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sábado, 10 de outubro de 2026

Um novo olhar sobre Mateus 22,1-14 / 28⁰ domingo do Tempo Comum.

O evangelho de Mateus 22,1-14 é proclamado no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A e, na forma integral, na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum  do ciclo ferial  da Igreja Católica Romano; em algumas celebrações, pode-se usar a forma breve Mateus 22,1-10.  E  28⁰ domingo do Tempo Comum  onde temos a seguinte liturgia:  Isaías 25,6-10a, Salmo 22(23), Filipenses 4,12-14.19-20 e Mateus 22,1-14.  A liturgia apresenta uma unidade teológica profunda: A Palavra não nos convida a contemplar uma festa distante da realidade, mas a discernir como Deus confronta nossas prioridades, nossas estruturas sociais e nossas formas de viver a religião. O banquete prometido torna-se critério para avaliar a sociedade e a própria Igreja: onde a vida é desprezada, o pão negado e a dignidade negociada, a lógica do Reino permanece contraditada.

  • Isaías 25,6-10a;  anuncia um banquete preparado por Deus para todos os povos; o profeta contempla o Senhor preparando, no monte, uma refeição abundante para todos os povos. O horizonte é universal, pois a promessa ultrapassa as fronteiras de Israel e anuncia a derrota da morte, a remoção do véu que cobre as nações e o enxugamento das lágrimas. No contexto das ameaças, das fragilidades coletivas e da esperança de restauração, a imagem do banquete expressa comunhão, abundância e vida reconciliada. Deus não se limita a oferecer consolo interior aos que sofrem; promete enfrentar aquilo que destrói a existência humana. O texto encontra sua ressonância no Apocalipse 21,4, onde não haverá mais morte, luto, grito ou dor. Entretanto, a esperança escatológica não deve servir de desculpa para a indiferença presente. Se Deus promete enxugar lágrimas, os que se reconhecem como seu povo não podem produzir sofrimento por meio da exploração, da discriminação ou do abandono. A promessa futura denuncia o presente quando este transforma a miséria em destino inevitável.
  • O Salmo 22(23), proclama a confiança no Pastor que sustenta a vida mesmo diante dos adversários por  e  apresenta o Senhor como pastor que conduz às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha o fiel pelo vale escuro. A imagem não descreve uma existência protegida de toda ameaça, mas uma confiança que resiste mesmo quando o caminho atravessa a insegurança. O gesto de preparar uma mesa diante dos adversários revela que a comunhão com Deus não depende do desaparecimento imediato dos conflitos. A unção com óleo e o cálice transbordante evocam hospitalidade, honra e abundância. Essa imagem ganha profundidade quando relacionada a Ezequiel 34,1-16, passagem na qual Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, abandonam as ovelhas frágeis e negligenciam as feridas do rebanho. A metáfora possui consequências éticas: toda autoridade que deveria proteger a vida e, em vez disso, utiliza pessoas para preservar seus próprios privilégios contradiz a imagem do Pastor. Na sociedade contemporânea, essa denúncia alcança tanto dirigentes políticos quanto lideranças religiosas que prometem cuidado, mas se afastam daqueles que mais necessitam de proteção.
  •  Filipenses 4,12-14.19-20, Paulo testemunha uma fé capaz de atravessar a abundância e a necessidade, reconhecendo a solidariedade recebida e  recorda que aprendeu a viver na abundância e na necessidade, na fartura e na privação. Sua confiança em Deus não significa desprezo pelas condições materiais nem defesa de uma espiritualidade indiferente à pobreza. O apóstolo agradece a solidariedade dos filipenses, que participaram concretamente de suas dificuldades. O contexto da carta mostra uma comunidade cuja contribuição material representa comunhão efetiva na missão. A providência divina, portanto, não deve ser transformada em justificativa para a omissão humana. Deus sustenta a vida também por meio de comunidades que partilham recursos, assumem responsabilidades e não abandonam seus membros.
Essas leituras prepara a compreensão de Mateus 22,1-14: a festa do Reino é iniciativa divina, mas sua realidade histórica depende de respostas que expressem acolhimento, generosidade e transformação. Isaías anuncia a mesa universal, o salmo apresenta o Pastor que sustenta, Paulo testemunha a solidariedade e Jesus questiona aqueles que recebem o convite sem compreender sua exigência. Para interpretar a parábola, é necessário considerar o contexto narrativo que a antecede. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém, confronta práticas realizadas no templo, questiona as autoridades e conta as parábolas dos dois filhos e dos vinhateiros homicidas (Mt 21,28-46). Essas narrativas examinam a distância entre declarar obediência a Deus e praticar sua vontade. A parábola das bodas continua esse conflito, denunciando a resistência daqueles que, embora ocupem posições de proximidade religiosa, rejeitam o chamado que ameaça seus interesses. Essa crítica pertence ao ambiente judaico do qual Jesus participa. Ele é judeu, interpreta as Escrituras de Israel e dialoga com suas tradições proféticas. Por isso, seria histórica e teologicamente irresponsável utilizar a passagem para condenar coletivamente o povo judeu. O antijudaísmo desenvolvido ao longo da história cristã demonstra como uma interpretação descontextualizada pode converter uma crítica dirigida a agentes e estruturas concretas em instrumento de perseguição. A Palavra precisa julgar também os cristãos, especialmente quando suas instituições confundem eleição com superioridade e autoridade com privilégio.

