No coração do discurso de despedida do Evangelho segundo Evangelho de João, a perícope de João 16,29-33 ocupa um lugar decisivo dentro da tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana, este texto é proclamado na segunda-feira da sétima semana da Páscoa, imediatamente antes da grande oração sacerdotal de Jesus narrada no capítulo 17 de João, dentro da caminhada espiritual que conduz a comunidade ao Pentecostes. A leitura surge exatamente quando a Igreja contempla a tensão entre ausência e promessa, entre cruz e ressurreição, entre medo humano e fidelidade divina. Nas tradições orientais históricas, especialmente na Igreja Ortodoxa, o texto é relido dentro da espiritualidade pascal que insiste na vitória do Ressuscitado sobre os poderes da morte e do caos. Em comunidades anglicanas, luteranas e reformadas históricas, João 16 aparece frequentemente ligado às leituras sobre perseguição, perseverança e esperança escatológica. A passagem, portanto, não é apenas memória da última ceia, mas anúncio permanente para uma Igreja chamada a atravessar a história sem abandonar a esperança. Precisamos lembrar sempre a mensagem de Jesus:
“No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo.” (Jo 16, 33)
O contexto imediato da narrativa revela uma atmosfera de despedida carregada de densidade espiritual. Desde João 13, após o lava-pés, Jesus conduz os discípulos a uma compreensão nova do discipulado. O Mestre que “sabia que o Pai tudo colocara em suas mãos” (Jo 13,3) ajoelha-se diante dos discípulos como servo, rompendo radicalmente com toda lógica de poder religioso ou político. O Reino anunciado por Jesus não se estrutura pela dominação, mas pela kenosis, pelo esvaziamento de si, conforme canta o antigo hino cristológico de Filipenses 2,6-11: “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo”. A pedagogia joanina conduz lentamente os discípulos a compreenderem que seguir Jesus significa participar desse movimento de entrega, abandono confiante e amor radical. Quando os discípulos afirmam “Agora falas claramente e não usas mais figuras” (Jo 16,29), demonstram acreditar que finalmente compreenderam o Mestre. Contudo, a resposta de Jesus possui força profundamente profética: “Credes agora? Eis que vem a hora em que vos dispersareis” (Jo 16,31-32). A pergunta de Cristo funciona quase como um espelho espiritual, revelando a fragilidade escondida por trás do entusiasmo religioso. Os discípulos creem sinceramente, mas ainda não passaram pela experiência da noite escura, ainda não atravessaram o escândalo da cruz anunciado em João 12,24: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica sozinho; mas se morre, produz muito fruto”.
Essa tensão percorre toda a Escritura. Em Êxodo 14, o povo afirma confiar em Deus ao sair do Egito, mas diante do Mar Vermelho entra em desespero. Em 1Reis 19, Elias, o grande profeta do Carmelo, foge aterrorizado para o deserto após ameaças de Jezabel. Em Jeremias 20, o profeta chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento diante da perseguição sofrida por causa da Palavra. Em Jonas 4, o profeta não suporta a misericórdia divina para com Nínive. A Bíblia inteira desmonta idealizações superficiais da fé, porque a experiência de Deus nunca elimina automaticamente a fragilidade humana; frequentemente a expõe, purifica e transforma. A antropologia bíblica presente em João 16 revela precisamente essa condição humana marcada por medo, dispersão e ambiguidade. Pedro promete fidelidade absoluta em João 13,37: “Darei minha vida por ti”. Poucas horas depois, negará Jesus diante de servos e soldados (Jo 18,15-27). A Escritura não esconde as fraquezas dos discípulos porque o Evangelho não é propaganda religiosa, mas revelação da graça agindo dentro da precariedade humana. Paulo compreenderá profundamente isso quando escreve em 2Coríntios 12,9: “Minha graça te basta, porque é na fraqueza que a força se manifesta plenamente”. No mundo antigo mediterrâneo, honra e vergonha eram categorias sociais fundamentais. Ser abandonado pelos discípulos às vésperas da prisão representava humilhação extrema. Contudo, Jesus não constrói sua identidade sobre aprovação social. “Não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Mesmo cercado pela solidão humana, Cristo permanece em comunhão com o Pai, recordando o Salmo 27,10: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá”.
