sábado, 14 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 8,1-10

 A  narrativa de Marcos 8,1-10, proclamada na liturgia do Sábado da 5ª Semana do Tempo Comum, não deve ser lida como um fragmento isolado da memória cristã, mas como o ápice de um movimento pedagógico que o Tempo Comum propõe à Igreja: aprender a discernir os sinais do Reino no tecido ordinário da existência. Ao situar este texto fora dos ciclos extraordinários do Natal ou da Páscoa, a liturgia sublinha que a manifestação do divino não depende de cenários solenes, mas brota da urgência das fomes humanas.

Diferente da primeira multiplicação (Mc 6), que ocorre em solo judaico, este relato situa Jesus em território majoritariamente pagão (a Decápole). Isso amplia radicalmente o horizonte da missão: o Reino não é um banquete exclusivo, mas uma mesa estendida a todas as gentes. O "chão duro" mencionado não é apenas físico, mas simbólico — é o chão do estrangeiro, do excluído, daquele que a tradição muitas vezes julgou indigno do "pão dos filhos".

O texto insere-se na seção de Marcos (6,30–8,26) marcada por um contraste agudo:

  • A Cristofania do Cuidado: Jesus, movido por uma compaixão visceral (esplanchnizomai), antecipa a necessidade da multidão. Nele, a divindade se manifesta como responsabilidade pelo outro.
  • A Cegueira dos Discípulos: Paradoxalmente, aqueles que caminham com o Mestre sofrem de uma "lentidão espiritual". Mesmo após terem visto cestos sobrarem anteriormente, eles repetem a pergunta da escassez: "Como poderá alguém saciá-los de pão aqui no deserto?"

​"A pedagogia de Jesus em Marcos é o confronto direto entre a lógica da acumulação (o medo da falta) e a lógica da partilha (a confiança na providência)."
Jesus está em região gentílica, provavelmente na Decápole (cf. Mc 7,31), território marcado por diversidade cultural e influência helenista. Não é Jerusalém, não é o centro religioso. É fronteira. A geografia é teologia. O Reino se manifesta nas margens. A multidão permanece três dias com Ele e não tem o que comer (Mc 8,2). O número três, recorrente na Escritura (cf. Os 6,2; Jn 1,17; Mc 8,31), evoca tempo de prova e prenúncio de vida nova. A permanência indica perseverança, mas também revela precariedade. O deserto, cenário da narrativa, remete ao lugar onde Israel foi provado e educado (Dt 8,2-3). No deserto se aprende dependência; no deserto se revela o coração.

A Galileia do século I vivia sob o peso do Império Romano. O sistema tributário incluía impostos sobre terras (tributum soli), sobre pessoas (tributum capitis) e taxas indiretas. Herodes Antipas administrava a região com forte pressão fiscal. A concentração fundiária aumentava, pequenos proprietários tornavam-se arrendatários ou trabalhadores sem terra. A arqueologia e a ciência histórica confirmam esse empobrecimento progressivo. A fome era estrutural. Quando Jesus declara: “Tenho compaixão desta multidão” (Mc 8,2), o verbo grego splagchnízomai indica comoção visceral, movimento das entranhas. Não é sentimento superficial; é envolvimento radical. Cumpre-se a revelação de Êxodo 3,7: Deus vê, ouve e desce para libertar. A compaixão em Marcos não é emoção isolada; é ação transformadora.

Os discípulos perguntam: “Onde alguém poderia saciá-los de pão aqui no deserto?” (Mc 8,4). A pergunta ecoa a murmuração de Israel diante da ausência de maná (Ex 16,2-3; Nm 11,4-6). Mesmo tendo testemunhado a multiplicação anterior (Mc 6,30-44), revelam dificuldade em integrar a experiência. Marcos desenvolverá essa incompreensão em Mc 8,17-21, questionando a dureza de coração. Psicologicamente, o medo da escassez obscurece a memória da graça. Sociologicamente, sociedades marcadas por crises constantes desenvolvem mentalidade de sobrevivência. Filosoficamente, o deserto representa o limite da autossuficiência humana. Jesus desloca o foco da impossibilidade para a responsabilidade: “Quantos pães tendes?” (Mc 8,5). O Reino começa com o reconhecimento do pouco disponível.

O gesto de tomar, dar graças, partir e entregar (Mc 8,6) constitui núcleo sacramental que atravessa os Evangelhos. Marcos antecipa a última ceia (Mc 14,22); Lucas retoma o gesto (Lc 22,19; 24,30); João o interpreta cristologicamente em Jo 6,35 ao apresentar Jesus como “o Pão da Vida”. A Eucaristia não pode ser desvinculada da justiça. Paulo denuncia a incoerência de celebrar enquanto irmãos passam fome (1Cor 11,21-29). A mesa do Senhor exige mesa compartilhada na história. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium (n. 11), recorda que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã; mas se é fonte, deve irrigar a prática concreta.

Os sete pães e os sete cestos recolhidos (Mc 8,5.8) evocam plenitude e universalidade (Gn 2,2-3). Diferentemente dos doze cestos da primeira multiplicação, aqui a simbologia aponta para abrangência além das doze tribos. Mateus 15,32-39 confirma essa dimensão inclusiva. Alguns exegetas associam o número sete às nações mencionadas em Deuteronômio 7,1, sugerindo que o sinal ultrapassa Israel. O banquete no deserto antecipa Isaías 25,6, onde Deus prepara mesa para todos os povos. A universalidade do pão confronta exclusivismos religiosos e nacionalismos contemporâneos.

