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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 9, 1-8

A narrativa da cura do paralítico em Mateus 9,1–8 é proclamada no Rito Romano na quinta-feira da 13ª Semana do Tempo Comum, dentro da leitura semicontínua do Evangelho segundo Mateus. Nos Evangelhos sinóticos, o mesmo acontecimento é transmitido também em Marcos 2,1–12 e Lucas 5,17–26, constituindo uma tradição paralela em que um único episódio é recebido sob diferentes ênfases teológicas.  No Lecionário Romano, esses relatos integram o ciclo ferial dos Evangelhos sinóticos e aparecem em diferentes momentos do ano litúrgico, conforme a estrutura dos tempos. .Embora transmitam a mesma tradição, cada evangelista a desenvolve segundo sua própria perspectiva teológica.
  • Marcos 2,1–12 é proclamado na sexta-feira da 1ª Semana do Tempo Comum,  enfatiza a fé perseverante dos amigos do paralítico, que, vencendo todos os obstáculos, descobrem o teto da casa e descem o enfermo até a presença de Jesus. A narrativa destaca que a fé verdadeira encontra caminhos mesmo quando as portas parecem fechadas.
  • Lucas 5,17–26 é proclamado na segunda-feira da 2ª Semana do Advento, amplia o contexto do acontecimento ao mencionar as telhas do teto e a presença de fariseus e doutores da Lei vindos de diversas regiões da Galileia, da Judeia e de Jerusalém. Seu relato evidencia que o milagre ocorre diante das autoridades religiosas, preparando o confronto em torno da identidade e da autoridade de Jesus.
  • Mateus 9, 1-8 proclamado na quinta-feira da 13ªSemana do Tempo Comum, por sua vez, apresenta uma narrativa mais concisa e teologicamente concentrada. Reduz os detalhes descritivos para dirigir o olhar do leitor ao núcleo do acontecimento: a autoridade do Filho do Homem para perdoar os pecados e restaurar integralmente o ser humano. Em seu relato, o centro do milagre não é a abertura do teto nem a reação da multidão, mas a revelação de que, em Jesus, Deus inaugura uma nova criação, na qual o perdão precede a cura e a misericórdia restitui à pessoa sua dignidade e sua vida
Quando observada a partir do calendário civil, a proclamação desse episódio atravessa diferentes momentos do ano litúrgico: em janeiro, no início do Tempo Comum, por meio de Marcos; em julho, no desenvolvimento do Tempo Comum, através de Mateus; e em dezembro, no contexto do Advento, segundo Lucas. Essa distribuição revela que o Lecionário não apenas organiza a leitura dos Evangelhos, mas conduz a comunidade cristã a revisitar continuamente o mesmo mistério da ação salvífica de Cristo em diferentes tempos da caminhada eclesial. No Evangelho de Mateus, a cura do paralítico (Mt 9,1–8) está inserida na unidade literária dos capítulos 8–9, uma sequência de sinais que manifesta a irrupção do Reino de Deus na história. Esses milagres não aparecem como acontecimentos isolados, mas como expressões da autoridade messiânica de Jesus, por meio da qual a criação é restaurada e a soberania de Deus se revela sobre a doença, o pecado, os espíritos malignos, a natureza e todas as formas de sofrimento e desintegração da existência humana. A cena de Mateus se situa em Cafarnaum, espaço estratégico da Galileia, marcado por circulação comercial intensa, diversidade cultural e forte presença do domínio romano. Nesse ambiente de tensões sociais, econômicas e religiosas, a atuação de Jesus adquire densidade histórica: um povo marcado por exploração, pobreza e conflitos interpretativos sobre a Lei busca respostas para sua crise existencial. A figura do paralítico ultrapassa a dimensão clínica. Na antropologia bíblica, corpo e interioridade não se separam. A doença frequentemente implicava exclusão social e suspeita religiosa, como se sofrimento físico fosse consequência direta do pecado. É nesse horizonte que Jesus rompe uma lógica teológica vigente: não inicia com diagnóstico nem exigência moral, mas com uma palavra de acolhimento — “Filho, tem confiança” (Mt 9,2).

