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segunda-feira, 16 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,43-48

A perícope do amor aos inimigos Mateus 5,43-48 sendo uma  continuação  direta  da leitura  de ontem . Essa passagem ocupa  um lugar central no ensinamento de Jesus. Presente tanto no Sermão da Montanha, em Mateus (Mt 5,43-48), quanto no Sermão da Planície, em Lucas (Lc 6,27-38), ela nos apresenta uma das propostas mais revolucionária do Evangelho: amar não apenas os amigos, mas também aqueles que nos ofendem, perseguem ou rejeitam. A Igreja, como sábia pedagoga da fé, coloca esta Palavra diante de nós em diversos momentos do ano litúrgico.

  • Nos Domingos, ela é proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum:   no Ano A segundo Mateus 5,38-48 e no Ano C segundo Lucas 6, 27-38
  • Na Quaresma, tempo de conversão e retorno ao essencial, a mesma mensagem ressoa no Sábado da 1ª Semana (Mateus) e na Segunda-feira da 2ª Semana (Lucas), convidando-nos a examinar a profundidade de nossa mudança de vida.
  • No ciclo  semanal ela  retoma na Terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 23ª Semana, lembrando-nos que o amor evangélico deve ser vivido todos os dias.

Seja no domingo festivo, no caminho penitencial da Quaresma ou na simplicidade dos dias comuns, Jesus nos convida a ultrapassar a lógica humana da reciprocidade e da vingança para entrar na lógica divina da misericórdia. O discípulo não é chamado a amar apenas quem o ama, mas a refletir o próprio coração de Deus, cuja bondade alcança justos e injustos. Abramos, portanto, nosso coração a esta Palavra exigente e libertadora, pedindo a graça de aprender a amar como o Pai ama.  

Ele diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Estao é uma convocação à transformação integral do coração e da ação, que transcende o instinto natural de autoproteção, o desejo de vingança e a lógica social do merecimento. O verbo grego agapate implica uma decisão deliberada de amar, uma ação ética e gratuita que não depende de reciprocidade. Este amor é distinto do afeto natural ou do carinho espontâneo; é um amor que busca o bem do outro, mesmo quando este nos prejudica ou nos odeia. Trata-se de uma participação concreta no próprio modo de amar de Deus, que se revela ao longo de toda a Escritura como “misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor” como proclama Êxodo 34,6.

Jesus falava a uma sociedade profundamente marcada por códigos de honra, retaliação e regras legais restritivas. O mandamento do olho por olho, dente por dente em Êxodo 21,24 e Levítico 24,20 limitava a violência desproporcional, mas ainda preservava a lógica da retribuição. No entanto, já no Antigo Testamento encontramos sementes de superação dessa lógica. Provérbios 20,22 aconselha: “Não digas: Vou pagar o mal; espera no Senhor, e ele te salvará”. Provérbios 24,17 recomenda: “Se teu inimigo cair, não te alegres”. Em Jó 31,29 o justo declara que nunca se alegrou com a desgraça de seu inimigo. O próprio livro dos Provérbios 25,21 ensina: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”, texto que Paulo retoma explicitamente em Romanos 12,20 ao exortar os cristãos a vencerem o mal com o bem.

O ensino de Jesus, portanto, não é ruptura com a revelação anterior, mas plenitude e radicalização. Ele não anula a Lei, mas a leva ao seu cumprimento, como já afirmara em Mateus 5,17. Amar o inimigo é o ápice da justiça superior à dos escribas e fariseus mencionada em Mateus 5,20. Trata-se de uma justiça que nasce do coração renovado, como prometido em Jeremias 31,33, quando Deus diz que escreverá sua lei no íntimo do ser humano. É também cumprimento da promessa de Ezequiel 36,26, na qual Deus promete dar um coração novo e um espírito novo ao seu povo. O texto de Mateus enfatiza ações concretas: fazei o bem a quem vos odeia. O amor cristão é prático, histórico, verificável. Ele ecoa o mandamento maior já presente em Deuteronômio 6,5, amarás o Senhor teu Deus, e em Levítico 19,18, amarás o teu próximo como a ti mesmo. Jesus amplia o conceito de próximo, como já demonstrara na parábola do bom samaritano em Lucas 10,33, onde o estrangeiro e desprezado torna-se modelo de compaixão. O inimigo, portanto, entra no campo do amor. A lógica tribal é superada pela lógica do Reino.

Os símbolos do sol e da chuva em Mateus 5,45 revelam a universalidade da graça divina. O Salmo 145,9 afirma que o Senhor é bom para todos e sua misericórdia se estende sobre todas as suas obras. O Salmo 103 recorda que Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas faltas. Lamentações 3,22-23 proclama que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. A imagem da chuva recorda Deuteronômio 11,14, onde a chuva é bênção da fidelidade divina, e Isaías 55,10-11, onde a chuva que desce do céu simboliza a eficácia da Palavra de Deus que produz vida.

Quando Jesus ordena orar pelos perseguidores, ele aponta para sua própria prática. Na cruz, segundo Lucas 23,34, ele suplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estêvão, em Atos 7,60, repete esse gesto ao pedir que o pecado de seus algozes não lhes seja imputado. Aqui vemos a tradição apostólica encarnando o mandamento do Mestre. Pedro, em 1Pedro 3,9, exorta a não pagar mal por mal, mas a abençoar. João, em 1João 4,20, declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. O amor ao inimigo torna-se critério de autenticidade espiritual..A compreensão deste ensinamento exige uma antropologia realista. Gênesis 4 apresenta Caim incapaz de dominar a violência que bate à porta de seu coração. O ser humano, marcado pelo pecado, tende à rivalidade e à vingança. No entanto, já em Gênesis 50,20, José, traído pelos irmãos, reconhece que Deus pode transformar o mal em bem. Esta é a lógica do Reino. Romanos 5,8 afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Efésios 2,14 proclama que Cristo é nossa paz, aquele que derrubou o muro de separação e fez de dois povos um só. O amor aos inimigos não é idealismo ingênuo, mas participação na reconciliação cósmica inaugurada por Cristo.

No contexto contemporâneo, marcado por polarizações e discursos de ódio, a palavra de Jesus permanece provocativa. A sabedoria bíblica adverte contra a língua que fere. Provérbios 18,21 ensina que a morte e a vida estão no poder da língua. Tiago 3 compara a língua a um fogo capaz de incendiar florestas inteiras. Amar o inimigo implica também purificar a linguagem, romper com a violência simbólica, recusar a difamação e a mentira. Efésios 4,31-32 convida a afastar toda amargura e a ser bondoso e compassivo, perdoando como Deus nos perdoou em Cristo..A perfeição mencionada em Mateus 5,48 não é perfeccionismo moral, mas plenitude do amor. O termo grego teleios indica maturidade, completude. Em Gênesis 17,1 Deus diz a Abraão: anda na minha presença e sê íntegro. A integridade bíblica é totalidade de coração. Colossenses 3,14 afirma que o amor é o vínculo da perfeição. A maturidade cristã consiste em amar como o Pai ama. Não se trata de sentimentalismo, mas de decisão constante pela misericórdia.

