A passagem de Lucas 6,39-42 proclamada na sexta-feira da 23⁰ semana do tempo comum nos coloca diante de um dos momentos mais incisivos e desconcertantes do discurso da planície, onde Jesus oferece aos discípulos um ensinamento que toca profundamente a relação entre ética, fé e convivência comunitária. O cenário é marcado pelo anúncio das bem-aventuranças e pelas exigências do amor aos inimigos. Logo em seguida, ele denuncia o perigo da hipocrisia religiosa e da cegueira interior. Não se trata de um detalhe periférico, mas de uma chave hermenêutica para compreender a espiritualidade autêntica que o Evangelho propõe. Ao dizer: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no buraco?” (Lc 6,39), Jesus está apontando para a gravidade de quem assume o papel de guia sem enxergar a si mesmo. A metáfora é universal: um líder cego, seja religioso, político, cultural ou familiar, arrasta consigo todos aqueles que confiam em sua condução. Não é apenas uma crítica individual, mas uma advertência estrutural, que ecoa ainda hoje em sociedades guiadas por ideologias excludentes, por líderes violentos e por pregadores que negociam a fé como mercadoria.
Essa passagem encontra paralelo em Mateus 7,3-5, dentro do Sermão da Montanha, onde a imagem da trave e do cisco aparece em tom igualmente irônico e incisivo. A hipérbole de Jesus é pedagógica: como alguém que tem uma trave no próprio olho ousa apontar o cisco no olho do irmão? O exagero da linguagem denuncia a desproporção entre a falta de autocrítica e a pressa em julgar o outro. O recurso ao humor e à ironia aqui é profundamente sapiencial: lembra os provérbios que alertam contra a insensatez de quem não vê sua própria fragilidade (cf. Pr 14,12; Pr 26,12). Isaías já falava de “sentinelas cegas” incapazes de discernir (Is 56,10), denunciando líderes religiosos que não enxergavam a opressão do povo. Também o Salmo 19,13 reza: “Quem percebe os próprios erros? Purifica-me dos que me são ocultos!”. Jesus insere-se nessa tradição profética de denunciar uma religião sem autocrítica, que aponta dedos para fora mas não olha para dentro. Do ponto de vista histórico, essa crítica tem um endereço imediato: os fariseus e mestres da Lei que, seguros de sua interpretação rigorosa, julgavam os outros como impuros e indignos. Mas seria um equívoco reduzir a denúncia a um grupo do passado. O texto lucano foi preservado e proclamado porque toca em algo universal e permanente: a tentação de todo ser humano e de toda instituição de se colocar como guia sem enxergar suas próprias limitações. A história da Igreja também conhece momentos em que, em vez de ser luz, foi cega, e em vez de conduzir à vida, arrastou para buracos de intolerância e violência. A Inquisição, as alianças com poderes opressores, o silêncio diante da escravidão ou das ditaduras são exemplos históricos de traves que exigem memória penitencial. Por isso, essa passagem é também convite permanente à conversão eclesial, como o Vaticano II pediu em Gaudium et Spes (n. 43), lembrando que a Igreja deve sempre se renovar e purificar.
A antropologia nos ajuda a perceber como a imagem da trave e do cisco revela o modo como comunidades humanas funcionam. É comum que sociedades busquem culpados externos para não enfrentar seus próprios problemas internos. Essa lógica do bode expiatório, já descrita por René Girard, mostra como grupos projetam no outro — estrangeiro, pobre, diferente, minorias — a responsabilidade por suas próprias crises. Assim, a crítica de Jesus continua atual: somos rápidos em apontar pecadores, “inimigos da fé” ou “desviados”, mas não percebemos as estruturas de injustiça das quais participamos. Isso vale também para a política: líderes populistas e autoritários prometem salvar a nação, mas são incapazes de reconhecer as traves do ódio, da corrupção e da desigualdade que eles mesmos alimentam. E o povo, guiado por esses cegos, acaba caindo em buracos de violência e exclusão.
A psicologia ilumina outro aspecto: a projeção. Aquilo que não suportamos em nós mesmos, frequentemente projetamos nos outros. Quando julgamos com dureza os defeitos alheios, muitas vezes estamos tentando fugir de nossas próprias fragilidades. Jung dizia que o inconsciente projeta no outro as “sombras” que não queremos reconhecer. A advertência de Jesus é, então, profundamente terapêutica: antes de tentar “curar” o outro, precisamos enfrentar nossa própria sombra, olhar para dentro com coragem. O Evangelho aqui é antídoto contra a ilusão de pureza. A verdadeira santidade não nasce da negação dos próprios limites, mas da humildade em reconhecê-los diante de Deus e dos irmãos.
