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domingo, 22 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 7, 1-5


Não Julgueis: O Chamado à Misericórdia e à Transformação do Olhar

A perícope de Mateus 7,1-5 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 12ª Semana do Tempo Comum. O ensinamento paralelo preservado por Lucas 6,37-42 aparece na liturgia da 23ª Semana do Tempo Comum, sendo proclamado em duas etapas: Lucas 6,27-38 na quinta-feira e Lucas 6,39-42 na sexta-feira. Nas Igrejas históricas, tanto do Oriente quanto do Ocidente, esses textos ocupam lugar de destaque na tradição cristã por apresentarem um dos ensinamentos mais profundos de Jesus acerca da misericórdia, do discernimento e da necessária conversão do olhar humano. Inserida no contexto do Sermão da Montanha, a passagem de Mateus revela que a verdadeira justiça do Reino de Deus não se fundamenta na condenação do próximo, mas na transformação do próprio coração diante de Deus.

Mateus 7,1-5,   convida toda comunidade cristã é conduzida a um exame profundo da interioridade moral e da purificação do olhar. Este texto não se apresenta como máxima isolada, mas como culminação de um movimento progressivo que atravessa todo o discurso de Jesus em Mateus 5–7, no qual a justiça do Reino é apresentada como superação da justiça meramente legal e exterior. O horizonte imediato dessa exigência encontra-se em Mateus 5,48, onde Jesus chama à perfeição que reflete o próprio Pai, indicando que o critério último da vida cristã não é o julgamento do outro, mas a configuração progressiva à misericórdia divina, que faz nascer o sol sobre maus e bons (Mt 5,45).

A palavra inicial de Jesus, “não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7,1), insere-se numa lógica teológica de reciprocidade escatológica. O verbo krinein, no original grego, não designa apenas discernir, mas sobretudo emitir sentença condenatória definitiva. Jesus não elimina a capacidade de discernimento moral, pois ele mesmo ordena julgar pelos frutos (Mt 7,16) e praticar o discernimento entre o verdadeiro e o falso. O que está em questão é o exercício de um julgamento que se absolutiza, esquecendo que apenas Deus possui o conhecimento integral do coração humano, como afirma 1 Samuel 16,7: “o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”. Essa tensão reaparece em Romanos 2,16, onde Paulo afirma que Deus julgará os segredos dos homens por meio de Cristo Jesus, segundo o evangelho, indicando que todo julgamento humano é necessariamente provisório e limitado.

A lógica da medida, “com a medida com que medirdes sereis medidos” (Mt 7,2), inscreve-se na tradição sapiencial de Israel, onde a justiça não é apenas princípio jurídico, mas forma de reciprocidade existencial diante de Deus. Essa mesma imagem reaparece em Marcos 4,24 e Lucas 6,38, indicando que a relação com o próximo determina a própria configuração espiritual do sujeito. No mundo semita, a medida não é apenas quantitativa, mas qualitativa: ela expressa a forma como alguém habita o mundo e se relaciona com a alteridade. Assim, quem mede com rigidez absoluta constrói para si mesmo um horizonte igualmente fechado de julgamento, enquanto quem mede com misericórdia abre espaço para a própria experiência da graça.

A metáfora da trave e do cisco (Mt 7,3-5) constitui uma das mais profundas provocações antropológicas do Evangelho. A imagem da “trave” não é mero exagero retórico, mas designa um elemento estrutural que compromete toda a visão. O “cisco”, por sua vez, representa uma falha mínima em comparação, mas que se torna objeto de fixação obsessiva. Essa inversão revela a distorção fundamental da percepção humana quando marcada pela autossuficiência moral. O Salmo 19,12 já expressava essa consciência ao reconhecer que as faltas ocultas escapam à percepção do próprio sujeito. Jesus, porém, radicaliza essa intuição ao transformá-la em crítica direta à pretensão de superioridade moral.

O judaísmo do Segundo Templo,  tinha como  uma prática do julgamento estava profundamente ligada à preservação da identidade comunitária e à interpretação rigorosa da Lei. Os fariseus, frequentemente mencionados nos Evangelhos, não devem ser reduzidos a caricaturas, pois representavam uma tradição séria de fidelidade interpretativa da Torá. O conflito com Jesus não se dá pela rejeição da Lei, mas pela disputa hermenêutica sobre seu centro vital. Em Mateus 23, Jesus denuncia não a busca pela justiça, mas sua deformação quando se torna instrumento de peso imposto aos outros sem compaixão. Assim, o problema não é a Lei, mas sua desconexão da misericórdia como princípio interpretativo fundamental.

