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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 5,1-11.

Lucas 5,1-11 não é apenas um relato sobre uma pesca extraordinária nem uma simples história vocacional de pescadores que decidiram seguir Jesus. É uma passagem sobre o encontro entre a Palavra de Deus e a existência humana, entre o cansaço, o fracasso e as limitações e a abertura para um novo horizonte que surge quando alguém se dispõe a escutar. Na liturgia da Igreja Católica Romana, essa perícope é proclamada no 5º Domingo do Tempo Comum, Ano C, e na quinta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum anualmente. Seus relatos paralelos aparecem no 3º Domingo do Tempo Comum: Mateus 4,12-23 no Ano A r Marcos 1,14-20  proclamado  na segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum, logo após  o batismo  do Senhor  Ano B   e Mateus 4,18-22 também integra o Evangelho da Festa de Santo André, em 30 de novembro. Essa organização permite perceber diferentes ênfases na apresentação do chamado dos primeiros discípulos. Lucas situa o episódio depois de apresentar Jesus anunciando o Reino de Deus, ensinando e libertando pessoas do sofrimento. A vocação surge, portanto, no interior de uma obra que já está em curso e alcança homens envolvidos em suas tarefas habituais. Pedro atravessa uma noite de trabalho infrutífero quando Jesus lhe pede que lance novamente as redes. A confiança na Palavra produz uma experiência que supera suas expectativas e desestabiliza suas certezas. A pesca extraordinária, assim, não constitui o ponto culminante do episódio. Ela conduz Pedro ao reconhecimento de sua própria fragilidade — “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lc 5,8) — e, ao mesmo tempo, à descoberta de um novo sentido para sua existência: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10). O Evangelho parte da vida ordinária e, a partir dela, converte o fracasso em experiência de graça, chamado e serviço.

É  preciso   lembrar  que o cenário é o lago de Genesaré, também conhecido como mar da Galileia. A geografia participa da narrativa porque água, margens, barcas, redes e trabalho constituem o ambiente concreto no qual a Palavra é anunciada. Jesus entra na barca de Simão e transforma, por um momento, o espaço profissional daquele trabalhador em lugar de escuta. A fé não é colocada fora da vida. A própria barca torna-se lugar de encontro, ensino e chamado. Lucas apresenta homens que conhecem seu ofício. São trabalhadores acostumados às exigências da pesca. Quando Simão afirma que passaram a noite trabalhando e nada conseguiram, não está simplesmente fornecendo uma informação sobre a pescaria. Sua fala carrega o peso de quem tentou. É a experiência de trabalhar muito sem obter o resultado esperado, de insistir sem ver fruto, de voltar para casa com as redes vazias.

Essa realidade atravessa a existência humana. Há trabalhadores que se esforçam durante anos e continuam vivendo com insegurança. Há famílias que fazem contas diariamente e não conseguem satisfazer necessidades básicas. Há pessoas que procuram emprego, estudam, cuidam de outros e enfrentam sucessivas portas fechadas. Há comunidades que se dedicam intensamente e percebem poucos resultados. Há também pessoas de fé que rezam, servem e, em determinado momento, experimentam silêncio interior. O Evangelho não esconde essa noite. A fé cristã não precisa fingir que tudo sempre dá certo. Jesus pede a Simão que avance para águas mais profundas. A expressão não deve ser reduzida a uma frase motivacional. Na cena, seu primeiro sentido é concreto: voltar ao lago e lançar as redes. A dimensão espiritual nasce do próprio gesto. Profundidade não significa fuga da realidade, desprezo pela razão ou abandono da experiência. Significa não permitir que um fracasso determine definitivamente o horizonte.

Simão poderia argumentar que já havia tentado. Sua experiência profissional lhe dava razões para desconfiar. Mesmo assim, ele escuta. Sua resposta é simples e decisiva: porque Jesus falou, lança novamente as redes. A fé não aparece como ausência de dúvidas, mas como disponibilidade para confiar sem possuir controle sobre o resultado. O discípulo não recebe uma garantia antecipada de sucesso. Recebe uma Palavra que o convida a agir. A pesca abundante acontece como sinal narrativo. As redes se enchem e a quantidade exige a colaboração de outros companheiros. O texto, porém, não autoriza uma leitura segundo a qual seguir Jesus significa necessariamente receber dinheiro, prosperidade ou sucesso. O extraordinário da pesca conduz ao chamado, não ao enriquecimento. O peixe não é o destino da narrativa. O encontro com Jesus é.

Essa distinção é indispensável diante de uma religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de vantagem pessoal. Jesus não entra na vida de Simão para garantir uma carreira mais lucrativa. A abundância recebida se converte em responsabilidade. O sinal desloca o olhar do acúmulo para a missão. E a missão não pode ser realizada sozinho. Simão precisa dos companheiros. A outra barca não é um detalhe secundário. A narrativa mostra que aquilo que ultrapassa a capacidade de uma pessoa requer cooperação. A comunidade não é plateia. A missão cristã não pertence a um especialista isolado, nem a um grupo que concentra todos os dons e decisões. O chamado recebido por alguns precisa encontrar a colaboração de muitos.  O protagonismo de Jesus não transforma os discípulos em proprietários da comunidade. Responsabilidade não é privilégio. Autoridade cristã não deveria produzir distância, controle ou superioridade. Quanto maior a responsabilidade recebida, maior deveria ser a disposição para servir. E depois da pesca, Simão não reage apenas com entusiasmo. Ele reconhece sua fragilidade e se confessa pecador. A experiência do sagrado não produz nele superioridade espiritual, mas consciência de limite. Esse movimento é importante porque uma fé madura não fabrica pessoas convencidas de sua própria grandeza. O encontro com Deus deveria tornar o ser humano mais humilde, não mais arrogante.

Jesus responde ao medo sem transformar a fragilidade de Simão em instrumento de dominação. Ele não o aprisiona na culpa. O medo não é o destino do discípulo. Torna-se ponto de passagem para uma nova responsabilidade. Aqui aparece uma diferença fundamental entre Evangelho e manipulação religiosa: a manipulação mantém pessoas dependentes do medo; o Evangelho chama pessoas frágeis para uma liberdade responsável. Quando Jesus anuncia que Simão, dali em diante, será pescador de pessoas, não está autorizando a captura de consciências. Pessoas não são objetos religiosos. A missão cristã não consiste em dominar indivíduos, controlar escolhas ou produzir dependência de líderes. O discípulo é chamado para uma missão orientada para a vida. Evangelizar significa acolher, acompanhar, servir, ensinar, cuidar e testemunhar. A missão perde sua autenticidade quando transforma pessoas em números, votos, contribuintes, seguidores ou instrumentos de poder.

É por isso que a passagem possui uma profunda dimensão pastoral. Jesus chama pessoas concretas dentro da realidade em que vivem. Não exige perfeição antes do chamado. A vocação acontece no meio da vida, inclusive no meio do fracasso. Uma Igreja fiel a essa dinâmica precisa ser capaz de encontrar pessoas reais, com histórias reais, perguntas reais, feridas reais e esperanças reais. Isso exige uma comunidade que não confunda fidelidade ao Evangelho com preservação da própria imagem. Uma Igreja madura não precisa esconder seus erros para parecer perfeita, nem silenciar pessoas feridas para proteger sua reputação. Quando a instituição passa a proteger mais a própria estrutura do que as pessoas, algo essencial se perdeu. Quando a autoridade religiosa deixa de ouvir quem sofre, sua missão começa a se afastar do Evangelho. A estrutura deve servir à missão, nunca substituir a missão.

O texto também possui consequências sociais. Os discípulos são trabalhadores. Existem responsabilidades familiares, relações profissionais e condições concretas de sobrevivência. Falar de vocação sem considerar a realidade do trabalho seria espiritualizar a passagem. O discipulado não pode ser indiferente à dignidade profissional, ao desemprego, à precarização, à exploração e às desigualdades. O Evangelho também impede que o sofrimento social seja transformado em culpa individual. Nem todo fracasso acontece por falta de fé. Nem toda pobreza resulta de escolhas pessoais. Nem toda dificuldade econômica pode ser explicada por ausência de oração. Culpar os pobres pela própria pobreza apenas acrescenta violência moral à violência social. Da mesma forma, a pesca abundante não pode servir de fundamento para uma religião da prosperidade. Lucas conduz o sinal para o desprendimento. Simão, Tiago e João deixam as redes para seguir Jesus. A abundância não termina no acúmulo, mas na disponibilidade. Isso confronta uma cultura que frequentemente mede o valor humano pelo patrimônio, pela influência, pelo consumo ou pelo número de seguidores.

Seguir Jesus não significa desprezar bens, trabalho ou responsabilidades. Significa impedir que se tornem absolutos. O problema não é simplesmente possuir, mas ser possuído pelo desejo de possuir. Não é exercer autoridade, mas transformar autoridade em dominação. Não é possuir uma instituição, mas transformar a instituição em finalidade absoluta. Essa palavra torna-se especialmente necessária quando a religião se mistura indiscriminadamente com projetos de poder. Nenhum líder político, partido, ideologia ou movimento pode ocupar o lugar do Reino de Deus. A fé não deve ser utilizada para transformar adversários em inimigos absolutos, justificar violência, alimentar ódio ou oferecer linguagem sagrada a projetos de dominação. A crítica cristã precisa alcançar também aqueles que afirmam defender valores religiosos enquanto utilizam a religião para legitimar exclusão, autoritarismo ou desprezo pelos vulneráveis. Isso não significa neutralidade diante da injustiça. O Evangelho exige liberdade para reconhecer o bem, denunciar o mal e questionar qualquer poder que viole a dignidade humana. A Igreja perde sua força profética quando se torna dependente de alianças políticas ou passa a proteger determinados poderosos porque estes utilizam símbolos religiosos. Sua liberdade é parte de sua missão. Lucas 5 convida o discípulo a escutar Jesus antes de transformar seus próprios interesses em critério absoluto. Isso não significa abandonar a inteligência ou a experiência. Significa reconhecer que a Palavra pode deslocar certezas e abrir caminhos que a lógica imediata não percebe.  Simão conhece o fracasso, mas sua história não termina naquela noite. Isso não significa que toda dificuldade terá uma solução espetacular. Significa que uma existência não pode ser reduzida ao resultado de um único momento. Existem redes vazias que representam projetos frustrados, relações rompidas, perdas, injustiças, oportunidades que não chegaram e sonhos interrompidos. O Evangelho não promete que todas serão imediatamente preenchidas. Ele oferece a possibilidade de não permitir que o vazio determine sozinho o significado da vida.