A filosofia também ressoa nesse ponto. Sócrates insistia que “a vida não examinada não vale a pena ser vivida”. O autoconhecimento é condição para qualquer sabedoria. Jesus, com a metáfora da trave, coloca o autoconhecimento como pré-requisito para a correção fraterna. Sem olhar para dentro, toda crítica ao outro se torna hipocrisia. Kant, por sua vez, lembrava que o ser humano tende a julgar com rigor os outros e com benevolência a si mesmo — daí a necessidade de uma razão ética que seja universal e coerente. A incoerência que Jesus denuncia é justamente o oposto: rigor contra o outro, complacência consigo mesmo.
Do ponto de vista teológico, o texto denuncia falsos guias que obscurecem a luz do Evangelho. Hoje, a teologia da prosperidade é um exemplo dessa cegueira: promete riquezas e curas imediatas em nome de Deus, mas fecha os olhos para a cruz, para a partilha e para o clamor dos pobres. Também a teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para conquistar poder político, é expressão da mesma cegueira: transforma a religião em ideologia de controle, sem perceber que arrasta multidões para o buraco da intolerância e do ódio. O individualismo religioso, que reduz a fé a experiência privada, sem compromisso comunitário e social, é outra forma de cegar. E quando a fé se torna mercadoria — vendida em shows, plataformas digitais ou barganhas financeiras —, a trave é tão grande que já não se enxerga a Boa Nova de Jesus. O Papa Francisco denuncia isso em Evangelii Gaudium (n. 93-97), quando fala da “mundanidade espiritual” que busca prestígio, poder e sucesso em nome da religião, mas trai o Evangelho.
O clericalismo, denunciado repetidamente pelo mesmo Papa, é também um exemplo contundente da trave nos olhos da Igreja. Quando padres e bispos se colocam como donos da fé, quando falam de cima para baixo sem ouvir o povo, tornam-se cegos guias de cegos. O povo de Deus, pelo batismo, é sujeito da fé. Como dizia Santo Agostinho, “com vocês sou cristão, para vocês sou bispo”. Esse equilíbrio entre serviço e comunhão é perdido quando o ministério se torna privilégio. Orígenes já advertia que a verdadeira autoridade na Igreja não é domínio, mas serviço humilde. São João Crisóstomo, em suas homilias, dizia que nada é mais temível que um pastor que conduz ao erro. Esses ecos patrísticos reforçam que o alerta de Jesus não é retórico, mas vital: vidas estão em jogo quando os guias perdem a visão.
Na liturgia, esse evangelho aparece na sexta-feira da 23ª semana do Tempo Comum, em um contexto no qual a Palavra nos chama a uma espiritualidade de discernimento e autenticidade. Quando escutamos esse texto durante a missa, não o ouvimos como espectadores, mas como comunidade convocada a olhar para dentro. A liturgia é escola de autocrítica e humildade: antes de comungar, reconhecemos nossas traves ao dizer “Senhor, eu não sou digno”. Só quem se reconhece cego pode pedir a luz de Cristo. Só quem admite sua fragilidade pode guiar com compaixão e verdade.
Esse evangelho, proclamado hoje, é profundamente profético. Ele denuncia pregadores digitais que buscam curtidas mais do que conversões, ministros que se escondem em títulos clericais, líderes que vendem promessas fáceis em troca de dízimos, e comunidades que se conformam ao sistema em vez de questioná-lo. É um chamado à conversão pessoal e estrutural. Jesus não pede que deixemos de ajudar o irmão a tirar o cisco, mas que o façamos somente depois de retirar a trave. Ou seja, a correção fraterna é necessária, mas só é autêntica quando nasce da humildade e do amor, e não do julgamento hipócrita. Isso vale para cada discípulo, mas também para a Igreja como corpo, que precisa constantemente purificar seus olhos para enxergar o Evangelho sem distorções. A pergunta final que a Palavra nos deixa é: quais são as traves que hoje impedem a Igreja e cada um de nós de ver? O comodismo diante da miséria? A indiferença diante dos pobres? A sedução pelo poder político? O apego a estruturas clericais? A fé transformada em mercadoria? Reconhecer essas traves é doloroso, mas necessário. Só quem admite sua cegueira pode abrir-se à luz que vem de Cristo. E só quem passa por essa purificação pode ser guia verdadeiro, capaz de conduzir outros não ao buraco, mas à vida plena.