O texto integra corpo e espírito. “Nem só de pão vive o ser humano” (Dt 8,3; Mt 4,4), mas a ausência de pão fere a dignidade. Tiago 2,15-16 afirma que palavras piedosas sem ação concreta são vazias. A antropologia reconhece que a refeição compartilhada funda pertencimento; a sociologia demonstra que sociedades mais igualitárias apresentam maior coesão social. A partilha gera capital social; a acumulação gera fragmentação. O medo sustenta a retenção; a confiança sustenta a comunhão.

No Império Romano, o pão podia ser instrumento político — “pão e circo” como mecanismo de apaziguamento. A distribuição controlada mantinha dependência. Jesus subverte essa lógica: o alimento não é favor do poderoso, mas fruto de partilha comunitária. A Doutrina Social da Igreja reafirma a destinação universal dos bens (Gaudium et Spes, 69; Populorum Progressio, 22). O que é partilhado torna-se suficiente. A multiplicação não legitima enriquecimento individual; denuncia desigualdade estrutural.

Se faz necessário  saber que o milagre não associa fé a acúmulo. Jesus não multiplica para formar elite próspera, mas para saciar todos. “Guardai-vos de toda avareza” (Lc 12,15). A tentação de transformar fé em técnica de sucesso ecoa a proposta do tentador: “Se és Filho de Deus…” (Mt 4,3). A fé não é mercadoria; o templo não é mercado (Mc 11,15-17). A teologia do domínio, que instrumentaliza o nome de Deus para projetos de poder, encontra limite no Cristo que afirma: “Quem quiser ser o primeiro seja servo” (Mc 10,44). O Reino não cresce por imposição, mas por serviço.

Jesus entrega o pão aos discípulos para que distribuam (Mc 8,6). Ele não monopoliza o gesto, como alguns ministros religioso reclamam pra si a sua condição de consgrado para função de status. Lumen Gentium (n. 9-12) recorda que todo o Povo de Deus participa da missão. Estruturas eclesiais que concentram poder e se distanciam da realidade concreta contradizem o dinamismo do Evangelho. Evangelii Gaudium (n. 198) insiste que a opção pelos pobres é categoria teológica. A Igreja que não escuta o clamor dos famintos perde credibilidade.

Em um mundo capaz de produzir alimento suficiente, milhões permanecem em insegurança alimentar. Amós 5,11 denuncia sistemas que esmagam o pobre e exigem tributo de trigo. Hoje, desigualdades globais revelam contradições semelhantes. A escassez é frequentemente fabricada por concentração de renda e especulação. A multiplicação dos pães denuncia essa lógica e propõe economia da partilha.

Os estudos sobre comportamento em contextos de escassez mostram que o medo reduz capacidade de cooperação. Jesus rompe essa espiral ao gerar confiança. Filosoficamente, o texto questiona o individualismo que absolutiza o sujeito isolado. A saciedade nasce da comunhão. A antropologia cultural confirma que comunidades tradicionais sobrevivem pela reciprocidade. O Evangelho converge com essa sabedoria ancestral.

Na realidade  o banquete no deserto antecipa o banquete definitivo (Ap 19,9). Antes da confissão de Pedro (Mc 8,27-30) e do anúncio da cruz (Mc 8,31), Marcos apresenta um Messias que alimenta e serve. Reconhecer Jesus como Cristo implica aceitar sua lógica de entrega. O pão repartido prepara o caminho da cruz, onde a vida é oferecida “por muitos” (Mc 10,45).

A perícope  encerra-se com o envio silencioso (Mc 8,10). Jesus parte, mas deixa comunidade transformada. O milagre não cria dependência; desperta responsabilidade. A pergunta “Quantos pães tendes?” continua a ecoar nas periferias urbanas, nos campos de refugiados, nas comunidades rurais esquecidas. Jovens sem horizonte, trabalhadores precarizados, idosos invisibilizados experimentam o risco de desfalecer pelo caminho e a  Boa Nova manifesta-se quando compaixão se torna prática concreta. Isaías 35,1 anuncia que o deserto floresce; Marcos mostra o início desse florescimento. A fé autêntica reconhece-se pelo pão repartido e pela dignidade restaurada. Celebrar a Eucaristia implica comprometer-se com o pão cotidiano. A multiplicação dos pães permanece critério permanente para discernir autenticidade da fé.

​Entre o deserto e a abundância, entre a carência e a comunhão, a Palavra proclamada neste 5⁰ sábado do Tempo Comum permanece viva e inquieta. O deserto deixa de ser um lugar de morte para se tornar o palco de uma nova economia: a teologia do "ter compaixão". Ela denuncia a indiferença que normaliza a fome e confronta sistemas excludentes que transformam o pão em mercadoria e a vida em estatística. A Palavra nos lembra que o deserto não é apenas geográfico, mas o vácuo de solidariedade criado por corações que acumulam enquanto multidões desfalecem pelo caminho. O Reino começa quando mãos se abrem e o "pouco" é entregue sem reservas. O milagre não é um espetáculo de mágica, mas a resistência de comunidades que escolhem partilhar o que têm, acreditando que, na lógica de Deus, o que se divide, multiplica.

  • Abertura: O pão que sacia o corpo não é um fim em si mesmo; ele é o sinal de que o espírito se iluminou para a fraternidade.
  • Encarnação: Revela que Deus não é um observador indiferente à história; Ele sente as entranhas se comoverem diante da necessidade humana.
  • Envio: Ele atravessa a nossa realidade, transforma a nossa escassez em banquete e nos envia como "distribuidores" dessa esperança.
Portanto, a partilha não é um gesto isolado de caridade, mas uma convocação à conversão estrutural. O milagre continua vivo sempre que uma comunidade se recusa a despedir o outro de mãos vazias. O pão partido é o sacramento da presença de um Deus que se faz alimento para que ninguém pereça no caminho. A mesa está posta no meio do deserto; cabe a nós o gesto corajoso de fazer sentar o povo e distribuir a vida.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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