Mostrando postagens com marcador BoaNova. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BoaNova. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de setembro de 2025

Um olhar sobre Lucas 16,19-31 - 26º Domingo do Tempo Comum

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum,  nos  trás  o mosaico com as leituras:  Amós 6,1a.4-7, Salmo 145(146),7.8-9a.9bc-10, 1Timóteo 6,11-16 e Lucas 16,19-31, que nos convida a refletir sobre a justiça, a responsabilidade diante dos bens e a urgência de vivermos segundo os valores do Reino de Deus. As leituras deste domingo fazem um chamado incisivo à atenção para aqueles que sofrem e alertam contra a complacência dos que se acomodam na riqueza e no conforto enquanto os pobres e marginalizados são esquecidos. Em Amós, o profeta denuncia a arrogância e a indiferença dos ricos que vivem em luxo enquanto o povo sofre; o Salmo nos lembra que Deus defende os oprimidos e sustenta os famintos; Paulo, em sua carta a Timóteo, exorta a buscar a justiça, a piedade e uma vida reta, afastando-se dos desejos vãos; e, finalmente, a parábola do rico e Lázaro, no Evangelho de Lucas, confronta-nos com a realidade da vida e da morte, mostrando a urgência de acolher e praticar a misericórdia em nossas próprias vidas que iremos aprofundar  abaixo embora  já fizemos  em nosso canal do YouTube  no 26º Domingo do Tempo Comum em 2022em fevereiro  de 2024  e  em março de 2025 que nos faz lembrar  do texto: Falando de pobreza 

Neste  26º Domingo do Tempo Comum do ano C também proclamado  na 5ª-feira da 2ª da Quaresma  anualmente, nos  apresenta  a parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31) permanece como um dos relatos mais incisivos de Jesus sobre a necessidade de olhar o outro com compaixão e justiça. Não é apenas uma história moral; é uma denúncia profética contra a indiferença, o egoísmo e a ilusão de segurança que a riqueza proporciona quando não é compartilhada. Proclamada na liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum do Ano C, ela ressoa como um chamado à conversão, lembrando-nos de que o Reino de Deus está construído na fidelidade aos pobres, no cuidado pelos excluídos e na partilha generosa do que recebemos.

O detalhe do versículo 22 revela uma subversão radical das expectativas humanas: Lázaro, o invisível em vida, é levado pelos anjos para junto de Abraão, enquanto o rico é enterrado sem consolo. Esse contraste não apenas denuncia a injustiça social, mas reflete a teologia da reversão, presente em toda a Bíblia. O cântico de Maria ecoa nesse sentido: “Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1,52), e o Eclesiástico reforça: “A memória dos justos permanece para sempre, o nome dos ímpios apodrece” (Eclo 44,13). A morte de Lázaro é, portanto, pascal; a do rico, apenas a continuidade do vazio de sua existência egoísta.

Ao analisar o comportamento do rico após a morte, percebemos que ele permanece cego à dignidade de Lázaro. O pedido para que se molhe sua língua com água revela não apenas uma súplica de conforto, mas a persistência de uma visão utilitarista do outro: o próximo visto apenas como meio. Isaías nos lembra que “as vossas iniquidades erguem uma barreira entre vós e o vosso Deus” (Is 59,2), e aqui esse abismo se manifesta em toda sua força. A parábola mostra que o verdadeiro tormento do rico é a ausência de amor, a incapacidade de enxergar o sofrimento alheio como próprio. 

No versículo 31, quando Abraão explica que mesmo alguém ressuscitado não convencerá os incrédulos, conecta-se diretamente à ressurreição de Cristo e à rejeição que muitos ainda demonstram. Essa incredulidade persistente evidencia não apenas uma resistência espiritual, mas uma cegueira histórica que mantém estruturas sociais e religiosas focadas na manutenção de privilégios. Assim, a parábola ecoa em nosso tempo: muitos ainda fecham os olhos diante dos pobres, dos marginalizados, dos famintos, ignorando o Cristo ressuscitado presente em cada um deles.

