Mostrando postagens com marcador oração. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador oração. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de agosto de 2026

Continuemos Gentis, Iluminados e Iluminadores

  • Padre Zezinho Scj, a gratidão de um discípulo formado pela sua missão 

A GOTA D’ÁGUA 

Pe Zezinho scj

A partir do próximo domingo , dia 2 de agosto silenciarei na internet,  na qual  entrei a conselho de bispos e de um  irmão de congregação .   Apenas conversarei com meus 100 catequistas da WhatsApp . Devo isso a eles !   Não sei se voltarei às outras redes sociais .   Cansei de ser chamado “câncer da Igreja”  por pregar a Teologia da Libertação devidamente  corrigida por São João Paulo II em carta de 9.4.1986  sendo eu discípulo do advogado e sociólogo  Padre Dehon ,  lutei em defesa da Doutrina Social da Igreja ( DSI) .   Outros irmãos de outra corrente social gritaram  mais alto do que eu !  Foram 60 anos tentando dialogar sobre catequese católica ! 

Minha simples resposta paterna sobre o jeito de pregar ao microfone virou confronto político e discórdia entre católicos de  diferente corrente e postura pastoral ! 

Não fiquei padre para ouvir o que ouvi e li  no dia 19 de julho ! Quem postou aquele confronto e a maneira como foi postado quis me cancelar e alcançou   seu objetivo !  Reitero minha opinião de que a catequese deve ser sempre gentil , mesmo dizendo verdades exigentes .  

Padre Zezinho scj

Poucas frases conseguem resumir tão bem uma vida inteira. Foi com essas palavras que José Fernandes Oliveira  o Padre Zezinho, SCJ, anunciou, no dia 2 de agosto, Dia das Vocações Sacerdotais, que encerrava sua atuação nas redes sociais leia o texto acima. Não é um gesto de desistência, nem um adeus à missão. É a decisão serena de quem sabe que o Evangelho não depende de uma plataforma para continuar transformando vidas. Os meios de comunicação mudam; a missão permanece. Ao ler sua mensagem, senti tristeza, mas, acima de tudo, gratidão. Gratidão porque sua despedida das redes sociais não representa um silêncio. Quem evangelizou durante tantas décadas por meio da música, dos livros, dos artigos, da rádio, da televisão, das palestras e dos retiros jamais deixará de falar. Sua voz continuará ecoando nas comunidades, nas famílias, nas salas de catequese, nas igrejas e no coração de milhões de pessoas..Na verdade, aquela breve mensagem soou como um verdadeiro testamento espiritual. Padre Zezinho recordou que o púlpito é um lugar sagrado; que o microfone católico existe para anunciar Jesus Cristo, nunca para espalhar ódio, humilhação ou condenação; que o Evangelho pode ser anunciado com firmeza sem perder a delicadeza; e que a verdade nunca precisa ser agressiva para permanecer verdade. 

Ao recordar os Boanerges, os "filhos do trovão", que desejaram fazer cair fogo do céu sobre aqueles que pensavam diferente, Padre Zezinho trouxe à memória a resposta do próprio Jesus, que repreendeu aquele espírito de intolerância. Em tempos marcados por radicalismos, polarizações e discursos violentos, essa reflexão é profundamente evangélica e extraordinariamente atual. Ela nos lembra que o discípulo de Cristo não é chamado a vencer discussões, mas a testemunhar o amor que brota do Evangelho..  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho permaneceu fiel a esse princípio. Sacerdote do Sagrado Coração de Jesus, compositor, escritor, comunicador, pregador e catequista, tornou-se um dos maiores evangelizadores que a Igreja no Brasil conheceu. Sua missão ultrapassou fronteiras. Suas músicas foram traduzidas, gravadas e cantadas por inúmeras comunidades. Seus livros formaram gerações de catequistas, ministros, religiosos, seminaristas, padres e leigos. Seus artigos ensinaram milhares de pessoas a pensar a fé, enquanto seus programas de rádio levaram esperança a incontáveis famílias.

Mais do que produzir canções ou escrever livros, Padre Zezinho ajudou a traduzir para a linguagem do povo a riqueza do Concílio Vaticano II. Mostrou, com palavras simples e profunda fidelidade ao Magistério da Igreja, que ela é chamada a ser Mãe e Mestra, missionária, acolhedora, misericordiosa e profundamente humana. Ensinou que fidelidade ao Evangelho jamais significa intolerância e que a verdade de Cristo caminha sempre de mãos dadas com a caridade..Por isso, sua despedida das redes sociais não é um ponto final. É apenas o encerramento de uma etapa de uma história que continuará sendo escrita na vida daqueles que foram formados por sua missão.

