No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 19,25-34 é proclamado na memória da Bem Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, celebrada na segunda feira após a Solenidade de Pentecostes. Esta memória foi instituída por Papa Francisco em 2018 e possui profundo significado teológico e eclesial, pois a Igreja que acaba de celebrar o dom do Espírito volta o olhar para aquela que permaneceu no cenáculo com os discípulos “unidos em oração” (At 1,14), reconhecendo nela não apenas a Mãe do Senhor, mas também figura, imagem e expressão materna da própria Igreja. O Evangelho proclamado nesta memória situa Maria aos pés da cruz, no momento culminante da obra redentora, e apresenta sua maternidade ampliada ao discípulo amado e, nele, a toda comunidade cristã. Embora esta formulação litúrgica seja própria do rito romano, o mistério de Maria junto ao Crucificado atravessa toda a tradição cristã histórica. As Igrejas orientais contemplam a Theotokos junto à cruz durante a Semana Santa e a veneram como ícone da humanidade reconciliada e da Igreja fiel
É preciso lembrar que a memória de Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja lê a cena da cruz não apenas como morte de Jesus, mas como nascimento da c8omunidade dos discípulos. No conjunto geral , João transforma a crucifixão em uma teologia da nova criação: Maria torna-se mãe dos discípulos, Jesus é o novo Cordeiro, e do seu lado aberto nasce a Igreja pelo sangue e pela água, vale a pena olha os detalhes
- A cruz como novo “Éden” e novo início: João coloca tudo aos pés da cruz. O Calvário torna-se lugar de nova criação. Assim como em Gênesis surge a humanidade, da cruz nasce a nova humanidade reconciliada.
- Maria “de pé” (Jo 19,25): O verbo é importante: Maria não aparece desfalecida, mas em pé (hestēkeisan, no grego). É imagem de fidelidade, resistência e permanência junto à dor.
- “Mulher, este é teu filho”: Jesus não chama Maria de “mãe”, mas de “mulher” (gynai), como em Jo 2 nas bodas de Caná. Há paralelo simbólico Caaná → início dos sinais. Vesus a cruz → consumação da missão: Maria aparece no começo e no fim do ministério joanino.
- O discípulo amado: O “discípulo que Jesus amava” é visto por muitos exegetas como símbolo do discípulo ideal, da Igreja e da comunidade fiel. Assim, Maria torna-se mãe dos discípulos.
- “Daquela hora em diante” A “hora” em João é categoria teológica. Não é apenas relógio: é o momento da glorificação pela cruz.
- “Tenho sede” (Jo 19,28): Não é só sede física. Em João há forte simbolismo: Jesus que ofereceu “água viva” (Jo 4) agora experimenta a sede humana até o extremo.
- O vinagre: O vinagre remete ao Salmo 69,21: “na minha sede me deram vinagre”. João mostra cumprimento das Escrituras, mas aqui não gesto de caridade do guarda romano, mas outra humilhação foi lhe oferecido uma mistura usada para limpeza no banheiro de campanha dos soldados
- “Tudo está consumado” (Tetélestai): No grego tetélestai significa: completado, levado à plenitude. Não é derrota; é missão cumprida.
- “Entregou o espírito”: João usa expressão ambígua: pode significar morrer, mas também entregar o Espírito. Há antecipação de Pentecostes.
- Nenhum osso quebrado (Jo 19,33): Recorda o cordeiro pascal de Êxodo 12,46, cujos ossos não podiam ser quebrados. Jesus aparece como o novo Cordeiro.
- . O lado aberto pela lança: O lado transpassado tornou-se símbolo clássico da misericórdia e da abertura total de Cristo à humanidade.
- . Sangue e água (Jo 19,34): Um dos símbolos mais ricos do texto: Sangue → Eucaristia, vida entregue. Água → Batismo, Espírito, purificação. Os Padres da Igreja viram aqui o nascimento sacramental da Igreja.