Assim, a metáfora de Jesus, mais que uma advertência moral, é um convite à conversão contínua, à autocrítica permanente, à humildade radical. Sem isso, qualquer guia, seja pessoa ou instituição, é cego guiando cegos. Mas com isso, o discípulo torna-se luz, capaz de enxergar e conduzir na direção do Reino, onde não há traves nem buracos, mas olhos abertos para a verdade e o amor.
“Ide e proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar.” (Mt 10,7-8)
O texto de Mateus 10,7-13, que meditamos na Memória de São Barnabé, celebrada em 11 de junho, e que também retorna em outros momentos do Ano Litúrgico, como no Sábado da 10ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos núcleos mais profundos da espiritualidade missionária cristã. Jesus dirige aos discípulos uma ordem clara e urgente:
“Anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Dai de graça o que de graça recebestes.”
Não se trata apenas de uma recomendação para um grupo específico de discípulos do primeiro século, mas de um chamado permanente que atravessa os tempos e alcança toda a Igreja. Para compreender melhor a riqueza desse ensinamento, é importante olhar também para os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6, nos quais encontramos o mesmo envio missionário sob diferentes perspectivas. A Igreja, ao nos permitir revisitar esses textos em diversas ocasiões, recorda-nos que a missão não é um acontecimento isolado, mas uma dimensão constitutiva da vida cristã.
Observemos:
Em Marcos, Jesus envia os Doze dois a dois, conferindo-lhes autoridade sobre os espíritos impuros e ensinando-os a confiar radicalmente em Deus.
Em Lucas, a ênfase recai sobre o anúncio do Reino e o cuidado dos enfermos, mostrando que a evangelização não se reduz a palavras, mas se manifesta em gestos concretos de libertação, cura e restauração da dignidade humana.
Ao reunir os testemunhos de Mateus, Marcos e Lucas, a Igreja nos recorda que a missão permanece sempre atual. Jesus continua enviando seus discípulos para anunciar a proximidade do Reino em um mundo marcado por desigualdades, exclusões, individualismos e falsas seguranças. O verdadeiro operário da colheita é aquele que caminha com simplicidade, vive da confiança em Deus, promove a paz, cuida dos mais frágeis e testemunha, por palavras e ações, que o Reino dos Céus já começou a florescer entre nós. É importante recordar que, em Mateus, a expressão “Reino dos Céus” corresponde ao que Marcos e Lucas chamam de “Reino de Deus”. Trata-se de uma forma judaica reverente de evitar pronunciar diretamente o nome divino. Assim, quando Jesus anuncia a proximidade do Reino dos Céus, proclama a presença ativa e transformadora de Deus na história humana.
Em Mateus 10,7-13, observamos um envio missionário que espelha o total desprendimento dos discípulos em relação a tudo aquilo que as estruturas mundanas consideram indispensável. Este envio não é uma simples instrução sobre técnicas de pregação, mas uma orientação profundamente profética que questiona as lógicas de poder, acumulação e dominação. O Reino dos Céus que se aproxima não é uma promessa de evasão da realidade nem um acontecimento reservado para um futuro distante. É uma realidade que começa a se manifestar já no presente, onde a vida vence a morte, a misericórdia supera a exclusão e a esperança se impõe sobre o desespero.
Por isso, a missão transcende o mero anúncio verbal. Ela se concretiza em ações que restauram pessoas e comunidades. Em paralelo com Marcos 6,12-13, vemos que os discípulos não apenas pregavam a conversão, mas também expulsavam demônios e curavam enfermos, ungindo-os com óleo. Na linguagem bíblica, esses gestos representam mais do que milagres isolados. Revelam a ação libertadora de Deus contra todas as forças que escravizam o ser humano. Curar os doentes e expulsar os demônios significa confrontar tudo aquilo que produz sofrimento, exclusão, alienação e morte. O Reino anunciado por Jesus toca os corpos feridos, as consciências oprimidas e as relações sociais rompidas. A expressão “o Reino dos Céus está próximo” não significa apenas que algo está para acontecer. Em Mateus, a proximidade do Reino indica a presença ativa de Deus na história através da pessoa e da missão de Jesus. O Reino se torna visível quando os pobres recuperam sua dignidade, quando os marginalizados são acolhidos, quando a justiça floresce e quando a paz substitui a violência. Evangelizar, portanto, não consiste apenas em transmitir doutrinas, mas em tornar presente a ação transformadora de Deus no mundo.
