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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,36-43

A explicação da parábola do joio entre o trigo, registrada em Mateus 13,36-43, ocupa um lugar privilegiado na tradição litúrgica da Igreja porque constitui a interpretação dada pelo próprio Jesus a uma de suas parábolas mais densas sobre o Reino de Deus. No Lecionário Romano da Igreja Católica, esta perícope é proclamada anualmente na terça-feira da décima sétima semana do Tempo Comum, no ciclo ferial, depois de a Igreja ter proclamado a parábola do joio (Mt 13,24-30) no sábado da décima sexta semana do Tempo Comum. Ela também integra o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A (Mt 13,24-43, ou Mt 13,24-30 na forma breve), juntamente com as parábolas do grão de mostarda e do fermento, proclamada  na segunda-feira  da  17ª  semana  do Tempo Comum Mateus 13, 31-35   oferecendo uma ampla catequese sobre o Reino dos Céus.  A proclamação desse texto no 16º Domingo do Tempo Comum e sua distribuição para a proclamação no sábado  da 16ª Semana do Tempo Comum e na segunda-feira e na terça-feira da 17ª Semana do Tempo Comum, no calendário litúrgico ferial, têm como propósito levar os fiéis a refletir, de forma detalhada, sobre o Reino dos Céus. Essa pedagogia é aplicada da seguinte forma: 
  • Primeiro, a comunidade escuta a parábola do joio
  • Segundo  contempla as parábolas do grão de mostarda e do fermento, que revelam o crescimento silencioso e transformador do Reino
  • Terceiro recebe do próprio Cristo a interpretação da parábola do joio. 
A Igreja respeita, assim, o ritmo do próprio Evangelho, conduzindo gradualmente os fiéis à compreensão dos mistérios do Reino. As Igrejas Ortodoxas Bizantinas também utilizam esse conjunto de parábolas em sua tradição litúrgica, especialmente nos domingos dedicados aos ensinamentos sobre o Reino dos Céus. Da mesma forma, as tradições Anglicana, Luterana, Reformada, Metodista e outras Igrejas históricas conservam esse texto em seus lecionários, normalmente durante o período após Pentecostes ou no Tempo Comum, reconhecendo nele uma das mais importantes reflexões evangélicas sobre o discernimento, a paciência divina e o juízo de Deus.

Convém observar que a parábola do joio entre o trigo e sua explicação constituem uma tradição exclusiva do Evangelho de Mateus. Diferentemente da parábola do semeador, do grão de mostarda e do fermento, preservadas também por Marcos e Lucas (Mc 4,1-20.30-32; Lc 8,4-15; 13,18-21), a narrativa do joio (Mt 13,24-30) e sua interpretação (Mt 13,36-43) pertencem à teologia própria do primeiro evangelho. Isso não significa isolamento, mas aprofundamento. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce por si mesma (Mc 4,26-29), exclusiva de sua tradição, ressaltando o crescimento misterioso do Reino; Lucas enfatiza a misericórdia de Deus e a universalidade da salvação; Mateus contempla de modo particular a convivência dramática entre o bem e o mal na história, insistindo na paciência divina e na certeza do juízo escatológico. Os três evangelistas convergem ao anunciar que o Reino já está presente, embora sua manifestação plena permaneça como esperança futura. A perícope de Mateus 13,36-43 não pode ser compreendida isoladamente. Ela nasce de um longo processo narrativo cuidadosamente construído pelo evangelista. Depois da crescente oposição das autoridades religiosas contra Jesus, especialmente a partir do capítulo 12, quando os fariseus decidem eliminá-lo (Mt 12,14), o Mestre passa a ensinar preferencialmente por meio de parábolas. Não se trata apenas de um recurso pedagógico. As parábolas revelam e escondem ao mesmo tempo: iluminam aqueles que se abrem à Palavra e permanecem enigmáticas para quem endureceu o coração. Cumpre-se, assim, a profecia de Isaías: "Ouvireis, mas não entendereis; olhareis, mas não vereis" (Is 6,9-10; Mt 13,14-15). A linguagem parabólica manifesta que o Reino não se impõe pela força, mas exige abertura interior, conversão e disposição para abandonar antigas formas de pensar Deus, o mundo e a própria religião.

Antes da explicação da parábola, Jesus já havia contado a parábola do semeador (Mt 13,1-23), a do joio (Mt 13,24-30), a do grão de mostarda (Mt 13,31-32) e a do fermento (Mt 13,33), encerrando essa primeira série de ensinamentos com a citação do Salmo 78,2: "Abrirei a boca em parábolas; proclamarei coisas escondidas desde a fundação do mundo" (Mt 13,34-35). Mateus apresenta Jesus como aquele que revela os mistérios do Reino ocultos desde a criação, mostrando que toda a história da salvação encontra nele seu pleno sentido. A explicação da parábola acontece somente depois que Jesus deixa a multidão e entra na casa. Esse detalhe, aparentemente simples, possui grande força simbólica. A multidão permanece às margens do lago, enquanto os discípulos entram na intimidade da casa. Na tradição bíblica, a casa representa o espaço da comunhão, da família da fé, da escuta e da formação. É nesse ambiente de proximidade que Jesus revela o significado profundo da parábola. A revelação exige convivência. Não basta ouvir Jesus de longe; é preciso permanecer com Ele, perguntar, escutar e deixar-se formar por sua Palavra.

O pedido dos discípulos revela uma atitude fundamental da espiritualidade cristã: "Explica-nos a parábola do joio do campo" (Mt 13,36). Diferentemente das lideranças religiosas que julgavam possuir todas as respostas, os discípulos reconhecem seus limites. A humildade intelectual e espiritual torna-se condição indispensável para compreender os mistérios do Reino. Toda autêntica exegese começa pela consciência de que a Palavra de Deus é sempre maior do que nossas interpretações e não pode ser aprisionada por sistemas ideológicos, interesses particulares ou leituras fundamentalistas. Jesus inicia sua explicação identificando cada elemento da parábola: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do Maligno; o inimigo que o semeou é o diabo; a colheita é o fim dos tempos; os ceifeiros são os anjos" (Mt 13,37-39). Chama a atenção que o campo não representa a Igreja, mas o mundo inteiro. A missão do Reino nunca esteve confinada aos limites institucionais da comunidade eclesial. Deus continua semeando sua vida em toda parte, inclusive onde muitos imaginam que Ele esteja ausente. O título "Filho do Homem" remete diretamente à visão de Daniel 7,13-14, onde aquele que vem sobre as nuvens recebe de Deus um reino eterno fundamentado na justiça. Mateus apresenta Jesus como o verdadeiro Filho do Homem que inaugura esse Reino esperado por Israel. Contudo, seu reinado manifesta-se de maneira surpreendente: não elimina imediatamente o mal nem destrói os pecadores, mas continua semeando vida, esperança e misericórdia em meio às ambiguidades da história.

O cenário agrícola descrito por Jesus corresponde fielmente à realidade da Palestina do primeiro século. O joio, provavelmente identificado com a planta Lolium temulentum, era extremamente semelhante ao trigo durante boa parte de seu desenvolvimento. Somente quando ambos amadureciam tornava-se evidente a diferença entre eles. Arrancar o joio antes do tempo significava colocar em risco toda a plantação, pois suas raízes se entrelaçavam às do trigo. O ensinamento de Jesus nasce da observação concreta da vida camponesa. Seu Evangelho nunca é abstrato. Deus fala através da terra, das sementes, das estações, da chuva, do trabalho dos agricultores e da experiência cotidiana do povo..No antigo Oriente, a agricultura estruturava praticamente toda a organização econômica e social. Uma colheita perdida significava fome, endividamento, escravidão e, muitas vezes, morte. O trigo era muito mais do que alimento; representava vida, futuro e sobrevivência coletiva. Assim, quando Jesus fala de uma plantação ameaçada, seus ouvintes compreendem imediatamente a gravidade da situação. O Reino não é apresentado como uma teoria religiosa, mas como aquilo que sustenta a existência humana em todas as suas dimensões.

Entretanto, a parábola introduz um elemento desconcertante: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O mal aparece como ação clandestina, silenciosa e parasitária. Ele não cria nada. Apenas corrompe aquilo que Deus já criou como bom. Desde o Gênesis, a Escritura insiste que toda a criação saiu boa das mãos do Criador (Gn 1,31). O mal não possui existência própria nem poder criador. Ele vive da falsificação, da mentira e da distorção. Como afirma Jesus em outro contexto, o diabo é "pai da mentira" (Jo 8,44). A imagem revela uma verdade permanente sobre a experiência humana. O mal raramente chega de maneira explícita. Quase sempre apresenta-se disfarçado de bem, de eficiência, de patriotismo, de moralidade, de religiosidade ou de prosperidade. A tentação narrada em Gênesis 3 jamais propõe o mal como mal, mas promete autonomia absoluta, poder e conhecimento. Da mesma forma, as tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11) oferecem soluções aparentemente legítimas para necessidades reais. O discernimento espiritual consiste justamente em aprender a distinguir aquilo que parece bom daquilo que verdadeiramente conduz à vida.

É significativo que os servos desejem arrancar imediatamente o joio. A lógica humana prefere respostas rápidas, condenações sumárias e soluções violentas. A lógica divina, porém, é diferente. O senhor responde: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Esta resposta não significa indiferença diante do mal nem relativização da justiça. Significa reconhecer que os seres humanos possuem enorme dificuldade para julgar definitivamente o coração das pessoas. A precipitação frequentemente destrói vidas inocentes em nome de uma suposta pureza.

