quarta-feira, 21 de maio de 2025

Um outro olhar sobre João 15,1-8

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.” (Jo 15,1)

 

A perícope  de João 15,1-8  que ja refletimos  em 2023 e tem texto aqui no blog,  fala da realidade   quando a Igreja celebra não apenas um evento, mas a irrupção definitiva da vida sobre a morte, esta palavra se impõe como eixo estruturante da existência cristã. Proclamada no 5º Domingo da Páscoa do Ano B e retomada na  quinta semana pascal, ela não ressoa como simples lembrança, mas como critério vital que orienta a compreensão da fé vivida. Inserida no dinamismo litúrgico que conduz a comunidade do encontro com o Ressuscitado à maturidade da comunhão, essa afirmação revela que a vida nova não é autossustentável nem individualista. Aqui não se trata de uma metáfora ornamental, mas de uma verdadeira chave hermenêutica e eclesiológica: ser Igreja é participar de um organismo vivo, cuja raiz é Cristo, cujo cultivo pertence ao Pai e cuja seiva é o Espírito. Fora dessa comunhão, toda pretensão religiosa se esvazia, tornando-se prática estéril, expressão de um culto sem vida e de uma fé desconectada da realidade concreta do Reino foi escrito para uma comunidade em crise, abalada por perseguições e ameaçada pela exclusão das sinagogas (cf. Jo 9,22). Essa ruptura não era apenas religiosa, mas social, identitária e existencial. Diante da tentação do medo e da dispersão, o texto surge como consolo e desafio. Permanecer em Jesus, a videira verdadeira, é o caminho para resistir e frutificar. Em contraste com Israel, frequentemente representado como uma videira infiel (cf. Is 5,1-7; Jr 2,21), Jesus se apresenta como o novo centro da aliança, substituindo o Templo por sua própria presença viva (cf. Jo 2,19-21). Essa fala de Jesus não surge no vazio. Ela está inserida nos discursos de despedida (Jo 13–17), após o lava-pés, gesto que redefine o poder como serviço, e após o mandamento do amor, que estabelece o critério da vida cristã. Há um movimento orgânico que une servir, amar, permanecer e frutificar. O verbo permanecer, do grego ménō, indica habitar, enraizar-se e perseverar. Não se trata de imobilidade, mas de uma permanência dinâmica, relacional e transformadora. Permanecer em Cristo é participar de sua própria relação com o Pai (cf. Jo 15,9-10).

Estamos no Tempo Pascal, e essa Palavra nos convoca a reconhecer que a seiva do Ressuscitado continua a circular na história. Essa seiva é o Espírito prometido (cf. Jo 14,16-17), que purifica, fortalece e fecunda a existência. Permanecer em Cristo é deixar-se atravessar por essa vida que vem de Deus e se manifesta em gestos concretos de amor e justiça. A simbologia do texto revela uma profundidade que atravessa a experiência humana: 

  •  A videira é sinal de comunhão, fertilidade e promessa messiânica. 
  • Os ramos somos nós, seres interdependentes, cuja vida depende da ligação com a fonte. 
  • Os frutos expressam a ética do Reino, traduzida em justiça, solidariedade, misericórdia e dignidade (cf. Is 5,7)
  • . A poda é a ação pedagógica e amorosa de Deus que remove o que impede o florescimento do bem.

O ser humano é estruturalmente relacional. Nascemos e crescemos em vínculos. Um ramo desligado da videira não apenas enfraquece, ele morre. A psicologia confirma que a ausência de vínculos profundos gera sofrimento e fragmentação. A cultura contemporânea, centrada no individualismo, cultiva a ilusão da autossuficiência, mas o resultado são vínculos frágeis, espiritualidade superficial e comunidades desintegradas. Vivemos em uma modernidade líquida, onde tudo se torna descartável, inclusive os afetos e a fé. A religião corre o risco de se transformar em mercadoria, algo que se consome e não algo que se vive. A metáfora da videira confronta essa lógica ao afirmar que a vida verdadeira exige permanência, enraizamento e fidelidade.

É nesse cenário que se insere o fenômeno dos bebês reborn. Não se trata apenas de um comportamento isolado, mas de um sintoma de uma crise relacional mais profunda. Em alguns contextos pode ter valor terapêutico, mas em muitos casos revela a tentativa de substituir a relação viva por um simulacro controlável. Somos tentados a nos conectar com o que não exige reciprocidade. Essa realidade ecoa a advertência de Paulo. Têm aparência de piedade, mas negam-lhe o poder (2Tm 3,5). Essa substituição também ocorre no campo da fé. Comunidades inteiras podem preferir um Cristo moldado às suas ideologias, em vez do Cristo verdadeiro que questiona, desinstala e chama à conversão. Permanecer na videira implica aceitar esse processo de transformação, que não é confortável, mas é vital.

