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sábado, 5 de julho de 2025

Um olhar em Lucas 10,1-12.17-20 - 14º domingo do tempo comum

 


A missão do Reino: entre envio, compromisso e subversão do sistema

A liturgia deste 14º Domingo do Tempo Comum propõe as seguintes leituras: Isaías 66,10-14; Salmo 65(66),1-3a.4-5.6-7a.16.20 (R. 1); Gálatas 6,14-18 e o Evangelho de Lucas 10,1-12.17-20, que guia nossa reflexão que  aparece a mesma  cena em Mateus 9,32-38 é proclamado na liturgia da Igreja na terça-feira da 14ª Semana do Tempo Comum e  Marcos 6,34-44, proclamado na terça-feira depois da Epifania 

Nessa passagem  o Jesus envia setenta e dois discípulos em missão. Este gesto, situado no caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51), é mais do que um deslocamento geográfico: é um deslocamento teológico, antropológico e político. Trata-se de um movimento de ruptura com os modelos de poder religiosos e imperiais. A narrativa lucana não descreve apenas uma ação evangelizadora em sentido espiritualista ou desencarnado. Ao contrário: revela um chamado à transformação concreta da vida e da sociedade. Jesus, que é o próprio Reino em movimento, envia discípulos não para dominar, mas para anunciar a paz; não para impor doutrina, mas para curar feridas; não para condenar, mas para semear presença amorosa em um mundo desfigurado pela opressão.

O número setenta e dois remete, na tradição judaica, à totalidade das nações da terra (cf. Gn 10, segundo a Septuaginta), revelando que a missão do Reino é universal, inclusiva e transgressora de fronteiras. É uma resposta escancarada ao nacionalismo religioso e às castas clericais que monopolizavam o acesso ao sagrado. O envio em duplas também denuncia o individualismo religioso e político. Não há missionário solitário no Reino. Evangelizar é caminhar com alguém, dividir o fardo, celebrar a esperança e resistir à tentação do “salvador da pátria” — herança messiânica invertida que muitos pastores e políticos alimentam hoje com seus projetos autoritários.

A palavra de Jesus — “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2) — não é apenas um chamado vocacional. É uma denúncia. O campo da vida está repleto de injustiças, violências, angústias existenciais e estruturas excludentes. A escassez de trabalhadores não é apenas quantitativa, mas qualitativa: faltam agentes pastorais e políticos que realmente encarnem a missão como serviço aos pobres — e não como carreira ou palanque. O sistema não forma trabalhadores da messe, mas gestores da ordem. Por isso, o pedido de oração ao “Senhor da messe”: essa missão não se sustenta na força, mas na entrega radical de quem vive a fé como compromisso social e espiritual inseparáveis.

A frase “Eis que vos envio como cordeiros entre lobos” (Lc 10,3) revela o caráter de enfrentamento da missão. A Boa Nova de Jesus não é compatível com o império, com a acumulação, com o clericalismo, nem com a indiferença institucionalizada. Os lobos são reais: milícias ideológicas, religião a serviço do lucro, discursos de ódio que tomam púlpitos e parlamentos. E os cordeiros são os que, mesmo sem armas, desafiam o sistema com coragem e doçura. Aqui ressoa o testemunho do pastor e deputado Henrique Vieira, que afirmou no Congresso:  “A fé cristã, se for fiel ao Evangelho de Jesus, precisa ser crítica contra toda forma de opressão. A cruz de Cristo não pode ser símbolo de dominação, mas sim de libertação. A espiritualidade que não se encarna na luta pelos direitos humanos é alienação religiosa.”

É nesse chão de luta e ternura que a missão acontece. Oferecer paz, como Jesus instrui, não é apenas gesto de boas maneiras. No mundo bíblico, shalom é mais do que ausência de guerra: é justiça restaurada, terra partilhada, dignidade integral. Dizer “a paz esteja nesta casa” (Lc 10,5) é dizer: que haja comida, saúde, direitos, memória e alegria. Ao mesmo tempo, Jesus ensina o discernimento: se a paz não for acolhida, os discípulos devem seguir adiante. O Reino não se impõe — mas também não se submete à lógica da dominação.

A paz, no Evangelho, é sempre convite, não imposição. Jesus reconhece a liberdade do outro: “Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; senão, voltará para vós” (Lc 10,6). Em Apocalipse 3,20, o Ressuscitado declara: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir, entrarei...” — até Deus espera ser acolhido. A paz do Reino não é a paz do império, nem da conveniência. Ela nasce da justiça (cf. Is 32,17), floresce no diálogo e se sustenta na liberdade amorosa. Quando a fé se transforma em controle, e a paz é usada para silenciar a dor ou impor conformismo, o que se instala não é o Reino, mas a caricatura violenta dele.

Ainda hoje, proliferam as teologias do domínio e da prosperidade — que afirmam que a fé verdadeira gera poder, status e riqueza — distorcendo gravemente o Evangelho. Jesus envia os discípulos com as mãos vazias: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias” (Lc 10,4), e ele mesmo vive na pobreza radical: “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). Em Mateus 6,24, adverte: “Ninguém pode servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro”. Em Lucas 6,24, lamenta: “Ai de vós, os ricos, porque já tendes vossa consolação!”. Paulo também é claro: “Tendo o que comer e com que nos vestir, fiquemos satisfeitos” (1Tm 6,8), e adverte: “Os que querem ficar ricos caem na tentação e em muitos desejos insensatos e funestos” (1Tm 6,9). O Evangelho não condena a riqueza em si, mas a idolatria da riqueza — especialmente quando travestida de bênção. O Reino é herança dos mansos (Mt 5,5), e o caminho do discipulado é o do esvaziamento (cf. Fl 2,6-7): serviço, partilha, cuidado — não dominação.

Lucas relata que os discípulos retornam alegres com os frutos da missão, dizendo que até os espíritos maus se submetem. Mas Jesus relativiza esse êxito: “Alegrai-vos, antes, porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20). A verdadeira alegria não está no sucesso, mas na comunhão com Deus. A missão não é espetáculo, é entrega. Não é troféu, é relação.

A Palavra deste domingo precisa atravessar nossas estruturas eclesiais, sociais e políticas. Missão que não se encarna nas realidades históricas é farsa. O Documento de Aparecida já afirmava: “Não podemos evangelizar sem antes olharmos com compaixão e escutarmos o grito dos pobres” (DAp 391). E o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, denuncia que a “economia que mata”, o clericalismo e o fechamento em si mesmos impedem a missão (cf. EG 53-60). Evangelizar hoje é resistir ao racismo estrutural, à LGBTQfobia, ao machismo teológico, ao ecocídio e à banalização da vida.

Henrique Vieira expressa isso com beleza e coragem:  “O Evangelho não é de direita nem de esquerda, mas ele sempre estará à esquerda do opressor. Estará com o pobre, com a mulher, com a criança negra, com a travesti na rua, com o indígena em sua aldeia, com o povo que sofre.”

A missão é, portanto, subversiva. Vai às periferias geográficas e existenciais. Cria laços, derruba muros. Cura feridas, devolve nome e rosto aos descartados. Rompe com o clericalismo que transforma fé em ritualismo e o púlpito em balcão. E desafia a extrema-direita que sequestra os símbolos cristãos para legitimar armas, violência e opressão.

Jesus nos envia como cordeiros — vulneráveis, sim, mas inflamados de esperança. Com pés descalços e coração ardente. Que sejamos como os setenta e dois: missionários da paz, anunciadores de um Reino que é pão partilhado, afeto refeito, justiça plantada e alegria que não se mede por poder, mas por presença.

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DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,14-17.

 Vinho Novo, Odres Vivos. 

No sábado da 13ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos convida a refletir sobre Mateus 9,14-17. Essa mesma tradição também é preservada nos Evangelhos Sinóticos: em Marcos 2,18-22, proclamado na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, e em Lucas 5,33-39, proclamado na sexta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum. A narrativa tem início com uma pergunta feita pelos discípulos de João Batista a respeito do jejum. Já tratamos em outro momento  abordamos os conflitos iniciais entre os discípulos de João e os de Jesus, bem como o contexto em que essas tensões surgiram. Agora, voltamos nosso olhar para o significado da resposta de Jesus e para a novidade do Reino que ela revela
A pergunta feita pelos discípulos de João Batista  “Por que motivo nós e os fariseus jejuamos, e os teus discípulos não jejuam?” Vai além de uma simples dúvida ascética. Revela, na verdade, um conflito mais profundo: o embate entre estruturas religiosas antigas e o novo horizonte que Jesus inaugura. O jejum, prática comum entre os judeus do Segundo Templo, era sinal de penitência, súplica e preparação messiânica (cf. Joel 2,12; Zac 8,19). Contudo, neste contexto, aparece como símbolo de um tempo em transição, que exige discernimento espiritual e abertura profética. Jesus responde com três imagens simbólicas: o esposo, o remendo e o vinho novo — cada uma reveladora de sua identidade e da radical novidade do Reino.

Ao se autodefinir como “o esposo”, Jesus retoma uma imagem profundamente enraizada na teologia profética do Antigo Testamento. Deus é o esposo de Israel (cf. Os 2,16-22; Is 54,5-8; Jr 2,2), e a aliança entre YHWH e o povo é descrita como um matrimônio. Quando Jesus afirma que seus discípulos não jejuam porque “o esposo está com eles”, está anunciando que, n’Ele, Deus se faz presente de modo íntimo e jubiloso — não como doutrina abstrata, mas como presença viva e transformadora. É tempo de núpcias, e ninguém jejua em meio à festa do casamento. O jejum voltará, mas apenas quando o esposo lhes for tirado — alusão velada à sua paixão e morte (cf. Mt 26,31; Mc 2,20).


Nos Evangelhos Sinópticos, essa passagem encontra paralelos em Marcos 2,18-22 e Lucas 5,33-39, mantendo estrutura semelhante: o questionamento sobre o jejum, a resposta com a imagem do esposo e as parábolas do remendo e dos odres. Em todos os relatos, Jesus responde não com condenação, mas com profunda densidade simbólica. O foco não está em proibir o jejum ou exaltá-lo, mas em reinterpretar o tempo presente à luz de sua vinda: é o kairós — o tempo oportuno e fecundo (cf. 2Cor 6,2) — no qual as práticas religiosas precisam ser reformuladas à altura do acontecimento do Reino. A fidelidade a Deus já não pode ser medida apenas por práticas exteriores, mas pela adesão interior a uma nova lógica: a do Evangelho.

