no Horeb (1Rs 19,8), Ester convoca um jejum coletivo em defesa do povo (Est 4,16), e o próprio Jesus inicia seu ministério com um jejum de quarenta dias (Mt 4,2). O livro de Isaías denuncia o jejum hipócrita (Is 58), ensinando que o jejum verdadeiro rompe correntes de injustiça. O Novo Testamento mostra que o jejum, quando praticado em comunidade, prepara o discernimento do Espírito (At 13,2-3). Assim, o jejum bíblico é sempre orientado para Deus e para o outro: gesto de humildade, de escuta, de solidariedade. Quando perde esse foco, torna-se apenas disciplina ou exibicionismo religioso.

No tempo de Jesus, o jejum dos fariseus — duas vezes por semana, às segundas e quintas — era sinal de devoção, mas também de distinção social e moral (cf. Lc 18,12). Jesus não invalida o jejum, mas o desloca de lugar: não é o rito em si que salva, mas a capacidade de discernir o tempo de Deus e responder com inteireza. Enquanto o Esposo está presente, a fome é transformada em festa. Quando Ele for tirado, o jejum voltará — mas como saudade ativa, desejo ardente, vigilância amorosa.

Já os odres, objetos típicos do cotidiano camponês e nômade da Judeia e da Galileia, eram feitos com peles inteiras de animais, geralmente cabras ou ovelhas. Depois de limpas e tratadas com sal e cinza, essas peles eram costuradas e impermeabilizadas para armazenar líquidos, especialmente o vinho. O vinho novo, em fermentação, produzia gases que exigiam flexibilidade do recipiente. Se o odre estivesse envelhecido e ressecado, rachava-se e o vinho se perdia. Daí o princípio: vinho novo só em odres novos. A metáfora é clara: o Evangelho exige estruturas e corações capazes de conter sua vitalidade. Um coração endurecido não suporta a expansão da graça; uma instituição presa ao legalismo não comporta o sopro do Espírito. Mais que metáfora, é um apelo escatológico: um novo mundo fermenta entre nós, e só odres renovados poderão contê-lo sem explodir.

Que nossos odres sejam renovados pela ternura e pela justiça. Que o vinho novo da alegria do Evangelho nos embriague de esperança. E que, em cada comunidade, o Esposo encontre festa, não jejum — porque onde Ele está, há liberdade, amor e ressurreição.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 17 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 6,1-6.16-18

 

Quando ouvimos Mateus 6,1-6.16-18 na liturgia da Quarta-feira de Cinzas e, novamente, na Quarta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum, somos colocados diante de uma das páginas mais incisivas do Evangelho. Trata-se de uma palavra afiada como espada (Hb 4,12), capaz de discernir não apenas nossas ações, mas também as intenções ocultas do coração. Jesus não oferece um simples conselho moral nem uma recomendação para aperfeiçoar a vida espiritual. Ele realiza uma crítica profética que desmascara uma religião transformada em espetáculo e denuncia toda prática religiosa utilizada para conquistar prestígio, poder ou reconhecimento.  A escolha deste evangelho para a Quarta-feira de Cinzas não é acidental. A Igreja o proclama justamente na abertura da Quaresma, quando os fiéis são convidados ao caminho da conversão, da penitência e do retorno ao Senhor. Nesse contexto, Jesus apresenta as três práticas tradicionais da piedade judaica: A esmola,  a oração   e o  jejum.
Não para rejeitá-las, mas para purificá-las. O problema não está nas práticas em si, mas na motivação que as sustenta. O Reino de Deus não se mede pela visibilidade da devoção, mas pela autenticidade do coração que busca a vontade do Pai.
A liturgia das Cinzas reforça essa mensagem. Enquanto os cristãos recebem sobre a cabeça o sinal da fragilidade humana "Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás" (Gn 3,19) ou o chamado à conversão  "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15),  o evangelho alerta contra a tentação de transformar até mesmo os sinais da penitência em instrumentos de exibição religiosa. A Quaresma começa, portanto, com um convite à verdade interior: não basta parecer convertido; é necessário deixar-se transformar por Deus.
Quando o mesmo texto retorna na 11ª Semana do Tempo Comum, fora do contexto quaresmal, a Igreja recorda que a conversão não é uma exigência sazonal, limitada a quarenta dias do ano. A autenticidade do discipulado deve marcar toda a existência cristã. A esmola, a oração e o jejum permanecem como expressões permanentes da fé, mas sempre orientadas para a comunhão com Deus e para o serviço aos irmãos, jamais para a autopromoção.
Essa perícope  esta  centro do Sermão da Montanha (Mt 5–7), a grande síntese da ética do Reino. Depois de apresentar as Bem-aventuranças na segunda-feira da 10 semana do tempo comum,  e de exigir uma justiça superior à dos escribas e fariseus (Mt 5,20) proclamada na 6ª-feira da 1ª semana da Quaresma e também na 5ª-feira da 10ª semana do Tempo ComumJesus aprofunda o significado da verdadeira piedade. O foco desloca-se do exterior para o interior, da aparência para a consciência, da busca dos aplausos humanos para a relação filial com o Pai. A expressão repetida ao longo do texto  "teu Pai, que vê o que está oculto" revela o centro da espiritualidade cristã: Deus não se impressiona com performances religiosas; Ele contempla o coração.
Jesus vivia  a religiosa do seu tempo. Em uma sociedade ondce a honra pública possuía enorme valor, práticas como a esmola, a oração e o jejum podiam tornar-se mecanismos de distinção social. A religião corria o risco de converter-se em capital simbólico, instrumento de status e legitimação. Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai. denúncia permanece extraordinariamente atual. Também hoje a fé pode ser capturada pela lógica da visibilidade, da autopromoção e da busca de reconhecimento se   tornando um vivência  hipócrita 
A palavra "hipócrita", no grego original (hypokritēs), significava literalmente “ator”, alguém que representa um papel. O uso desse termo não é inocente, pois Jesus denuncia uma espiritualidade teatral, onde o altar vira palco e a fé é usada como maquiagem para encobrir estruturas de dominação e conveniência pessoal. Essa mesma denúncia ecoa nos profetas: 
  • Isaías 1,13-17 rejeita os sacrifícios de mãos sujas de sangue
  • Amós 5,21-24 repudia os cultos vazios sem justiça; 
  • Oséias 6,6 nos recorda que Deus prefere a misericórdia ao ritual. 
O problema não são as práticas, mas as intenções corrompidas. A oração verdadeira é silenciosa, o jejum autêntico é discreto, e a esmola legítima é secreta  porque o Pai “vê o que está oculto” (Mt 6,4.6.18). E Jesus questiona a sociedade onde a honra pública possuía enorme valor, práticas como a esmola, a oração e o jejum pode se  tornar um  mecanismos de distinção social. Vivemos  esse  perigo hoje, onde   a  religião converter-se em capital simbólico,  instrumento de status e legitimação. Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai.