Particularmente  cheguei à Igreja Católica aos 17 anos de idade, na década de 1990. Era um jovem em busca de ideal, de um projeto,  na verdade  buscava Deus,  precisava  de respostas e de um sentido para a vida,  como tantos outros, procurava algo que desse direção à minha existência. Foi na Igreja que encontrei Jesus Cristo e, pouco tempo depois, tive a graça de ser chamado para servir como Ministro da Palavra. Começava ali uma caminhada de fé, de estudo, de oração e de serviço ao povo de Deus..Naquele tempo, eu ainda não imaginava quantas pessoas Deus colocaria em meu caminho para ajudar na minha formação. Entre todas elas, uma ocupa um lugar muito especial: Padre Zezinho.

Conheci primeiro sua voz. Depois vieram as músicas, os livros, os artigos, os LPs, naquele tempo  ainda  era os LPs e as reflexões. Sem perceber, eu estava sendo catequizado por um sacerdote que conseguia unir profundidade teológica, fidelidade à Igreja, amor à Sagrada Escritura, sensibilidade humana, compromisso social e uma linguagem simples, acessível e profundamente cristã..Com o passar dos anos, compreendi que Padre Zezinho nunca foi apenas um compositor,  mas um educador da fé e  nunca foi apenas um cantor.  Ele é  um catequista,  também  nunca foi apenas um escritor,  na  verdade  é  um mestre que ajudava e ajuda  o povo de Deus a pensar, rezar e viver o Evangelho.

Foi por meio de sua obra que descobri uma verdade que levo comigo até hoje: a música também pode evangelizar, pode formar consciências, ensinar teologia, despertar vocações, fortalecer famílias, alimentar a esperança e aproximar as pessoas de Jesus Cristo. Sem exagero, posso dizer que minha formação como jovem católico, como Ministro  leigo comprometido com a Igreja foi profundamente marcada pela riqueza espiritual, humana e catequética de sua missão. Foi ela que ajudou a moldar minha maneira de compreender a fé, viver a Igreja e anunciar o Evangelho.  Foi justamente por isso que, ao saber de sua despedida das redes sociais, senti a necessidade de escrever estas palavras. Não apenas para agradecer por sua trajetória, mas para testemunhar que sua missão continua viva na história de inúmeras pessoas.

 Jamais imaginei que Deus ainda me concederia uma graça maior: encontrá-lo pessoalmente. Antes desse encontro, porém, sua obra já havia se tornado presença constante na minha caminhada de fé. E  sua  obra carrega um convite à conversão, à oração e ao compromisso com o Evangelho. Suas músicas não são apenas melodias bonitas, mas verdadeiras reflexões sobre Deus, sobre a vida humana e sobre a missão cristã no mundo e sem  perceber, fui sendo formado também por suas canções, que acompanharam diferentes momentos da minha história de fé.

Como não  agradecer  ao Mestre Padre Zezinho SCj  as musicas, os textos  aa reflexões  e tudo mais. Como não  lembrar de; 

  • "Maria de Minha Infância"  que despertou em mim um profundo amor filial pela Mãe de Jesus. Por meio daquela canção, Maria deixou de ser apenas uma personagem da história da salvação para tornar-se uma presença materna na minha vida espiritual. 
  •  "Mãe do Céu Morena"  que  me abriu um novo horizonte. A curiosidade despertada por essa música levou-me a conhecer a história de Nossa Senhora de Guadalupe, sua aparição a São Juan Diego e a riqueza espiritual da Padroeira das Américas..Com o passar dos anos, essa descoberta transformou-se em devoção. Hoje, com alegria, posso dizer que sou guadalupano. Minha devoção à Virgem de Guadalupe nasceu, em grande parte, porque essa  canção abriu meu coração para conhecer essa manifestação tão bonita do amor de Deus através de Maria. Talvez Padre Zezinho jamais tenha imaginado quantas histórias semelhantes nasceram por causa dessa música. Na minha vida, ela foi muito mais do que uma composição: tornou-se um caminho de evangelização.
  • "Oração pela Família"  ensinou-me que a família é uma verdadeira Igreja doméstica, onde o amor, o diálogo, o perdão e a oração sustentam a vida cotidiana. Em tempos de tantas dificuldades para as famílias, essa canção continua lembrando que a presença de Deus dentro do lar é fonte de força e esperança.
  • "Família do Brasil" ampliou meu olhar, mostrando que o Evangelho não se limita às paredes de nossas casas. A família cristã também possui uma responsabilidade diante da sociedade, chamada a promover o cuidado com o próximo, a solidariedade e o compromisso com o bem comum.
  • "Jovem Galileu". Nela encontrei um Jesus próximo, humano e amigo, capaz de caminhar ao lado dos jovens e continuar fazendo o mesmo convite de sempre: "Vem e segue-me." Não era um Cristo distante, mas o Mestre que chama cada pessoa para uma vida nova.
  • Cristo Inconstante e Meu Cristo Jovem, lançado em dois  LPs de reflexão, obras que guardo com especial carinho. Elas ajudaram-me a compreender que seguir Jesus exige conversão permanente.
São músicas que não oferecem uma fé superficial, mas provoca perguntas, desperta  a consciência e convida  a um cristianismo autêntico, no qual aquilo que professamos precisa estar unido àquilo que vivemos.  Padre Zezinho também me ensinou que a espiritualidade cristã não pode ignorar o sofrimento humano.

