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sábado, 10 de outubro de 2026

Um novo olhar sobre Mateus 22,1-14 / 28⁰ domingo do Tempo Comum.

O evangelho de Mateus 22,1-14 é proclamado no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A e, na forma integral, na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum  do ciclo ferial  da Igreja Católica Romano; em algumas celebrações, pode-se usar a forma breve Mateus 22,1-10.  E  28⁰ domingo do Tempo Comum  onde temos a seguinte liturgia:  Isaías 25,6-10a, Salmo 22(23), Filipenses 4,12-14.19-20 e Mateus 22,1-14.  A liturgia apresenta uma unidade teológica profunda: A Palavra não nos convida a contemplar uma festa distante da realidade, mas a discernir como Deus confronta nossas prioridades, nossas estruturas sociais e nossas formas de viver a religião. O banquete prometido torna-se critério para avaliar a sociedade e a própria Igreja: onde a vida é desprezada, o pão negado e a dignidade negociada, a lógica do Reino permanece contraditada.

  • Isaías 25,6-10a;  anuncia um banquete preparado por Deus para todos os povos; o profeta contempla o Senhor preparando, no monte, uma refeição abundante para todos os povos. O horizonte é universal, pois a promessa ultrapassa as fronteiras de Israel e anuncia a derrota da morte, a remoção do véu que cobre as nações e o enxugamento das lágrimas. No contexto das ameaças, das fragilidades coletivas e da esperança de restauração, a imagem do banquete expressa comunhão, abundância e vida reconciliada. Deus não se limita a oferecer consolo interior aos que sofrem; promete enfrentar aquilo que destrói a existência humana. O texto encontra sua ressonância no Apocalipse 21,4, onde não haverá mais morte, luto, grito ou dor. Entretanto, a esperança escatológica não deve servir de desculpa para a indiferença presente. Se Deus promete enxugar lágrimas, os que se reconhecem como seu povo não podem produzir sofrimento por meio da exploração, da discriminação ou do abandono. A promessa futura denuncia o presente quando este transforma a miséria em destino inevitável.
  • O Salmo 22(23), proclama a confiança no Pastor que sustenta a vida mesmo diante dos adversários por  e  apresenta o Senhor como pastor que conduz às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha o fiel pelo vale escuro. A imagem não descreve uma existência protegida de toda ameaça, mas uma confiança que resiste mesmo quando o caminho atravessa a insegurança. O gesto de preparar uma mesa diante dos adversários revela que a comunhão com Deus não depende do desaparecimento imediato dos conflitos. A unção com óleo e o cálice transbordante evocam hospitalidade, honra e abundância. Essa imagem ganha profundidade quando relacionada a Ezequiel 34,1-16, passagem na qual Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, abandonam as ovelhas frágeis e negligenciam as feridas do rebanho. A metáfora possui consequências éticas: toda autoridade que deveria proteger a vida e, em vez disso, utiliza pessoas para preservar seus próprios privilégios contradiz a imagem do Pastor. Na sociedade contemporânea, essa denúncia alcança tanto dirigentes políticos quanto lideranças religiosas que prometem cuidado, mas se afastam daqueles que mais necessitam de proteção.
  •  Filipenses 4,12-14.19-20, Paulo testemunha uma fé capaz de atravessar a abundância e a necessidade, reconhecendo a solidariedade recebida e  recorda que aprendeu a viver na abundância e na necessidade, na fartura e na privação. Sua confiança em Deus não significa desprezo pelas condições materiais nem defesa de uma espiritualidade indiferente à pobreza. O apóstolo agradece a solidariedade dos filipenses, que participaram concretamente de suas dificuldades. O contexto da carta mostra uma comunidade cuja contribuição material representa comunhão efetiva na missão. A providência divina, portanto, não deve ser transformada em justificativa para a omissão humana. Deus sustenta a vida também por meio de comunidades que partilham recursos, assumem responsabilidades e não abandonam seus membros.
Essas leituras prepara a compreensão de Mateus 22,1-14: a festa do Reino é iniciativa divina, mas sua realidade histórica depende de respostas que expressem acolhimento, generosidade e transformação. Isaías anuncia a mesa universal, o salmo apresenta o Pastor que sustenta, Paulo testemunha a solidariedade e Jesus questiona aqueles que recebem o convite sem compreender sua exigência. Para interpretar a parábola, é necessário considerar o contexto narrativo que a antecede. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém, confronta práticas realizadas no templo, questiona as autoridades e conta as parábolas dos dois filhos e dos vinhateiros homicidas (Mt 21,28-46). Essas narrativas examinam a distância entre declarar obediência a Deus e praticar sua vontade. A parábola das bodas continua esse conflito, denunciando a resistência daqueles que, embora ocupem posições de proximidade religiosa, rejeitam o chamado que ameaça seus interesses. Essa crítica pertence ao ambiente judaico do qual Jesus participa. Ele é judeu, interpreta as Escrituras de Israel e dialoga com suas tradições proféticas. Por isso, seria histórica e teologicamente irresponsável utilizar a passagem para condenar coletivamente o povo judeu. O antijudaísmo desenvolvido ao longo da história cristã demonstra como uma interpretação descontextualizada pode converter uma crítica dirigida a agentes e estruturas concretas em instrumento de perseguição. A Palavra precisa julgar também os cristãos, especialmente quando suas instituições confundem eleição com superioridade e autoridade com privilégio.