- Paralelo com Eva: Alguns Padres, como Santo Agostinho e Santo Ambrósio, comparavam: Eva nasce do lado de Adão (Gn 2). A Igreja nasce do lado aberto de Cristo, o “novo Adão”.
- . Maria + sangue + água = ícone da Igreja nascente: Por isso esta leitura é escolhida para “Maria, Mãe da Igreja”: Maria está presente no momento em que a comunidade nasce do lado aberto de Cristo.
- As quatro mulheres junto à cruz: João destaca mulheres permanecendo quando muitos fugiram: presença, fidelidade e testemunho.
O texto joanino não pode ser compreendido isoladamente. O Calvário não surge repentinamente. Ele é o ápice de uma longa caminhada que começa desde o princípio das Escrituras. João abre seu Evangelho retomando deliberadamente Gênesis: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). O eco de Gênesis 1,1 não é acidental. O evangelista anuncia que em Cristo inicia-se uma nova criação. Quando afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), utiliza o verbo eskénosen, evocando a tenda da presença divina no deserto (Ex 25,8; Ex 40,34-35). O Deus que caminhava com Israel agora arma sua tenda na fragilidade humana. Toda a narrativa joanina conduz progressivamente para a “hora”. Maria aparece apenas duas vezes no Evangelho de João e ambas são decisivas. Em Caná da Galileia (Jo 2,1-11), ela está no início dos sinais. No Calvário (Jo 19,25-27), está no momento da consumação. Entre esses dois episódios desenrola-se todo o caminho do discipulado. Em Caná, Maria diz: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). No Calvário ela silencia. Em Caná, a hora ainda não chegou (Jo 2,4). Na cruz, a hora se cumpre (Jo 12,23; Jo 13,1; Jo 17,1). A mulher que testemunhou o primeiro sinal permanece agora diante da entrega total. O Evangelho cria uma moldura teológica: Maria acompanha o início e a consumação da nova criação.
O Calvário deve ser lido à luz de toda a Escritura. Quando Jesus chama Maria de “mulher” em Caná (Jo 2,4) e novamente na cruz (Jo 19,26), João estabelece uma ponte com Gênesis. O termo remete à mulher de Gênesis 3,15, onde Deus anuncia inimizade entre a serpente e sua descendência. A tradição cristã verá aí a figura da nova Eva. Se Eva esteve associada ao drama da queda, Maria aparece vinculada à redenção. A imagem ganha profundidade quando recordamos Gênesis 2,21-23. Eva nasce do lado de Adão. Em João 19,34, do lado aberto de Cristo brotam sangue e água. A patrística verá neste gesto o nascimento da Igreja. Santo Agostinho afirmará que a Igreja nasce do lado aberto do novo Adão adormecido na cruz.
O contexto histórico amplia ainda mais esta leitura. A Palestina do primeiro século estava sob domínio romano. O império organizava a sociedade por meio da tributação, militarização e concentração de poder. A crucificação era instrumento de intimidação política. O Gólgota localizava-se fora das muralhas de Jerusalém (Hb 13,12), próximo de vias públicas, pois as execuções eram realizadas em locais visíveis para funcionarem como advertência pública. A cruz era linguagem imperial. Roma transformava corpos em mensagem de poder e medo. O Evangelho subverte radicalmente esta lógica: o lugar da humilhação torna-se lugar da revelação; o espaço da morte converte-se em espaço de vida; aquilo que o império utilizava para intimidar transforma-se no sinal supremo do amor.
Jesus morre dentro desta realidade histórica concreta. Sua morte não é abstração espiritual nem acontecimento desligado da vida social. Ela acontece no interior de estruturas políticas, econômicas e religiosas marcadas por desigualdade, exclusão e violência. O Reino anunciado por Jesus confrontava tais estruturas. Quando proclama em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4,18), retomando Isaías 61,1-2, assume explicitamente a tradição profética. Esta tradição atravessa toda a Escritura. Deus escuta o clamor dos escravizados (Ex 3,7). Isaías denuncia jejuns sem justiça (Is 58,6-7). Amós condena liturgias divorciadas da vida (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina no compromisso com a justiça e a misericórdia (Mq 6,8). Jeremias critica a falsa segurança religiosa baseada apenas no templo (Jr 7,4-11). A crítica profética nunca foi contra a fé, mas contra sua manipulação.