A palavra “mundo” em João 16,33 possui enorme densidade teológica. O termo grego kosmos aparece no quarto Evangelho tanto como realidade amada por Deus quanto como sistema que rejeita a luz. “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16), mas também “o mundo os odiou porque eles não são do mundo” (Jo 17,14). O “mundo” que Cristo vence não é a criação em si, mas a ordem histórica organizada contra o projeto do Reino, sustentada por estruturas de violência, mentira, exploração e idolatria denunciadas pelos profetas. Jesus vive sob o domínio do Império Romano, sistema sustentado por militarismo, tributação opressiva e concentração de poder. A chamada pax romana era garantida pela espada, e as crucificações públicas funcionavam como instrumentos de terror político. Nesse contexto, anunciar um Reino baseado no amor aos inimigos (Mt 5,44), no perdão (Lc 23,34) e na misericórdia representava profunda subversão histórica. Quando Jesus diz “Eu venci o mundo”, não fala como César ou qualquer conquistador imperial. Sua vitória acontece precisamente na cruz, lugar máximo da humilhação social..A cruz, para judeus e romanos, era escândalo absoluto. Deuteronômio 21,23 afirmava: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro”. Para Roma, crucificados eram inimigos do império. Contudo, Deus transforma exatamente o instrumento de vergonha em sinal de redenção. Aqui se cumpre a lógica paradoxal já anunciada em Isaías 53, onde o Servo Sofredor carrega as dores do povo. O triunfo de Cristo não se constrói sobre cadáveres alheios, mas sobre a própria entrega. Isso desmonta radicalmente toda teologia do domínio, toda espiritualidade de conquista e toda ideologia religiosa que busca legitimar poder através da violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus afirma claramente: “Os chefes das nações as dominam... entre vós não deverá ser assim”. O Evangelho estabelece oposição direta entre a lógica imperial e a lógica do Reino. Contudo, ao longo da história, setores cristãos frequentemente traíram essa palavra, aliando-se a projetos de dominação política, colonialismo e exclusão social. Hoje, em muitos contextos, símbolos cristãos são instrumentalizados por movimentos autoritários e extremistas que promovem intolerância, armamentismo, nacionalismo excludente e ódio ideológico. O nome de Jesus é utilizado para justificar violência contra pobres, migrantes, indígenas, negros, mulheres e minorias sociais. Tal deformação representa profunda negação do Evangelho.
Em Mateus 25,31-46, Cristo se identifica explicitamente com os famintos, presos, estrangeiros e marginalizados. O critério do juízo final não é identidade religiosa formal, mas prática concreta da misericórdia. “Tive fome e me destes de comer.” O Jesus dos Evangelhos não legitima projetos de supremacia religiosa ou cultural. Ele se aproxima dos leprosos (Mc 1,40-45), conversa com samaritanos (Jo 4), acolhe pecadores públicos (Lc 19,1-10), defende mulheres marginalizadas (Jo 8,1-11) e denuncia hipocrisias religiosas (Mt 23). A sociologia da religião ajuda a compreender como instituições religiosas podem tornar-se instrumentos de controle social quando se afastam da lógica profética. Em Amós 5,21-24, Deus rejeita cultos vazios desconectados da justiça: “Quero ver o direito brotar como fonte”. Isaías 58 denuncia jejuns que ignoram a opressão dos pobres. Miqueias 6,8 resume a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus”. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética. Sua crítica ao Templo em Marcos 11,15-17 não é rejeição da espiritualidade, mas denúncia de uma religião transformada em mercado e mecanismo de exploração.
Essa crítica permanece profundamente atual diante da mercantilização contemporânea da fé. A teologia da prosperidade transforma Deus em garantidor de sucesso financeiro. O sofrimento é interpretado como fracasso espiritual. A pobreza deixa de ser consequência de estruturas injustas e passa a ser apresentada como falta de fé. Tal lógica contradiz frontalmente o Evangelho. Em Lucas 6,20, Jesus proclama: “Felizes vós, os pobres”. Em Tiago 2,5, lemos: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé?”. O Novo Testamento inteiro insiste na centralidade dos pequenos e vulneráveis. A tradição da Igreja retomou continuamente essa dimensão social do Evangelho. O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. A Lumen Gentium recorda que a Igreja é povo peregrino, não estrutura de poder autossuficiente. A Evangelii Gaudium denuncia “uma economia que mata”. Em Laudato Si', o Papa Francisco relaciona crise ambiental e injustiça social, mostrando como os pobres são os primeiros a sofrer as consequências da destruição da criação. Os documentos do CELAM aprofundam essa consciência histórica. Medellín denunciou estruturas de pecado presentes na América Latina. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida insistiu numa Igreja missionária em saída. A CNBB frequentemente recorda que evangelizar implica compromisso concreto com dignidade humana, justiça social e defesa da vida. João 16,33 ressoa profundamente nesse horizonte: “No mundo tereis tribulações”. Jesus não promete imunidade ao sofrimento; prepara os discípulos para perseguições. Em João 15,20 já advertira: “Se perseguiram a mim, também perseguirão a vós”. Paulo e Barnabé repetirão em Atos 14,22: “É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus”. O discipulado cristão jamais foi caminho de triunfalismo confortável. A cruz permanece centro incontornável da fé.
A psicologia contemporânea reconhece que sociedades marcadas por insegurança e medo frequentemente buscam líderes autoritários e discursos religiosos simplificadores. O fundamentalismo oferece respostas fáceis para realidades complexas. Contudo, o Evangelho conduz exatamente no sentido contrário. Jesus não manipula multidões pelo medo. Ele convida à liberdade interior. Em João 8,32 afirma: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A verdade do Evangelho nunca serve à opressão; sempre conduz à dignidade humana. Também o clericalismo constitui profunda deformação do discipulado. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que quem quiser ser o primeiro deve tornar-se servo de todos. Contudo, ao longo da história, estruturas eclesiais frequentemente reproduziram modelos autoritários. O Papa Francisco insiste repetidamente que o clericalismo infantiliza o povo de Deus e transforma ministério em privilégio. O lava-pés de João 13 continua sendo correção permanente contra qualquer espiritualidade de poder.