A ordem do relato é teologicamente decisiva. Antes da restauração física, ocorre a restauração da identidade: o homem é chamado de filho, isto é, reintegrado à condição de dignidade. O perdão dos pecados, em seguida, desloca a compreensão do milagre para além do corpo: trata-se da reconciliação profunda entre Deus e a humanidade, conforme a lógica bíblica do perdão como libertação e recriação da existência (cf. 2Cor 5,17). O conflito com os escribas revela o núcleo da questão: segundo a tradição de Israel (cf. Is 43,25; Sl 103), apenas Deus pode perdoar pecados. A objeção deles é teologicamente consistente, mas incapaz de reconhecer a novidade da revelação em curso. Jesus, que conhece os pensamentos ocultos (cf. 1Sm 16,7), manifesta discretamente sua identidade divina ao reivindicar autoridade sobre aquilo que pertence a Deus.

A pergunta dirigida aos interlocutores: 

 “O que é mais fácil dizer?”

 Desloca o debate do nível verbal para o nível ontológico. Curar pertence à ordem da criação; perdoar, à ordem da recriação. O sinal visível confirma a realidade invisível: o Filho do Homem possui autoridade sobre a terra para restaurar integralmente o ser humano (cf. Dn 7,13–14). O gesto de Jesus ao ordenar: “levanta-te, toma a tua maca e vai para tua casa” carrega densidade simbólica. Levantar-se remete à linguagem pascal; a maca, antes instrumento de dependência, torna-se sinal de libertação; o retorno à casa indica reintegração social e recuperação da vida cotidiana. A cura não cria espetáculo religioso, mas devolve autonomia e dignidade. A reação da multidão  glorificar a Deus,  indica o sentido último do milagre: não a exaltação de um indivíduo, mas a manifestação da presença divina que atua na história. Contudo, o texto também adverte para um risco permanente: a incapacidade de reconhecer Deus quando ele age fora dos esquemas religiosos estabelecidos.

O fechamento religioso dos escribas representa uma forma de paralisia espiritual: o excesso de conhecimento pode coexistir com a incapacidade de acolher a novidade de Deus. O Evangelho denuncia toda forma de religião que substitui a misericórdia pela rigidez normativa ou transforma a fé em instrumento de poder. Nesse horizonte, ressoa a afirmação de Paulo: "A letra mata, mas o Espírito vivifica" (2Cor 3,6). O apóstolo não despreza a Lei nem as Escrituras; denuncia, porém, uma religiosidade que absolutiza a norma e perde de vista a ação vivificante do Espírito. Quando a observância da lei se separa da misericórdia, ela deixa de conduzir à vida e torna-se instrumento de opressão.  A paralisia física reflete múltiplas formas de imobilidade humana: medo, culpa, exclusão, sofrimento psíquico e estruturas sociais injustas. O Evangelho não reduz o problema ao indivíduo, mas revela dimensões estruturais do sofrimento. Por isso, a cura torna-se também uma crítica profética às estruturas que produzem exclusão e normalizam a indiferença. Jesus não restaura apenas os movimentos do corpo; restaura a dignidade da pessoa e inaugura uma lógica em que a misericórdia prevalece sobre o legalismo e a vida triunfa sobre tudo o que paralisa.

No contexto de Jesus  o  domínio romano, desigualdade econômica, disputas religiosas internas  reforça essa leitura. O Reino anunciado não se confunde com projetos de poder, mas inaugura uma lógica alternativa baseada na misericórdia, no serviço e na restauração da dignidade humana. A tradição profética (Is 1; Am 5; Jr 7) já havia denunciado a dissociação entre culto e justiça. Jesus radicaliza essa crítica ao unir perdão, cura e reintegração social numa única ação. A fé autêntica não se limita ao ritual, mas se expressa na transformação concreta da vida.

Nesse horizonte, tornam-se visíveis também as deformações históricas da religião: o clericalismo como exercício de poder, a instrumentalização política da fé, e formas contemporâneas de espiritualidade que prometem prosperidade sem conversão ou utilizam o nome de Deus para legitimar exclusões. Todas essas distorções contradizem a lógica do Evangelho, em que autoridade significa serviço e não dominação (cf. Mt 20,25–28). O gesto de Jesus desestabiliza qualquer religião centrada em mérito, controle ou exclusividade. A graça precede qualquer condição humana e, ao mesmo tempo, transforma radicalmente a existência. Quem é perdoado não permanece imóvel: levanta-se e caminha. O.autor abre uma dimensão escatológica na qual cada gesto de cura funciona como antecipação do destino final da criação, quando “não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor” (Ap 21,4) e quando a própria criação será libertada da corrupção “para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,21). O sinal não encerra o sofrimento humano, mas o desloca para dentro de uma esperança ativa, onde o presente já é atravessado pela promessa do futuro de Deus. Nesse horizonte, a comunidade cristã não é espectadora do milagre, mas prolongamento histórico do gesto de Cristo. Ela se torna lugar onde a palavra “levanta-te” continua a ressoar contra tudo aquilo que imobiliza a vida. O Evangelho, portanto, não descreve apenas uma restauração individual, mas inaugura um juízo profético sobre as estruturas que ainda produzem paralisia.