Isaías 29,13 já  havia denunciado essa prática de   uma religiosidade reduzida a formalismo externo, enquanto Miqueias 6,8 sintetiza o núcleo da exigência divina: justiça, misericórdia e humildade diante de Deus. Jesus se insere nessa linhagem profética, deslocando o centro da vida religiosa da aparência externa para a conversão interior. O julgamento, quando desvinculado da misericórdia, torna-se repetição da cegueira denunciada pelos profetas. 0  ser humano por si só  constrói sua identidade em relação ao outro, e o julgamento torna-se frequentemente mecanismo de estabilização simbólica do eu. A teoria sociológica do estigma, desenvolvida por Erving Goffman, ajuda a compreender como certas formas de julgamento produzem exclusão e hierarquização social, definindo quem pertence e quem é marginalizado. Nesse sentido, o Evangelho desestabiliza estruturas profundas de reconhecimento social ao retirar do sujeito a prerrogativa de definir o valor último do outro.

A psicologia da projeção ilumina ainda mais essa dinâmica. O que é rejeitado no interior do próprio sujeito tende a ser deslocado para o outro, que se torna alvo de crítica e condenação. Em Mateus 7, Jesus expõe esse mecanismo com precisão simbólica: a “trave” é aquilo que impede a visão de si mesmo, enquanto o “cisco” é aquilo que se torna visível apenas quando o olhar está deformado pela negação de si. Em 1 João 1,8, essa mesma realidade é formulada em termos teológicos: a negação do pecado próprio constitui forma de autoengano  

Nla atualidadep, o julgamento assume frequentemente formas ampliadas de polarização. Estruturas sociais e religiosas podem transformar o discurso moral em instrumento de exclusão simbólica e política. O Evangelho, contudo, não legitima nenhuma forma de superioridade moral que não passe pela consciência da própria fragilidade. Em Romanos 14,4, Paulo insiste: “Quem és tu para julgar o servo alheio?”, deslocando o eixo do julgamento para a soberania de Deus.

  • A tradição joanina aprofunda essa perspectiva ao afirmar que a missão de Cristo não é condenar, mas salvar o mundo (Jo 3,17). Na narrativa da mulher adúltera (Jo 8,1-11), Jesus não elimina a gravidade do pecado, mas desarticula o mecanismo coletivo da condenação, revelando que a verdade só pode emergir quando o sujeito reconhece sua própria condição. O silêncio dos acusadores torna-se sinal de consciência despertada.
  • A tradição paulina reforça essa escatologia do julgamento ao afirmar que nada deve ser julgado antes do tempo, pois somente Deus revelará o oculto dos corações (1Cor 4,5). Em Mateus 12,36-37, Jesus acrescenta que cada palavra será levada a juízo, deslocando o julgamento humano para uma perspectiva escatológica na qual apenas Deus possui a totalidade da leitura da história.
  • Os Padres da Igreja aprofundam essa leitura. Agostinho observa que o julgamento do outro frequentemente nasce da ignorância de si mesmo diante de Deus. João Crisóstomo insiste que aquele que se ocupa excessivamente com os defeitos alheios perde a capacidade de reconhecer os próprios. Gregório Magno interpreta a trave como soberba espiritual que impede a caridade de agir com clareza.

No horizonte do Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, a Igreja é chamada a reconhecer as alegrias e angústias da humanidade, evitando qualquer forma de condenação que não seja atravessada pela misericórdia. A comunidade cristã é sinal de unidade precisamente quando recusa transformar o julgamento em mecanismo de exclusão. Na teologia latino-americana, particularmente nas reflexões do CELAM, o discernimento evangélico é compreendido como prática histórica de justiça e solidariedade, especialmente diante dos pobres e marginalizados. Julgar sem misericórdia, nesse contexto, significa reforçar estruturas de invisibilidade social, contrariando a lógica do Reino anunciada por Jesus em Lucas 4,18. A Igreja como um todo  é chamada a ser sinal e instrumento de unidade de todo o gênero humano em Cristo (cf. Gaudium et Spes), recorda que a autenticidade da fé se mede pela capacidade de comunhão e não pela rigidez condenatória. Uma Igreja que julga sem misericórdia contradiz sua própria natureza sacramental, pois deixa de tornar visível o rosto de Cristo, que não veio para condenar o mundo, mas para salvá-lo (Jo 3,17). Assim, qualquer forma de religião que se fecha em identidades excludentes ou em alianças com poderes de dominação se afasta do núcleo evangélico da cruz, onde o Filho não devolve julgamento, mas entrega intercessão: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23,34).