Ao longo da história bíblica, Deus revela repetidamente esta paciência. Espera por Caim antes de condená-lo (Gn 4,6-7), oferece inúmeras oportunidades de conversão a Israel através dos profetas, envia Jonas para anunciar misericórdia a Nínive (Jn 3,1-10) e faz nascer o sol sobre justos e injustos (Mt 5,45). Como recorda o livro da Sabedoria, "mostras tua força sendo paciente" (Sb 12,16-19). A verdadeira onipotência divina manifesta-se mais na misericórdia do que na destruição.

Essa paciência de Deus constitui uma crítica permanente a toda forma de fundamentalismo religioso. Sempre que grupos humanos se arrogam o direito de separar definitivamente os bons dos maus, os puros dos impuros, os salvos dos condenados, acabam ocupando um lugar que pertence somente ao Senhor da história. Jesus conheceu essa tentação entre alguns fariseus, entre setores rigoristas do judaísmo e até mesmo entre seus discípulos, que desejavam fazer descer fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54-56). Sua resposta permanece atual para toda comunidade cristã que transforma a fé em instrumento de exclusão em vez de caminho de conversão. É precisamente aqui que a parábola começa a iluminar o nosso tempo: ela denuncia o mal com clareza, mas recusa transformar pessoas em objetos descartáveis. A justiça de Deus jamais se separa da misericórdia, e sua misericórdia nunca elimina a exigência da verdade. Nessa tensão fecunda entre justiça e compaixão começa a revelar-se o verdadeiro rosto do Reino dos Céus.  A explicação da parábola prossegue afirmando: "Assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, assim acontecerá no fim dos tempos. O Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que são causa de pecado e os que praticam a iniquidade" (Mt 13,40-41). Essas palavras exigem uma leitura hermenêutica cuidadosa para que não sejam reduzidas a uma linguagem de medo nem utilizadas como instrumento de ameaça religiosa. Ao longo da história, não foram poucas as interpretações que enfatizaram apenas o aspecto punitivo desta passagem, produzindo espiritualidades marcadas pelo temor diante de Deus. Entretanto, quando lida no conjunto do Evangelho de Mateus, a imagem do juízo aparece como expressão da justiça restauradora de Deus, que não permite que a violência, a mentira e a opressão tenham a última palavra sobre a história.

O Evangelho de Mateus apresenta, do início ao fim, um Deus comprometido com a justiça dos pequenos. O nascimento de Jesus já acontece sob a perseguição de Herodes (Mt 2,13-18). No Sermão da Montanha, são proclamados felizes os pobres, os mansos e os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,3-10). Mais adiante, Jesus identifica-se com quem tem fome, sede, está doente, preso ou é estrangeiro (Mt 25,31-46). Assim, quando a parábola anuncia que Deus removerá tudo aquilo que produz injustiça, ela não alimenta o desejo de vingança, mas oferece esperança às vítimas da história. O Reino não consiste apenas em consolar os que sofrem, mas também em desmantelar definitivamente tudo aquilo que produz sofrimento. A expressão "os que são causa de pecado" traduz o termo grego skándala, que designa armadilhas, obstáculos e tudo aquilo que faz alguém tropeçar no caminho da vida. O pecado, portanto, não aparece apenas como ato individual, mas também como realidade estrutural. Essa perspectiva encontra profunda ressonância na Doutrina Social da Igreja. São João Paulo II, na Sollicitudo Rei Socialis, fala das "estruturas de pecado"; o Catecismo da Igreja Católica recorda que o pecado gera situações sociais contrárias ao projeto de Deus; e o Documento de Aparecida denuncia estruturas econômicas, culturais e políticas que produzem exclusão, miséria e morte, incompatíveis com o Reino anunciado por Cristo.

Essa compreensão impede reduzir o Evangelho a uma espiritualidade intimista. O joio cresce não apenas no coração humano, mas também nas instituições, nas economias, nos sistemas políticos e até mesmo nas organizações religiosas. Sempre que uma estrutura produz exclusão permanente, desprezo pelos pobres, racismo, violência, destruição ambiental, exploração econômica ou manipulação das consciências, manifesta algo da lógica do joio infiltrado no campo do mundo. A denúncia profética da Escritura nunca separa pecado pessoal de pecado social. Amós condena os que compram o pobre por um par de sandálias (Am 8,4-7); Isaías denuncia governantes que fazem leis injustas (Is 10,1-2); Miqueias acusa os que acumulam terras expulsando famílias de suas propriedades (Mq 2,1-2); Jeremias combate uma religião que frequenta o templo enquanto oprime órfãos, viúvas e estrangeiros (Jr 7,1-15). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer leitura da parábola que ignore a dimensão social do pecado permanece incompleta. O Filho do Homem não vem apenas julgar indivíduos isolados, mas confrontar toda realidade que transforma pessoas em objetos descartáveis. Em nossos dias, isso inclui economias que absolutizam o lucro acima da dignidade humana, políticas que alimentam o ódio para preservar privilégios, sistemas de comunicação que lucram com a mentira e culturas que naturalizam a desigualdade como se fosse vontade divina. O Reino de Deus confronta tudo aquilo que impede a vida de florescer em abundância (Jo 10,10).

Essa crítica alcança também determinadas formas de religião. Ao longo da história, a fé foi frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder. O Deus libertador do Êxodo foi transformado em garantia dos faraós de cada época, e a cruz de Cristo chegou a ser utilizada para justificar guerras, colonialismos e perseguições. Ainda hoje, sempre que o Evangelho é identificado automaticamente com projetos partidários, ideológicos ou nacionalistas, perde-se de vista a soberania de Deus para colocá-la a serviço de interesses humanos. Jesus jamais permitiu essa instrumentalização. Quando tentaram fazê-lo rei segundo expectativas nacionalistas, retirou-se sozinho para a montanha (Jo 6,15). Diante de Pilatos, declarou que seu Reino "não é deste mundo" (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo a lógica da dominação, da violência e da imposição. Isso não significa alienação da vida pública, mas afirma que toda política deve estar submetida ao serviço do bem comum, da justiça e da dignidade humana. Essa perspectiva exige discernimento também diante das expressões religiosas que absolutizam líderes, transformam ministros em figuras incontestáveis ou confundem fidelidade ao Evangelho com obediência cega a pessoas. O clericalismo, tantas vezes denunciado pelo Magistério contemporâneo, representa precisamente essa deformação. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, recuperou a imagem da Igreja como Povo de Deus, no qual todos os batizados participam da missão de Cristo segundo a própria vocação. Em continuidade com esse ensinamento, o Papa Francisco advertiu repetidas vezes que o clericalismo infantiliza os leigos, concentra poder e enfraquece a corresponsabilidade eclesial. Onde o serviço se transforma em privilégio e a autoridade perde sua dimensão de diaconia, o joio cresce silenciosamente entre o trigo.

Hoje  voltamos a ideia do  farisaísmo, só  tem bênção se tiver sucesso  financeiro com a  teologia da prosperidade  que  desloca o centro do Evangelho. Jesus nunca prometeu riqueza como sinal automático da bênção divina. Ao contrário, advertiu que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), chamou felizes os pobres (Lc 6,20), alertou para o perigo das riquezas (Mc 10,23-27) e viveu ele próprio na simplicidade. Quando a fé é transformada em mecanismo para obtenção de sucesso financeiro ou ascensão social, o Reino deixa de ser dom gratuito para converter-se em produto religioso. Desaparece a centralidade da cruz, enfraquece-se a solidariedade e os pobres acabam sendo responsabilizados por sua própria condição, em flagrante oposição à lógica das Bem-aventuranças. Ainda temos o perigo  das chamadas teologias do domínio contradizem a pedagogia do Reino. Jesus apresenta o Reino como fermento escondido na massa (Mt 13,33), como grão de mostarda (Mt 13,31-32) e como semente que cresce silenciosamente (Mc 4,26-29). Sua força reside na transformação interior das pessoas e das relações humanas, nunca na imposição autoritária ou na conquista de poder. Sempre que a religião procura controlar consciências ou identificar a vontade de Deus com interesses ideológicos, distancia-se do caminho percorrido por Cristo. Hoje  mais que  ontem, torna-se necessário discernir criticamente qualquer forma de instrumentalização política da fé.

 O Evangelho não pode ser instrumento  de poder  ou ser identificar  com projetos de poder da  direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente ideológica. Sua liberdade profética impede que seja reduzido aos interesses de partidos ou governos. Exatamente por essa liberdade, porém, o Evangelho denuncia toda proposta política que absolutize o poder, despreze os pobres, relativize a dignidade humana, incentive a violência, destrua a democracia, negue direitos fundamentais ou transforme adversários em inimigos absolutos. A missão profética da Igreja consiste em iluminar a história à luz do Reino de Deus, jamais em servir como instrumento de dominação. Essa compreensão encontra sólido fundamento no Magistério contemporâneo: 

  • A Evangelii Gaudium denuncia a mundanidade espiritual, a economia da exclusão e a cultura do descarte (EG 53-60; 93-97; 120). 
  • A Fratelli Tutti propõe a fraternidade universal como resposta às polarizações e aos nacionalismos excludentes.
  •  Medellín denunciou a violência institucionalizada da miséria
  •  Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; 
  • Santo Domingo insistiu na promoção integral da pessoa humana
  • Aparecida reafirmou que a evangelização não pode ser separada do compromisso com a justiça.
  •  A CNBB,  na carta ao Povo e  outros  em numerosos documentos, recorda que a missão evangelizadora inclui a defesa da democracia, dos direitos humanos, da paz e da dignidade de toda pessoa humana.

