quarta-feira, 21 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 15,9-11

“Como o Pai me amou, assim eu vos amei. Permanecei no meu amor.” (Jo 15,9)
O trecho de João 15,9-11 insere-se no chamado discurso da videira verdadeira, que ocupa o coração da última ceia na tradição joanina. Na liturgia da Igreja Católica romana, esse texto é proclamado de modo recorrente no tempo pascal, especialmente no VI Domingo da Páscoa do Ano B, na quinta-feira da quinta semana do Tempo Pascal e também em celebrações feriais do mesmo período, quando a comunidade cristã contempla a intimidade de Jesus com seus discípulos antes da paixão. Nas tradições das Igrejas antigas do Oriente e do Ocidente, ainda que com variações de lecionários, este conjunto de palavras de Jesus é sempre associado ao tempo pascal, quando a Igreja relê a vida do Ressuscitado como permanência de amor que nasce da cruz e se desdobra na vida comunitária. No horizonte mais amplo da espiritualidade cristã, este texto também ecoa na Liturgia das Horas e em celebrações monásticas, onde a imagem da videira e dos ramos sustenta uma teologia da comunhão contínua com Cristo.
Esse não é um conselho piedoso. É uma convocação insurgente. É como se Jesus dissesse: "Permanecei na contramão, quando o ódio for lei. Permanecei na partilha, quando a lógica for o acúmulo. Permanecei no abraço, quando tudo gritar pelo muro. Permanecei no amor, quando a religião servir ao trono e não à cruz."
Aqui, o amor não é ideia abstrata. É carne, é corpo, é chão. O amor de Jesus sangra com os feridos de Gaza, com os indígenas expulsos de suas terras, com os pobres humilhados pelas filas do osso e pelas filas da fé. É o amor que arde e se doa, como o fogo da sarça (Ex 3,2), que consome sem destruir. Amar, para Jesus, é permanecer fiel quando tudo desaba. É continuar levantando caídos, mesmo quando a estrutura inteira empurra para o chão.
Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja plena.” (Jo 15,11)
Mas que alegria é essa, que nasce no meio do conflito? É a alegria do Cristo que chora, mas não desiste. É a alegria de quem carrega a cruz não por prazer, mas por fidelidade. É a alegria que se encarna na memória de Irmã Dorothy Stang, que andava pelos igarapés da Amazônia com a Bíblia em uma mão e os direitos dos pobres na outra. Foi assassinada por anunciar que a terra é dom de Deus, não mercadoria para poucos. Suas últimas palavras foram: “Este é o Evangelho de Jesus Cristo.” Ela permaneceu no amor — até a morte. Essa é a alegria plena que brota quando o Reino acontece: no gesto de partilha, no abraço ao doente, no perdão que desmonta o ódio.
Desde o Gênesis, sabemos: “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18). A solidão imposta é violência. O Evangelho denuncia toda lógica que divide, segrega, hierarquiza. A antropologia bíblica nos lembra que não existimos fora da relação. E toda relação que não passa pelo amor, torna-se dominação. O neoliberalismo, com sua meritocracia cruel, mata antes de matar. Primeiro retira o nome; depois, a dignidade; por fim, a vida. Jesus, ao dizer “permanecei no meu amor”, está dizendo: “Permanecei humanos. Permanecei livres. Permanecei inteiros, mesmo que tudo vos tente destruir.” 
Esse enquadramento litúrgico não é mero dado organizacional, mas chave hermenêutica. A Igreja, ao colocar esse texto no coração do tempo pascal, interpreta a ressurreição não como suspensão da história, mas como intensificação da presença do amor no interior das contradições do mundo. A Páscoa, nesse sentido, não é fuga, mas permanência. Não é evasão da realidade, mas entrada mais profunda nela. É nesse horizonte que as palavras de Jesus devem ser escutadas: “Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9).
O contexto joanino é decisivo para compreender essa afirmação. O Evangelho de João nasce de uma comunidade marcada por conflito, deslocamento e reinterpretação da fé após a destruição do templo e a reorganização do judaísmo rabínico. Trata-se de um cristianismo em situação liminar, que precisa redefinir sua identidade sem perder a memória de Jesus. O discurso da videira verdadeira (Jo 15,1-17), inserido no bloco da última ceia (Jo 13–17), responde a essa crise oferecendo uma chave existencial: permanecer.
O verbo permanecer, no grego menō, atravessa todo o Evangelho como categoria teológica fundamental. Ele não indica apenas continuidade temporal, mas habitação mútua, permanência vital, enraizamento ontológico. Permanecer no amor, portanto, não é aderir a uma norma externa, mas habitar uma forma de vida que reconfigura toda a existência. O amor, aqui, não é sentimento psicológico nem virtude moral isolada, mas realidade trinitária comunicada historicamente.
