Mostrando postagens com marcador "Papa Leão XIV". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "Papa Leão XIV". Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de junho de 2025

Olhando de novo Mateus 16, 13-19 / Stos Pedro & Paulo, dia do Papa


“Sobre esta Rocha”: Igreja viva entre fragilidades redimidas e fidelidade profética

Neste 29 de junho, celebramos a fé intrépida de Pedro e Paulo, pilares da comunidade cristã, vozes distintas que testemunharam o mesmo Cristo com suas vidas integralmente doadas até o martírio. Hoje é também o Dia do Papa, um símbolo da comunhão e do cuidado da Igreja, alicerçada não em sistemas, mas no testemunho vivo.

A liturgia deste dia solene nos propõe um itinerário profundamente eclesial: na primeira leitura (Atos 12,1-11), contemplamos Pedro aprisionado e milagrosamente libertado pela intervenção divina, enquanto a comunidade orava com insistência. O Salmo 33 (34) canta a confiança daqueles que buscam o Senhor: “De todas as tribulações, Deus os livrou.” A segunda leitura (2Timóteo 4,6-8.17-18) traz as palavras derradeiras de Paulo, que oferece sua vida como libação: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” E, por fim, no Evangelho segundo Mateus (16,13-19), ouvimos Pedro reconhecer Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo — e, sobre essa fé vivenciada na carne, Jesus proclama com autoridade: “Sobre esta rocha edificarei a minha Igreja.”

No domingo anterior, escutamos a versão lucana dessa mesma passagem no texto:  Um olhar  sobre  Lucas 9,18-24 - 12⁰  Domingo do Tempo Comum. Em Lucas, a ênfase residia na intimidade do momento e na exigência radical do discipulado: “Se alguém deseja seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz...” Hoje, em lemos  o texto de Mateus, texto que   já  visitamos em  2022 e 2023,  a narrativa adquire um significado eclesial mais profundo, mais fundacional. Diante da profissão de fé de Pedro, Jesus revela seu próprio desígnio: a edificação de uma nova comunidade, não como uma construção de pedras inertes e frias, mas como um povo convocado, um corpo vivo e um sinal visível do Reino de Deus em meio ao mundo.

É a primeira vez que Jesus emprega o termo “Igreja” (ekklesia) nos Evangelhos. Essa palavra, muito antes de denotar templos suntuosos ou instituições religiosas engessadas, designava no universo grego a assembleia dos cidadãos reunidos para deliberar sobre os rumos cruciais da pólis. No hebraico, há ressonâncias profundas do qahal YHWH, a comunidade peregrina do deserto, o povo que escuta atentamente a voz do Senhor e caminha unido, em solidariedade. O termo carrega em si uma tensão inerente entre escuta e missão, entre comunhão profunda e a dinâmica da história. Jesus não se refere a uma nova religião meramente, mas a um povo transformado, convocado à fidelidade amorosa.

Essa dimensão essencial de povo orante é acentuada de forma comovente na leitura dos Atos dos Apóstolos: enquanto Pedro jaz encarcerado, sob a ameaça iminente de morte imposta por Herodes, “a Igreja orava incessantemente a Deus por ele” (Atos 12,5). Essa imagem fala mais alto que muitos tratados teológicos complexos: a Igreja autêntica não se restringe a ensinar doutrinas ou governar hierarquicamente, mas é aquela que vela, que acompanha de perto, que intercede incansavelmente pelos seus. Ela não resgata Pedro com espadas de guerra ou decretos políticos, mas com joelhos curvados em oração e um coração em vigília constante. Quando a Igreja cessa de orar por seus membros feridos, pelos marginalizados e perseguidos, torna-se surda ao Espírito e, tristemente, cúmplice dos poderes que oprimem e injustiçam.