É importante notar que a parábola não autoriza ninguém a identificar previamente quem é trigo e quem é joio. Essa decisão pertence exclusivamente ao Senhor da colheita. Sempre que pessoas ou comunidades pretendem ocupar esse lugar, acabam reproduzindo justamente aquilo que Jesus proibiu. O discernimento cristão consiste em denunciar o pecado sem negar a possibilidade permanente da conversão. Saulo tornou-se Paulo; Pedro, que negara Jesus, tornou-se testemunha da Ressurreição; Zaqueu abandonou a exploração econômica (Lc 19,1-10); a mulher pecadora encontrou perdão (Lc 7,36-50); o bom ladrão recebeu a promessa do paraíso (Lc 23,43). Enquanto há história, permanece aberta a possibilidade da graça.  A expressão "filhos do Maligno" deve ser compreendida à luz da linguagem apocalíptica do judaísmo do século I, jamais como afirmação de que determinadas pessoas tenham sido criadas por Deus para a perdição. Toda a Escritura testemunha o contrário: Deus não tem prazer na morte do pecador (Ez 18,23.32), quer que todos sejam salvos (1Tm 2,4) e é paciente, desejando que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). A parábola descreve escolhas históricas, não destinos previamente determinados.

Somos chamados  a esperançar  e isso  que impede tanto o desespero quanto a ingenuidade e  o Evangelho reconhece a gravidade do mal, mas proclama que a misericórdia continua oferecendo novos começos, se  faz necessário  reconhecer  que a  paciência de Deus não é cumplicidade com a injustiça, mas tempo concedido para que o trigo amadureça e para que o joio, enquanto ainda é tempo, possa ser transformado pela força surpreendente da conversão. É nessa tensão entre verdade e misericórdia, justiça e esperança, juízo e graça que Mateus prepara o leitor para contemplar, na pessoa de Jesus crucificado e ressuscitado, a vitória definitiva do Reino de Deus sobre todas as formas de morte que ainda insistem em crescer no campo da história. A explicação da parábola alcança seu ponto culminante quando Jesus afirma: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça" (Mt 13,43). A conclusão parece simples, mas encerra uma das mais belas promessas de toda a Escritura. O verbo "brilhar" remete diretamente à visão de Daniel: "Os que tiverem conduzido muitos à justiça brilharão como as estrelas para sempre" (Dn 12,3). Mateus estabelece conscientemente essa ligação para afirmar que a esperança escatológica de Israel encontra seu cumprimento em Cristo. O destino último da humanidade não é a destruição, mas a participação na própria luz de Deus. A história não caminha para o triunfo das trevas, mas para a manifestação plena da vida divina. O juízo não constitui o último ato de um Deus irado, mas o momento em que toda mentira será desfeita, toda violência será vencida e toda lágrima será enxugada, como anunciará também o Apocalipse: "Ele enxugará toda lágrima de seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor" (Ap 21,4)..

A imagem da colheita pertence a uma longa tradição profética de Israel; 

  • Joel proclama: "Lançai a foice, porque a colheita está madura" (Jl 4,13), utilizando a ceifa como símbolo do discernimento definitivo de Deus sobre as nações. 
  • Jeremias (Jr 51,33), 
  • Oseias (Os 6,11) 
  •  Isaías (Is 27,12) recorrem à mesma linguagem para anunciar que Deus não abandona a história ao caos, mas conduz todas as coisas à sua plenitude. 
Jesus retoma essas imagens conhecidas de seus ouvintes e lhes confere um significado novo. O juízo não é apresentado como espetáculo de condenação, mas como a restauração definitiva da justiça, da verdade e da vida. Essa perspectiva impede que a escatologia cristã seja reduzida a um discurso sobre o medo do fim do mundo. O Novo Testamento fala do futuro para transformar o presente.

 Quem acredita que Deus fará novas todas as coisas (Ap 21,5) 

Quem acredita, não pode acomodar-se diante da injustiça. A esperança cristã não  pode ser uma alienação; ao contrário, ela deve  gera compromisso histórico. É precisamente porque o Reino definitivo pertence ao Deus da Vida  e  os discípulos são chamados a antecipar seus sinais na história por meio da justiça, da misericórdia, da reconciliação e da paz. O Evangelho de Mateus desenvolve essa convicção ao longo de toda a sua narrativa. Das Bem-aventuranças ao Juízo Final, a fidelidade ao Reino manifesta-se em gestos concretos. Não basta dizer: "Senhor, Senhor" (Mt 7,21); é necessário fazer a vontade do Pai. Não basta conservar a ortodoxia das palavras; é indispensável produzir frutos de justiça. Não basta frequentar o templo; é preciso reconhecer Cristo no faminto, no sedento, no migrante, no enfermo e no encarcerado (Mt 25,31-46). A espiritualidade cristã jamais separa contemplação e compromisso. Quem verdadeiramente encontra Deus descobre inevitavelmente o irmão.

A parábola ainda  revela  um profundo conhecimento da alma humana. Em cada pessoa existe uma tensão permanente entre crescimento e destruição, generosidade e egoísmo, confiança e medo. Nenhum ser humano nasce completamente acabado; a personalidade vai sendo construída pelas escolhas, pelas relações e pelos valores assimilados ao longo da existência. A imagem do trigo crescendo lentamente recorda que a maturidade espiritual exige tempo. Deus não trabalha segundo a lógica da ansiedade, mas segundo o ritmo da vida. A cultura contemporânea, marcada pelo imediatismo e pela busca incessante de resultados rápidos, tem dificuldade para compreender essa pedagogia da paciência. O Reino cresce silenciosamente, como a semente descrita em Marcos 4,26-29, que germina enquanto o agricultor dorme, sem que ele saiba como. Em  todas as sociedades antigas ou atual  existe a tentação de construir identidades por meio da exclusão do outro. Povos, grupos e até religiões, quando adoecem, fortalecem sua identidade criando inimigos permanentes. Jesus rompe radicalmente essa lógica e  critério Dele e  da identidade cristã não é o ódio ao diferente, mas o amor que se faz serviço. O discípulo não é reconhecido por aquilo que combate, mas pela maneira como ama. "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,35).

Essa afirmação adquire especial relevância numa sociedade profundamente marcada pela polarização, pela fragmentação social e pela cultura do confronto permanente. As redes digitais frequentemente amplificam discursos de hostilidade, simplificam problemas complexos e transformam pessoas em caricaturas / memes . Nesse ambiente, torna-se cada vez mais difícil cultivar a escuta, o diálogo e o discernimento, todos querem  viralizar. A parábola do joio recorda que nem tudo o que parece evidente corresponde à verdade,  o discernimento exige paciência, humildade e consciência dos limites do próprio julgamento. Aqui  vale uma  advertência, que serve  igualmente para a vida eclesial. A Igreja corre o risco de perder sua identidade:

  •  Quando se deixa capturar pelas disputas ideológicas do mundo
  • Quando comunidades cristãs organizam sua missão mais em torno de guerras culturais do que do anúncio do Evangelho
  • Quando  buscam  conquista de poder e ignoram  o serviço
  • Quando   defendem  os seu  privilégios e ignora a necessidade da acolhida dos pobres 
Com essaa  atitude  que  o trigo começa a ser sufocado pelo joio da autorreferencialidade. O Concílio Vaticano II oferece um importante antídoto contra esse risco. A Constituição Gaudium et Spes afirma que: 

  •  "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (GS 1)."

E a  Constituição Dei Verbum recorda que Deus continua dialogando com a humanidade através da história e que a Palavra deve ser continuamente acolhida, meditada e encarnada na vida do povo de Deus. Em sintonia com esse ensinamento, o Documento de Aparecida reafirma que toda evangelização autêntica conduz ao encontro pessoal com Jesus Cristo e ao compromisso com a transformação da realidade.  Nesse contexto, a opção preferencial pelos pobres, reafirmada por Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, não constitui uma ideologia, mas nasce da própria cristologia. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres, anunciou a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18), identificou-se com eles (Mt 25,40) e morreu fora dos muros da cidade como um condenado. Uma Igreja que esquece os pobres não apenas perde uma dimensão pastoral; obscurece o próprio rosto de Cristo. Por isso, a denúncia profética das estruturas que geram exclusão não representa um acréscimo sociológico ao Evangelho, mas consequência direta da fidelidade ao Reino. Ao mesmo tempo, essa denúncia conserva sempre sua dimensão espiritual. O combate cristão não se dirige contra pessoas, mas contra tudo aquilo que desfigura nelas a imagem de Deus. São Paulo recorda que "nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados e potestades" (Ef 6,12). O inimigo último do Reino não é um grupo social, um partido, uma nacionalidade ou uma cultura, mas toda força que produz mentira, idolatria, opressão e morte. Sempre que cristãos transformam adversários em inimigos absolutos, esquecem que Cristo morreu também por aqueles de quem discordamos. A cruz destrói toda pretensão de superioridade moral e recorda que todos dependemos igualmente da graça.

Existe ainda uma dimensão profundamente sacramental nesta parábola. O trigo destinado à colheita torna-se, pela ação humana e pela graça divina, pão oferecido sobre o altar. Na Eucaristia, o fruto da terra e do trabalho humano transforma-se no Corpo de Cristo, antecipando sacramentalmente a colheita definitiva do Reino. Aquele que escuta a Palavra participa da Mesa e é enviado novamente ao mundo para semear justiça, paz e misericórdia. A liturgia une inseparavelmente a escuta do Evangelho, a comunhão com Cristo e o compromisso histórico com os irmãos..A explicação da parábola termina com um apelo que atravessa toda a Escritura: "Quem tem ouvidos, ouça." Na tradição bíblica, ouvir significa acolher, obedecer e deixar-se transformar pela Palavra. O maior risco da religião não é a ignorância, mas a surdez espiritual. Podemos conhecer os textos sagrados, dominar conceitos teológicos e participar regularmente das celebrações, permanecendo incapazes de ouvir o clamor dos pobres, o sofrimento dos esquecidos e a voz discreta de Deus que continua falando na história.