Jesus   nos conduz, a uma pedagogia do olhar curado. A “trave” não é apenas defeito moral, mas cegueira espiritual que impede a comunhão. A conversão proposta por Jesus é, portanto, transformação da percepção: aprender a ver o outro sem reduzi-lo ao erro, e a si mesmo sem ilusão de superioridade. O  discipulado cristão, nesse horizonte, não se define pela ausência de falhas, mas pela consciência contínua da necessidade de misericórdia. A justiça do Reino não se constrói sobre tribunais interiores, mas sobre relações restauradas. O ser humano é chamado a descer do lugar de juiz para o lugar de irmão, reconhecendo que a verdade não é posse, mas caminho. E a denúncia de Jesus  não se reduz a uma crítica moral isolada, mas revela uma crise mais profunda do olhar humano, constantemente tentado a substituir a misericórdia pela condenação e a verdade relacional pela lógica do domínio. A cegueira espiritual que impede o reconhecimento da própria “trave” não é apenas individual, mas também estrutural, alimentada por discursos religiosos e políticos que, sob aparência de neutralidade, absolutizam suas próprias leituras do mundo e transformam a fé em instrumento de poder. Quando a religião perde sua referência ao mistério do Deus que “faz nascer o sol sobre maus e bons” (Mt 5,45), ela deixa de ser sinal do Reino e se torna mecanismo de legitimação de exclusões. Não podendo  negar que moralismo religioso que se julga guardião exclusivo da verdade quanto as formas de espiritualidade centradas na autossuficiência da salvação individual revelam uma mesma dificuldade: a incapacidade de reconhecer que todos estão sob a mesma condição de fragilidade diante de Deus. Em ambos os casos, o outro deixa de ser irmão e passa a ser objeto de avaliação, esquecido o apelo de Tiago para que não nos tornemos juízes uns dos outros (Tg 4,11-12). O resultado é a fragmentação da comunhão e o enfraquecimento do testemunho cristão no mundo. O  juízo definitivo pertence somente a Deus, que “iluminará o que está oculto nas trevas e manifestará os desígnios dos corações” (1Cor 4,5). Diante disso, toda pretensão humana de julgamento absoluto se revela precária e perigosa. A cena de Jesus diante da mulher adúltera (Jo 8,1-11) permanece como ícone permanente dessa verdade: a justiça do Reino não se realiza pela destruição do outro, mas pela restauração da sua dignidade, abrindo espaço para uma vida nova que nasce do perdão.

À  Palavra proclamada hoje se apresenta como convocação urgente à conversão do olhar. Trata-se de abandonar os tribunais interiores onde se sustenta a ilusão de superioridade moral e de aprender a ver o outro não como objeto de sentença, mas como mistério habitado por Deus. O discípulo de Cristo é chamado a um contínuo descentramento de si, no qual a verdade não se impõe como arma, mas se manifesta como caminho de reconciliação. cruz de Cristo é a chave hermenêutica definitiva. Em Lucas 23,34, Jesus não condena, mas intercede: “Pai, perdoa-lhes”. Aqui se revela a consumação do ensinamento de Mateus 7,1-5: somente quem renuncia ao julgamento absoluto pode participar da lógica divina da misericórdia. A cruz não é tribunal humano elevado, mas dissolução de todo tribunal que não seja atravessado pelo amor. Assim, o Evangelho conduz a uma conversão radical: do olhar que condena ao olhar que compreende, do gesto que exclui ao gesto que restaura, da palavra que sentencia à palavra que cura. Nessa passagem, o ser humano é libertado da ilusão de ser juiz do outro para tornar-se, pouco a pouco, testemunha da misericórdia que o precede e o 

