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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 13,18-21

Na liturgia da Igreja Católica Romana, Lucas 13,18-21 é proclamado na terça-feira da trigésima semana do Tempo Comum, integrando a leitura contínua do Evangelho, dando continuidade ao texto da segunda-feira Lucas 13, 10-17.  A proximidade dessas leituras permite contemplar o Reino de Deus como uma realidade que já atua na história, embora sua plenitude ainda não tenha sido alcançada. A parábola do grão de mostarda também aparece em Mateus 13,31-32 e Marcos 4,30-32, enquanto a parábola do fermento encontra paralelo em Mateus 13,33, além de Lucas 13,20-21. Nas tradições cristãs históricas, como as Igrejas Anglicana e Luterana, essas imagens igualmente integram a pregação e a reflexão bíblica, embora sua distribuição dependa dos respectivos lecionários. A convergência dessas tradições manifesta a importância de uma mensagem que atravessa os séculos e desafia continuamente a compreensão humana sobre a ação de Deus. Muitas vezes afirmamos que o Reino de Deus é sobrenatural, mas esperamos que sua manifestação aconteça por meio de acontecimentos extraordinários, demonstrações espetaculares de poder ou conquistas capazes de impressionar multidões. Essa expectativa revela uma contradição espiritual: confessamos a grandeza divina, mas continuamos avaliando sua presença segundo os critérios de grandeza estabelecidos pela sociedade. Associamos o êxito ao crescimento numérico, a autoridade à capacidade de impor decisões, a prosperidade à acumulação material e a importância de alguém à visibilidade que conquista. Jesus, entretanto, apresenta duas imagens que desestabilizam essa maneira de pensar. O Reino se parece com uma semente minúscula lançada à terra e com uma pequena quantidade de fermento incorporada à farinha. Em ambas, a desproporção entre o começo e o resultado revela uma lógica diferente daquela que governa nossas ambições. Deus não precisa reproduzir os mecanismos humanos de prestígio para transformar a história. Sua ação pode começar onde ninguém espera, amadurecer longe dos centros de poder e produzir frutos cuja grandeza não depende do reconhecimento imediato dos homens.

Essas parábolas exigem  atenção ao contexto narrativo que as precede. Em Lucas 13,10-17, Jesus ensina numa sinagoga durante o sábado e encontra uma mulher que sofria havia dezoito anos de uma enfermidade que a mantinha encurvada. Ao vê-la, chama-a, declara que está livre de sua enfermidade e impõe-lhe as mãos. Ela imediatamente se endireita e glorifica a Deus. O chefe da sinagoga, porém, indignado porque Jesus realizara a cura no sábado, dirige sua censura à multidão, afirmando que havia outros dias para trabalhar. Jesus responde denunciando a incoerência de uma interpretação religiosa que permite soltar um animal para lhe dar água, mas considera inadequado libertar uma filha de Abraão de seu sofrimento. A discussão não opõe simplesmente uma pessoa religiosa a outra irreligiosa, mas confronta duas maneiras de compreender a fidelidade a Deus. Uma protege a norma mesmo quando ela é utilizada contra a vida; a outra reconhece que a vontade divina deve conduzir à libertação e à restauração da dignidade humana. É nesse cenário que Jesus pergunta a que se assemelha o Reino de Deus. A posição das parábolas na narrativa não deve ser ignorada, porque o acontecimento anterior oferece uma chave decisiva para interpretar as imagens agrícolas e domésticas. O Reino que cresce como mostarda e transforma como fermento já se manifesta na cura daquela mulher, na recuperação de sua dignidade e na contestação de uma autoridade incapaz de reconhecer a misericórdia. O gesto de Jesus não elimina imediatamente todas as estruturas religiosas que produzem exclusão, mas revela que a transformação começa quando alguém interrompe a normalização do sofrimento e coloca a vida humana acima de interesses institucionais. A mulher, antes curvada, passa a permanecer de pé, enquanto os adversários de Jesus são confrontados com a necessidade de rever suas próprias convicções. Essa inversão demonstra que a verdadeira autoridade não se comprova pela capacidade de controlar os outros, mas pela disposição de contribuir para que recuperem a liberdade. O Reino não é uma ideia abstrata separada da realidade, pois sua presença se torna perceptível onde pessoas são libertadas de condições que diminuem sua humanidade.