A cruz permanece o centro desta pedagogia. Isaías 53 descreve o servo sofredor que não abre a boca diante dos que o oprimem e que carrega as iniquidades de muitos. Filipenses 2,5-8 mostra Cristo que se esvazia e assume a condição de servo. Hebreus 12,2 exorta a contemplar Jesus que suportou a cruz desprezando a vergonha. O amor aos inimigos encontra aqui sua fonte e seu critério. A Igreja, chamada a ser sinal e instrumento de unidade segundo Lumen Gentium, deve encarnar essa ética. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. Evangelii Gaudium recorda que a fé autêntica implica desejo de mudar o mundo. Fratelli Tutti insiste que ninguém se salva sozinho e que a fraternidade é caminho político e espiritual. Deus Caritas Est recorda que o amor é tarefa da comunidade inteira. O amor aos inimigos não é opção devocional, mas exigência estrutural do discipulado.

A crítica às espiritualidades centradas apenas no sucesso individual encontra base bíblica em Lucas 12,15, quando Jesus alerta contra toda ganância, e em Mateus 6,19-21, onde exorta a não acumular tesouros na terra. O Reino não é prosperidade egoísta, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo como afirma Romanos 14,17. Amar o inimigo rompe a idolatria do eu e desloca o centro para o outro..O discípulo que vive Mateus 5,43-48 torna-se sinal escatológico. Ele antecipa o tempo anunciado em Isaías 2,4, quando as espadas se transformarão em arados. Ele participa da visão de Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima e elimina a morte. Cada gesto concreto de perdão é semente desse futuro.

Diante dessa palavra, resta a pergunta que atravessa as Escrituras desde Miqueias 6,8: o que o Senhor pede de ti senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e caminhes humildemente com teu Deus. Amar o inimigo é caminho de cruz e ressurreição. É participar do mistério pascal. É deixar que o Espírito produza em nós o fruto descrito em Gálatas 5,22, amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Amar os inimigos é revolucionário: desafia meritocracia, lógica de poder e punição, polarização, discursos de ódio, exclusão social e religiosa. É educação ética, psicológica e espiritual, um caminho que transforma indivíduos, comunidades e sociedades. O Evangelho, proclamado na liturgia, é convite contínuo à conversão do coração, à vivência da misericórdia, à justiça restaurativa e à solidariedade com os marginalizados.

Assim, Mateus 5,43-48 não é conselho opcional, mas revelação do coração do Pai. É convite à conversão profunda, pessoal e comunitária. É chamado à maturidade espiritual e à responsabilidade histórica. É anúncio de que a última palavra não é o ódio, mas o amor que tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, como proclama 1Coríntios 13,7. E é certeza de que, permanecendo no amor, permanecemos em Deus, como assegura 1João 4,16.

Oração 

Senhor, ensina-nos a amar como Tu amas. Livra-nos da armadilha da indiferença e do ódio travestido de justiça. Que possamos viver o Evangelho com coragem profética, mesmo quando isso nos custar conforto, prestígio ou segurança. Que sejamos luz, sal e testemunho do Teu Reino, atuando na transformação do mundo pelo amor incondicional. Amém.

DNonato - Teólogo do cotidiano


sábado, 17 de maio de 2025

Um olhar sobre João 13,31-33a.34-35



O Mandamento Novo

Jesus não nos trouxe uma nova receita para amar, mas revelou, em sua essência mais pura e exigente, o amor que sempre hanbitou o coração de Deus: um amor completo, que se doa sem esperar nada em troca e que tem o poder de mudar vidas. Chamamos de “mandamento novo”, mas ele ecoa o anseio eterno de Deus, que nos ama com um amor sem fim e misterioso (cf. Jeremias 31,3: “Eu vos amei com amor eterno”). Neste 5º Domingo da Páscoa, somos convidados pela liturgia a contemplar  os textos: 

  •  1ª leitura Atos 14,21b-27; 
  • Salmo 144 com refrão Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor, meu Deus e meu Rei; 
  •  2ª leitura Apocalipse 21,1-5a; 
  • João 13,31-33a.34-35

Este último  nos guia na profunda meditação sobre o mandamento do amor.  Na intimidade da Última Ceia, como um último testamento, Jesus nos entrega a síntese de sua jornada: “Amem-se uns aos outros como Eu os amei” (Jo 13,34). A novidade aqui não reside na palavra “amor” em si (afinal, já ecoava em Levítico 19,18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”), mas na forma como Jesus o viveu: total, incondicional, radical. Ele inaugurou um amor que se entrega na cruz (cf. Filipenses 2,6-8), quebrando a lógica do mundo ao perdoar seus algozes (cf. Lucas 23,34) e servindo sem buscar reconhecimento (cf. João 13,12-15). É esse amor que define a própria natureza de Deus e a identidade daqueles que o seguem. Como Paulo escreveu aos Coríntios, “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Coríntios 13,1). O amor, pulsante e visível, é o selo inconfundível de quem caminha com Cristo.

Para desvendarmos as muitas faces desse amor que transforma, a tradição cristã, em diálogo com a cultura e a fé, nos apresenta diferentes nuances.

Há o Eros, o amor que nasce do desejo, da busca pela beleza e pela união. Purificado pela fé, ele aponta para a sede humana de transcendência, como bem disse Bento XVI: “O eros quer erguer-nos ‘em êxtase’ para o Divino, levar-nos além de nós mesmos” (Deus Caritas Est, 5). No matrimônio, esse amor floresce quando se torna doação mútua e fiel, espelhando o amor criador de Deus.

Encontramos a Philia, o amor da amizade, da confiança que se constrói no convívio fraterno. É o amor que une companheiros de jornada, como o de Jesus por seus discípulos: “Já não vos chamo servos… mas amigos” (João 15,15). Essa amizade tece o tecido das comunidades, criando laços de solidariedade e um profundo senso de pertencimento (cf. Romanos 12,10: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal”).

O amor fraterno se manifesta na solidariedade entre iguais, traduzindo-se em ações concretas de justiça, cuidado e responsabilidade mútua, como vemos na partilha dos bens na comunidade dos Atos dos Apóstolos (cf. Atos 4,32-35). E no ápice, reside o Ágape, a essência do amor cristão: incondicional, que se entrega por completo e gratuitamente. É o amor que se derrama mesmo sobre quem não o merece. Jesus amou até o fim (cf. João 13,1), acolhendo o traidor e dando a vida por seus inimigos. Esse amor desafia a lógica do mundo (cf. 1 Coríntios 1,18), mas revela o próprio coração de Deus. Como nos diz João: “Deus é amor” (1 João 4,8) — e toda forma genuína de amar brota dessa fonte divina.