A parábola do joio entre o trigo permanece extraordinariamente atual porque recusa tanto o pessimismo quanto a ingenuidade. Reconhece a presença real do mal, mas proclama com igual convicção a soberania de Deus. Denuncia a injustiça sem perder a esperança na conversão. Proclama o juízo sem abandonar a misericórdia. Convida à vigilância sem alimentar o medo. Sobretudo, anuncia que o Reino já está presente, crescendo silenciosamente em meio às ambiguidades da história, aguardando o dia em que Cristo será "tudo em todos" (1Cor 15,28). Enquanto esse dia não chega, a missão da Igreja permanece a mesma: lançar boa semente. Não a semente do medo, mas da esperança; não a do fanatismo, mas do discernimento; não a da intolerância, mas da misericórdia; não a do poder, mas do serviço; não a do privilégio, mas da fraternidade; não a da indiferença diante da pobreza, mas da solidariedade concreta; não a da manipulação religiosa, mas da liberdade dos filhos e filhas de Deus. O discípulo de Jesus é chamado a viver com os pés firmemente plantados na terra da história e o coração voltado para o horizonte do Reino, sabendo que nenhuma força de morte impedirá a colheita preparada pelo Senhor. A última palavra sobre o mundo não pertence ao ódio, à violência, ao autoritarismo, ao clericalismo, ao mercado transformado em ídolo nem às ideologias que instrumentalizam a fé para dominar consciências. A última palavra pertence ao Deus revelado em Jesus Cristo, cuja justiça é inseparável da misericórdia, cuja verdade nunca se separa do amor e cujo Reino continua germinando, muitas vezes de forma quase invisível, no coração daqueles que acreditam que a fraternidade é mais forte do que o medo, a compaixão mais fecunda do que a vingança e a Ressurreição a resposta definitiva de Deus a todas as cruzes da história.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano,  lutando  para permanecer  trigo 

domingo, 26 de julho de 2026

Depois do "Amém": onde continua a Eucaristia?


"Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." A provocação de São Óscar Romero não diminui a grandeza da Eucaristia; ao contrário, convida-nos a descobrir sua verdade mais profunda. A celebração do Corpo e Sangue de Cristo não se esgota na liturgia, mas desdobra-se na vida. O "Amém" pronunciado diante do altar precisa tornar-se um "sim" concreto à justiça, à misericórdia e ao amor ao próximo.

Na Eucaristia, Cristo não apenas se oferece ao Pai no sacrifício da nova e eterna Aliança; Ele se entrega inteiramente à humanidade como alimento de vida eterna (cf. Jo 6,51). No altar, realiza-se o mistério do amor levado ao extremo (cf. Jo 13,1): Aquele que entregou seu corpo na cruz continua a oferecer-se à sua Igreja para que ela viva de sua própria vida. Ao comungar, os fiéis não recebem apenas um alimento espiritual ou um consolo para a alma; recebem o próprio Cristo Ressuscitado, sua vida, seu Espírito, sua missão e seu modo de amar. A comunhão eucarística, portanto, não é um ato de devoção intimista, mas uma profunda configuração com Jesus, que faz da Igreja o seu Corpo vivo na história. Como ensina Santo Agostinho, "recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  E por isso que toda celebração eucarística culmina com o envio: "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe." A liturgia não termina; ela transborda para a vida. O "Ide" não é uma fórmula de encerramento, mas um mandato missionário. Quem participou da mesa do Senhor é enviado a prolongar sua presença no mundo, fazendo da própria existência uma liturgia vivida, na qual a fé se traduz em caridade, a adoração em serviço e a comunhão em compromisso com os irmãos. Não há verdadeira participação na Eucaristia sem disposição para amar, servir, reconciliar, partilhar e defender a dignidade humana.

Essa íntima unidade entre culto e vida atravessa toda a Sagrada Escritura. Desde o Antigo Testamento, os profetas denunciaram uma religiosidade que multiplicava sacrifícios, mas permanecia indiferente ao sofrimento do próximo. O problema nunca foi o culto em si, mas um culto vazio, incapaz de gerar conversão e justiça. Por isso, Isaías faz ecoar uma das mais severas advertências de Deus ao seu povo:

  • "De que me serve a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido; fazei justiça ao órfão; defendei a causa da viúva" (Is 1,11.17).

A crítica profética não rejeita a liturgia; purifica-a. Ela recorda que o Deus que acolhe o incenso do templo é o mesmo que escuta o clamor do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro. Toda celebração que não conduz à misericórdia e à justiça torna-se contraditória. A Eucaristia, ápice do culto cristão, realiza plenamente essa exigência: ela une inseparavelmente a mesa do altar e a mesa da vida, a adoração de Deus e o amor concreto ao próximo e Amós é ainda mais contundente:

  • "Eu detesto as vossas festas... Antes corra o direito como as águas e a justiça como um rio perene" (Am 5,21.24).

Não se trata de rejeitar o culto, mas de purificá-lo. O verdadeiro culto agrada a Deus quando transforma o coração e a sociedade. Jesus assume plenamente essa tradição profética. Ao citar Oseias, declara:

  • "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7).

No julgamento final, narrado por Mateus (25,31-46), Ele identifica sua própria presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. O Cristo adorado na Eucaristia é o mesmo Cristo encontrado nos crucificados da história. Há um detalhe significativo no Evangelho de João. Diferentemente dos Sinópticos, João não narra as palavras da instituição da Eucaristia na Última Ceia. Em seu lugar, apresenta o gesto do lava-pés (Jo 13,1-15). A escolha não é casual. O evangelista mostra que participar da mesa de Cristo significa aprender seu estilo de vida: abaixar-se diante do irmão, servir sem buscar prestígio e fazer do amor concreto a linguagem da fé. A liturgia conduz inevitavelmente ao serviço.

Essa mesma preocupação aparece em São Paulo. Ao escrever aos cristãos de Corinto, ele censura uma comunidade que celebrava a Ceia do Senhor enquanto tolerava divisões e humilhações contra os pobres:

  • "Quando vos reunis, já não é a Ceia do Senhor que comeis" (1Cor 11,20).

A denúncia é impressionante. Não era a fórmula da celebração que estava errada, mas a incoerência entre o altar e a vida. A Eucaristia perdia seu sentido porque a comunhão havia sido rompida entre os irmãos. Desde os primeiros séculos, a Igreja compreendeu essa inseparabilidade. A Didaqué, um dos mais antigos escritos cristãos, exorta os fiéis a partilhar também os bens materiais, pois quem recebeu os bens eternos não pode fechar o coração às necessidades do próximo.

Santo Inácio de Antioquia chama a Eucaristia de "remédio de imortalidade". Mas esse remédio não cura apenas a relação entre Deus e o ser humano; cura também as relações humanas marcadas pelo egoísmo, pela violência e pela exclusão.

São João Crisóstomo adverte com impressionante atualidade: "Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu. Não o honres aqui na igreja com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas sofrendo frio e nudez."

Santo Agostinho sintetiza a identidade da Igreja ao afirmar: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  Quem recebe o Corpo de Cristo torna-se chamado a ser Corpo de Cristo para o mundo.

São Basílio Magno vai ainda mais longe: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa."

Esses Padres da Igreja não opõem oração e compromisso social. Pelo contrário: mostram que a oração verdadeira desemboca inevitavelmente na partilha e na justiça. E  magistério contemporâneo mantém essa mesma linha. São Paulo VI, na Mysterium Fidei, recorda que a participação na Eucaristia impele os cristãos à prática da caridade.

São João Paulo II, na Ecclesia de Eucharistia, afirma que não existe celebração eucarística autêntica sem um compromisso concreto de amor ao próximo.

Bento XVI, na Sacramentum Caritatis, ensina que a união com Cristo implica necessariamente a união com todos aqueles pelos quais Ele entregou sua vida. E, na encíclica Deus Caritas Est, escreve uma frase que permanece desafiadora: "Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido é, em si mesma, fragmentária."

Francisco amplia essa compreensão ao afirmar, na Evangelii Gaudium, que a fé autêntica sempre possui um profundo desejo de transformar o mundo, promover a dignidade humana e deixar a sociedade melhor do que a encontrou (EG 183). Para ele, evangelização e promoção da dignidade humana não são caminhos paralelos, mas dimensões inseparáveis da mesma missão.

Essa visão encontra expressão também na Doutrina Social da Igreja. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a opção preferencial pelos pobres não são temas periféricos nem concessões às ideologias. São consequências da Encarnação e da Eucaristia. Se Cristo se faz pão para todos, ninguém pode ser tratado como descartável. Se o Senhor reúne todos na mesma mesa, nenhuma forma de exclusão pode ser aceita como normal. Por isso, o maior perigo talvez não seja abandonar a Eucaristia, mas reduzi-la a uma devoção intimista. Multiplicam-se procissões, horas santas, congressos eucarísticos e momentos de adoração. Tudo isso é profundamente valioso e faz parte da riqueza espiritual da Igreja. Contudo, quando o Corpo de Cristo é venerado no ostensório, mas ignorado nas vítimas da fome, do desemprego, da corrupção, da violência, do racismo, da exploração, das migrações forçadas e de tantas outras injustiças, algo essencial da mensagem cristã fica incompleto.