O grão de mostarda pertence ao universo cotidiano dos agricultores da Palestina da época. Jesus não escolhe uma imagem distante da experiência dos seus ouvintes, mas um elemento conhecido por quem trabalhava a terra e dependia dos ritmos da natureza para sobreviver. A semente, aparentemente insignificante, contém uma possibilidade de crescimento que não pode ser deduzida apenas de sua dimensão inicial. Em Marcos 4,30-32, Jesus procura uma comparação adequada para comunicar o Reino e descreve a transformação da semente em uma planta capaz de oferecer abrigo às aves. Mateus 13,31-32 conserva a mesma relação entre pequenez inicial e desenvolvimento posterior, enquanto Lucas 13,18-19 apresenta a ação de um homem que planta a semente em sua horta. As diferenças redacionais são significativas, pois Marcos enfatiza a comparação e o desenvolvimento da planta, ao passo que Lucas incorpora a imagem à sequência de acontecimentos que acompanha a caminhada de Jesus em direção a Jerusalém. Em nenhum desses relatos, entretanto, o interesse principal consiste em oferecer uma explicação científica sobre a germinação. A finalidade é questionar os critérios pelos quais os seres humanos julgam antecipadamente o que pode ou não transformar a realidade. A linguagem sobre a menor das sementes deve ser compreendida dentro desse horizonte cultural, sem ser convertida numa afirmação botânica absoluta. Jesus utiliza uma comparação reconhecível por seus ouvintes para destacar a diferença entre o início e o resultado. O Reino não pode ser avaliado somente por aquilo que aparece imediatamente aos olhos, porque sua fecundidade ultrapassa a aparência do começo. Essa mensagem ganha força quando recordamos que o próprio ministério de Jesus não começou em um palácio, mas entre comunidades comuns, pessoas doentes, trabalhadores, mulheres marginalizadas e indivíduos frequentemente desprezados pelas autoridades. Em 1 Coríntios 1,26-29, Paulo desenvolve uma compreensão semelhante ao recordar que Deus escolhe aquilo que o mundo considera fraco e desprezível para desmascarar a arrogância dos poderosos. Não se trata de afirmar que a pobreza ou o sofrimento sejam desejáveis, mas de denunciar uma ordem social que transforma riqueza, influência e prestígio em critérios de valor humano. Deus não confirma essa hierarquia; revela sua insuficiência ao fazer nascer esperança onde os mecanismos dominantes enxergam apenas impotência.

A imagem das aves que encontram abrigo nos ramos amplia o horizonte da parábola lendo: 

  •  Ezequiel 17,22-24, Deus promete plantar um ramo que crescerá e oferecerá proteção às criaturas, utilizando a imagem vegetal para anunciar sua ação soberana.
  •  Ezequiel 31,6, uma árvore poderosa abriga aves e animais.
  • Daniel 4,10-12 apresenta uma árvore cuja grandeza alcança diferentes povos e seres vivos.

Essas imagens pertencem a contextos próprios, mas ajudam a compreender como a linguagem bíblica pode associar o crescimento de uma árvore à capacidade de proporcionar sustento e proteção. O Reino, portanto, não cresce para reproduzir a dominação dos impérios, mas para criar condições de acolhimento. Sua grandeza precisa ser avaliada pela vida que protege, pelas pessoas que recebe e pela segurança que oferece àqueles que não encontram abrigo nas estruturas sociais. Uma Igreja pode ampliar suas instalações e aumentar sua influência pública, mas, se não acolhe os feridos, não defende os vulneráveis e não promove a dignidade humana, seu crescimento exterior não demonstra, por si só, a presença do Reino.