  •  Em "País Paraplégico", conheci uma dimensão muito pessoal de sua história. Ao transformar a experiência vivida com seus pais em uma reflexão sobre dignidade, perseverança, amor e esperança, mostrou que a dor, quando iluminada pela fé, pode tornar-se testemunho.
  • Em "Briga com Deus", encontrei uma das mais belas expressões da dor humana transformada em oração. Ao narrar o sofrimento de pais que perderam um filho, mostrou que a fé não elimina as lágrimas nem proíbe as perguntas. Como Jó, Jeremias e tantos salmistas, também podemos apresentar nossas dores diante de Deus. Essa canção ensinou-me que até o silêncio de Deus pode se transformar em lugar de encontro com Ele.

Outras músicas ampliaram meu olhar sobre as exigências do Evangelho. 

  • " Mais um Irmão" despertou em mim a consciência de que seguir Cristo significa defender a vida, promover a paz e reconhecer a dignidade de toda pessoa humana. 
  • "Menores Abandonados" fez-me compreender que a opção pelos pequenos, pelos pobres e pelos esquecidos pertence ao coração da Boa-Nova anunciada por Jesus.
  • "A Verdade Vos Libertará" e "A Verdade é Bem Maior" ensinaram-me que a verdade do Evangelho está acima de nossas preferências pessoais, ideológicas ou partidárias. Cristo continua sendo a Verdade que liberta e conduz à verdadeira liberdade.
Em muitos momentos da minha vida no silêncio vem a mente 

  • "Estou Pensando em Deus" transformou-se em oração. 
  • "Chuva no Telhado" mostrou-me que Deus também se revela na simplicidade do cotidiano,  quando  chove e estou bem abrigafo e meu irmão  sem um lugar para  morar,  nos pequenos gestos e no silêncio.
  •  "Quando Jesus Passar" fortaleceu minha esperança, lembrando-me de que um encontro verdadeiro com Cristo é capaz de transformar completamente uma existência.
  • "Amar Como Jesus Amou" tornou-se, para mim, uma síntese do próprio Evangelho: não existe verdadeira espiritualidade cristã sem amor, porque o amor é o caminho deixado por Jesus.
Entre tantas canções, "Utopia" ocupa um lugar especial me faz lembrar do meu pai, da minha mae  e irmãs e irmãos.  As  canções  alimentaram  em mim o sonho de uma Igreja mais fraterna, misericordiosa, missionária e fiel ao Evangelho; uma Igreja que dialoga sem perder sua identidade, acolhe sem abandonar a verdade e anuncia Cristo sem transformar o altar em tribunal.

Na  mensagem com que Padre Zezinho se despede das redes sociais, reconheci exatamente essa mesma esperança. É a continuidade de tudo aquilo que ele sempre cantou, escreveu e testemunhou ao longo da vida e  é  assim que compreendo que Padre Zezinho nunca escreveu simplesmente canções religiosas. Fez teologia em linguagem popular, transformou poesia em catequese, música em evangelização e arte em formação humana e cristã.  Milhões de pessoas aprenderam a rezar, a amar a Igreja e a seguir Jesus Cristo por meio de sua missão e  posso afirma que: Eu sou uma delas.

Depois de tantos anos de caminhada ouvindo suas músicas, lendo seus livros e sendo formado por suas reflexões, Deus concedeu-me uma graça que guardo com profundo carinho: conhecer pessoalmente Padre Zezinho. Nas celebrações do Jubileu de Ouro da criação da Diocese de Nova Iguaçu em 2010, tive a alegria de participar de um momento que jamais esquecerei. Fui responsável por conduzi-lo ao local do show comemorativo daquele jubileu e traze-lo,  esta no palco fazendo a algumas fotos pra Diocese. Para muitos, poderia parecer apenas uma tarefa de organização, mas para mim, porém, foi um presente de Deus.