Que essa Palavra desfaça em nós toda forma de rigidez que impede o amor. Que nos liberte da tentação de medir o outro com critérios que não suportamos aplicar a nós mesmos. E que, ao reconhecer nossa própria fragilidade, possamos finalmente nos tornar capazes de misericórdia. Pois somente quem deixou cair a trave dos próprios olhos pode enxergar com clareza suficiente para caminhar com o outro na direção da vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano, a serviço da Palavra que liberta e da fé que humaniza


segunda-feira, 16 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,43-48

A perícope do amor aos inimigos Mateus 5,43-48 sendo uma  continuação  direta  da leitura  de ontem . Essa passagem ocupa  um lugar central no ensinamento de Jesus. Presente tanto no Sermão da Montanha, em Mateus (Mt 5,43-48), quanto no Sermão da Planície, em Lucas (Lc 6,27-38), ela nos apresenta uma das propostas mais revolucionária do Evangelho: amar não apenas os amigos, mas também aqueles que nos ofendem, perseguem ou rejeitam. A Igreja, como sábia pedagoga da fé, coloca esta Palavra diante de nós em diversos momentos do ano litúrgico.

  • Nos Domingos, ela é proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum:   no Ano A segundo Mateus 5,38-48 e no Ano C segundo Lucas 6, 27-38
  • Na Quaresma, tempo de conversão e retorno ao essencial, a mesma mensagem ressoa no Sábado da 1ª Semana (Mateus) e na Segunda-feira da 2ª Semana (Lucas), convidando-nos a examinar a profundidade de nossa mudança de vida.
  • No ciclo  semanal ela  retoma na Terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 23ª Semana, lembrando-nos que o amor evangélico deve ser vivido todos os dias.

Seja no domingo festivo, no caminho penitencial da Quaresma ou na simplicidade dos dias comuns, Jesus nos convida a ultrapassar a lógica humana da reciprocidade e da vingança para entrar na lógica divina da misericórdia. O discípulo não é chamado a amar apenas quem o ama, mas a refletir o próprio coração de Deus, cuja bondade alcança justos e injustos. Abramos, portanto, nosso coração a esta Palavra exigente e libertadora, pedindo a graça de aprender a amar como o Pai ama.  

Ele diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Estao é uma convocação à transformação integral do coração e da ação, que transcende o instinto natural de autoproteção, o desejo de vingança e a lógica social do merecimento. O verbo grego agapate implica uma decisão deliberada de amar, uma ação ética e gratuita que não depende de reciprocidade. Este amor é distinto do afeto natural ou do carinho espontâneo; é um amor que busca o bem do outro, mesmo quando este nos prejudica ou nos odeia. Trata-se de uma participação concreta no próprio modo de amar de Deus, que se revela ao longo de toda a Escritura como “misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor” como proclama Êxodo 34,6.

Jesus falava a uma sociedade profundamente marcada por códigos de honra, retaliação e regras legais restritivas. O mandamento do olho por olho, dente por dente em Êxodo 21,24 e Levítico 24,20 limitava a violência desproporcional, mas ainda preservava a lógica da retribuição. No entanto, já no Antigo Testamento encontramos sementes de superação dessa lógica. Provérbios 20,22 aconselha: “Não digas: Vou pagar o mal; espera no Senhor, e ele te salvará”. Provérbios 24,17 recomenda: “Se teu inimigo cair, não te alegres”. Em Jó 31,29 o justo declara que nunca se alegrou com a desgraça de seu inimigo. O próprio livro dos Provérbios 25,21 ensina: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”, texto que Paulo retoma explicitamente em Romanos 12,20 ao exortar os cristãos a vencerem o mal com o bem.

O ensino de Jesus, portanto, não é ruptura com a revelação anterior, mas plenitude e radicalização. Ele não anula a Lei, mas a leva ao seu cumprimento, como já afirmara em Mateus 5,17. Amar o inimigo é o ápice da justiça superior à dos escribas e fariseus mencionada em Mateus 5,20. Trata-se de uma justiça que nasce do coração renovado, como prometido em Jeremias 31,33, quando Deus diz que escreverá sua lei no íntimo do ser humano. É também cumprimento da promessa de Ezequiel 36,26, na qual Deus promete dar um coração novo e um espírito novo ao seu povo. O texto de Mateus enfatiza ações concretas: fazei o bem a quem vos odeia. O amor cristão é prático, histórico, verificável. Ele ecoa o mandamento maior já presente em Deuteronômio 6,5, amarás o Senhor teu Deus, e em Levítico 19,18, amarás o teu próximo como a ti mesmo. Jesus amplia o conceito de próximo, como já demonstrara na parábola do bom samaritano em Lucas 10,33, onde o estrangeiro e desprezado torna-se modelo de compaixão. O inimigo, portanto, entra no campo do amor. A lógica tribal é superada pela lógica do Reino.