No mundo do primeiro século, as bodas constituíam acontecimentos familiares e comunitários importantes, envolvendo hospitalidade, honra pública, relações sociais e celebração coletiva. A figura do rei intensifica a gravidade da narrativa: desprezar seu convite ultrapassa o simples esquecimento de um compromisso e assume o significado de rejeitar uma relação. Os primeiros convidados, porém, não demonstram interesse. Um segue para o campo, outro para seus negócios, enquanto outros agarram, maltratam e matam os mensageiros. A sequência apresenta diferentes graus de resistência, desde a indiferença até a violência. A propriedade e as ocupações cotidianas não são condenadas em si mesmas; o problema aparece quando os interesses particulares se tornam absolutos e anulam qualquer responsabilidade diante da comunidade. A recusa recorda a tradição dos profetas perseguidos, como em Jeremias 7,25-26 e 2 Crônicas 36,15-16. A história bíblica revela repetidamente que a religião pode conservar suas estruturas enquanto rejeita a voz que exige justiça. O perigo não está apenas em abandonar formalmente a fé, mas em utilizá-la para evitar suas consequências. Quando os primeiros convidados recusam o chamado, o rei envia os servos às encruzilhadas e ordena que convidem todos os que encontrarem, bons e maus. A sala se enche, e a festa adquire um alcance inesperado. A imagem expressa a gratuidade da graça: o acesso ao Reino não depende de genealogia, reputação, riqueza ou credenciais religiosas. Jesus já havia comido com publicanos e pecadores, provocando questionamentos sobre sua prática de acolhimento (Mt 9,10-13). Em Lucas 15,1-2, a proximidade de Jesus com pessoas socialmente desprezadas também provoca murmurações. A mesa torna-se lugar de contestação das fronteiras que determinam quem merece pertencer. Entretanto, acolhimento não significa declarar irrelevantes a justiça e a conversão. A graça alcança a pessoa antes de qualquer pretensão de merecimento, mas abre um caminho de transformação. Uma comunidade não pode proclamar que todos são convidados enquanto humilha os pobres, silencia vítimas, discrimina minorias ou trata os diferentes como ameaças à própria segurança.