Ali, eu não estava simplesmente acompanhando um sacerdote conhecido em todo o Brasil, estava convivendo, ainda que por poucas horas, com alguém que já fazia parte da minha história de fé muito antes daquele encontro. As canções que marcaram minha juventude, os livros que alimentaram minha formação e as reflexões que tantas vezes iluminaram meu caminho agora ganhavam o rosto de uma pessoa que eu podia ouvir, observar e conhecer de perto, e era mesmo padre, alguém  perto  e real.  Ele não  é  personagem  de palco, ele é   único 

Aqueles  dias ficaram  gravado em minha memória não apenas pelo evento, pelo palco ou pela multidão que aguardava sua chegada, mas, sobretudo, pelos momentos simples que compartilhamos. Sentamo-nos à mesma mesa no café da manhã, no almoço e no jantar,  nao teve ego de pop star. Foi justamente nessa convivência cotidiana que confirmei aquilo que durante tantos anos havia percebido em suas obras. Por trás do compositor admirado, do escritor reconhecido e do evangelizador que alcançou milhões de pessoas havia um sacerdote simples, acolhedor e profundamente humano. Ele conversava com naturalidade, tratava todos com respeito e demonstrava uma serenidade que não precisava de discursos para se revelar, a simplicidade que transparecia em suas músicas também estava presente em seus gestos.

Guardo com especial carinho uma lembrança daquele café da manhã. Em razão do diabetes, Padre Zezinho comentou sobre os cuidados com a alimentação e disse, de maneira muito espontânea, que o açúcar era um veneno no café da manhã e que todo excesso acaba fazendo mal. À primeira vista, parecia apenas uma observação sobre hábitos alimentares,  no entanto, aquela frase carregava uma sabedoria que ia muito além da mesa, quando tomo café e coloco açúcar. Lembro dessa frase e naquele instante compreendi, mais uma vez, que a fé cristã toca a vida concreta. Ela se manifesta também nas pequenas escolhas, no equilíbrio, na prudência, no cuidado consigo mesmo e com os outros...Era a mesma coerência que eu encontrava em seus livros e canções: um Evangelho vivido no cotidiano, sem artificialismos, sem espetáculo e sem distância da realidade.

Ao final daquele dia, saí com uma certeza ainda mais profunda: A grandeza de uma pessoa não se mede apenas pelo número de livros escritos, de discos gravados ou de pessoas que a conhecem. Mede-se, sobretudo, pela maneira como ela trata quem está ao seu lado quando os holofotes não estão acesos.

O Padre Zezinho que encontrei naquele jubileu era exatamente o mesmo que eu conhecia por meio de suas músicas: um homem de fé, sensível ao sofrimento humano, apaixonado por Jesus Cristo e comprometido com a missão de evangelizar..Não havia diferença entre o sacerdote do palco e o sacerdote da mesa; entre o comunicador admirado e o homem simples do convívio cotidiano. Essa coerência talvez seja um dos maiores testemunhos que sua vida oferece à Igreja e por isso, quando  leio a  sua decisão de deixar as redes sociais, lembrei-me imediatamente daquele dia. Compreendi que os instrumentos de comunicação podem mudar, mas o testemunho permanece. As redes sociais deixam de receber suas publicações, mas sua presença continua viva em cada comunidade que canta suas músicas, em cada catequista que utiliza seus livros, em cada jovem que reencontra a esperança por meio de suas palavras e em cada família que aprende, com suas canções, que amar é o caminho do Evangelho.

Sua  vida inteiramente dedicada a Cristo não termina quando uma atividade chega ao fim. Ela continua produzindo frutos na existência de todos aqueles que foram alcançados pelo testemunho de quem viveu para anunciar o Reino de Deus. É por isso que Padre Zezinho não está encerrando uma missão. Apenas conclui uma etapa de um ministério que continuará ecoando na memória, na fé e no coração de milhões de pessoas.

Ao chegar ao fim desta homenagem, percebo que ela fala tanto sobre Padre Zezinho quanto sobre a ação de Deus na minha  vida  e daqueles que ele ajudou a formar. Quando olho para minha própria caminhada, reconheço que muitas das sementes lançadas em meu coração chegaram por meio de sua missão.  Deus serviu-se de suas canções, de seus livros, de seus artigos e de seu testemunho sacerdotal para fortalecer minha fé, ampliar minha compreensão do Evangelho e ensinar-me que seguir Jesus Cristo é um caminho de conversão permanente.  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho mostra  a milhares de pessoas que é possível anunciar a verdade sem abrir mão da caridade, defender a fé sem transformar o altar em tribuna de ataques e exercer uma voz profética sem perder a ternura.