No mundo do primeiro século, as bodas constituíam acontecimentos familiares e comunitários importantes, envolvendo hospitalidade, honra pública, relações sociais e celebração coletiva. A figura do rei intensifica a gravidade da narrativa: desprezar seu convite ultrapassa o simples esquecimento de um compromisso e assume o significado de rejeitar uma relação. Os primeiros convidados, porém, não demonstram interesse. Um segue para o campo, outro para seus negócios, enquanto outros agarram, maltratam e matam os mensageiros. A sequência apresenta diferentes graus de resistência, desde a indiferença até a violência. A propriedade e as ocupações cotidianas não são condenadas em si mesmas; o problema aparece quando os interesses particulares se tornam absolutos e anulam qualquer responsabilidade diante da comunidade. A recusa recorda a tradição dos profetas perseguidos, como em Jeremias 7,25-26 e 2 Crônicas 36,15-16. A história bíblica revela repetidamente que a religião pode conservar suas estruturas enquanto rejeita a voz que exige justiça. O perigo não está apenas em abandonar formalmente a fé, mas em utilizá-la para evitar suas consequências. Quando os primeiros convidados recusam o chamado, o rei envia os servos às encruzilhadas e ordena que convidem todos os que encontrarem, bons e maus. A sala se enche, e a festa adquire um alcance inesperado. A imagem expressa a gratuidade da graça: o acesso ao Reino não depende de genealogia, reputação, riqueza ou credenciais religiosas. Jesus já havia comido com publicanos e pecadores, provocando questionamentos sobre sua prática de acolhimento (Mt 9,10-13). Em Lucas 15,1-2, a proximidade de Jesus com pessoas socialmente desprezadas também provoca murmurações. A mesa torna-se lugar de contestação das fronteiras que determinam quem merece pertencer. Entretanto, acolhimento não significa declarar irrelevantes a justiça e a conversão. A graça alcança a pessoa antes de qualquer pretensão de merecimento, mas abre um caminho de transformação. Uma comunidade não pode proclamar que todos são convidados enquanto humilha os pobres, silencia vítimas, discrimina minorias ou trata os diferentes como ameaças à própria segurança.

A cidade incendiada em Mateus 22,7 pode ser compreendida como uma possível ressonância da destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, acontecimento decisivo para a memória judaica e para o ambiente histórico em que o Evangelho de Mateus tomou forma. Essa interpretação é plausível, mas não autoriza estabelecer correspondências automáticas entre cada elemento da parábola e acontecimentos específicos. Tampouco permite converter a narrativa em legitimação religiosa da guerra. A linguagem do juízo expressa a seriedade da rejeição e a convicção de que a violência possui consequências históricas e morais. Entretanto, precisa ser lida em diálogo com o conjunto do Evangelho. Jesus manda amar os inimigos e rezar pelos perseguidores (Mt 5,44), repreende a lógica da vingança e adverte contra a violência como caminho de fidelidade. O juízo de Deus não concede aos discípulos autorização para perseguir pessoas em nome de uma suposta pureza religiosa. Sua função profética é desmascarar o mal, defender as vítimas e afirmar que nenhuma estrutura humana permanece acima da responsabilidade ética.

A chegada do homem sem veste nupcial introduz uma tensão decisiva. Ele foi encontrado nas ruas, recebeu o convite e entrou na sala, mas sua presença não corresponde ao significado da celebração. O texto não explica como a veste deveria ser adquirida; portanto, não é adequado apresentar como certeza uma reconstrução histórica que a narrativa não fornece. Na tradição cristã, a roupa pode simbolizar conversão, fidelidade, justiça e vida renovada pela graça. Paulo fala de revestir-se de Cristo (Gl 3,27) e do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade (Ef 4,24). Isaías 61,10 relaciona as vestes à salvação e à justiça. O símbolo não deve ser utilizado para exigir que os pobres comprovem merecimento antes de serem acolhidos. A veste não é um uniforme de superioridade, mas a expressão de uma existência transformada. Entrar na festa sem assumir sua lógica significa desejar os benefícios da comunhão sem aceitar as responsabilidades que ela produz.