A cidade incendiada em Mateus 22,7 pode ser compreendida como uma possível ressonância da destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, acontecimento decisivo para a memória judaica e para o ambiente histórico em que o Evangelho de Mateus tomou forma. Essa interpretação é plausível, mas não autoriza estabelecer correspondências automáticas entre cada elemento da parábola e acontecimentos específicos. Tampouco permite converter a narrativa em legitimação religiosa da guerra. A linguagem do juízo expressa a seriedade da rejeição e a convicção de que a violência possui consequências históricas e morais. Entretanto, precisa ser lida em diálogo com o conjunto do Evangelho. Jesus manda amar os inimigos e rezar pelos perseguidores (Mt 5,44), repreende a lógica da vingança e adverte contra a violência como caminho de fidelidade. O juízo de Deus não concede aos discípulos autorização para perseguir pessoas em nome de uma suposta pureza religiosa. Sua função profética é desmascarar o mal, defender as vítimas e afirmar que nenhuma estrutura humana permanece acima da responsabilidade ética.

A chegada do homem sem veste nupcial introduz uma tensão decisiva. Ele foi encontrado nas ruas, recebeu o convite e entrou na sala, mas sua presença não corresponde ao significado da celebração. O texto não explica como a veste deveria ser adquirida; portanto, não é adequado apresentar como certeza uma reconstrução histórica que a narrativa não fornece. Na tradição cristã, a roupa pode simbolizar conversão, fidelidade, justiça e vida renovada pela graça. Paulo fala de revestir-se de Cristo (Gl 3,27) e do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade (Ef 4,24). Isaías 61,10 relaciona as vestes à salvação e à justiça. O símbolo não deve ser utilizado para exigir que os pobres comprovem merecimento antes de serem acolhidos. A veste não é um uniforme de superioridade, mas a expressão de uma existência transformada. Entrar na festa sem assumir sua lógica significa desejar os benefícios da comunhão sem aceitar as responsabilidades que ela produz.

A advertência encontra paralelo em:

  •  Mateus 7,21, quando Jesus afirma que não basta dizer “Senhor, Senhor”, mas é necessário fazer a vontade do Pai. 
  •  Mateus 12,33, a árvore é reconhecida por seus frutos.
A fé cristã não se reduz à identificação institucional, à frequência sacramental ou à exibição pública de símbolos religiosos. Esses elementos possuem significado quando alimentam uma prática coerente com o Evangelho. Se alguém comunga e continua explorando trabalhadores, se proclama a defesa da família enquanto pratica a violência doméstica, se fala em valores cristãos enquanto dissemina mentiras e desprezo, existe uma contradição entre a profissão religiosa e a vida concreta. Isso não significa que a conversão seja instantânea ou que a comunidade deva exigir perfeição absoluta. Significa reconhecer que a graça inaugura um processo real, no qual a pessoa aprende a abandonar práticas desumanizadoras e a construir relações orientadas pela misericórdia, pela verdade e pela justiça. O paralelo com Lucas 14,15-24 ilumina diferenças importantes entre as tradições evangélicas. Lucas apresenta um homem que oferece uma grande ceia e encontra desculpas relacionadas a propriedades, trabalho e casamento. O anfitrião ordena que sejam chamados pobres, aleijados, cegos e coxos; depois, o convite alcança pessoas encontradas pelos caminhos e cercas. Mateus, por sua vez, situa a festa no conflito de Jesus com as autoridades de Jerusalém, identifica o anfitrião como rei, apresenta as bodas do filho, descreve a violência contra os mensageiros e acrescenta o convidado sem veste nupcial. As duas versões compartilham a rejeição do convite e a ampliação do acolhimento, mas desenvolvem ênfases teológicas próprias. Marcos 12,1-12, embora não narre um casamento, apresenta a parábola dos vinhateiros homicidas, que também rejeitam os enviados e culmina na rejeição do filho. Esses paralelos mostram que a tradição de Jesus denuncia a resistência à vontade divina e questiona a pretensão de transformar a proximidade religiosa em garantia de fidelidade.