Jesus nos deixa um critério claro: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13,35). O distintivo do cristão não se limita a doutrinas, ritos ou normas morais, mas se encarna no amor vivido em todas as suas dimensões: o Eros que se eleva, a Philia que sustenta, a fraternidade que une, o Ágape que se doa e o amor divino que nos envolve. A Escritura Sagrada reforça esse chamado a uma missão transformadora: “Portanto, sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Coríntios 11,1) e “Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5,14), uma luz que deve iluminar com amor um mundo tantas vezes imerso em sombras.

Como nos recorda o Papa Francisco: “Ainda que eu tenha toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada sou” (1 Coríntios 13,2). Para ele, “a medida da fé é o amor. Não podemos separar fé e compromisso com a justiça e com os pobres.”

A urgência desse amor como prova da nossa fé ressoa ainda mais forte com os primeiros passos do pontificado de Leão XIV, que assume a missão da Igreja sob o claro chamado do Evangelho deste domingo.

A Igreja é chamada a sair de si mesma, a ser compassiva, servidora e corajosa diante das feridas da humanidade (cf. Evangelii Gaudium, 20). O amor cristão não é uma fuga espiritual, mas um compromisso concreto com a realidade. O Concílio Vaticano II nos lembra que “o ser humano só se realiza plenamente pelo sincero dom de si mesmo” (Gaudium et Spes, 24). Amar como Jesus é tornar-se mais humano e, ao mesmo tempo, mais semelhante a Deus, vivendo uma ética do cuidado, da partilha e da inclusão.

Assim como Jesus enviou seus discípulos ao mundo dizendo: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (João 20,21), somos convocados a levar esse amor que transforma. Martin Luther King, um profeta do amor em meio à injustiça, nos ensinou: “O amor é a força mais durável do mundo. É a chave que abre as portas do sentido último da vida.” Esse amor transforma o mundo ao dizer não ao ódio e à violência, manifestando-se em atos concretos de perdão, justiça e solidariedade.

A própria Igreja precisa se purificar de tudo aquilo que impede a plena vivência desse amor. O Papa Francisco denunciou o clericalismo como uma ferida que “mata a alma da Igreja”, transformando pastores em chefes e fiéis em súditos. O amor vivido clama por uma Igreja sinodal, onde todos caminham juntos, leigos e clero em corresponsabilidade, ouvindo atentamente a voz dos pobres, das mulheres, dos jovens e dos povos originários.

Como nos lembra o Documento de Aparecida: “A renovação missionária da Igreja não é possível sem a participação ativa dos leigos” (DAp, 211).

Na Palavra, ecoa o chamado de Paulo: “Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5,21), uma expressão da humildade e do serviço que o amor genuíno exige. Este chamado ao amor se torna ainda mais urgente em tempos de polarização, discursos de ódio e manipulação da fé. É grave quando a religião é usada para justificar exclusão, racismo, xenofobia, autoritarismo e a idolatria do mercado (cf. Mateus 6,24). O Evangelho jamais pode ser usado para legitimar opressão.

São João Paulo II nos alertava: “Uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, não inteiramente pensada, não fielmente vivida” (Discurso à UNIV, 1982).  A fidelidade ao mandamento do amor nos impulsiona a uma postura profética: denunciar as injustiças, defender os direitos humanos e praticar uma solidariedade que se sente e se vê. O Documento de Puebla nos recorda: “A opção pelos pobres é uma exigência do amor de Cristo e não uma ideologia” (DP, 1134). Para o Papa Francisco, a caridade deve ser a força motriz da política: “Porque sem amor, a política se torna opressiva.”

Como o próprio Jesus nos alertou: “Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25,40). Amar é também servir aqueles que sofrem. O mandamento novo é mais que uma norma ética — é o coração pulsante do Evangelho. Nele, toda a vida cristã encontra seu sentido, sua mística e sua missão. Amar como Jesus é o caminho mais exigente, mas também o mais fecundo para a transformação do mundo ao nosso redor.

Sob a luz da Ressurreição e a orientação do Papa Leão XIV, a Igreja é chamada a permanecer viva nesse amor, fiel ao Evangelho e profética em sua missão, comprometida com a justiça social e aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo. Hoje, mais do que nunca, somos chamados a viver o mandamento novo de Jesus com coragem e radicalidade. O mundo clama por amor autêntico, por gestos que desarmem o ódio, que construam pontes de entendimento e que tragam justiça àqueles que são marginalizados. O Papa Francisco, em seu pontificado, nos ensinou que “a fé, se não se converte em amor, é estéril”. Ele nos deixou um legado de esperança e compromisso que não podemos esquecer nem deixar de lado.

Agora, sob a liderança do Papa Leão XIV, a Igreja deve continuar a ser um sinal vivo do amor de Cristo, profetizando um mundo onde o amor triunfa sobre a violência, a exclusão e a indiferença. Que cada um de nós abrace essa missão com o coração aberto e as mãos estendidas, pois é no amor que encontraremos a força capaz de transformar o mundo. Como o próprio Jesus disse: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13,35). Que esse amor seja a nossa marca, a nossa esperança e a nossa missão, hoje e sempre.



DNonato - Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Testamento do Cardeal Ratzinger

 


Uma coisa é  ser o Papa, outra coisa é  dar Conselho para o Papa.  Joseph Aloisius Cardeal Ratzinger soube muito bem o sentido desse ditado

Na história  da Igreja do século passado tivemos a alegria de ter alguns homens que comandaram a Barca de Pedro e sabemos bem,  que é  um  fardo  um tanto pesado. A definição  de gaiola de ouro  que ouvimos de um  velho  padre falecido,  cabe bem ao nosso ver.  Mesmo que  gaiola  seja de  ouro,  continua  sendo  aquilo  que  se destina ser.  

Durante o pontificado  de João  Paulo II se destacou o Teólogo, o Bispo Joseph Aloisius Cardeal  Ratzinger e mesmo na nossa  imensa ignorância  teológica  diante de tal pessoa, não  podemos negar  a grandeza  de sua colaboração   para vida da Igreja e seu papel  na história   como sucessor de João  Paulo II que representou o um desafio, pois  o carisma do Papa  João  de Deus é  algo que  só Papa  nascido na Polônia tinha e sabemos  de todos os  retrocessos  histórico  que a Igreja  sofreu para manter a unidade com o pontificado  de João  Paulo II, incluindo decisões  do pontífice  atribuída ao Cardeal  Ratzinger. 

