Diferente da primeira multiplicação (Mc 6), que ocorre em solo judaico, este relato situa Jesus em território majoritariamente pagão (a Decápole). Isso amplia radicalmente o horizonte da missão: o Reino não é um banquete exclusivo, mas uma mesa estendida a todas as gentes. O "chão duro" mencionado não é apenas físico, mas simbólico — é o chão do estrangeiro, do excluído, daquele que a tradição muitas vezes julgou indigno do "pão dos filhos".
O texto insere-se na seção de Marcos (6,30–8,26) marcada por um contraste agudo:
- A Cristofania do Cuidado: Jesus, movido por uma compaixão visceral (esplanchnizomai), antecipa a necessidade da multidão. Nele, a divindade se manifesta como responsabilidade pelo outro.
- A Cegueira dos Discípulos: Paradoxalmente, aqueles que caminham com o Mestre sofrem de uma "lentidão espiritual". Mesmo após terem visto cestos sobrarem anteriormente, eles repetem a pergunta da escassez: "Como poderá alguém saciá-los de pão aqui no deserto?"
A Galileia do século I vivia sob o peso do Império Romano. O sistema tributário incluía impostos sobre terras (tributum soli), sobre pessoas (tributum capitis) e taxas indiretas. Herodes Antipas administrava a região com forte pressão fiscal. A concentração fundiária aumentava, pequenos proprietários tornavam-se arrendatários ou trabalhadores sem terra. A arqueologia e a ciência histórica confirmam esse empobrecimento progressivo. A fome era estrutural. Quando Jesus declara: “Tenho compaixão desta multidão” (Mc 8,2), o verbo grego splagchnízomai indica comoção visceral, movimento das entranhas. Não é sentimento superficial; é envolvimento radical. Cumpre-se a revelação de Êxodo 3,7: Deus vê, ouve e desce para libertar. A compaixão em Marcos não é emoção isolada; é ação transformadora.
Os discípulos perguntam: “Onde alguém poderia saciá-los de pão aqui no deserto?” (Mc 8,4). A pergunta ecoa a murmuração de Israel diante da ausência de maná (Ex 16,2-3; Nm 11,4-6). Mesmo tendo testemunhado a multiplicação anterior (Mc 6,30-44), revelam dificuldade em integrar a experiência. Marcos desenvolverá essa incompreensão em Mc 8,17-21, questionando a dureza de coração. Psicologicamente, o medo da escassez obscurece a memória da graça. Sociologicamente, sociedades marcadas por crises constantes desenvolvem mentalidade de sobrevivência. Filosoficamente, o deserto representa o limite da autossuficiência humana. Jesus desloca o foco da impossibilidade para a responsabilidade: “Quantos pães tendes?” (Mc 8,5). O Reino começa com o reconhecimento do pouco disponível.
O gesto de tomar, dar graças, partir e entregar (Mc 8,6) constitui núcleo sacramental que atravessa os Evangelhos. Marcos antecipa a última ceia (Mc 14,22); Lucas retoma o gesto (Lc 22,19; 24,30); João o interpreta cristologicamente em Jo 6,35 ao apresentar Jesus como “o Pão da Vida”. A Eucaristia não pode ser desvinculada da justiça. Paulo denuncia a incoerência de celebrar enquanto irmãos passam fome (1Cor 11,21-29). A mesa do Senhor exige mesa compartilhada na história. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium (n. 11), recorda que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã; mas se é fonte, deve irrigar a prática concreta.
Os sete pães e os sete cestos recolhidos (Mc 8,5.8) evocam plenitude e universalidade (Gn 2,2-3). Diferentemente dos doze cestos da primeira multiplicação, aqui a simbologia aponta para abrangência além das doze tribos. Mateus 15,32-39 confirma essa dimensão inclusiva. Alguns exegetas associam o número sete às nações mencionadas em Deuteronômio 7,1, sugerindo que o sinal ultrapassa Israel. O banquete no deserto antecipa Isaías 25,6, onde Deus prepara mesa para todos os povos. A universalidade do pão confronta exclusivismos religiosos e nacionalismos contemporâneos.
O texto integra corpo e espírito. “Nem só de pão vive o ser humano” (Dt 8,3; Mt 4,4), mas a ausência de pão fere a dignidade. Tiago 2,15-16 afirma que palavras piedosas sem ação concreta são vazias. A antropologia reconhece que a refeição compartilhada funda pertencimento; a sociologia demonstra que sociedades mais igualitárias apresentam maior coesão social. A partilha gera capital social; a acumulação gera fragmentação. O medo sustenta a retenção; a confiança sustenta a comunhão.