A questão decisiva não é apenas quanto conseguimos produzir, mas para quem estamos vivendo. Não é somente o que existe na rede, mas o que fazemos quando ela se enche. Não é apenas receber uma oportunidade, mas compreender a responsabilidade que acompanha aquilo que recebemos. A comunidade cristã precisa recuperar essa pedagogia. 

  • As  pessoas não são chamadas apenas para ocupar cargos, mas para servir. 
  • Os  Ministérios não são títulos de prestígio, mas responsabilidades. Liderança.
  •  Não é autorização para controlar, mas compromisso com o bem comum. 
  • A formação cristã não deveria produzir dependência intelectual, mas maturidade e discernimento.

Por isso, a cena da barca permanece atual. Existem comunidades cheias de atividades, mas vazias de sentido,  há estruturas com muitos programas que  esquecem as  pessoas que sofrem do lado de fora. Também existem comunidades pequenas e cansadas que acreditam que sua história terminou porque os resultados não correspondem aos seus esforços. Lucas não autoriza nem triunfalismo nem desespero. Ele apresenta uma Palavra capaz de recolocar a missão em movimento. Avançar para águas mais profundas hoje pode significar sair da superficialidade religiosa. Significa abandonar respostas prontas quando a realidade exige discernimento, ouvir quem foi silenciado, reconhecer erros, enfrentar preconceitos e defender a dignidade dos pobres não apenas como objeto de caridade, mas como realidade humana que exige justiça. Significa combater a violência sem escolher seletivamente quais vítimas merecem compaixão e defender a verdade mesmo quando ela incomoda nossos próprios grupos. Também significa enfrentar a crise espiritual de uma sociedade cansada. Muitas pessoas possuem acesso a informação, consumo e entretenimento, mas continuam perguntando silenciosamente para que vivem. A missão cristã não pode responder a isso apenas com frases religiosas. Precisa oferecer comunidade, escuta, sentido, serviço, esperança e relações humanas capazes de reconstruir confiança.

O chamado acontece quando Simão ainda está dentro de sua profissão, diante do fracasso. Deus não precisa esperar uma situação ideal para começar alguma coisa. A vocação começa quando alguém se dispõe a escutar e dar um passo, mas esse passo não é individualista. A narrativa envolve companheiros, a missão exige colaboração. No centro de tudo permanece Jesus, pois  sem ele, a barca pode tornar-se apenas estrutura, as redes podem transformar-se em instrumentos de produtividade, a missão pode virar carreira e a religião pode tornar-se poder. Lucas não apresenta uma técnica para alcançar resultados. Apresenta um encontro que reorganiza a existência. Jesus entra na barca, fala, provoca uma decisão, revela a fragilidade de Simão e abre diante dele uma missão. Por isso, o grande acontecimento da passagem não está simplesmente na quantidade de peixes. Está na transformação daqueles homens: 

  •  O trabalhador cansado encontra uma nova direção. O homem assustado recebe coragem. 
  • A experiência profissional passa a ser colocada a serviço de uma vocação maior. 
  • A vida cotidiana deixa de ser apenas sobrevivência e passa a participar de uma missão.

No final, eles deixam tudo e seguem Jesus. Seguir não é simplesmente admirar, concordar ou carregar símbolos religiosos. É reorganizar prioridades. É permitir que a presença de Cristo determine escolhas concretas. Essa experiência de Pedro, entretanto, continua para além da margem do lago. Na liturgia da sexta-feira da 7ª Semana da Páscoa, João 21,15-19 apresenta Simão diante do Ressuscitado, que lhe pergunta sobre seu amor e lhe confia o cuidado de suas ovelhas, concluindo com o convite ao seguimento. Essa referência não precisa ser utilizada como comparação entre duas narrativas. Ela ajuda a perceber a continuidade da vocação: aquele que foi chamado no meio das redes precisa amadurecer na responsabilidade de cuidar de pessoas. O chamado não transforma ninguém em proprietário da missão. Toda autoridade recebida na comunidade é serviço. O amor por Cristo precisa tornar-se cuidado concreto, especialmente quando alguém recebe responsabilidade sobre a vida de outros. Assim, a vocação não termina quando alguém diz sim; ela continua sendo purificada pela responsabilidade, pelo serviço e pela fidelidade. O discípulo precisa aprender que conduzir não é possuir, ensinar não é dominar e exercer autoridade não é colocar-se acima dos outros..A pergunta que permanece para nós não é se teremos redes cheias todos os dias. É o que faremos quando estiverem vazias e, sobretudo, o que faremos quando estiverem cheias. Permaneceremos presos ao fracasso? Transformaremos a abundância em acúmulo? Usaremos a autoridade para controlar ou para cuidar? Esconderemos nossas fragilidades ou permitiremos que elas nos tornem mais humildes?

A barca continua sendo imagem de uma comunidade em movimento. As redes lembram trabalho e possibilidade de fracasso. As águas profundas recordam que a fé não pode permanecer na superfície. Os companheiros mostram que ninguém realiza sozinho a missão. O medo de Simão revela a fragilidade humana. A Palavra de Jesus abre uma possibilidade nova. O abandono das redes mostra que o chamado conduz a uma vida diferente. Por isso, avançar para águas mais profundas não significa procurar experiências extraordinárias para fugir da realidade. Significa entrar mais profundamente nela com os olhos do Evangelho. É olhar para o sofrimento sem indiferença, para a pobreza sem preconceito, para a injustiça sem acomodação, para a política sem idolatria, para a religião sem manipulação e para o poder sem submissão cega.  Nenhuma comunidade cristã pode anunciar uma Boa-Nova enquanto transforma pessoas em instrumentos, assim como nenhuma liderança pode falar em nome de Cristo enquanto humilha aqueles que deveria servir, nem nenhuma estrutura religiosa pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto coloca sua própria preservação acima da dignidade humana. A missão começa quando a Palavra encontra uma barca concreta. Hoje, essa barca pode ser uma casa, um local de trabalho, uma comunidade, uma paróquia, uma família, uma escola ou qualquer espaço onde pessoas estejam tentando atravessar suas próprias noites. É nesses lugares que Jesus continua chamando.

Jesus não espera que as redes estejam cheias para chamar, mas encontra Simão justamente depois de uma noite de trabalho frustrado, quando as redes estão vazias e o cansaço é concreto. A vocação não nasce da perfeição nem do sucesso, mas da disponibilidade de quem, mesmo consciente de suas limitações, permanece capaz de escutar. A Escritura apresenta repetidamente essa lógica de Deus que chama pessoas frágeis e transforma suas limitações em espaço de graça e responsabilidade. 

  • Moisés hesita diante da missão e reconhece sua incapacidade (Êx 3,11-12; 4,10-12)
  • Jeremias sente-se pequeno diante do chamado (Jr 1,6-8), 
  •  Paulo aprende que a força de Deus pode manifestar-se precisamente na fraqueza humana (2Cor 12,9-10). 
Em Lucas 5, Simão também não aparece como homem idealizado: ele é trabalhador, conhece o próprio ofício, experimenta o fracasso, reage com medo e reconhece-se pecador (Lc 5,8), mas Jesus não transforma sua fragilidade em motivo de exclusão; ao contrário, acolhe-a e a orienta para uma missão. Por isso, o Evangelho não apresenta o chamado como prêmio concedido aos perfeitos, mas como responsabilidade confiada a pessoas que precisam continuar amadurecendo no caminho. Jesus também não oferece a Simão controle absoluto sobre o futuro, nem promete que a missão será livre de dificuldades, perdas ou incompreensões; oferece uma direção e pede confiança no caminho (Lc 5,4-5). Essa lógica reaparece quando Jesus envia os discípulos, advertindo-os sobre as dificuldades que encontrarão (Mt 10,16-23), quando afirma que seus seguidores encontrarão tribulações no mundo, mas são chamados à coragem (Jo 16,33), e quando convida a não viver dominado pela ansiedade diante do amanhã (Mt 6,25-34). A vida cristã, portanto, não é uma promessa de ausência de problemas, mas uma forma nova de atravessá-los, sustentada pela confiança, pela esperança e pelo sentido. Paulo expressa essa esperança ao afirmar que a tribulação pode produzir perseverança, caráter e esperança (Rm 5,3-5), enquanto a Carta aos Hebreus recorda que a fé é confiança naquilo que se espera, mesmo quando ainda não se possui diante dos olhos (Hb 11,1). Isso significa que seguir Jesus não é receber um mapa detalhado de todos os acontecimentos futuros, mas aprender a caminhar segundo uma Palavra que orienta as escolhas presentes. O Salmo 119,105 apresenta a Palavra como luz para o caminho, e Provérbios 3,5-6 convida a confiar no Senhor sem transformar a própria compreensão limitada em medida absoluta de todas as coisas. Em Lucas 5, Simão não sabe tudo o que acontecerá depois de deixar as redes; sabe apenas que recebeu uma Palavra e que precisa responder a ela. Essa resposta não elimina a vulnerabilidade, mas dá novo horizonte à existência. É nesse sentido que Jesus não promete simplesmente uma vida mais fácil, mas uma vida que pode encontrar significado no seguimento, no serviço e na entrega. Ele mesmo declara que veio para que as pessoas tenham vida e a tenham em plenitude (Jo 10,10), e apresenta o caminho do discípulo não como busca de privilégios, mas como disposição para servir (Mc 10,42-45; Lc 22,24-27). A vida com sentido, no Evangelho, não se mede pela quantidade acumulada, pelo prestígio alcançado ou pela capacidade de controlar os outros, mas pela capacidade de amar, servir e colocar a própria existência a favor da vida. Por isso, quando Simão deixa as redes, não está abandonando simplesmente um objeto de trabalho, mas permitindo que suas prioridades sejam reorganizadas por um chamado maior (Lc 5,11). A mesma dinâmica aparece no ensinamento de Jesus sobre perder a vida por causa dele e do Evangelho para encontrá-la em uma dimensão mais profunda (Mc 8,35; Lc 9,24). Assim, as redes vazias não significam que Deus abandonou alguém, e as redes cheias não significam que Deus esteja premiando alguém com prosperidade; ambas podem tornar-se lugares de discernimento. O fracasso pode ensinar humildade, a abundância pode exigir responsabilidade, a fragilidade pode abrir espaço para a graça e a incerteza pode conduzir à confiança. O Evangelho não promete que todas as redes serão preenchidas, mas proclama que nenhuma rede vazia precisa ter a última palavra sobre uma existência. Há caminhos que começam justamente quando aquilo em que depositávamos nossa segurança deixa de funcionar. Há chamados que nascem no meio do cansaço. Há esperança que surge quando já não temos respostas prontas. E há uma vida nova quando deixamos de perguntar apenas “o que vou ganhar?” e começamos a perguntar “a quem minha vida poderá servir?”. Essa é a profundidade do chamado de Lucas 5: Jesus não chama porque Simão já possui todas as respostas, mas porque está disposto a escutar; não chama porque sua história é perfeita, mas porque sua fragilidade pode ser transformada em serviço; não promete que o caminho será fácil, mas oferece uma direção; não garante controle sobre o futuro, mas convida à confiança; não apresenta uma existência sem sofrimento, mas abre a possibilidade de uma vida orientada pelo amor, pela esperança, pela justiça e pelo serviço. Por isso, a vocação cristã não consiste em controlar o amanhã, mas em responder fielmente ao hoje de Deus, sabendo, como recorda Romanos 8,28-39, que nenhuma tribulação, sofrimento ou insegurança pode separar aqueles que caminham no amor de Deus. As águas profundas continuam diante de nós, e surgem algumas  perguntas: 