A advertência encontra paralelo em:

  •  Mateus 7,21, quando Jesus afirma que não basta dizer “Senhor, Senhor”, mas é necessário fazer a vontade do Pai. 
  •  Mateus 12,33, a árvore é reconhecida por seus frutos.
A fé cristã não se reduz à identificação institucional, à frequência sacramental ou à exibição pública de símbolos religiosos. Esses elementos possuem significado quando alimentam uma prática coerente com o Evangelho. Se alguém comunga e continua explorando trabalhadores, se proclama a defesa da família enquanto pratica a violência doméstica, se fala em valores cristãos enquanto dissemina mentiras e desprezo, existe uma contradição entre a profissão religiosa e a vida concreta. Isso não significa que a conversão seja instantânea ou que a comunidade deva exigir perfeição absoluta. Significa reconhecer que a graça inaugura um processo real, no qual a pessoa aprende a abandonar práticas desumanizadoras e a construir relações orientadas pela misericórdia, pela verdade e pela justiça. O paralelo com Lucas 14,15-24 ilumina diferenças importantes entre as tradições evangélicas. Lucas apresenta um homem que oferece uma grande ceia e encontra desculpas relacionadas a propriedades, trabalho e casamento. O anfitrião ordena que sejam chamados pobres, aleijados, cegos e coxos; depois, o convite alcança pessoas encontradas pelos caminhos e cercas. Mateus, por sua vez, situa a festa no conflito de Jesus com as autoridades de Jerusalém, identifica o anfitrião como rei, apresenta as bodas do filho, descreve a violência contra os mensageiros e acrescenta o convidado sem veste nupcial. As duas versões compartilham a rejeição do convite e a ampliação do acolhimento, mas desenvolvem ênfases teológicas próprias. Marcos 12,1-12, embora não narre um casamento, apresenta a parábola dos vinhateiros homicidas, que também rejeitam os enviados e culmina na rejeição do filho. Esses paralelos mostram que a tradição de Jesus denuncia a resistência à vontade divina e questiona a pretensão de transformar a proximidade religiosa em garantia de fidelidade.

A frase “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22,14) deve ser interpretada à luz de toda a narrativa, não como uma fórmula destinada a alimentar medo ou especulação sobre o número dos salvos. O convite é amplo, mas não elimina a liberdade nem torna indiferente a resposta humana. João Batista exige frutos dignos de conversão (Mt 3,8), e Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos que produz (Mt 7,16-20). A eleição bíblica representa responsabilidade, não privilégio. Ser chamado significa participar de uma missão que deve produzir sinais concretos do Reino. A comunidade cristã é convocada a testemunhar misericórdia, reconciliação, verdade e justiça. Não pode reivindicar para si a aprovação divina enquanto ignora os sofrimentos que poderia aliviar. A advertência da parábola não apresenta Deus como alguém que procura arbitrariamente motivos para excluir, mas revela a incompatibilidade entre a comunhão oferecida e uma existência que persiste em rejeitar suas exigências. A  mensagem confronta as desigualdades da sociedade contemporânea. Quando a alimentação, a moradia, a saúde, a educação e a segurança permanecem inacessíveis para parcelas da população, a dignidade humana é subordinada a condições econômicas e sociais que nem todos conseguem superar individualmente. A imagem do banquete questiona uma organização social na qual o desperdício convive com a fome e a riqueza se concentra enquanto milhões enfrentam insegurança material. A parábola não oferece, isoladamente, um programa econômico detalhado, mas estabelece um horizonte ético: nenhuma estrutura pode ser considerada justa quando trata o sofrimento evitável como consequência aceitável do funcionamento normal da sociedade. A responsabilidade cristã exige caridade organizada, defesa dos direitos, políticas públicas responsáveis e participação cidadã. Dar alimento a quem tem fome é indispensável, mas também é necessário perguntar por que a fome persiste, quem suporta seus efeitos e quais decisões poderiam transformar suas causas. A compaixão não substitui a justiça; deve impulsioná-la.