Vivemos  tempos em que tantos utilizam a religião para alimentar divisões, ressentimentos e intolerâncias, seu testemunho permanece como um convite a redescobrir o coração do Evangelho: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Foi ouvindo suas canções, lendo seus livros e acompanhando suas reflexões que compreendi, cada vez mais, que a Igreja é chamada a ser sinal de comunhão, misericórdia e esperança. Uma Igreja que acolhe sem relativizar a verdade, que corrige sem humilhar, que evangeliza sem condenar e que jamais deixa de enxergar, em cada pessoa, um filho amado de Deus. Essa talvez seja uma das maiores marcas de sua missão. Padre Zezinho nunca apresentou um cristianismo baseado no medo, na agressividade ou na exclusão. Sempre apontou para uma fé profundamente humana porque profundamente enraizada no Evangelho. Por isso, sua voz continuará necessária, mesmo que já não esteja presente diariamente nas redes sociais.

Obrigado, Padre Zezinho, por tudo o que o senhor plantou na Igreja do Brasil e além de suas fronteiras, pelas canções que se transformaram em oração, pelos livros que se transformaram em formação, pelos artigos que despertaram reflexão, pelas palavras que iluminaram consciências e pelo testemunho sacerdotal que mostrou que é possível permanecer fiel a Cristo sem perder a simplicidade, a sensibilidade e a humanidade,  por ter ajudado a formar minha caminhada de fé desde aquele jovem de dezessete anos que chegou à Igreja em busca de sentido para a vida e encontrou, no serviço como Ministro da Palavra, uma vocação de leigo comprometido com o Reino de Deus. 

Obrigado!

Hoje, olhando para trás, reconheço, com profunda gratidão, que uma parte importante dessa história também foi construída pela sua presença. Peço ao Sagrado Coração de Jesus, a quem Padre Zezinho consagrou sua vida como religioso dehoniano, que continue sustentando sua saúde, sua paz e sua missão. Peço também à Virgem de Guadalupe, cuja devoção floresceu em meu coração por meio de uma de suas canções, que continue intercedendo por sua caminhada com ternura de Mãe.

Padre Zezinho deixa as redes sociais, mas permanece onde sempre esteve: na memória agradecida da Igreja, nas comunidades que continuam cantando suas músicas, nos catequistas que formam novas gerações, nas famílias que rezam inspiradas por suas composições e no coração de milhões de pessoas que aprenderam, por meio de sua missão, que anunciar Jesus Cristo é anunciar também a misericórdia, a verdade e o amor.

Os verdadeiros evangelizadores não desaparecem quando deixam os holofotes. Permanecem vivos nas vidas que ajudaram a transformar, na fé que despertaram, nas vocações que inspiraram e nas sementes do Reino que lançaram ao longo do caminho.

Muito obrigado, Padre Zezinho.

Que Deus continue abençoando sua vida e recompense, com a abundância de sua graça, todo o bem que o senhor realizou e continua realizando na Igreja. E que suas palavras, que atravessaram gerações e chegaram ao coração de tantas pessoas, continuem ecoando como um convite para todos nós:

"Continuemos gentis, iluminados e iluminadores."

DNonato - Ainda aprendendo a amar como Jesus amou.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 17,1-11a


O texto de João 17,1-11a proclamado   terça-feira  da sétima  semana da Páscoa  nos convida a mergulhar na essência da missão de Jesus e a repensar o papel da Igreja e do cristão no mundo atual. Longe de ser uma oração de fuga ou de elevação mística, ela se revela um clamor profundamente encarnado, que ecoa no limiar da cruz, em favor dos discípulos e de todos os que, por meio deles, crerão. É um convite à vida eterna, compreendida como a comunhão com o Deus verdadeiro e com a verdadeira humanidade, em contraposição à morte existencial gerada por sistemas iníquos e ideologias idolátricas.

Quando Jesus declara "Pai, chegou a hora", ele se refere a um momento que vai além do tempo cronológico. É o kairós, o tempo da plenitude da revelação, da glorificação que, paradoxalmente, se concretiza na cruz. Essa glorificação não se alinha aos critérios mundanos de poder e triunfo, mas se manifesta no amor que se doa até o fim, como atesta João 13,1. Nesse contexto, a vida eterna é definida como o "conhecer" o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo (João 17,3). O verbo grego gignósko aqui não se refere a um conhecimento intelectual ou dogmático, mas a uma experiência vital de relação e aliança. Conhecer a Deus é amar como Ele ama, viver como Jesus viveu, traduzindo esse amor em gestos concretos de justiça, como o cuidado com os marginalizados e a luta contra a opressão.

