Mostrando postagens com marcador cura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,32-38


O Olhar que Cura e Envia: A compaixão que denuncia e convoca à missão

O Evangelho de Mateus 9,32-38 é proclamado na terça-feira da 14ª Semana do Tempo Comum. A mesma temática da compaixão pastoral de Jesus e do chamado à missão encontra paralelos nos demais sinóticos. Em Marcos 6,34-44, proclamado na terça-feira depois da Epifania, contemplamos Jesus que, ao ver a multidão "como ovelhas sem pastor", começa a ensiná-la e, em seguida, multiplica os pães, revelando que a misericórdia de Deus alimenta tanto a alma quanto o corpo. Já Lucas 10,1-12.17-20 é proclamado no 14º Domingo do Tempo Comum – Ano C, quando Jesus envia os setenta e dois discípulos e lhes dirige as mesmas palavras que ecoam em Mateus: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Lc 10,2). A liturgia, ao distribuir essas passagens ao longo do Ano Litúrgico, apresenta uma verdadeira pedagogia da missão. Nos três Evangelhos, Jesus vê a realidade com os olhos da misericórdia, deixa-se tocar pelo sofrimento humano e transforma a compaixão em ação evangelizadora. Seu olhar alcança os silenciados, os feridos e os dispersos, revelando o rosto de um Deus que não permanece indiferente diante da dor do seu povo. Mais do que recordar acontecimentos do passado, essas proclamações convidam a Igreja de todos os tempos a discernir os sinais da história e a responder com uma fé encarnada, missionária e comprometida com a justiça, para que o Reino de Deus continue a tornar-se visível no meio da humanidade.

Diante de um mundo fragmentado, onde as vozes se perdem em meio ao ruído e os corpos carregam os sinais de uma exaustão que vai além do físico, o Evangelho de Mateus 9,32-38 se apresenta como um sopro de lucidez e esperança. Nele, contemplamos Jesus não como um mero mestre de palavras, mas como aquele que se aproxima, que vê, que sente e age. Seu olhar é o início de toda cura. Um olhar que não se limita à superfície, mas que penetra as entranhas da condição humana  um olhar de compaixão..É este o olhar que nos salva de verdade: não o do julgamento, mas o da misericórdia. O texto nos convida a nos deixarmos alcançar por esse olhar, a baixarmos nossas defesas e resistências, e a acolhermos, com simplicidade, a boa nova que não apenas consola, mas transforma. O olhar de Jesus não nos rotula nem nos paralisa; ele nos chama de volta à vida. Nesta passagem, encontramos não apenas a narrativa de uma cura física, mas uma denúncia contra estruturas que silenciam, uma convocação à missão, e um chamado à coerência entre fé e ação. 

Mateus nos apresenta a figura de um homem mudo, possuído por um espírito maligno. A mudez aqui não é apenas física, mas também teológica e sociológica: representa o impedimento da comunicação com o outro e com Deus, sinal de um aprisionamento que ultrapassa o corpo e atinge a alma. Simboliza o silenciamento das vozes marginalizadas pela sociedade e pela religião. O texto não relata a súplica do homem nem uma fé explícita; o que nos é dado ver é a ação de Jesus que, ao expulsar o demônio, devolve a esse homem a palavra, a capacidade de se comunicar e se reintegrar ao mundo. Há aqui uma restauração existencial que revela o rosto do Deus de Israel: um Deus que escuta os mudos, que vê os invisíveis, que se aproxima dos esquecidos. Essa cura é, ao mesmo tempo, um ato de misericórdia e uma denúncia escatológica. As autoridades religiosas, vendo o milagre, não se alegram, mas acusam Jesus de agir pelo chefe dos demônios. Mateus explicita o abismo entre a compaixão de Jesus e o legalismo dos fariseus. Estes representam a religião fechada em si, desconectada da dor do povo, escrava de sua própria normatividade. A cegueira espiritual deles os impede de reconhecer a presença de Deus no gesto misericordioso. Essa crítica ressoa com os profetas como Isaías (cf. Is 29,13-14) e Jeremias (cf. Jr 23), e ecoa fortemente em Amós: “Abomino vossas festas… antes, corra a justiça como um rio” (Am 5,21-24).

