sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Alegria que Liberta ou Anestesia? Uma Leitura Bíblica do Carnaval

  • Entre Dioniso e Davi: A Ambivalência Sagrada da Alegria

O Carnaval atravessa séculos como expressão intensa da experiência humana e não pode ser compreendido de forma superficial ou reduzido a juízos morais simplistas. Muito antes de assumir a configuração brasileira contemporânea, as festas populares já ocupavam lugar central nas civilizações antigas, é  uma festa fruto de longos processos históricos e culturais. Ele não nasceu pronto, nem surgiu isolado. É resultado de ritos agrícolas, festas de inversão social, celebrações religiosas e transformações políticas que atravessaram civilizações antigas. Antes de ser festa popular, foi ritual, teatro sagrado, desordem controlada e, muitas vezes, instrumento de crítica social.

  • Antigo Egito

No Egito antigo não havia “carnaval” no sentido moderno, mas existiam grandes festivais religiosos marcados por música, dança, bebida e suspensão temporária das normas cotidianas. Um exemplo era a Festa de Opet, realizada em Tebas, ligada ao culto de Amon.

Essas celebrações estavam profundamente conectadas ao ciclo do Nilo, à fertilidade e à renovação da vida. Antropologicamente, eram ritos de reafirmação da ordem cósmica: o caos era simbolicamente encenado para que a ordem fosse restaurada. Diferente do carnaval moderno, essas festas não eram apenas “liberação”, mas estavam inseridas numa cosmovisão religiosa rígida. O sagrado e o festivo caminhavam juntos. A alegria era litúrgica.

  •  Grécia Antiga

Na Grécia, as festas em honra a Dioniso (deus do vinho, do êxtase e da fertilidade) são fundamentais para compreender as raízes do carnaval.

Durante as Dionisíacas:

  • Havia máscaras: O uso da máscara tinha sentido profundo: revelava verdades ocultas sob a aparência social. Psicologicamente, funcionava como espaço de catarse coletiva. Sociologicamente, era válvula de escape das tensões da pólis.
  • O povo tomava as ruas.
  • O teatro nascia como expressão ritual.
  • As hierarquias eram temporariamente relativizadas.

O espírito dionisíaco celebrava a vida, mas também confrontava o excesso. A embriaguez tinha dimensão simbólica: romper limites para reencontrar identidade.

  • Roma Antiga

Em Roma, a Saturnália, dedicada ao deus Saturno, talvez seja a influência mais direta do que depois se tornaria o carnaval europeu.

Características marcantes:

  • Inversão de papéis: escravos podiam sentar-se à mesa com seus senhores.
  • Troca de presentes.
  • Liberdade temporária de costumes.
  • Uso de gorros simbólicos de liberdade.

Era um tempo de suspensão da rigidez social. Contudo, essa inversão tinha prazo determinado. Terminada a festa, a estrutura voltava intacta. A desordem era controlada pelo próprio sistema. Há aqui uma crítica sociológica importante: muitas festas de inversão não transformam a injustiça — apenas a aliviam temporariamente.

  • Babilônia

Na Babilônia, o festival do Akitu (Ano Novo) celebrava a renovação do poder real e a vitória da ordem sobre o caos.

Durante o ritual:

  • O rei era simbolicamente humilhado.
  • Havia dramatizações mitológicas.
  • O ciclo da vida e da fertilidade era celebrado.

Esse elemento da humilhação simbólica do rei ecoa, de certa forma, no personagem posterior do “rei da festa”, que encarna o exagero e o riso.

  • A origem do Rei Momo

O Rei Momo tem origem na figura de Momo, personagem da mitologia grega, filho da Noite (Nix), símbolo da ironia e da crítica. Ele representava a zombaria, a sátira aos deuses e às fraquezas humanas.

Com o passar dos séculos, especialmente na Europa medieval, consolidou-se a tradição de eleger um “rei da folia” que governaria simbolicamente durante os dias de festa.

No Brasil, o Rei Momo tornou-se personagem central do carnaval, abrindo oficialmente as celebrações. Ele representa:

  • Excesso
  • Alegria
  • Ironia social
  • Suspensão temporária da ordem

Mas é curioso: o “rei” do carnaval reina apenas por alguns dias. Depois, entrega a chave da cidade. Isso revela algo profundo: o poder da festa é simbólico, não estrutural.