A mesma exigência alcança a política e o exercício da autoridade. Em Ezequiel 34, Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, não fortalecem as ovelhas debilitadas e não procuram as perdidas. A crítica ultrapassa o campo religioso e ilumina qualquer poder que transforma a função pública em instrumento de enriquecimento, perseguição ou autopreservação. Autoridade legítima não se mede pela capacidade de intimidar adversários, mas pela responsabilidade com a vida coletiva, pela transparência e pela proteção dos vulneráveis. A fé cristã não deve ser sequestrada por partidos, governantes ou projetos ideológicos que se apresentam como proprietários exclusivos da verdade. Quando a linguagem religiosa é usada para desumanizar opositores, justificar violência ou silenciar denúncias de injustiça, o nome de Deus passa a funcionar como instrumento de poder. A consciência cristã precisa examinar propostas, decisões e consequências concretas à luz da dignidade humana, sem transformar o Evangelho em propaganda eleitoral nem confundir fidelidade religiosa com obediência cega a lideranças políticas. A manipulação religiosa também aparece quando dirigentes apresentam interesses particulares como vontade incontestável de Deus, retiram versículos de seu contexto ou exigem dos fiéis uma submissão que eles próprios não praticam. Jesus denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros sem disposição para carregá-los (Mt 23,4) e critica a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade em favor de uma religiosidade exterior (Mt 23,23). A teologia da prosperidade distorce a imagem do banquete quando transforma a graça em transação e faz da contribuição financeira uma suposta garantia de bênçãos. O individualismo religioso reduz a salvação ao conforto privado e esquece que a mesa é lugar de comunhão. A Eucaristia, memorial da entrega de Cristo, perde sua força testemunhal quando a celebração não se traduz em compromisso com os corpos feridos pela fome, pelo racismo, pela violência e pela exclusão, a  liturgia não é uma fuga da história, mas uma escola de responsabilidade diante dela.  Uma comunidade eclesial fiel precisa garantir participação, transparência, cuidado com as vítimas, formação crítica e acolhimento efetivo. Precisa examinar as relações de poder que silenciam pessoas, os mecanismos que protegem abusadores e as formas de clericalismo que tratam os leigos como espectadores sem voz. A autoridade pastoral deve servir à comunhão, não estabelecer uma casta acima do povo de Deus. Como recorda 1 Coríntios 13,1-3, até os dons mais extraordinários perdem seu sentido quando falta o amor.

 E preciso  ter a consciência que a  conversão, contudo, não começa apenas  instituições; alcança também os desejos, os medos e as escolhas cotidianas. O apego ao status pode levar uma pessoa a defender uma ordem injusta porque dela recebe segurança, reconhecimento ou vantagem. O medo da mudança pode tornar mais confortável a permanência em estruturas conhecidas, mesmo quando elas produzem sofrimento. Reconhecer esses mecanismos não significa retirar a responsabilidade individual, mas compreender que a transformação exige consciência, coragem e apoio comunitário. Cada pessoa precisa perguntar quais interesses se tornaram desculpas para ignorar o sofrimento alheio, quais preconceitos orientam seus julgamentos e quais privilégios prefere proteger. A conversão cristã não consiste em cultivar culpa sem saída, mas em permitir que a verdade desmonte as justificativas que impedem uma vida mais justa. O perdão não apaga a responsabilidade; abre a possibilidade de reparar danos, reconstruir relações e interromper a repetição da violência. Essa transformação exige atenção especial aos grupos frequentemente empurrados para as margens. Migrantes não podem ser reduzidos a ameaças, pessoas negras não devem continuar submetidas à discriminação, mulheres não podem ter sua voz silenciada, povos originários precisam ter seus territórios e direitos respeitados, e pessoas LGBTQIA+ não devem ser transformadas em alvos de humilhação. Uma comunidade cristã não precisa abandonar suas convicções para reconhecer a humanidade e a dignidade de cada pessoa. Precisa, antes, examinar se suas palavras e práticas correspondem ao mandamento de amar o próximo e à afirmação de que todo ser humano merece respeito. O convite às encruzilhadas não é uma estratégia para aumentar números ou conquistar influência institucional. É uma convocação a encontrar pessoas reais, escutar suas histórias e construir relações nas quais ninguém seja tratado como descartável. A acolhida evangélica não é tolerância condescendente, mas reconhecimento da dignidade e da participação de todos na vida comum.

A parábola, finalmente, reúne a gratuidade do convite e a seriedade da resposta para nossa  conclusão. 