Hoje, essa paralisia assume formas novas e profundamente complexas. Não se limita ao corpo enfermo, mas se expressa em dinâmicas sociais, psíquicas e espirituais. Há paralisias produzidas pela exclusão econômica que condena populações inteiras à invisibilidade; pela desigualdade estrutural que bloqueia oportunidades e perpetua ciclos de pobreza; pela violência urbana que reduz territórios inteiros ao medo cotidiano; e por sistemas políticos que, muitas vezes, transformam a dignidade humana em moeda de troca. Há também paralisias interiores, não menos reais: o medo que impede decisões fundamentais, a ansiedade que fragmenta a interioridade, a depressão que imobiliza o desejo de futuro, e a culpa que aprisiona a consciência em um passado sem reconciliação. O Evangelho toca essas regiões ao afirmar que o primeiro movimento de Jesus não é exigir desempenho, mas restaurar identidade: “Filho, tem confiança” (Mt 9,2).

Infelizmente alguns  gruoos religiosos, em vez de libertar, aprisionam. Quando a fé se converte em instrumento de controle moral, quando a interpretação da lei substitui a misericórdia, ou quando a experiência de Deus é reduzida a mecanismo de recompensa e punição, instala-se uma espiritualidade paralisante. Contra isso, Jesus confronta a lógica dos escribas e afirma uma autoridade que não oprime, mas perdoa e reconfigura a existência. Nesse sentido, o paralítico não é apenas figura individual, mas símbolo coletivo: representa sociedades que perderam a capacidade de caminhar juntas, comunidades religiosas incapazes de acolher a fragilidade, e culturas que normalizam a exclusão como parte inevitável do sistema. O pecado, entendido biblicamente como ruptura de comunhão, aparece aqui não apenas como falha pessoal, mas como estrutura que desorganiza relações e produz marginalização (cf. Is 58,6–10; Am 5,24).

A resposta de Cristo, porém, não se limita à denúncia. Ele inaugura uma nova economia da graça, na qual o perdão não é abstração jurídica, mas força de recriação da existência. Levantar-se, tomar a maca e voltar para casa significa recuperar autonomia, reconstituir vínculos e reinscrever a pessoa na vida comum. O que estava condenado à imobilidade torna-se novamente sujeito de história. Assim, o Evangelho confronta também as formas contemporâneas de “religião da paralisia”, seja no clericalismo que concentra poder e infantiliza o povo de Deus, seja em espiritualidades individualistas que ignoram o sofrimento coletivo, seja ainda em ideologias religiosas que instrumentalizam a fé para justificar exclusões, violências ou projetos de dominação. Contra tudo isso, o Cristo de Mateus não acumula seguidores passivos, mas forma discípulos que caminham.

Em Cristo, a história humana é constantemente interrompida em seus ciclos de morte e reiniciada pela força da misericórdia. A Igreja, quando fiel ao Evangelho, torna-se sinal dessa interrupção: espaço onde os caídos são levantados, onde os silenciados recuperam voz, onde os excluídos reencontram lugar, e onde a esperança deixa de ser ideia para tornar-se prática histórica.  O  “levanta-te”  de Jesus não pertence apenas ao passado narrativo, mas atravessa o presente como interpelação contínua. Ele alcança os que ainda estão presos a estruturas injustas, os que carregam pesos invisíveis de sofrimento, e também aqueles que, dentro da própria religião, esqueceram que a autoridade do Reino é sempre serviço. E assim, o Evangelho permanece aberto, como palavra viva, chamando a humanidade inteira a romper suas paralisias e a caminhar novamente em direção à vida plena em Deus.