O envio dos apóstolos também sublinha a dependência absoluta da providência divina. Jesus ordena que não levem ouro, prata ou cobre, nem acumulem recursos para garantir a própria segurança. Essa orientação possui uma dimensão espiritual profunda e, ao mesmo tempo, uma crítica contundente à lógica da autossuficiência e da acumulação. O discípulo é chamado a confiar em Deus e a reconhecer que sua missão não depende do poder econômico, do prestígio social ou da influência política.
Essa palavra adquire especial relevância em um contexto no qual a fé, por vezes, é reduzida a instrumento de ascensão econômica ou sucesso individual. A proposta de Jesus segue caminho oposto. O Reino de Deus não é mercadoria. Não pode ser comprado, vendido ou manipulado para benefício próprio.nA ordem “dai de graça o que de graça recebestes” denuncia toda tentativa de transformar a experiência religiosa em negócio, privilégio ou instrumento de poder. O Evangelho é dom antes de ser tarefa. Quem recebeu gratuitamente a misericórdia de Deus é chamado a compartilhá-la gratuitamente.
A confiança radical na providência divina encontra eco nas palavras de Jesus em Mateus 6,25-34, quando ele convida seus discípulos a não viverem dominados pela ansiedade em relação ao alimento, à roupa ou às necessidades materiais. O Pai conhece aquilo de que seus filhos precisam. Da mesma forma, Lucas 10,4 reforça essa lógica missionária ao ordenar: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Em ambos os textos, a mensagem é clara: a missão não nasce da segurança dos bens acumulados, mas da confiança naquele que conduz a história.
A confiança na providência divina não conduz os discípulos ao isolamento nem à indiferença diante da realidade. Pelo contrário, abre-os ao encontro com as pessoas e com as comunidades que encontrarão pelo caminho. Por isso, Jesus ordena que, ao entrarem numa casa, ofereçam a sua paz. Essa saudação não constitui um simples gesto de cortesia ou um cumprimento convencional. Trata-se da comunicação de um dom que procede do próprio Deus e que exige acolhida. A paz anunciada pelos discípulos é a paz do Reino, uma paz que restaura relações, reconcilia pessoas e inaugura novas formas de convivência.
Quando Jesus afirma que, caso a casa seja digna, a paz repousará sobre ela, mas, se não for acolhida, retornará aos discípulos, revela que o Reino jamais se impõe pela força. Deus respeita a liberdade humana. A paz oferecida torna-se, assim, um sinal que interpela consciências e desafia cada pessoa a posicionar-se diante da Boa Nova. Essa compreensão encontra eco nas palavras de Jesus em João 14,27: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”. A paz cristã não é mera ausência de conflitos nem simples tranquilidade individual. É fruto da justiça, da reconciliação e da restauração da dignidade humana. Ela floresce onde existe abertura para ouvir a Palavra e acolher o Reino como dom de Deus.
Nesse sentido, a hospitalidade ultrapassa os limites de um costume cultural. Ela torna-se elemento fundamental da missão. A acolhida do mensageiro representa a acolhida da própria mensagem, enquanto a rejeição manifesta resistência ao projeto libertador de Deus. Ao longo da história bíblica, os profetas experimentaram essa realidade. Muitos foram perseguidos exatamente porque denunciaram sistemas de opressão e injustiça. As palavras de Jesus sobre Jerusalém em Mateus 23,37 recordam essa dramática resistência ao chamado divino.
Por essa razão, a evangelização autêntica não pode ser reduzida a um discurso espiritual desvinculado da realidade concreta. O anúncio do Reino possui implicações sociais, econômicas e humanas. A missão que nasce do Evangelho busca restaurar a vida onde ela foi ferida, devolver esperança aos desanimados, dignidade aos excluídos e voz aos silenciados. Contudo, o Evangelho une inseparavelmente: a conversão pessoal e a transformação das estruturas injustas. Uma sem a outra torna-se incompleta. O Reino de Deus transforma corações e, por meio deles, transforma também as relações sociais.