João escreve dentro desta tradição e, ao chegar ao Calvário, apresenta Maria, Maria de Cléofas, Maria Madalena e o discípulo amado junto à cruz (Jo 19,25). Aqui aparece uma diferença importante em relação aos sinóticos. Marcos mostra as mulheres observando à distância (Mc 15,40). Mateus conserva a mesma tradição (Mt 27,55-56). Lucas amplia a presença feminina e inclui o lamento das mulheres de Jerusalém (Lc 23,27-31). João aproxima as mulheres do Crucificado. O movimento é profundamente teológico. Aquilo que estava distante torna-se proximidade. A comunidade joanina aproxima-se do sofrimento.
Maria permanece de pé. O verbo grego hestêkê indica firmeza, perseverança e resistência. Lucas já havia preparado esta cena quando Simeão profetiza: “Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,35). O sofrimento não surge inesperadamente. Ele faz parte do caminho. Entretanto, Maria não abandona o Filho. Ela permanece. A antropologia do Mediterrâneo antigo ajuda a compreender esta cena. As mulheres possuíam papel central nos rituais de luto, preservando a memória dos mortos e guardando seus nomes. Maria insere-se nesta tradição, mas a transcende. Ela não apenas lamenta; testemunha. Não apenas chora; permanece. Seu luto torna-se resistência e esperança.
Neste ponto emerge uma das imagens mais profundas da revelação bíblica: a Igreja possui rosto feminino. Não se trata de uma categoria biológica, mas teológica e relacional. Os profetas descrevem Israel como esposa amada (Os 2,16-22), mulher restaurada após o exílio (Is 54,1-8) e Sião que volta a gerar filhos (Is 66,7-13). Jerusalém aparece como mãe (Sl 87,5; Is 49,14-18). Outras figuras femininas ampliam esta simbologia. Rebeca atravessa o deserto rumo à aliança (Gn 24). Rute permanece fiel (Rt 1,16). Ana canta a reversão da história (1Sm 2,1-10). Ester arrisca a vida pelo povo (Est 4,16). A mulher forte de Provérbios sustenta a vida e protege os frágeis (Pr 31,10-31). Todas estas imagens convergem na Igreja.
Paulo apresenta a Igreja como esposa amada por Cristo (Ef 5,25-32). O Apocalipse contempla a mulher vestida de sol (Ap 12,1-6), frequentemente compreendida pela tradição tanto como Maria quanto como a Igreja peregrina e perseguida. O livro termina apresentando a Jerusalém celeste descendo do céu “como esposa adornada para seu esposo” (Ap 21,2). João 19 participa desta tradição. Aos pés da cruz nasce uma Igreja materna. Ela não nasce do poder, mas da ferida; não nasce do império, mas da entrega; não nasce do trono, mas do lado aberto. Por isso a tradição a chamará Mater Ecclesia. Sua missão mais profunda não é dominar, mas gerar; não é impor, mas acolher; não é reproduzir estruturas imperiais, mas nutrir a vida. Quando a Igreja esquece esta dimensão e assume lógica de autorreferência, clericalismo e poder, corre o risco de perder seu rosto evangélico. Quando recupera sua identidade bíblica, volta a ser tenda do encontro (Ex 33,7), esposa fiel (Ap 19,7), cidade refúgio (Sl 46,5) e mãe dos viventes da nova criação.