  • Isaías anuncia a vitória de Deus sobre a morte e o fim das lágrimas; o salmista testemunha a presença do Pastor nos vales escuros.
  • Paulo reconhece a solidariedade que sustenta a missão
  • Jesus proclama uma festa aberta e questiona a possibilidade de participar dela sem se deixar transformar. 
 A liturgia da Palavra  desse  dia não descrevem dimensões isoladas da fé, mas uma única dinâmica de esperança, comunhão e responsabilidade. A providência não legitima a passividade, a eleição não concede superioridade e a graça não transforma a injustiça em algo irrelevante. O Reino começa a ser reconhecido quando o pão é partilhado, a verdade vence a manipulação, a autoridade protege em vez de explorar e a comunidade abandona a indiferença diante dos que sofrem.  O convite está feito, mas não basta admirar a festa de longe, repetir suas palavras ou ocupar um lugar à mesa. É necessário permitir que a graça transforme a maneira como trabalhamos, consumimos, votamos, celebramos, educamos, acolhemos e exercemos nossas responsabilidades. A veste nupcial representa essa coerência possível entre a fé professada e a vida praticada, entre a comunhão celebrada e a justiça construída. A Igreja será sinal do banquete prometido quando deixar de proteger privilégios, enfrentar suas próprias contradições e caminhar com os que foram feridos pela exclusão. O mundo reconhecerá a força do Evangelho não pela ostentação dos templos nem pela proximidade entre púlpitos e palácios, mas pelos frutos de uma comunidade que serve, partilha, denuncia o mal e promove a reconciliação. Deus prepara a mesa e chama os povos; cabe a nós responder com uma vida que não contradiga a festa. A esperança cristã não nos autoriza a esperar passivamente por outro mundo, mas nos compromete a trabalhar, desde agora, para que a dignidade, a justiça e a misericórdia tenham lugar concreto na história.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Um outro olha sobre Mateus 6,1-6.16-18 / Quarta-feira de Cinzas

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas inaugura o tempo sagrado da Quaresma com um chamado que atravessa a superfície da religiosidade e alcança o coração. As leituras de Joel 2,12-18; Salmo 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17;  II Coríntios 5,20–6,2; Mateus 6,1-6.16-18 compõem uma única convocação: voltar ao Senhor com verdade. Não se trata de um rito externo nem de uma tradição repetida por costume, mas de um movimento interior que envolve mente, afetos, escolhas e estruturas de vida.

A cinza na fronte proclama que somos frágeis, mas também anuncia que somos chamados à transformação.  A memória da finitude purifica os delírios de grandeza e nos devolve ao essencial. Diante de Deus não há máscaras que resistam. O tempo da Quaresma começa assim, com um gesto simples e radical. Um sinal visível de uma decisão invisível. Um convite a deixar cair as aparências para que nasça, no silêncio do coração, uma vida reconciliada com Deus e comprometida com a fraternidade concreta. 

Neste caminho quaresmal, a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).  que nos recorda que conversão nunca é apenas individual. A espiritualidade bíblica é inseparável da responsabilidade social. 

  • Jejuar sem justiça é hipocrisia.
  •  Orar sem compromisso com os que sofrem é ilusão. 
  • Oferecer esmola sem rever estruturas que geram exclusão é paliativo.

 A Quaresma nos chama a uma fé encarnada, capaz de enfrentar as desigualdades, as violências e as formas de religião vazia que anestesiam a consciência.

Quando Mateus 6,1-6.16-18 ressoa na assembleia, não é apenas um texto proclamado: é lâmina que atravessa intenções, desnuda motivações e expõe o coração. Ele ecoa de modo emblemático na Quarta-feira de Cinzas e retorna na 11ª semana do Tempo Comum, como se a pedagogia divina insistisse que a conversão não é estação litúrgica, mas estado permanente da alma. A mesma Palavra que inaugura o deserto acompanha o cotidiano; a mesma exigência que abre a Quaresma vigia o Tempo Comum. Não há pausa para a autenticidade.  O risco da hipocrisia não é sazonal. Ele ronda toda experiência religiosa, infiltra-se nas práticas mais nobres e pode vestir-se de piedade. Jesus, inserido no Sermão da Montanha (Mt 5–7), concretiza a justiça superior anunciada em Mt 5,20. Não é formalismo legal; é fidelidade ao querer do Pai. Quando Ele adverte: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos”, O problema não é a esmola, a oração ou o jejum; é o palco interior que transforma o sagrado em performance.