Esse amor tem origem no Pai, manifesta-se no Filho e é participado pelos discípulos. Trata-se de uma estrutura relacional que rompe qualquer leitura individualista da fé. Nesse sentido, João não apresenta apenas uma ética do amor, mas uma ontologia da comunhão. A vida cristã não é definida pelo que o sujeito faz isoladamente, mas pelo lugar que ocupa nessa circulação de amor.
O pré-texto imediato reforça essa radicalidade. Em João 13, Jesus lava os pés dos discípulos, gesto que subverte as hierarquias do mundo mediterrâneo antigo, estruturado por códigos rígidos de honra e vergonha. O mestre assume a posição do servo, redefinindo autoridade como serviço. Em seguida, anuncia a traição e a dispersão, indicando que a comunidade será atravessada pela fragilidade, pela violência e pela ruptura. O discurso da videira não idealiza a comunidade, mas a insere em um processo de permanência em meio ao colapso.
A imagem da videira com texto proclamado ontem que tem profundo enraizamento bíblico. Em Isaías 5, Israel é descrito como vinha plantada por Deus, mas que produz frutos de injustiça. O Salmo 80 retoma essa imagem em tom de lamento, pedindo restauração. Jesus, ao afirmar ser a videira verdadeira, não nega essa tradição, mas a cumpre em si mesmo. Ele assume o lugar de Israel como mediação viva da aliança. A pertença a Deus não se dá mais por mediação institucional ou étnica, mas por incorporação vital em Cristo.
No mundo agrícola do Mediterrâneo antigo, a videira era cultura central, exigindo cuidado constante, poda rigorosa e vigilância permanente. A metáfora não é decorativa, mas estrutural. Ela indica que a vida espiritual não é espontânea no sentido superficial, mas processo contínuo de formação, purificação e fidelidade. A poda, mencionada no início do discurso da videira, indica que a fecundidade nasce da perda e do discernimento.
A antropologiaxs bíblica que sustenta esse texto rejeita qualquer concepção de indivíduo isolado. Desde o Gênesis, a existência humana é relacional: “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18). A solidão é apresentada como condição de ruptura, não como ideal de autonomia. O pecado, nesse horizonte, não é apenas transgressão moral, mas destruição da comunhão. Caim e Abel (Gn 4,8-10) tornam-se paradigma da violência que nasce quando o vínculo é rompido.
Quando Jesus diz “permanecei no meu amor”, ele está oferecendo uma alternativa histórica a essa lógica de ruptura. Trata-se de permanecer humano em um mundo que constantemente desumaniza. Essa permanência não é passividade, mas resistência ativa contra forças que fragmentam a vida.
A tradição sinótica reforça essa centralidade do amor como núcleo da revelação. Em Mateus 22,37-40, o amor a Deus e ao próximo resume toda a Lei. Em Lucas 10, o próximo é redefinido como aquele que se aproxima na ferida, independentemente de fronteiras religiosas ou culturais. Em Marcos 12, o amor aparece como critério hermenêutico de toda Escritura. João, porém, radicaliza essa tradição ao transformar o amor em esfera de existência: não apenas agir por amor, mas permanecer nele.
“Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). Essa alegria não é emoção superficial nem ausência de conflito. É uma alegria escatológica, nascida da cruz e iluminada pela ressurreição. Trata-se de uma alegria que não elimina o sofrimento, mas o atravessa com sentido. Ela desafia tanto o niilismo contemporâneo quanto formas religiosas que prometem plenitude sem transformação da realidade.
A história da Igreja testemunha essa permanência no amor em figuras que encarnaram o Evangelho em situações extremas. Irmã Dorothy Stang, na Amazônia, compreendeu que defender os pobres da terra era inseparável da fidelidade a Cristo. Oscar Romero, em El Salvador, percebeu que não podia separar o altar do sofrimento do povo assassinado. Ambos revelam que o amor joanino não é abstração, mas história ferida assumida como lugar teológico.
A tradição latino-americana aprofundou essa leitura ao afirmar a opção preferencial pelos pobres como eixo hermenêutico da fé. Medellín, Puebla e Aparecida insistem que a Igreja só é fiel ao Evangelho quando se coloca ao lado dos excluídos. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, já havia afirmado que as alegrias e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação desloca a eclesiologia de uma estrutura fechada para uma presença encarnada na história.