O evangelho então se abre para um panorama mais amplo: Jesus percorre todas as cidades e aldeias, ensinando, curando, libertando. Ele vê a multidão e se enche de compaixão porque estavam exaustas, como ovelhas sem pastor. O termo grego eskulmenoi kai erimmenoi — traduzido por “cansadas e abatidas” — traz a ideia de corpos feridos, lançados ao chão, vulneráveis. O que Jesus vê não é apenas sofrimento físico, mas uma sociedade esfacelada, uma religião incapaz de cuidar, uma população submetida à opressão imperial e ao abandono espiritual. Nesse olhar de Jesus está o olhar do próprio Deus, que em Êxodo 3,7 declara: “Eu vi a aflição do meu povo no Egito... e desci para libertá-lo”..Essa imagem das ovelhas sem pastor remete a Ezequiel 34, onde o Senhor denuncia os pastores de Israel que se apascentam a si mesmos e abandonam o rebanho. Jesus se apresenta como o verdadeiro pastor, que reconhece o sofrimento das pessoas e se move em direção a elas com ternura e ação. No paralelo de Marcos 6,34, vemos que, ao se compadecer da multidão, Jesus começa a ensiná-la com paciência. Em Lucas 10,2, Ele retoma a expressão “a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”, e imediatamente envia os setenta e dois discípulos. Isso indica que a compaixão gera missão. Jesus não apenas se sensibiliza: Ele forma e envia. Como recorda a Evangelii Gaudium 24, “A comunidade evangelizadora experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor.  sabe dar o primeiro passo, sabe envolver-se, sabe acompanhar, frutificar e festejar”.

A imagem da “messe” nos convida à ação. O Reino de Deus não é passividade, mas colheita que exige trabalhadores. Como bem recorda Santo Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti. A graça não nos exclui da cooperação; somos chamados a agir, a trabalhar na vinha do Senhor” (De Correptione et Gratia, 23, 27). A oração ao Senhor da messe não é mágica nem alienante. Ela é um chamado à conversão ativa. Quem ora, se compromete. Quem vê a dor do povo, deve deixar-se mover pelas entranhas, como o Cristo. A oração do discípulo não pode ser estéril; deve gerar frutos. Como diz São João Crisóstomo: “Não há nada mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros” (Homilias sobre Mateus, homilia 88). E São João, reforçando a fé operante, exorta: “A fé que não produz obras é morta” (cf. Tg 2,17).

É fundamental ampliar esta reflexão à luz da espiritualidade individualista que permeia muitos espaços religiosos hoje. Observamos uma tendência crescente de uma fé centrada no “eu sozinho”, onde as preces, os cânticos e até as pregações são formuladas no singular, diluindo o sentido de pertença comunitária que a fé exige. O uso quase exclusivo do “eu”, “meu” e “minha” em orações e liturgias revela uma relação egoísta com Deus, uma religiosidade que busca antes o bem-estar emocional pessoal do que o compromisso real com o outro e com a missão. Essa espiritualidade solipsista, longe de ser um caminho de cura e comunhão, transforma a fé em uma espécie de autoajuda, reduzindo o Evangelho a uma doutrina do conforto e da satisfação interior. Perde-se, assim, a dimensão profética e transformadora da fé que clama pela justiça, pela solidariedade e pela construção do Reino. A religião vira um instrumento de escape emocional e psicológico, uma busca por tranquilidade individual que evita o desconforto da responsabilidade comunitária e social.

São João Crisóstomo adverte contra essa religiosidade vazia e egoísta: “Quando oras, não sejas como o hipócrita, pois ele gosta de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para ser visto pelos homens. Em verdade vos digo que já recebeu sua recompensa” (cf. Mt 6,5). O problema não é a oração em si, mas a intenção egoísta que reduz o relacionamento com Deus a um espetáculo ou a uma busca individualista, sem abrir-se ao mistério da comunhão e da missão. A fé isolada não dialoga, não constrói, não serve. Ela empobrece a alma e torna a Igreja um conjunto de “eus solitários”, enquanto o Evangelho nos convoca a sermos “nós irmãos”.

Santo Agostinho lembra que a fé só salva e transforma quando é alicerçada no amor para com o próximo: “Ama e faze o que quiseres. Se calares, cala por amor; se falares, fala por amor; se corrigires, corrige por amor. Seja o amor o fundamento de todas as tuas ações” (Carta 7, a Proba). O amor é o fundamento comunitário que salva a fé da solidão e do egoísmo. 