Os símbolos do sol e da chuva em Mateus 5,45 revelam a universalidade da graça divina. O Salmo 145,9 afirma que o Senhor é bom para todos e sua misericórdia se estende sobre todas as suas obras. O Salmo 103 recorda que Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas faltas. Lamentações 3,22-23 proclama que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. A imagem da chuva recorda Deuteronômio 11,14, onde a chuva é bênção da fidelidade divina, e Isaías 55,10-11, onde a chuva que desce do céu simboliza a eficácia da Palavra de Deus que produz vida.

Quando Jesus ordena orar pelos perseguidores, ele aponta para sua própria prática. Na cruz, segundo Lucas 23,34, ele suplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estêvão, em Atos 7,60, repete esse gesto ao pedir que o pecado de seus algozes não lhes seja imputado. Aqui vemos a tradição apostólica encarnando o mandamento do Mestre. Pedro, em 1Pedro 3,9, exorta a não pagar mal por mal, mas a abençoar. João, em 1João 4,20, declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. O amor ao inimigo torna-se critério de autenticidade espiritual..A compreensão deste ensinamento exige uma antropologia realista. Gênesis 4 apresenta Caim incapaz de dominar a violência que bate à porta de seu coração. O ser humano, marcado pelo pecado, tende à rivalidade e à vingança. No entanto, já em Gênesis 50,20, José, traído pelos irmãos, reconhece que Deus pode transformar o mal em bem. Esta é a lógica do Reino. Romanos 5,8 afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Efésios 2,14 proclama que Cristo é nossa paz, aquele que derrubou o muro de separação e fez de dois povos um só. O amor aos inimigos não é idealismo ingênuo, mas participação na reconciliação cósmica inaugurada por Cristo.

No contexto contemporâneo, marcado por polarizações e discursos de ódio, a palavra de Jesus permanece provocativa. A sabedoria bíblica adverte contra a língua que fere. Provérbios 18,21 ensina que a morte e a vida estão no poder da língua. Tiago 3 compara a língua a um fogo capaz de incendiar florestas inteiras. Amar o inimigo implica também purificar a linguagem, romper com a violência simbólica, recusar a difamação e a mentira. Efésios 4,31-32 convida a afastar toda amargura e a ser bondoso e compassivo, perdoando como Deus nos perdoou em Cristo..A perfeição mencionada em Mateus 5,48 não é perfeccionismo moral, mas plenitude do amor. O termo grego teleios indica maturidade, completude. Em Gênesis 17,1 Deus diz a Abraão: anda na minha presença e sê íntegro. A integridade bíblica é totalidade de coração. Colossenses 3,14 afirma que o amor é o vínculo da perfeição. A maturidade cristã consiste em amar como o Pai ama. Não se trata de sentimentalismo, mas de decisão constante pela misericórdia.

A cruz permanece o centro desta pedagogia. Isaías 53 descreve o servo sofredor que não abre a boca diante dos que o oprimem e que carrega as iniquidades de muitos. Filipenses 2,5-8 mostra Cristo que se esvazia e assume a condição de servo. Hebreus 12,2 exorta a contemplar Jesus que suportou a cruz desprezando a vergonha. O amor aos inimigos encontra aqui sua fonte e seu critério. A Igreja, chamada a ser sinal e instrumento de unidade segundo Lumen Gentium, deve encarnar essa ética. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. Evangelii Gaudium recorda que a fé autêntica implica desejo de mudar o mundo. Fratelli Tutti insiste que ninguém se salva sozinho e que a fraternidade é caminho político e espiritual. Deus Caritas Est recorda que o amor é tarefa da comunidade inteira. O amor aos inimigos não é opção devocional, mas exigência estrutural do discipulado.

