Situado à beira do lago, num contexto
de opressão fiscal romana e profundas desigualdades sociais na Galileia do
século I, o chamado acontece no interior de uma estrutura marcada por
injustiça. Levi não é figura abstrata; é agente inserido numa engrenagem
econômica que explorava camponeses endividados. O Evangelho não ignora a
realidade histórica. A graça irrompe no concreto, no lugar onde pecado pessoal
e estruturas sociais se entrelaçam.
Assim, já na abertura do itinerário
quaresmal, somos confrontados com uma pergunta decisiva: permanecer sentados nas
nossas “coletorias”, espaços de segurança, poder ou acomodação ou
levantar-nos ao ouvir o “segue-me”? A narrativa não oferece teoria espiritual;
apresenta um acontecimento que exige resposta.
O chamado de Levi é, portanto, paradigma da conversão: encontro que desloca, misericórdia que cura, comunhão que inclui e Reino que subverte fronteiras religiosas e sociais. Aqui começa a verdadeira travessia quaresmal. Lucas narra que Jesus “saiu”. O verbo é teologia em movimento. O Deus bíblico não é estático. Em Gênesis 3,8, Ele caminha pelo jardim; em Êxodo 3,7-8, desce para libertar; em Isaías 52,7, aproxima-se trazendo paz; em João 1,14, arma sua tenda entre nós. A encarnação é deslocamento. A missão é êxodo permanente. A iniciativa parte de Deus. A graça antecede o mérito.
Ele vê Levi.
Na antropologia bíblica, o olhar não é superficial. Ver é reconhecer, é atribuir dignidade. Quando Deus “viu” a opressão do seu povo (Ex 3,7), decidiu agir. O olhar de Jesus não classifica; recria. Levi, antes identificado por sua função e reputação, passa a ser identificado por um chamado. O encontro precede a exigência. Levi está sentado na coletoria. A cena é socialmente carregada. A Galileia do século I vivia sob forte pressão fiscal romana. O sistema de impostos era terceirizado; publicanos compravam o direito de arrecadar e frequentemente cobravam além do devido. Camponeses endividados perdiam terras. A concentração fundiária aumentava. A coletoria simbolizava colaboração com uma engrenagem injusta. Lucas escreve para comunidades que conhecem o peso da desigualdade. O chamado de Levi não ignora essa estrutura, mas começa pela conversão de quem está inserido nela. Ezequiel 11,19 anuncia a troca do coração de pedra por coração de carne. Sem transformação interior, reformas externas tendem a repetir opressões com nova linguagem.
“Segue-me.”
O chamado ecoa toda a Escritura: Abraão deixa sua terra (Gn 12,1), Moisés enfrenta Faraó (Ex 3,10), Samuel responde (1Sm 3,10), Isaías se oferece (Is 6,8), Eliseu abandona os bois (1Rs 19,21), pescadores deixam redes (Lc 5,11), Paulo se levanta após a queda (At 9). O discipulado implica ruptura e reorientação. Metanoia é mudança de mentalidade e de direção. Levi levanta-se e deixa tudo. O verbo “levantar-se” possui ressonância pascal. A mesma linguagem descreve a ressurreição. Toda conversão participa da dinâmica da Páscoa: morrer para um modo antigo de viver e iniciar vida nova (Rm 6,4). Em uma cultura onde riqueza significava segurança e honra, abandonar a coletoria era romper com identidade validada socialmente. O Evangelho desloca o centro do valor humano: não somos definidos pelo que acumulamos, mas por quem seguimos. Em tempos que absolutizam produtividade e performance, essa afirmação é profundamente subversiva.
A fé, nesse episódio, não aliena;
desinstala. Jesus não promete prosperidade material. Afirma que o Filho do
Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). 1Timóteo 6,9-10 adverte contra
o amor ao dinheiro; Lucas 12,15 alerta contra a avareza; 2Coríntios 8,9 recorda
que Cristo, sendo rico, fez-se pobre. O discipulado não é estratégia de
ascensão econômica. A bênção bíblica é comunhão com Deus, não acúmulo.
Após o chamado, Levi oferece um grande banquete. A conversão gera alegria. O Salmo 126 fala da boca cheia de riso após a restauração; Isaías 25,6 anuncia o banquete preparado para todos os povos. A mesa, na tradição bíblica, significa pertença. Comer juntos é reconhecer comunhão. Por isso a presença de publicanos e pecadores provoca escândalo.
No judaísmo do século I, “pecador” designava também categorias socialmente excluídas. A pureza ritual delimitava fronteiras. Comer com alguém era gesto teológico. Os fariseus murmuram, repetindo atitude já vista em Êxodo 16 e novamente em Lucas 15. A murmuração revela resistência à graça que ultrapassa esquemas humanos.
Jesus redefine a santidade. Ao tocar o
leproso (Lc 5,13), não se contamina; comunica pureza. Em Mateus 9,13, cita
Oseias 6,6: “Quero misericórdia e não sacrifício.” Isaías 1,13-17 e Amós
5,21-24 denunciam culto desvinculado da justiça. Tiago 1,27 define religião
pura como cuidado dos vulneráveis. A santidade evangélica não é isolamento
defensivo, mas força restauradora.
“Não são os que têm saúde que precisam
de médico, mas os doentes.”