A frase “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22,14) deve ser interpretada à luz de toda a narrativa, não como uma fórmula destinada a alimentar medo ou especulação sobre o número dos salvos. O convite é amplo, mas não elimina a liberdade nem torna indiferente a resposta humana. João Batista exige frutos dignos de conversão (Mt 3,8), e Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos que produz (Mt 7,16-20). A eleição bíblica representa responsabilidade, não privilégio. Ser chamado significa participar de uma missão que deve produzir sinais concretos do Reino. A comunidade cristã é convocada a testemunhar misericórdia, reconciliação, verdade e justiça. Não pode reivindicar para si a aprovação divina enquanto ignora os sofrimentos que poderia aliviar. A advertência da parábola não apresenta Deus como alguém que procura arbitrariamente motivos para excluir, mas revela a incompatibilidade entre a comunhão oferecida e uma existência que persiste em rejeitar suas exigências. A  mensagem confronta as desigualdades da sociedade contemporânea. Quando a alimentação, a moradia, a saúde, a educação e a segurança permanecem inacessíveis para parcelas da população, a dignidade humana é subordinada a condições econômicas e sociais que nem todos conseguem superar individualmente. A imagem do banquete questiona uma organização social na qual o desperdício convive com a fome e a riqueza se concentra enquanto milhões enfrentam insegurança material. A parábola não oferece, isoladamente, um programa econômico detalhado, mas estabelece um horizonte ético: nenhuma estrutura pode ser considerada justa quando trata o sofrimento evitável como consequência aceitável do funcionamento normal da sociedade. A responsabilidade cristã exige caridade organizada, defesa dos direitos, políticas públicas responsáveis e participação cidadã. Dar alimento a quem tem fome é indispensável, mas também é necessário perguntar por que a fome persiste, quem suporta seus efeitos e quais decisões poderiam transformar suas causas. A compaixão não substitui a justiça; deve impulsioná-la.

A mesma exigência alcança a política e o exercício da autoridade. Em Ezequiel 34, Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, não fortalecem as ovelhas debilitadas e não procuram as perdidas. A crítica ultrapassa o campo religioso e ilumina qualquer poder que transforma a função pública em instrumento de enriquecimento, perseguição ou autopreservação. Autoridade legítima não se mede pela capacidade de intimidar adversários, mas pela responsabilidade com a vida coletiva, pela transparência e pela proteção dos vulneráveis. A fé cristã não deve ser sequestrada por partidos, governantes ou projetos ideológicos que se apresentam como proprietários exclusivos da verdade. Quando a linguagem religiosa é usada para desumanizar opositores, justificar violência ou silenciar denúncias de injustiça, o nome de Deus passa a funcionar como instrumento de poder. A consciência cristã precisa examinar propostas, decisões e consequências concretas à luz da dignidade humana, sem transformar o Evangelho em propaganda eleitoral nem confundir fidelidade religiosa com obediência cega a lideranças políticas. A manipulação religiosa também aparece quando dirigentes apresentam interesses particulares como vontade incontestável de Deus, retiram versículos de seu contexto ou exigem dos fiéis uma submissão que eles próprios não praticam. Jesus denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros sem disposição para carregá-los (Mt 23,4) e critica a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade em favor de uma religiosidade exterior (Mt 23,23). A teologia da prosperidade distorce a imagem do banquete quando transforma a graça em transação e faz da contribuição financeira uma suposta garantia de bênçãos. O individualismo religioso reduz a salvação ao conforto privado e esquece que a mesa é lugar de comunhão. A Eucaristia, memorial da entrega de Cristo, perde sua força testemunhal quando a celebração não se traduz em compromisso com os corpos feridos pela fome, pelo racismo, pela violência e pela exclusão, a  liturgia não é uma fuga da história, mas uma escola de responsabilidade diante dela.  Uma comunidade eclesial fiel precisa garantir participação, transparência, cuidado com as vítimas, formação crítica e acolhimento efetivo. Precisa examinar as relações de poder que silenciam pessoas, os mecanismos que protegem abusadores e as formas de clericalismo que tratam os leigos como espectadores sem voz. A autoridade pastoral deve servir à comunhão, não estabelecer uma casta acima do povo de Deus. Como recorda 1 Coríntios 13,1-3, até os dons mais extraordinários perdem seu sentido quando falta o amor.