As imagens do remendo novo em roupa velha e do vinho novo em recipientes ressequidos reforçam a tensão entre a novidade trazida por Jesus e as estruturas religiosas endurecidas, incapazes de acolher o dinamismo do Espírito. O remendo novo rasga ainda mais o tecido antigo, e o vinho em fermentação rompe o odre ressequido. Ambas as imagens anunciam o risco de tentar conter o Reino dentro de formas obsoletas. A antropologia e a sociologia nos ajudam a perceber como culturas e instituições, quando cristalizadas em sistemas rígidos, tendem a rejeitar tudo aquilo que desafia suas certezas. A tentativa de adaptar o Evangelho a estruturas esgotadas só amplia o rasgão — a violência é inevitável quando a graça é comprimida por estruturas mortas.

Há, portanto, um apelo radical à renovação — não apenas uma conversão pessoal, mas uma reforma da Igreja, das relações e das estruturas que a sustentam. A Igreja, segundo o Concílio Vaticano II, é chamada a uma perene reforma (semper reformanda) (cf. Unitatis Redintegratio, n. 6), pois carrega “um tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7). A patrística recorda que o Espírito Santo sopra onde quer (Jo 3,8), e Santo Agostinho adverte: “Teme o Espírito que passa e não volta”. Os odres novos simbolizam a renovação do coração, a abertura do entendimento (cf. Rm 12,2), o abandono de modelos religiosos legalistas e moralistas que sufocam a liberdade dos filhos e filhas de Deus (cf. Gl 5,1).

Essa crítica de Jesus às estruturas fossilizadas da religião encontra ressonância na filosofia contemporânea, especialmente nas denúncias à razão instrumental feitas por Adorno e Horkheimer, e no alerta de Nietzsche contra uma fé desconectada da vida. O jejum sem alegria, a religião sem festa, a fé sem amor — tudo isso são cascas ressecadas. Um cristianismo que apenas repete ritos, normas e doutrinas, mas não se deixa transformar pelo vinho novo do Espírito, torna-se apenas mecanismo de controle — letra que mata, como Paulo já alertava (2Cor 3,6).

No contexto atual, essa palavra ressoa com força profética. Vivemos tempos em que muitos desejam restaurar “odres velhos”: a rigidez litúrgica como identidade, o moralismo como medida da fé, a religião como instrumento de poder e exclusão. Há setores eclesiais que, em nome da “verdade”, jejuam da alegria do Evangelho, como se a graça fosse escassa ou racionada por mérito. Embora o Papa Francisco — que faleceu em abril de 2025 — tenha sido duramente combatido por tais grupos, ele insistiu até o fim: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium, n. 1). E esse é o vinho novo: uma Igreja que celebra a presença do Esposo é uma Igreja que dança, que canta, que cuida dos pobres e celebra a vida, mesmo em meio à dor.

Ao mesmo tempo, Jesus não despreza o jejum. Ele diz que chegará o tempo em que jejuarão — e isso remete à dimensão escatológica da esperança. O jejum cristão não é mera penitência, mas linguagem do desejo: expressão de uma sede que ainda não se saciou por completo. O Esposo está conosco, mas ainda esperamos sua plenitude. Por isso jejuamos. Por isso também celebramos. O cristão vive neste entre-tempo, onde jejum e festa convivem como ressonâncias do já e ainda não do Reino.

A simbologia do vinho tem profundo enraizamento nas Escrituras. Desde o Gênesis, onde Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão (Gn 14,18), até o Apocalipse, onde o vinho da ira de Deus é imagem do juízo (Ap 14,10), essa bebida representa tanto alegria quanto aliança. O salmista canta: “o vinho que alegra o coração do homem” (Sl 104,15), e os Provérbios alertam para seu uso excessivo (Pv 23,29-35). Na tradição bíblica, o vinho simboliza bênção, comunhão e festa — mas também responsabilidade e vigilância.

Na narrativa das bodas de Caná (Jo 2,1-11), Jesus transforma água em vinho — não qualquer vinho, mas o melhor vinho, guardado para o final. A cena é carregada de simbolismo: ali, o Esposo verdadeiro manifesta sua glória, inaugurando o tempo novo da abundância messiânica. O vinho novo em Caná antecipa o vinho novo do Reino. E esse mesmo vinho se tornará, na última ceia, o sangue da nova e eterna aliança (cf. Mt 26,28).

O apóstolo Paulo, por sua vez, aconselha Timóteo a não beber apenas água, mas também “um pouco de vinho, por causa do estômago e das frequentes enfermidades” (1Tm 5,23). Esse conselho pastoral e realista de Paulo confronta visões moralistas e puritanas que demonizam toda bebida alcoólica. O problema não está na substância, mas no excesso, na alienação e na hipocrisia daqueles que julgam os outros sem discernir o espírito da liberdade cristã (cf. Rm 14,17).

Hoje a a liturgia nos convida a rever nossas estruturas religiosas, comunitárias e existenciais. 

  • Estamos tentando conter vinho novo em odres endurecidos? 
  • Temos remendado com doutrinas o que só o amor pode restaurar? 
  • Transformamos o cristianismo num peso ou nos tornamos testemunhas da leveza e da presença do Esposo em nosso meio?

A maturidade da fé se revela não na adesão exterior a costumes, mas na capacidade de discernir os tempos, de ser odre novo, de sustentar a fermentação do Espírito que renova todas as coisas. Que saibamos jejuar quando for necessário, mas também celebrar com a liberdade dos filhos e filhas que reconhecem: o Esposo está conosco — “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Para compreender melhor a profundidade desse gesto que Jesus reinterpreta, é preciso olhar como o jejum atravessa toda a Escritura. A palavra “jejum” e seus derivados aparecem mais de 70 vezes na Bíblia, com significados que vão muito além da privação alimentar. Moisés jejua quarenta dias no Sinai antes de receber as tábuas da Lei (Ex 34,28), Elias jejua enquanto caminha rumo ao encontro com Deus no Horeb (1Rs 19,8), Ester convoca um jejum coletivo em defesa do povo (Est 4,16), e o próprio Jesus inicia seu ministério com um jejum de quarenta dias (Mt 4,2). O livro de Isaías denuncia o jejum hipócrita (Is 58), ensinando que o jejum verdadeiro rompe correntes de injustiça. O Novo Testamento mostra que o jejum, quando praticado em comunidade, prepara o discernimento do Espírito (At 13,2-3). Assim, o jejum bíblico é sempre orientado para Deus e para o outro: gesto de humildade, de escuta, de solidariedade. Quando perde esse foco, torna-se apenas disciplina ou exibicionismo religioso.

No tempo de Jesus, o jejum dos fariseus — duas vezes por semana, às segundas e quintas — era sinal de devoção, mas também de distinção social e moral (cf. Lc 18,12). Jesus não invalida o jejum, mas o desloca de lugar: não é o rito em si que salva, mas a capacidade de discernir o tempo de Deus e responder com inteireza. Enquanto o Esposo está presente, a fome é transformada em festa. Quando Ele for tirado, o jejum voltará — mas como saudade ativa, desejo ardente, vigilância amorosa.

Já os odres, objetos típicos do cotidiano camponês e nômade da Judeia e da Galileia, eram feitos com peles inteiras de animais, geralmente cabras ou ovelhas. Depois de limpas e tratadas com sal e cinza, essas peles eram costuradas e impermeabilizadas para armazenar líquidos, especialmente o vinho. O vinho novo, em fermentação, produzia gases que exigiam flexibilidade do recipiente. Se o odre estivesse envelhecido e ressecado, rachava-se e o vinho se perdia. Daí o princípio: vinho novo só em odres novos. A metáfora é clara: o Evangelho exige estruturas e corações capazes de conter sua vitalidade. Um coração endurecido não suporta a expansão da graça; uma instituição presa ao legalismo não comporta o sopro do Espírito. Mais que metáfora, é um apelo escatológico: um novo mundo fermenta entre nós, e só odres renovados poderão contê-lo sem explodir.

Que nossos odres sejam renovados pela ternura e pela justiça. Que o vinho novo da alegria do Evangelho nos embriague de esperança. E que, em cada comunidade, o Esposo encontre festa, não jejum — porque onde Ele está, há liberdade, amor e ressurreição.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 21 de junho de 2025

Um olhar sobre Lucas 9,18-24 - 12⁰ Domingo do Tempo Comum

📖 “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Lc 9,20)

No 12º Domingo do Tempo Comum, Jesus nos confronta com uma pergunta que ecoa através dos séculos: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Lc 9,20). Essa não é uma questão neutra ou teórica, mas um chamado existencial e transformador. Interpela-nos a renunciar às imagens falsas e ideológicas de Jesus, abraçando a radicalidade do seguimento, a cruz e a transformação da vida.

As leituras deste domingo: 

  •  1ª Leitura: Zacarias 12,10-11; 13,1; 
  • Salmo de Resposta: Salmo 62(63); 
  • 2ª Leitura: Gálatas 3,26-29 
  • Evangelho: Lucas 9,18-24  

A liturgia de hoje compõe um mosaico revelador da identidade de Jesus e da vocação cristã. Em Zacarias, contemplamos o Servo transpassado, sinal de compaixão e luto por Aquele que foi ferido por amor. O Salmo 62(63) expressa o anseio profundo pela presença de Deus, evidenciando que o discipulado não é movido por obrigação, mas por um desejo íntimo e vital. Na carta aos Gálatas, Paulo proclama que, em Cristo, já não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher — todos são um só. Essa afirmação é um sinal profético de que a identidade cristã rompe barreiras sociais, étnicas e culturais.

Por fim, em Lucas 9,18-24 — texto que já refletimos em 2022 — e que ocorre logo após a multiplicação dos pães(conforme a leitura da Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor e reflexão que publicamos ), Jesus revela com clareza que ser seu discípulo exige cruz, renúncia e fidelidade. A fé cristã não se sustenta em triunfalismos, mas no seguimento de um Cristo que se entrega, que sofre e que convida seus seguidores a tomarem sua própria cruz, todos os dias.