Não existe oposição entre adoração e compromisso. Quanto mais autêntica for a adoração, mais profunda será a conversão do coração. Quem permanece longamente diante do Santíssimo aprende a reconhecer o mesmo Cristo nos rostos concretos dos pobres, dos enfermos, dos idosos esquecidos, das crianças abandonadas, das mulheres vítimas de violência, dos migrantes e de todos aqueles cuja dignidade é ferida. A procissão mais importante comece justamente quando a procissão termina. O ostensório retorna ao sacrário, mas milhares de cristãos deixam a igreja levando Cristo em suas próprias vidas. Cada discípulo torna-se uma custódia viva, chamado a manifestar no cotidiano aquilo que contemplou no altar.

No fim, talvez descubramos que Aquele diante de quem nos ajoelhávamos na Eucaristia era o mesmo que nos esperava nas periferias da existência, nos rostos feridos da humanidade e nos clamores silenciosos dos esquecidos. Então compreenderemos que São Óscar Romero tinha razão ao afirmar que "uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." Não porque Deus despreze a liturgia, mas porque a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito: ela é comunhão que se faz missão, adoração que se transforma em serviço, sacramento que se prolonga na caridade, na justiça e na defesa da dignidade humana..  A missa não termina com a bênção final; ela apenas muda de lugar. O altar se estende às ruas, às casas, aos ambientes de trabalho, às periferias existenciais e a todos os lugares onde a vida clama por esperança. É ali que o pão repartido se torna solidariedade, que a verdade vence a mentira, que a justiça derrota a opressão, que o perdão rompe o ciclo da violência e que cada pessoa é reconhecida como imagem e semelhança de Deus.. 

Somente quando o "Amém" pronunciado diante do Corpo de Cristo continua sendo vivido no corpo ferido dos irmãos, a Eucaristia alcança toda a sua plenitude. É então que a adoração se torna testemunho, a comunhão se faz compromisso e a Igreja revela, no coração do mundo, a presença viva de seu Senhor.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-30

O Evangelho de Mateus 11,25-30  nele, Jesus revela a ternura do Pai para com os pequenos e faz um dos convites mais consoladores de toda a Escritura:

  • "Vinde a mim, vós todos que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28).

Esse texto  e proclamado nos seguintes  dias do calendário  litúrgico da Igreja Católica:

  • 14º Domingo do Tempo Comum (Ano A): Evangelho principal que conduz toda a reflexão litúrgica do domingo.
  • Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (Ano A) Celebração dedicada ao amor misericordioso, à mansidão e à humildade do Coração de Cristo.
  • Memória de São Francisco de Assis,  O santo que, com sua vida simples e desapegada, encarnou a pequenez e a humildade reveladas por Jesus.
  • Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos:  Uma das leituras frequentemente escolhidas para anunciar a esperança cristã e o descanso prometido por Deus aos que partiram desta vida.
  • Quarta-feira e Quinta-feira da 15ª Semana do Tempo Comum:  dividido  na quarta-feira Mateus 11,25-27 e na quinta-feira Mateus 11,28-30. permitindo uma meditação mais aprofundada sobre o convite de Jesus.

Ao longo do Ano Litúrgico, a Igreja nos faz retornar a essa Palavra porque ela responde a uma das necessidades mais profundas do ser humano: encontrar repouso para a alma. Em um mundo marcado pelo cansaço, pela ansiedade e pelas inúmeras cargas da vida, Cristo continua repetindo o mesmo convite:

  • "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas" (Mt 11,29).

O contexto em que essa passagem aparece é decisivo para sua compreensão. Pouco antes, Jesus havia pronunciado palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum, cidades que testemunharam sinais do Reino, mas permaneceram resistentes à conversão (Mt 11,20-24). A crítica não é dirigida aos pobres nem aos simples, mas àqueles que, possuindo privilégios religiosos e sociais, recusam-se a acolher a visita de Deus. É justamente após denunciar essa dureza de coração que Jesus eleva ao Pai uma das mais belas orações dos Evangelhos: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Lucas preserva essa mesma oração e acrescenta um detalhe precioso: Jesus exulta no Espírito Santo enquanto louva o Pai (Lc 10,21). Dessa forma, somos introduzidos numa das mais luminosas manifestações trinitárias dos Evangelhos. O Filho, movido pelo Espírito, bendiz o Pai pela forma como conduz a história da salvação. O Reino não se revela prioritariamente aos autossuficientes, mas aos que permanecem abertos à graça. À primeira vista, poderia parecer que Jesus opõe fé e inteligência. Contudo, uma leitura exegética mais cuidadosa mostra exatamente o contrário. A Escritura jamais condena a sabedoria. Os livros sapienciais exaltam-na como dom divino. O livro dos Provérbios apresenta a Sabedoria participando da própria obra da criação (Pr 8,22-31), enquanto o Eclesiástico a descreve como fonte de vida para aqueles que a procuram (Eclo 24,1-22). O problema denunciado por Jesus não é o conhecimento, mas a arrogância que transforma o conhecimento em autossuficiência espiritual.

Os “sábios e entendidos” representam aqueles que acreditam possuir Deus sob controle. Os “pequeninos”, ao contrário, são os que reconhecem sua necessidade de Deus. São os pobres em espírito proclamados bem-aventurados no Sermão da Montanha (Mt 5,3). São aqueles que recebem o Reino com a simplicidade das crianças, como recorda Marcos: “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele” (Mc 10,15).

Essa lógica atravessa toda a história da salvação Deus escolhe: 

  •  Abraão, um migrante sem terra (Gn 12,1-4).
  •  Moisés, um fugitivo refugiado no deserto (Ex 3,1-12). 
  • Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Maria, uma jovem da periferia da Galileia (Lc 1,26-38).
  • Pescadores para anunciar o Evangelho (Mc 1,16-20). 
A pedagogia divina raramente segue os caminhos do prestígio humano ou pede um  currículo ou carta de recomendação. Deus manifesta sua força precisamente onde o mundo enxerga fragilidade. Essa realidade torna-se ainda mais significativa quando lembramos o contexto social da Palestina do século I. Sob o domínio romano, a população sofria com impostos elevados, concentração fundiária e profundas desigualdades econômicas. Muitos camponeses perdiam suas terras e tornavam-se dependentes de grandes proprietários. Nesse ambiente, a religião corria o risco de ser utilizada como instrumento de legitimação das estruturas existentes. Nem todos os grupos religiosos agiam dessa forma, mas havia setores que associavam pureza ritual, prestígio religioso e posição social,  bem  parecido  com  realidade  em algumas Igrejas atualmente 

Jesus rompe essa lógica ao afirmar que os mistérios do Reino são revelados aos pequeninos. Sua declaração possui uma força teológica e sociológica extraordinária. Deus não pode ser apropriado por nenhuma classe social, nenhuma instituição, nenhuma ideologia ou qualquer projeto de poder. O Deus revelado por Jesus permanece livre diante de todas as tentativas humanas de monopolizar sua presença. Essa convicção encontra ressonância nos profetas. Isaías denuncia uma religiosidade incapaz de libertar os oprimidos (Is 58,6-7). Amós rejeita cultos que coexistem com a injustiça social (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Zacarias exorta o povo a defender viúvas, órfãos, estrangeiros e pobres (Zc 7,9-10). Jesus não surge isolado dessa tradição; ele a leva à sua plenitude.

O versículo 27 aprofunda ainda mais o mistério: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Estamos diante de uma das declarações cristológicas mais densas dos Evangelhos Sinóticos. Muitos estudiosos observam que essas palavras possuem profundidade comparável às grandes afirmações do Evangelho de João. Jesus não se apresenta apenas como mestre ou profeta. Ele se apresenta como revelador definitivo do Pai.

Na linguagem bíblica, conhecer não significa apenas compreender intelectualmente. Conhecer é entrar em comunhão. É participar da vida do outro. Quando Jesus fala do conhecimento mútuo entre Pai e Filho, está revelando uma intimidade única, da qual os discípulos são convidados a participar. Por isso conhecer Deus: 

  • Não consiste simplesmente em acumular doutrinas corretas. 
  • Conhecer Deus significa aprender sua compaixão, participar de sua misericórdia e reproduzir sua justiça. 

A revelação do Pai não afasta o discípulo da realidade humana; conduz exatamente para dentro dela. É nesse contexto que surge o grande convite: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Essas palavras ecoam toda a história bíblica. O verbo “vir” recorda os convites dirigidos por Deus ao longo das Escrituras. Isaías proclama: “Vinde às águas todos os que tendes sede” (Is 55,1). A Sabedoria convida os simples para sua mesa (Pr 9,1-6). O Eclesiástico proclama: “Aproximai-vos de mim, vós que sois ignorantes” (Eclo 51,23).

Diversos exegetas observam que Mateus 11 apresenta Jesus assumindo para si a linguagem da própria Sabedoria divina. O Eclesiástico afirma: “Submetei o vosso pescoço ao seu jugo” (Eclo 51,26). Agora é Jesus quem oferece o jugo. O que antes era atribuído à Sabedoria de Deus encontra sua realização na pessoa do Cristo. Os cansados e sobrecarregados mencionados por Jesus não são apenas indivíduos fatigados por dificuldades pessoais. São todos aqueles esmagados por estruturas que roubam a dignidade humana. Entre eles estavam os pobres submetidos à exploração econômica, os doentes marginalizados pela cultura da pureza, os pecadores excluídos da convivência religiosa e todos aqueles que carregavam fardos impostos por interpretações distorcidas da Lei. Lucas registra uma crítica semelhante quando Jesus denuncia os especialistas da Lei: “Carregais os homens com fardos difíceis de suportar” (Lc 11,46). A questão não era a Lei em si, mas sua transformação em instrumento de opressão. A religião perde sua vocação quando deixa de curar para ferir, quando deixa de libertar para controlar, quando deixa de anunciar esperança para produzir medo. Jesus oferece um caminho diferente. Ele não exige que os cansados provem seu valor. Não pede que conquistem o descanso por mérito próprio. Simplesmente os convida a aproximarem-se dele.