A tríade proposta por Jesus:  esmola, oração e jejum,  já era central no judaísmo do Segundo Templo. Tobias 12,8-9 afirma que oração, jejum e esmola são boas quando acompanhadas de justiça. O jejum marcava o Dia da Expiação (Lv 16); a oração estruturava as horas (Sl 55,18; Dn 6,11); a tzedaká expressava justiça social. Jesus não rompe com essa tradição; leva-a à plenitude (Mt 5,17). Interioriza-a radicalmente. Não abole o rito; liberta-o da vaidade.  Os símbolos do texto revelam profundidade espiritual. O quarto fechado  evoca intimidade. Fechar a porta significa interromper o fluxo da aprovação social. O Pai-Nosso, ensinado no plural, impede individualismo; mas a oração exibicionista é desmascarada. O rosto desfigurado dos que jejuam para parecer piedosos contrasta com a unção e a lavagem do rosto. A unção, na Escritura, é sinal de alegria (Sl 23,5; Is 61,3). O jejum cristão não é espetáculo de tristeza, mas disciplina orientada para Deus. 

É nesse horizonte que o Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18 se torna decisivo. Jesus denuncia a prática religiosa feita para ser vista. A esmola, a oração e o jejum, pilares da espiritualidade judaica do século I, são recolocados no lugar da autenticidade. O Pai vê no segredo. O critério não é a visibilidade social, mas a verdade interior. A crítica de Jesus não é contra a prática religiosa em si, mas contra o coração dividido que transforma o sagrado em espetáculo e o pobre em vitrine. 

A liturgia oferece a chave hermenêutica desse Evangelho já em Joel 2,12-18. O profeta ergue a voz em meio a uma crise nacional devastadora. Uma praga de gafanhotos, símbolo de juízo e colapso econômico, atingira o povo. Campos arrasados, fome, culto interrompido. Nesse contexto histórico concreto, a tentação era preservar aparências religiosas enquanto a justiça permanecia negligenciada. Joel proclama: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12). O verbo hebraico shuv indica retorno radical, mudança de direção existencial. E insiste: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”. No contexto histórico de uma crise nacional marcada por calamidade e devastação, o apelo não é teatral, mas existencial. A conversão pedida é integral, pessoal e comunitária. O pecado, na perspectiva bíblica, não é apenas falha individual, mas ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra. Por isso, o retorno precisa ser concreto, visível na justiça, na misericórdia e na reconstrução da vida social.  Rasgar as vestes era gesto tradicional de luto. Rasgar o coração é ruptura interior. É abandonar cumplicidades com o pecado estrutural. É desinstalar-se de práticas que sustentam desigualdades. O profeta convoca jejum, assembleia solene, choro sacerdotal entre o vestíbulo e o altar (Jl 2,17), mas deixa claro: o gesto exterior só tem sentido se for expressão de interioridade dilacerada. A tradição profética ecoa essa denúncia: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13); “Aprendei a fazer o bem, buscai o direito” (Is 1,17); “Corra o direito como água” (Am 5,24).

O Salmo 50(51) aprofunda essa experiência. Associado ao arrependimento de Davi após sua queda (cf. 2Sm 12), revela que o pecado é ruptura relacional antes de ser infração jurídica: “Contra vós pequei” (Sl 51,6). A súplica “Criai em mim um coração puro” (Sl 51,12) utiliza o verbo bara’, o mesmo de Gn 1,1, indicando recriação. Conversão não é retoque moral; é nova criação. A antropologia bíblica é lúcida: o mal brota do interior (Mc 7,21-23). Por isso, antes de qualquer promessa de ação, a assembleia repete: “Tende piedade”. O reconhecimento da própria miséria precede qualquer prática religiosa.  O Salmo dá voz à consciência que reconhece sua própria verdade. “Criai em mim um coração que seja puro”. A tradição sapiencial de Israel compreende o coração como centro das decisões. Converter-se é permitir que Deus recrie esse centro. Não é autopunição, é recriação. A cinza que recebemos não é sinal de condenação, mas de lucidez. Recorda “Tu és pó e ao pó voltarás” como em Gênesis 3,19, não para humilhar, mas para libertar da ilusão de autossuficiência que alimenta idolatrias modernas, inclusive aquelas que se travestem de poder religioso ou político

Paulo, em 2Cor 5,20–6,2, amplia o horizonte: “Reconciliai-vos com Deus… é agora o tempo favorável”. O apóstolo fala como embaixador. O termo katallagē indica restauração de vínculos rompidos. Não se trata de experiência intimista, mas de nova criação (2Cor 5,17). O kairos não admite adiamentos. A Quaresma não é dramatização anual do arrependimento; é ocasião concreta de decisão histórica. A graça precede o esforço, mas exige resposta. A reconciliação não é fuga do mundo, mas compromisso com ele. Na antropologia paulina, o ser humano é chamado a viver uma nova criação inaugurada em Cristo. Essa novidade não combina com espiritualidade de aparência nem com fé usada como instrumento de dominação ou autopromoção.

