No 30⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana reúne Êxodo 22,20-26, o Salmo 17(18), 1Tessalonicenses 1,5c-10 e Mateus 22,34-40 numa unidade teológica que impede separar a experiência de Deus da responsabilidade pela vida humana.
- Êxodo 22,20-26: proíbe oprimir o estrangeiro, prejudicar a viúva e o órfão e explorar o pobre, enquanto o salmo apresenta o Senhor como rochedo, fortaleza e libertador daqueles que clamam por socorro.
- 1Tessalonicenses 1,5c-10: Paulo, por sua vez, recorda uma comunidade que acolheu o Evangelho em meio às tribulações e abandonou os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro.
No Evangelho de Mateus 22,34-40, Jesus reúne a Lei e os Profetas em dois mandamentos inseparáveis: amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento e amar o próximo como a si mesmo. A relação entre essas leituras revela que o Deus que escuta o clamor dos vulneráveis é o mesmo a quem se deve amar com a totalidade da existência, e esse amor precisa tornar-se reconhecível nas relações humanas. A celebração litúrgica, portanto, não oferece apenas ensinamentos espirituais, mas apresenta um critério para examinar a consciência, as instituições religiosas e as estruturas sociais que determinam quem pode viver com dignidade e quem permanece abandonado.
O Evangelho de Mateus 22,34-40 também aparece na sexta-feira da 20⁰ semana do Tempo Comum, e a temática volta na liturgia proclamada no Sábado da 9ª Semana do Tempo Comum e no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano B comMarcos 12,28-44 e Lucas 10,25-37, que desenvolve a questão do amor ao próximo por meio da parábola do samaritano, é proclamado na segunda-feira da 27ª semana do tempo comum e no 15⁰ domingo do tempo comum do Ano C. As Igrejas ortodoxas, anglicanas, luteranas e outras comunidades cristãs históricas também reconhecem a centralidadde desses mandamentos, embora seus calendários e lecionários apresentem distribuições próprias. A convergência entre essas tradições testemunha que o amor não constitui um tema secundário da espiritualidade cristã, mas um princípio fundamental para interpretar a Escritura e discernir a autenticidade do discipulado. A pergunta que atravessa esses textos permanece especialmente incômoda quando a religião fala constantemente de Deus, mas convive tranquilamente com a exclusão, a violência, a desigualdade e a indiferença diante do sofrimento humano.
Para compreender a resposta de Jesus, é necessário considerar o contexto histórico e narrativo sem reduzir o judaísmo do primeiro século a uma religião de formalismos vazios. A Torá contém numerosos mandamentos, e os mestres de Israel discutiam como compreender sua unidade e identificar os princípios centrais da vontade divina. A pergunta sobre o maior mandamento era legítima dentro dessa tradição interpretativa. Mateus, entretanto, situa o episódio numa sequência de confrontos em Jerusalém, depois da entrada de Jesus na cidade e de sua intervenção no Templo, quando denuncia sua transformação em espaço de exploração e evoca Isaías 56,7 e Jeremias 7,11 (Mt 21,12-13). Seguem-se as parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e do banquete nupcial, além das controvérsias sobre o imposto a César e a ressurreição dos mortos (Mt 21,28-22,33). Nesse ambiente de disputas, a pergunta sobre o maior mandamento ultrapassa uma discussão acadêmica: coloca em questão a autoridade de Jesus e o significado concreto da fidelidade a Deus.
Jerusalém era o centro religioso de Israel, lugar do Templo e das grandes peregrinações, mas também estava submetida ao domínio imperial romano. Os tributos, a concentração de terras, as desigualdades econômicas e as tensões políticas marcavam a existência cotidiana de grande parte da população. Durante a Páscoa, a memória da libertação do Egito adquiria particular intensidade, pois o povo celebrava sua história de emancipação enquanto vivia sob uma potência estrangeira. Nesse cenário, Jesus não oferece uma resposta que permita à religião refugiar-se numa espiritualidade indiferente aos conflitos sociais. Sua síntese da Lei e dos Profetas exige que a relação com Deus seja examinada à luz da maneira como as pessoas exercem o poder, tratam os pobres e respondem às necessidades daqueles que não dispõem de proteção. O amor não é uma abstração desligada da história, mas uma exigência que confronta os interesses estabelecidos e revela a distância entre a profissão religiosa e a prática cotidiana.