Essa crítica pode ser iluminada também por uma narrativa simbólica contemporânea. Na obra O Mundo de Krypton da década de 80 do século  XX, obra  de John Byrne,  que conta a história  de uma civilização altamente desenvolvida, que  colapsa não por falta de tecnologia, mas por ausência de vínculos afetivos e comunitários. O isolamento e o orgulho racionalista produzem esterilidade relacional. Sem comunhão, até civilizações morrem. A lógica do controle destrói o futuro, enquanto o cuidado sustenta a vida. Nosso tempo, de muitas formas, repete esse roteiro. Um sistema orientado pelo lucro e pela competição transforma pessoas em mercadorias, relações em transações e a natureza em recurso explorável. Jesus confronta essa lógica ao expulsar os vendedores do Templo (cf. Jo 2,13-17). O sagrado não pode ser reduzido a comércio. Quando a fé se torna instrumento de poder ou lucro, ela perde sua seiva.

A tradição da Igreja retoma essa denúncia ao afirmar que uma economia que exclui e mata é incompatível com o Evangelho e ao recordar que tudo está interligado. A imagem da videira ganha, assim, uma dimensão ecológica e social. O Deus agricultor deseja uma vinha que produza vida para todos, não um sistema que concentre frutos em poucos e deixe muitos na fome.

É necessário discernir o uso da religião em projetos de poder que geram exclusão e violência. A advertência de Mt 7,21 permanece como critério. Não basta invocar o nome de Deus, é necessário viver sua vontade, que se manifesta na prática da justiça e da misericórdia. O Cristo da cruz não se alinha com discursos de ódio nem com fundamentalismos que reduzem o Evangelho a ideologia. Os Evangelhos mostram Jesus curando no sábado, comendo com pecadores e rompendo exclusões. Em Mt 21,33-43, a parábola da vinha denuncia a rejeição do projeto de Deus. Em João, essa mesma imagem é aprofundada como convite à comunhão. A vinha julgada se torna videira vivificante.

Outro ramo que precisa ser podado é o clericalismo. Quando o ministério se transforma em espaço de poder e privilégio, desconectado da vida do povo, perde sua seiva. A Igreja é chamada a ser comunhão e não uma estrutura fechada. A corresponsabilidade de todos os fiéis expressa essa dinâmica viva. No contexto marcado por desigualdade, essa reflexão se torna ainda mais urgente. Permanecer em Cristo implica compromisso com a vida concreta dos pobres e excluídos. O fruto esperado não é prestígio institucional, mas dignidade restaurada.

A Palavra não termina na denúncia, ela se abre à esperança. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto (Jo 15,5). Permanecer é enraizar-se na Palavra, na oração e na prática da justiça. É deixar que o amor se torne critério de vida. Como no Cântico dos Cânticos, onde a videira simboliza o amor fecundo (cf. Ct 2,13), somos chamados a uma espiritualidade viva, ousada e comprometida com a transformação do mundo. A poda pode doer, mas é necessária. Ela não é castigo, mas cuidado, e produz fruto de justiça (cf. Hb 12,11).

Frutificar hoje é resistir. Resistir ao ódio que desumaniza, à indiferença que mata lentamente, à superficialidade que esvazia o sentido e à fé domesticada que já não incomoda nem transforma. Permanecer em Cristo não é refúgio passivo, mas adesão ativa a uma vida enraizada no amor e comprometida com a missão. Em um mundo fragmentado, a videira reúne o que foi disperso; em uma cultura marcada pela esterilidade das relações utilitaristas, ela devolve a fecundidade que brota do dom de si.

“Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos” (Jo 15,8). Aqui não há espaço para uma espiritualidade intimista ou alienante. A glória de Deus não se revela no espetáculo religioso, mas na vida que floresce em meio às contradições da história. Permanecer na videira é consentir que a seiva do Ressuscitado circule nas estruturas concretas da existência, traduzindo-se em práticas de justiça que confrontam a opressão, em misericórdia que restaura o humano ferido e em cuidado que rompe com a lógica do descarte..Assim, a fé deixa de ser discurso e se torna carne, história e compromisso. E o discípulo, longe de uma religião vazia ou cúmplice do poder, torna-se sinal vivo de uma esperança que resiste, insiste e transforma. Frutificar, portanto, é tornar visível, no hoje da história, a vida nova que brota da Páscoa e insiste em florescer mesmo nos terrenos mais áridos.

DNonato  - Graduado  em História, teólogo  do cotidiano 



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