Mateu 9, 1-8 não é uma passagem  apenas consoladora, mas exigente. Ela proclama que nenhuma forma de paralisia ,  social, espiritual, política ou existencial   possui a última palavra. A cura do paralítico torna-se, assim, um sinal escatológico e profético de que a autoridade de Cristo não se limita a restaurar o indivíduo, mas a desestabilizar tudo aquilo que normaliza a imobilidade humana e institucional. Em Jesus, a vida é reaberta onde havia bloqueio, e a história é reorientada onde parecia não haver mais caminho



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 6 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,18-26

Nesta Segunda-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, o Evangelho de Mateus 9,18-26 — cujos mesmos acontecimentos também são narrados em Marcos 5,21-43 sendo proclamados ainda na terça-feira da 4ª Semana do Tempo Comum (Ano Par) e no 13º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e Lucas 8,40-56,  nos conduz a uma das páginas mais belas e comoventes do Evangelho. Nela, Jesus se deixa interromper por duas realidades de sofrimento profundamente humanas e, ao mesmo tempo, abertas à ação transformadora de Deus: a dor pública de um pai que acaba de perder sua filha e a dor silenciosa de uma mulher que, havia doze anos, carregava no corpo e na alma o peso da enfermidade, da exclusão social e da impureza ritual. Duas pessoas completamente diferentes — um chefe da sinagoga, respeitado pela sociedade, e uma mulher anônima, marginalizada pela religião e pela cultura de seu tempo  aproximam-se de Jesus movidas pela mesma esperança. Ambos rompem convenções sociais, religiosas e culturais para encontrá-Lo. Mateus, ao relatar esse episódio de forma mais concisa do que Marcos e Lucas, concentra a atenção na força da fé e na compaixão de Jesus, revelando que, diante d'Ele, não existem privilégios nem exclusões: a fé abre caminho para a vida, e a misericórdia de Deus alcança tanto os que sofrem à vista de todos quanto aqueles cuja dor permanece escondida.

Ambos os personagens se arriscam. O chefe da sinagoga, provavelmente alguém respeitado dentro da instituição religiosa, se curva diante de Jesus, reconhecendo que mesmo a morte pode ser vencida por Ele. A mulher, marcada por doze anos de fluxo de sangue uma condição que, à luz da Lei (cf. Lv 15,25-27), a tornava impura e excluída do convívio social e religioso —, decide romper o silêncio que lhe era imposto. Ela toca o manto de Jesus por trás, pois tocar um homem, ainda mais um mestre, seria considerado escandaloso. Contudo, é nesse gesto clandestino que Jesus revela o rosto do Deus que não apenas permite ser tocado, mas que reconhece e valoriza a fé de quem o procura com sinceridade.

Jesus não só cura. Ele vê. Ele se volta. Ele dá palavra a quem a sociedade silenciava. Ele diz: “Coragem, filha!”  chamando de “filha” uma mulher até então considerada impura. Este não é apenas um gesto de afeto, mas uma ruptura com toda uma estrutura patriarcal e religiosa que desumanizava. Nesse gesto, Jesus desmantela não apenas uma enfermidade, mas toda uma ideologia de exclusão. A fé não é um ato religioso intimista, mas um movimento de libertação. Fé é atravessar barreiras, é acreditar que o toque do Cristo é mais forte que as normas de pureza, que o medo, que a morte. Fé é insurgência amorosa contra as estruturas que matam. A mulher e o chefe da sinagoga são modelos de fé que se arriscam e, por isso, encontram vida.

Neste episódio, Jesus é o oposto do sistema religioso que se distancia do sofrimento humano em nome de uma santidade estéril. Diferente de uma religião que impõe pesos sem tocar a dor do povo (cf. Mt 23,4), Jesus se deixa tocar, se faz acessível, se compadece. A religião institucional especialmente quando controlada por castas clericais, fundamentalistas ou por interesses políticos  tende a transformar o sagrado em controle e o culto em espetáculo. Mas Jesus, o Filho do Homem, desvia-se dos caminhos do poder e das elites religiosas para encontrar-se com os pobres, as mulheres, os excluídos, os que choram. E neles, revela a presença viva de Deus.