Com a Páscoa  do Papa Karol  o sucessor  teve dificuldades tamanha de ser o Papa em uma Igreja  que  tem uma tradição, mas que precisa  dialogar e   se fazer entender no novos tempos. Ele o Papa Ratzinger cumpriu o seu papel para a   Igreja  da América  se fez presente no CELAM     em 2007 e de lá  nasce  o documento  de Aparecida,  que nos dá  novo ânimo, traz para nós  a ideia  de uma Igreja  servidora, acolhedora, supera a ideia de uma ONG.

Olhamos   ainda a atividade  do Papa Alemão  vimos como gesto nobre e prova de sabedoria a sua  renúncia ao pontificado, afinal  uma gaiola de ouro, de madeira ou lata continua  sendo gaiola.

O chamaram de Papa emérito, de ex-papa, de Papa renunciado etc.

Na verdade ele só  desejava ser o simples  Joseph Aloisius Ratzinger o Teólogo, professor,  escritor e um alemão  que sofreu a incompreensão  de muitos. Olhando  seu testamento  espiritual  percebemos  a riqueza  de um homem  simples que ocupou ocupou o ministério  do primado de Pedro, façamos  essa leitura  nesse primeiro  dia  de 2023

Joseph Aloisius Cardeal Ratzinger   descanse  em Paz que Deus te recompense pelo bem praticado. 


DNonato


Testamento espiritual  de Bento XVI

Se nesta tarda hora da minha vida olho para as décadas que percorri, como primeira coisa vejo quantas razões tenho para agradecer. Agradeço antes de tudo ao próprio Deus, o dispensador de todo bom dom, que me doou a vida e me guiou através de vários momentos de confusão; levantando-me sempre toda vez que começava a escorregar e dando-me sempre novamente a luz da sua face. Retrospectivamente vejo e compreendo que mesmo os trechos obscuros e cansativos deste caminho foram para a minha salvação e que justamente neles Ele me guiou bem.

Agradeço aos meus pais, que me doaram a vida num tempo difícil e que, a custa de grandes sacrifícios, com o seu amor me prepararam uma magnífica morada que, com sua clara luz, ilumina todos os meus dias até hoje. A lúcida fé de meu pai me ensinou a nós, filhos, a crer, e como indicador sempre foi firme em meio a todas as minhas aquisições científicas; a profunda devoção e a grande bondade de minha mãe representam uma herança à qual jamais poderei agradecer suficientemente. Minha irmã me assistiu por décadas de maneira desinteressada e com afetuoso cuidado; meu irmão, com a lucidez dos seus juízos e a sua vigorosa determinação, sempre me abriu o caminho; sem este seu contínuo preceder-me e acompanhar-me, não poderia ter encontrado o caminho justo.

De coração agradeço a Deus pelos muitos amigos, homens e mulheres, que Ele sempre colocou ao meu lado; pelos colaboradores em todas as etapas do meu caminho; pelos mestres e os estudantes que Ele me deu. Agradecido, confio a todos à Sua bondade. E quero agradecer ao Senhor pela minha bela pátria nos pré-alpes bávaros, na qual sempre vi transparecer o esplendor do próprio Criador. Agradeço às pessoas da minha pátria, porque nelas pude sempre experimentar de novo a beleza da fé. Rezo para que a nossa terra permaneça uma terra de fé e vos peço, queridos compatriotas: não vos distraiais da fé.  E finalmente agradeço a Deus por todo o belo que pude experimentar em todas as etapas do meu caminho, especialmente, porém, em Roma e na Itália, que se tornou a minha segunda pátria.

A todos aqueles que de algum modo tenha cometido um erro, peço perdão de coração.

Aquilo que antes disse aos meus compatriotas, o digo agora a todos aqueles que na Igreja foram confiados ao meu serviço: permanecei firmes na fé! Não vos deixeis confundir! Com frequência, parece que a ciência – as ciências naturais de um lado e a pesquisa histórica (em particular a exegese da Sagrada Escritura) de outro — seja capaz de oferecer resultados irrefutáveis em contraste com a fé católica. Vi as transformações das ciências naturais desde tempos remotos e pude constatar como, ao contrário, tenham desaparecido aparentes certezas contra a fé, demonstrando-se ser não ciência, mas interpretações filosóficas somente aparentemente incumbentes à ciência; assim como, por outro lado, é no diálogo com as ciências naturais que também a fé aprendeu a compreender melhor o limite do alcance de suas afirmações e, portanto, a sua especificidade. São pelo menos 60 anos que acompanho o caminho da Teologia, em especial das Ciências Bíblicas, e com o subseguir-se das várias gerações vi ruir teses que pareciam inabaláveis, demonstrando-se serem simples hipóteses: a geração liberal (Harnack, Jülicher ecc.), a geração existencialista (Bultmann ecc.), a geração marxista. Vi e vejo como do emaranhado das hipóteses tenha emergido e emerja novamente a razoabilidade da fé. Jesus Cristo é realmente o caminho, a verdade e a vida — e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é realmente o Seu corpo.

Por fim, peço humildemente: rezem por mim assim que o Senhor, não obstante todos os meus pecados e insuficiências, me acolher nas moradas eternas. A todos aqueles que me são confiados, dia após dia, vai de coração a minha oração,


Benedictus PP XVI


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mensagem do Papa Bento XVI para o dia 1° de Janeiro de 2011.


O leitor deve esta pensando como podemos pública tal matéria já em fevereiro.  Mas esse tema  é tão importante que nos sentimos na obrigação de  traze-lo de volta durante todo o ano e se possível nesta década.  Então vamos ao texto.   
 Daniel Nonato.

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
BENTO XVI    PARA  A  CELEBRAÇÃO DO
XLIV  DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2011