O centro da narrativa chega quando Jesus diz: “Mulher, eis teu filho”, e depois ao discípulo: “Eis tua mãe” (Jo 19,26-27). O gesto ultrapassa o cuidado familiar. A tradição patrística, o magistério e a teologia reconhecem nele um gesto eclesiológico. O discípulo amado representa todos os discípulos. A maternidade de Maria expande-se para a comunidade. Esta maternidade já estava anunciada no Magnificat (Lc 1,46-55), que dialoga diretamente com o cântico de Ana (1Sm 2,1-10). Maria canta um Deus que derruba poderosos de seus tronos (Lc 1,52), eleva humildes (Lc 1,52) e sacia famintos (Lc 1,53). O Magnificat não é espiritualismo intimista. É anúncio profético. Maria não pode ser reduzida a devoção alienante. Ela é mulher do Êxodo, mulher dos profetas, mulher do Reino.
A cruz revela esta solidariedade radical de Deus com as vítimas da história. Isaías descreve o Servo sofredor como rejeitado e desprezado (Is 53,3). A Carta aos Hebreus recorda que Cristo sofre fora da cidade (Hb 13,12-13), junto dos excluídos. Quando o soldado abre o lado de Jesus (Jo 19,34), João reúne toda a memória bíblica. A água recorda o rio do Éden (Gn 2,10), a água da rocha no deserto (Ex 17,6), o rio do templo de Ezequiel (Ez 47,1-12) e a fonte aberta anunciada por Zacarias (Zc 13,1). O sangue remete à aliança do Sinai (Ex 24,8), ao cordeiro pascal (Ex 12,13) e à nova aliança anunciada por Jeremias (Jr 31,31-34). No próprio Evangelho de João, a água aparece no novo nascimento (Jo 3,5), na samaritana (Jo 4,14) e na festa das tendas (Jo 7,37-39). O lado aberto torna-se fonte sacramental. A Igreja nasce do sangue e da água. João reforça esta leitura ao afirmar que nenhum osso foi quebrado (Jo 19,36), evocando o cordeiro pascal (Ex 12,46; Nm 9,12). Depois cita Zacarias: “Olharão para aquele que transpassaram” (Zc 12,10). Toda a Escritura converge para o Crucificado. O evangelista acrescenta ainda outro detalhe profundo ao afirmar que Jesus “entregou o espírito” (Jo 19,30). O verbo ultrapassa a simples descrição da morte. Muitos intérpretes veem aqui antecipação pentecostal. O Espírito começa a ser comunicado já na cruz. Pentecostes nasce do Calvário. A Igreja nasce simultaneamente do lado aberto e do sopro do Crucificado. Por isso Maria reaparece em Atos 1,14 reunida com a comunidade em oração. O Calvário conduz ao cenáculo.
O magistério aprofundou esta visão. Lumen Gentium apresenta Maria como figura e modelo da Igreja (LG 58-69). Marialis Cultus, de Papa Paulo VI, destaca Maria como modelo de discípula. Redemptoris Mater, de Papa João Paulo II, desenvolve sua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Evangelii Gaudium apresenta Maria como mãe evangelizadora e companheira do povo peregrino.
A tradição Latino-americana ampliou esta leitura a partir das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, nas quais a Igreja buscou discernir os sinais dos tempos à luz do Evangelho e da realidade social do continente.
- Medellín, Colômbia, de 26 de agosto a 7 de setembro de 1968, como II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, tornou-se a principal recepção pastoral latino-americana do Concílio Vaticano II, à realidade latino-americana. Seu tema central foi “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”. O documento denunciou as estruturas de injustiça, a pobreza estrutural, a dependência econômica e as violências sociais presentes no continente, afirmando a necessidade de uma Igreja comprometida com a promoção humana, a justiça e a libertação dos pobres. Medellín tornou-se marco para a opção preferencial pelos pobres e para a leitura pastoral da realidade social latino-americana.