A geografia simbólica do Evangelho também ilumina a reflexão. Jerusalém representa simultaneamente centro da fé e lugar da rejeição profética. Jesus sobe conscientemente para Jerusalém sabendo o que o espera. Em Lucas 13,34 lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas”. A cidade santa torna-se símbolo ambíguo da humanidade capaz de acolher e rejeitar Deus. Essa ambiguidade continua presente em toda experiência religiosa contemporânea. Igrejas podem tornar-se espaços de libertação ou mecanismos de opressão. A figura de Maria aos pés da cruz em João 19,25 possui enorme força espiritual. Enquanto muitos fogem, ela permanece. Maria encarna a fidelidade silenciosa que resiste mesmo sem compreender plenamente o mistério. Sua presença recorda as mulheres discípulas mencionadas em Marcos 15,40-41, que permanecem próximas de Jesus quando quase todos os outros desapareceram. A espiritualidade cristã autêntica nasce dessa permanência amorosa junto aos crucificados da história.
Hoje, os crucificados continuam presentes. Crianças famintas, povos indígenas expulsos de suas terras, refugiados atravessando fronteiras, jovens negros mortos nas periferias, mulheres vítimas de violência, idosos abandonados, trabalhadores explorados, vítimas do tráfico humano e da devastação ambiental. Em Mateus 25, Cristo continua dizendo: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes”. Não existe espiritualidade pascal sem solidariedade histórica. Paulo escreve em Romanos 8,35-39: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição?”. A resposta é profundamente joanina: nada pode destruir a comunhão inaugurada pelo Ressuscitado. Contudo, essa esperança não produz alienação. Pelo contrário, gera compromisso radical com a transformação da realidade. Em Tiago 2,17 lemos: “A fé sem obras é morta”. O Evangelho jamais permite separar espiritualidade de justiça. A vitória de Cristo sobre o mundo não significa fuga da história, mas transfiguração da história. Em Apocalipse 21, João contempla “um novo céu e uma nova terra”. A esperança cristã aponta para plenitude futura, mas já começa agora em cada gesto de misericórdia, justiça e reconciliação. Cada vez que alguém escolhe o amor em vez do ódio, a partilha em vez da acumulação, o perdão em vez da vingança, a vida em vez da violência, o Reino se manifesta silenciosamente. Por isso, João 16,29-33 continua sendo palavra profundamente necessária para nosso tempo. Vivemos uma época marcada por crises múltiplas: colapso ambiental, desigualdade extrema, polarização política, manipulação digital, fundamentalismos religiosos e perda de sentido existencial. Muitos procuram salvadores autoritários, messianismos políticos ou espiritualidades narcísicas incapazes de enfrentar a dor do mundo. Contudo, Cristo continua dizendo: “Tende coragem! Eu venci o mundo”. Essa coragem não nasce da arrogância dos vencedores, mas da esperança dos que permanecem fiéis em meio à escuridão. É a coragem de Maria junto à cruz, a coragem de Pedro restaurado após negar o Mestre, a coragem de Paulo preso cantando hinos na prisão (At 16,25), a coragem dos mártires antigos e contemporâneos, a coragem dos pobres que continuam lutando por dignidade, das mães que enterram filhos vítimas da violência estrutural, de quem resiste ao ódio sem abandonar a ternura. No fim, a pergunta de Jesus permanece ecoando sobre toda a Igreja e sobre cada discípulo: “Credes agora?”. Não como condenação, mas como convite à profundidade. A fé verdadeira nasce quando desaparecem as ilusões triunfalistas e resta apenas a confiança perseverante naquele que atravessou a morte sem abandonar o amor. O Ressuscitado continua carregando as marcas dos cravos porque a glória cristã nunca apaga a memória dos crucificados.
Que não sejamos uma comunidade fascinada pelo poder, mas apaixonada pelo Reino. Que não troquemos o Evangelho pela idolatria política, econômica ou ideológica. Que não transformemos Jesus em bandeira de guerra cultural. Que sejamos capazes de permanecer junto aos feridos da história como o próprio Cristo permaneceu conosco. Porque somente quem atravessa a cruz com o Senhor compreenderá verdadeiramente o sentido de sua vitória. E então perceberemos que vencer o mundo não significa dominar pessoas, acumular riquezas ou conquistar influência, mas permanecer fiel ao amor até o fim. Como escreveu Paulo em Gálatas 2,20: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. A verdadeira vitória cristã acontece quando o amor do Crucificado começa a transformar nossas relações, nossas comunidades e nossa própria história.
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DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.


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