No contexto histórico do primeiro século, o povo judeu, sob a opressão romana, esperava um Messias político, à imagem de Davi. Entretanto, os profetas , especialmente Isaías,  já apontavam para uma identidade messiânica paradoxal: ao mesmo tempo rei justo (Is 11,1-5) e Servo Sofredor (Is 53). Jesus acolhe a profissão de Pedro (“Tu és o Messias”), mas imediatamente subverte o imaginário triunfalista, apresentando-se como o Cristo que deve sofrer, ser rejeitado, morrer e ressuscitar (Lc 9,22).

Esse episódio decisivo, presente em Lucas (9,18-24) e Mateus (16,13-19), ganha em simbolismo no relato de Mateus. Ali, o diálogo se desenrola em Cesareia de Filipe, uma cidade pagã e símbolo da propaganda imperial. Nesse contexto tenso para a fé judaica e o messianismo de Jesus, Ele primeiro indaga: “Quem dizem os homens que eu sou?” e, em seguida, a pergunta mais direta: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mt 16,13-15). A confissão de Pedro,  “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”  é, então, apresentada não como fruto da sabedoria humana, mas como revelação divina (Mt 16,16-17). Em resposta, Jesus declara: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18), inaugurando a comunidade cristã chamada a resistir às forças do mal e do mundo.

No grego, “Pedro” (Petros) e “pedra” (petra) compartilham a mesma raiz. A rocha não é apenas a pessoa de Pedro, mas sobretudo a fé professada: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Os Padres da Igreja, como Santo Agostinho, veem nessa fé o alicerce verdadeiro; São João Crisóstomo destaca o papel de Pedro na unidade da Igreja. O Vaticano II reforça: “O fundamento da Igreja é Cristo, sobre quem a fé de Pedro se apoia” (LG 18). Assim, o “poder das chaves” (Mt 16,19) não é símbolo de dominação, mas de serviço humilde, reconciliação e fidelidade ao Cristo sofredor (Jo 21,18-19).

Essa compreensão da identidade de Jesus, confessada por Pedro e aprofundada pela experiência pascal da Igreja, será formalmente reafirmada no Concílio de Niceia, em 325 d.C. conforme o nosso texto sobre  dogmas segundo a tradição. Diante da heresia ariana, que negava a divindade plena de Jesus, os Padres Conciliares proclamaram com clareza que Cristo é "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro", consubstancial ao Pai. Essa declaração tornou-se pilar da fé cristã, solidificando a compreensão da unidade entre sua natureza divina e humana. O Credo Niceno, fruto desse concílio, permanece até hoje como profissão de fé da Igreja,( acesse  o texto sobre  dogmas) celebrando o mistério do Cristo encarnado, que se fez carne sem deixar de ser Deus.

Hoje, como ontem, o discipulado cristão se vê ameaçado por caricaturas de Cristo e aqui citamos 4 delas somente: 

  1.  O "Cristo armado” da extrema-direita, que profana a cruz com a lógica da violência; 
  2. O “Cristo milagreiro” da teologia da prosperidade, que transforma a fé em mercadoria; 
  3. O “Cristo triunfalista” dos tradicionalismos, que esquece o lava-pés; 
  4.  O  “Cristo neutro”, domesticado para não incomodar os poderosos
Contra essas imagens, ecoa a pergunta do Senhor: “E vós, quem dizeis que eu sou?”

A ligação entre a profissão de fé e a cruz é explícita na repreensão de Jesus a Pedro (Mt 16,23), advertindo contra a tentação de transformar o seguimento num projeto político ou de triunfo terreno. A verdadeira Igreja funda-se na fidelidade à mensagem do amor que se entrega até a morte.

A tensão entre imagem de Deus e nossa humanidade ferida é também nossa. Somos feitos à imagem de Deus, mas vivemos divididos — desejamos a plenitude, mas resistimos a perder o egoísmo e o controle. Jesus chama a “negar-se a si mesmo, tomar a cruz todos os dias e segui-lo” (Lc 9,23). Não é convite ao auto aniquilamento, mas à renúncia do ego autocentrado para dar lugar ao “eu” novo, recriado pela graça, aberto à comunhão com Deus e com o próximo. Paulo expressa essa transformação: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20).

Num mundo marcado pelo individualismo e pela idolatria do sucesso, a cruz permanece escândalo e loucura (1Cor 1,23). A sociedade do “eu empreendedor” quer eliminar sofrimento e renúncia, mas o Evangelho propõe justamente o contrário: a verdadeira liberdade nasce na entrega e no serviço. A fé cristã é força de resistência contra estruturas injustas, divisões sociais e falsas religiões do poder.

Essa linha de renúncia e fidelidade já está presente no Antigo Testamento: 

Abraão deixa tudo para seguir uma promessa invisível (Gn 12);  Moisés renuncia aos privilégios do Egito para libertar seu povo (Ex 2–3); Jeremias sofre perseguições por proclamar a verdade (Jr 20). 

Em Cristo, essa fidelidade atinge seu ápice na kenosis de Filipenses 2,5-11, Deus que se esvazia por amor à humanidade. Mas é especialmente no Cântico do Servo Sofredor, nos capítulos 42 a 53 de Isaías, que se delineia a figura profética que prefigura Jesus:  Não gritará, não clamará, nem fará ouvir sua voz nas praças. Não quebrará o caniço rachado, nem apagará a mecha que ainda fumega” (Is 42,2-3). “Desprezado e evitado pelos homens, homem das dores e familiarizado com o sofrimento [...] ele foi transpassado por causa de nossas transgressões, esmagado por causa de nossas iniquidades. O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos curados” (Is 53,3-5). “Foi maltratado, mas se humilhou e não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda diante dos tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53,7). “O Senhor quis esmagá-lo com o sofrimento. Se oferecer sua vida em expiação, verá sua descendência, prolongará seus dias e a vontade do Senhor triunfará por meio dele” (Is 53,10).

Jesus assume em si essa missão — e o Evangelho segundo Lucas o mostra firme em sua decisão:.Estava chegando o tempo de ser levado ao céu, e Jesus tomou a firme decisão de ir a Jerusalém” (Lc 9,51), ecoando Isaías 50,7:.“O Senhor Deus me ajuda, por isso não me deixei abater. Por isso tornei o meu rosto duro como pedra, sabendo que não serei humilhado.”

Portanto, o seguimento de Cristo não se realiza por slogans triunfalistas, mas por fidelidade ao projeto do Reino, mesmo quando isso custa rejeição, cruz e martírio:. “Levamos sempre e por toda parte em nosso corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo” (2Cor 4,10); “Fixemos os olhos em Jesus, autor e consumador da fé. Ele, em vista da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e está sentado à direita do trono de Deus” (Hb 12,2).

Enquanto muitos se ajoelham diante do ostensório, ignoram o irmão nu e faminto (Mt 25,40). São João Crisóstomo nos alerta: “Querem honrar o corpo de Cristo? Não o desprezem quando o virem nu". A liturgia, fonte e cume da vida da Igreja (Sacrosanctum Concilium 10), só tem força quando nos impele à caridade concreta (Evangelii Gaudium 95).

Nos conflitos contemporâneos — guerras na Ucrânia, no Oriente Médio, violência urbana no Brasil — o rosto de Cristo crucificado continua sangrando. São Romero da América lembra: “O Cristo que reina no céu não pode ser separado do Cristo que sofre na terra.” A neutralidade diante do sofrimento é conivência. O discipulado exige solidariedade ativa, denúncia profética e empenho com os crucificados da história.

O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, denuncia o clericalismo, a mundanidade espiritual e a aliança com poderes temporais que desviam a Igreja da missão evangelizadora (EG 83-95). A Igreja deve ser “casa do Pai”, aberta e acolhedora para os pobres e marginalizados. O Documento de Aparecida (2007) reafirma o seguimento radical a Jesus e o engajamento com os pobres: “A Igreja tem a missão de ser sinal e instrumento da comunhão com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (DA 66). A encíclica Fratelli Tutti reafirma essa responsabilidade universal de solidariedade: “Cada um de nós é plenamente uma pessoa quando pertence a um povo, e ao mesmo tempo não há verdadeiro povo sem o cuidado dos últimos” (FT 182).

No Brasil, favelas, comunidades indígenas e quilombolas vivem a cruz da exclusão social, do racismo estrutural e da violência. Essa realidade clama por discípulos corajosos, que rejeitem religiosidade vazia e desconectada da vida. Como dizia Dom Helder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.” Laudato Si’, ao denunciar a destruição ambiental e o sofrimento das populações marginalizadas, ecoa esse mesmo apelo por justiça: “O clamor da terra e o clamor dos pobres são o mesmo clamor” (LS 49).
O Magistério insiste: a construção do Reino exige a opção preferencial pelos pobres (Evangelii Gaudium 198-199). Sem isso, a Igreja corre o risco de desfigurar-se e trair seu Senhor.

Que a pergunta de Jesus ressoe como um trovão amoroso em nosso coração: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Confessemos com os lábios e com a vida que Ele é o Cristo — não o dos palácios ou dos púlpitos cúmplices, mas o dos caminhos empoeirados, das periferias feridas e da cruz redentora. Só assim a Igreja será fiel ao seu Senhor: quando deixar de buscar prestígio e poder, e voltar a lavar os pés dos pobres, a carregar a cruz dos excluídos e a anunciar, com coragem profética, o Reino de Deus.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 16 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,43-48

A perícope do amor aos inimigos Mateus 5,43-48 sendo uma  continuação  direta  da leitura  de ontem . Essa passagem ocupa  um lugar central no ensinamento de Jesus. Presente tanto no Sermão da Montanha, em Mateus (Mt 5,43-48), quanto no Sermão da Planície, em Lucas (Lc 6,27-38), ela nos apresenta uma das propostas mais revolucionária do Evangelho: amar não apenas os amigos, mas também aqueles que nos ofendem, perseguem ou rejeitam. A Igreja, como sábia pedagoga da fé, coloca esta Palavra diante de nós em diversos momentos do ano litúrgico.

  • Nos Domingos, ela é proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum:   no Ano A segundo Mateus 5,38-48 e no Ano C segundo Lucas 6, 27-38
  • Na Quaresma, tempo de conversão e retorno ao essencial, a mesma mensagem ressoa no Sábado da 1ª Semana (Mateus) e na Segunda-feira da 2ª Semana (Lucas), convidando-nos a examinar a profundidade de nossa mudança de vida.
  • No ciclo  semanal ela  retoma na Terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 23ª Semana, lembrando-nos que o amor evangélico deve ser vivido todos os dias.