Jesus começa citando Deuteronômio 6,5, mandamento associado ao Shemá, a confissão fundamental de Israel:
- “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4-5).
Marcos conserva explicitamente essa introdução (Mc 12,29), recordando que a fé começa pela escuta. Na linguagem bíblica, ouvir não significa simplesmente receber sons, mas acolher uma palavra capaz de orientar decisões e transformar comportamentos. Amar a Deus com todo o coração significa comprometer al inteligência, a vontade, a memória e os afetos; amá-lo com toda a alma significa entregar-lhe a existência inteira; fazê-lo com todo o entendimento, como destaca Mateus, implica discernimento e responsabilidade intelectual. Uma fé que exige submissão cega, demoniza perguntas e transforma líderes em autoridades incontestáveis pode produzir conformidade exterior, mas não necessariamente fidelidade ao Deus vivo. Paulo recomenda que os cristãos examinem tudo e conservem o que é bom (1Ts 5,21), enquanto Romanos 12,2 apresenta a renovação da mente como condição para discernir a vontade divina. Num mundo marcado pela desinformação, pelas teorias conspiratórias e pela manipulação emocional, amar a Deus também significa recusar a mentira, investigar os fatos e não confundir convicções pessoais com revelações incontestáveis.
O segundo mandamento, retirado de Levítico 19,18, determina que se ame o próximo como a si mesmo. Jesus afirma que ele é semelhante ao primeiro, estabelecendo entre ambos uma relação inseparável (Mt 22,39). Não se trata de acrescentar uma obrigação social a uma espiritualidade que poderia existir independentemente dela, mas de reconhecer que o amor a Deus se torna visível nas relações humanas. A primeira carta de João expressa essa consequência com radicalidade: quem afirma amar a Deus, mas odeia o irmão, contradiz a própria confissão religiosa (1Jo 4,20). Essa afirmação não reduz Deus à humanidade; recorda que o Deus cristão se revelou na encarnação, fazendo-se presente na história humana em Jesus Cristo (Jo 1,14). Por isso, é profundamente contraditório venerar o Cristo encarnado e desprezar os corpos feridos pela fome, pela exploração, pelo racismo, pela guerra ou pela violência doméstica. A fé perde sua coerência quando proclama a dignidade de Deus, mas considera negociável a dignidade de pessoas concretas.
O contexto de Levítico torna ainda mais evidente a dimensão social desse mandamento. O mesmo capítulo que ordena amar o próximo proíbe a fraude, a exploração, a injustiça nos julgamentos e o ódio cultivado no coração (Lv 19,11-18). Mais adiante, determina que o estrangeiro residente seja tratado como um membro da comunidade e amado como a si mesmo (Lv 19,33-34). O próximo, portanto, não pode ser limitado àqueles que compartilham nossa nacionalidade, religião, classe social ou orientação política. A primeira leitura do domingo aprofunda essa exigência ao proibir a opressão do estrangeiro e a exploração da viúva e do órfão (Ex 22,20-26). Essas figuras representam pessoas particularmente vulneráveis numa sociedade em que o pertencimento familiar, a propriedade e as redes de proteção determinavam grande parte das possibilidades de sobrevivência. A legislação bíblica impede que a fragilidade alheia se transforme em oportunidade de enriquecimento e declara que Deus ouvirá o clamor dos oprimidos. Essa imagem remete à memória fundadora do Êxodo, quando o Senhor afirma ter visto a aflição do povo, ouvido seu grito e conhecido seus sofrimentos (Ex 3,7). O Deus bíblico não permanece indiferente diante da dor humana.
O Salmo 17(18) amplia essa perspectiva ao apresentar o Senhor como rochedo, fortaleza, libertador e abrigo. Essas imagens expressam a confiança de quem encontra sustentação quando a existência é ameaçada, mas também convocam a comunidade de fé a participar concretamente da proteção dos vulneráveis. Não basta cantar que Deus é refúgio para quem sofre se a própria comunidade permanece indiferente às pessoas que precisam de amparo. A oração litúrgica perde sua coerência quando os lábios proclamam a fidelidade divina, enquanto as mãos se fecham diante da fome, da violência e da injustiça. Os profetas já haviam denunciado essa separação entre culto e responsabilidade:
- Isaías exige que se aprenda a fazer o bem e se defenda o oprimido (Is 1,11-17).
- Amós proclama que o direito deve correr como água e a justiça como torrente permanente (Am 5,21-24).