Nesse sentido, o Concílio Vaticano II resgatou a dimensão eclesial da fé, sublinhando a Igreja como “povo de Deus”, uma comunidade de homens e mulheres que, iluminados pela Palavra e fortalecidos pelo Espírito Santo, vivem uma fé ativa e comprometida no mundo. A Lumen Gentium 12 afirma que “a Igreja existe para evangelizar”, isto é, para levar a Boa Nova a todas as pessoas, o que só pode acontecer se a fé for partilhada, vivida e testemunhada em comunidade. 

A sociedade contemporânea, marcada pela solidão, pela cultura da produtividade e pela indiferença, gera multidões igualmente cansadas e dispersas. Pensemos, por exemplo, na crescente epidemia de saúde mental, no aumento da violência urbana e na precarização do trabalho que atinge milhões. A extrema-direita religiosa que manipula o cristianismo para justificar intolerância, racismo, misoginia e homofobia  está entre os novos fariseus que julgam a libertação dos mudos como obra do “príncipe dos demônios”. Sob o pretexto de defender a moral cristã, acabam promovendo uma ideologia anticristã, negando tudo o que Jesus viveu: acolhida, diálogo, compaixão, escuta, libertação. A religião, quando aliada ao poder opressor, torna-se ídolo. Como disse São João Crisóstomo: “Não há nada mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros”.

A pedagogia de Jesus nos ensina que a verdadeira espiritualidade se faz de escuta e de prática. Ele vê, sente e age. Ele não espera ser procurado, vai ao encontro. Ele não se escandaliza com a dor, mas a transforma. Seu olhar cura porque está cheio de misericórdia. E essa compaixão é a chave hermenêutica da missão cristã. Como Marta e Maria, somos chamados à ação e à escuta; como a pomba que alimenta seus filhotes com alimento previamente digerido, devemos partilhar com o mundo aquilo que assimilamos no silêncio da oração e no ardor da leitura orante da Palavra. Como afirma o Documento de Aparecida, “ninguém se salva sozinho, a salvação exige comunidades solidárias e missionárias” (DAp 294).

A Igreja é comparada a uma grande seara que precisa de trabalhadores, mas de trabalhadores que trabalhem. Não há nada mais conforme com o Evangelho do que, por um lado, reunir luzes e forças na oração, na leitura e na solidão, e depois ir partilhar com os homens esse alimento espiritual. É fazer como fez Nosso Senhor e, depois dele, os apóstolos; é juntar a ação de Marta à de Maria; é testemunhar pelas nossas obras quanto amamos a Deus. É nosso dever passar aos atos. Como ensina ainda Santo Agostinho: “Ama, e faze o que quiseres. Se calares, cala por amor; se falares, fala por amor; se corrigires, corrige por amor. Seja o amor o fundamento de todas as tuas ações” (Carta 7, a Proba)

À luz deste Evangelho, compreendemos que a missão da Igreja nasce da compaixão e se realiza na prática da justiça, da misericórdia e da fraternidade. Jesus não envia trabalhadores para preservar estruturas de poder, defender privilégios ou alimentar disputas ideológicas; envia discípulos para cuidar das pessoas, restaurar sua dignidade e anunciar que o Reino de Deus já está presente onde a vida é defendida. A verdadeira ortodoxia jamais pode ser separada da ortopraxia, pois uma fé que não se traduz em amor concreto torna-se estéril. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é sacramento da salvação no mundo e existe para tornar Cristo presente na história por meio do serviço aos irmãos. Essa Palavra também assume um caráter profundamente profético. Ela denuncia toda forma de religião que substitui a misericórdia pelo moralismo, o serviço pelo clericalismo, a comunhão pelo individualismo e o Evangelho pela ideologia. Sempre que a fé é utilizada para justificar exclusão, violência, preconceito ou alianças com poderes que esmagam os pequenos, repete-se a atitude daqueles que atribuíram ao demônio a obra libertadora de Cristo. A Igreja somente permanece fiel ao Senhor quando se coloca ao lado dos pobres, dos esquecidos e dos que tiveram sua voz silenciada, fazendo eco ao Magnificat de Maria, aos profetas de Israel e ao próprio Cristo, que veio "para que todos tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo 10,10). Que o Espírito Santo nos conceda os mesmos olhos de Jesus: olhos capazes de enxergar além das aparências, de reconhecer a dor escondida e de transformar a compaixão em compromisso. Que nossas comunidades sejam verdadeiras casas de acolhida, onde ninguém seja invisível, descartado ou silenciado. E que, ao final da grande colheita, o Senhor da messe nos encontre não entre os que apenas falaram de amor, mas entre aqueles que fizeram da própria vida um Evangelho vivo, testemunhando que a misericórdia é a forma mais alta da verdade e que a justiça é o rosto histórico da caridade.