A crítica às espiritualidades centradas apenas no sucesso individual encontra base bíblica em Lucas 12,15, quando Jesus alerta contra toda ganância, e em Mateus 6,19-21, onde exorta a não acumular tesouros na terra. O Reino não é prosperidade egoísta, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo como afirma Romanos 14,17. Amar o inimigo rompe a idolatria do eu e desloca o centro para o outro..O discípulo que vive Mateus 5,43-48 torna-se sinal escatológico. Ele antecipa o tempo anunciado em Isaías 2,4, quando as espadas se transformarão em arados. Ele participa da visão de Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima e elimina a morte. Cada gesto concreto de perdão é semente desse futuro.

Diante dessa palavra, resta a pergunta que atravessa as Escrituras desde Miqueias 6,8: o que o Senhor pede de ti senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e caminhes humildemente com teu Deus. Amar o inimigo é caminho de cruz e ressurreição. É participar do mistério pascal. É deixar que o Espírito produza em nós o fruto descrito em Gálatas 5,22, amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Amar os inimigos é revolucionário: desafia meritocracia, lógica de poder e punição, polarização, discursos de ódio, exclusão social e religiosa. É educação ética, psicológica e espiritual, um caminho que transforma indivíduos, comunidades e sociedades. O Evangelho, proclamado na liturgia, é convite contínuo à conversão do coração, à vivência da misericórdia, à justiça restaurativa e à solidariedade com os marginalizados.

Assim, Mateus 5,43-48 não é conselho opcional, mas revelação do coração do Pai. É convite à conversão profunda, pessoal e comunitária. É chamado à maturidade espiritual e à responsabilidade histórica. É anúncio de que a última palavra não é o ódio, mas o amor que tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, como proclama 1Coríntios 13,7. E é certeza de que, permanecendo no amor, permanecemos em Deus, como assegura 1João 4,16.

Oração 

Senhor, ensina-nos a amar como Tu amas. Livra-nos da armadilha da indiferença e do ódio travestido de justiça. Que possamos viver o Evangelho com coragem profética, mesmo quando isso nos custar conforto, prestígio ou segurança. Que sejamos luz, sal e testemunho do Teu Reino, atuando na transformação do mundo pelo amor incondicional. Amém.

DNonato - Teólogo do cotidiano


sábado, 11 de fevereiro de 2023

Um Olhar no texto de Mateus 5,17-37.- 6º domingo do tempo comum

 


Na próxima semana já é o Carnaval e todos se preparam para curti um retiro, para sair na avenida e por ai vai, o Brasil ainda respira as estórias de Marco do Val, da prisão do tal Daniel ex-deputado e discussão se o Banco Central é independente etc, sem esquece que ainda temos  133 milhões de brasileiros que vivem a insegurança alimentar e a ainda  uma manobra política para não ter uma CPI dos atos do dia 8 de janeiro e ainda nos preocupa o sigilo  imposto para as imagens do dia 8 de janeiro. Contudo, se justificam das piores maneiras  esse pedido, falando que tal exposição pode comprometer a segurança dos prédios etc.  Esse mesmo discurso, foi feito pelo  presidente da república anterior para os seus sigilos  que tanto criticamos, são apenas detalhes nesse inicio de governo, sem esquecer os discursos negacionista que muitos ainda postam contra as vacinas.

A  presente ilustração acima é apenas um pano da realidade para entrarmos na liturgia desse domingo que é a seguinte: Eclesiástico  15,16-21;  Salmo 118(119),  com refrão . Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo;  I Coríntios  2,6-10  e o evangelho de Mateus  5,17-37.

Jesus ao subir a montanha nos apresentou as bem aventuranças e na semana passada nosso papel na realidade  e hoje ele apresenta o verdadeiro sentido da nossa pratica de fé, não podemos reduzir nossa vida a fila de comunhão, a culto de adoração ou apenas a leitura da Palavra, a nossa vivência no espaço eclesial deve ecoar nas diversas realidades que temos, ser cristão não é ser cumpridor de ritos, ser cristão é uma escolha livre, é uma adesão ao projeto de amor trazido por Jesus.  Não somos santos por  participar no altar da Eucaristia,  pois  Jesus se deu e se dá aos pecadores, esse é o projeto  de Deus, uma salvação plena da pessoa humana. 