- Miqueias resume a vontade de Deus na prática da justiça, no amor à misericórdia e numa caminhada humilde com o Senhor (Mq 6,8).
Jesus permanece nessa tradição quando denuncia a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade por parte de pessoas preocupadas com a aparência de observância religiosa (Mt 23,23). A carta aos Tessalonicenses acrescenta outra dimensão ao conjunto litúrgico ao falar da conversão dos ídolos para o serviço ao Deus vivo e verdadeiro (1Ts 1,9). A idolatria não se limita à adoração de imagens, pois também ocorre quando realidades humanas são transformadas em absolutos e passam a exigir lealdade acima da consciência e da dignidade alheia. O dinheiro torna-se ídolo quando o lucro vale mais que a vida; o poder, quando a autoridade se considera imune à crítica; a pátria, quando seus símbolos são colocados acima da dignidade de outros povos; e a segurança, quando serve para justificar qualquer forma de violência. Essa advertência ilumina criticamente expressões da extrema direita que mobilizam símbolos cristãos para proteger líderes, espalham medo, transformam minorias em inimigos e apresentam soluções autoritárias como se fossem exigências da fé. Não se deve confundir toda pessoa de direita com essas práticas, nem transformar o Evangelho em propriedade de qualquer partido. O critério cristão exige que toda ideologia seja julgada por seus frutos e por sua relação com a justiça, a verdade e a dignidade humana. Quando o pobre é acusado de sua própria miséria, o estrangeiro é tratado como ameaça e a violência é celebrada como demonstração de força, a religião corre o risco de servir a ídolos políticos em vez de testemunhar o Deus libertador.
Os relatos sinóticos iluminam diferentes dimensões dessa mesma exigência. Marcos 12,28-44, o escriba dialoga com Jesus e reconhece que amar a Deus e ao próximo vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios. Jesus lhe diz que não está longe do Reino de Deus (Mc 12,33-34), sem desprezar a tradição cultual de Israel, mas mostrando que nenhuma prática religiosa substitui a fidelidade à vontade divina. Mateus situa a resposta num ambiente mais conflituoso e conclui que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22,40). Lucas, por sua vez, desenvolve a questão mediante a parábola do samaritano, depois que um especialista pergunta quem é o próximo que deve amar (Lc 10,25-37). O sacerdote e o levita encontram o homem ferido e passam adiante, enquanto o samaritano, pertencente a um grupo frequentemente desprezado, aproxima-se, trata as feridas, providencia transporte e assume os custos do cuidado. Lucas desloca a discussão da definição teórica para a responsabilidade concreta: a pergunta decisiva não é apenas quem merece ser amado, mas se estamos dispostos a tornar-nos próximos de quem sofre.
A sequência de ações do samaritano revela a gramática prática do Evangelho. Ele vê o homem caído, permite que a situação o afete, aproxima-se e cuida de suas feridas, transformando a compaixão em responsabilidade. Essa narrativa confronta uma sociedade habituada a administrar a miséria sem questionar as estruturas que a produzem. Não basta sentir pena das pessoas que vivem nas ruas, dos migrantes, dos desempregados ou daqueles que sofrem dependência e exclusão; é necessário compreender as causas do abandono e construir respostas que protejam a dignidade humana. A compaixão não substitui a justiça pública, mas impede que a justiça se transforme numa burocracia indiferente. A justiça, por sua vez, amplia a compaixão ao procurar impedir que novas pessoas sejam submetidas às mesmas formas de sofrimento. A misericórdia cristã não significa impunidade nem negação da gravidade do mal. Significa responsabilizar quem causa danos, proteger as vítimas e recusar que a vingança seja a palavra definitiva sobre a existência humana. Quando Jesus afirma que deseja misericórdia e não sacrifício (Mt 9,13; 12,7; cf. Os 6,6), denuncia uma religiosidade que prefere condenar a abrir caminhos de transformação.
O amor anunciado por Jesus manifesta-se também na maneira como ele compreende a autoridade. A carta aos Filipenses apresenta Cristo que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e se entrega até a morte de cruz (Fl 2,5-8). A cruz, instrumento de execução utilizado pelo poder imperial, não pode ser legitimamente convertida em símbolo de superioridade, crueldade ou autorização para perseguir adversários. Jesus ensina que os governantes das nações dominam seus subordinados, mas declara que entre seus discípulos a lógica deve ser diferente, pois o maior é chamado a servir (Mt 20,25-28). Essa exigência confronta o clericalismo quando o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em controle e a preservação institucional se torna mais importante que a dignidade das pessoas. Uma Igreja fiel ao Evangelho não deve temer perguntas honestas, silenciar a participação dos leigos e das leigas nem proteger abusos para conservar prestígio. Sua autoridade precisa ser exercida como serviço, escuta e cuidado, reconhecendo que nenhuma instituição pode reivindicar fidelidade a Cristo enquanto abandona aqueles que necessitam de defesa.