A revelação do verdadeiro Deus é incompatível com os falsos deuses que surgem do mercado, do nacionalismo religioso, do autoritarismo travestido de moralidade. Pensemos no consumo desenfreado que define o valor das pessoas por bens materiais, no nacionalismo religioso que ergue muros e justifica a xenofobia em nome de uma suposta fé, ou no autoritarismo que, sob o manto da "moralidade" ou da "família tradicional", oprime minorias e silencia vozes dissonantes. Qualquer divindade que legitime a violência, exclua o diferente, sustente desigualdades ou exija sacrifícios humanos é, em sua essência, um ídolo. A oração de Jesus, portanto, é um grito profético contra os "deuses do Império", sejam eles os romanos do passado ou os neoliberais do presente, impulsionando-nos a uma solidariedade ativa com os que sofrem.

A exegese de João 17 revela que Jesus não pede que seus discípulos sejam retirados do mundo, mas que sejam guardados do Maligno (João 17,15). O "mundo" aqui não se refere ao planeta ou à humanidade, mas ao sistema organizado contra Deus, à lógica estrutural do pecado: a ordem injusta, a política excludente, a religião sem misericórdia. Os discípulos são chamados a estar presentes no mundo, inseridos, mas não cúmplices; testemunhas, não alienados. Isso exige discernimento e resistência, transformando a oração em ação que contesta as estruturas de pecado.

A história da Igreja, como aponta a sociologia da religião, mostra como o cristianismo institucional frequentemente cedeu à tentação do poder. O clericalismo, criticado pelo Papa Francisco, é um exemplo disso, transformando o serviço em privilégio e a profecia em silêncio cúmplice. Em contraste, Jesus entrega sua "glória" — a manifestação de Deus em sua vida e morte — a um grupo de discípulos frágeis e marginais, formando uma comunidade que é um corpo em missão, não uma fortaleza doutrinal. Essa missão se manifesta na capacidade de acolher o diferente e de ser voz para os silenciados, agindo de forma concreta em defesa da vida.

A antropologia crítica nos lembra que o ser humano se constitui na relação. Ninguém se salva sozinho, ninguém se realiza isolado. A oração de Jesus clama pela unidade: "para que sejam um como nós somos um" (João 17,11). No entanto, essa unidade não é uniformidade ou adesão cega à autoridade religiosa, mas comunhão no amor, na liberdade e na verdade. Como afirmou Santo Irineu, "A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus". Qualquer projeto eclesial que suprima a liberdade, reduza a fé a obediência cega ou sustente estruturas de opressão trai a oração de Jesus, e falha em manifestar a verdade do Evangelho na vivência da fraternidade.

Neste espírito de comunhão e de escuta da oração de Jesus por unidade, celebramos de 1º a 8 de junho de 2025 a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, com o tema “Crês nisto?” (João 11,26)A pergunta dirigida por Jesus a Marta, diante do túmulo de Lázaro, ressoa como interpelação à fé de nossas comunidades: cremos, de fato, no poder da vida sobre a morte, da comunhão sobre a divisão, da fraternidade sobre o sectarismo? A unidade cristã, tão cara ao coração de Cristo, não pode ser postergada ou reduzida a gestos protocolares: ela deve ser buscada com coragem, humildade e abertura ao Espírito. Numa época marcada por polarizações religiosas e instrumentalizações da fé, este tempo ecumênico é chamado a ser profecia de reconciliação e testemunho do Reino.

A unidade pela qual Jesus ora é a comunhão na diversidade, como nas primeiras comunidades que tinham "um só coração e uma só alma" (Atos 4,32), mesmo entre diferentes culturas, línguas e histórias. A Igreja, como "sacramento universal da salvação" (LG 48), é chamada a ser sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, e não um "bunker doutrinal ou partido ideológico". Isso implica uma fé que se traduz em atos de inclusão e defesa da dignidade humana.

Na história da Igreja, sempre que o Reino de Deus foi confundido com o poder temporal, o Evangelho foi mutilado. Diante do avanço de uma extrema direita que manipula símbolos religiosos para justificar exclusão, violência e preconceito, a oração de Jesus nos convoca à vigilância. Não há neutralidade possível: "quem não está comigo, está contra mim" (Mateus 12,30). O discurso de ódio travestido de piedade não resiste ao crivo do Evangelho. A cruz de Cristo não é símbolo de domínio, mas de solidariedade com os crucificados da história, exigindo de nós uma posição clara e ativa contra a injustiça.