Seja no domingo festivo, no caminho penitencial da Quaresma ou na simplicidade dos dias comuns, Jesus nos convida a ultrapassar a lógica humana da reciprocidade e da vingança para entrar na lógica divina da misericórdia. O discípulo não é chamado a amar apenas quem o ama, mas a refletir o próprio coração de Deus, cuja bondade alcança justos e injustos. Abramos, portanto, nosso coração a esta Palavra exigente e libertadora, pedindo a graça de aprender a amar como o Pai ama.  

Ele diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Estao é uma convocação à transformação integral do coração e da ação, que transcende o instinto natural de autoproteção, o desejo de vingança e a lógica social do merecimento. O verbo grego agapate implica uma decisão deliberada de amar, uma ação ética e gratuita que não depende de reciprocidade. Este amor é distinto do afeto natural ou do carinho espontâneo; é um amor que busca o bem do outro, mesmo quando este nos prejudica ou nos odeia. Trata-se de uma participação concreta no próprio modo de amar de Deus, que se revela ao longo de toda a Escritura como “misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor” como proclama Êxodo 34,6.

Jesus falava a uma sociedade profundamente marcada por códigos de honra, retaliação e regras legais restritivas. O mandamento do olho por olho, dente por dente em Êxodo 21,24 e Levítico 24,20 limitava a violência desproporcional, mas ainda preservava a lógica da retribuição. No entanto, já no Antigo Testamento encontramos sementes de superação dessa lógica. Provérbios 20,22 aconselha: “Não digas: Vou pagar o mal; espera no Senhor, e ele te salvará”. Provérbios 24,17 recomenda: “Se teu inimigo cair, não te alegres”. Em Jó 31,29 o justo declara que nunca se alegrou com a desgraça de seu inimigo. O próprio livro dos Provérbios 25,21 ensina: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”, texto que Paulo retoma explicitamente em Romanos 12,20 ao exortar os cristãos a vencerem o mal com o bem.

O ensino de Jesus, portanto, não é ruptura com a revelação anterior, mas plenitude e radicalização. Ele não anula a Lei, mas a leva ao seu cumprimento, como já afirmara em Mateus 5,17. Amar o inimigo é o ápice da justiça superior à dos escribas e fariseus mencionada em Mateus 5,20. Trata-se de uma justiça que nasce do coração renovado, como prometido em Jeremias 31,33, quando Deus diz que escreverá sua lei no íntimo do ser humano. É também cumprimento da promessa de Ezequiel 36,26, na qual Deus promete dar um coração novo e um espírito novo ao seu povo. O texto de Mateus enfatiza ações concretas: fazei o bem a quem vos odeia. O amor cristão é prático, histórico, verificável. Ele ecoa o mandamento maior já presente em Deuteronômio 6,5, amarás o Senhor teu Deus, e em Levítico 19,18, amarás o teu próximo como a ti mesmo. Jesus amplia o conceito de próximo, como já demonstrara na parábola do bom samaritano em Lucas 10,33, onde o estrangeiro e desprezado torna-se modelo de compaixão. O inimigo, portanto, entra no campo do amor. A lógica tribal é superada pela lógica do Reino.

Os símbolos do sol e da chuva em Mateus 5,45 revelam a universalidade da graça divina. O Salmo 145,9 afirma que o Senhor é bom para todos e sua misericórdia se estende sobre todas as suas obras. O Salmo 103 recorda que Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas faltas. Lamentações 3,22-23 proclama que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. A imagem da chuva recorda Deuteronômio 11,14, onde a chuva é bênção da fidelidade divina, e Isaías 55,10-11, onde a chuva que desce do céu simboliza a eficácia da Palavra de Deus que produz vida.

Quando Jesus ordena orar pelos perseguidores, ele aponta para sua própria prática. Na cruz, segundo Lucas 23,34, ele suplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estêvão, em Atos 7,60, repete esse gesto ao pedir que o pecado de seus algozes não lhes seja imputado. Aqui vemos a tradição apostólica encarnando o mandamento do Mestre. Pedro, em 1Pedro 3,9, exorta a não pagar mal por mal, mas a abençoar. João, em 1João 4,20, declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. O amor ao inimigo torna-se critério de autenticidade espiritual..A compreensão deste ensinamento exige uma antropologia realista. Gênesis 4 apresenta Caim incapaz de dominar a violência que bate à porta de seu coração. O ser humano, marcado pelo pecado, tende à rivalidade e à vingança. No entanto, já em Gênesis 50,20, José, traído pelos irmãos, reconhece que Deus pode transformar o mal em bem. Esta é a lógica do Reino. Romanos 5,8 afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Efésios 2,14 proclama que Cristo é nossa paz, aquele que derrubou o muro de separação e fez de dois povos um só. O amor aos inimigos não é idealismo ingênuo, mas participação na reconciliação cósmica inaugurada por Cristo.

No contexto contemporâneo, marcado por polarizações e discursos de ódio, a palavra de Jesus permanece provocativa. A sabedoria bíblica adverte contra a língua que fere. Provérbios 18,21 ensina que a morte e a vida estão no poder da língua. Tiago 3 compara a língua a um fogo capaz de incendiar florestas inteiras. Amar o inimigo implica também purificar a linguagem, romper com a violência simbólica, recusar a difamação e a mentira. Efésios 4,31-32 convida a afastar toda amargura e a ser bondoso e compassivo, perdoando como Deus nos perdoou em Cristo..A perfeição mencionada em Mateus 5,48 não é perfeccionismo moral, mas plenitude do amor. O termo grego teleios indica maturidade, completude. Em Gênesis 17,1 Deus diz a Abraão: anda na minha presença e sê íntegro. A integridade bíblica é totalidade de coração. Colossenses 3,14 afirma que o amor é o vínculo da perfeição. A maturidade cristã consiste em amar como o Pai ama. Não se trata de sentimentalismo, mas de decisão constante pela misericórdia.

A cruz permanece o centro desta pedagogia. Isaías 53 descreve o servo sofredor que não abre a boca diante dos que o oprimem e que carrega as iniquidades de muitos. Filipenses 2,5-8 mostra Cristo que se esvazia e assume a condição de servo. Hebreus 12,2 exorta a contemplar Jesus que suportou a cruz desprezando a vergonha. O amor aos inimigos encontra aqui sua fonte e seu critério. A Igreja, chamada a ser sinal e instrumento de unidade segundo Lumen Gentium, deve encarnar essa ética. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. Evangelii Gaudium recorda que a fé autêntica implica desejo de mudar o mundo. Fratelli Tutti insiste que ninguém se salva sozinho e que a fraternidade é caminho político e espiritual. Deus Caritas Est recorda que o amor é tarefa da comunidade inteira. O amor aos inimigos não é opção devocional, mas exigência estrutural do discipulado.

A crítica às espiritualidades centradas apenas no sucesso individual encontra base bíblica em Lucas 12,15, quando Jesus alerta contra toda ganância, e em Mateus 6,19-21, onde exorta a não acumular tesouros na terra. O Reino não é prosperidade egoísta, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo como afirma Romanos 14,17. Amar o inimigo rompe a idolatria do eu e desloca o centro para o outro..O discípulo que vive Mateus 5,43-48 torna-se sinal escatológico. Ele antecipa o tempo anunciado em Isaías 2,4, quando as espadas se transformarão em arados. Ele participa da visão de Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima e elimina a morte. Cada gesto concreto de perdão é semente desse futuro.

Diante dessa palavra, resta a pergunta que atravessa as Escrituras desde Miqueias 6,8: o que o Senhor pede de ti senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e caminhes humildemente com teu Deus. Amar o inimigo é caminho de cruz e ressurreição. É participar do mistério pascal. É deixar que o Espírito produza em nós o fruto descrito em Gálatas 5,22, amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Amar os inimigos é revolucionário: desafia meritocracia, lógica de poder e punição, polarização, discursos de ódio, exclusão social e religiosa. É educação ética, psicológica e espiritual, um caminho que transforma indivíduos, comunidades e sociedades. O Evangelho, proclamado na liturgia, é convite contínuo à conversão do coração, à vivência da misericórdia, à justiça restaurativa e à solidariedade com os marginalizados.

Assim, Mateus 5,43-48 não é conselho opcional, mas revelação do coração do Pai. É convite à conversão profunda, pessoal e comunitária. É chamado à maturidade espiritual e à responsabilidade histórica. É anúncio de que a última palavra não é o ódio, mas o amor que tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, como proclama 1Coríntios 13,7. E é certeza de que, permanecendo no amor, permanecemos em Deus, como assegura 1João 4,16.

Oração 

Senhor, ensina-nos a amar como Tu amas. Livra-nos da armadilha da indiferença e do ódio travestido de justiça. Que possamos viver o Evangelho com coragem profética, mesmo quando isso nos custar conforto, prestígio ou segurança. Que sejamos luz, sal e testemunho do Teu Reino, atuando na transformação do mundo pelo amor incondicional. Amém.

DNonato - Teólogo do cotidiano


sábado, 14 de junho de 2025

Um outro olhar sobre João 16,12-15 - Domingo da Santíssima Trindade


Os textos proclamados no Domingo da Santíssima Trindade nos convidam a contemplar o mistério de um Deus que é comunhão viva de amor. Neste domingo, a liturgia nos oferece Provérbios 8,22-31, o Salmo 8,4-5.6-7.8-9 (com o refrão do versículo 2a), Romanos 5,1-5 e o Evangelho segundo João 16,12-15 — este último também proclamado na quarta-feira da sexta semana da Páscoa em 2025 no dia 27 de maio em  no domingo  da Santíssima Trindade em 2022,  mas hoje, à luz da solenidade trinitária, somos chamados a voltar a ele com um novo olhar, mais atento à revelação progressiva de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo. O texto de João nos oferece não uma explicação racional da Trindade, mas uma porta de entrada existencial, espiritual e profética para vivê-la. Neste espírito, queremos aprofundar esse Evangelho com as lentes da hermenêutica bíblica, da exegese, da teologia, da antropologia, da sociologia, da patrística e da realidade contemporânea, reconhecendo os apelos e denúncias que ele nos propõe hoje.