Desde os primórdios da revelação, Deus convoca um povo, não indivíduos isolados, desgarrados. No deserto do Sinai, constitui-se o qahal YHWH, a “assembleia do Senhor” (cf. Deuteronômio 4,10), reunida não por mérito humano, mas por eleição e aliança divina, por pura graça. O qahal é um povo em jornada, em travessia, entre a escravidão do Egito e a promessa de uma terra livre e abundante. É a comunidade que avança, tropeça, murmura, sucumbe e se reergue com persistência, mas que carrega consigo a presença viva de Deus em tendas provisórias e em sinais claros. Essa assembleia do Antigo Testamento é retomada e transfigurada por Jesus como ekklesia, um povo congregado não aos pés imponentes do Sinai, mas em torno do Ressuscitado, e posteriormente em Pentecostes — conforme lemos com clareza em Atos 2,32: “A este Jesus, Deus o ressuscitou; do que todos nós somos testemunhas oculares.”

Quando Jesus profere “a minha Igreja”, Ele não alude a um aparato clerical rígido, a um império espiritual dominador ou a uma fortaleza doutrinal inexpugnável. Ele se refere a um corpo vivo edificado sobre a fé confessada não apenas com os lábios, mas com a própria vida, no dia a dia. A Igreja brota do reconhecimento do Cristo, mas não pode, jamais, se aprisionar nesse reconhecimento. Ela existe para prolongar a missão libertadora do Cristo na história: servir com humildade, libertar os cativos, reconciliar os distanciados, denunciar as injustiças. Quando a Igreja se desvia desse propósito essencial, torna-se uma mera caricatura, uma sombra pálida de si mesma.

Pedro é designado “pedra” não por ser inabalável em sua própria força, mas por sua fragilidade intrínseca, que, paradoxalmente, permite que seja sustentado pela graça divina. A Igreja nasce precisamente da graça que acolhe a imperfeição humana e a transmuta em santidade. Por isso, a figura de Pedro é tão profundamente humana, tão próxima de nós: ele professa a fé com entusiasmo ardente, mas logo será repreendido por sua resistência à cruz; ele promete fidelidade incondicional, mas depois nega o Mestre por três vezes; ele chora amargamente seu erro, mas retorna humildemente ao rebanho. É sobre essa humanidade redimida, essa fragilidade amada, que Jesus edifica sua Igreja. Não sobre purezas idealizadas e inatingíveis, mas sobre testemunhos autênticos e reais, de carne e osso.

A promessa de Jesus não é que a Igreja será imaculada, sem falhas, mas que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18). Isso não implica invulnerabilidade institucional absoluta, mas a certeza inquebrantável de que o mistério pascal sustentará sua missão mesmo em seus momentos mais sombrios de falha humana ou perseguição brutal. A Igreja está sempre sob ameaça — externamente, por poderes hostis e ideologias opressoras, e internamente, por corrupções espirituais e institucionais. Contudo, sua vitalidade e sua força provêm unicamente do Ressuscitado, não de sua própria capacidade ou organização.

As “chaves do Reino”, confiadas a Pedro, não são instrumentos de dominação despótica, mas símbolos profundos de serviço e pastoreio. “Ligar e desligar” representam funções cruciais de discernimento comunitário, de reconciliação, de cura e de cuidado pastoral. São gestos simbólicos que implicam responsabilidade imensa e uma profunda, constante escuta do Espírito Santo. Quando a Igreja se apropria das chaves para fechar portas, excluir, julgar sem misericórdia, ela trai a essência mais pura do Evangelho. As chaves de Pedro deveriam, ao invés, abrir novos caminhos de esperança, acolher os desvalidos, os marginalizados, e conduzir todos ao coração compassivo do Pai.

Celebrar Pedro e Paulo conjuntamente é reconhecer que a Igreja nasce da diversidade rica de dons e se sustenta na tensão fecunda e criativa entre carismas complementares. Pedro, o pescador impetuoso e leal, representa a firmeza da comunhão, a escuta atenta da comunidade e a presença visível entre os irmãos. Paulo, o fariseu zeloso transformado em apóstolo incansável, encarna a profecia, a itinerância missionária incansável e a abertura ousada aos que ainda não foram alcançados pela mensagem salvadora. Um personifica a permanência da Tradição; o outro, o movimento dinâmico da evangelização. Ambos tiveram seus defeitos e qualidades, ambos caíram e se reergueram, ambos foram chamados por Cristo, ambos foram perseguidos implacavelmente, ambos permaneceram fiéis até o martírio supremo. Nenhum dos dois faleceu no conforto de um templo; ambos pereceram nas estradas empoeiradas do Império, testemunhando com suas vidas que o Cristo vivo não está restrito a fronteiras geográficas ou a sistemas humanos. Pedro, com sua impulsividade e negação, revela a vulnerabilidade humana que a graça transforma em fundamento; Paulo, com seu zelo inicial persecutório e posterior ardente missão, mostra a força de uma conversão radical que não se detém. Suas imperfeições não os desqualificaram, mas, redimidas pela fé, tornaram-se o solo fértil sobre o qual a Igreja se ergue como um milagre de persistência e amor.