  • Quando as redes estiverem vazias, teremos coragem  de O  escutar novamente? 
  • Quando estiverem cheias, teremos maturidade para repartir?  
  • Quando o futuro parecer incerto, teremos fé suficiente para continuar caminhando?

O Evangelho não nos convida simplesmente a procurar peixes maiores, como se a vida cristã pudesse ser reduzida à busca de resultados cada vez maiores; ele nos conduz a uma pergunta muito mais profunda sobre o sentido das redes que lançamos, para quem trabalhamos, com quem caminhamos, quem permanece excluído e o que fazemos com aquilo que recebemos. À luz de Lucas 5,1-11, seguir Jesus significa também discernir quais redes precisam ser deixadas para trás, sejam elas redes de medo que paralisam, de preconceito que excluem, de vaidade que alimenta a necessidade de reconhecimento, de ressentimento que aprisiona o coração, de poder que transforma serviço em dominação, de acomodação que impede a mudança, de individualismo que rompe a comunhão ou de falsa segurança que nos faz confiar mais em nossas próprias certezas do que na Palavra de Deus. Há ainda redes religiosas que, em vez de libertar, aprisionam consciências, redes políticas que fazem pessoas defenderem líderes, partidos ou ideologias acima da verdade e da dignidade humana, e redes institucionais que podem transformar a preservação da estrutura em prioridade, impedindo a escuta daqueles que deveriam ser acolhidos. Jesus, porém, chama para uma liberdade diferente, porque, como ensina Paulo, é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1), e essa liberdade não significa viver sem responsabilidade, mas colocar a própria vida a serviço do amor (Gl 5,13-14). Por isso, deixar as redes não é simplesmente abandonar objetos ou posições, mas romper com tudo aquilo que impede o seguimento e transforma pessoas em meios para alcançar nossos próprios interesses. O chamado de Jesus encontra eco em sua própria palavra quando ele ensina que não veio para ser servido, mas para servir e entregar a vida pelos outros (Mc 10,45), e quando apresenta o amor ao próximo como expressão concreta do cumprimento da vontade de Deus (Mt 22,37-40). A pergunta, então, deixa de ser apenas o que podemos conquistar e passa a ser o que nossa vida está produzindo na vida dos outros. Se nossas redes estão cheias, elas precisam tornar-se partilha; se estão vazias, não podem transformar-se em motivo de desespero; se estão presas ao medo, precisam ser rompidas; se capturam consciências, precisam ser abandonadas; se servem à exclusão, precisam ser transformadas. O verdadeiro discernimento cristão consiste em reconhecer que nem tudo aquilo que conseguimos segurar merece continuar em nossas mãos e que nem toda estrutura que construímos deve ser preservada quando começa a ferir a dignidade humana. Jesus chama para lançar as redes novamente, mas também chama para saber deixá-las quando elas deixam de servir à vida. Por isso, a pergunta decisiva para a Igreja e para cada discípulo não é apenas quantos peixes conseguimos colocar dentro da barca, mas se aquilo que fazemos aproxima as pessoas de Deus, promove justiça, produz comunhão, protege os vulneráveis e torna visível o amor que professamos. Como recorda Miquéias 6,8, Deus pede que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com ele; e Jesus retoma essa lógica ao denunciar uma religião preocupada com aparências enquanto negligencia aquilo que é essencial, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt 23,23). As redes que precisam ser deixadas, portanto, não são apenas pessoais, mas também comunitárias e institucionais, porque uma Igreja que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa ter coragem de examinar continuamente suas práticas, reconhecer quando transformou serviço em poder, autoridade em controle, tradição em instrumento de exclusão ou religião em mecanismo de autopreservação. Seguir Jesus exige essa conversão permanente, porque o discípulo não é chamado a proteger suas próprias redes, mas a colocar sua vida a serviço da vida, permitindo que a Palavra alcance lugares onde ainda existem pessoas esperando acolhimento, justiça, verdade, reconciliação,  esperança e seguir Jesus exige liberdade para abandonar aquilo que impede o caminho.

  •  O lago permanece, as barcas permanecem.
  • As redes permanecem
  • O trabalho continua  
  • Os desafios não desaparecem.
O que realmente muda em Lucas 5,1-11 não é apenas o resultado da pesca, mas o coração daqueles que se deixam alcançar pela Palavra. O fracasso transforma-se em possibilidade, a experiência abre-se ao inesperado, a fragilidade converte-se em humildade, a abundância torna-se responsabilidade e o cotidiano revela-se como espaço de vocação. Por isso, a Igreja é chamada continuamente a discernir o sentido de suas práticas, suas estruturas e sua presença no mundo, verificando se aquilo que constrói favorece a dignidade humana, a comunhão, a justiça e o cuidado com os mais vulneráveis. Jesus continua dizendo para avançar, não como fuga da realidade, mas como convite a entrar nela com profundidade e coragem; não para buscar privilégios, mas para assumir a responsabilidade do serviço; não para dominar consciências, mas para favorecer a liberdade e a vida; não para alimentar uma religião baseada no medo, mas para formar uma comunidade capaz de testemunhar esperança. A noite pode ser longa, o trabalho pode produzir frustração e os resultados podem não corresponder ao esforço realizado, mas o fracasso não precisa determinar o horizonte de uma existência. Quando a Palavra encontra alguém disposto a acolhê-la, uma barca comum pode tornar-se lugar de missão; quando pessoas diferentes reconhecem sua interdependência, a comunidade fortalece-se na colaboração; quando a autoridade abandona a lógica do controle e assume a forma do serviço, a confiança pode ser reconstruída; e quando a fé se liberta de toda forma de exclusão, manipulação ou idolatria, recupera sua capacidade de anunciar o Evangelho com credibilidade. É nesse sentido que Lucas 5,1-11 não deve ser interpretado como promessa de que todas as redes serão preenchidas nem como garantia de prosperidade para quem crê. A abundância da pesca conduz a uma transformação muito mais profunda: Simão reconhece sua fragilidade, recebe uma nova direção e deixa aquilo que antes organizava sua existência para assumir uma missão que ultrapassa seus interesses pessoais (Lc 5,8-11). O centro da narrativa, portanto, não está na acumulação, mas no seguimento; não está no privilégio, mas na responsabilidade; não está no controle, mas na confiança. O milagre torna-se sinal de uma passagem interior pela qual o ser humano deixa de medir sua existência apenas pelo que consegue produzir, possuir ou controlar e começa a compreendê-la a partir da entrega, da comunhão e do cuidado com os outros. Essa é também a grande provocação para a Igreja: suas estruturas, seus ministérios, sua autoridade e seus recursos só encontram legitimidade quando permanecem orientados para a missão de Cristo e para a promoção da vida. Como recorda Paulo, ninguém deve colocar sua segurança absoluta em líderes ou estruturas humanas, porque “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo” (1Cor 3,21-23); e o ministério cristão somente permanece fiel quando assume a lógica daquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,42-45). Assim, o verdadeiro fruto da vocação não pode ser medido apenas por números, crescimento institucional ou reconhecimento social, mas pela capacidade de gerar comunhão, justiça, reconciliação, esperança e cuidado. Jesus continua entrando nas barcas da história, encontrando pessoas cansadas, falando no meio das frustrações e chamando seres humanos imperfeitos para uma missão maior do que suas próprias certezas. A resposta a esse chamado começa na disposição de escutar, mas amadurece quando a escuta se transforma em atitude, compromisso e serviço. As águas profundas permanecem diante de nós como espaço de confiança e responsabilidade, e a Palavra continua conduzindo a Igreja para além da acomodação, da autopreservação e de toda forma de poder que se afaste do Evangelho. No fim, a força da narrativa não está apenas na rede que se enche, mas na existência que encontra novo sentido, na comunidade que aprende a repartir e no discípulo que compreende que seguir Jesus significa colocar a própria vida a favor da vida dos outros.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 5,27-32