O desafio que nos é lançado é existencial e social. A psicologia mostra como o egoísmo é uma fuga do próprio vazio; a sociologia denuncia sistemas que perpetuam a desigualdade; a filosofia lembra que a vida encontra sentido no encontro com o outro; e a antropologia confirma que a dignidade dos pobres é uma constante revelação espiritual, mesmo quando os sistemas de poder tentam escondê-la. Na prática, a parábola nos obriga a reavaliar nossas escolhas diárias: como usamos nossos recursos, tempo e talento? A quem ignoramos ou marginalizamos? Em que medida nossas estruturas sociais favorecem o abismo entre ricos e pobres?

A parábola revela que a riqueza em si não é mal, mas a falta de partilha e a indiferença transformam-na em pecado. A teologia da prosperidade distorce a fé, reduzindo-a a meio de enriquecimento; a teologia do domínio busca submeter o outro; o individualismo espiritual isola a fé do compromisso social. O clericalismo, que impede que líderes religiosos vivam a compaixão concreta e o cuidado pelos marginalizados, também é denunciado. É uma advertência: quando a fé é mercadoria ou poder, a alma se distancia do Reino. São João Crisóstomo ensinava que não compartilhar a riqueza com os pobres é roubo; Santo Ambrósio lembrava que não dar aos pobres é privá-los do que lhes pertence por direito; Santo Agostinho reflete sobre a incredulidade diante da ressurreição como sinal da cegueira espiritual; Santo Irineu afirma que a vitória de Cristo sobre a morte é a esperança dos pobres e o juízo dos poderosos; Santo Gregório de Nissa acrescenta que a misericórdia para com os pobres é caminho seguro para a salvação. Essa linha é confirmada nos documentos do Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, e nas encíclicas do Papa Francisco, Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti, que denunciando exclusão, individualismo e estruturas de poder injustas, afirmam a urgência de reconhecer a dignidade do outro e a centralidade do cuidado pelos pobres.

Para atualizar a parábola em nosso tempo, observemos os migrantes que morrem em travessias, os moradores de rua das grandes cidades, os trabalhadores informais explorados e os marginalizados por sistemas econômicos excludentes. Eles são os Lázaros de hoje, e a nossa resposta define nossa fé. Ignorar esses sinais é permanecer na incredulidade que a parábola denuncia: “Mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não acreditarão”. Mas acolher esses sinais é permitir que a ressurreição de Cristo transforme nossa história, cure nossas cegueiras e nos faça testemunhas vivas da esperança que não decepciona (Rm 5,5).

A parábola nos convoca a atravessar o abismo enquanto ainda há tempo. Olhar, escutar e agir diante do sofrimento do outro é reconhecer Cristo ressuscitado nos pobres à nossa porta. É viver a fé de forma concreta, radical e transformadora, rompendo com estruturas de injustiça e indiferença. Cada gesto de solidariedade, cada palavra de compaixão, cada decisão de partilha é uma resposta à Boa Nova, uma travessia do abismo e um passo firme na construção do Reino. Que nossas vidas sejam, como a de Lázaro, sinais vivos de confiança, esperança e amor, e que a incredulidade do rico nos sirva de alerta permanente, lembrando-nos de que a verdadeira riqueza é a vida compartilhada, e a verdadeira salvação se manifesta no cuidado pelos irmãos mais necessitados.



DNonato - Teólogo Cotidiano 

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 6,39-42

A passagem de Lucas 6,39-42 proclamada na sexta-feira da 23⁰ semana do tempo comum  nos coloca diante de um dos momentos mais incisivos e desconcertantes do discurso da planície, onde Jesus oferece aos discípulos um ensinamento que toca profundamente a relação entre ética, fé e convivência comunitária. O cenário é marcado pelo anúncio das bem-aventuranças e pelas exigências do amor aos inimigos. Logo em seguida, ele denuncia o perigo da hipocrisia religiosa e da cegueira interior. Não se trata de um detalhe periférico, mas de uma chave hermenêutica para compreender a espiritualidade autêntica que o Evangelho propõe. Ao dizer: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no buraco?” (Lc 6,39), Jesus está apontando para a gravidade de quem assume o papel de guia sem enxergar a si mesmo. A metáfora é universal: um líder cego, seja religioso, político, cultural ou familiar, arrasta consigo todos aqueles que confiam em sua condução. Não é apenas uma crítica individual, mas uma advertência estrutural, que ecoa ainda hoje em sociedades guiadas por ideologias excludentes, por líderes violentos e por pregadores que negociam a fé como mercadoria.