Jesus diz aos seus discípulos: “Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16,12-13). Esse versículo revela um Deus que respeita os tempos da escuta e da maturação. A verdade divina não é jogada sobre nós como imposição, mas nos é confiada por meio de um processo de amor pedagógico. O próprio Jesus, o Logos encarnado, não diz tudo de uma vez, porque a verdade plena não é só conteúdo, mas relação, processo, caminho. Como nos lembra São Gregório de Nazianzo, "é melhor tropeçar em mistério do que ser arrastado por presunção." A verdade é o próprio Deus, e Deus é Amor, e esse amor se revela no tempo, pela escuta e pela experiência vivida. A revelação trinitária não acontece por decretos, mas pela convivência com o Deus que é comunhão eterna.

O Espírito da Verdade é apresentado não como ideologia, mas como sopro livre (Jo 3,8), como presença que “anuncia” o que vem do Filho e, portanto, do Pai. A Trindade é relação que comunica. O Espírito não fala de si mesmo, mas comunica aquilo que é do Filho, que por sua vez recebe do Pai — uma circulação de amor, doação e acolhimento. Não há competição, não há disputa de poder, mas uma perfeita reciprocidade. É o oposto da lógica que domina nossas estruturas eclesiásticas e políticas: estruturas hierárquicas, fechadas, patriarcais, que usam o nome de Deus como instrumento de exclusão. Onde a autoridade se impõe sem escuta, onde a liturgia se transforma em espetáculo, onde o poder é mais valorizado que o serviço, ali o Espírito é entristecido (Ef 4,30). O clericalismo, em todas as suas formas — seja no altar elevado, seja nas decisões solitárias, seja na supressão do sensus fidei do povo — é uma blasfêmia contra a Trindade, pois nega sua lógica circular e comunitária.

Santo Agostinho nos recorda que “Deus é amor, mas não um amor solitário. O Pai ama o Filho, o Filho é o Amado, e o Espírito é o Amor entre ambos” (De Trinitate, VIII). Assim, a Trindade não é um mistério abstrato, mas o fundamento de toda relação humana. Somos criados à imagem de um Deus que é relação. Isso nos desafia em tempos de individualismo extremo, de tribalismo ideológico, de muros e cercas erguidos entre povos, classes e religiões. A antropologia bíblica é relacional: o ser humano só é plenamente humano quando está em comunhão. Por isso, viver segundo o modelo trinitário é resistir ao egoísmo neoliberal, ao autoritarismo teocrático, à religião sem espírito e à espiritualidade sem carne. É viver o Reino como comunidade de irmãos e irmãs que escutam, partilham, cuidam e denunciam a injustiça.

A teologia trinitária, que floresceu com mais força nos concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381), nunca foi apenas uma discussão sobre as essências divinas, mas uma afirmação da comunhão como identidade de Deus. Este ano celebramos os 1700 anos do Concílio de Niceia — o primeiro concílio ecumênico da Igreja —, marco fundamental da fé cristã, onde se professou que o Filho é “consubstancial ao Pai” (homoousios), refutando as heresias que negavam a divindade plena de Jesus. Niceia não apenas protegeu o mistério, mas indicou que Deus não é um tirano solitário, mas uma comunhão de igualdade, eternidade e unidade. A fé trinitária selada em Niceia ainda hoje nos convida a rever nossa vida pessoal e eclesial: será que nossas comunidades vivem a comunhão ou reproduzem desigualdades e exclusões? O Credo Niceno-Constantinopolitano afirma que o Espírito “procede do Pai” (e no Ocidente se acrescentou “e do Filho”), e é “Senhor que dá a vida”. Dar a vida é um verbo trinitário. Onde a Trindade é crida, a vida é promovida. Onde há dominação, opressão, morte e exploração em nome de Deus, o dogma trinitário está sendo traído. A idolatria do poder — seja dentro da Igreja, seja nos sistemas de governo — é o grande desafio de nossa fé trinitária hoje.

Na atualidade, o Espírito da Verdade continua sendo perseguido. Ele incomoda os donos da verdade, desinstala os que se acomodaram nas certezas. Hoje vemos o nome de Deus ser usado por grupos que se dizem cristãos, mas promovem discurso de ódio, armamento, excludência social e violência contra os pobres. A extrema direita, ao cooptar símbolos religiosos, está cometendo uma nova idolatria: a idolatria da pátria, da arma, da autoridade sem serviço. A cruz se torna símbolo de exclusão, e não de reconciliação. Essa perversão do nome de Deus precisa ser denunciada com coragem profética. A Trindade, quando celebrada com fidelidade, desmascara toda tentativa de utilizar Deus como instrumento de dominação. O Deus trinitário está do lado dos pobres, dos deslocados, dos migrantes, das mulheres silenciadas, das crianças esquecidas, dos povos ocupados e das vítimas da guerra.


É preciso dizer com clareza evangélica: o que está acontecendo na Faixa de Gaza é um escândalo. A justificativa religiosa para uma guerra de extermínio é blasfema. Não há direito de defesa que justifique a morte indiscriminada de civis, o bombardeio de hospitais, a fome deliberada de um povo confinado. O Deus da Trindade não está com os drones, mas com as mães que choram seus filhos. O mesmo vale para o ataque ao Irã: o ciclo de violência entre nações, legitimado por ideologias religiosas nacionalistas, é um escárnio à santidade de Deus. Como calar diante do sangue derramado por impérios que se travestem de escolhidos de Deus? Como aceitar que “cristãos” aplaudam essas guerras em nome de suposta “justiça divina”? O Espírito da Verdade é aquele que grita por paz, por justiça, por reconciliação entre os povos. A guerra não é vontade de Deus, mas consequência do pecado humano e da idolatria do poder.

O Concílio de Constantinopla I (381), ao reafirmar a divindade do Espírito Santo, declarou: “Com o Pai e o Filho, é adorado e glorificado; ele falou pelos profetas.” Hoje, Ele continua falando, mas muitos se recusam a escutá-lo. Preferem a rigidez doutrinária ao frescor da profecia. Preferem a obediência cega à comunhão ativa. Preferem uma igreja piramidal a uma igreja povo de Deus, como sonha o Vaticano II. A eclesiologia trinitária nos exige romper com a idolatria do poder clerical e abraçar o modelo sinodal, onde todos — leigos, mulheres, pobres, consagrados, ministros ordenados — têm voz e escuta. Como nos lembra o Papa Francisco, “o clericalismo é uma perversão do sacerdócio”, e acrescenta que “a sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja no terceiro milênio”.

A carta aos Romanos nos recorda que “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Não se trata de um sentimento genérico, mas de uma presença concreta que transforma. O amor trinitário é derramado em nós para gerar reconciliação, pacificação, resistência ao mal. Ele é a força que sustenta os que lutam por justiça, os que defendem a vida ameaçada, os que constroem pontes em vez de muros. Ele é o sopro que dá vida às comunidades que celebram, mas também àquelas que lutam. Como dizia São Basílio de Cesareia, “o Espírito Santo é luz, que ilumina os que estão nas trevas; é força, que sustenta os fracos; é comunhão, que une os dispersos”.

A Trindade, portanto, é muito mais que uma doutrina a ser ensinada: é uma verdade a ser vivida. É mística que se torna política. É amor que se torna denúncia. É fé que se torna prática. É Deus que, sendo comunhão, nos convida a comunhar com os pobres, com os feridos, com os oprimidos. Que este domingo da Trindade não seja apenas uma data litúrgica, mas um chamado a reorganizar nossa vida pessoal, eclesial e social segundo o modelo do Deus Uno e Trino: o Pai que cria com liberdade, o Filho que salva com compaixão e o Espírito que renova com coragem. Que sejamos, pela graça do batismo e pela força da escuta, sinais vivos dessa comunhão divina que resiste à lógica do mundo e anuncia a verdade libertadora do Evangelho.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 10 de junho de 2025

Um breve olhar sobte Mateus 10, 7-13

 

“Ide e proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar.” (Mt 10,7-8)

O texto de Mateus 10,7-13, que meditamos na Memória de São Barnabé, celebrada em 11 de junho, e que também retorna em outros momentos do Ano Litúrgico, como no Sábado da 10ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos núcleos mais profundos da espiritualidade missionária cristã. Jesus dirige aos discípulos uma ordem clara e urgente:

“Anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Dai de graça o que de graça recebestes.”

Não se trata apenas de uma recomendação para um grupo específico de discípulos do primeiro século, mas de um chamado permanente que atravessa os tempos e alcança toda a Igreja. Para compreender melhor a riqueza desse ensinamento, é importante olhar também para os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6, nos quais encontramos o mesmo envio missionário sob diferentes perspectivas. A Igreja, ao nos permitir revisitar esses textos em diversas ocasiões, recorda-nos que a missão não é um acontecimento isolado, mas uma dimensão constitutiva da vida cristã.

Observemos:

  • Em Marcos, Jesus envia os Doze dois a dois, conferindo-lhes autoridade sobre os espíritos impuros e ensinando-os a confiar radicalmente em Deus.
  • Em Lucas, a ênfase recai sobre o anúncio do Reino e o cuidado dos enfermos, mostrando que a evangelização não se reduz a palavras, mas se manifesta em gestos concretos de libertação, cura e restauração da dignidade humana.

Ao reunir os testemunhos de Mateus, Marcos e Lucas, a Igreja nos recorda que a missão permanece sempre atual. Jesus continua enviando seus discípulos para anunciar a proximidade do Reino em um mundo marcado por desigualdades, exclusões, individualismos e falsas seguranças. O verdadeiro operário da colheita é aquele que caminha com simplicidade, vive da confiança em Deus, promove a paz, cuida dos mais frágeis e testemunha, por palavras e ações, que o Reino dos Céus já começou a florescer entre nós. É importante recordar que, em Mateus, a expressão “Reino dos Céus” corresponde ao que Marcos e Lucas chamam de “Reino de Deus”. Trata-se de uma forma judaica reverente de evitar pronunciar diretamente o nome divino. Assim, quando Jesus anuncia a proximidade do Reino dos Céus, proclama a presença ativa e transformadora de Deus na história humana.

Em Mateus 10,7-13, observamos um envio missionário que espelha o total desprendimento dos discípulos em relação a tudo aquilo que as estruturas mundanas consideram indispensável. Este envio não é uma simples instrução sobre técnicas de pregação, mas uma orientação profundamente profética que questiona as lógicas de poder, acumulação e dominação. O Reino dos Céus que se aproxima não é uma promessa de evasão da realidade nem um acontecimento reservado para um futuro distante. É uma realidade que começa a se manifestar já no presente, onde a vida vence a morte, a misericórdia supera a exclusão e a esperança se impõe sobre o desespero.