 No início do caminho quaresmal, no sábado depois das cinzas,  quando as cinzas ainda marcam a fragilidade humana e a liturgia nos conduz ao deserto interior, a Igreja coloca diante de nós o episódio do chamado de Levi  Lucas 5,27-32 que também  esta nos sinóticos   Mateus 9,9-13 e Marcos 2,13-17,  Não é escolha casual. A pedagogia litúrgica apresenta, logo nos primeiros passos da conversão, uma cena concreta, histórica e profundamente teológica: Jesus que passa, vê, chama e partilha a mesa com pecadores. O fato de essa narrativa estar presente nas três tradições sinóticas revela sua centralidade na memória apostólica. Não se trata apenas de registro biográfico, mas de núcleo interpretativo do próprio ministério de Cristo. Aqui se concentra uma síntese do Evangelho: iniciativa divina, ruptura existencial, misericórdia que antecede mérito e comunhão que escandaliza sistemas religiosos fechados. A Quaresma, à luz desse texto, deixa de ser mero exercício ascético ou código moral abstrato. Torna-se experiência de encontro. O chamado de Levi manifesta o dinamismo da graça que antecede qualquer purificação. Antes de exigir, Cristo se aproxima; antes de corrigir, olha; antes de condenar, convida. Romanos 5,8 recorda que Deus nos amou quando ainda éramos pecadores. A conversão cristã nasce desse primado da misericórdia.

Situado à beira do lago, num contexto de opressão fiscal romana e profundas desigualdades sociais na Galileia do século I, o chamado acontece no interior de uma estrutura marcada por injustiça. Levi não é figura abstrata; é agente inserido numa engrenagem econômica que explorava camponeses endividados. O Evangelho não ignora a realidade histórica. A graça irrompe no concreto, no lugar onde pecado pessoal e estruturas sociais se entrelaçam.

Assim, já na abertura do itinerário quaresmal, somos confrontados com uma pergunta decisiva: permanecer sentados nas nossas “coletorias”, espaços de segurança, poder ou acomodação  ou levantar-nos ao ouvir o “segue-me”? A narrativa não oferece teoria espiritual; apresenta um acontecimento que exige resposta.

O chamado de Levi é, portanto, paradigma da conversão: encontro que desloca, misericórdia que cura, comunhão que inclui e Reino que subverte fronteiras religiosas e sociais. Aqui começa a verdadeira travessia quaresmal. Lucas narra que Jesus “saiu”. O verbo é teologia em movimento. O Deus bíblico não é estático. Em Gênesis 3,8, Ele caminha pelo jardim; em Êxodo 3,7-8, desce para libertar; em Isaías 52,7, aproxima-se trazendo paz; em João 1,14, arma sua tenda entre nós. A encarnação é deslocamento. A missão é êxodo permanente. A iniciativa parte de Deus. A graça antecede o mérito.

Ele vê Levi.

Na antropologia bíblica, o olhar não é superficial. Ver é reconhecer, é atribuir dignidade. Quando Deus “viu” a opressão do seu povo (Ex 3,7), decidiu agir. O olhar de Jesus não classifica; recria. Levi, antes identificado por sua função e reputação, passa a ser identificado por um chamado. O encontro precede a exigência. Levi está sentado na coletoria. A cena é socialmente carregada. A Galileia do século I vivia sob forte pressão fiscal romana. O sistema de impostos era terceirizado; publicanos compravam o direito de arrecadar e frequentemente cobravam além do devido. Camponeses endividados perdiam terras. A concentração fundiária aumentava. A coletoria simbolizava colaboração com uma engrenagem injusta. Lucas escreve para comunidades que conhecem o peso da desigualdade. O chamado de Levi não ignora essa estrutura, mas começa pela conversão de quem está inserido nela. Ezequiel 11,19 anuncia a troca do coração de pedra por coração de carne. Sem transformação interior, reformas externas tendem a repetir opressões com nova linguagem.

“Segue-me.”

O chamado ecoa toda a Escritura: Abraão deixa sua terra (Gn 12,1), Moisés enfrenta Faraó (Ex 3,10), Samuel responde (1Sm 3,10), Isaías se oferece (Is 6,8), Eliseu abandona os bois (1Rs 19,21), pescadores deixam redes (Lc 5,11), Paulo se levanta após a queda (At 9). O discipulado implica ruptura e reorientação. Metanoia é mudança de mentalidade e de direção. Levi levanta-se e deixa tudo. O verbo “levantar-se” possui ressonância pascal. A mesma linguagem descreve a ressurreição. Toda conversão participa da dinâmica da Páscoa: morrer para um modo antigo de viver e iniciar vida nova (Rm 6,4). Em uma cultura onde riqueza significava segurança e honra, abandonar a coletoria era romper com identidade validada socialmente. O Evangelho desloca o centro do valor humano: não somos definidos pelo que acumulamos, mas por quem seguimos. Em tempos que absolutizam produtividade e performance, essa afirmação é profundamente subversiva.

A fé, nesse episódio, não aliena; desinstala. Jesus não promete prosperidade material. Afirma que o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). 1Timóteo 6,9-10 adverte contra o amor ao dinheiro; Lucas 12,15 alerta contra a avareza; 2Coríntios 8,9 recorda que Cristo, sendo rico, fez-se pobre. O discipulado não é estratégia de ascensão econômica. A bênção bíblica é comunhão com Deus, não acúmulo.

Após o chamado, Levi oferece um grande banquete. A conversão gera alegria. O Salmo 126 fala da boca cheia de riso após a restauração; Isaías 25,6 anuncia o banquete preparado para todos os povos. A mesa, na tradição bíblica, significa pertença. Comer juntos é reconhecer comunhão. Por isso a presença de publicanos e pecadores provoca escândalo.

No judaísmo do século I, “pecador” designava também categorias socialmente excluídas. A pureza r


itual delimitava fronteiras. Comer com alguém era gesto teológico. Os fariseus murmuram, repetindo atitude já vista em Êxodo 16 e novamente em Lucas 15. A murmuração revela resistência à graça que ultrapassa esquemas humanos.

Jesus redefine a santidade. Ao tocar o leproso (Lc 5,13), não se contamina; comunica pureza. Em Mateus 9,13, cita Oseias 6,6: “Quero misericórdia e não sacrifício.” Isaías 1,13-17 e Amós 5,21-24 denunciam culto desvinculado da justiça. Tiago 1,27 define religião pura como cuidado dos vulneráveis. A santidade evangélica não é isolamento defensivo, mas força restauradora.

“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes.”

A metáfora médica revela antropologia integral. O pecado não é apenas infração jurídica; é ruptura relacional (Gn 3–4). Jeremias 17,9 fala do coração enigmático; o Salmo 51 suplica purificação interior; 1João 1,8 alerta contra autoengano. A ironia está nos “justos”: Romanos 3,23 afirma que todos pecaram. O perigo não é reconhecer-se pecador, mas considerar-se autossuficiente. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) confirma essa verdade.

A Igreja reconhece essa condição. A Lumen Gentium 8 afirma que ela é santa e sempre necessitada de purificação. A comunidade cristã não é assembleia de perfeitos, mas de reconciliados em processo. 1Pedro 5,2-3 adverte contra o domínio; Jesus lava os pés (Jo 13,14). O clericalismo contradiz o Evangelho quando transforma serviço em privilégio.

A mesa de Levi antecipa a Eucaristia. Em Lucas 22,19, o pão é partido entre discípulos frágeis. 1Coríntios 10,16-17 afirma que, ao partilhar o mesmo pão, formamos um só corpo; 1Coríntios 11 denuncia incoerência entre altar e indiferença aos pobres. Cada celebração eucarística exige coerência ética. Não há comunhão sacramental sem compromisso com a justiça.

A conversão de Levi é também comunitária. Ele não guarda a experiência; partilha-a. Atos 2,44-45 descreve comunidade que compartilha bens. 1Coríntios 12 recorda que somos membros uns dos outros. A fé cristã não é intimismo isolado. Isaías 58 conecta jejum com libertação; Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus: justiça, misericórdia e humildade.

No contexto contemporâneo, a cultura do cancelamento fixa identidades pelo erro. Ezequiel 18 insiste que o ímpio pode converter-se e viver. Romanos 8,1 proclama que não há condenação para os que estão em Cristo. A misericórdia não elimina responsabilidade; inaugura futuro. Zaqueu restitui (Lc 19,8); Pedro é restaurado (Jo 21,17).

Há também advertência contra a instrumentalização da fé para projetos de poder. João 18,36 recorda que o Reino não se impõe pela lógica do domínio. Filipenses 2,6-11 apresenta o caminho da kenosis. Sempre que religião se converte em hegemonia cultural ou controle moral, trai o Crucificado.

A Quaresma inicia-se sob o sinal austero das cinzas: “Tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Não é ameaça, mas verdade antropológica. A criatura não é autossuficiente. A fragilidade não é fracasso; é condição para a graça. Quando a liturgia traça o pó sobre a fronte, desmonta a ilusão prometeica de autonomia absoluta e nos reconduz ao real. Somos finitos, vulneráveis, necessitados de redenção. Mas o profeta Joel desloca o foco do gesto exterior para a interioridade: “Rasgai o vosso coração” (Jl 2,13). A conversão bíblica não é teatralidade penitencial, mas transformação do centro da pessoa. Isaías 58 aprofunda a crítica: jejum que ignora o oprimido é caricatura religiosa. A verdadeira ascese rompe cadeias injustas, partilha o pão com o faminto, acolhe o desabrigado. A espiritualidade que não toca as estruturas da vida concreta converte-se em ritual vazio — exatamente aquilo que os profetas denunciaram com vigor.