Jesus traz para o seu contexto uma radicalidade que ultrapassa a ideiada letra morta, do rito externo e de forma direta Ele crítica a hipocrisia religiosa  revelando que o sagrado é maior que  a medíocre religiosidade de muitos que fazem as adaptações no rito  Que mesmo tenha recebido un litro de óleo na cabeça ou na mão  o não cumprimento dos mandamento a pessoa esta condenada ao inferno   Diante de Padres, Bispos  que fazem do seu ministério una atividade profissional,   que foge  da justiça, que se prevalece da pseudo autoridade, ferindo a justiça  a mensagem do evangelho de hoje os reduz sua consagração a religiosos vazios do sagrado, não são melhores aqueles comerciantes que somente visam o lucro e o retorno, fazendo financeiro fazendo verdadeiras concessões para manter a clientela

Todos rezamos o Pai nosso e pedimos que Deus nos livre o do mau, mas esquecemos o quanto mal somos em nossas praticas  na sociedade, quando alguém nos pede comida, algumas vezes logo os taxamos de vagabundo, de desocupado e não  olhamos e não combatemos  as causas dessa situação, durante 4 anos um grupo se fez de cego para todas as mazelas do Brasil, conseguiram ignorar a morte de mais de 750.000 pessoas  e minimizaram tal fato com as justificativas absurdas,  ate mesmo usando a bíblia  e com isso  deixando de cumprir o não mataras, sem mencionar a política armamentista para poder ter a justa ou igual reação diante do conflito. Jesus não foi um pacifista ideológico, Ele viveu essa realidade, não matar é a lei mas não continuar  o ciclo de violência  é uma atitude coerente para aquele que diz que segue Jesus. 

O adultério que tanto se fala, vivido por muitos e aqui neste contexto de uma sociedade patriarcal onde  hoje, tentam sempre incriminar, culpa as mulheres e usam até  a religião, pastores e padres que diante do parceiro violento das mulheres de suas Igrejas  são culpados por muitos casos de violências domesticas, a grande mídia ainda aponta a mulher como um objeto,  mesmo todos os avanços, ainda encontramos pessoas que tentam justificar os estupros e violência que uma mulher sofre, não reagir a violência não nos dar direito ao pecado de omissão diante do crime que sabemos que esta ocorrendo, sempre apontando as mulheres como culpadas por crimes de cunho sexual, isso que Jesus denúncia. Se a favor da família  não nos permite a covardia e omissão ou nos torna cego e surdo quando uma mulher pede socorro.  A lei de Moisés era dura, permitia o homem dar uma carta de divorcio a uma mulher e usavam a lei religiosa para justificar tal fato. Aqui que entra a lógica da justiça de superar a hipocrisia religiosa.  

Conhecemos pessoas que não deixam de confessar para os padres seus pecados toda semana, ainda aqueles que se pudessem confessava todos os dias, sabe acreditamos sim no sacramento da confissão mas questionamos o seu valor quando mantemos estrutura injusta, o perdão dos pecados envolve  reparar o mal feito, aquele políticos que estiveram envolvidos e corrupção grandes e pequenas deve reconhecer e  reparar o mal feito, acreditamos seriamente que não tem confissão que de fato lhe perdoe o pecado, a formula sacramental não é uma desculpa para errarmos e confessar e isso que Jesus nos ordena precisamos  reparar o mal feito, antes de prestar culto ao Senhor. Aqui vale a pena recorda das ofertas e doações que muitos políticos apresentam nas comunidades de fé para serem reconhecidos e  os  lideres religiosos  o trazem na frente fazem questão de dizer  nome dos mesmos, esses  precisam fazer uma  reflexão e uma confissão publica dos seus pecados diante de toda comunidades, pois muitos desses frutos doados não vem do seu salário,  pois aqui entra a máxima  de Mateus 6,2    