Por isso, a missão transcende o mero anúncio verbal. Ela se concretiza em ações que restauram pessoas e comunidades. Em paralelo com Marcos 6,12-13, vemos que os discípulos não apenas pregavam a conversão, mas também expulsavam demônios e curavam enfermos, ungindo-os com óleo. Na linguagem bíblica, esses gestos representam mais do que milagres isolados. Revelam a ação libertadora de Deus contra todas as forças que escravizam o ser humano. Curar os doentes e expulsar os demônios significa confrontar tudo aquilo que produz sofrimento, exclusão, alienação e morte. O Reino anunciado por Jesus toca os corpos feridos, as consciências oprimidas e as relações sociais rompidas. A expressão “o Reino dos Céus está próximo” não significa apenas que algo está para acontecer. Em Mateus, a proximidade do Reino indica a presença ativa de Deus na história através da pessoa e da missão de Jesus. O Reino se torna visível quando os pobres recuperam sua dignidade, quando os marginalizados são acolhidos, quando a justiça floresce e quando a paz substitui a violência. Evangelizar, portanto, não consiste apenas em transmitir doutrinas, mas em tornar presente a ação transformadora de Deus no mundo.

O envio dos apóstolos também sublinha a dependência absoluta da providência divina. Jesus ordena que não levem ouro, prata ou cobre, nem acumulem recursos para garantir a própria segurança. Essa orientação possui uma dimensão espiritual profunda e, ao mesmo tempo, uma crítica contundente à lógica da autossuficiência e da acumulação. O discípulo é chamado a confiar em Deus e a reconhecer que sua missão não depende do poder econômico, do prestígio social ou da influência política.

Essa palavra adquire especial relevância em um contexto no qual a fé, por vezes, é reduzida a instrumento de ascensão econômica ou sucesso individual. A proposta de Jesus segue caminho oposto. O Reino de Deus não é mercadoria. Não pode ser comprado, vendido ou manipulado para benefício próprio.nA ordem “dai de graça o que de graça recebestes” denuncia toda tentativa de transformar a experiência religiosa em negócio, privilégio ou instrumento de poder. O Evangelho é dom antes de ser tarefa. Quem recebeu gratuitamente a misericórdia de Deus é chamado a compartilhá-la gratuitamente.

A confiança radical na providência divina encontra eco nas palavras de Jesus em Mateus 6,25-34, quando ele convida seus discípulos a não viverem dominados pela ansiedade em relação ao alimento, à roupa ou às necessidades materiais. O Pai conhece aquilo de que seus filhos precisam. Da mesma forma, Lucas 10,4 reforça essa lógica missionária ao ordenar: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Em ambos os textos, a mensagem é clara: a missão não nasce da segurança dos bens acumulados, mas da confiança naquele que conduz a história. 

A confiança na providência divina não conduz os discípulos ao isolamento nem à indiferença diante da realidade. Pelo contrário, abre-os ao encontro com as pessoas e com as comunidades que encontrarão pelo caminho. Por isso, Jesus ordena que, ao entrarem numa casa, ofereçam a sua paz. Essa saudação não constitui um simples gesto de cortesia ou um cumprimento convencional. Trata-se da comunicação de um dom que procede do próprio Deus e que exige acolhida. A paz anunciada pelos discípulos é a paz do Reino, uma paz que restaura relações, reconcilia pessoas e inaugura novas formas de convivência.

Quando Jesus afirma que, caso a casa seja digna, a paz repousará sobre ela, mas, se não for acolhida, retornará aos discípulos, revela que o Reino jamais se impõe pela força. Deus respeita a liberdade humana. A paz oferecida torna-se, assim, um sinal que interpela consciências e desafia cada pessoa a posicionar-se diante da Boa Nova. Essa compreensão encontra eco nas palavras de Jesus em João 14,27: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”. A paz cristã não é mera ausência de conflitos nem simples tranquilidade individual. É fruto da justiça, da reconciliação e da restauração da dignidade humana. Ela floresce onde existe abertura para ouvir a Palavra e acolher o Reino como dom de Deus.

Nesse sentido, a hospitalidade ultrapassa os limites de um costume cultural. Ela torna-se elemento fundamental da missão. A acolhida do mensageiro representa a acolhida da própria mensagem, enquanto a rejeição manifesta resistência ao projeto libertador de Deus. Ao longo da história bíblica, os profetas experimentaram essa realidade. Muitos foram perseguidos exatamente porque denunciaram sistemas de opressão e injustiça. As palavras de Jesus sobre Jerusalém em Mateus 23,37 recordam essa dramática resistência ao chamado divino.

Por essa razão, a evangelização autêntica não pode ser reduzida a um discurso espiritual desvinculado da realidade concreta. O anúncio do Reino possui implicações sociais, econômicas e humanas. A missão que nasce do Evangelho busca restaurar a vida onde ela foi ferida, devolver esperança aos desanimados, dignidade aos excluídos e voz aos silenciados. Contudo, o Evangelho une inseparavelmente:  a conversão pessoal e a transformação das estruturas injustas. Uma sem a outra torna-se incompleta. O Reino de Deus transforma corações e, por meio deles, transforma também as relações sociais.

Nessa perspectiva, diversos teólogos da América Latina, entre eles Gustavo Gutiérrez, insistiram que a missão cristã possui uma dimensão libertadora inseparável do compromisso com os pobres e com a justiça. Essa compreensão também nos leva a uma necessária crítica ao clericalismo e às formas de religião que se distanciam do Evangelho. Sempre que a fé é utilizada como instrumento de dominação, acumulação de privilégios ou manutenção de poderes, contradiz-se o caminho indicado por Jesus.

O envio dos discípulos sem ouro, prata ou recursos acumulados revela que a força da missão não reside no prestígio institucional, mas na fidelidade ao Reino. A Igreja existe para servir, não para dominar; para anunciar a Boa Nova, não para preservar privilégios. Essa crítica não é nova. O próprio Jesus denunciou com firmeza uma religiosidade reduzida a aparências externas, quando afirmou: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8-9). E retomando o profeta Oséias, declarou: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7).

A verdadeira espiritualidade não se limita a ritos ou discursos. Ela se expressa em práticas concretas de misericórdia, acolhimento, partilha e compromisso com a vida. É uma espiritualidade encarnada na história, capaz de reconhecer a presença de Deus nos pobres, nos sofredores e nos marginalizados..Hoje, o testemunho de São Barnabé torna-se particularmente significativo. Conhecido como “filho da consolação”, Barnabé destacou-se por sua capacidade de acolher, reconciliar e construir pontes. Foi ele quem acreditou em Paulo quando muitos ainda o viam com desconfiança.

Além disso, Atos 4,36-37 nos informa que Barnabé vendeu um campo que possuía e entregou o valor aos apóstolos para o serviço da comunidade. Sua vida torna-se um exemplo concreto do desprendimento, da confiança e da partilha que Jesus propõe em Mateus 10..Sua trajetória demonstra que a missão cristã não consiste em erguer muros, mas em criar comunhão; não em excluir, mas em integrar; não em buscar prestígio, mas em servir. Barnabé soube reconhecer a ação de Deus onde outros enxergavam apenas ameaça ou fracasso.

Mateus 10,7-13 nos convida, portanto, a uma fé profundamente encarnada e comprometida com a realidade. Não se trata apenas de alimentar a esperança de uma vida futura, mas de colaborar, já agora, com a transformação das condições que negam a dignidade humana e obscurecem os sinais do Reino..Que a nossa fé jamais se acomode diante da injustiça, nem se torne cúmplice da opressão, da indiferença ou da exclusão. Que seja uma fé viva e encarnada, capaz de curar feridas, acolher os rejeitados, defender os vulneráveis e anunciar a esperança em meio às dores da história.

Que saibamos reconhecer o rosto de Cristo nos pobres, nos marginalizados, nos enfermos, nos migrantes, nos esquecidos e em todos aqueles cuja dignidade é negada pelos mecanismos de poder deste mundo..O testemunho de São Barnabé, dos profetas de Israel, dos apóstolos, dos mártires da justiça e das vozes proféticas que atravessaram os séculos recorda-nos que o Evangelho não é uma ideologia religiosa nem um instrumento de privilégio, mas uma força transformadora que irrompe na história para gerar vida, reconciliação e libertação.

O Reino de Deus torna-se visível sempre que: 

  1.  A Misericórdia vence o egoísmo, 
  2. A Partilha supera a acumulação, 
  3. A Fraternidade derrota a exclusão, 
  4.  A Verdade desmascara a mentira 
  5. A  Vida triunfa sobre todas as formas de morte.

A missão confiada por Jesus continua atual e urgente. Cada cristão é chamado a ser sinal da presença amorosa de Deus no mundo, não apenas por palavras, mas por escolhas concretas de solidariedade, justiça e serviço. Anunciar o Reino é construir pontes onde existem muros, gerar esperança onde reina o desânimo, defender a dignidade onde prevalece a humilhação e testemunhar, com a própria vida, que outro mundo é possível quando Deus ocupa o centro da existência humana.

Que, a exemplo de São Barnabé e de tantos discípulos e apóstolos de ontem e de hoje, sejamos homens e mulheres capazes de encorajar, reconciliar e servir. Que caminhemos com simplicidade, confiando na providência divina e colocando nossos dons a serviço da vida. E que, ao anunciar gratuitamente o que gratuitamente recebemos, nos tornemos colaboradores da obra de Deus, para que seu Reino de justiça, paz, fraternidade e amor continue florescendo no coração da humanidade e nas realidades concretas da história.

DNonato — Teólogo do cotidiano, discípulo do Reino em construção

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Maria de Pentecostes ou Maria, Mãe da Igreja

 Após refletirmos sobre o Evangelho da memória de Nossa Senhora, Mãe da Igreja — com um breve olhar sobre João 19,25-34 — sentimos-nos profundamente motivados a continuar nossa meditação sobre os títulos marianos. Essa experiência espiritual nos conduziu, naturalmente, a outro título cheio de beleza e significado: Maria de Pentecostes. Não é por acaso que a Igreja celebra Maria como Mãe da Igreja justamente na segunda-feira após Pentecostes. Essa memória litúrgica, reafirmada pelo Papa Francisco, de saudosa memória, aponta para uma realidade existencial e eclesial profunda: a maternidade espiritual de Maria coincide com o nascimento da Igreja, quando ela, no coração da comunidade dos discípulos, permanece como mãe, discípula, intercessora e companheira de caminho.