No Império Romano, o pão podia ser instrumento político — “pão e circo” como mecanismo de apaziguamento. A distribuição controlada mantinha dependência. Jesus subverte essa lógica: o alimento não é favor do poderoso, mas fruto de partilha comunitária. A Doutrina Social da Igreja reafirma a destinação universal dos bens (Gaudium et Spes, 69; Populorum Progressio, 22). O que é partilhado torna-se suficiente. A multiplicação não legitima enriquecimento individual; denuncia desigualdade estrutural.
Se faz necessário saber que o milagre não associa fé a acúmulo. Jesus não multiplica para formar elite próspera, mas para saciar todos. “Guardai-vos de toda avareza” (Lc 12,15). A tentação de transformar fé em técnica de sucesso ecoa a proposta do tentador: “Se és Filho de Deus…” (Mt 4,3). A fé não é mercadoria; o templo não é mercado (Mc 11,15-17). A teologia do domínio, que instrumentaliza o nome de Deus para projetos de poder, encontra limite no Cristo que afirma: “Quem quiser ser o primeiro seja servo” (Mc 10,44). O Reino não cresce por imposição, mas por serviço.
Jesus entrega o pão aos discípulos para que distribuam (Mc 8,6). Ele não monopoliza o gesto, como alguns ministros religioso reclamam pra si a sua condição de consgrado para função de status. Lumen Gentium (n. 9-12) recorda que todo o Povo de Deus participa da missão. Estruturas eclesiais que concentram poder e se distanciam da realidade concreta contradizem o dinamismo do Evangelho. Evangelii Gaudium (n. 198) insiste que a opção pelos pobres é categoria teológica. A Igreja que não escuta o clamor dos famintos perde credibilidade.
Em um mundo capaz de produzir alimento suficiente, milhões permanecem em insegurança alimentar. Amós 5,11 denuncia sistemas que esmagam o pobre e exigem tributo de trigo. Hoje, desigualdades globais revelam contradições semelhantes. A escassez é frequentemente fabricada por concentração de renda e especulação. A multiplicação dos pães denuncia essa lógica e propõe economia da partilha.
Os estudos sobre comportamento em contextos de escassez mostram que o medo reduz capacidade de cooperação. Jesus rompe essa espiral ao gerar confiança. Filosoficamente, o texto questiona o individualismo que absolutiza o sujeito isolado. A saciedade nasce da comunhão. A antropologia cultural confirma que comunidades tradicionais sobrevivem pela reciprocidade. O Evangelho converge com essa sabedoria ancestral.
Na realidade o banquete no deserto antecipa o banquete definitivo (Ap 19,9). Antes da confissão de Pedro (Mc 8,27-30) e do anúncio da cruz (Mc 8,31), Marcos apresenta um Messias que alimenta e serve. Reconhecer Jesus como Cristo implica aceitar sua lógica de entrega. O pão repartido prepara o caminho da cruz, onde a vida é oferecida “por muitos” (Mc 10,45).
A perícope encerra-se com o envio silencioso (Mc 8,10). Jesus parte, mas deixa comunidade transformada. O milagre não cria dependência; desperta responsabilidade. A pergunta “Quantos pães tendes?” continua a ecoar nas periferias urbanas, nos campos de refugiados, nas comunidades rurais esquecidas. Jovens sem horizonte, trabalhadores precarizados, idosos invisibilizados experimentam o risco de desfalecer pelo caminho e a Boa Nova manifesta-se quando compaixão se torna prática concreta. Isaías 35,1 anuncia que o deserto floresce; Marcos mostra o início desse florescimento. A fé autêntica reconhece-se pelo pão repartido e pela dignidade restaurada. Celebrar a Eucaristia implica comprometer-se com o pão cotidiano. A multiplicação dos pães permanece critério permanente para discernir autenticidade da fé.
Entre o deserto e a abundância, entre a carência e a comunhão, a Palavra proclamada neste 5⁰ sábado do Tempo Comum permanece viva e inquieta. O deserto deixa de ser um lugar de morte para se tornar o palco de uma nova economia: a teologia do "ter compaixão". Ela denuncia a indiferença que normaliza a fome e confronta sistemas excludentes que transformam o pão em mercadoria e a vida em estatística. A Palavra nos lembra que o deserto não é apenas geográfico, mas o vácuo de solidariedade criado por corações que acumulam enquanto multidões desfalecem pelo caminho. O Reino começa quando mãos se abrem e o "pouco" é entregue sem reservas. O milagre não é um espetáculo de mágica, mas a resistência de comunidades que escolhem partilhar o que têm, acreditando que, na lógica de Deus, o que se divide, multiplica.
- Abertura: O pão que sacia o corpo não é um fim em si mesmo; ele é o sinal de que o espírito se iluminou para a fraternidade.
- Encarnação: Revela que Deus não é um observador indiferente à história; Ele sente as entranhas se comoverem diante da necessidade humana.
- Envio: Ele atravessa a nossa realidade, transforma a nossa escassez em banquete e nos envia como "distribuidores" dessa esperança.


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