O carnaval nasce do encontro entre:

  • Ritos agrícolas de fertilidade.
  • Festas de inversão social.
  • Cultos pagãos antigos.
  • Influência cristã medieval (especialmente o período que antecede a Quaresma).

Quando o cristianismo se expandiu pelo Império Romano, encontrou sociedades marcadas por festividades públicas. Em vez de simplesmente extingui-las, reinterpretou muitas práticas à luz do mistério pascal. Assim termo “carnaval” está ligado ao latim carne vale, “adeus à carne”  indicando o período anterior à Quaresma cristã e  tornou-se pedagogia espiritual de transição entre abundância e penitência. A tradição litúrgica cristã reconhece que a vida espiritual não se constrói por negação permanente, mas por ritmo. Que fique claro,  historicamente, o cristianismo não criou o carnaval, mas o reconfigurou dentro do calendário litúrgico. O que antes era rito cósmico tornou-se período preparatório para a penitência. Há, portanto, uma tensão permanente: celebração da vida e crítica do excesso; liberdade e responsabilidade; festa e estrutura social.

O carnaval é, ao mesmo tempo:

  • Memória das antigas civilizações.
  • Espelho das contradições humanas.
  • Espaço de crítica e de fuga.
  • Ritual de identidade coletiva.

Ele revela algo essencial sobre o ser humano: precisamos de momentos de ruptura para continuar vivendo a ordem. A questão que permanece é se essa ruptura gera transformação ou apenas anestesia social.

Na tradição bíblica, a experiência festiva também ocupa lugar central. Em Êxodo 12, a Páscoa nasce como memorial da libertação da escravidão, rito que transforma memória em identidade. A celebração não é fuga da história, mas recordação política de um Deus que intervém contra o império opressor. Em Levítico 23, as festas estruturam o calendário sagrado e organizam a vida social de Israel. Em Deuteronômio 16, o Pentecostes associa colheita, gratidão e justiça, pois ninguém deveria celebrar sozinho enquanto o pobre permanecesse excluído. A festa bíblica está vinculada à memória da libertação e à responsabilidade social. Em 2 Samuel 6,14, Davi dança diante da Arca, gesto que provoca escândalo em Micol, símbolo de uma religiosidade aristocrática e contida. O texto revela tensão entre espiritualidade formal e expressão corporal espontânea. O corpo que dança não é condenado por Deus; ao contrário, torna-se sinal de alegria diante da presença divina. O Salmo 150 convoca instrumentos, canto e dança, e Eclesiastes 3,4 reconhece que há tempo de chorar e tempo de rir, tempo de gemer e tempo de dançar. A Escritura não sustenta uma espiritualidade desencarnada.

No Novo Testamento, a encarnação aprofunda essa perspectiva. João 1,14 afirma que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. A teologia da encarnação indica que Deus assume a cultura concreta, com suas linguagens e símbolos. Em Filipenses 2,6-8, o hino cristológico descreve o esvaziamento do Cristo que entra na condição humana. Deus não salva a humanidade à distância, mas dentro da história. Em João 2,1-11, nas bodas de Caná, Jesus transforma água em vinho e preserva a alegria de uma festa de casamento. O sinal aponta para a abundância messiânica e revela que a alegria humana pode tornar-se espaço de manifestação da graça. Ao mesmo tempo, Marcos 7,21 recorda que o mal procede do interior do coração. A questão moral não está na festa em si, mas na intenção e na estrutura que orientam as ações humanas.

Na Europa medieval, as festas pré-quaresmais assumiram feições urbanas específicas. Máscaras, sátiras e desfiles permitiam crítica social e inversão simbólica de papéis. O riso funcionava como linguagem política. Em sociedades rigidamente hierarquizadas, a praça pública tornava-se espaço temporário de contestação. Não se tratava apenas de desordem, mas de mecanismo cultural de reorganização simbólica. A história revela que tais manifestações funcionavam como válvula social e também como forma de denúncia.