Ela é Maria de Pentecostes, como cantou o bispo-poeta Dom Pedro Casaldáliga:

"Maria de Pentecostes, quando a Igreja ainda era pobre e livre como o vento do Espírito."

Esse verso revela uma verdade que resiste aos séculos: a liberdade do Espírito precede qualquer estrutura institucional. Antes de basílicas, tronos ou tratados dogmáticos, a Igreja era comunidade viva, tecida pela fé, pela partilha e pela esperança dos pequenos. E ali estava Maria, não no centro do poder, mas no centro da comunhão, numa Igreja que ainda não era poder temporal, mas mistério de vida em gestação.

O texto dos Atos dos Apóstolos testemunha que ela “perseverava na oração com os discípulos” (At 1,14). Maria, que no Evangelho de Lucas guardava todas as coisas no coração (Lc 2,19), agora guarda e gesta a comunidade, como outrora gestou o Filho. Na antropologia bíblica, o coração é o lugar do discernimento profundo, onde se escuta a voz de Deus e se toma posição. Assim também Maria, a mulher do discernimento e da entrega, torna-se símbolo de uma Igreja que escuta, que acolhe e que não se impõe, mas se oferece.

E, neste movimento, ecoa em Maria o cântico da revolução dos pobres:

> “Minha alma engrandece o Senhor,

e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47).

> "Maria de Pentecostes, quando o fogo do Espírito era lei da Igreja nova."

Na tradição profética de Israel, o fogo é sinal da presença divina — do Sinai ao profeta Elias, do altar ao Pentecostes (cf. Ex 3,2; 1Rs 18,38; At 2,3). Maria, envolvida por esse fogo, torna-se ícone de uma Igreja incendiada pelo Espírito, movida por um amor que não se acomoda nem se domestica.

No campo da sociologia da religião, podemos dizer que Maria representa uma contracultura eclesial: enquanto instituições religiosas tendem à conservação e ao poder, ela encarna a força da transformação silenciosa, do cuidado, da resistência dos pequenos. Ela é a mulher das margens, da Galileia, da casa pobre de Nazaré. Sua presença no nascimento da Igreja recorda que Deus escolhe sempre começar pelos de baixo, pelos desprezados, pelos que não contam.

Por isso, sua voz ainda canta:

“Derrubou do trono os poderosose exaltou os humildes; encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,52-53).

É por isso que a maternidade de Maria não é simbólica apenas — é fundante. Como nos ensina São Paulo, “a Jerusalém do alto é livre, e ela é nossa mãe” (Gl 4,26). A maternidade espiritual de Maria, vivida entre lágrimas e esperanças, configura a Igreja verdadeira: livre, materna, pobre e missionária.

 "Maria de Pentecostes, quando os doze só exibiam o poder do Testemunho."

Num tempo em que a Igreja ainda não acumulava títulos nem palácios, o único poder reconhecido era o do testemunho (cf. At 4,33). Esse poder é o da vida entregue, da palavra encarnada, da coragem de anunciar o Evangelho mesmo em meio à perseguição e à exclusão. Maria é Mãe dessa Igreja do Testemunho: não da Igreja da pompa, mas da Igreja do lava-pés (cf. Jo 13,14), da solidariedade, da fraternidade concreta.

O Papa Francisco, cuja voz profética ecoará por muito tempo, lembrou-nos que Maria é mais importante que os apóstolos, porque é imagem da Igreja pura e pobre, não clericalizada, não dominadora, mas fermento humilde no meio da massa humana. Sua maternidade não se reduz a um título devocional: é critério de fidelidade evangélica. Ela é Mãe da Igreja quando esta renuncia aos ídolos da segurança, do dinheiro, da dominação doutrinária, e volta a ser boca do Ressuscitado, como disse Casaldáliga: "Maria de Pentecostes, quando toda Igreja era boca do Ressuscitado."

Na sua boca, o Magnificat não é apenas canto de louvor, mas grito de justiça: derruba tronos, exalta humildes, sacia famintos e dispersa soberbos (cf. Lc 1,46-55). É um programa revolucionário que desmascara os poderes eclesiais e civis que negam a dignidade dos pobres.

“Ele mostrou a força de seu braço e dispersou os que têm planos orgulhosos no coração” (Lc 1,51).

Na história da Igreja, muitas vezes Maria foi usada como símbolo de docilidade ou submissão. No entanto, na tradição bíblica e dos pobres, ela é a mulher forte, peregrina da fé, mãe da resistência, como a “mulher vestida de sol” do Apocalipse (Ap 12,1), que enfrenta o dragão do poder e da mentira. Sua maternidade espiritual nos remete àquela Igreja perseguida, escondida, mas viva — corpo do Ressuscitado no mundo.

Hoje, diante de um mundo dilacerado por guerras, desigualdades e desilusões, e de uma Igreja tantas vezes tentada pelo clericalismo, pela autodefesa institucional e pela indiferença diante da dor humana, Maria de Pentecostes nos chama à conversão. Ela nos pede que sejamos Igreja em saída, como sonhava Francisco, Igreja samaritana, Igreja profética, Igreja do povo crucificado.

Maria Mãe da Igreja é Maria de Pentecostes. Dois rostos do mesmo mistério: a mulher que gera Cristo e a mulher que acompanha a Igreja no parto da nova humanidade. Ela é o útero da esperança, o ventre da fé, a ternura do Espírito, a coragem da profecia.

Que ela nos ensine a ser Igreja do cenáculo e das ruas, da oração e da missão, do silêncio que escuta e da voz que denuncia.

Prof. DNonato – Teólogo do cotidiano.

domingo, 1 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 16,29-33


No  coração do discurso de despedida do Evangelho segundo Evangelho de João, a perícope de João 16,29-33 ocupa um lugar decisivo dentro da tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana, este texto é proclamado na segunda-feira da sétima semana da Páscoa, imediatamente antes da grande oração sacerdotal de Jesus narrada no capítulo 17 de João, dentro da caminhada espiritual que conduz a comunidade ao Pentecostes. A leitura surge exatamente quando a Igreja contempla a tensão entre ausência e promessa, entre cruz e ressurreição, entre medo humano e fidelidade divina. Nas tradições orientais históricas, especialmente na Igreja Ortodoxa, o texto é relido dentro da espiritualidade pascal que insiste na vitória do Ressuscitado sobre os poderes da morte e do caos. Em comunidades anglicanas, luteranas e reformadas históricas, João 16 aparece frequentemente ligado às leituras sobre perseguição, perseverança e esperança escatológica. A passagem, portanto, não é apenas memória da última ceia, mas anúncio permanente para uma Igreja chamada a atravessar a história sem abandonar a esperança. Precisamos   lembrar  sempre  a mensagem  de Jesus: 
“No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo.” (Jo 16, 33)

O contexto imediato da narrativa revela uma atmosfera de despedida carregada de densidade espiritual. Desde João 13, após o lava-pés, Jesus conduz os discípulos a uma compreensão nova do discipulado. O Mestre que “sabia que o Pai tudo colocara em suas mãos” (Jo 13,3) ajoelha-se diante dos discípulos como servo, rompendo radicalmente com toda lógica de poder religioso ou político. O Reino anunciado por Jesus não se estrutura pela dominação, mas pela kenosis, pelo esvaziamento de si, conforme canta o antigo hino cristológico de Filipenses 2,6-11: “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo”. A pedagogia joanina conduz lentamente os discípulos a compreenderem que seguir Jesus significa participar desse movimento de entrega, abandono confiante e amor radical. Quando os discípulos afirmam “Agora falas claramente e não usas mais figuras” (Jo 16,29), demonstram acreditar que finalmente compreenderam o Mestre. Contudo, a resposta de Jesus possui força profundamente profética: “Credes agora? Eis que vem a hora em que vos dispersareis” (Jo 16,31-32). A pergunta de Cristo funciona quase como um espelho espiritual, revelando a fragilidade escondida por trás do entusiasmo religioso. Os discípulos creem sinceramente, mas ainda não passaram pela experiência da noite escura, ainda não atravessaram o escândalo da cruz anunciado em João 12,24: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica sozinho; mas se morre, produz muito fruto”.

Essa tensão percorre toda a Escritura. Em Êxodo 14, o povo afirma confiar em Deus ao sair do Egito, mas diante do Mar Vermelho entra em desespero. Em 1Reis 19, Elias, o grande profeta do Carmelo, foge aterrorizado para o deserto após ameaças de Jezabel. Em Jeremias 20, o profeta chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento diante da perseguição sofrida por causa da Palavra. Em Jonas 4, o profeta não suporta a misericórdia divina para com Nínive. A Bíblia inteira desmonta idealizações superficiais da fé, porque a experiência de Deus nunca elimina automaticamente a fragilidade humana; frequentemente a expõe, purifica e transforma. A antropologia bíblica presente em João 16 revela precisamente essa condição humana marcada por medo, dispersão e ambiguidade. Pedro promete fidelidade absoluta em João 13,37: “Darei minha vida por ti”. Poucas horas depois, negará Jesus diante de servos e soldados (Jo 18,15-27). A Escritura não esconde as fraquezas dos discípulos porque o Evangelho não é propaganda religiosa, mas revelação da graça agindo dentro da precariedade humana. Paulo compreenderá profundamente isso quando escreve em 2Coríntios 12,9: “Minha graça te basta, porque é na fraqueza que a força se manifesta plenamente”. No mundo antigo mediterrâneo, honra e vergonha eram categorias sociais fundamentais. Ser abandonado pelos discípulos às vésperas da prisão representava humilhação extrema. Contudo, Jesus não constrói sua identidade sobre aprovação social. “Não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Mesmo cercado pela solidão humana, Cristo permanece em comunhão com o Pai, recordando o Salmo 27,10: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá”.