A responsabilidade pelo próximo alcança igualmente a organização econômica e o cuidado da criação. Jesus adverte que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), denunciando a possibilidade de a riqueza ocupar o lugar da consciência. O problema não está no trabalho, nos bens ou na busca legítima de melhores condições de vida, mas numa ordem social que naturaliza a concentração excessiva enquanto milhões enfrentam insegurança alimentar, moradia precária e acesso insuficiente à saúde. A tradição social cristã, especialmente a partir de Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade, particularmente dos pobres e sofredores, também pertencem aos discípulos de Cristo. A opção preferencial pelos pobres, aprofundada na tradição latino-americana, não transforma o pobre em objeto de caridade ocasional, mas reconhece sua dignidade e seus direitos. Também a crise ecológica exige uma conversão coerente com o amor ao próximo, porque a destruição das florestas, das águas e das condições básicas de vida atinge primeiro as populações mais vulneráveis e compromete as gerações futuras. A humanidade recebe a responsabilidade de cultivar e guardar a criação (Gn 2,15), não de explorá-la sem limites em nome do lucro imediato. Diante dessas exigências, a conversão cristã precisa alcançar simultaneamente a consciência pessoal, a vida comunitária e as estruturas sociais. Cada pessoa deve perguntar se não construiu uma imagem de Deus que confirma seus preconceitos e protege seus privilégios; cada comunidade precisa examinar se oferece acolhimento, participação e cuidado ou se produz medo e silenciamento; e a sociedade deve questionar as relações econômicas e políticas que condenam determinadas populações ao abandono. A primeira carta de João torna essa responsabilidade incontornável ao perguntar como pode permanecer o amor de Deus naquele que possui bens, vê o irmão em necessidade e fecha o coração (1Jo 3,17). O amor não significa concordar com tudo, tolerar abusos ou abandonar a verdade, assim como a denúncia profética não precisa transformar o adversário em objeto de ódio. Jesus ama e confronta, acolhe e chama à conversão, denuncia a injustiça e protege a vida. A misericórdia impede que a justiça se reduza à vingança, enquanto a verdade impede que o amor se torne cumplicidade com o mal.
No fim, a pergunta sobre o maior mandamento já recebeu sua resposta, mas a responsabilidade de vivê-la permanece diante de cada geração. Podemos conhecer a Escritura e continuar indiferentes, participar da liturgia e permanecer incapazes de misericórdia, defender a ortodoxia e abandonar a justiça ou carregar símbolos religiosos enquanto colaboramos com estruturas que humilham pessoas. O escriba de Marcos reconheceu a centralidade do amor, mas o samaritano de Lucas demonstrou como esse reconhecimento se transforma em cuidado. É nesse intervalo entre saber e viver que a fé revela sua verdade. Por isso, a comunidade cristã precisa perguntar quem está sendo escutado, quem continua do lado de fora, quem tem medo de falar e quem procura Deus, mas encontra julgamento, burocracia ou indiferença. Sua grandeza não se mede pelo poder acumulado, mas pela capacidade de acolher, reconciliar, defender e transformar vidas. Quando a religião pronuncia o nome de Deus enquanto despreza a vida, conserva palavras sagradas, mas contradiz o coração da aliança. O Evangelho, porém, continua a ser proclamado nas ruas, nos hospitais, nas periferias e nas casas onde alguém sofre em silêncio, sempre que somos confrontados com a escolha entre passar adiante e aproximar-nos. Amar a Deus e amar o próximo não são tarefas concorrentes, mas um único movimento que se dirige ao mistério divino e se torna visível na história. Onde o amor assume a forma de justiça, misericórdia, serviço e defesa da dignidade humana, o Reino de Deus começa a nascer entre nós, e a pergunta que atravessa a Lei, os Profetas e a cruz permanece diante de nossa consciência: O que estamos fazendo com o amor que recebemos?
DNonato - Teólogo do Cotidiano.