É nesse horizonte que o chamado de Levi ilumina o início do caminho quaresmal. Conversão não é autopunição nem moralismo ansioso. É encontro que recria. Cristo não começa exigindo reparações; começa oferecendo presença. Romanos 2,4 recorda que é a bondade de Deus que conduz ao arrependimento. A iniciativa é sempre divina. Ele continua passando por nossas “coletorias” contemporâneas: sistemas econômicos que naturalizam exclusões, ambientes eclesiais fechados em autorreferencialidade, discursos que confundem ortodoxia com dureza de coração, espiritualidades que protegem privilégios sob aparência de zelo religioso. O Evangelho não poupa nem a religião quando ela se torna instrumento de distinção e poder. Amós 5,24 ainda ressoa: “Corra o direito como água.”

O Ressuscitado permanece à porta (Ap 3,20). Não arromba consciências; chama. A fé não é imposição cultural, mas resposta livre. Hebreus 12,2 convida a fixar os olhos naquele que inaugura e consuma a fé. O olhar que salva antecede qualquer esforço humano.

A decisão, como em Josué 24,15, é inevitável. Permanecer sentado na segurança de estruturas conhecidas ou levantar-se para a imprevisibilidade do Reino. Defender fronteiras identitárias ou atravessá-las com misericórdia. Murmurar como quem se considera justo ou sentar-se à mesa reconhecendo-se necessitado de cura. Lucas 5,27-32 revela o núcleo pulsante do Evangelho: Deus toma a iniciativa, chama quem está à margem, moral ou social —, cura o coração ferido, desmonta barreiras de pureza excludente e transforma a mesa em espaço de reconciliação. A santidade que Jesus inaugura não é isolamento defensivo, mas comunhão restauradora.

A Quaresma começa verdadeiramente quando nos levantamos. Levantar-se é gesto pascal. É sair da lógica da autopreservação e entrar na dinâmica da graça. É abandonar a coletoria da indiferença, da autossuficiência ou do conformismo. É permitir que o Médico toque as feridas que escondemos sob discursos religiosos ou ideológicos. Cristo continua chamando. A cada geração, a cada comunidade, a cada consciência. O caminho está aberto. A resposta permanece.


DNonato - Teólogo do Cotidiano

 

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 5,33-39

O Evangelho proclamado nesta sexta-feira, na 22ª Semana do Tempo Comum do ano impar, apresenta uma das mais belas imagens usadas por Jesus: a do Esposo e a do vinho novo em odres novos. É um texto que também encontramos em Mateus 9,14-17 que já refletimos proclamado  no sábado da 13ª Semana do Tempo Comum  ano  e em Marcos 2,18-22 proclamado   na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, sempre em diálogo com os fariseus e os discípulos de João Batista, que questionavam por que os discípulos de Jesus não jejuavam como os outros. A liturgia nos recorda este trecho como convite a romper com práticas religiosas estéreis e abrir-nos à novidade da graça. Não é por acaso que esse Evangelho aparece em dias comuns, fora de grandes festas litúrgicas: ele é, em si, uma convocação para que o ordinário de nossas vidas seja transformado em extraordinário pela presença do Esposo.

Os fariseus e mestres da Lei tinham feito do jejum e das práticas ascéticas um critério de identidade e status. O problema não era o jejum em si, já recomendado pelos profetas como Isaías (cf. Is 58,6-7), mas a forma como ele era usado: como espetáculo de piedade, instrumento de exclusão e medida de superioridade espiritual. Jesus responde com uma imagem desconcertante: “Podem fazer jejuar os convidados do casamento enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que o esposo lhes será tirado; então jejuarão”. A festa nupcial era, no imaginário bíblico, o símbolo da aliança de Deus com seu povo (cf. Os 2,16-22; Is 62,4-5). Jesus se apresenta como o Esposo: sua presença inaugura a festa do Reino. Jejuar na festa seria negar a alegria de um Deus que visita o seu povo.

Aqui já se percebe a ruptura entre duas concepções religiosas: de um lado, a religião do controle, do luto perpétuo, da disciplina rígida que sufoca; do outro, a religião da vida, da celebração, da comunhão que transborda. O filósofo Nietzsche criticava o cristianismo dizendo que os cristãos “não tinham cara de ressuscitados”. É essa caricatura de fé sisuda, triste e sem alegria que Jesus desmonta. Ele não rejeita o jejum, mas o coloca em seu devido lugar: como expressão de busca, e não como moeda de prestígio. O verdadeiro jejum é o que rompe correntes de injustiça, liberta os oprimidos, reparte o pão com os famintos (cf. Is 58,6-7).

A parábola do remendo e dos odres prolonga essa crítica. Remendo novo em pano velho rasga ainda mais; vinho novo em odre velho se perde. A novidade do Evangelho não cabe em estruturas endurecidas, sejam elas rituais, sociais ou mentais. Paulo dirá em 2Coríntios 3,6 que “a letra mata, mas o Espírito vivifica”. E em Jeremias 31,31-34 Deus já havia prometido uma nova aliança, não escrita em pedra, mas gravada no coração. O vinho novo é essa vida no Espírito, anunciada também por Joel 2,28, quando Deus derramaria seu Espírito sobre toda carne, jovens e velhos, homens e mulheres, escravos e livres.

A patrística entendeu isso com força. São João Crisóstomo ensinava que “o jejum verdadeiro é afastar-se do mal, refrear a língua, dominar a cólera, afastar a concupiscência, caluniar menos, jurar menos, mentir menos” (Homiliae in Matthaeum). Orígenes via no vinho novo o próprio Cristo, que não se deixa aprisionar em categorias velhas. Santo Agostinho afirmava: “Amemos, e façamos o que quisermos”, porque o amor é o único odre capaz de conter a plenitude do Evangelho. Basílio Magno alertava que quem jejuava apenas da comida, mas devorava o próximo com fofocas e injustiças, não entendia nada do espírito de Cristo.

O ser humano precisa de ritos, mas também precisa de sentido. Quando o rito se transforma em peso sem alma, torna-se alienação. A psicologia mostra que práticas religiosas podem tanto libertar quanto adoecer, dependendo se estão a serviço da vida ou da repressão. A sociologia confirma: quando a religião se torna instrumento de poder e de distinção social, ela gera exclusão e desigualdade. Historicamente, sabemos que o judaísmo do tempo de Jesus estava dividido entre grupos que disputavam quem interpretava melhor a Lei. Nesse ambiente, a proposta de Jesus soa radical: não se trata de competir na rigidez, mas de anunciar um Deus que é festa, presença, amor que transborda.

Esse texto nos coloca diante de uma crítica urgente às teologias distorcidas de hoje. A teologia da prosperidade transforma o Evangelho em barganha e faz do jejum um investimento para obter bens materiais. A teologia do domínio, muito comum nos discursos da extrema-direita religiosa, usa a fé como arma de poder político, exigindo sacrifícios que alimentam o ego dos líderes, mas não libertam o povo. O individualismo religioso reduz tudo à busca de uma espiritualidade de bem-estar, transformando a fé em mercadoria. E o clericalismo, como denuncia o Papa Francisco, é “uma perversão” que aprisiona a novidade do Espírito em odres velhos de poder e privilégio. Nesse contexto, o Evangelho de hoje é uma pancada profética: o vinho novo de Cristo não cabe nesses odres corrompidos.

A Gaudium et Spes (n. 63-66) denuncia a mercantilização da vida, mostrando que o ser humano vale mais pela dignidade do que pelo consumo. A Evangelii Gaudium insiste que a Igreja não pode ser alfândega que controla, mas casa aberta que acolhe. A Fratelli Tutti recorda que a verdadeira religião gera fraternidade, não muros de exclusão. Tudo isso ecoa o mesmo chamado: odres novos para o vinho novo.

Mas quem são os odres novos hoje?

 Não são as estruturas rígidas, nem os palácios dourados do clero, nem os pregadores digitais que vendem bênçãos online. Os odres novos são o povo pobre, que com sua fé simples acolhe a novidade do Evangelho. É a mãe que reparte o pouco alimento, o jovem que resiste à lógica da violência, o trabalhador que não perde a esperança. É entre os pobres que o vinho novo do Reino encontra espaço para transbordar.

Amós já havia denunciado os que “vendem o justo por prata e o pobre por um par de sandálias” (Am 8,6). Jesus, ao purificar o Templo, denuncia a religião como mercado (Jo 2,13-17). Hoje, vemos a mesma cena se repetir quando igrejas se transformam em empresas e padres ou pastores em gestores de marketing religioso. O vinho novo de Cristo não cabe nesse sistema. Ele rompe, derrama, transborda para as ruas, para as casas, para a vida.

Não nos enganemos: é mais fácil continuar remendando pano velho do que deixar-se renovar. A mudança dói, porque exige conversão. Mas o Espírito sopra. Como dizia Santo Irineu, “a glória de Deus é o ser humano vivo”. Um ser humano vivo não cabe em esquemas de morte.

O final do Evangelho é provocador: “Ninguém que bebeu o vinho velho quer o novo, pois diz: o velho é melhor”. Jesus conhece nossa resistência. Preferimos a segurança do velho, mesmo que morto, à ousadia do novo que exige risco. Mas o Reino não espera. O vinho novo já foi derramado. Como em Caná da Galileia (Jo 2,1-11), ele é melhor, mais abundante, mais surpreendente. Ele é sinal de que Deus não nos dá migalhas, mas transborda em graça.