A mulher anônima do Evangelho, silenciada pela religião e pela cultura de seu tempo, torna-se símbolo das muitas mulheres que, ao longo da história da Igreja, foram mantidas à margem dos espaços de decisão, mesmo sendo a espinha dorsal da vida eclesial nas comunidades, nas famílias e na missão. No entanto, o gesto de Jesus que rompe com essa exclusão ecoa hoje nos processos sinodais impulsionados pelo saudoso Papa Francisco, que abriu caminhos concretos para uma Igreja mais inclusiva, participativa e sensível à voz das mulheres. Ele nos alertava com clareza: “Não podemos continuar a manter as mulheres à margem da vida da Igreja” (Evangelii Gaudium, 103). O Documento de Aparecida já reconhecia que “é hora de a mulher ser mais valorizada na sua dignidade e nos seus dons” (DAp, 451). No caminho do Sínodo sobre a Sinodalidade, que marcou profundamente a Igreja do século XXI, ouvimos repetidamente o clamor de que as mulheres sejam não apenas colaboradoras, mas co-partícipes na tomada de decisões, nos ministérios instituídos e na reflexão teológica. A sinodalidade, como escuta mútua e discernimento comunitário, tem reconhecido a urgência de integrar plenamente a experiência, a espiritualidade e a liderança das mulheres nos processos eclesiais. Embora os avanços ainda encontrem resistências por parte de setores clericalistas e tradicionalistas que insistem em manter estruturas hierárquicas rígidas e masculinizadas, é inegável que o Espírito continua a soprar, convidando-nos a romper com modelos de Igreja patriarcal e a construir comunidades onde as mulheres não sejam apenas acolhidas, mas reconhecidas como protagonistas do Reino — à imagem daquela mulher do Evangelho que, pela fé e ousadia, tocou o manto de Jesus e antecipou, com seu gesto, o novo modo de ser Igreja que hoje queremos viver.

A pedagogia de Jesus nos ensina a escutar os clamores que muitas vezes não são ditos com palavras. A mulher do Evangelho representa as muitas mulheres de ontem e de hoje silenciadas, patologizadas, invisibilizadas. Seja pela religião que as cala, pela política que as ignora, pela sociedade que as julga, ou pela psicologia que, às vezes, as reduz a sintomas. Jesus, ao vê-la, reconhece a dignidade roubada e restitui sua voz. Este é um caminho pedagógico: ver, escutar, reconhecer e devolver a palavra ao oprimido.

Não podemos ignorar o simbolismo do número doze presente nos dois casos: a menina de doze anos, a mulher que sofria há doze anos. O número doze, que na tradição judaica remete às doze tribos de Israel, representa o povo inteiro. É como se Mateus quisesse dizer: todo o povo precisa ser tocado, curado, ressuscitado. A menina morta e a mulher sangrando são símbolos de uma sociedade adoecida — e Jesus é aquele que vem para restaurar integralmente, no corpo e na alma, no indivíduo e na coletividade. 

Mas há ainda um entrelaçamento mais profundo: enquanto a menina vivia seus doze primeiros anos, tempo que no judaísmo marca a passagem para a responsabilidade religiosa (a bat mitzvah) a mulher passava os mesmos doze anos sofrendo. Uma começa sua adolescência, outra vive uma adolescência perdida. Uma representa o futuro, outra, o passado ferido. Uma estava morrendo no corpo, a outra, morrendo na alma. Ambas, no entanto, são visitadas pela mesma graça. Jesus é o ponto de encontro entre essas duas histórias que o sistema social e religioso manteria separadas: uma filha de um líder da sinagoga e uma mulher impura e anônima. O Reino de Deus, portanto, começa a se manifestar quando o tempo da dor se cruza com o tempo da promessa. Quando Jesus é tocado, o tempo cronológico (kronos) é interrompido e o tempo de Deus (kairós) se instala: o tempo da mulher que sofria chega ao fim; o tempo da menina que mal havia começado é restituído.

Esse encontro entre duas gerações femininas também nos interpela a pensar nos ciclos de exclusão vividos pelas mulheres em nossos dias.

  •  Quantas adolescentes hoje têm sua infância interrompida por abusos, desigualdades e opressões? 
  • Quantas mulheres adultas carregam por anos feridas físicas, emocionais e espirituais causadas por um sistema que as silencia, seja na Igreja, na política ou dentro de casa? 

A pedagogia do Reino encarnada por Jesus vem para estancar esses sangramentos e ressuscitar aquilo que foi dado como morto. Ressignifica o tempo, redime a história, reconstrói a dignidade. 