A oração de Jesus ganha vida nos mártires da fé e da justiça, como Dom Oscar Romero e Irmã Dorothy Stang, onde a glória de Deus brilha como resistência e amor. O Papa Francisco, ao propor uma Igreja sinodal, convida ao caminhar e discernir juntos, escutando, dialogando e acolhendo. A oração pela unidade é também um apelo à sinodalidade, como caminho eclesial que brota do próprio coração trinitário e que nos impulsiona a construir pontes, não muros. Documentos como Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti denunciam o risco de uma religião funcional ao sistema. O Papa Francisco, em Laudato Si’, aponta para uma espiritualidade cristã que propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de se alegrar profundamente sem se obcecar pelo consumo. Isso só é possível quando a Igreja se molda pela lógica do Evangelho, e não pela lógica do mercado ou da geopolítica. É a santificação na verdade que nos liberta das mentiras e da idolatria que sustentam esses sistemas.

João 17 é também um convite à esperança escatológica. A glória de Deus já se manifesta na vida de Jesus, mas ainda está em processo. A Igreja, como casta meretrix — santa e pecadora —, é chamada a encarnar a oração de Jesus na história concreta, resistindo ao mundo sem sair dele, permanecendo unida sem ser alienada, vivendo a verdade sem instrumentalizá-la. Isso significa ser um povo que, por meio de suas ações, demonstra que a "tua Palavra é a verdade" (João 17,17), libertando-nos das narrativas falsas que promovem a opressão.

Em tempos de polarização, clericalismo, perseguições aos pobres e abuso da fé para fins políticos, a oração sacerdotal de Jesus deve ser nossa bússola. Que sejamos um povo inserido no mundo, mas não submisso a ele. Um povo livre, não domesticado. Um povo em comunhão com o Deus que dá a vida e com o ser humano que a compartilha. Que nossa fé não seja uma bolha de conforto, mas fermento de justiça e sal de resistência. Que nossa Igreja não seja trincheira de defesa, mas tenda aberta ao sopro do Espírito. Que esta oração nos desperte da anestesia espiritual. Que sejamos uma comunidade pascal no meio da noite, portadores de uma luz que não se impõe, mas se oferece. Em cada gesto de amor e em cada palavra de verdade, que a glória do Crucificado-Ressuscitado se manifeste.

-------------------

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, na escola do Mestre que ora por nós, para que sejamos verdadeiros diante de Deus e irmãos no mundo.




sábado, 22 de outubro de 2022

Um Olhar sobre Lucas: 18, 9-14 - 30º Domingo do Tempo Comum

 Falta uma semana para de fato fecharmos uma eleição no Brasil que envolve dois extremos. Temos o risco de um rompimento da democracia  com discurso que houve fraude  no primeiro turno que se por acaso resultado da eleição  tiver o resultado diferente do esperado. Cada vez mais observamos  o discurso político realizado por padres e  pastores  falando e um risco e que precisamos abraçar esse  candidato por causa desse ou daquele proposta que esse defende.  A dualidade do evangelho desse domingo nos ajuda ler o Brasil de hoje,  pois aqui temos um se dizendo perfeito e digno e no outro lado um se assumindo pecador diante de Deus. 

Mas vamos lá para liturgia desse  domingo que mostra o Evangelho que aponta a maneira correta  de se apresentar diante de Deus sem convencimento ou prepotência, se assumindo pequeno diante da  grandeza do Altíssimo e liturgia desse domingo é a seguinte: Eclesiástico:  35,15b-17.20-22ª;  Salmo 33 (34) com o Refrão: O Senhor ouviu o clamor do pobre;  II Timóteo  4,6-8.16-18 e o evangelho de Lucas 18,9-14.


Tem-se algo que liturgia desse domingo vem denunciar é a hipocrisia religiosa em nossa realidade, Jesus a caminho de Jerusalém apresenta uma realidade dualista, que tem dois extremos.  Um pecador público e um religioso fiel, sem mencionar que aqui temos uma interpretação de um Deus (para muitos protestantes e católicos fundamentalista) longe da proposta de Jesus de Nazaré, um  ser legalista,  rígido, moralista, intolerante e ainda uma projeção da natureza rigorista humana, se perdendo em pequenos detalhes sem sentido no projeto da salvação, sendo um instrumento para controle e nada de livre arbítrio.  O evangelho apresenta os Católicos mais católicos que o Papa, mais santos que próprio Deus e sendo assim pessoas que uma visão que só olha  para defeitos do próximo

Outro dia escrevemos que a bíblia  não é um livro que deve ser  tomado como uma receita, pois em toda bíblia temos pessoas que   fazem escolhas  complicadas logo no inicio com Adão e Eva, com  Abraão com tentativa de ajudar Deus[1], Jacó que rouba a benção de Esaú[2], passando pelo caso dos filhos de Jacó que vendeu o irmão José, por Moisés que alega ter tirado água em Meriba[3],  sem deixar de fora Davi que cometeu adultério e por ai vai, por isso não podemos tomar a bíblia romance, uma fonte cientifica e devido as influencias culturais  sabemos claramente  que toda leitura bíblica deve tomada pelo tripé:  pré-texto, contexto e texto  é esse exercício que fazemos a   escrever nossos textos.

