sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 5,27-32

 No início do caminho quaresmal, no sábado depois das cinzas,  quando as cinzas ainda marcam a fragilidade humana e a liturgia nos conduz ao deserto interior, a Igreja coloca diante de nós o episódio do chamado de Levi  Lucas 5,27-32 que também  esta nos sinóticos   Mateus 9,9-13 e Marcos 2,13-17,  Não é escolha casual. A pedagogia litúrgica apresenta, logo nos primeiros passos da conversão, uma cena concreta, histórica e profundamente teológica: Jesus que passa, vê, chama e partilha a mesa com pecadores. O fato de essa narrativa estar presente nas três tradições sinóticas revela sua centralidade na memória apostólica. Não se trata apenas de registro biográfico, mas de núcleo interpretativo do próprio ministério de Cristo. Aqui se concentra uma síntese do Evangelho: iniciativa divina, ruptura existencial, misericórdia que antecede mérito e comunhão que escandaliza sistemas religiosos fechados. A Quaresma, à luz desse texto, deixa de ser mero exercício ascético ou código moral abstrato. Torna-se experiência de encontro. O chamado de Levi manifesta o dinamismo da graça que antecede qualquer purificação. Antes de exigir, Cristo se aproxima; antes de corrigir, olha; antes de condenar, convida. Romanos 5,8 recorda que Deus nos amou quando ainda éramos pecadores. A conversão cristã nasce desse primado da misericórdia.

Situado à beira do lago, num contexto de opressão fiscal romana e profundas desigualdades sociais na Galileia do século I, o chamado acontece no interior de uma estrutura marcada por injustiça. Levi não é figura abstrata; é agente inserido numa engrenagem econômica que explorava camponeses endividados. O Evangelho não ignora a realidade histórica. A graça irrompe no concreto, no lugar onde pecado pessoal e estruturas sociais se entrelaçam.

Assim, já na abertura do itinerário quaresmal, somos confrontados com uma pergunta decisiva: permanecer sentados nas nossas “coletorias”, espaços de segurança, poder ou acomodação  ou levantar-nos ao ouvir o “segue-me”? A narrativa não oferece teoria espiritual; apresenta um acontecimento que exige resposta.

O chamado de Levi é, portanto, paradigma da conversão: encontro que desloca, misericórdia que cura, comunhão que inclui e Reino que subverte fronteiras religiosas e sociais. Aqui começa a verdadeira travessia quaresmal. Lucas narra que Jesus “saiu”. O verbo é teologia em movimento. O Deus bíblico não é estático. Em Gênesis 3,8, Ele caminha pelo jardim; em Êxodo 3,7-8, desce para libertar; em Isaías 52,7, aproxima-se trazendo paz; em João 1,14, arma sua tenda entre nós. A encarnação é deslocamento. A missão é êxodo permanente. A iniciativa parte de Deus. A graça antecede o mérito.

Ele vê Levi.

Na antropologia bíblica, o olhar não é superficial. Ver é reconhecer, é atribuir dignidade. Quando Deus “viu” a opressão do seu povo (Ex 3,7), decidiu agir. O olhar de Jesus não classifica; recria. Levi, antes identificado por sua função e reputação, passa a ser identificado por um chamado. O encontro precede a exigência. Levi está sentado na coletoria. A cena é socialmente carregada. A Galileia do século I vivia sob forte pressão fiscal romana. O sistema de impostos era terceirizado; publicanos compravam o direito de arrecadar e frequentemente cobravam além do devido. Camponeses endividados perdiam terras. A concentração fundiária aumentava. A coletoria simbolizava colaboração com uma engrenagem injusta. Lucas escreve para comunidades que conhecem o peso da desigualdade. O chamado de Levi não ignora essa estrutura, mas começa pela conversão de quem está inserido nela. Ezequiel 11,19 anuncia a troca do coração de pedra por coração de carne. Sem transformação interior, reformas externas tendem a repetir opressões com nova linguagem.

“Segue-me.”