LIBERDADE RELIGIOSA, CAMINHO PARA A PAZ
 
1. NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar a todos e cada um os meus votos: votos de serenidade e prosperidade, mas sobretudo votos de paz. Infelizmente também o ano que encerra as portas esteve marcado pela perseguição, pela discriminação, por terríveis atos de violência e de intolerância religiosa.
Penso, em particular, na amada terra do Iraque, que, no seu caminho para a desejada estabilidade e reconciliação, continua a ser cenário de violências e atentados. Recordo as recentes tribulações da comunidade cristã, e de modo especial o vil ataque contra a catedral siro-católica de «Nossa Senhora do Perpétuo Socorro» em Bagdá, onde, no passado dia 31 de Outubro, foram assassinados dois sacerdotes e mais de cinquenta fiéis, quando se encontravam reunidos para a celebração da Santa Missa. A este ataque seguiram-se outros nos dias sucessivos, inclusive contra casas privadas, gerando medo na comunidade cristã e o desejo, por parte de muitos dos seus membros, de emigrar à procura de melhores condições de vida. Manifesto-lhes a minha solidariedade e a da Igreja inteira, sentimento que ainda recentemente teve uma concreta expressão na Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos, a qual encorajou as comunidades católicas no Iraque e em todo o Médio Oriente a viverem a comunhão e continuarem a oferecer um decidido testemunho de fé naquelas terras.
Agradeço vivamente aos governos que se esforçam por aliviar os sofrimentos destes irmãos em humanidade e convido os católicos a orarem pelos seus irmãos na fé que padecem violências e intolerâncias e a serem solidários com eles. Neste contexto, achei particularmente oportuno partilhar com todos vós algumas reflexões sobre a liberdade religiosa, caminho para a paz. De fato, é doloroso constatar que, em algumas regiões do mundo, não é possível professar e exprimir livremente a própria religião sem pôr em risco a vida e a liberdade pessoal. Noutras regiões, há formas mais silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição contra os crentes e os símbolos religiosos. Os cristãos são, atualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé. Muitos suportam diariamente ofensas e vivem frequentemente em sobressalto por causa da sua procura da verdade, da sua fé em Jesus Cristo e do seu apelo sincero para que seja reconhecida a liberdade religiosa. Não se pode aceitar nada disto, porque constitui uma ofensa a Deus e à dignidade humana; além disso, é uma ameaça à segurança e à paz e impede a realização de um desenvolvimento humano autêntico e integral (cf. BENTO XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 29.55-57).

De fato, na liberdade religiosa exprime-se a especificidade da pessoa humana, que, por ela, pode orientar a própria vida pessoal e social para Deus, a cuja luz se compreendem plenamente a identidade, o sentido e o fim da pessoa. Negar ou limitar arbitrariamente esta liberdade significa cultivar uma visão redutiva da pessoa humana; obscurecer a função pública da religião significa gerar uma sociedade injusta, porque esta seria desproporcionada à verdadeira natureza da pessoa; isto significa tornar impossível a afirmação de uma paz autêntica e duradoura para toda a família humana.
Por isso, exorto os homens e mulheres de boa vontade a renovarem o seu compromisso pela construção de um mundo onde todos sejam livres para professar a sua própria religião ou a sua fé e viver o seu amor a Deus com todo o coração, toda a alma e toda a mente (cf. Mt 22, 37). Este é o sentimento que inspira e guia a Mensagem para o XLIV Dia Mundial da Paz, dedicada ao tema: Liberdade religiosa, caminho para a paz


Direito sagrado à vida e a uma vida espiritual

2. O direito à liberdade religiosa está radicado na própria dignidade da pessoa humana, (Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 2.) cuja natureza transcendente não deve ser ignorada ou negligenciada. Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 27). Por isso, toda a pessoa é titular do direito sagrado a uma vida íntegra, mesmo do ponto de vista espiritual. Sem o reconhecimento do próprio ser espiritual, sem a abertura ao transcendente, a pessoa humana retrai-se sobre si mesma, não consegue encontrar resposta para as perguntas do seu coração sobre o sentido da vida e dotar-se de valores e princípios éticos duradouros, nem consegue sequer experimentar uma liberdade autêntica e desenvolver uma sociedade justa (Cf. BENTO XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 78). 
A Sagrada Escritura, em sintonia com a nossa própria experiência, revela o valor profundo da dignidade humana: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes? Fizestes dele quase um ser divino, de honra e glória o coroastes; destes-lhe poder sobre a obra das vossas mãos, tudo submetestes a seus pés» (Sl 8, 4-7).
Perante a sublime realidade da natureza humana, podemos experimentar a mesma admiração expressa pelo salmista. Esta manifesta-se como abertura ao Mistério, como capacidade de interrogar-se profundamente sobre si mesmo e sobre a origem do universo, como íntima ressonância do Amor supremo de Deus, princípio e fim de todas as coisas, de cada pessoa e dos povos (Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs Nostra aetate, 1.). A dignidade transcendente da pessoa é um valor essencial da sabedoria judaico-cristã, mas, graças à razão, pode ser reconhecida por todos. Esta dignidade, entendida como capacidade de transcender a própria materialidade e buscar a verdade, há-de ser reconhecida como um bem universal, indispensável na construção duma sociedade orientada para a realização e a plenitude do homem. O respeito de elementos essenciais da dignidade do homem, tais como o direito à vida e o direito à liberdade religiosa, é uma condição da legitimidade moral de toda a norma social e jurídica.


Liberdade religiosa e respeito recíproco

3. A liberdade religiosa está na origem da liberdade moral. Com efeito, a abertura à verdade e ao bem, a abertura a Deus, radicada na natureza humana, confere plena dignidade a cada um dos seres humanos e é garante do respeito pleno e recíproco entre as pessoas. Por conseguinte, a liberdade religiosa deve ser entendida não só como imunidade da coação mas também, e antes ainda, como capacidade de organizar as próprias opções segundo a verdade.
Existe uma ligação indivisível entre liberdade e respeito; de fato, «cada homem e cada grupo social estão moralmente obrigados, no exercício dos próprios direitos, a ter em conta os direitos alheios e os seus próprios deveres para com os outros e o bem comum» (CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 7.).  
Uma liberdade hostil ou indiferente a Deus acaba por se negar a si mesma e não garante o pleno respeito do outro. Uma vontade, que se crê radicalmente incapaz de procurar a verdade e o bem, não tem outras razões objetivas nem outros motivos para agir senão os impostos pelos seus interesses momentâneos e contingentes, não tem uma «identidade» a preservar e construir através de opções verdadeiramente livres e conscientes. Mas assim não pode reclamar o respeito por parte de outras «vontades», também estas desligadas do próprio ser mais profundo e capazes, por conseguinte, de fazer valer outras «razões» ou mesmo nenhuma «razão». A ilusão de encontrar no relativismo moral a chave para uma pacífica convivência é, na realidade, a origem da divisão e da negação da dignidade dos seres humanos. Por isso se compreende a necessidade de reconhecer uma dupla dimensão na unidade da pessoa humana: a religiosa e a social. A este respeito, é inconcebível que os crentes «tenham de suprimir uma parte de si mesmos – a sua fé – para serem cidadãos ativos; nunca deveria ser necessário renegar a Deus, para se poder gozar dos próprios direitos» (BENTO XVI, Discurso à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (18 de Abril de 2008): AAS 100 (2008), 337).