A parábola do fermento apresenta uma segunda dimensão dessa transformação. Jesus compara o Reino a uma mulher que toma fermento e o mistura em três medidas de farinha, até que toda a massa fique fermentada. A imagem conduz a reflexão para o espaço doméstico, tradicionalmente associado à preparação dos alimentos e à sustentação cotidiana da família. A escolha da mulher não é um detalhe irrelevante, pois Jesus reconhece a experiência de uma pessoa cujo trabalho, embora indispensável à vida comunitária, frequentemente permanecia invisível nas estruturas públicas de prestígio. O fermento exerce sua função sem ocupar o centro da atenção, penetrando a massa e modificando suas propriedades. Sua ação não depende de uma demonstração exterior de força, mas de sua capacidade de atuar no interior daquilo com que entra em contato. Em Gênesis 18,6, Sara prepara três medidas de farinha para receber visitantes, revelando como essa quantidade podia estar associada à hospitalidade e à preparação abundante de alimento. Embora não devamos impor uma equivalência simbólica rígida entre as duas passagens, a referência ajuda a perceber que a imagem de Lucas evoca uma transformação que alcança uma quantidade significativa de massa e, consequentemente, a preparação do alimento necessário à vida.

A comparação com o fermento não significa que toda transformação silenciosa seja automaticamente justa, nem que o Reino possa ser reduzido à influência invisível de indivíduos isolados. O símbolo deve ser interpretado conforme sua função narrativa. Em Lucas 13,21, o fermento representa uma força transformadora que alcança a totalidade da massa. Em Lucas 12,1, porém, Jesus utiliza o fermento dos fariseus como imagem da hipocrisia, e em Mateus 16,6 adverte os discípulos contra o fermento dos fariseus e dos saduceus, relacionando a imagem aos seus ensinamentos. Em 1 Coríntios 5,6-8, Paulo recorre ao mesmo símbolo para advertir contra a influência do mal na comunidade. A diversidade desses usos demonstra que uma interpretação responsável não deve atribuir significado idêntico a todas as ocorrências de uma imagem bíblica. O contexto determina sua função. Na parábola de Lucas, a questão decisiva é a capacidade de uma pequena quantidade transformar o conjunto, permitindo compreender que a ação de Deus não precisa começar por aquilo que domina a atenção pública, mas pode penetrar gradualmente as relações humanas e produzir mudanças profundas.

O contexto histórico da Palestina ajuda a compreender a força social dessa mensagem. Sob o domínio romano, as populações locais conviviam com tributação, desigualdade econômica, tensões políticas e relações de poder que afetavam diretamente a sobrevivência das famílias. A agricultura constituía uma atividade fundamental, mas a vida dos trabalhadores dependia das condições da terra, das colheitas e das obrigações econômicas. Nesse ambiente, a expectativa do Reino de Deus estava relacionada a esperanças de justiça, restauração e libertação, embora diferentes grupos religiosos interpretassem essas esperanças de maneiras distintas. Jesus não apresenta nessas parábolas um programa administrativo detalhado, tampouco reduz a transformação histórica a uma insurreição armada. Entretanto, seria igualmente equivocado transformar seu anúncio em uma espiritualidade indiferente à exploração econômica e ao sofrimento coletivo. A proclamação do Reino relativiza toda autoridade humana que se apresenta como absoluta e recorda que nenhum império, governante ou instituição pode ocupar o lugar de Deus. A esperança cristã não consiste em sacralizar a ordem existente, mas em discernir, à luz da justiça divina, aquilo que precisa ser transformado para que a vida floresça.

A tradição profética aprofunda essa exigência.