Os  doze anos marcam períodos de transição, de formação da identidade, de sofrimento acumulado. Doze anos de dor não são apenas uma estatística: são memórias, traumas, abandono. Já os doze anos da menina falam do limiar da juventude, do potencial interrompido. Sociologicamente, podemos ler esse cruzamento como denúncia de uma cultura que marginaliza mulheres em todas as fases da vida: na juventude, com hipersexualização ou desvalorização; na idade adulta, com apagamento e exploração. A menina e a mulher, portanto, não são apenas personagens do passado: elas são rostos do presente. E a resposta de Jesus  que se deixa tocar por uma, e toma pela mão a outra  revela uma nova forma de se relacionar com o tempo, com os corpos, com a dor e com a esperança. A psicologia pode nos ajudar a compreender o alcance desse toque de Jesus como uma ação que ressignifica a subjetividade ferida. O toque não é apenas físico, mas relacional. Ele acolhe, devolve valor, reintegra à vida. A antropologia nos lembra que o toque é um dos primeiros gestos de linguagem humana, anterior à palavra. Jesus, portanto, comunica com gestos o que as palavras religiosas muitas vezes não conseguem transmitir. Já a sociologia nos mostra que a exclusão ritual dessas mulheres reflete mecanismos de poder que ainda hoje se perpetuam: 

  • Quem tem acesso à cura? 
  • Quem tem direito de tocar e ser tocado?

Não estamos sozinhos. Jesus continua passando em meio às multidões, sensível aos clamores explícitos e aos que se escondem por vergonha ou medo. Continua parando para ver quem o tocou com fé. Continua dizendo:  Coragem, minha filha! Coragem, meu filho!”. Palavras que não são fórmula mágica, mas um chamado à esperança ativa. O toque da fé que cura é o gesto que ousa romper o conformismo religioso e a cegueira institucional. É o grito silencioso de quem se recusa a morrer sem lutar por vida plena. 

O Evangelho de hoje nos convida a assumir o lugar daquela mulher: dar um passo de fé mesmo quando tudo parece conspirar contra nós: 

  • Romper o medo
  • Vencer as barreiras 
  • Tocar o Cristo que continua passando pela história.
Mas também nos chama a sermos como Jesus: pessoas capazes de se deixar interromper pelo sofrimento alheio, de enxergar os invisíveis, de escutar os silenciados e de transformar a compaixão em compromisso concreto. Que a Igreja, tantas vezes marcada pelo clericalismo, pela indiferença e pela cumplicidade com estruturas de exclusão, permita-se ser continuamente convertida por este Evangelho. Que reaprenda a ver os que ninguém vê, a tocar os que ninguém toca e a acolher os que foram marginalizados pela sociedade e, por vezes, até pela própria religião. Que seja uma comunidade onde as mulheres não sejam silenciadas nem tratadas como cidadãs de segunda categoria, mas reconhecidas, como por Jesus, em sua plena dignidade de filhas de Deus. Que a fé cristã volte a ser hospital de campanha para a humanidade ferida, e nunca trincheira de ideologias de ódio, violência ou morte. No caminho da fé, Jesus continua repetindo ao coração de cada discípulo: "Não tenhas medo. Crê somente" (cf. Mc 5,36). A fé não elimina imediatamente todas as dores, mas abre espaço para que Deus realize o impossível. Quando ela é autêntica, ainda que pequena e trêmula, torna-se encontro com a graça. Então, o que parecia perdido reencontra esperança; o que estava paralisado volta a caminhar; e aquilo que parecia definitivamente morto revive pela força da vida nova. Porque o Deus revelado em Jesus Cristo não abandona ninguém no vale das lágrimas (cf. Sl 23,4). Ele continua sendo o Deus que se deixa tocar pela dor humana e que toca a humanidade com um amor misericordioso, libertador e verdadeiramente revolucionário, capaz de vencer a exclusão, restaurar a dignidade e fazer florescer a vida onde muitos já enxergavam apenas o fim.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 11 de junho de 2023

Um olhar no texto de Mateus 9, 9- 13 ; 10º Domingo do tempo comum

 

    Estamos com um pequeno problema no nosso computador,  por isso estamos com dificuldade de posta  o nosso texto. Agradeço a todos pela compreensão  mas segue o nosso vídeo 

Todos nós vivemos afirmando que Jesus é misericordioso, que veio para trazer a salvação para todas as pessoas e coisas do gênero, mas na hora da convivência com as pessoas, parece que não é bem assim, pois somos proibitivos e sabemos sempre evidenciar os erros e os pecados que são cometidos para provocarmos discórdia, separação e exclusão. É muito comum ouvirmos nas comunidades: "Eu acho que Fulano não pode participar de tal coisa porque ele fez isso e aquilo". Devemos crer que de fato não somos nós quem chamamos para o serviço do Reino, é Jesus quem chama e ele sabe muito melhor que nós quem está chamando e porque ele está chamando. A nós compete criar condições para que todos possam assumir a própria vocação.