A metáfora médica revela antropologia
integral. O pecado não é apenas infração jurídica; é ruptura relacional (Gn
3–4). Jeremias 17,9 fala do coração enigmático; o Salmo 51 suplica purificação
interior; 1João 1,8 alerta contra autoengano. A ironia está nos “justos”:
Romanos 3,23 afirma que todos pecaram. O perigo não é reconhecer-se pecador,
mas considerar-se autossuficiente. A parábola do fariseu e do publicano (Lc
18,9-14) confirma essa verdade.
A Igreja reconhece essa condição. A
Lumen Gentium 8 afirma que ela é santa e sempre necessitada de purificação. A
comunidade cristã não é assembleia de perfeitos, mas de reconciliados em
processo. 1Pedro 5,2-3 adverte contra o domínio; Jesus lava os pés (Jo 13,14).
O clericalismo contradiz o Evangelho quando transforma serviço em privilégio.
A mesa de Levi antecipa a Eucaristia.
Em Lucas 22,19, o pão é partido entre discípulos frágeis. 1Coríntios 10,16-17
afirma que, ao partilhar o mesmo pão, formamos um só corpo; 1Coríntios 11
denuncia incoerência entre altar e indiferença aos pobres. Cada celebração
eucarística exige coerência ética. Não há comunhão sacramental sem compromisso
com a justiça.
A conversão de Levi é também
comunitária. Ele não guarda a experiência; partilha-a. Atos 2,44-45 descreve
comunidade que compartilha bens. 1Coríntios 12 recorda que somos membros uns
dos outros. A fé cristã não é intimismo isolado. Isaías 58 conecta jejum com
libertação; Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus: justiça, misericórdia e
humildade.
No contexto contemporâneo, a cultura do
cancelamento fixa identidades pelo erro. Ezequiel 18 insiste que o ímpio pode
converter-se e viver. Romanos 8,1 proclama que não há condenação para os que
estão em Cristo. A misericórdia não elimina responsabilidade; inaugura futuro.
Zaqueu restitui (Lc 19,8); Pedro é restaurado (Jo 21,17).
Há também advertência contra a
instrumentalização da fé para projetos de poder. João 18,36 recorda que o Reino
não se impõe pela lógica do domínio. Filipenses 2,6-11 apresenta o caminho da
kenosis. Sempre que religião se converte em hegemonia cultural ou controle
moral, trai o Crucificado.
A Quaresma inicia-se sob o sinal
austero das cinzas: “Tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Não é ameaça, mas
verdade antropológica. A criatura não é autossuficiente. A fragilidade não é
fracasso; é condição para a graça. Quando a liturgia traça o pó sobre a fronte,
desmonta a ilusão prometeica de autonomia absoluta e nos reconduz ao real.
Somos finitos, vulneráveis, necessitados de redenção. Mas o profeta Joel
desloca o foco do gesto exterior para a interioridade: “Rasgai o vosso coração”
(Jl 2,13). A conversão bíblica não é teatralidade penitencial, mas
transformação do centro da pessoa. Isaías 58 aprofunda a crítica: jejum que
ignora o oprimido é caricatura religiosa. A verdadeira ascese rompe cadeias
injustas, partilha o pão com o faminto, acolhe o desabrigado. A espiritualidade
que não toca as estruturas da vida concreta converte-se em ritual vazio —
exatamente aquilo que os profetas denunciaram com vigor.
É nesse horizonte que o chamado de Levi
ilumina o início do caminho quaresmal. Conversão não é autopunição nem
moralismo ansioso. É encontro que recria. Cristo não começa exigindo
reparações; começa oferecendo presença. Romanos 2,4 recorda que é a bondade de
Deus que conduz ao arrependimento. A iniciativa é sempre divina. Ele continua
passando por nossas “coletorias” contemporâneas: sistemas econômicos que
naturalizam exclusões, ambientes eclesiais fechados em autorreferencialidade,
discursos que confundem ortodoxia com dureza de coração, espiritualidades que
protegem privilégios sob aparência de zelo religioso. O Evangelho não poupa nem
a religião quando ela se torna instrumento de distinção e poder. Amós 5,24
ainda ressoa: “Corra o direito como água.”
O Ressuscitado permanece à porta (Ap
3,20). Não arromba consciências; chama. A fé não é imposição cultural, mas
resposta livre. Hebreus 12,2 convida a fixar os olhos naquele que inaugura e
consuma a fé. O olhar que salva antecede qualquer esforço humano.
A decisão, como em Josué 24,15, é
inevitável. Permanecer sentado na segurança de estruturas conhecidas ou
levantar-se para a imprevisibilidade do Reino. Defender fronteiras identitárias
ou atravessá-las com misericórdia. Murmurar como quem se considera justo ou
sentar-se à mesa reconhecendo-se necessitado de cura. Lucas 5,27-32 revela o
núcleo pulsante do Evangelho: Deus toma a iniciativa, chama quem está à margem,
moral ou social —, cura o coração ferido, desmonta barreiras de pureza
excludente e transforma a mesa em espaço de reconciliação. A santidade que
Jesus inaugura não é isolamento defensivo, mas comunhão restauradora.
A Quaresma começa verdadeiramente quando
nos levantamos. Levantar-se é gesto pascal. É sair da lógica da
autopreservação e entrar na dinâmica da graça. É abandonar a coletoria da
indiferença, da autossuficiência ou do conformismo. É permitir que o Médico
toque as feridas que escondemos sob discursos religiosos ou ideológicos. Cristo
continua chamando. A cada geração, a cada comunidade, a cada consciência. O
caminho está aberto. A resposta permanece.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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