A família, escola de liberdade e de paz

4. Se a liberdade religiosa é caminho para a paz, a educação religiosa é estrada privilegiada para habilitar as novas gerações a reconhecerem no outro o seu próprio irmão e a sua própria irmã, com quem caminhar juntos e colaborar para que todos se sintam membros vivos de uma mesma família humana, da qual ninguém deve ser excluído.
A família fundada sobre o matrimônio, expressão de união íntima e de complementaridade entre um homem e uma mulher, insere-se neste contexto como a primeira escola de formação e de crescimento social, cultural, moral e espiritual dos filhos, que deveriam encontrar sempre no pai e na mãe as primeiras testemunhas de uma vida orientada para a busca da verdade e para o amor de Deus. Os próprios pais deveriam ser sempre livres para transmitir, sem constrições e responsavelmente, o próprio patrimônio de fé, de valores e de cultura aos filhos. A família, primeira célula da sociedade humana, permanece o âmbito primário de formação para relações harmoniosas a todos os níveis de convivência humana, nacional e internacional. Esta é a estrada que se há-de sapientemente percorrer para a construção de um tecido social robusto e solidário, para preparar os jovens à assunção das próprias responsabilidades na vida, numa sociedade livre, num espírito de compreensão e de paz.


Um patrimônio comum

5. Poder-se-ia dizer que, entre os direitos e as liberdades fundamentais radicados na dignidade da pessoa, a liberdade religiosa goza de um estatuto especial. Quando se reconhece a liberdade religiosa, a dignidade da pessoa humana é respeitada na sua raiz e reforça-se a índole e as instituições dos povos. Pelo contrário, quando a liberdade religiosa é negada, quando se tenta impedir de professar a própria religião ou a própria fé e de viver de acordo com elas, ofende-se a dignidade humana e, simultaneamente, acabam ameaçadas a justiça e a paz, que se apoiam sobre a reta ordem social construída à luz da Suma Verdade e do Sumo Bem.
Neste sentido, a liberdade religiosa é também uma aquisição de civilização política e jurídica. Trata-se de um bem essencial: toda a pessoa deve poder exercer livremente o direito de professar e manifestar, individual ou comunitariamente, a própria religião ou a própria fé, tanto em público como privadamente, no ensino, nos costumes, nas publicações, no culto e na observância dos ritos. Não deveria encontrar obstáculos, se quisesse eventualmente aderir a outra religião ou não professar religião alguma. Neste âmbito, revela-se emblemático e é uma referência essencial para os Estados o ordenamento internacional, enquanto não consente alguma derrogação da liberdade religiosa, salvo a legítima exigência da justa ordem pública (Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 2). Deste modo, o ordenamento internacional reconhece aos direitos de natureza religiosa o mesmo status do direito à vida e à liberdade pessoal, comprovando a sua pertença ao núcleo essencialdos direitos do homem, àqueles direitos universais e naturais que a lei humana não pode jamais negar.
A liberdade religiosa não é patrimônio exclusivo dos crentes, mas da família inteira dos povos da terra. É elemento imprescindível de um Estado de direito; não pode ser negada, sem ao mesmo tempo minar todos os direitos e as liberdades fundamentais, pois é a sua síntese e ápice. É «o papel de tornassol para verificar o respeito de todos os outros direitos humanos» (JOÃO PAULO II, Discurso aos participantes na Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) (10 de Outubro de 2003), 1: AAS 96 (2004), 111). Ao mesmo tempo que favorece o exercício das faculdades humanas mais específicas, cria as premissas necessárias para a realização de um desenvolvimento integral, que diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em cada uma das suas dimensões (Cf. BENTO XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 11.).


A dimensão pública da religião  

6. Embora movendo-se a partir da esfera pessoal, a liberdade religiosa – como qualquer outra liberdade – realiza-se na relação com os outros. Uma liberdade sem relação não é liberdade perfeita. Também a liberdade religiosa não se esgota na dimensão individual, mas realiza-se na própria comunidade e na sociedade, coerentemente com o ser relacional da pessoa e com a natureza pública da religião.
relacionamento é uma componente decisiva da liberdade religiosa, que impele as comunidades dos crentes a praticarem a solidariedade em prol do bem comum. Cada pessoa permanece única e irrepetível e, ao mesmo tempo, completa-se e realiza-se plenamente nesta dimensão comunitária.
Inegável é a contribuição que as religiões prestam à sociedade. São numerosas as instituições caritativas e culturais que atestam o papel construtivo dos crentes na vida social. Ainda mais importante é a contribuição ética da religião no âmbito político. Tal contribuição não deveria ser marginalizada ou proibida, mas vista como válida ajuda para a promoção do bem comum. Nesta perspectiva, é preciso mencionar a dimensão religiosa da cultura, tecida através dos séculos graças às contribuições sociais e sobretudo éticas da religião. Tal dimensão não constitui de modo algum uma discriminação daqueles que não partilham a sua crença, mas antes reforça a coesão social, a integração e a solidariedade.


Liberdade religiosa, força de liberdade e de civilização:
os perigos da sua instrumentalização


7. A instrumentalização da liberdade religiosa para mascarar interesses ocultos, como por exemplo a subversão da ordem constituída, a apropriação de recursos ou a manutenção do poder por parte de um grupo, pode provocar danos enormes às sociedades. O fanatismo, o fundamentalismo, as práticas contrárias à dignidade humana não se podem jamais justificar, e menos ainda o podem ser se realizadas em nome da religião. A profissão de uma religião não pode ser instrumentalizada, nem imposta pela força. Por isso, é necessário que os Estados e as várias comunidades humanas nunca se esqueçam que a liberdade religiosa é condição para a busca da verdade e que a verdade não se impõe pela violência mas pela «força da própria verdade» (Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 1). Neste sentido, a religião é uma força positiva e propulsora na construção da sociedade civil e política.

Como se pode negar a contribuição das grandes religiões do mundo para o desenvolvimento da civilização? A busca sincera de Deus levou a um respeito maior da dignidade do homem. As comunidades cristãs, com o seu patrimônio de valores e princípios, contribuíram imenso para a tomada de consciência das pessoas e dos povos a respeito da sua própria identidade e dignidade, bem como para a conquista de instituições democráticas e para a afirmação dos direitos do homem e seus correlativos deveres. 
Também hoje, numa sociedade cada vez mais globalizada, os cristãos são chamados – não só através de um responsável empenhamento civil, econômico e político, mas também com o testemunho da própria caridade e fé – a oferecer a sua preciosa contribuição para o árduo e exaltante compromisso em prol da justiça, do desenvolvimento humano integral e do reto ordenamento das realidades humanas. A exclusão da religião da vida pública subtrai a esta um espaço vital que abre para a transcendência. Sem esta experiência primária, revela-se uma tarefa árdua orientar as sociedades para princípios éticos universais e torna-se difícil estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados, como se propõem os objetivos – infelizmente ainda menosprezados ou contestados – da Declaração Universal dos direitos do homem de 1948. 