 E preciso  ter a consciência que a  conversão, contudo, não começa apenas  instituições; alcança também os desejos, os medos e as escolhas cotidianas. O apego ao status pode levar uma pessoa a defender uma ordem injusta porque dela recebe segurança, reconhecimento ou vantagem. O medo da mudança pode tornar mais confortável a permanência em estruturas conhecidas, mesmo quando elas produzem sofrimento. Reconhecer esses mecanismos não significa retirar a responsabilidade individual, mas compreender que a transformação exige consciência, coragem e apoio comunitário. Cada pessoa precisa perguntar quais interesses se tornaram desculpas para ignorar o sofrimento alheio, quais preconceitos orientam seus julgamentos e quais privilégios prefere proteger. A conversão cristã não consiste em cultivar culpa sem saída, mas em permitir que a verdade desmonte as justificativas que impedem uma vida mais justa. O perdão não apaga a responsabilidade; abre a possibilidade de reparar danos, reconstruir relações e interromper a repetição da violência. Essa transformação exige atenção especial aos grupos frequentemente empurrados para as margens. Migrantes não podem ser reduzidos a ameaças, pessoas negras não devem continuar submetidas à discriminação, mulheres não podem ter sua voz silenciada, povos originários precisam ter seus territórios e direitos respeitados, e pessoas LGBTQIA+ não devem ser transformadas em alvos de humilhação. Uma comunidade cristã não precisa abandonar suas convicções para reconhecer a humanidade e a dignidade de cada pessoa. Precisa, antes, examinar se suas palavras e práticas correspondem ao mandamento de amar o próximo e à afirmação de que todo ser humano merece respeito. O convite às encruzilhadas não é uma estratégia para aumentar números ou conquistar influência institucional. É uma convocação a encontrar pessoas reais, escutar suas histórias e construir relações nas quais ninguém seja tratado como descartável. A acolhida evangélica não é tolerância condescendente, mas reconhecimento da dignidade e da participação de todos na vida comum.

A parábola, finalmente, reúne a gratuidade do convite e a seriedade da resposta para nossa  conclusão. 

  • Isaías anuncia a vitória de Deus sobre a morte e o fim das lágrimas; o salmista testemunha a presença do Pastor nos vales escuros.
  • Paulo reconhece a solidariedade que sustenta a missão
  • Jesus proclama uma festa aberta e questiona a possibilidade de participar dela sem se deixar transformar. 
 A liturgia da Palavra  desse  dia não descrevem dimensões isoladas da fé, mas uma única dinâmica de esperança, comunhão e responsabilidade. A providência não legitima a passividade, a eleição não concede superioridade e a graça não transforma a injustiça em algo irrelevante. O Reino começa a ser reconhecido quando o pão é partilhado, a verdade vence a manipulação, a autoridade protege em vez de explorar e a comunidade abandona a indiferença diante dos que sofrem.  O convite está feito, mas não basta admirar a festa de longe, repetir suas palavras ou ocupar um lugar à mesa. É necessário permitir que a graça transforme a maneira como trabalhamos, consumimos, votamos, celebramos, educamos, acolhemos e exercemos nossas responsabilidades. A veste nupcial representa essa coerência possível entre a fé professada e a vida praticada, entre a comunhão celebrada e a justiça construída. A Igreja será sinal do banquete prometido quando deixar de proteger privilégios, enfrentar suas próprias contradições e caminhar com os que foram feridos pela exclusão. O mundo reconhecerá a força do Evangelho não pela ostentação dos templos nem pela proximidade entre púlpitos e palácios, mas pelos frutos de uma comunidade que serve, partilha, denuncia o mal e promove a reconciliação. Deus prepara a mesa e chama os povos; cabe a nós responder com uma vida que não contradiga a festa. A esperança cristã não nos autoriza a esperar passivamente por outro mundo, mas nos compromete a trabalhar, desde agora, para que a dignidade, a justiça e a misericórdia tenham lugar concreto na história.
DNonato - Teólogo do Cotidiano