A Palestina do século I  onde Jesus  andou, vivia sob a lógica de honra e vergonha. A visibilidade pública era capital simbólico. A sociologia ajuda a compreender como o campo religioso pode produzir distinção e poder. O capital religioso converte-se facilmente em capital político. Jesus desmonta esse mecanismo. Sua crítica não atinge apenas indivíduos, mas estruturas que transformam o sagrado em instrumento de legitimação.  O narcisismo é  traço cultural na atualidade   sendo amplificado pelas redes sociais. A espiritualidade pode tornar-se extensão do ego. Constrói-se persona piedosa para ocultar fragilidades. Quando a esmola vira autopromoção, perde sua essência. Quando a oração se transforma em demonstração pública de poder, deixa de ser encontro. O Pai que vê no secreto desmonta o narcisismo religioso.

Tanto o primeiro  como o segundo Testamento  mantém unidade entre culto e justiça. Isaías 58 declara que o jejum autêntico é libertar o oprimido e acolher o pobre sem abrigo (Is 58,7). Amós 5 rejeita cânticos sem retidão. Mateus 25 recorda que o julgamento final se dá pela solidariedade concreta aos pequenos. O segredo não exclui compromisso social; purifica sua intenção. A interioridade gera responsabilidade histórica.

Nesse horizonte, a Quaresma encontra expressão concreta na Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O verbo grego eskēnōsen indica que Deus armou sua tenda entre os homens, evocando a presença no deserto (Ex 25,8). A Encarnação revela um Deus que escolhe proximidade. Se Deus habita nossa precariedade, a falta de moradia digna torna-se ferida teológica.

A moradia é mais que construção física. É espaço de identidade, pertencimento, memória e proteção. Antropologicamente, estrutura vínculos; psicologicamente, oferece segurança. Sua ausência expõe à violência e à invisibilidade. Defender moradia digna é defender a vida integral. No Ano Jubilar (Lv 25), a terra era devolvida para restaurar justiça social. A comunidade primitiva testemunhava que “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). A fé bíblica não legitima desigualdade nem naturaliza exclusão.

Na realidade brasileiro contemporâneo, marcado por polarizações e instrumentalização da religião, Mateus 6 permanece denúncia profética. Jejuns convocados como marketing ideológico, orações transmitidas como demonstração de força, caridades exibidas para construir imagem pública: já receberam sua recompensa. O Evangelho não legitima exclusão; coloca o pobre no centro. A fé que se alia a projetos de poder e abandona o Crucificado trai sua origem. Quando o ministro se coloca no centro e obscurece o serviço, contradiz o modelo do Bom Pastor (Jo 10,11). “O maior entre vós seja servo” (Mt 23,11). A Igreja é Povo de Deus (cf. Lumen Gentium 9). Conversão atinge estruturas eclesiais. A Quaresma é ocasião de exame comunitário, não apenas individual.

Assim, Joel convoca retorno; o Salmo suplica recriação; Paulo proclama reconciliação; Mateus purifica intenções; João anuncia Encarnação; Isaías exige justiça; Atos testemunha partilha. A Escritura inteira converge para um ponto: Deus deseja verdade no íntimo e justiça nas relações. A Quaresma não inaugura medo, mas verdade. Convida a rasgar o coração, não as vestes; a abandonar o palco e entrar no silêncio; a deixar que o Pai, que vê no secreto, molde a vida.

A Quarta-feira de Cinzas nos conduz ao coração do Evangelho: não a uma religião de vitrine, mas a uma fé que se deixa purificar no segredo. Em Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18, Jesus desmonta a espiritualidade performática e denuncia a busca por aplausos. Esmola, oração e jejum não são instrumentos de autopromoção, mas caminhos de conversão que só fazem sentido quando brotam de um coração reconciliado com Deus e comprometido com os irmãos.

A cinza imposta na liturgia  de hoje recorda finitude e possibilidade. É símbolo de limite e de esperança. O pó não é sentença final; é matéria que Deus pode recriar. O Reino cresce como semente oculta (Mc 4,26-29). A conversão começa no segredo, mas transborda na história. O quarto fechado conduz à praça pública transformada.

Quando Deus arma sua tenda entre nós, ecoa o mistério da Encarnação. Ele não legitima desigualdades; Ele se aproxima das periferias da história. O Deus bíblico não habita palácios de vaidade, mas caminha com o povo no deserto, escuta o clamor do oprimido e toma partido da vida ameaçada, como vemos em Êxodo 3,7-8. Por isso, a fé autêntica ajoelha-se no quarto fechado e levanta-se para transformar a realidade concreta. Não há verdadeira oração que não deságue em justiça; não há jejum agradável a Deus que ignore a fome do pobre, como denuncia Isaías 58,6-7.