O evangelho de hoje é a parte mais dura para aquele que tomam o texto ao pé da letra.  A questão de arrancar o olho, amputar a mão.  Aqui vale pena recorda um fato quando um jovem afirmando que só fazia aquilo que a bíblia mandava mas o chamamos de mentiroso, pois se fizesse de verdade  estaria sem olho e sem mão, aqui é um aceno  para os religiosos que visam o apenas o fundamentalismo,  radical e extremista, o evangelho de Jesus não tem espaço para o meio termo, o como dizia  Bento XVI, a relatividade é um mal para o século. A Igreja não é uma escrava do modismo, de uma ideologia os tão pouco de um visão partidária, a Igreja é uma Mãe e uma Mãe que defende a vida     
Em resumo Jesus no inicio do capitulo 5 fala das alegrias, dos benditos, depois ele fala como age alguém que é bendito e aqui ele traz um desafio de romper com a religião vazia, sem compromisso com a justiça e com amor, a comunidade de Mateus tem sua origem no modelo judaica e por isso que autor sagrado toma como pano de fundo  o pleno cumprimento da lei,  Jesus não foi e não é um reformador  ou tão pouco um fundador de um grupinho. Ele motiva e  dar condições para que a comunidade caminhe  dentro de um projeto, ser cristão é mais que ser frequentador de Igreja, ter  essa ou aquela consagração, ser cristão envolve uma profunda intimidade com o Deus de amor, que supera as barreiras do preconceitos, dos aproveitadores da fé  alheia e o principal esta disposta  construir  novas relações.
 Para encerra deixamos uma fala do Papa Bento XVI

 

Ø  Estimados irmãos e irmãs!

Na Liturgia da Palavra deste domingo sobressai o tema da Lei de Deus, do seu mandamento: um elemento essencial da religião judaica e também da cristã, onde encontra o seu pleno cumprimento no amor (cf. Rm[1] 13, 10). A Lei de Deus é a sua Palavra que orienta o homem pelo caminho da vida, que o leva a sair da escravidão do egoísmo e o introduz na «terra» da verdadeira liberdade e da vida. Por isso, na Bíblia a Lei não é vista como um peso, um limite opressor, mas como o dom mais precioso do Senhor, o testemunho do seu amor paterno, da sua vontade de estar próximo do seu povo, de ser o seu Aliado e escrever com ele uma história de amor. Assim reza o israelita piedoso: «Hei-de deleitar-me nas vossas leis; / jamais esquecerei a vossa palavra. (...) Conduzi-me pelas sendas das vossas leis, porque nelas estão as minhas delícias» (Sl 119, 16.35). No Antigo Testamento, aquele que transmite ao povo a Lei em nome de Deus é Moisés. Depois do longo caminho no deserto, no limitar da terra prometida, ele exclama assim: «E agora, Israel, ouve as leis e os preceitos que hoje vos ensinarei. Ponde-os em prática para viverdes e tomardes posse da terra que o Senhor, Deus dos vossos pais, vos dará» (Dt 4, 1).

Eis o problema: quando o povo se estabelece na terra e é depositário da Lei, sente-se tentado a depositar a sua segurança e a sua alegria em algo que já não é a Palavra do Senhor: nos bens, no poder e noutras «divindades» que na realidade são vãs, são ídolos. Sem dúvida, a Lei de Deus permanece, mas já não é a realidade mais importante, a regra da vida; ao contrário, torna-se um revestimento, uma cobertura, enquanto a vida segue outros percursos, outras regras, interesses muitas vezes egoístas, individuais e de grupo. E assim a religião perde o seu sentido autêntico, que consiste em viver na escuta de Deus para cumprir a sua vontade — que é a verdade do nosso ser — e assim viver bem, na verdadeira liberdade, e reduz-se à prática de costumes secundários, que satisfazem sobretudo a necessidade humana de descarregar a consciência em relação a Deus. E este é um grave risco de cada religião, que Jesus observou na sua época, mas que se pode verificar, infelizmente, também na cristandade. Por isso, as palavras de Jesus no Evangelho de hoje contra os escribas e os fariseus devem fazer pensar também em nós. Jesus faz suas as palavras do profeta Isaías: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, pois, prestam-me culto, ensinando doutrinas e preceitos humanos» (Mc 7, 6-7; cf. Is 29, 13). E, depois, conclui: «Deixando de lado o mandamento de Deus, apegais-vos à tradição dos homens» (Mc 7, 8).

Também o apóstolo Tiago, na sua Carta, alerta para o perigo de uma religiosidade falsa. Ele escreve aos cristãos: «Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos» (Tg 1, 22). A Virgem Maria, à qual agora nos dirigimos em oração, nos ajude a ouvir a Palavra de Deus com um coração aberto e sincero, para que oriente todos os dias os nossos pensamentos, escolhas e obras.