O descanso prometido possui raízes profundas na tradição bíblica. Remete ao repouso de Deus após a criação (Gn 2,2-3), à Terra Prometida como lugar de descanso para Israel (Dt 12,9-10) e à promessa feita a Moisés: “Minha presença irá contigo e eu te darei descanso” (Ex 33,14). O descanso oferecido por Cristo é a continuação dessa presença libertadora de Deus no meio de seu povo. Não se trata apenas de alívio psicológico ou emocional. É reconciliação. É restauração da dignidade. É libertação das forças que desumanizam. É a possibilidade de reencontrar a própria humanidade diante de Deus.

Em seguida, Jesus acrescenta: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). À primeira vista, a imagem parece paradoxal. Como alguém pode oferecer descanso e, ao mesmo tempo, propor um jugo? Entretanto, o jugo de Cristo é completamente diferente dos fardos impostos pelos sistemas de dominação. No mundo judaico, falava-se frequentemente do jugo da Lei. Jesus retoma essa linguagem, mas redefine seu significado. Seu jugo não é um sistema opressor. Seu jugo é a participação em sua própria forma de viver. É aprender sua mansidão, sua humildade e seu serviço.

A mansidão, na Bíblia, não é passividade. É força sob controle. É recusa da violência como método de relação. É a capacidade de resistir sem reproduzir a lógica do opressor. A mesma palavra aparece nas Bem-aventuranças: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,5). A humildade, por sua vez, não significa autodesprezo. Significa viver na verdade diante de Deus. Jesus é humilde porque toda sua existência está voltada para o serviço. A carta aos Filipenses descreve esse movimento de esvaziamento: Cristo não se apega aos privilégios, mas assume a condição de servo (Fl 2,6-8). Por isso seu jugo é suave. Não porque elimine toda responsabilidade, mas porque conduz à plenitude da vida. O jugo dos impérios existe para beneficiar os poderosos. O jugo de Cristo existe para restaurar os seres humanos. Essa diferença atravessa toda a narrativa evangélica. Marcos apresenta Jesus acolhendo crianças e marginalizados. Lucas destaca sua proximidade com os pobres, os pecadores e as mulheres excluídas. Mateus enfatiza continuamente sua compaixão pelas multidões cansadas e abatidas. Os três Sinóticos convergem para a mesma imagem: um Messias que não domina, mas serve.

Ao longo de seu ministério, Jesus atravessa fronteiras sociais e religiosas. Toca leprosos (Mc 1,40-45), senta-se à mesa com pecadores (Lc 15,1-2), conversa com excluídos, acolhe estrangeiros e oferece dignidade àqueles que haviam sido descartados pela sociedade. Seu jugo é leve porque rompe com a lógica da exclusão. Essa dimensão possui enorme relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa época marcada por exaustão coletiva. Milhões carregam o peso da insegurança econômica, da ansiedade, da solidão e da perda de sentido. Muitos experimentam também um profundo cansaço espiritual, resultado de experiências religiosas marcadas por culpa, medo e manipulação.

Essa passagem continua oferecendo uma palavra de libertação. Jesus não convida à fuga da realidade. Convida a uma nova forma de habitá-la. Seu descanso não produz alienação. Produz missão. Quem encontra descanso em Cristo torna-se capaz de carregar os sofrimentos dos outros. Quem experimenta misericórdia aprende a praticar misericórdia. Quem recebe compaixão torna-se instrumento de compaixão. Uma Igreja fiel a esse Evangelho deve tornar-se sinal concreto desse descanso. Deve ser casa para os cansados, hospital para os feridos, comunidade para os solitários e espaço de esperança para os desencorajados. Não pode reproduzir lógicas de dominação, clericalismo ou exclusão. Seu modelo permanece aquele que lavou os pés dos discípulos (Jo 13,1-15).

Mateus 11,25-30 não é apenas um texto de consolação individual. É uma síntese extraordinária da Boa-Nova. Nele encontramos o Pai que se revela aos pequenos, o Filho que acolhe os cansados e o Reino que se manifesta através da mansidão e do amor. A passagem começa com um louvor e termina com um convite. Entre esses dois movimentos encontramos a essência do Evangelho. Deus aproxima-se da humanidade não através da força, mas através da misericórdia. Não através da imposição, mas através do amor. Não através da exclusão, mas através do acolhimento.

O convite “Vinde a mim” ecoa toda a trajetória de Jesus. É o mesmo Cristo que chama pescadores às margens do lago (Mc 1,16-20), que acolhe os pecadores à mesa (Lc 15,1-2), que proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), que se compadece das multidões sem pastor (Mt 9,36), que chora sobre Jerusalém (Lc 19,41) e que, após a ressurreição, continua chamando seus discípulos para segui-lo. Por isso Mateus 11 permanece como uma das páginas mais luminosas do Novo Testamento. Em um mundo frequentemente dominado pela competição, pelo medo, pela violência e pela instrumentalização da fé, a voz de Jesus continua ressoando com a mesma força das colinas da Galileia. É uma voz que não oprime, não ameaça e não exclui. É uma voz que convida. Convida os cansados ao descanso, os feridos à cura, os pecadores à misericórdia, os pequenos à dignidade e toda a humanidade à vida abundante do Reino de Deus. Nessa voz encontramos não apenas consolo para nossas fadigas, mas também a esperança de uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma e com toda a criação. 

Que acolhamos esse chamado com fé e confiança, permitindo que o Senhor alivie nossos fardos, cure nossas inquietações e conduza nossos corações ao verdadeiro descanso que somente Ele pode oferecer.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 6,39-42

A passagem de Lucas 6,39-42 proclamada na sexta-feira da 23⁰ semana do tempo comum  nos coloca diante de um dos momentos mais incisivos e desconcertantes do discurso da planície, onde Jesus oferece aos discípulos um ensinamento que toca profundamente a relação entre ética, fé e convivência comunitária. O cenário é marcado pelo anúncio das bem-aventuranças e pelas exigências do amor aos inimigos. Logo em seguida, ele denuncia o perigo da hipocrisia religiosa e da cegueira interior. Não se trata de um detalhe periférico, mas de uma chave hermenêutica para compreender a espiritualidade autêntica que o Evangelho propõe. Ao dizer: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no buraco?” (Lc 6,39), Jesus está apontando para a gravidade de quem assume o papel de guia sem enxergar a si mesmo. A metáfora é universal: um líder cego, seja religioso, político, cultural ou familiar, arrasta consigo todos aqueles que confiam em sua condução. Não é apenas uma crítica individual, mas uma advertência estrutural, que ecoa ainda hoje em sociedades guiadas por ideologias excludentes, por líderes violentos e por pregadores que negociam a fé como mercadoria.


Essa passagem encontra paralelo em Mateus 7,3-5, dentro do Sermão da Montanha, onde a imagem da trave e do cisco aparece em tom igualmente irônico e incisivo. A hipérbole de Jesus é pedagógica: como alguém que tem uma trave no próprio olho ousa apontar o cisco no olho do irmão? O exagero da linguagem denuncia a desproporção entre a falta de autocrítica e a pressa em julgar o outro. O recurso ao humor e à ironia aqui é profundamente sapiencial: lembra os provérbios que alertam contra a insensatez de quem não vê sua própria fragilidade (cf. Pr 14,12; Pr 26,12). Isaías já falava de “sentinelas cegas” incapazes de discernir (Is 56,10), denunciando líderes religiosos que não enxergavam a opressão do povo. Também o Salmo 19,13 reza: “Quem percebe os próprios erros? Purifica-me dos que me são ocultos!”. Jesus insere-se nessa tradição profética de denunciar uma religião sem autocrítica, que aponta dedos para fora mas não olha para dentro. Do ponto de vista histórico, essa crítica tem um endereço imediato: os fariseus e mestres da Lei que, seguros de sua interpretação rigorosa, julgavam os outros como impuros e indignos. Mas seria um equívoco reduzir a denúncia a um grupo do passado. O texto lucano foi preservado e proclamado porque toca em algo universal e permanente: a tentação de todo ser humano e de toda instituição de se colocar como guia sem enxergar suas próprias limitações. A história da Igreja também conhece momentos em que, em vez de ser luz, foi cega, e em vez de conduzir à vida, arrastou para buracos de intolerância e violência. A Inquisição, as alianças com poderes opressores, o silêncio diante da escravidão ou das ditaduras são exemplos históricos de traves que exigem memória penitencial. Por isso, essa passagem é também convite permanente à conversão eclesial, como o Vaticano II pediu em Gaudium et Spes (n. 43), lembrando que a Igreja deve sempre se renovar e purificar.

A antropologia nos ajuda a perceber como a imagem da trave e do cisco revela o modo como comunidades humanas funcionam. É comum que sociedades busquem culpados externos para não enfrentar seus próprios problemas internos. Essa lógica do bode expiatório, já descrita por René Girard, mostra como grupos projetam no outro — estrangeiro, pobre, diferente, minorias — a responsabilidade por suas próprias crises. Assim, a crítica de Jesus continua atual: somos rápidos em apontar pecadores, “inimigos da fé” ou “desviados”, mas não percebemos as estruturas de injustiça das quais participamos. Isso vale também para a política: líderes populistas e autoritários prometem salvar a nação, mas são incapazes de reconhecer as traves do ódio, da corrupção e da desigualdade que eles mesmos alimentam. E o povo, guiado por esses cegos, acaba caindo em buracos de violência e exclusão.

