quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 9,22-25

 

Antes de mergulhar na densidade dessa Palavra, trago um fato simples, quase banal, mas que se tornou parábola concreta para mim. Recentemente perdi meu aparelho celular. Um objeto pequeno, mas que concentra agenda, contatos, registros, memórias, fotografias, trabalho, comunicação, organização da vida. A sensação imediata foi de desorientação. Um vazio estranho. Uma espécie de amputação simbólica.

Percebi o quanto aquele instrumento havia se tornado extensão de mim mesmo. Não apenas ferramenta, mas suporte de identidade, controle e segurança. A perda expôs algo que normalmente não se percebe: nossa dependência silenciosa das coisas que nos prometem autonomia.

E, por motivos óbvios de ordem financeira, não estou em condição de simplesmente substituí-lo por outro. Essa impossibilidade concreta torna a experiência ainda mais real. Não é apenas o incômodo de um contratempo. É o limite imposto pela própria realidade material. A cultura do consumo nos acostumou a resolver perdas com novas aquisições imediatas. Quando isso não é possível, o despojamento deixa de ser teórico e se torna existencial.

Essa experiência, aparentemente trivial, tornou-se pedagógica. Perder o celular não é carregar uma cruz no sentido dramático do martírio, mas revelou o quanto estamos apegados ao controle, à conectividade constante, à sensação de domínio sobre o tempo e sobre as relações. A perda trouxe desconforto, insegurança prática e até constrangimentos, mas também uma espécie de despojamento involuntário. E ali ecoou a Palavra: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo”.

A pequena perda cotidiana iluminou a grande questão espiritual: do que, de fato, precisamos nos desapegar para seguir Cristo? O que confundimos com necessidade absoluta, mas é apenas prolongamento do ego? A Quaresma começa lembrando que somos pó. A impossibilidade de recompor imediatamente o que foi perdido recorda que não controlamos tudo, que não possuímos tudo, que não somos autossuficientes.

É nesse horizonte concreto, humano e vulnerável que escutamos o Evangelho proclamado na Quinta-feira depois das Cinzas.

O texto do Evangelho segundo Lucas 9,22-25 é proclamado na Quinta-feira depois das Cinzas, no início do caminho quaresmal. Não se trata de coincidência litúrgica, mas de pedagogia espiritual profundamente coerente. A Quaresma começa com o sinal austero das cinzas e imediatamente coloca diante da comunidade a palavra decisiva de Jesus. Primeiro, a Igreja recorda a verdade antropológica: “Tu és pó”. Depois, apresenta a liberdade da escolha: “Se alguém quiser”.

«Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me.»

Quando a Palavra de Deus, na boca de Cristo, proclama essa sentença, não se trata de um convite devocional suave, mas de uma convocação radical. A conversão não é imposta, é oferecida. O verbo é diário. A cruz não é eventual. É caminho permanente. Jejum, esmola e oração só têm sentido se forem expressão desse seguimento real e não performance religiosa.

No contexto do Evangelho segundo Lucas, Jesus acaba de anunciar sua paixão. Ele fala de rejeição, sofrimento e morte. Não romantiza o destino. Revela que o Filho do Homem será entregue às estruturas religiosas e políticas do seu tempo. O discipulado nasce sob essa luz. Seguir Cristo é entrar em tensão com sistemas que se alimentam de poder, privilégio e exclusão. A rejeição não vem apenas de fora. Vem também da estrutura religiosa estabelecida, dos anciãos, dos sumos sacerdotes, dos escribas. Isso ecoa em qualquer tempo histórico.

Lucas escreve para uma comunidade pressionada pelo ambiente do Império Romano. O mesmo chamado aparece em Evangelho segundo Marcos 8,34-36 e em Evangelho segundo Mateus 16,24-26. Marcos enfatiza o choque imediato da proposta. Mateus sublinha a dimensão escatológica da recompensa. Lucas, porém, acrescenta uma palavra decisiva: “cada dia”. A cruz não é apenas o momento extremo do martírio. É disciplina cotidiana. É fidelidade perseverante em meio à história.

No mundo romano, a cruz era instrumento de execução reservado a subversivos e escravos. Era símbolo da pedagogia do medo do império. Quando Jesus assume a cruz, desmonta a lógica da dominação. Não responde com espada. Não organiza milícia. Não convoca insurreição armada. Escolhe a fidelidade até o fim. O que o império utilizava para humilhar, Deus transforma em revelação. O poder deixa de ser definido pela capacidade de esmagar e passa a ser definido pela capacidade de amar até o extremo.

A cruz em Lucas não é apenas sofrimento físico. É fidelidade a um projeto que confronta poderes. É perda de status. É exposição pública. É escolher o Reino em vez da autopreservação. Negar-se a si mesmo não é anular a personalidade, mas romper com o egocentrismo que transforma Deus em instrumento de sucesso pessoal. É abandonar a fé utilitária que mede espiritualidade por prosperidade material.