Concluímos esta reflexão com um convite à coerência radical. Que o olhar de Jesus, cheio de compaixão, nos cure da mudez da indiferença, do medo de nos comprometer, da tentação de uma fé sem obras. Que sua compaixão nos mobilize a amar com gestos concretos, a formar comunidades que acolham, que curem, que libertem. Que nossas comunidades sejam verdadeiras casas de misericórdia, espaços de escuta, serviço e compromisso com os pequenos. E que ao final da vida, quando nos encontrarmos com o Senhor da seara, ele possa reconhecer em nossas mãos os frutos do amor vivido.

Que o evangelho de hoje não seja apenas lido, mas encarnado, pois, como afirma o Apocalipse: “Felizes os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham” (Ap 14,13). Que sejamos conhecidos por essas obras: obras de compaixão, de justiça, de evangelho vivido no concreto da história.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 6 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,18-26

Nesta Segunda-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, o Evangelho de Mateus 9,18-26 — cujos mesmos acontecimentos também são narrados em Marcos 5,21-43 sendo proclamados ainda na terça-feira da 4ª Semana do Tempo Comum (Ano Par) e no 13º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e Lucas 8,40-56,  nos conduz a uma das páginas mais belas e comoventes do Evangelho. Nela, Jesus se deixa interromper por duas realidades de sofrimento profundamente humanas e, ao mesmo tempo, abertas à ação transformadora de Deus: a dor pública de um pai que acaba de perder sua filha e a dor silenciosa de uma mulher que, havia doze anos, carregava no corpo e na alma o peso da enfermidade, da exclusão social e da impureza ritual. Duas pessoas completamente diferentes — um chefe da sinagoga, respeitado pela sociedade, e uma mulher anônima, marginalizada pela religião e pela cultura de seu tempo  aproximam-se de Jesus movidas pela mesma esperança. Ambos rompem convenções sociais, religiosas e culturais para encontrá-Lo. Mateus, ao relatar esse episódio de forma mais concisa do que Marcos e Lucas, concentra a atenção na força da fé e na compaixão de Jesus, revelando que, diante d'Ele, não existem privilégios nem exclusões: a fé abre caminho para a vida, e a misericórdia de Deus alcança tanto os que sofrem à vista de todos quanto aqueles cuja dor permanece escondida.

Ambos os personagens se arriscam. O chefe da sinagoga, provavelmente alguém respeitado dentro da instituição religiosa, se curva diante de Jesus, reconhecendo que mesmo a morte pode ser vencida por Ele. A mulher, marcada por doze anos de fluxo de sangue uma condição que, à luz da Lei (cf. Lv 15,25-27), a tornava impura e excluída do convívio social e religioso —, decide romper o silêncio que lhe era imposto. Ela toca o manto de Jesus por trás, pois tocar um homem, ainda mais um mestre, seria considerado escandaloso. Contudo, é nesse gesto clandestino que Jesus revela o rosto do Deus que não apenas permite ser tocado, mas que reconhece e valoriza a fé de quem o procura com sinceridade.

Jesus não só cura. Ele vê. Ele se volta. Ele dá palavra a quem a sociedade silenciava. Ele diz: “Coragem, filha!”  chamando de “filha” uma mulher até então considerada impura. Este não é apenas um gesto de afeto, mas uma ruptura com toda uma estrutura patriarcal e religiosa que desumanizava. Nesse gesto, Jesus desmantela não apenas uma enfermidade, mas toda uma ideologia de exclusão. A fé não é um ato religioso intimista, mas um movimento de libertação. Fé é atravessar barreiras, é acreditar que o toque do Cristo é mais forte que as normas de pureza, que o medo, que a morte. Fé é insurgência amorosa contra as estruturas que matam. A mulher e o chefe da sinagoga são modelos de fé que se arriscam e, por isso, encontram vida.