A pergunta fundamental não é quanto rezamos, quanto jejuamos ou quanto damos aos pobres. Mas  para quem fazemos essas coisas? 
O evangelho nos conduz ao exame mais profundo da vida espiritual: buscamos a glória de Deus ou a nossa própria? 
A resposta a essa pergunta determina se nossas práticas religiosas são expressão do Reino ou apenas encenação diante dos homens. O Sermão da Montanha, anuncia o Reino de Deus como contracultura, um caminho de justiça superior (cf. Mt 5,20), rompendo com uma religiosidade fortemente institucionalizada onde práticas como o jejum, a oração e a esmola haviam se tornado ferramentas de distinção social e autoexaltação. A crítica de Jesus, portanto, é profundamente enraizada numa realidade concreta: a religião usada como instrumento de prestígio e poder 
Essa crítica, tão particular ao seu contexto, ressoa em uma verdade universal. Afinal, do ponto de vista antropológico e histórico, todas as civilizações desenvolveram ritos que expressam relação com o sagrado. O jejum, por exemplo, já era praticado em contextos mesopotâmicos, egípcios e greco-romanos como forma de purificação, luto ou preparação espiritual.

  • Entre os povos indígenas do Brasil, o jejum aparece em contextos iniciáticos, como preparação para rituais de cura, escuta do espírito ou contato com os encantados. A oração, nesses contextos, não é discurso, mas relação cósmica — diálogo com a natureza, com os ancestrais, com os mistérios. A esmola, por sua vez, se manifesta em formas comunitárias de partilha, em que o bem coletivo supera o individual.
  • As religiões de matriz afro-brasileira nos oferecem outro exemplo vigoroso de autenticidade: a oração é canto, dança, corpo que se doa. O jejum se dá nas restrições alimentares ligadas ao orixá ou ao processo ritual. A caridade, o axé que circula, é força de vida compartilhada. Essas práticas são vividas com reverência e verdade, sem a pretensão de parecer mais espirituais que outros. 
  • No judaísmo, de onde vêm as práticas que Jesus menciona, oração, jejum e esmola são parte inseparável da halachá, a caminhada do justo. O jejum de Yom Kippur é arrependimento profundo, a oração é mergulho na Palavra, e a tzedaká é justiça social. 
  • No Islã, o Ramadã é um grito coletivo de sobriedade e compaixão — jejum diário, orações comunitárias e caridade obrigatória.
  •  Nas religiões orientais, como o budismo e o hinduísmo, o jejum é disciplina do desapego, a oração é meditação, e a generosidade é um dos caminhos para a iluminação.