Uma questão de justiça e de civilização:
o fundamentalismo e a hostilidade contra os crentes prejudicam
a laicidade positiva dos Estados

8. A mesma determinação, com que são condenadas todas as formas de fanatismo e de fundamentalismo religioso, deve animar também a oposição a todas as formas de hostilidade contra a religião, que limitam o papel público dos crentes na vida civil e política.
Não se pode esquecer que o fundamentalismo religioso e o laicismo são formas reverberadas e extremas de rejeição do legítimo pluralismo e do princípio de laicidade. De fato, ambas absolutizam uma visão redutiva e parcial da pessoa humana, favorecendo formas, no primeiro caso, de integralismo religioso e, no segundo, de racionalismo. A sociedade, que quer impor ou, ao contrário, negar a religião por meio da violência, é injusta para com a pessoa e para com Deus, mas também para consigo mesma. Deus chama a Si a humanidade através de um desígnio de amor, o qual, ao mesmo tempo que implica a pessoa inteira na sua dimensão natural e espiritual, exige que lhe corresponda em termos de liberdade e de responsabilidade, com todo o coração e com todo o próprio ser, individual e comunitário. Sendo assim, também a sociedade, enquanto expressão da pessoa e do conjunto das suas dimensões constitutivas, deve viver e organizar-se de modo a favorecer a sua abertura à transcendência. Por isso mesmo, as leis e as instituições duma sociedade não podem ser configuradas ignorando a dimensão religiosa dos cidadãos ou de modo que prescindam completamente da mesma; mas devem ser comensuradas – através da obra democrática de cidadãos conscientes da sua alta vocação – ao ser da pessoa, para o poderem favorecer na sua dimensão religiosa. Não sendo esta uma criação do Estado, não pode ser manipulada, antes deve contar com o seu reconhecimento e respeito.
O ordenamento jurídico a todos os níveis, nacional e internacional, quando consente ou tolera o fanatismo religioso ou anti-religioso, falta à sua própria missão, que consiste em tutelar e promover a justiça e o direito de cada um. Tais realidades não podem ser deixadas à mercê do arbítrio do legislador ou da maioria, porque, como já ensinava Cícero, a justiça consiste em algo mais do que um mero ato produtivo da lei e da sua aplicação. A justiça implicareconhecer a cada um a sua dignidade (Cf. CÍCERO, De inventione, II, 160), a qual, sem liberdade religiosa garantida e vivida na sua essência, fica mutilada e ofendida, exposta ao risco de cair sob o predomínio dos ídolos, de bens relativos transformados em absolutos. Tudo isto expõe a sociedade ao risco de totalitarismos políticos e ideológicos, que enfatizam o poder público, ao mesmo tempo que são mortificadas e coartadas, como se lhe fizessem concorrência, as liberdades de consciência, de pensamento e de religião. 


Diálogo entre instituições civis e religiosas 

9. O patrimônio de princípios e valores expressos por uma religiosidade autêntica é uma riqueza para os povos e respectivas índoles: fala diretamente à consciência e à razão dos homens e mulheres, lembra o imperativo da conversão moral, motiva para aperfeiçoar a prática das virtudes e aproximar-se amistosamente um do outro sob o signo da fraternidade, como membros da grande família humana (Cf. BENTO XVI, Discurso aos Representantes de outras Religiões do Reino Unido (17 de Setembro de 2010): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25/IX/2010), 6-7).
No respeito da laicidade positiva das instituições estatais, a dimensão pública da religião deve ser sempre reconhecida. Para isso, um diálogo sadio entre as instituições civis e as religiosas é fundamental para o desenvolvimento integral da pessoa humana e da harmonia da sociedade. 

 
Viver no amor e na verdade

10. No mundo globalizado, caracterizado por sociedades sempre mais multiétnicas e pluriconfessionais, as grandes religiões podem constituir um fator importante de unidade e paz para a família humana. Com base nas suas próprias convicções religiosas e na busca racional do bem comum, os seus membros são chamados a viver responsavelmente o próprio compromisso num contexto de liberdade religiosa. Nas variadas culturas religiosas, enquanto há que rejeitar tudo aquilo que é contra a dignidade do homem e da mulher, é preciso, ao contrário, valer-se daquilo que resulta positivo para a convivência civil.
O espaço público, que a comunidade internacional torna disponível para as religiões e para a sua proposta de «vida boa», favorece o aparecimento de uma medida compartilhável de verdade e de bem e ainda de um consenso moral, que são fundamentais para uma convivência justa e pacífica. Os líderes das grandes religiões, pela sua função, influência e autoridade nas respectivas comunidades, são os primeiros a ser chamados ao respeito recíproco e ao diálogo.
Os cristãos, por sua vez, são solicitados pela sua própria fé em Deus, Pai do Senhor Jesus Cristo, a viver como irmãos que se encontram na Igreja e colaboram para a edificação de um mundo, onde as pessoas e os povos «não mais praticarão o mal nem a destruição (...), porque o conhecimento do Senhor encherá a terra, como as águas enchem o leito do mar» (Is 11, 9).  


Diálogo como busca em comum

11. Para a Igreja, o diálogo entre os membros de diversas religiões constitui um instrumento importante para colaborar com todas as comunidades religiosas para o bem comum. A própria Igreja nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. «Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens» (CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs Nostra aetate, 2).
A estrada indicada não é a do relativismo nem do sincretismo religioso. De fato, a Igreja «anuncia, e tem mesmo a obrigação de anunciar incessantemente Cristo, “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo mesmo todas as coisas» (Ibid., 2).Todavia isto não exclui o diálogo e a busca comum da verdade em diversos âmbitos vitais, porque, como diz uma expressão usada frequentemente por São Tomás de Aquino, «toda a verdade, independentemente de quem a diga, provém do Espírito Santo» (Super evangelium Joannis, I, 3).
Em 2011, tem lugar o 25º aniversário da Jornada Mundial de Oração pela Paz, que o Venerável Papa João Paulo II convocou em Assis em 1986. Naquela ocasião, os líderes das grandes religiões do mundo deram testemunho da religião como sendo um fator de união e paz, e não de divisão e conflito. A recordação daquela experiência é motivo de esperança para um futuro onde todos os crentes se sintam e se tornem autenticamente obreiros de justiça e de paz.