Neste episódio, Jesus é o oposto do sistema religioso que se distancia do sofrimento humano em nome de uma santidade estéril. Diferente de uma religião que impõe pesos sem tocar a dor do povo (cf. Mt 23,4), Jesus se deixa tocar, se faz acessível, se compadece. A religião institucional especialmente quando controlada por castas clericais, fundamentalistas ou por interesses políticos  tende a transformar o sagrado em controle e o culto em espetáculo. Mas Jesus, o Filho do Homem, desvia-se dos caminhos do poder e das elites religiosas para encontrar-se com os pobres, as mulheres, os excluídos, os que choram. E neles, revela a presença viva de Deus.

A mulher anônima do Evangelho, silenciada pela religião e pela cultura de seu tempo, torna-se símbolo das muitas mulheres que, ao longo da história da Igreja, foram mantidas à margem dos espaços de decisão, mesmo sendo a espinha dorsal da vida eclesial nas comunidades, nas famílias e na missão. No entanto, o gesto de Jesus que rompe com essa exclusão ecoa hoje nos processos sinodais impulsionados pelo saudoso Papa Francisco, que abriu caminhos concretos para uma Igreja mais inclusiva, participativa e sensível à voz das mulheres. Ele nos alertava com clareza: “Não podemos continuar a manter as mulheres à margem da vida da Igreja” (Evangelii Gaudium, 103). O Documento de Aparecida já reconhecia que “é hora de a mulher ser mais valorizada na sua dignidade e nos seus dons” (DAp, 451). No caminho do Sínodo sobre a Sinodalidade, que marcou profundamente a Igreja do século XXI, ouvimos repetidamente o clamor de que as mulheres sejam não apenas colaboradoras, mas co-partícipes na tomada de decisões, nos ministérios instituídos e na reflexão teológica. A sinodalidade, como escuta mútua e discernimento comunitário, tem reconhecido a urgência de integrar plenamente a experiência, a espiritualidade e a liderança das mulheres nos processos eclesiais. Embora os avanços ainda encontrem resistências por parte de setores clericalistas e tradicionalistas que insistem em manter estruturas hierárquicas rígidas e masculinizadas, é inegável que o Espírito continua a soprar, convidando-nos a romper com modelos de Igreja patriarcal e a construir comunidades onde as mulheres não sejam apenas acolhidas, mas reconhecidas como protagonistas do Reino — à imagem daquela mulher do Evangelho que, pela fé e ousadia, tocou o manto de Jesus e antecipou, com seu gesto, o novo modo de ser Igreja que hoje queremos viver.

A pedagogia de Jesus nos ensina a escutar os clamores que muitas vezes não são ditos com palavras. A mulher do Evangelho representa as muitas mulheres de ontem e de hoje silenciadas, patologizadas, invisibilizadas. Seja pela religião que as cala, pela política que as ignora, pela sociedade que as julga, ou pela psicologia que, às vezes, as reduz a sintomas. Jesus, ao vê-la, reconhece a dignidade roubada e restitui sua voz. Este é um caminho pedagógico: ver, escutar, reconhecer e devolver a palavra ao oprimido.

Não podemos ignorar o simbolismo do número doze presente nos dois casos: a menina de doze anos, a mulher que sofria há doze anos. O número doze, que na tradição judaica remete às doze tribos de Israel, representa o povo inteiro. É como se Mateus quisesse dizer: todo o povo precisa ser tocado, curado, ressuscitado. A menina morta e a mulher sangrando são símbolos de uma sociedade adoecida — e Jesus é aquele que vem para restaurar integralmente, no corpo e na alma, no indivíduo e na coletividade. 

Mas há ainda um entrelaçamento mais profundo: enquanto a menina vivia seus doze primeiros anos, tempo que no judaísmo marca a passagem para a responsabilidade religiosa (a bat mitzvah) a mulher passava os mesmos doze anos sofrendo. Uma começa sua adolescência, outra vive uma adolescência perdida. Uma representa o futuro, outra, o passado ferido. Uma estava morrendo no corpo, a outra, morrendo na alma. Ambas, no entanto, são visitadas pela mesma graça. Jesus é o ponto de encontro entre essas duas histórias que o sistema social e religioso manteria separadas: uma filha de um líder da sinagoga e uma mulher impura e anônima. O Reino de Deus, portanto, começa a se manifestar quando o tempo da dor se cruza com o tempo da promessa. Quando Jesus é tocado, o tempo cronológico (kronos) é interrompido e o tempo de Deus (kairós) se instala: o tempo da mulher que sofria chega ao fim; o tempo da menina que mal havia começado é restituído.

Esse encontro entre duas gerações femininas também nos interpela a pensar nos ciclos de exclusão vividos pelas mulheres em nossos dias.