Isaías já havia intuído essa lógica no cântico do Servo Sofredor. “Ele foi desprezado e rejeitado” (Is 53,3). O profeta denuncia uma sociedade que naturaliza o sofrimento do justo. A cruz de Cristo é a encarnação histórica dessa denúncia. O pecado não é apenas individual. É estrutural. Ele se infiltra nas instituições, nas alianças entre trono e altar, nas leis que protegem privilégios.

Paulo compreendeu o escândalo dessa dinâmica ao afirmar que Cristo, sendo rico, se fez pobre por nós. Em Filipenses 2 descreve o esvaziamento daquele que não se agarrou ao próprio status. A encarnação já é descida. A cruz é o ápice dessa kenosis. Cristo não acumula, entrega-se. Essa lógica confronta frontalmente qualquer teologia da acumulação que transforma o altar em balcão e a fé em mercado.

O Brasil conhece bem essa distorção. Em periferias onde mães aguardam meses por atendimento médico e escolas funcionam com estrutura precária, erguem-se templos monumentais prometendo prosperidade financeira como sinal de favor divino. A linguagem é empresarial, a espiritualidade é contratual. Contudo, o Evangelho afirma que quem quiser salvar a própria vida a perderá. A lógica do Reino não é investimento para retorno material, é doação que gera vida partilhada. Na Baixada Fluminense, comunidades organizam mutirões de alimentação para famílias em vulnerabilidade. Uma aposentada doa parte do pouco que recebe. Um jovem advogado oferece assessoria gratuita a ameaçados de despejo. Já sofreu intimidações. Não há palco, há desgaste. Ali a cruz é concreta. Não é símbolo ornamental, é serviço que custa segurança.

Na Amazônia, lideranças indígenas cristãs defendem território diante da exploração ilegal. Recebem ameaças. Vivem sob tensão constante. A criação geme, como afirma Romanos 8. A cruz assume dimensão ecológica. Defender a floresta é carregar o peso de um conflito desigual. Negar-se a si mesmo significa recusar ganhos imediatos em nome da vida coletiva e da fidelidade ao Criador.

Nos primeiros séculos, o império perseguiu cristãos não por sua espiritualidade privada, mas por sua lealdade pública a Cristo acima de César. Perpétua e Felicidade enfrentaram as feras sem renegar a fé. Inácio de Antioquia, a caminho do martírio, via sua morte como participação no mistério de Cristo. Tertuliano afirmou que o sangue dos mártires era semente. Agostinho, ao distinguir duas cidades, mostrou que a história é atravessada por duas lógicas: o amor a si mesmo que exclui Deus e o amor a Deus que relativiza o ego. Hoje a perseguição raramente assume forma de arena, mas assume forma de desqualificação, difamação e isolamento. Quem denuncia injustiça estrutural é rotulado como inimigo da ordem. A cruz contemporânea passa pelo descrédito público e pela perda de privilégios.

Os profetas do Antigo Testamento já haviam deixado claro que não há espiritualidade autêntica sem justiça. Jeremias exige direito e justiça. Amós clama por um rio de retidão. Miqueias resume a vontade divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na humildade diante de Deus. Jesus se insere nessa tradição. Sua cruz é consequência dessa fidelidade profética.

A psicologia contemporânea confirma que o culto ao sucesso ilimitado produz ansiedade e vazio. O indivíduo centrado exclusivamente na autopromoção torna-se prisioneiro da própria imagem. A cruz desloca o centro. Negar-se a si mesmo é libertar-se do ego hipertrofiado para reencontrar sentido no dom de si.

Quando Jesus pergunta que vantagem há em ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma, ele desmonta o mito moderno do êxito absoluto. Ganhar o mundo pode significar perder consciência, compaixão, humanidade. A cruz torna-se o limite que impede essa perda total.

Por isso a liturgia coloca esse texto no início da Quaresma. Porque não há conversão verdadeira sem deslocamento do ego. Não há discipulado sem ruptura com o narcisismo espiritual. Não há Evangelho compatível com religião de fachada ou culto à prosperidade. A Quinta-feira depois das Cinzas torna-se, assim, momento decisivo. Cada comunidade e cada discípulo precisam discernir que tipo de cristianismo desejam viver. Um cristianismo ornamental que busca proteção divina para conservar privilégios, ou o caminho daquele que aceita perder por causa do Filho do Homem.

A cruz continua sendo escândalo porque desmonta sistemas de privilégio. Continua sendo loucura porque recusa a violência como resposta. Continua sendo ameaça porque relativiza qualquer poder absoluto. Mas é nela que nasce a ressurreição, não como fuga do sofrimento, mas como confirmação de que o amor é mais forte que a morte.

E somente quem aceita perder segundo o mundo pode descobrir o que é ganhar segundo Deus.


DNonato - teólogo do cotidiano  

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