Verdade moral na política e na diplomacia

12. A política e a diplomacia deveriam olhar para o patrimônio moral e espiritual oferecido pelas grandes religiões do mundo, para reconhecer e afirmar verdades, princípios e valores universais que não podem ser negados sem, com os mesmos, negar-se a dignidade da pessoa humana. Mas, em termos práticos, que significa promover a verdade moral no mundo da política e da diplomacia? Quer dizer agir de maneira responsável com base no conhecimento objetivo e integral dos fatos; quer dizer desmantelar ideologias políticas que acabam por suplantar a verdade e a dignidade humana e pretendem promover pseudovalores com o pretexto da paz, do desenvolvimento e dos direitos humanos; quer dizer favorecer um empenho constante de fundar a lei positiva sobre os princípios da lei natural (Cf. BENTO XVI, Discurso às Autoridades civis e ao Corpo Diplomático em Chipre (5 de Junho de 2010): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12/VI/2010), 4; COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL, À procura de uma ética universal: um olhar sobre a lei natural (Cidade do Vaticano 2009)). Tudo isto é necessário e coerente com o respeito da dignidade e do valor da pessoa humana, sancionado pelos povos da terra na Carta da Organização das Nações Unidas de 1945, que apresenta valores e princípios morais universais de referência para as normas, as instituições, os sistemas de convivência a nível nacional e internacional.


Para além do ódio e do preconceito

13. Não obstante os ensinamentos da história e o compromisso dos Estados, das organizações internacionais a nível mundial e local, das organizações não governamentais e de todos os homens e mulheres de boa vontade que cada dia se empenham pela tutela dos direitos e das liberdades fundamentais, ainda hoje no mundo se registram perseguições, descriminações, atos de violência e de intolerância baseados na religião. De modo particular na Ásia e na África, as principais vítimas são os membros das minorias religiosas, a quem é impedido de professar livremente a própria religião ou mudar para outra, através da intimidação e da violação dos direitos, das liberdades fundamentais e dos bens essenciais, chegando até à privação da liberdade pessoal ou da própria vida.
Temos depois, como já disse, formas mais sofisticadas de hostilidade contra a religião, que nos países ocidentais se exprimem por vezes com a renegação da própria história e dos símbolos religiosos nos quais se refletem a identidade e a cultura da maioria dos cidadãos. Frequentemente tais formas fomentam o ódio e o preconceito e não são coerentes com uma visão serena e equilibrada do pluralismo e da laicidade das instituições, sem contar que as novas gerações correm o risco de não entrar em contacto com o precioso patrimônio espiritual dos seus países.
A defesa da religião passa pela defesa dos direitos e liberdades das comunidades religiosas. Assim, os líderes das grandes religiões do mundo e os responsáveis das nações renovem o compromisso pela promoção e a tutela da liberdade religiosa, em particular pela defesa das minorias religiosas; estas não constituem uma ameaça contra a identidade da maioria, antes, pelo contrário, são uma oportunidade para o diálogo e o mútuo enriquecimento cultural. A sua defesa representa a maneira ideal para consolidar o espírito de benevolência, abertura e reciprocidade com que se há-de tutelar os direitos e as liberdades fundamentais em todas as áreas e regiões do mundo.


Liberdade religiosa no mundo

14. Dirijo-me, por fim, às comunidades cristãs que sofrem perseguições, discriminações, atos de violência e intolerância, particularmente na Ásia, na África, no Médio Oriente e de modo especial na Terra Santa, lugar escolhido e abençoado por Deus. Ao mesmo tempo em que lhes renovo a expressão do meu afeto paterno e asseguro a minha oração, peço a todos os responsáveis que intervenham prontamente para pôr fim a toda a violência contra os cristãos que habitam naquelas regiões. Que os discípulos de Cristo não desanimem com as presentes adversidades, porque o testemunho do Evangelho é e será sempre sinal de contradição.
Meditemos no nosso coração as palavras do Senhor Jesus: «Felizes os que choram, porque hão-se ser consolados. (...) Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. (...) Felizes sereis quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentido, vos acusarem de toda a espécie de mal. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos Céus a vossa recompensa» (Mt 5, 4-12). Por isso, renovemos «o compromisso por nós assumido no sentido da indulgência e do perdão – que invocamos de Deus para nós, no “Pai-nosso” – por havermos posto, nós próprios, a condição e a medida da desejada misericórdia: “perdoai-nos as nossas ofensasassim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”(Mt 6, 12)» (PAULO VI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1976AAS 67 (1975), 671). A violência não se vence com a violência. O nosso grito de dor seja sempre acompanhado pela fé, pela esperança e pelo testemunho do amor de Deus. Faço votos também de que cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo fato de estes pretenderem orientar a própria vida de modo coerente com os valores e os princípios expressos no Evangelho. Mais ainda, que a Europa saiba reconciliar-se com as próprias raízes cristãs, que são fundamentais para compreender o papel que teve, tem e pretende ter na história; saberá assim experimentar justiça, concórdia e paz, cultivando um diálogo sincero com todos os povos.


Liberdade religiosa, caminho para a paz

15. O mundo tem necessidade de Deus; tem necessidade de valores éticos e espirituais, universais e compartilhados, e a religião pode oferecer uma contribuição preciosa na sua busca, para a construção de uma ordem social justa e pacífica a nível nacional e internacional.

A paz é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, um projeto a realizar, nunca totalmente cumprido. Uma sociedade reconciliada com Deus está mais perto da paz, que não é simples ausência de guerra, nem mero fruto do predomínio militar ou econômico, e menos ainda de astúcias enganadoras ou de hábeis manipulações. Pelo contrário, a paz é o resultado de um processo de purificação e elevação cultural, moral e espiritual de cada pessoa e povo, no qual a dignidade humana é plenamente respeitada. Convido todos aqueles que desejam tornar-se obreiros de paz e sobretudo os jovens a prestarem ouvidos à própria voz interior, para encontrar em Deus a referência estável para a conquista de uma liberdade autêntica, a força inesgotável para orientar o mundo com um espírito novo, capaz de não repetir os erros do passado. Como ensina o Servo de Deus Papa Paulo VI, a cuja sabedoria e clarividência se deve a instituição do Dia Mundial da Paz, «é preciso, antes de mais nada, proporcionar à Paz outras armas, que não aquelas que se destinam a matar e a exterminar a humanidade. São necessárias sobretudo as armas morais, que dão força e prestígio ao direito internacional; aquela arma, em primeiro lugar, da observância dos pactos» (Ibid.:o.c., 668). A liberdade religiosa é uma autêntica arma da paz, com uma missão histórica e profética. De fato, ela valoriza e faz frutificar as qualidades e potencialidades mais profundas da pessoa humana, capazes de mudar e tornar melhor o mundo; consente alimentar a esperança num futuro de justiça e de paz, mesmo diante das graves injustiças e das misérias materiais e morais. Que todos os homens e as sociedades aos diversos níveis e nos vários ângulos da terra possam brevemente experimentar a liberdade religiosa, caminho para a paz!

Vaticano, 8 de Dezembro de 2010.