Eis o chamado deste Evangelho: deixar-se transformar em odres novos, capazes de acolher o vinho da alegria, da justiça e do amor. Que nossa vida não seja remendo em pano velho, mas veste nova do Espírito. Que nosso jejum não seja espetáculo, mas reconciliação. Que nossa religião não seja mercado, mas festa do Esposo. Que não devoremos nossos irmãos com a boca, enquanto nos vangloriamos de abstinências exteriores. Que sejamos Igreja em saída, odres novos, pobres com os pobres, para que o vinho novo do Reino transborde sobre toda a terra.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Um outro olhar sobre Mateus 18,15-20



A vida cristã jamais foi concebida como uma experiência isolada. Desde o chamado dos primeiros discípulos, Deus reúne pessoas diferentes para formar um povo capaz de refletir, na história, sua justiça, sua misericórdia e seu amor. Entretanto, toda convivência humana conhece conflitos, incompreensões e fragilidades. A questão decisiva não é evitar as crises, mas descobrir como atravessá-las de maneira que ninguém seja reduzido ao seu erro e que a verdade caminhe sempre de mãos dadas com a caridade. É nesse horizonte que o Evangelho desta liturgia revela uma pedagogia profundamente humana e divina, na qual cada relação restaurada torna-se um sinal concreto da presença do Reino de Deus entre aqueles que escolhem viver segundo o coração de Cristo.

O Evangelho de Mateus 18,15-20, proclamado na 4ª-feira da 19ª semana do Tempo Comum    e no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano A, nos insere-se no chamado “Discurso Eclesial”, pronunciado por Jesus provavelmente em Cafarnaum, logo após a discussão entre os discípulos sobre quem seria o maior no Reino dos Céus (Mt 18,1). Este não é um código jurídico rígido, mas um itinerário espiritual e pastoral para preservar a comunhão e evitar rupturas que ferem a Igreja enquanto Corpo de Cristo. No contexto histórico-cultural das comunidades cristãs primitivas, espalhadas na periferia do Império Romano, o ensinamento de Jesus respondia a tensões internas, exclusões e ameaças externas. Havia o risco da divisão que poderia enfraquecer a missão evangelizadora e o testemunho público da fé. A exortação de Jesus era, portanto, uma resposta urgente e prática para manter a unidade e a santidade da comunidade.

Jesus, ao retomar o princípio de Deuteronômio 19,15,  “pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabelecerá a causa”,  o ressignifica, não como um instrumento de condenação, mas como um caminho de misericórdia. Primeiro, o convite é para falar a sós com o irmão; depois, para envolver dois ou três; por fim, para apresentar a questão à ekklesia,  termo grego que significa assembleia convocada, um espaço dinâmico e ativo de discípulos e não uma instituição burocrática rígida. O verbo grego usado para “repreender” (ἐπιτιμάω) traz a conotação de chamar à conversão, ao ajuste de rota, mais do que uma acusação implacável. A estrutura tripartite do processo é cuidadosamente articulada para evitar injustiças e favorecer a reconciliação. O diálogo pessoal preserva a dignidade e evita expor publicamente a falha; a intervenção de duas ou três testemunhas traz equilíbrio e imparcialidade; e a intervenção comunitária simboliza a responsabilidade da Igreja como corpo de fiéis para manter a unidade. Essa progressão espelha a pedagogia do amor paciente que quer reconstruir e não destruir.

Quando Jesus diz que, se necessário, o irmão “seja para ti como um pagão ou publicano”, não autoriza a exclusão definitiva, mas um recomeço missionário. A palavra grega ethnos (“pagão”) remete a quem está fora da aliança, e “publicano” lembra aqueles marginalizados por colaborarem com Roma. Contudo, Jesus acolheu esses grupos e elogiou a fé da mulher cananeia (Mt 9,10-13; 15,21-28), indicando que esse “excluir” é um convite à conversão e reintegração. O processo de correção fraterna, longe de ser fechado, é um caminho que impulsiona a comunidade para fora de si mesma, reafirmando sua missão de testemunhar o Reino. A exclusão temporária é sempre um “estado transitório”, uma pausa para conversão e reconciliação.

A promessa: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” é uma afirmação fundamental da presença real de Cristo na comunhão fraterna e reconciliadora. Essa presença não depende do número, mas da qualidade da comunhão e da intenção sincera de seguir Jesus e restaurar relações. A Shekiná judaica, presença divina entre o povo reunido, é retomada como sinal de que Deus habita onde reina a unidade e o perdão. Essa promessa inspira a Igreja a confiar no poder transformador da oração comunitária e do perdão mútuo, fundando sobre essa experiência o anúncio do Reino. Os paralelos nos Sinóticos reforçam essa pedagogia: Lucas 17,3-4,  que aparece no 27º Domingo do Te mpo Comum dentro da leitura de Lucas 17,5-10 e  também na segunda-feira da 32ª semana do Tempo Comum  dentro do Evangelho  de  Lucas 17,1-6,  que  convoca ao perdão reiterado; Marcos 11,25,   proclamado na na sexta-feira da Oitava semana do Tempo Comum de forma ampla em Marcos 11,11-26 que vincula o perdão à eficácia da oração; Levítico 19,17 do Antigo Testamento reforça a exigência moral de confrontar o irmão para evitar o cúmplice silêncio que permite o pecado persistir.

A realidade   confronta distorções modernas da fé: a teologia da prosperidade que transforma a comunhão em espetáculo e negócio; a teologia do domínio que subjuga com discursos autoritários; o individualismo que se exime da responsabilidade comunitária; e a fé-mercadoria que reduz oração a contrato de troca. Também desafia o clericalismo denunciado pelo Papa Francisco, que concentra a correção como prerrogativa exclusiva dos líderes, enquanto toda a comunidade é responsável.

O Papa Francisco nos  convocava  a viver o  espírito sinodal,  que deve animar a Igreja hoje, enfatizando que “a responsabilidade pela vida da comunidade é de todos, não só de uns poucos” (Evangelii Gaudium, 32). Santo João Crisóstomo ensina que a correção deve ser sempre temperada pela paciência e caridade, pois “corrigir é um ato de amor que quer a cura e não a punição”.

  • Gaudium et Spes (n. 27) afirma que “tudo o que se opõe à vida envenena a convivência humana”. Santo Agostinho já ensinava: “Corrigir é amar, calar-se é odiar” (Sermão 82). Santo Ambrósio, refletindo sobre a Igreja, exorta que “a caridade corrige, mas jamais destrói a comunhão”.
Este Evangelho  proclamado  entre  de agosto e setembro,  pedimos  licença  para  apresentar  um  mural de pessoas que se passaram por nossa realidade e ao longo de suas celebrações, a Igreja recorda homens e mulheres que, em diferentes épocas, culturas e circunstâncias, procuraram transformar a fé em vida concreta. Não encontramos nesses santos uma espiritualidade baseada apenas em palavras, devoções ou aparências religiosas, mas histórias marcadas por conversão, serviço, misericórdia, coragem, compromisso com os pobres e fidelidade ao Evangelho.   Sua   Essa expressão: "ganhaste o teu irmão"  é a chave para compreender todo o texto. A finalidade da correção cristã não é vencer uma disputa, provar que alguém está errado ou exercer poder sobre a consciência alheia. É recuperar a relação, restaurar a pessoa e reconstruir a comunhão. A comunidade cristã não deveria ser um tribunal permanente, mas um espaço onde a verdade e a misericórdia possam se encontrar. É   nesse horizonte que podemos contemplar os santos celebrados durante o mês de agosto.  

  •  1⁰, a Igreja celebra Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e doutor da Igreja, profundamente marcado pela compreensão da misericórdia de Deus. Sua vida nos recorda que a consciência humana precisa ser formada pela verdade, mas também precisa encontrar o rosto misericordioso de Deus. A correção cristã não pode transformar o Evangelho em instrumento de medo e condenação.
  • 4  São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, cuja vida esteve profundamente ligada à reconciliação. Diante de pessoas marcadas pelo pecado, pela culpa e pela fragilidade, ele exerceu o ministério sacerdotal como caminho de retorno à graça. Sua memória ajuda-nos a compreender que corrigir alguém exige primeiro aprender a escutar.
  • São Domingos de Gusmão, grande pregador da Igreja. Sua memória recorda que a verdade precisa ser anunciada, mas nunca separada da caridade. Uma verdade utilizada para humilhar deixa de cumprir a finalidade do Evangelho. A palavra cristã deve iluminar, provocar conversão e abrir caminhos, e não simplesmente esmagar quem pensa ou age de maneira diferente.
  • 9 Santa Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein, filósofa, carmelita e mártir. Sua vida atravessou um dos períodos mais sombrios da história europeia, marcado pelo nazismo e pela desumanização. Seu testemunho nos lembra que o Evangelho também possui uma dimensão histórica e social: diante da injustiça e da destruição da dignidade humana, a fé não pode permanecer indiferente.
  • 10 São Lourenço, diácono e mártir. A tradição cristã conserva sua famosa resposta ao poder quando apresentou os pobres como o verdadeiro tesouro da Igreja. Essa memória permanece profundamente atual. Uma Igreja pode possuir estruturas, patrimônio, influência e reconhecimento social, mas se não consegue enxergar os pobres, os doentes, os abandonados e os invisibilizados, corre o risco de esquecer o próprio Cristo.
  • 11  Santa Clara de Assis, mulher que escolheu a pobreza evangélica, a fraternidade e uma vida radicalmente orientada para Deus. Sua existência questiona uma sociedade marcada pela competição, pelo individualismo e pela busca permanente de status. A comunidade cristã não pode ser construída sobre a lógica do poder, porque Jesus apresenta a fraternidade como caminho do Reino.
  • 13 Santa Dulce dos Pobres, canonizada em 2019. Sua vida é talvez uma das expressões brasileiras mais eloquentes de um cristianismo que não se limita a falar sobre o amor, mas o transforma em serviço. Quando sua irmã Dulcinha enfrentou uma gravidez de risco, em 1956, Irmã Dulce fez um voto: se a irmã sobrevivesse, dormiria sentada como gesto de gratidão e penitência. Cumpriu essa prática durante cerca de trinta anos, até que os médicos, diante do agravamento de sua saúde e do enfisema pulmonar, recomendaram que deixasse de fazê-lo. A cadeira simples onde dormia encontra-se preservada no Memorial Irmã Dulce, em Salvador. Esse gesto pode ser compreendido à luz das palavras de Jesus em João 15,13: "Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos." Mas a grandeza de Santa Dulce não está apenas nesse gesto pessoal de penitência. Está principalmente na maneira como transformou sua fé em compromisso com pessoas concretas. Pobres, enfermos, moradores de rua e abandonados encontraram nela acolhimento e dignidade. 
  1. Santa Dulce não precisou transformar a pobreza em discurso religioso. 
  2. Ela aproximou-se do pobre e não precisou fazer da fé um espetáculo. Ela serviu.
  3. Não precisou usar o sofrimento dos outros para construir prestígio. Ela colocou sua própria vida a serviço deles.