Essa passagem encontra paralelo em Mateus 7,3-5, dentro do Sermão da Montanha, onde a imagem da trave e do cisco aparece em tom igualmente irônico e incisivo. A hipérbole de Jesus é pedagógica: como alguém que tem uma trave no próprio olho ousa apontar o cisco no olho do irmão? O exagero da linguagem denuncia a desproporção entre a falta de autocrítica e a pressa em julgar o outro. O recurso ao humor e à ironia aqui é profundamente sapiencial: lembra os provérbios que alertam contra a insensatez de quem não vê sua própria fragilidade (cf. Pr 14,12; Pr 26,12). Isaías já falava de “sentinelas cegas” incapazes de discernir (Is 56,10), denunciando líderes religiosos que não enxergavam a opressão do povo. Também o Salmo 19,13 reza: “Quem percebe os próprios erros? Purifica-me dos que me são ocultos!”. Jesus insere-se nessa tradição profética de denunciar uma religião sem autocrítica, que aponta dedos para fora mas não olha para dentro. Do ponto de vista histórico, essa crítica tem um endereço imediato: os fariseus e mestres da Lei que, seguros de sua interpretação rigorosa, julgavam os outros como impuros e indignos. Mas seria um equívoco reduzir a denúncia a um grupo do passado. O texto lucano foi preservado e proclamado porque toca em algo universal e permanente: a tentação de todo ser humano e de toda instituição de se colocar como guia sem enxergar suas próprias limitações. A história da Igreja também conhece momentos em que, em vez de ser luz, foi cega, e em vez de conduzir à vida, arrastou para buracos de intolerância e violência. A Inquisição, as alianças com poderes opressores, o silêncio diante da escravidão ou das ditaduras são exemplos históricos de traves que exigem memória penitencial. Por isso, essa passagem é também convite permanente à conversão eclesial, como o Vaticano II pediu em Gaudium et Spes (n. 43), lembrando que a Igreja deve sempre se renovar e purificar.

A antropologia nos ajuda a perceber como a imagem da trave e do cisco revela o modo como comunidades humanas funcionam. É comum que sociedades busquem culpados externos para não enfrentar seus próprios problemas internos. Essa lógica do bode expiatório, já descrita por René Girard, mostra como grupos projetam no outro — estrangeiro, pobre, diferente, minorias — a responsabilidade por suas próprias crises. Assim, a crítica de Jesus continua atual: somos rápidos em apontar pecadores, “inimigos da fé” ou “desviados”, mas não percebemos as estruturas de injustiça das quais participamos. Isso vale também para a política: líderes populistas e autoritários prometem salvar a nação, mas são incapazes de reconhecer as traves do ódio, da corrupção e da desigualdade que eles mesmos alimentam. E o povo, guiado por esses cegos, acaba caindo em buracos de violência e exclusão.

A psicologia ilumina outro aspecto: a projeção. Aquilo que não suportamos em nós mesmos, frequentemente projetamos nos outros. Quando julgamos com dureza os defeitos alheios, muitas vezes estamos tentando fugir de nossas próprias fragilidades. Jung dizia que o inconsciente projeta no outro as “sombras” que não queremos reconhecer. A advertência de Jesus é, então, profundamente terapêutica: antes de tentar “curar” o outro, precisamos enfrentar nossa própria sombra, olhar para dentro com coragem. O Evangelho aqui é antídoto contra a ilusão de pureza. A verdadeira santidade não nasce da negação dos próprios limites, mas da humildade em reconhecê-los diante de Deus e dos irmãos.

A filosofia também ressoa nesse ponto. Sócrates insistia que “a vida não examinada não vale a pena ser vivida”. O autoconhecimento é condição para qualquer sabedoria. Jesus, com a metáfora da trave, coloca o autoconhecimento como pré-requisito para a correção fraterna. Sem olhar para dentro, toda crítica ao outro se torna hipocrisia. Kant, por sua vez, lembrava que o ser humano tende a julgar com rigor os outros e com benevolência a si mesmo — daí a necessidade de uma razão ética que seja universal e coerente. A incoerência que Jesus denuncia é justamente o oposto: rigor contra o outro, complacência consigo mesmo.