O chamado ecoa toda a Escritura: Abraão deixa sua terra (Gn 12,1), Moisés enfrenta Faraó (Ex 3,10), Samuel responde (1Sm 3,10), Isaías se oferece (Is 6,8), Eliseu abandona os bois (1Rs 19,21), pescadores deixam redes (Lc 5,11), Paulo se levanta após a queda (At 9). O discipulado implica ruptura e reorientação. Metanoia é mudança de mentalidade e de direção. Levi levanta-se e deixa tudo. O verbo “levantar-se” possui ressonância pascal. A mesma linguagem descreve a ressurreição. Toda conversão participa da dinâmica da Páscoa: morrer para um modo antigo de viver e iniciar vida nova (Rm 6,4). Em uma cultura onde riqueza significava segurança e honra, abandonar a coletoria era romper com identidade validada socialmente. O Evangelho desloca o centro do valor humano: não somos definidos pelo que acumulamos, mas por quem seguimos. Em tempos que absolutizam produtividade e performance, essa afirmação é profundamente subversiva.

A fé, nesse episódio, não aliena; desinstala. Jesus não promete prosperidade material. Afirma que o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). 1Timóteo 6,9-10 adverte contra o amor ao dinheiro; Lucas 12,15 alerta contra a avareza; 2Coríntios 8,9 recorda que Cristo, sendo rico, fez-se pobre. O discipulado não é estratégia de ascensão econômica. A bênção bíblica é comunhão com Deus, não acúmulo.

Após o chamado, Levi oferece um grande banquete. A conversão gera alegria. O Salmo 126 fala da boca cheia de riso após a restauração; Isaías 25,6 anuncia o banquete preparado para todos os povos. A mesa, na tradição bíblica, significa pertença. Comer juntos é reconhecer comunhão. Por isso a presença de publicanos e pecadores provoca escândalo.

No judaísmo do século I, “pecador” designava também categorias socialmente excluídas. A pureza ritual delimitava fronteiras. Comer com alguém era gesto teológico. Os fariseus murmuram, repetindo atitude já vista em Êxodo 16 e novamente em Lucas 15. A murmuração revela resistência à graça que ultrapassa esquemas humanos.

Jesus redefine a santidade. Ao tocar o leproso (Lc 5,13), não se contamina; comunica pureza. Em Mateus 9,13, cita Oseias 6,6: “Quero misericórdia e não sacrifício.” Isaías 1,13-17 e Amós 5,21-24 denunciam culto desvinculado da justiça. Tiago 1,27 define religião pura como cuidado dos vulneráveis. A santidade evangélica não é isolamento defensivo, mas força restauradora.

“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes.”

A metáfora médica revela antropologia integral. O pecado não é apenas infração jurídica; é ruptura relacional (Gn 3–4). Jeremias 17,9 fala do coração enigmático; o Salmo 51 suplica purificação interior; 1João 1,8 alerta contra autoengano. A ironia está nos “justos”: Romanos 3,23 afirma que todos pecaram. O perigo não é reconhecer-se pecador, mas considerar-se autossuficiente. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) confirma essa verdade.

A Igreja reconhece essa condição. A Lumen Gentium 8 afirma que ela é santa e sempre necessitada de purificação. A comunidade cristã não é assembleia de perfeitos, mas de reconciliados em processo. 1Pedro 5,2-3 adverte contra o domínio; Jesus lava os pés (Jo 13,14). O clericalismo contradiz o Evangelho quando transforma serviço em privilégio.

A mesa de Levi antecipa a Eucaristia. Em Lucas 22,19, o pão é partido entre discípulos frágeis. 1Coríntios 10,16-17 afirma que, ao partilhar o mesmo pão, formamos um só corpo; 1Coríntios 11 denuncia incoerência entre altar e indiferença aos pobres. Cada celebração eucarística exige coerência ética. Não há comunhão sacramental sem compromisso com a justiça.

A conversão de Levi é também comunitária. Ele não guarda a experiência; partilha-a. Atos 2,44-45 descreve comunidade que compartilha bens. 1Coríntios 12 recorda que somos membros uns dos outros. A fé cristã não é intimismo isolado. Isaías 58 conecta jejum com libertação; Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus: justiça, misericórdia e humildade.