Sua trajetória nos ajuda a compreender Mateus 18: ganhar o irmão significa aproximar-se dele, reconhecer sua dignidade e procurar caminhos para que sua vida seja restaurada.

  •  14 São Maximiliano Maria Kolbe, que, no campo de concentração de Auschwitz, ofereceu sua própria vida para salvar outro prisioneiro. Seu gesto tornou-se uma expressão radical daquilo que Jesus havia ensinado: o amor verdadeiro não permanece apenas no campo das palavras. Ele é capaz de entregar a própria vida pelo outro.
  • 20 São Bernardo de Claraval, cuja tradição espiritual nos ajuda a recordar que verdade e amor não podem ser separados. A correção sem misericórdia pode transformar-se em violência moral; a misericórdia sem verdade pode transformar-se em permissividade. O Evangelho procura justamente a difícil síntese entre verdade e graça.
  • 21 São Pio X. Sua memória nos conduz à necessidade de renovação permanente da Igreja. Estruturas, normas, cargos e instituições possuem sua importância, mas não podem ocupar o lugar do Evangelho. A Igreja existe para servir à missão de Cristo, e não para transformar seus próprios interesses em finalidade absoluta.
  • 24 São Bartolomeu Apóstolo, tradicionalmente identificado com Natanael no Evangelho de João. Quando Jesus o encontra, afirma: "Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade!" (Jo 1,47). É uma palavra extremamente significativa quando pensamos em Mateus 18. Não existe verdadeira reconciliação onde predominam falsidade, fofoca, manipulação e julgamentos feitos pelas costas..A correção fraterna exige coragem para conversar diretamente com o outro. Exige abandonar a lógica da exposição pública e da condenação pelas redes sociais. Exige dizer a verdade olhando nos olhos, com respeito e responsabilidade.
  • 27  Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Sua história é marcada pela perseverança. Durante anos, acompanhou as dificuldades e os caminhos tortuosos do filho, sem desistir dele. Sua vida demonstra que nem toda transformação acontece imediatamente. Algumas pessoas precisam de tempo para amadurecer, reconhecer seus erros e encontrar um novo caminho.
  • A história de Santa Mônica desemboca no dia 28 de agosto, quando celebramos Santo Agostinho de Hipona, bispo e doutor da Igreja. Sua trajetória é uma das grandes histórias de conversão do cristianismo antigo. Agostinho não nasceu santo. Percorreu caminhos intelectuais, afetivos e espirituais complexos. Errou, buscou, questionou, desejou e finalmente encontrou na graça de Deus um novo horizonte. Sua história nos ensina uma verdade fundamental: ninguém deveria ser reduzido ao seu passado.

É exatamente isso que Mateus 18 nos recorda. Jesus não diz: "destrua o irmão que errou". Ele diz: "ganhaste o teu irmão."  

  • A pessoa é maior do que seu erro.
  • A  história é maior do que um momento.
  • A  possibilidade de conversão é maior do que o julgamento definitivo.

E terminamos  com dia  29 de agosto, celebramos o Martírio de São João Batista. Aqui aparece outra dimensão da correção fraterna: a dimensão profética.  João Batista não corrigiu apenas indivíduos comuns. Ele confrontou o poder quando denunciou a conduta de Herodes. Sua fidelidade à verdade custou-lhe a própria vida. Isso nos lembra que a correção cristã não deve ser utilizada para controlar os mais fracos enquanto se permanece silencioso diante dos poderosos. O profetismo bíblico possui justamente a capacidade de questionar estruturas injustas e denunciar aquilo que fere a dignidade humana.

Por isso, Mateus 18 não deve ser interpretado como autorização para uma comunidade controlar a vida de seus membros. O texto apresenta um caminho de responsabilidade comunitária, mas seu objetivo permanece a restauração. Jesus começa pelo diálogo privado. Depois, se necessário, envolve outras pessoas. Finalmente, apresenta a questão à comunidade. O processo é progressivo e busca preservar a dignidade do irmão.

Isso é profundamente diferente da cultura contemporânea da exposição, do cancelamento e da humilhação pública. Vivemos em uma época na qual uma pessoa pode ser condenada em segundos, transformada em alvo de ataques e reduzida a um único erro. As redes sociais frequentemente substituem o diálogo pela exposição. A indignação transforma-se em espetáculo. E, algumas vezes, até pessoas religiosas reproduzem esse comportamento enquanto afirmam defender o Evangelho.

Mateus 18 nos propõe outro caminho.

  1. Converse.
  2. Escute.
  3. Corrija.
  4. Procure compreender.
  5. Busque testemunhas quando necessário.
  6. Envolva a comunidade com responsabilidade.

Mas nunca transforme o irmão em objeto de humilhação. É nesse ponto que os santos de agosto deixam de ser apenas nomes de um calendário e passam a ser companheiros de uma caminhada.

  • Santo Afonso nos lembra da misericórdia.
  • São João Maria Vianney, da reconciliação.
  • São Domingos, da verdade anunciada.
  • Edith Stein, da dignidade humana.
  • São Lourenço, dos pobres.
  • Santa Clara, da fraternidade.
  • Santa Dulce, do amor transformado em serviço.
  • São Maximiliano Kolbe, da entrega da própria vida.
  • São Bernardo, da união entre verdade e caridade.
  • São Pio X, da renovação da Igreja.
  • São Bartolomeu, da sinceridade.
  • Santa Mônica, da perseverança.
  • Santo Agostinho, da conversão.
  • São João Batista, da coragem profética.
Sem esquecer  dia 15 Nossa Senhora  da Glória, da Assunção   e que agosto  é  mês  vocacional  Assim,  o mês se transforma em uma verdadeira escola de Evangelho. Os santos não nos ensinam uma religião de aparência, de poder ou de privilégios. Eles apontam para uma fé capaz de entrar na realidade, tocar as feridas humanas e produzir transformação. E ste Evangelho, iluminado pelo testemunho dossantos e santas, é antídoto contra a cultura do descarte, como denuncia Fratelli Tutti (n. 215). Ecoa o Salmo 133: “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! Ali o Senhor concede a bênção e a vida para sempre”. Corrigir, perdoar, recomeçar: eis o caminho do Reino, vivido com coragem e ternura. Que sejamos, como Santos  e santas, artesãos da paz e da comunhão, porque onde dois ou três estão reunidos em Seu nome, Ele está no meio de nós, sustentando a vida e o amor que permanecem firmes, mesmo quando o corpo cansa e o mundo tenta nos separar.

Mateus 18,15-20,  também  recorda que a maturidade da fé não se mede pela quantidade de práticas religiosas, mas pela capacidade de reconstruir vínculos, curar feridas e preservar a esperança mesmo diante das rupturas. A comunidade que assume esse compromisso torna-se sinal visível do Reino, onde a verdade não humilha, a justiça não se confunde com vingança e a misericórdia nunca abandona quem precisa recomeçar. Sob o olhar de Cristo, cada gesto de reconciliação vence a lógica da indiferença e abre espaço para uma humanidade renovada. Que o exemplo luminoso de Santa Dulce dos Pobres fortaleça em nós a disposição de servir, acolher e restaurar vidas, para que nossas comuni dades sejam lugares onde o amor de Deus continue transformando a história e antecipando, já neste mundo, a comunhão plena prometida por Ele.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 9 de agosto de 2025

Outro olha sobre Lucas 12, 32-48 - 19º Domingo do Tempo Comum / dia dos Pais e dos Diáconos


A Liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum e a eguinte Sabedoria 18,6-9; Salmo 33(32),1.12.18-19.20.22 (R. 12b); Hebreus 11,1-2.8-19; Lucas 12,32-48 e já  fizemos um reflexão  sobre a temática  da  liturgia  de hoje e  no ano de 2022 aqui no nosso blog.

No coração do mês vocacional, a liturgia nos coloca diante de um Evangelho que começa com um convite que é ao mesmo tempo consolo e missão: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino” (Lc 12,32). É a ternura de um Deus-Pastor (Sl 23,1; Ez 34,11-16; Jo 10,1-18) que conhece a vulnerabilidade dos seus, mas também a firmeza com que os chama a uma vigilância ativa. Esse “pequeno rebanho” é herdeiro da promessa feita a Abraão (Gn 15,5; Hb 11,8-10) e da memória pascal do povo que, na noite do Êxodo (Ex 12,11), devia estar pronto para partir. O dom do Reino não nos é dado para ser guardado como propriedade privada, mas para ser cuidado e partilhado — e é aí que ressoa o alerta: “A quem muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12,48), ecoando também Tiago 3,1 e 1Coríntios 4,2.