A psicologia ilumina outro aspecto: a projeção. Aquilo que não suportamos em nós mesmos, frequentemente projetamos nos outros. Quando julgamos com dureza os defeitos alheios, muitas vezes estamos tentando fugir de nossas próprias fragilidades. Jung dizia que o inconsciente projeta no outro as “sombras” que não queremos reconhecer. A advertência de Jesus é, então, profundamente terapêutica: antes de tentar “curar” o outro, precisamos enfrentar nossa própria sombra, olhar para dentro com coragem. O Evangelho aqui é antídoto contra a ilusão de pureza. A verdadeira santidade não nasce da negação dos próprios limites, mas da humildade em reconhecê-los diante de Deus e dos irmãos.

A filosofia também ressoa nesse ponto. Sócrates insistia que “a vida não examinada não vale a pena ser vivida”. O autoconhecimento é condição para qualquer sabedoria. Jesus, com a metáfora da trave, coloca o autoconhecimento como pré-requisito para a correção fraterna. Sem olhar para dentro, toda crítica ao outro se torna hipocrisia. Kant, por sua vez, lembrava que o ser humano tende a julgar com rigor os outros e com benevolência a si mesmo — daí a necessidade de uma razão ética que seja universal e coerente. A incoerência que Jesus denuncia é justamente o oposto: rigor contra o outro, complacência consigo mesmo.

Do ponto de vista teológico, o texto denuncia falsos guias que obscurecem a luz do Evangelho. Hoje, a teologia da prosperidade é um exemplo dessa cegueira: promete riquezas e curas imediatas em nome de Deus, mas fecha os olhos para a cruz, para a partilha e para o clamor dos pobres. Também a teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para conquistar poder político, é expressão da mesma cegueira: transforma a religião em ideologia de controle, sem perceber que arrasta multidões para o buraco da intolerância e do ódio. O individualismo religioso, que reduz a fé a experiência privada, sem compromisso comunitário e social, é outra forma de cegar. E quando a fé se torna mercadoria — vendida em shows, plataformas digitais ou barganhas financeiras —, a trave é tão grande que já não se enxerga a Boa Nova de Jesus. O Papa Francisco denuncia isso em Evangelii Gaudium (n. 93-97), quando fala da “mundanidade espiritual” que busca prestígio, poder e sucesso em nome da religião, mas trai o Evangelho.

O clericalismo, denunciado repetidamente pelo mesmo Papa, é também um exemplo contundente da trave nos olhos da Igreja. Quando padres e bispos se colocam como donos da fé, quando falam de cima para baixo sem ouvir o povo, tornam-se cegos guias de cegos. O povo de Deus, pelo batismo, é sujeito da fé. Como dizia Santo Agostinho, “com vocês sou cristão, para vocês sou bispo”. Esse equilíbrio entre serviço e comunhão é perdido quando o ministério se torna privilégio. Orígenes já advertia que a verdadeira autoridade na Igreja não é domínio, mas serviço humilde. São João Crisóstomo, em suas homilias, dizia que nada é mais temível que um pastor que conduz ao erro. Esses ecos patrísticos reforçam que o alerta de Jesus não é retórico, mas vital: vidas estão em jogo quando os guias perdem a visão.

Na liturgia, esse evangelho aparece na sexta-feira da 23ª semana do Tempo Comum, em um contexto no qual a Palavra nos chama a uma espiritualidade de discernimento e autenticidade. Quando escutamos esse texto durante a missa, não o ouvimos como espectadores, mas como comunidade convocada a olhar para dentro. A liturgia é escola de autocrítica e humildade: antes de comungar, reconhecemos nossas traves ao dizer “Senhor, eu não sou digno”. Só quem se reconhece cego pode pedir a luz de Cristo. Só quem admite sua fragilidade pode guiar com compaixão e verdade.

Esse evangelho, proclamado hoje, é profundamente profético. Ele denuncia pregadores digitais que buscam curtidas mais do que conversões, ministros que se escondem em títulos clericais, líderes que vendem promessas fáceis em troca de dízimos, e comunidades que se conformam ao sistema em vez de questioná-lo. É um chamado à conversão pessoal e estrutural. Jesus não pede que deixemos de ajudar o irmão a tirar o cisco, mas que o façamos somente depois de retirar a trave. Ou seja, a correção fraterna é necessária, mas só é autêntica quando nasce da humildade e do amor, e não do julgamento hipócrita. Isso vale para cada discípulo, mas também para a Igreja como corpo, que precisa constantemente purificar seus olhos para enxergar o Evangelho sem distorções. A pergunta final que a Palavra nos deixa é: quais são as traves que hoje impedem a Igreja e cada um de nós de ver? O comodismo diante da miséria? A indiferença diante dos pobres? A sedução pelo poder político? O apego a estruturas clericais? A fé transformada em mercadoria? Reconhecer essas traves é doloroso, mas necessário. Só quem admite sua cegueira pode abrir-se à luz que vem de Cristo. E só quem passa por essa purificação pode ser guia verdadeiro, capaz de conduzir outros não ao buraco, mas à vida plena.

Assim, a metáfora de Jesus, mais que uma advertência moral, é um convite à conversão contínua, à autocrítica permanente, à humildade radical. Sem isso, qualquer guia, seja pessoa ou instituição, é cego guiando cegos. Mas com isso, o discípulo torna-se luz, capaz de enxergar e conduzir na direção do Reino, onde não há traves nem buracos, mas olhos abertos para a verdade e o amor.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 7 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,32-38


O Olhar que Cura e Envia: A compaixão que denuncia e convoca à missão

O Evangelho de Mateus 9,32-38 é proclamado na terça-feira da 14ª Semana do Tempo Comum. A mesma temática da compaixão pastoral de Jesus e do chamado à missão encontra paralelos nos demais sinóticos. Em Marcos 6,34-44, proclamado na terça-feira depois da Epifania, contemplamos Jesus que, ao ver a multidão "como ovelhas sem pastor", começa a ensiná-la e, em seguida, multiplica os pães, revelando que a misericórdia de Deus alimenta tanto a alma quanto o corpo. Já Lucas 10,1-12.17-20 é proclamado no 14º Domingo do Tempo Comum – Ano C, quando Jesus envia os setenta e dois discípulos e lhes dirige as mesmas palavras que ecoam em Mateus: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Lc 10,2). A liturgia, ao distribuir essas passagens ao longo do Ano Litúrgico, apresenta uma verdadeira pedagogia da missão. Nos três Evangelhos, Jesus vê a realidade com os olhos da misericórdia, deixa-se tocar pelo sofrimento humano e transforma a compaixão em ação evangelizadora. Seu olhar alcança os silenciados, os feridos e os dispersos, revelando o rosto de um Deus que não permanece indiferente diante da dor do seu povo. Mais do que recordar acontecimentos do passado, essas proclamações convidam a Igreja de todos os tempos a discernir os sinais da história e a responder com uma fé encarnada, missionária e comprometida com a justiça, para que o Reino de Deus continue a tornar-se visível no meio da humanidade.

Diante de um mundo fragmentado, onde as vozes se perdem em meio ao ruído e os corpos carregam os sinais de uma exaustão que vai além do físico, o Evangelho de Mateus 9,32-38 se apresenta como um sopro de lucidez e esperança. Nele, contemplamos Jesus não como um mero mestre de palavras, mas como aquele que se aproxima, que vê, que sente e age. Seu olhar é o início de toda cura. Um olhar que não se limita à superfície, mas que penetra as entranhas da condição humana  um olhar de compaixão..É este o olhar que nos salva de verdade: não o do julgamento, mas o da misericórdia. O texto nos convida a nos deixarmos alcançar por esse olhar, a baixarmos nossas defesas e resistências, e a acolhermos, com simplicidade, a boa nova que não apenas consola, mas transforma. O olhar de Jesus não nos rotula nem nos paralisa; ele nos chama de volta à vida. Nesta passagem, encontramos não apenas a narrativa de uma cura física, mas uma denúncia contra estruturas que silenciam, uma convocação à missão, e um chamado à coerência entre fé e ação. 

Mateus nos apresenta a figura de um homem mudo, possuído por um espírito maligno. A mudez aqui não é apenas física, mas também teológica e sociológica: representa o impedimento da comunicação com o outro e com Deus, sinal de um aprisionamento que ultrapassa o corpo e atinge a alma. Simboliza o silenciamento das vozes marginalizadas pela sociedade e pela religião. O texto não relata a súplica do homem nem uma fé explícita; o que nos é dado ver é a ação de Jesus que, ao expulsar o demônio, devolve a esse homem a palavra, a capacidade de se comunicar e se reintegrar ao mundo. Há aqui uma restauração existencial que revela o rosto do Deus de Israel: um Deus que escuta os mudos, que vê os invisíveis, que se aproxima dos esquecidos. Essa cura é, ao mesmo tempo, um ato de misericórdia e uma denúncia escatológica. As autoridades religiosas, vendo o milagre, não se alegram, mas acusam Jesus de agir pelo chefe dos demônios. Mateus explicita o abismo entre a compaixão de Jesus e o legalismo dos fariseus. Estes representam a religião fechada em si, desconectada da dor do povo, escrava de sua própria normatividade. A cegueira espiritual deles os impede de reconhecer a presença de Deus no gesto misericordioso. Essa crítica ressoa com os profetas como Isaías (cf. Is 29,13-14) e Jeremias (cf. Jr 23), e ecoa fortemente em Amós: “Abomino vossas festas… antes, corra a justiça como um rio” (Am 5,21-24).