A Campanha da Fraternidade 2026 nos provoca a sair do ritualismo estéril e a assumir um compromisso histórico. Conversão não é encenação litúrgica, é mudança de mentalidade e de prática. É rever estilos de vida, estruturas que produzem exclusão e discursos religiosos que abençoam privilégios enquanto silenciam diante da miséria. A cinza que hoje toca nossa fronte não é maquiagem espiritual; é memória da nossa fragilidade e chamado à responsabilidade. Somos pó, mas pó chamado a amar, a servir e a reconstruir vínculos.

Olhando  para o tema não  tem como não  recorda  os três  T do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, ele retoma o coração da tradição bíblica e da Doutrina Social da Igreja. Não se trata de retórica política, mas de Evangelho encarnado na história. Desde o Gênesi.

  •  Terra aparece como dom confiado ao cuidado humano Gn 2,15 e promessa destinada a um povo que não pode viver na escravidão permanente Ex 3,7-8. A concentração injusta da terra já era denunciada pelos profetas Is 5,8, porque a fé bíblica nunca separou culto e justiça.
  • Trabalho participa da obra criadora de Deus Gn 2,3. Ele dignifica, sustenta e integra a pessoa na comunidade. Quando o salário é retido ou a exploração se torna regra, a Escritura fala com clareza Tg 5,4. O descanso sabático Ex 20,8-11 revela que ninguém é máquina produtiva. A economia que sacrifica pessoas em nome do lucro contradiz a lógica do Reino.
  • Teto, tema que ganha força na reflexão da Campanha da Fraternidade 2026 com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), toca o núcleo da dignidade humana. A casa é espaço de proteção, identidade e memória. Em Êxodo 12 a salvação passa pela porta marcada do lar. Em Josué 24,15 a fé envolve toda a casa. Em Atos 2,46 a Igreja nasce nas casas. Quando Jesus afirma que não tem onde reclinar a cabeça Lc 9,58, ele se identifica com os que vivem na precariedade. Em Mateus 25,35 o critério do juízo inclui acolher quem não tem abrigo.

A antropologia mostra que o lar estrutura vínculos e segurança emocional. A psicologia confirma que a ausência de moradia estável gera rupturas profundas na subjetividade. A sociologia evidencia que a exclusão habitacional amplia violência e desigualdade. Não se pode falar de fraternidade ignorando famílias empurradas para periferias sem infraestrutura ou vivendo sob marquises enquanto imóveis permanecem vazios por especulação. A tradição profética insiste que o jejum agradável a Deus inclui repartir o pão e recolher em casa os pobres sem abrigo Is 58,7. Não é símbolo, é prática concreta. A fé que se contenta com discursos morais e se cala diante da injustiça estrutural torna-se religião vazia. Terra, teto e trabalho formam um tripé inseparável da dignidade. Onde falta teto, ali o Evangelho convoca a comunidade cristã a ser sinal de justiça, presença e transformação histórica.

Num tempo marcado por polarizações, indiferença social e tentativas de instrumentalizar a fé para projetos de poder, o Evangelho nos devolve ao essencial. O Pai que vê no segredo também vê o que fazemos, ou deixamos de fazer, pelos pequenos, como recorda Mateus 25,31-46. Não basta repetir práticas devocionais; é preciso encarnar a misericórdia. A oração que agrada a Deus é aquela que nos desinstala. O jejum que Ele acolhe é o que rompe com o egoísmo. A esmola que Ele reconhece é a que restitui dignidade, não a que perpetua dependências.

Se Deus armou sua tenda entre nós, somos chamados a construir uma sociedade onde ninguém seja descartado, onde ninguém viva sem teto, sem chão, sem lugar. A conversão quaresmal é também social e pública, porque toca as estruturas que ferem a vida. É compromisso com a justiça, com a verdade e com a fraternidade concreta.

O tempo é favorável. Não para aparências, mas para decisões. Não para discursos inflamados, mas para coerência. Não para uma religião de fachada, mas para um discipulado que une contemplação e ação. Que a cinza nos lembre quem somos; que o Evangelho nos recorde para quem vivemos; e que a fraternidade se torne prática cotidiana.

Conversão não é teatro. É caminho. É escolha diária. É compromisso com Deus que se prova no amor ao próximo. O resto é aparência que o vento leva.

DNonato - Teólogo do Cotidiano