  •  Quantas adolescentes hoje têm sua infância interrompida por abusos, desigualdades e opressões? 
  • Quantas mulheres adultas carregam por anos feridas físicas, emocionais e espirituais causadas por um sistema que as silencia, seja na Igreja, na política ou dentro de casa? 

A pedagogia do Reino encarnada por Jesus vem para estancar esses sangramentos e ressuscitar aquilo que foi dado como morto. Ressignifica o tempo, redime a história, reconstrói a dignidade. 

Os  doze anos marcam períodos de transição, de formação da identidade, de sofrimento acumulado. Doze anos de dor não são apenas uma estatística: são memórias, traumas, abandono. Já os doze anos da menina falam do limiar da juventude, do potencial interrompido. Sociologicamente, podemos ler esse cruzamento como denúncia de uma cultura que marginaliza mulheres em todas as fases da vida: na juventude, com hipersexualização ou desvalorização; na idade adulta, com apagamento e exploração. A menina e a mulher, portanto, não são apenas personagens do passado: elas são rostos do presente. E a resposta de Jesus  que se deixa tocar por uma, e toma pela mão a outra  revela uma nova forma de se relacionar com o tempo, com os corpos, com a dor e com a esperança. A psicologia pode nos ajudar a compreender o alcance desse toque de Jesus como uma ação que ressignifica a subjetividade ferida. O toque não é apenas físico, mas relacional. Ele acolhe, devolve valor, reintegra à vida. A antropologia nos lembra que o toque é um dos primeiros gestos de linguagem humana, anterior à palavra. Jesus, portanto, comunica com gestos o que as palavras religiosas muitas vezes não conseguem transmitir. Já a sociologia nos mostra que a exclusão ritual dessas mulheres reflete mecanismos de poder que ainda hoje se perpetuam: 

  • Quem tem acesso à cura? 
  • Quem tem direito de tocar e ser tocado?

Não estamos sozinhos. Jesus continua passando em meio às multidões, sensível aos clamores explícitos e aos que se escondem por vergonha ou medo. Continua parando para ver quem o tocou com fé. Continua dizendo:  Coragem, minha filha! Coragem, meu filho!”. Palavras que não são fórmula mágica, mas um chamado à esperança ativa. O toque da fé que cura é o gesto que ousa romper o conformismo religioso e a cegueira institucional. É o grito silencioso de quem se recusa a morrer sem lutar por vida plena. 

O Evangelho de hoje nos convida a assumir o lugar daquela mulher: dar um passo de fé mesmo quando tudo parece conspirar contra nós: 

  • Romper o medo
  • Vencer as barreiras 
  • Tocar o Cristo que continua passando pela história.
Mas também nos chama a sermos como Jesus: pessoas capazes de se deixar interromper pelo sofrimento alheio, de enxergar os invisíveis, de escutar os silenciados e de transformar a compaixão em compromisso concreto. Que a Igreja, tantas vezes marcada pelo clericalismo, pela indiferença e pela cumplicidade com estruturas de exclusão, permita-se ser continuamente convertida por este Evangelho. Que reaprenda a ver os que ninguém vê, a tocar os que ninguém toca e a acolher os que foram marginalizados pela sociedade e, por vezes, até pela própria religião. Que seja uma comunidade onde as mulheres não sejam silenciadas nem tratadas como cidadãs de segunda categoria, mas reconhecidas, como por Jesus, em sua plena dignidade de filhas de Deus. Que a fé cristã volte a ser hospital de campanha para a humanidade ferida, e nunca trincheira de ideologias de ódio, violência ou morte. No caminho da fé, Jesus continua repetindo ao coração de cada discípulo: "Não tenhas medo. Crê somente" (cf. Mc 5,36). A fé não elimina imediatamente todas as dores, mas abre espaço para que Deus realize o impossível. Quando ela é autêntica, ainda que pequena e trêmula, torna-se encontro com a graça. Então, o que parecia perdido reencontra esperança; o que estava paralisado volta a caminhar; e aquilo que parecia definitivamente morto revive pela força da vida nova. Porque o Deus revelado em Jesus Cristo não abandona ninguém no vale das lágrimas (cf. Sl 23,4). Ele continua sendo o Deus que se deixa tocar pela dor humana e que toca a humanidade com um amor misericordioso, libertador e verdadeiramente revolucionário, capaz de vencer a exclusão, restaurar a dignidade e fazer florescer a vida onde muitos já enxergavam apenas o fim.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 1 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 8,28-34