O evangelho então se abre para um panorama mais amplo: Jesus percorre todas as cidades e aldeias, ensinando, curando, libertando. Ele vê a multidão e se enche de compaixão porque estavam exaustas, como ovelhas sem pastor. O termo grego eskulmenoi kai erimmenoi — traduzido por “cansadas e abatidas” — traz a ideia de corpos feridos, lançados ao chão, vulneráveis. O que Jesus vê não é apenas sofrimento físico, mas uma sociedade esfacelada, uma religião incapaz de cuidar, uma população submetida à opressão imperial e ao abandono espiritual. Nesse olhar de Jesus está o olhar do próprio Deus, que em Êxodo 3,7 declara: “Eu vi a aflição do meu povo no Egito... e desci para libertá-lo”..Essa imagem das ovelhas sem pastor remete a Ezequiel 34, onde o Senhor denuncia os pastores de Israel que se apascentam a si mesmos e abandonam o rebanho. Jesus se apresenta como o verdadeiro pastor, que reconhece o sofrimento das pessoas e se move em direção a elas com ternura e ação. No paralelo de Marcos 6,34, vemos que, ao se compadecer da multidão, Jesus começa a ensiná-la com paciência. Em Lucas 10,2, Ele retoma a expressão “a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”, e imediatamente envia os setenta e dois discípulos. Isso indica que a compaixão gera missão. Jesus não apenas se sensibiliza: Ele forma e envia. Como recorda a Evangelii Gaudium 24, “A comunidade evangelizadora experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor.  sabe dar o primeiro passo, sabe envolver-se, sabe acompanhar, frutificar e festejar”.

A imagem da “messe” nos convida à ação. O Reino de Deus não é passividade, mas colheita que exige trabalhadores. Como bem recorda Santo Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti. A graça não nos exclui da cooperação; somos chamados a agir, a trabalhar na vinha do Senhor” (De Correptione et Gratia, 23, 27). A oração ao Senhor da messe não é mágica nem alienante. Ela é um chamado à conversão ativa. Quem ora, se compromete. Quem vê a dor do povo, deve deixar-se mover pelas entranhas, como o Cristo. A oração do discípulo não pode ser estéril; deve gerar frutos. Como diz São João Crisóstomo: “Não há nada mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros” (Homilias sobre Mateus, homilia 88). E São João, reforçando a fé operante, exorta: “A fé que não produz obras é morta” (cf. Tg 2,17).

É fundamental ampliar esta reflexão à luz da espiritualidade individualista que permeia muitos espaços religiosos hoje. Observamos uma tendência crescente de uma fé centrada no “eu sozinho”, onde as preces, os cânticos e até as pregações são formuladas no singular, diluindo o sentido de pertença comunitária que a fé exige. O uso quase exclusivo do “eu”, “meu” e “minha” em orações e liturgias revela uma relação egoísta com Deus, uma religiosidade que busca antes o bem-estar emocional pessoal do que o compromisso real com o outro e com a missão. Essa espiritualidade solipsista, longe de ser um caminho de cura e comunhão, transforma a fé em uma espécie de autoajuda, reduzindo o Evangelho a uma doutrina do conforto e da satisfação interior. Perde-se, assim, a dimensão profética e transformadora da fé que clama pela justiça, pela solidariedade e pela construção do Reino. A religião vira um instrumento de escape emocional e psicológico, uma busca por tranquilidade individual que evita o desconforto da responsabilidade comunitária e social.

São João Crisóstomo adverte contra essa religiosidade vazia e egoísta: “Quando oras, não sejas como o hipócrita, pois ele gosta de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para ser visto pelos homens. Em verdade vos digo que já recebeu sua recompensa” (cf. Mt 6,5). O problema não é a oração em si, mas a intenção egoísta que reduz o relacionamento com Deus a um espetáculo ou a uma busca individualista, sem abrir-se ao mistério da comunhão e da missão. A fé isolada não dialoga, não constrói, não serve. Ela empobrece a alma e torna a Igreja um conjunto de “eus solitários”, enquanto o Evangelho nos convoca a sermos “nós irmãos”.

Santo Agostinho lembra que a fé só salva e transforma quando é alicerçada no amor para com o próximo: “Ama e faze o que quiseres. Se calares, cala por amor; se falares, fala por amor; se corrigires, corrige por amor. Seja o amor o fundamento de todas as tuas ações” (Carta 7, a Proba). O amor é o fundamento comunitário que salva a fé da solidão e do egoísmo. 

Nesse sentido, o Concílio Vaticano II resgatou a dimensão eclesial da fé, sublinhando a Igreja como “povo de Deus”, uma comunidade de homens e mulheres que, iluminados pela Palavra e fortalecidos pelo Espírito Santo, vivem uma fé ativa e comprometida no mundo. A Lumen Gentium 12 afirma que “a Igreja existe para evangelizar”, isto é, para levar a Boa Nova a todas as pessoas, o que só pode acontecer se a fé for partilhada, vivida e testemunhada em comunidade. 

A sociedade contemporânea, marcada pela solidão, pela cultura da produtividade e pela indiferença, gera multidões igualmente cansadas e dispersas. Pensemos, por exemplo, na crescente epidemia de saúde mental, no aumento da violência urbana e na precarização do trabalho que atinge milhões. A extrema-direita religiosa que manipula o cristianismo para justificar intolerância, racismo, misoginia e homofobia  está entre os novos fariseus que julgam a libertação dos mudos como obra do “príncipe dos demônios”. Sob o pretexto de defender a moral cristã, acabam promovendo uma ideologia anticristã, negando tudo o que Jesus viveu: acolhida, diálogo, compaixão, escuta, libertação. A religião, quando aliada ao poder opressor, torna-se ídolo. Como disse São João Crisóstomo: “Não há nada mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros”.

A pedagogia de Jesus nos ensina que a verdadeira espiritualidade se faz de escuta e de prática. Ele vê, sente e age. Ele não espera ser procurado, vai ao encontro. Ele não se escandaliza com a dor, mas a transforma. Seu olhar cura porque está cheio de misericórdia. E essa compaixão é a chave hermenêutica da missão cristã. Como Marta e Maria, somos chamados à ação e à escuta; como a pomba que alimenta seus filhotes com alimento previamente digerido, devemos partilhar com o mundo aquilo que assimilamos no silêncio da oração e no ardor da leitura orante da Palavra. Como afirma o Documento de Aparecida, “ninguém se salva sozinho, a salvação exige comunidades solidárias e missionárias” (DAp 294).

A Igreja é comparada a uma grande seara que precisa de trabalhadores, mas de trabalhadores que trabalhem. Não há nada mais conforme com o Evangelho do que, por um lado, reunir luzes e forças na oração, na leitura e na solidão, e depois ir partilhar com os homens esse alimento espiritual. É fazer como fez Nosso Senhor e, depois dele, os apóstolos; é juntar a ação de Marta à de Maria; é testemunhar pelas nossas obras quanto amamos a Deus. É nosso dever passar aos atos. Como ensina ainda Santo Agostinho: “Ama, e faze o que quiseres. Se calares, cala por amor; se falares, fala por amor; se corrigires, corrige por amor. Seja o amor o fundamento de todas as tuas ações” (Carta 7, a Proba)

À luz deste Evangelho, compreendemos que a missão da Igreja nasce da compaixão e se realiza na prática da justiça, da misericórdia e da fraternidade. Jesus não envia trabalhadores para preservar estruturas de poder, defender privilégios ou alimentar disputas ideológicas; envia discípulos para cuidar das pessoas, restaurar sua dignidade e anunciar que o Reino de Deus já está presente onde a vida é defendida. A verdadeira ortodoxia jamais pode ser separada da ortopraxia, pois uma fé que não se traduz em amor concreto torna-se estéril. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é sacramento da salvação no mundo e existe para tornar Cristo presente na história por meio do serviço aos irmãos. Essa Palavra também assume um caráter profundamente profético. Ela denuncia toda forma de religião que substitui a misericórdia pelo moralismo, o serviço pelo clericalismo, a comunhão pelo individualismo e o Evangelho pela ideologia. Sempre que a fé é utilizada para justificar exclusão, violência, preconceito ou alianças com poderes que esmagam os pequenos, repete-se a atitude daqueles que atribuíram ao demônio a obra libertadora de Cristo. A Igreja somente permanece fiel ao Senhor quando se coloca ao lado dos pobres, dos esquecidos e dos que tiveram sua voz silenciada, fazendo eco ao Magnificat de Maria, aos profetas de Israel e ao próprio Cristo, que veio "para que todos tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo 10,10). Que o Espírito Santo nos conceda os mesmos olhos de Jesus: olhos capazes de enxergar além das aparências, de reconhecer a dor escondida e de transformar a compaixão em compromisso. Que nossas comunidades sejam verdadeiras casas de acolhida, onde ninguém seja invisível, descartado ou silenciado. E que, ao final da grande colheita, o Senhor da messe nos encontre não entre os que apenas falaram de amor, mas entre aqueles que fizeram da própria vida um Evangelho vivo, testemunhando que a misericórdia é a forma mais alta da verdade e que a justiça é o rosto histórico da caridade.

Concluímos esta reflexão com um convite à coerência radical. Que o olhar de Jesus, cheio de compaixão, nos cure da mudez da indiferença, do medo de nos comprometer, da tentação de uma fé sem obras. Que sua compaixão nos mobilize a amar com gestos concretos, a formar comunidades que acolham, que curem, que libertem. Que nossas comunidades sejam verdadeiras casas de misericórdia, espaços de escuta, serviço e compromisso com os pequenos. E que ao final da vida, quando nos encontrarmos com o Senhor da seara, ele possa reconhecer em nossas mãos os frutos do amor vivido.

Que o evangelho de hoje não seja apenas lido, mas encarnado, pois, como afirma o Apocalipse: “Felizes os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham” (Ap 14,13). Que sejamos conhecidos por essas obras: obras de compaixão, de justiça, de evangelho vivido no concreto da história.

DNonato – Teólogo do Cotidiano