Jesus  respondeu a comunidade nos domingos anteriores sobre o tamanho da fé, sobre a importância da oração, quando contou a parábola do Juiz injusto [4] e apresenta um modelo de oração que Deus  não escuta,  Deus não  aceita chantagens  por praticas de ritos religiosos por puro rito,  sem compromisso nenhum com a vida, pois muitas das vezes a pratica religiosa vazia, nos afasta  de  Deus.

Podem usar a Bíblia King, Mitra e todo e todos os paramentos religiosos com  rigorismos  da eclesial que beira o farisaísmo  só existe um caminho para tais pessoas o caminho  que não é de Deus, pois já se acham melhores que o próprio Deus.   Toda nossa oração é um reflexo daquilo que de fato vivemos. Usando as palavras de Santo Agostinho que dizia: Quem sabe bem rezar, sabe também viver bem”.  Talvez nos falte essa oração comprometida e ainda citando  Madre Tereza de Calcutá que afirmava “Para mim, orar é estar ao longo de 24 horas unida à vontade de Jesus, viver para Ele, por Ele e com Ele” e  diante desse texto o São Felipe de Nery vem completa essa nossa reflexão: “O melhor remédio contra a aridez espiritual consiste em colocarmo-nos como pedintes na presença de Deus e dos santos, e andar, como um pedinte, de um canto para o outro, rogando uma esmola espiritual com a mesma impertinência com que um pobre pede esmola”.

Neste Domingo ainda podemos olhar para os dois personagens que não tem nome e fazer um exame de consciência  como nós rezamos em nossos templos aqui temos a prepotência do fariseu que faz uma leitura de Deus de acordo com sua imperfeita perfeição que se acha já em plena comunhão e do publicano que se coloca a parte lá atrás, de cabeça baixa reconhecendo sua humanidade sua falha.  Em nossas comunidade é comum aportamos os defeitos e  falhas do outros,  colocamos em nossas reuniões e grupos.    O evangelho nos convida a descer a nosso eu verdadeiro e examinar se de fato somos uma casca  de ritos externos ou  todo que se reconhece imperfeito e falho em nossos pecados.

Olhando para  catequese do Papa Francisco de 10 de Abril de 2019  falando orgulho  que se encaixa bem nessa reflexão: "As pessoas que se acham perfeitas, as que criticam os outros, são gente orgulhosa” e quando se refere ao pecado papa ressalta:  "há pecados que nós vemos e pecados que não são vistos. Há enormes pecados que fazem muito ruído, mas há pecados sutis que se aninham no coração”.

Em todo evangelho não temos uma palavra dura de Jesus para com os pecadores arrependidos, para com aqueles que estavam à margem da realidade, bem ao contrario das nossas praticas que logo puxamos do bolso a bíblia, o direito canônico etc. para justificar as motivações para prática a exclusão e ainda citando Francisco que diz que "diante de Deus somos todos pecadores." Mas acima de tudo, "somos devedores, porque, nesta vida, recebemos muito: a existência, um pai e uma mãe, amizades, as maravilhas da criação... Mesmo que todos nós passemos por dias difíceis, devemos sempre lembrar que a vida é uma graça".

Precisamos superar as exclusões de todos os tipos e precisamos remover alguns rótulos de santos e a exemplo de Jesus assumir plenamente a nossa condição humana. Aqui vem a tona aquele Padre do texto de 09 de outubro[5] passada que negou a benção e até excluiu um casal da comunidade por não esta nos parâmetros do direito da Igreja.  O Fariseu com todos os direitos garantidos na participação do culto e o Publicano que era automaticamente excluído por esta a serviço do poder dominante sem nome que podemos colocar nosso nome examinar como esta nossa espiritualidade e examinar se temos uma oração que nos ajuda a mudar nossas atitudes e aqui devemos olhar para nossos cultos emocionais, até mesmo com culto direcionados a promoção de políticos.

Esse evangelho nos apresenta o projeto de Deus, que é para os excluídos e aqui Jesus faz a pergunta crucial.  Qual dos dois saíram justificados em sua oração? As nossas orações são de fato produtos de nossa prática de fé ou mero rito para sermos vistos como santos?

E terminamos o texto com  fala de  São João Crisóstomo “Nada provoca mais dano do que a hipocrisia. O mal oculto sob a aparência do bem é muito mais eficiente”





[1]  Genesis: 16,1-4

[2]  Genesis 27, 1-30

[3]  Numeros  20,6-13

[4] Lucas 18,1-8