 
Somos  chamados a contemplar o Evangelho de Mateus 8,28-34, proclamado na quarta-feira da 13ª Semana do Tempo Comum. Em Mateus, essa narrativa sucede imediatamente a travessia do lago e a tempestade acalmada (Mt 8,23-27), cujo paralelo encontra-se em Marcos 4,35-41 e Lucas 8,22-25. A sequência é profundamente teológica: depois de manifestar sua autoridade sobre o caos das águas, símbolo das forças primordiais contrárias à criação (cf. Gn 1,2; Sl 74,13-14), Jesus atravessa para o território dos gadarenos, rompendo fronteiras geográficas, religiosas e culturais. Não se trata apenas de uma mudança de lugar, mas da entrada do Reino de Deus em um espaço marcado pela exclusão, pela impureza e pela morte. O mesmo episódio é narrado também em Marcos 5,1-20 e Lucas 8,26-39, ainda que cada evangelista destaque aspectos próprios da missão libertadora de Jesus.

Quando Jesus pisa o chão estrangeiro dos gadarenos, não é apenas o território geográfico que se altera, é a própria ordem espiritual e social que começa a desmoronar. Depois de vencer o caos do mar, Ele enfrenta agora o caos que aprisiona o ser humano. O Reino de Deus não conhece fronteiras nem aceita que alguém permaneça condenado às geografias da exclusão. Os discípulos, no mar, temem morrer diante das ondas; os gadarenos, em terra, temem viver diante da libertação. Ambos se encontram diante do poder de Jesus, mas enquanto uns clamam por socorro, outros pedem que Ele vá embora. O medo é o mesmo: perder o controle sobre aquilo que julgavam dominar..Dois homens possuídos por demônios saem ao encontro de Jesus, vindos dos túmulos, lugares de morte e impureza segundo a Lei (cf. Nm 19,11-16). Marcos e Lucas apresentam apenas um homem; Mateus menciona dois, possivelmente para evidenciar que o mal não destrói apenas indivíduos, mas comunidades inteiras. A possessão deixa de ser apenas um drama pessoal para revelar também uma realidade estrutural, coletiva e social.

Esses homens perderam o nome, a casa, os vínculos e a dignidade. Vivem entre os mortos, afastados da convivência humana. Sua violência não nasce de sua natureza, mas do abandono. Marcos acrescenta que feriam a si mesmos com pedras, numa imagem profundamente humana da dor psíquica e existencial. Representam todos aqueles que foram expulsos da convivência social, invisibilizados pelas estatísticas, esquecidos pelas instituições e até pelas comunidades religiosas. Eles representam a fragmentação da identidade e o sofrimento de quem já não encontra sentido para viver. Orígenes afirmava que "a possessão é, muitas vezes, sinal da alma invadida por pensamentos estranhos à verdade". Nos relatos de Marcos e Lucas, Jesus pergunta o nome do espírito que os domina. Nomear significa devolver identidade, romper o anonimato da exclusão e iniciar um caminho de restauração. Antes de libertar, Cristo escuta.

Mateus vem  denunciar a lógica da marginalização. Quando uma sociedade não sabe cuidar dos seus feridos, prefere escondê-los. Quando não consegue curar, isola. Quando a religião perde a compaixão, transforma sofrimento em culpa. Jesus faz exatamente o contrário. Aproxima-se dos excluídos, atravessa fronteiras proibidas e restitui aos marginalizados o direito de voltar à vida. Como recorda Leonardo Boff, a libertação envolve toda a pessoa, em sua dimensão espiritual, social e histórica. Libertar é devolver lugar na comunidade e restituir a dignidade perdida. A  cena constitui uma verdadeira manifestação messiânica. Os demônios reconhecem Jesus como Filho de Deus antes mesmo de muitos dos que se consideravam religiosos. Perguntam se Ele veio atormentá-los antes do tempo, revelando que o juízo definitivo já começa a acontecer onde Cristo chega. Sua presença inaugura, no presente, aquilo que será pleno no fim dos tempos. Diante d'Ele não existe neutralidade. O Reino confronta inevitavelmente tudo aquilo que produz morte.