Na primeira leitura, Pedro é libertado não por intervenção humana, mas por uma oração da comunidade que transpõe muros e barreiras de ferro. Na segunda, Paulo redige sua despedida final, não com ressentimento ou desespero, mas com profunda gratidão e paz: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” Ambos foram sustentados pela comunidade de fé e pelo Espírito Santo que os impulsionava. Ambos vivenciaram a verdade libertadora de que a Igreja é infinitamente maior que seus próprios limites, suas fragilidades, suas instituições.

No Dia do Papa, rememoramos que a função de Pedro persiste, não como um poder que oprime ou domina, mas como um ministério de serviço que une e congrega o rebanho de Cristo. O Papa Francisco, que dedicou grande parte de seu pontificado a reiterar que a Igreja deve ser “uma Igreja em saída” (Evangelii Gaudium 20), acolhedora, samaritana e pobre entre os pobres, foi um exemplo disso. Em profunda sintonia com o Concílio Vaticano II — especialmente a constituição Lumen Gentium, que descreve a Igreja como “sacramento universal de salvação” e “Povo de Deus” (LG 1,9) —, Francisco insistentemente sublinhou que a Igreja precisa ser sinodal, ou seja, um corpo que caminha em uníssono, escuta e discerne comunitariamente, valorizando cada voz batizada. Sua liderança ressoou nos Sínodos recentes e em sua convocação por uma Igreja livre do clericalismo, centrada na misericórdia e na escuta recíproca de todos.

Hoje, essa missão continua nas mãos de Leão XIV, sucessor de Pedro e atual bispo de Roma, a quem cabe o delicado serviço de confirmar os irmãos na fé e de guiar a Igreja com espírito de escuta, diálogo e fidelidade ao Evangelho. Que ele seja sinal da unidade na diversidade, e da firmeza que nasce da fragilidade entregue a Deus.

O Documento de Aparecida (2007), um marco fundamental para a Igreja na América Latina, reforça essa dimensão de Povo de Deus em missão: “A Igreja é o povo de Deus, caminho no mundo” (DA 46). Ele aponta a premente necessidade de uma Igreja que seja capaz de ouvir o clamor dos empobrecidos e da criação, denunciando toda e qualquer forma de exclusão e injustiça social, construindo pontes de diálogo e esperança.

O Instrumentum Laboris do Sínodo para a Sinodalidade (2022) corrobora a visão de uma Igreja que “não é uma mera associação humana, mas a comunidade dos discípulos missionários, povo de Deus em caminho, que escuta a Palavra, celebra os sacramentos e caminha junto no serviço à missão” (§1). Este documento denuncia vigorosamente o clericalismo que paralisa a Igreja e clama por uma conversão pastoral que valorize a corresponsabilidade e a participação plena de todos os batizados, para que a Igreja seja um reflexo mais fiel do Reino.

A pergunta crucial de Jesus permanece viva e ecoa em nossos corações: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Mas agora ela se amplia e nos interpela com mais força: “E que Igreja edificais com vossa vida, com vossas escolhas, com vossas ações diárias?” Que sejamos Igreja como uma comunidade de escuta atenta, como o povo que ora fervorosamente por Pedro em sua prisão, como o corpo que se renova constantemente pela memória viva do Crucificado e pela esperança inabalável da ressurreição. Que sejamos, a exemplo de Pedro e Paulo, pedras vivas — imperfeitas, inacabadas, mas firmemente alicerçadas no Cristo.



DNonato – Teólogo do Cotidiano