No contexto contemporâneo, a cultura do cancelamento fixa identidades pelo erro. Ezequiel 18 insiste que o ímpio pode converter-se e viver. Romanos 8,1 proclama que não há condenação para os que estão em Cristo. A misericórdia não elimina responsabilidade; inaugura futuro. Zaqueu restitui (Lc 19,8); Pedro é restaurado (Jo 21,17).

Há também advertência contra a instrumentalização da fé para projetos de poder. João 18,36 recorda que o Reino não se impõe pela lógica do domínio. Filipenses 2,6-11 apresenta o caminho da kenosis. Sempre que religião se converte em hegemonia cultural ou controle moral, trai o Crucificado.

A Quaresma inicia-se sob o sinal austero das cinzas: “Tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Não é ameaça, mas verdade antropológica. A criatura não é autossuficiente. A fragilidade não é fracasso; é condição para a graça. Quando a liturgia traça o pó sobre a fronte, desmonta a ilusão prometeica de autonomia absoluta e nos reconduz ao real. Somos finitos, vulneráveis, necessitados de redenção. Mas o profeta Joel desloca o foco do gesto exterior para a interioridade: “Rasgai o vosso coração” (Jl 2,13). A conversão bíblica não é teatralidade penitencial, mas transformação do centro da pessoa. Isaías 58 aprofunda a crítica: jejum que ignora o oprimido é caricatura religiosa. A verdadeira ascese rompe cadeias injustas, partilha o pão com o faminto, acolhe o desabrigado. A espiritualidade que não toca as estruturas da vida concreta converte-se em ritual vazio — exatamente aquilo que os profetas denunciaram com vigor.

É nesse horizonte que o chamado de Levi ilumina o início do caminho quaresmal. Conversão não é autopunição nem moralismo ansioso. É encontro que recria. Cristo não começa exigindo reparações; começa oferecendo presença. Romanos 2,4 recorda que é a bondade de Deus que conduz ao arrependimento. A iniciativa é sempre divina. Ele continua passando por nossas “coletorias” contemporâneas: sistemas econômicos que naturalizam exclusões, ambientes eclesiais fechados em autorreferencialidade, discursos que confundem ortodoxia com dureza de coração, espiritualidades que protegem privilégios sob aparência de zelo religioso. O Evangelho não poupa nem a religião quando ela se torna instrumento de distinção e poder. Amós 5,24 ainda ressoa: “Corra o direito como água.”

O Ressuscitado permanece à porta (Ap 3,20). Não arromba consciências; chama. A fé não é imposição cultural, mas resposta livre. Hebreus 12,2 convida a fixar os olhos naquele que inaugura e consuma a fé. O olhar que salva antecede qualquer esforço humano.

A decisão, como em Josué 24,15, é inevitável. Permanecer sentado na segurança de estruturas conhecidas ou levantar-se para a imprevisibilidade do Reino. Defender fronteiras identitárias ou atravessá-las com misericórdia. Murmurar como quem se considera justo ou sentar-se à mesa reconhecendo-se necessitado de cura. Lucas 5,27-32 revela o núcleo pulsante do Evangelho: Deus toma a iniciativa, chama quem está à margem, moral ou social —, cura o coração ferido, desmonta barreiras de pureza excludente e transforma a mesa em espaço de reconciliação. A santidade que Jesus inaugura não é isolamento defensivo, mas comunhão restauradora.

A Quaresma começa verdadeiramente quando nos levantamos. Levantar-se é gesto pascal. É sair da lógica da autopreservação e entrar na dinâmica da graça. É abandonar a coletoria da indiferença, da autossuficiência ou do conformismo. É permitir que o Médico toque as feridas que escondemos sob discursos religiosos ou ideológicos. Cristo continua chamando. A cada geração, a cada comunidade, a cada consciência. O caminho está aberto. A resposta permanece.

DNonato - Teólogo do Cotidiano

 

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