A manada de porcos, cerca de dois mil segundo Marcos, precipita-se no mar. Para além da questão da impureza ritual prevista em Levítico 11,7, os porcos simbolizam estruturas econômicas e sociais construídas sobre a exploração da vida. O texto não expressa desprezo pela criação, mas denuncia sistemas que transformam pessoas em mercadorias e fazem do lucro um ídolo. Também a criação, como afirma Paulo (Rm 8,22), geme esperando sua libertação. O prejuízo econômico provocado pela perda da manada explica a reação dos habitantes da cidade. Eles pedem que Jesus se retire. A libertação custa caro porque ameaça interesses estabelecidos. Sempre que o Evangelho toca privilégios, surgem resistências. Pierre Bourdieu observou que a religião pode servir tanto à dominação quanto à transformação social. O drama dos gadarenos consiste justamente em preferir preservar sua economia a celebrar a restauração de vidas humanas.

A crítica do Evangelho alcança igualmente toda forma de religião que se acomoda diante da injustiça. Quando comunidades de fé silenciam diante da violência, absolutizam o poder, transformam o nacionalismo em idolatria ou utilizam a religião para legitimar a exclusão, repetem, sob novas formas, o pedido dos gadarenos: "Retira-te daqui." O Cristo do Evangelho continua sendo incômodo porque sua presença desmonta privilégios, denuncia idolatrias e restitui dignidade aos descartados da história. Como afirma o Concílio Vaticano II na Gaudium et Spes, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo". A Igreja permanece fiel ao seu Senhor quando caminha ao lado dos feridos da história e não quando protege estruturas que perpetuam exclusões.

O gesto de Jesus realiza, de maneira concreta, o espírito do Jubileu descrito em Levítico 25. Libertam-se os cativos, restitui-se a dignidade aos excluídos e confrontam-se as estruturas que lucram com a opressão. Entre os túmulos acontece uma nova criação. Em Marcos e Lucas, o homem restaurado deseja seguir Jesus, mas recebe outra missão: voltar para casa e anunciar tudo o que Deus realizou em sua vida. O lugar da dor transforma-se em lugar da missão. A evangelização nasce da experiência da misericórdia. As cicatrizes tornam-se testemunho vivo da ação libertadora de Deus.

Toda a narrativa converge para um ensinamento decisivo:

  •  Os túmulos simbolizam a morte social
  • os porcos representam estruturas que negociam a vida humana
  • o mar recorda o caos já vencido pela autoridade do Criador
O Cristo não faz acordos com aquilo que destrói a dignidade humana. Sua presença rompe correntes, restitui identidade e devolve esperança. É precisamente por isso que Ele é rejeitado. A cidade suporta conviver com os possessos, mas não suporta pagar o preço de sua libertação. Prefere um Messias que confirme seus interesses a um Senhor que converta seu coração.

Os gadarenos continuam existindo em todas as épocas. Manifestam-se sempre que povos originários, comunidades quilombolas, pessoas em situação de rua, migrantes, encarcerados, pessoas em sofrimento psíquico e todos os vulneráveis são tratados como descartáveis. Também aparecem quando igrejas preferem proteger privilégios a anunciar a justiça do Reino. Ao final, permanece uma pergunta dirigida a cada discípulo. Quando Cristo atravessa nossas fronteiras, denuncia nossos ídolos e rompe nossos pactos com aquilo que produz morte, qual será nossa resposta? Teremos coragem de acolher sua libertação, mesmo quando ela exige conversão e renúncia, ou lhe pediremos que se retire para que nossos "porcos" permaneçam seguros?

O Evangelho não termina com a derrota dos demônios, mas com o início de uma vida nova. Jesus continua atravessando mares, entrando em nossos territórios, quebrando correntes e devolvendo voz aos silenciados. A verdadeira questão não é se Ele tem poder para libertar. A questão é se estamos dispostos a permitir que essa libertação transforme também nossas escolhas, nossas estruturas e nosso modo de viver a fé. Sobra uma interrogaçãooculta do texto;  queremos voltar à tua casa? Queres contar o que o Senhor fez por nós  ou preferimos  que  jesus se  retire, para que os nossos porcos permaneçam em paz?

0remos,   como resposta a Jesus:

  • Senhor da travessia, que atravessas os mares do medo  e nos encontras entre os túmulos, liberta-nos de tudo o que nos prende à morte.. Dá-nos nome, voz e missão. E quando quisermos te expulsar  para preservar nossos porcos, .sopra sobre nós o Espírito da verdade, e ensina-nos de novo a viver. Amém.


DNonato – Teólogo do Cotidiano