A imagem dos “rins cingidos e lâmpadas acesas” (Lc 12,35) dialoga diretamente com Mateus 25,1-13 (as dez virgens) e com a exortação de Marcos 13,33-37, onde a vinda do Senhor pode acontecer “à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo ou pela manhã”. Ela também se liga ao chamado de Paulo em Romanos 13,11-14 para “revestir-se de Cristo” e abandonar as obras das trevas.

No centro da exortação de Jesus está o versículo que revela a raiz do comportamento humano: “Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12,34). Este versículo é uma chave hermenêutica para compreender toda a passagem: não se trata apenas de vigilância externa, mas de uma conversão interior radical. O tesouro simboliza aquilo que a pessoa mais valoriza, que investe suas emoções, energias e esperanças. A Bíblia frequentemente apresenta o coração como o centro da vontade, da inteligência e da afetividade (Provérbios 4,23; Jeremias 17,9-10). Se nosso tesouro está nas riquezas materiais, no poder ou no status, nosso coração se prende a eles, tornando-nos escravos da vaidade, da ansiedade e do egoísmo. Jesus contrapõe esse apego com o chamado a acumular tesouros no céu, onde a corrupção e o ladrão não alcançam (Mt 6,19-21).

Na sociedade atual, marcada pela cultura do consumo e da mercantilização, essa advertência ganha uma urgência especial. Psicologicamente, a busca desenfreada por bens materiais gera uma insatisfação crônica, como evidenciam estudos sobre o vazio existencial e a síndrome do burnout. Sociologicamente, ela alimenta as desigualdades e a exclusão, porque o tesouro terreno se concentra nas mãos de poucos, enquanto muitos ficam privados do essencial. A teologia da prosperidade, ao confundir bênção com acúmulo, perpetua essa ilusão, desviando o coração da verdadeira riqueza, que é a comunhão com Deus e com o próximo.

Assim, o chamado à vigilância é também um convite a redirecionar o coração, a desapegar-se dos falsos tesouros para encontrar a liberdade que só Cristo pode oferecer (Jo 8,32). É um convite a viver com o coração voltado para o Reino, que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14,17), e que transforma a existência numa doação gratuita, capaz de superar o medo e a ansiedade. Onde está o seu tesouro? Essa pergunta ecoa como um exame profundo da consciência, desafiando-nos a alinhar nosso coração com o Senhor que vem.

Em toda a Escritura, a vigilância é mais que expectativa: é postura ética, compromisso diário. O servo fiel de Lucas 12 se contrapõe ao servo infiel, figura que encarna o alerta de Ezequiel 34,2-10 contra pastores que se apascentam a si mesmos e à denúncia de Isaías 56,10-11 contra sentinelas cegas e mudas.

Do ponto de vista histórico, no tempo de Jesus, a sociedade judaica estava marcada por desigualdades e pela opressão romana. Muitos líderes religiosos se acomodavam ao poder para preservar privilégios, enquanto o povo ansiava por libertação. Jesus denuncia essa corrupção com palavras que lembram Amós 6,1-7, contra os que vivem no luxo despreocupados com a ruína da comunidade. A patrística acolheu essa advertência: Santo Agostinho recordava que o pastor deve buscar o bem das ovelhas, não o próprio, e São João Crisóstomo, comentando este trecho, dizia que a responsabilidade do servo fiel é maior que qualquer honra que possa receber.

No hoje da Igreja, a Evangelii Gaudium (n. 93-97) denuncia a tentação do clericalismo e do carreirismo e chama a comunidade a uma conversão pastoral que recuse a indiferença social e a colonização ideológica da fé. A Lumen Gentium (n. 18, 20, 29) lembra que todo ministério é serviço, e que a autoridade, à luz de Cristo, é caridade em ação. A Gaudium et Spes (n. 63-66) convoca a Igreja a enfrentar as desigualdades econômicas e sociais que ferem a dignidade humana, enquanto a Fratelli Tutti (n. 115-127) insiste que a verdadeira política e liderança devem nascer da caridade social, e não de interesses egoístas.

À luz do mês vocacional, a figura do diácono permanente assume um valor especial na leitura deste domingo. Desde os primórdios da Igreja, conforme narra Atos 6,1-6, o diaconato nasceu para servir às mesas e cuidar dos mais necessitados, garantindo que a comunidade permanecesse fiel ao mandamento do amor. Como recorda o Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 29, o diácono é ordenado “não para o sacerdócio, mas para o serviço”, sendo sinal sacramental de Cristo Servo, presença viva daquele que “veio para servir e não para ser servido” (Mc 10,45). 

No Brasil, o Dia do Diácono é tradicionalmente celebrado no dia 10 de agosto, em homenagem a São Lourenço, um dos primeiros diáconos da Igreja e mártir, cuja memória litúrgica é celebrada justamente nesta data. São Lourenço é um exemplo magnífico do serviço e da fidelidade que caracterizam o ministério diaconal e  essa conexão entre o ministério de serviço e a entrega total à causa do Evangelho, lembrando a todos os fiéis a importância do diaconato como um chamado à missão e à solidariedade prática.

Celebrar essa data é valorizar o compromisso dos diáconos que, no cotidiano das paróquias, hospitais, movimentos sociais e comunidades, vivem esse chamado de serviço, anunciando o Reino de Deus com ações concretas de amor e justiça.

Essa dimensão de vigilância  e prontidão no serviço ressoa no Evangelho de hoje, em que o Senhor exorta: “Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar” (Lc 12,37). O diácono, assim, encarna a postura daquele que vigia não por medo de punição, mas por amor e zelo pelo Reino.

Historicamente, o diaconato floresceu nos primeiros séculos como ministério de fronteira, articulando a liturgia, a caridade e o anúncio da Palavra. Ao longo do tempo, acabou sendo reduzido a uma etapa transitória para o sacerdócio, até que o Vaticano II restaurou-o como grau próprio e permanente do sacramento da Ordem, devolvendo-lhe a força original. Gaudium et Spes (n. 1) recorda que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje […] são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”, e o diácono, em especial, é chamado a viver essa proximidade radical com o povo, sendo ponte entre o altar e a vida. É nesse espírito que o Evangelho deste domingo nos interpela: quem vigia de fato não é quem espera sinais extraordinários, mas quem permanece fiel nas pequenas tarefas do cotidiano, como o servo que guarda a casa e reparte o pão.

A vigilância bíblica e espiritual não é medo de um juiz severo, mas a fé que sustenta o serviço como dom de si, na linha da kenosis cristológica (Fl 2,6-8). Em um mundo marcado por teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo, que transformam a fé em mercadoria e o poder em privilégio, esse chamado se torna ainda mais profético. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium (n. 93-97), denuncia essas distorções que se alimentam do clericalismo e da indiferença social, exortando a Igreja a uma missão que seja sinal visível da compaixão de Deus. A vigilância cristã é, assim, uma resistência contra a redução do Evangelho a fórmula de sucesso ou instrumento de controle.

Psicologicamente, a ausência aparente do Senhor testa o coração humano: há a tentação do abuso, da omissão e da autossuficiência. A autoridade que se fecha em si mesma degenera em tirania, como mostram as análises sociológicas de Hannah Arendt sobre poder e dominação, e as reflexões de Byung-Chul Han sobre a cultura da performance. O verdadeiro poder nasce do serviço e do cuidado, não da imposição ou da medição quantitativa da fé.

Por isso, ser servo vigilante é recusar a fé como mercadoria e viver atento às visitas inesperadas de Deus — que pode vir à madrugada ou ao meio-dia, na alegria ou na dor, no encontro comunitário ou no silêncio do deserto. É viver como Abraão, sustentado pela promessa (Hb 11,13-16), e como Maria, que guardava e meditava a Palavra no coração (Lc 2,19). É resistir à tentação de transformar a missão em palco e a autoridade em domínio. É encarnar a kenosis de Cristo, que se esvaziou para servir.  Ao contemplar esse chamado à vigilância e serviço, recordemos também o exemplo dos profetas do Antigo Testamento que denunciaram a infidelidade dos líderes (Jeremias 23,1-4; Ezequiel 34,1-16) e convocaram a conversão do povo. Eles foram vigilantes contra as injustiças, corajosos diante dos poderes e fieis à promessa do Senhor. Como eles, os servos do Reino devem ser luz que não se apaga (Is 42,6), sal que dá sabor à terra (Mt 5,13-16) e fermento que transforma (Mt 13,33).

Finalmente, o apóstolo Paulo nos recorda que a vigilância é uma luta constante: “Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às ciladas do diabo” (Ef 6,11), permanecendo firmes na fé e na esperança, “olhando para Jesus, autor e consumador da fé” (Hb 12,2).

Que neste 19º Domingo do Tempo Comum, dia em que celebramos os pais e recordamos a vocação dos diáconos, sejamos desafiados a uma vigilância que não se reduz a esperar passivamente, mas que se traduz em serviço concreto, amor fiel e justiça profética. Que o Senhor encontre em nós servos despertos, que guardam a casa, repartem o pão, amam sem calcular, e vivem como o “pequeno rebanho” confiado a seus cuidados.

Não permitamos que a demora aparente do Senhor se converta em pretexto para o desleixo, o abuso ou o individualismo. Antes, deixemo-nos arder pelo Espírito, revistamo-nos da armadura divina e sigamos firmes, com os rins cingidos e as lâmpadas acesas, testemunhando que o Reino de Deus não é futuro distante, mas já presente na fidelidade cotidiana.

Como o Pai confiou a Abraão uma promessa que sustentou sua peregrinação, assim também nos confia a missão de ser luz nas trevas, voz para os silenciados, mãos estendidas para os excluídos. Que a intercessão de São José e o exemplo dos primeiros diáconos fortaleçam nossa vocação à vigilância ativa e ao serviço humilde, em comunhão com toda a Igreja.

Que o Deus da fidelidade nos encontre vigilantes e generosos, não apenas na espera do encontro final, mas na construção incansável do Seu Reino aqui e agora. Amém.

DNonato - Pai da Desiree  e da Maria Clara