Do ponto de vista teológico, o texto denuncia falsos guias que obscurecem a luz do Evangelho. Hoje, a teologia da prosperidade é um exemplo dessa cegueira: promete riquezas e curas imediatas em nome de Deus, mas fecha os olhos para a cruz, para a partilha e para o clamor dos pobres. Também a teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para conquistar poder político, é expressão da mesma cegueira: transforma a religião em ideologia de controle, sem perceber que arrasta multidões para o buraco da intolerância e do ódio. O individualismo religioso, que reduz a fé a experiência privada, sem compromisso comunitário e social, é outra forma de cegar. E quando a fé se torna mercadoria — vendida em shows, plataformas digitais ou barganhas financeiras —, a trave é tão grande que já não se enxerga a Boa Nova de Jesus. O Papa Francisco denuncia isso em Evangelii Gaudium (n. 93-97), quando fala da “mundanidade espiritual” que busca prestígio, poder e sucesso em nome da religião, mas trai o Evangelho.

O clericalismo, denunciado repetidamente pelo mesmo Papa, é também um exemplo contundente da trave nos olhos da Igreja. Quando padres e bispos se colocam como donos da fé, quando falam de cima para baixo sem ouvir o povo, tornam-se cegos guias de cegos. O povo de Deus, pelo batismo, é sujeito da fé. Como dizia Santo Agostinho, “com vocês sou cristão, para vocês sou bispo”. Esse equilíbrio entre serviço e comunhão é perdido quando o ministério se torna privilégio. Orígenes já advertia que a verdadeira autoridade na Igreja não é domínio, mas serviço humilde. São João Crisóstomo, em suas homilias, dizia que nada é mais temível que um pastor que conduz ao erro. Esses ecos patrísticos reforçam que o alerta de Jesus não é retórico, mas vital: vidas estão em jogo quando os guias perdem a visão.

Na liturgia, esse evangelho aparece na sexta-feira da 23ª semana do Tempo Comum, em um contexto no qual a Palavra nos chama a uma espiritualidade de discernimento e autenticidade. Quando escutamos esse texto durante a missa, não o ouvimos como espectadores, mas como comunidade convocada a olhar para dentro. A liturgia é escola de autocrítica e humildade: antes de comungar, reconhecemos nossas traves ao dizer “Senhor, eu não sou digno”. Só quem se reconhece cego pode pedir a luz de Cristo. Só quem admite sua fragilidade pode guiar com compaixão e verdade.

Esse evangelho, proclamado hoje, é profundamente profético. Ele denuncia pregadores digitais que buscam curtidas mais do que conversões, ministros que se escondem em títulos clericais, líderes que vendem promessas fáceis em troca de dízimos, e comunidades que se conformam ao sistema em vez de questioná-lo. É um chamado à conversão pessoal e estrutural. Jesus não pede que deixemos de ajudar o irmão a tirar o cisco, mas que o façamos somente depois de retirar a trave. Ou seja, a correção fraterna é necessária, mas só é autêntica quando nasce da humildade e do amor, e não do julgamento hipócrita. Isso vale para cada discípulo, mas também para a Igreja como corpo, que precisa constantemente purificar seus olhos para enxergar o Evangelho sem distorções. A pergunta final que a Palavra nos deixa é: quais são as traves que hoje impedem a Igreja e cada um de nós de ver? O comodismo diante da miséria? A indiferença diante dos pobres? A sedução pelo poder político? O apego a estruturas clericais? A fé transformada em mercadoria? Reconhecer essas traves é doloroso, mas necessário. Só quem admite sua cegueira pode abrir-se à luz que vem de Cristo. E só quem passa por essa purificação pode ser guia verdadeiro, capaz de conduzir outros não ao buraco, mas à vida plena.

Assim, a metáfora de Jesus, mais que uma advertência moral, é um convite à conversão contínua, à autocrítica permanente, à humildade radical. Sem isso, qualquer guia, seja pessoa ou instituição, é cego guiando cegos. Mas com isso, o discípulo torna-se luz, capaz de enxergar e conduzir na direção do Reino, onde não há traves nem buracos, mas olhos abertos para a verdade e o amor.

DNonato – Teólogo do Cotidiano