Desde Durkheim a Bourdieu  que a fé pode ser tanto instrumento de libertação quanto de dominação. No Brasil contemporâneo, vemos essa fé sequestrada por lideranças que a utilizam como capital político. A extrema-direita brasileira invadiu o sagrado: jejuns manipulados por políticos corruptos, orações nas redes usadas como marketing de guerra cultural, e caridades exibidas com câmeras na mão. O nome de Jesus é invocado não para salvar, mas para excluir. Transformaram o altar em palanque e o Evangelho em doutrina de ódio. Essa fé não liberta; ela oprime, revelando-se a religião de Caifás, não a de Jesus. Vivemos  esse narcisismo religioso. O ego que busca aplauso se traveste de piedade. O jejum é usado para autopunição neurótica ou para exibir força de vontade. A oração vira monólogo do ego com o espelho. A esmola, feita para os likes, é caridade colonizadora. Mas o verdadeiro encontro com Deus desmascara, descentra e transforma. Jung dizia: “Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro desperta.” A verdadeira espiritualidade não é estética, mas ética. Ela nos obriga a encarar nossos abismos e os rostos dos que sofrem.

A teologia bíblica  fiel à tradição dos profetas e de Jesus não pode compactuar com o cristianismo de fachada. A oração cristã nasce da escuta da Palavra e da solidariedade com os crucificados da história. O jejum cristão é recusa concreta aos ídolos do consumo, do egoísmo, da indiferença. A esmola cristã é profecia contra a miséria institucionalizada. O Papa Francisco é contundente ao dizer que "não há verdadeira piedade sem justiça" (EG 186) e que “a fé que não se traduz em defesa dos pobres é ideologia sem alma” (FT 275). O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes 1, afirma que o sofrimento da humanidade deve ecoar no coração da Igreja. E não há sofrimento maior hoje do que ver o nome de Deus usado para legitimar o racismo, o machismo, a homofobia e a desigualdade

.É  preciso  lembrar que 

  •  A filosofia , nos lembra que a verdade religiosa precisa ser crítica. 
  • Paulo Freire nos ensinou que a educação  e a fé precisam ser libertadoras, não domesticadoras. 
  • Nietzsche, apesar de crítico da religião, denunciava a moral de rebanho e a fé sem coragem.
  •  Kierkegaard clamava por uma fé que não fosse espetáculo, mas risco existencial. 
  • Simone Weil escreveu que “a atenção pura é a forma mais rara e generosa de oração”. 
  • Todos esses ecos nos recordam:  que o Evangelho é  o convite ao abismo de Deus, não ao conforto do palco. 
Em tempos de “culto-show”, de missas que viram apresentações, de padres que se comportam como celebridades e de pastores que vendem bênçãos como produtos, Mateus 6 nos devolve à essência. A fé não precisa de aplausos. Deus não está nos holofotes, mas no quarto fechado, no rosto do pobre, no pão dividido em silêncio. O Pai que vê no oculto não se impressiona com redes sociais, mas com o coração quebrantado. Se nossa religião virou entretenimento, então perdemos o Cristo. Se nossas igrejas se parecem mais com shoppings do que com comunidades de partilha, então é hora de voltar ao deserto. Nos tempos de exposição constante, de espiritualidade transformada em espetáculo e de religião usada para acumular influência social, econômica ou política, a palavra de Jesus conserva toda a sua força profética. Ela interpela o clericalismo, a ostentação religiosa e toda forma de devoção vazia, convidando-nos a redescobrir a simplicidade do Evangelho.Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai.

Que esta Palavra não nos deixe tranquilos. Que ela desinstale nossas falsas seguranças e derrube os altares da vaidade religiosa erguidos em nosso coração. Não sejamos cúmplices de uma fé domesticada, reduzida a espetáculo, capturada pelos interesses do mercado, pelo moralismo sem misericórdia ou pela sedução do poder. O Evangelho não foi dado para legitimar privilégios, mas para gerar discípulos. Como clamava o profeta Joel: "Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes" (Jl 2,13). É tempo de abandonar as máscaras da piedade aparente que escondem o orgulho, a indiferença diante do sofrimento humano e a busca de reconhecimento. O Pai, que vê o que está oculto, não procura exibicionismo religioso; procura corações convertidos. Por isso, deixemos que a oração nos reconduza à intimidade com Deus, que o jejum nos liberte da tirania do ego e do consumo, e que a esmola nos devolva aos irmãos e irmãs que o mundo descarta. Essas práticas não são troféus espirituais, mas caminhos de transformação, sinais concretos de uma vida configurada ao Reino. Não há mais espaço para uma religião de aparência, para um cristianismo sem cruz, sem justiça, sem misericórdia e sem compromisso com os pequenos. A fé autêntica nasce no segredo do encontro com Deus, amadurece na escuta da Palavra e floresce no serviço ao próximo. É a fé que se ajoelha diante do Pai e se levanta para lavar os pés dos irmãos.

Voltemos ao Evangelho. Retornemos ao silêncio que nos permite ouvir a voz de Deus. Reencontremos os pobres, porque neles o próprio Cristo continua a nos visitar. Sejamos, como pede o Sermão da Montanha, sal da terra e luz do mundo; não atores em busca de aplausos, mas testemunhas do Reino. A  Palavra foi proclamada. O chamado foi feito. A conversão não pode esperar. A hora da profecia é agora. O tempo favorável é hoje. E o Reino de Deus já está entre nós, aguardando discípulos que tenham a coragem de viver o Evangelho sem máscaras

DNonato — Teólogo do Cotidiano, servo do Evangelho e filho da Igreja.