A palavra “mundo” em João 16,33 possui enorme densidade teológica. O termo grego kosmos aparece no quarto Evangelho tanto como realidade amada por Deus quanto como sistema que rejeita a luz. “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16), mas também “o mundo os odiou porque eles não são do mundo” (Jo 17,14). O “mundo” que Cristo vence não é a criação em si, mas a ordem histórica organizada contra o projeto do Reino, sustentada por estruturas de violência, mentira, exploração e idolatria denunciadas pelos profetas. Jesus vive sob o domínio do Império Romano, sistema sustentado por militarismo, tributação opressiva e concentração de poder. A chamada pax romana era garantida pela espada, e as crucificações públicas funcionavam como instrumentos de terror político. Nesse contexto, anunciar um Reino baseado no amor aos inimigos (Mt 5,44), no perdão (Lc 23,34) e na misericórdia representava profunda subversão histórica. Quando Jesus diz “Eu venci o mundo”, não fala como César ou qualquer conquistador imperial. Sua vitória acontece precisamente na cruz, lugar máximo da humilhação social..A cruz, para judeus e romanos, era escândalo absoluto. Deuteronômio 21,23 afirmava: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro”. Para Roma, crucificados eram inimigos do império. Contudo, Deus transforma exatamente o instrumento de vergonha em sinal de redenção. Aqui se cumpre a lógica paradoxal já anunciada em Isaías 53, onde o Servo Sofredor carrega as dores do povo. O triunfo de Cristo não se constrói sobre cadáveres alheios, mas sobre a própria entrega. Isso desmonta radicalmente toda teologia do domínio, toda espiritualidade de conquista e toda ideologia religiosa que busca legitimar poder através da violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus afirma claramente: “Os chefes das nações as dominam... entre vós não deverá ser assim”. O Evangelho estabelece oposição direta entre a lógica imperial e a lógica do Reino. Contudo, ao longo da história, setores cristãos frequentemente traíram essa palavra, aliando-se a projetos de dominação política, colonialismo e exclusão social. Hoje, em muitos contextos, símbolos cristãos são instrumentalizados por movimentos autoritários e extremistas que promovem intolerância, armamentismo, nacionalismo excludente e ódio ideológico. O nome de Jesus é utilizado para justificar violência contra pobres, migrantes, indígenas, negros, mulheres e minorias sociais. Tal deformação representa profunda negação do Evangelho.

Em Mateus 25,31-46, Cristo se identifica explicitamente com os famintos, presos, estrangeiros e marginalizados. O critério do juízo final não é identidade religiosa formal, mas prática concreta da misericórdia. “Tive fome e me destes de comer.” O Jesus dos Evangelhos não legitima projetos de supremacia religiosa ou cultural. Ele se aproxima dos leprosos (Mc 1,40-45), conversa com samaritanos (Jo 4), acolhe pecadores públicos (Lc 19,1-10), defende mulheres marginalizadas (Jo 8,1-11) e denuncia hipocrisias religiosas (Mt 23). A sociologia da religião ajuda a compreender como instituições religiosas podem tornar-se instrumentos de controle social quando se afastam da lógica profética. Em Amós 5,21-24, Deus rejeita cultos vazios desconectados da justiça: “Quero ver o direito brotar como fonte”. Isaías 58 denuncia jejuns que ignoram a opressão dos pobres. Miqueias 6,8 resume a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus”. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética. Sua crítica ao Templo em Marcos 11,15-17 não é rejeição da espiritualidade, mas denúncia de uma religião transformada em mercado e mecanismo de exploração.

Essa crítica permanece profundamente atual diante da mercantilização contemporânea da fé. A teologia da prosperidade transforma Deus em garantidor de sucesso financeiro. O sofrimento é interpretado como fracasso espiritual. A pobreza deixa de ser consequência de estruturas injustas e passa a ser apresentada como falta de fé. Tal lógica contradiz frontalmente o Evangelho. Em Lucas 6,20, Jesus proclama: “Felizes vós, os pobres”. Em Tiago 2,5, lemos: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé?”. O Novo Testamento inteiro insiste na centralidade dos pequenos e vulneráveis. A tradição da Igreja retomou continuamente essa dimensão social do Evangelho. O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. A Lumen Gentium recorda que a Igreja é povo peregrino, não estrutura de poder autossuficiente. A Evangelii Gaudium denuncia “uma economia que mata”. Em Laudato Si', o Papa Francisco relaciona crise ambiental e injustiça social, mostrando como os pobres são os primeiros a sofrer as consequências da destruição da criação. Os documentos do CELAM aprofundam essa consciência histórica. Medellín denunciou estruturas de pecado presentes na América Latina. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida insistiu numa Igreja missionária em saída. A CNBB frequentemente recorda que evangelizar implica compromisso concreto com dignidade humana, justiça social e defesa da vida. João 16,33 ressoa profundamente nesse horizonte: “No mundo tereis tribulações”. Jesus não promete imunidade ao sofrimento; prepara os discípulos para perseguições. Em João 15,20 já advertira: “Se perseguiram a mim, também perseguirão a vós”. Paulo e Barnabé repetirão em Atos 14,22: “É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus”. O discipulado cristão jamais foi caminho de triunfalismo confortável. A cruz permanece centro incontornável da fé.
A psicologia contemporânea reconhece que sociedades marcadas por insegurança e medo frequentemente buscam líderes autoritários e discursos religiosos simplificadores. O fundamentalismo oferece respostas fáceis para realidades complexas. Contudo, o Evangelho conduz exatamente no sentido contrário. Jesus não manipula multidões pelo medo. Ele convida à liberdade interior. Em João 8,32 afirma: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A verdade do Evangelho nunca serve à opressão; sempre conduz à dignidade humana. Também o clericalismo constitui profunda deformação do discipulado. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que quem quiser ser o primeiro deve tornar-se servo de todos. Contudo, ao longo da história, estruturas eclesiais frequentemente reproduziram modelos autoritários. O Papa Francisco insiste repetidamente que o clericalismo infantiliza o povo de Deus e transforma ministério em privilégio. O lava-pés de João 13 continua sendo correção permanente contra qualquer espiritualidade de poder.

A geografia simbólica do Evangelho também ilumina a reflexão. Jerusalém representa simultaneamente centro da fé e lugar da rejeição profética. Jesus sobe conscientemente para Jerusalém sabendo o que o espera. Em Lucas 13,34 lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas”. A cidade santa torna-se símbolo ambíguo da humanidade capaz de acolher e rejeitar Deus. Essa ambiguidade continua presente em toda experiência religiosa contemporânea. Igrejas podem tornar-se espaços de libertação ou mecanismos de opressão. A figura de Maria aos pés da cruz em João 19,25 possui enorme força espiritual. Enquanto muitos fogem, ela permanece. Maria encarna a fidelidade silenciosa que resiste mesmo sem compreender plenamente o mistério. Sua presença recorda as mulheres discípulas mencionadas em Marcos 15,40-41, que permanecem próximas de Jesus quando quase todos os outros desapareceram. A espiritualidade cristã autêntica nasce dessa permanência amorosa junto aos crucificados da história.

Hoje, os crucificados continuam presentes. Crianças famintas, povos indígenas expulsos de suas terras, refugiados atravessando fronteiras, jovens negros mortos nas periferias, mulheres vítimas de violência, idosos abandonados, trabalhadores explorados, vítimas do tráfico humano e da devastação ambiental. Em Mateus 25, Cristo continua dizendo: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes”. Não existe espiritualidade pascal sem solidariedade histórica. Paulo escreve em Romanos 8,35-39: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição?”. A resposta é profundamente joanina: nada pode destruir a comunhão inaugurada pelo Ressuscitado. Contudo, essa esperança não produz alienação. Pelo contrário, gera compromisso radical com a transformação da realidade. Em Tiago 2,17 lemos: “A fé sem obras é morta”. O Evangelho jamais permite separar espiritualidade de justiça. A vitória de Cristo sobre o mundo não significa fuga da história, mas transfiguração da história. Em Apocalipse 21, João contempla “um novo céu e uma nova terra”. A esperança cristã aponta para plenitude futura, mas já começa agora em cada gesto de misericórdia, justiça e reconciliação. Cada vez que alguém escolhe o amor em vez do ódio, a partilha em vez da acumulação, o perdão em vez da vingança, a vida em vez da violência, o Reino se manifesta silenciosamente. Por isso, João 16,29-33 continua sendo palavra profundamente necessária para nosso tempo. Vivemos uma época marcada por crises múltiplas: colapso ambiental, desigualdade extrema, polarização política, manipulação digital, fundamentalismos religiosos e perda de sentido existencial. Muitos procuram salvadores autoritários, messianismos políticos ou espiritualidades narcísicas incapazes de enfrentar a dor do mundo. Contudo, Cristo continua dizendo: “Tende coragem! Eu venci o mundo”. Essa coragem não nasce da arrogância dos vencedores, mas da esperança dos que permanecem fiéis em meio à escuridão. É a coragem de Maria junto à cruz, a coragem de Pedro restaurado após negar o Mestre, a coragem de Paulo preso cantando hinos na prisão (At 16,25), a coragem dos mártires antigos e contemporâneos, a coragem dos pobres que continuam lutando por dignidade, das mães que enterram filhos vítimas da violência estrutural, de quem resiste ao ódio sem abandonar a ternura. No fim, a pergunta de Jesus permanece ecoando sobre toda a Igreja e sobre cada discípulo: “Credes agora?”. Não como condenação, mas como convite à profundidade. A fé verdadeira nasce quando desaparecem as ilusões triunfalistas e resta apenas a confiança perseverante naquele que atravessou a morte sem abandonar o amor. O Ressuscitado continua carregando as marcas dos cravos porque a glória cristã nunca apaga a memória dos crucificados.

Que não sejamos uma comunidade fascinada pelo poder, mas apaixonada pelo Reino. Que não troquemos o Evangelho pela idolatria política, econômica ou ideológica. Que não transformemos Jesus em bandeira de guerra cultural. Que sejamos capazes de permanecer junto aos feridos da história como o próprio Cristo permaneceu conosco. Porque somente quem atravessa a cruz com o Senhor compreenderá verdadeiramente o sentido de sua vitória. E então perceberemos que vencer o mundo não significa dominar pessoas, acumular riquezas ou conquistar influência, mas permanecer fiel ao amor até o fim. Como escreveu Paulo em Gálatas 2,20: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. A verdadeira vitória cristã acontece quando o amor do Crucificado começa a transformar nossas relações, nossas comunidades e nossa própria história.

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DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.