No Brasil, o Carnaval resultou do encontro de matrizes europeias, africanas e indígenas. Povos africanos escravizados trouxeram ritmos, danças e cosmologias em que corpo e espiritualidade são inseparáveis. Povos indígenas já estruturavam sua vida comunitária em torno de celebrações ligadas aos ciclos naturais. No contexto pós-abolição, comunidades negras marginalizadas encontraram na festa espaço de afirmação identitária. O samba, inicialmente criminalizado, tornou-se símbolo nacional. As escolas de samba transformaram-se em narradoras da história popular, denunciando racismo, autoritarismo e desigualdade. A festa brasileira carrega marcas de sofrimento histórico, mas também de resistência criativa.

A sociologia oferece instrumentos para compreender essa complexidade. Émile Durkheim descreveu a efervescência coletiva como experiência em que indivíduos se percebem parte de algo maior, reforçando solidariedade social. Victor Turner desenvolveu o conceito de liminaridade, período em que estruturas rígidas são temporariamente suspensas e surge a communitas, experiência intensa de pertencimento. O Carnaval pode ser interpretado como momento liminar em que identidades são reelaboradas e tensões sociais encontram expressão simbólica. Psicologicamente, celebrações coletivas reduzem estresse, fortalecem vínculos e reafirmam dignidade, sobretudo em contextos de exclusão.

Entretanto, toda manifestação humana carrega ambivalências. Há abuso de álcool, violência e exploração. Essas distorções não podem ser negadas. Contudo, é necessário discernir causas estruturais. Problemas como desigualdade social, ausência de políticas públicas eficazes e mercantilização permanente do corpo e da cultura atravessam o ano inteiro. A crítica profética de Isaías 58 desloca o foco do ritual externo para a justiça concreta, afirmando que o verdadeiro jejum consiste em libertar o oprimido e repartir o pão. Condenar a festa enquanto se toleram sistemas que produzem miséria revela incoerência ética. Jesus denuncia em Mateus 23 a hipocrisia religiosa que impõe fardos e negligencia o essencial da lei, a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Paulo, em Romanos 14, orienta a comunidade a evitar julgamentos precipitados sobre práticas culturais, lembrando que cada pessoa deve agir segundo a própria consciência diante de Deus. Em 1 Coríntios 8 a 10, ele discute liberdade e responsabilidade comunitária, mostrando que a maturidade cristã não é permissividade, mas também não é legalismo opressor. Em Gálatas 5,1, afirma que Cristo nos libertou para a liberdade, não para nova escravidão. A ética cristã exige discernimento e amor, não vigilância moral seletiva.

No contexto brasileiro contemporâneo, o Carnaval movimenta economia criativa significativa e sustenta milhares de famílias. Costureiras, músicos, técnicos, artesãos e trabalhadores informais encontram na festa fonte legítima de renda. Cultura é direito social e instrumento de memória coletiva. Reduzir o debate a cifras isoladas ignora que investimento cultural gera retorno econômico e fortalece comunidades. A arte carnavalesca tornou-se tribuna pública para narrativas historicamente silenciadas. Quando periferias ocupam o espaço urbano com música e história própria, exercem cidadania cultural.

A fé cristã, enraizada na encarnação, não é chamada a fugir da cultura, mas a iluminá-la. O corpo chamado templo do Espírito em 1 Coríntios 6,19 não é negado, mas dignificado. A crítica cristã deve dirigir-se à exploração e à desumanização, não à alegria popular em si. A verdadeira tensão moral não está na existência da festa, mas na forma como cada pessoa participa dela e nas estruturas que a moldam.

A alegria não é inimiga da espiritualidade. Provérbios 17,22 afirma que o coração alegre é remédio. A Bíblia culmina na imagem do banquete escatológico em Isaías 25,6 e na ceia das bodas em Apocalipse 19,9, símbolos de comunhão definitiva. A festa humana, ainda imperfeita, pode tornar-se antecipação simbólica dessa esperança. Entre celebração e conversão, entre liberdade e responsabilidade, a vida encontra equilíbrio. A fé madura não demoniza a praça pública, mas entra nela com consciência crítica, defendendo justiça, dignidade e vida. Quando orientado pela ética do amor, o Carnaval pode ser expressão de memória, resistência e esperança coletiva, revelando que a alegria também é dimensão legítima da experiência humana e pode coexistir com compromisso espiritual autêntico

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.