Nesse horizonte, torna-se inevitável a crítica às formas de religião que se afastam da lógica do Evangelho. O clericalismo, enquanto deformação da autoridade, transforma serviço em privilégio e obscurece a dimensão servidora da Igreja. Jesus, ao lavar os pés, desmantela qualquer pretensão de poder religioso separado da vida concreta do povo. Da mesma forma, o uso da fé como instrumento político-partidário representa uma traição ao Evangelho, quando este é reduzido a legitimação de projetos de poder.
O profeta Amós já havia denunciado essa dissociação entre culto e justiça: “Odeio vossas festas… que o direito corra como água” (Am 5,21-24). A teologia da prosperidade, ao associar fé a sucesso econômico, inverte a lógica da cruz e esvazia o escândalo do Evangelho. Paulo já advertia que a cruz é loucura para o mundo (1Cor 1,18), mas é nela que se revela a sabedoria de Deus.
No contexto contemporâneo, marcado por desigualdade estrutural, violência social, crise ambiental e manipulação religiosa, o texto de João 15 torna-se palavra crítica. Permanecer no amor significa resistir a sistemas que produzem descartabilidade humana. Significa recusar a normalização da injustiça. Significa reconhecer que a fé cristã não pode ser neutra diante do sofrimento dos povos.
A  fé não deve  se articula com estruturas de poder. Ela pode legitimar dominação ou alimentar emancipação. Por isso, o Evangelho permanece como instância crítica permanente de qualquer ordem social. A antropologia cultural revela que sociedades organizam seus valores em torno de centros simbólicos. No cristianismo, esse centro não é o poder, mas a cruz, isto é, a entrega da vida como expressão de amor.
É preciso  compreender que permanecer no amor é também um processo de integração do sujeito em meio à fragmentação contemporânea. Em sociedades marcadas pela aceleração e pela competição, essa permanência se torna espaço de reconstrução do sentido. Contudo, no Evangelho, essa reconstrução não se fecha no interior do sujeito, mas se abre à transformação do mundo.
Os documentos do Magistério e a tradição pastoral latino-americana insistem que a fé deve se traduzir em compromisso histórico com a dignidade humana. A Igreja, quando fiel ao Evangelho, não se organiza como poder, mas como serviço; não como exclusão, mas como comunhão; não como domínio, mas como presença solidária.
No centro de tudo permanece a palavra de Jesus: “Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). Permanecer aqui não é estabilidade estática, mas fidelidade dinâmica em meio às contradições da história. É permanecer quando o mundo convida à desistência. É permanecer quando a violência parece triunfar. É permanecer quando a religião se corrompe. É permanecer quando tudo parece negar o amor.
E é justamente nesse permanecer que se revela a alegria prometida. Não a alegria da ausência de dor, mas a alegria da presença de sentido. Não a alegria da vitória sobre o outro, mas da comunhão que resiste. Não a alegria que se encerra em si mesma, mas a que se torna força histórica de transformação.
Assim, João 15,9-11 não é apenas texto para contemplação, mas convocação existencial e histórica. Ele chama a Igreja e cada comunidade cristã a reencontrar sua identidade no amor que permanece, no serviço que se doa e na esperança que resiste. Permanecer no amor é permanecer humano quando tudo desumaniza, permanecer fiel quando tudo fragmenta e permanecer no caminho de Cristo quando o mundo escolhe outros senhores..
Francisco, o bispo de Roma que agora repousa no seio dos pobres de Deus, viveu o Evangelho com os pés sujos de mundo. Denunciou a “economia que mata”, abraçou os migrantes, lavou os pés de presidiários, gritou contra o clericalismo, enfrentou os fariseus de farda e terno. E mesmo cercado de lobos, permaneceu no amor.  Num tempo em que igrejas se tornavam balcões e pastores se faziam CEOs, Francisco ousou lembrar que Jesus nasceu entre animais, morreu entre bandidos e ressuscitou entre covardes. E mesmo assim, não desistiu da humanidade.  
 “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12)
Amar como Ele amou é recusar-se a aceitar o mundo como está. É plantar beleza onde reina o concreto. É dizer não ao racismo, ao machismo, à homofobia, ao fascismo. É não permitir que a religião seja cúmplice do ódio. É viver como sarça viva: ardendo, resistindo, iluminando.
E se for preciso perder tudo para não perder o amor — então que tudo se perca. Porque só o amor permanece. Só o amor liberta. Só o amor salva.
 “Se não tiver amor, nada sou.” (1Cor 13, 1
DNonato  - Graduado  em História, teólogo  do cotidiano 


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