Nessa perspectiva, diversos teólogos da América Latina, entre eles Gustavo Gutiérrez, insistiram que a missão cristã possui uma dimensão libertadora inseparável do compromisso com os pobres e com a justiça. Essa compreensão também nos leva a uma necessária crítica ao clericalismo e às formas de religião que se distanciam do Evangelho. Sempre que a fé é utilizada como instrumento de dominação, acumulação de privilégios ou manutenção de poderes, contradiz-se o caminho indicado por Jesus.
O envio dos discípulos sem ouro, prata ou recursos acumulados revela que a força da missão não reside no prestígio institucional, mas na fidelidade ao Reino. A Igreja existe para servir, não para dominar; para anunciar a Boa Nova, não para preservar privilégios. Essa crítica não é nova. O próprio Jesus denunciou com firmeza uma religiosidade reduzida a aparências externas, quando afirmou: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8-9). E retomando o profeta Oséias, declarou: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7).
A verdadeira espiritualidade não se limita a ritos ou discursos. Ela se expressa em práticas concretas de misericórdia, acolhimento, partilha e compromisso com a vida. É uma espiritualidade encarnada na história, capaz de reconhecer a presença de Deus nos pobres, nos sofredores e nos marginalizados..Hoje, o testemunho de São Barnabé torna-se particularmente significativo. Conhecido como “filho da consolação”, Barnabé destacou-se por sua capacidade de acolher, reconciliar e construir pontes. Foi ele quem acreditou em Paulo quando muitos ainda o viam com desconfiança.
Além disso, Atos 4,36-37 nos informa que Barnabé vendeu um campo que possuía e entregou o valor aos apóstolos para o serviço da comunidade. Sua vida torna-se um exemplo concreto do desprendimento, da confiança e da partilha que Jesus propõe em Mateus 10..Sua trajetória demonstra que a missão cristã não consiste em erguer muros, mas em criar comunhão; não em excluir, mas em integrar; não em buscar prestígio, mas em servir. Barnabé soube reconhecer a ação de Deus onde outros enxergavam apenas ameaça ou fracasso.
Mateus 10,7-13 nos convida, portanto, a uma fé profundamente encarnada e comprometida com a realidade. Não se trata apenas de alimentar a esperança de uma vida futura, mas de colaborar, já agora, com a transformação das condições que negam a dignidade humana e obscurecem os sinais do Reino..Que a nossa fé jamais se acomode diante da injustiça, nem se torne cúmplice da opressão, da indiferença ou da exclusão. Que seja uma fé viva e encarnada, capaz de curar feridas, acolher os rejeitados, defender os vulneráveis e anunciar a esperança em meio às dores da história.
Que saibamos reconhecer o rosto de Cristo nos pobres, nos marginalizados, nos enfermos, nos migrantes, nos esquecidos e em todos aqueles cuja dignidade é negada pelos mecanismos de poder deste mundo..O testemunho de São Barnabé, dos profetas de Israel, dos apóstolos, dos mártires da justiça e das vozes proféticas que atravessaram os séculos recorda-nos que o Evangelho não é uma ideologia religiosa nem um instrumento de privilégio, mas uma força transformadora que irrompe na história para gerar vida, reconciliação e libertação.
O Reino de Deus torna-se visível sempre que:
A Misericórdia vence o egoísmo,
A Partilha supera a acumulação,
A Fraternidade derrota a exclusão,
A Verdade desmascara a mentira
A Vida triunfa sobre todas as formas de morte.
A missão confiada por Jesus continua atual e urgente. Cada cristão é chamado a ser sinal da presença amorosa de Deus no mundo, não apenas por palavras, mas por escolhas concretas de solidariedade, justiça e serviço. Anunciar o Reino é construir pontes onde existem muros, gerar esperança onde reina o desânimo, defender a dignidade onde prevalece a humilhação e testemunhar, com a própria vida, que outro mundo é possível quando Deus ocupa o centro da existência humana.
Que, a exemplo de São Barnabé e de tantos discípulos e apóstolos de ontem e de hoje, sejamos homens e mulheres capazes de encorajar, reconciliar e servir. Que caminhemos com simplicidade, confiando na providência divina e colocando nossos dons a serviço da vida. E que, ao anunciar gratuitamente o que gratuitamente recebemos, nos tornemos colaboradores da obra de Deus, para que seu Reino de justiça, paz, fraternidade e amor continue florescendo no coração da humanidade e nas realidades concretas da história.
DNonato — Teólogo do cotidiano, discípulo do Reino em construção