- Puebla realizada em Puebla de los Ángeles, México, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979, como III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, aprofundou a recepção de Medellín e teve como tema “A evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O documento contemplou o “rosto sofredor de Cristo” presente nos pobres, indígenas, afrodescendentes, trabalhadores, migrantes, mulheres marginalizadas, crianças abandonadas e jovens sem perspectivas. Puebla consolidou a expressão “opção preferencial pelos pobres”, não como categoria ideológica, mas cristológica e evangélica, reconhecendo Cristo presente nos rostos crucificados da história.
- Santo Domingo, realizada na República Dominicana, de 12 a 28 de outubro de 1992, durante o contexto dos 500 anos da evangelização das Américas, constituiu a IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e teve como lema “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). A Conferência insistiu na Nova Evangelização, no diálogo entre fé e cultura, na dignidade humana e na evangelização inculturada, reafirmando a missão libertadora da Igreja diante das transformações culturais e sociais do continente
- Aparecida realizada no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, São Paulo, Brasil, de 13 a 31 de maio de 2007, constituiu a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho. Seu tema foi “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos nele tenham vida” (Jo 10,10) e o lema “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). O documento retomou a opção pelos pobres, insistiu numa Igreja em saída missionária, discípula, samaritana e próxima dos descartados. O então cardeal Papa Francisco, à época arcebispo de Buenos Aires, teve papel decisivo na redação final do documento, cujos ecos reaparecerão depois em Evangelii Gaudium
É preciso ter consciência que a cruz de Cristo e os documentos latino-americanos convergem na mesma pergunta profética: onde estão hoje os crucificados da história? Mateus responde: o faminto, o estrangeiro, o preso e o doente (Mt 25,35-40). Tiago denuncia comunidades que favorecem ricos e desprezam pobres (Tg 2,1-9). João afirma que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê (1Jo 4,20). Maria permanece junto deles. Seu rosto aparece nas mães que enterram filhos, nos refugiados, nos pobres descartados, nos povos expulsos de suas terras. O pranto de Raquel continua ecoando (Jr 31,15; Mt 2,18).
Por isso João 19 torna-se denúncia profética contra toda instrumentalização da religião. Jesus critica os que impõem fardos (Mt 23,4), condena a busca do poder (Mc 10,42-45) e lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). O clericalismo contradiz esta lógica porque transforma serviço em privilégio e ministério em poder. A fé também corre risco quando capturada por nacionalismos religiosos, projetos autoritários e ideologias de dominação. Jesus recusou tais tentações no deserto (Mt 4,1-11). Recusou o espetáculo, recusou o domínio e recusou o poder desvinculado da cruz.
Quando a religião se transforma em instrumento de controle, perde sua força profética. Isaías já denunciava esta deformação (Is 29,13). Jesus retoma a crítica (Mt 15,8). Amós rejeita liturgias sem justiça (Am 5,21-24). Oséias proclama: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). Também a teologia da prosperidade entra em tensão com a lógica do Crucificado quando reduz bênção a sucesso individual. Jesus diz: “Quem quiser seguir-me, tome sua cruz” (Mc 8,34). Paulo recorda que Deus escolheu os fracos (1Cor 1,27). Tiago pergunta se Deus não escolheu os pobres deste mundo (Tg 2,5). Atos descreve comunidades marcadas pela partilha (At 2,44-45; At 4,32).
A última imagem da Escritura não é a cruz, mas a cidade. A Jerusalém nova desce do céu “como esposa adornada” (Ap 21,2). A história termina com uma mulher e uma cidade. O Deus do Êxodo que ouviu escravos, o Deus dos profetas que defendeu pobres e o Deus do Calvário que se solidarizou com as vítimas conduz a criação para uma nova humanidade. Maria permanece neste horizonte como mulher do sim, do Magnificat, da cruz, do cenáculo e da esperança. Ela continua junto à cruz, continua entre os pobres, continua nas mães que choram e nas comunidades que resistem. Continua gerando esperança onde a morte parece triunfar.
A Igreja nasceu de uma ferida aberta. Enquanto houver quem permaneça de pé diante da dor humana, o Evangelho continuará renascendo na história.


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