  •  Amós 5,21-24 denuncia celebrações religiosas que coexistem com a injustiça e exige que o direito corra como água e a justiça como um rio permanente. 
  • Isaías 1,16-17 convoca o povo a abandonar o mal, aprender a fazer o bem, defender o oprimido e proteger aqueles cuja dignidade é ameaçada. 
  • Miqueias 6,8 apresenta a exigência de praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. 
  • Jeremias 7,4-11 denuncia a falsa segurança de quem confia no templo enquanto pratica injustiças, explora o estrangeiro e derrama sangue inocente. 
Essas passagens demonstram que o profetismo bíblico não separa a relação com Deus da responsabilidade pelas condições concretas da existência humana. O culto não pode ser utilizado como cobertura moral para a exploração, assim como a fidelidade doutrinal não pode servir de justificativa para a indiferença. À luz dessa tradição, as parábolas de Jesus questionam comunidades que desejam crescer sem se converter, conquistar reconhecimento sem servir e preservar sua reputação sem enfrentar os mecanismos que produzem sofrimento. A desigualdade contemporânea torna essa interpelação particularmente urgente. Em sociedades marcadas pela concentração de riqueza, pela precarização do trabalho, pela insegurança alimentar e pela exclusão de populações inteiras, a mensagem do Reino exige mais do que gestos ocasionais de generosidade. A solidariedade com quem passa fome é indispensável, mas precisa ser acompanhada pela análise das condições que produzem a fome. A assistência às famílias empobrecidas possui valor real, mas não substitui políticas públicas capazes de assegurar educação, moradia, saúde, trabalho digno e proteção social. Em Tiago 2,14-17, a comunidade é questionada sobre a coerência de uma fé que deseja paz e bem-estar ao necessitado, mas não oferece aquilo de que ele precisa para viver. Em 1 João 3,17-18, o amor é confrontado com a recusa de partilhar os bens diante da necessidade do irmão. Essas referências mostram que a fé cristã não se realiza apenas na intenção interior, pois exige decisões concretas sobre a maneira como os recursos são utilizados e como as relações sociais são organizadas. A semente do Reino precisa encontrar terreno em instituições comprometidas com a justiça e em pessoas dispostas a transformar a compaixão em responsabilidade histórica.

Essa responsabilidade  alcança a política, porque as decisões públicas influenciam a distribuição dos recursos, a proteção dos direitos e as condições de participação social. Nenhum partido possui o monopólio do Evangelho, e nenhum governante pode ser considerado representante automático da vontade divina. Quando discursos políticos utilizam símbolos cristãos para estimular o ódio, justificar a violência, desumanizar adversários ou preservar privilégios, a comunidade precisa confrontá-los com os critérios de Jesus. Em Marcos 10,42-45, Jesus distingue a autoridade exercida como dominação daquela que assume a forma do serviço. Em João 18,36, afirma que seu Reino não pertence à lógica dos poderes deste mundo, sem com isso tornar sua missão irrelevante para a realidade histórica. A fé não deve ser instrumentalizada para santificar projetos autoritários, mas tampouco pode refugiar-se numa neutralidade que abandona as vítimas à própria sorte. O compromisso cristão com a dignidade humana exige discernimento, participação responsável e resistência às práticas que transformam pessoas em instrumentos de poder. Nos tempos  atuais  também  tenos a manipulação religiosa que revela outra deformação que precisa ser denunciada. Ela ocorre quando o nome de Deus é utilizado para produzir medo, exigir obediência incondicional, explorar financeiramente os fiéis ou impedir questionamentos legítimos. Em Mateus 23,23, Jesus censura aqueles que observam minuciosamente aspectos secundários da religião, mas negligenciam a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Em Marcos 7,8-13, denuncia tradições humanas utilizadas para invalidar a palavra de Deus e afastar as pessoas das responsabilidades fundamentais. A crítica não significa que ritos, doutrinas ou instituições sejam desnecessários, mas que sua legitimidade depende de sua relação com a finalidade libertadora da fé. O clericalismo, quando transforma autoridade espiritual em privilégio e controle, contradiz o modelo de serviço apresentado por Jesus. Filipenses 2,5-8 recorda que Cristo assumiu a condição de servo e não transformou sua dignidade em instrumento de superioridade. Por isso, uma comunidade fiel ao Reino deve cultivar transparência, participação, responsabilidade institucional e proteção das vítimas, recusando qualquer prática que coloque a preservação da instituição acima da verdade e da dignidade humana.

Quando  buscamos  resultados imediatos alteramos profundamente a maneira como avaliamos nossa própria vida e a sociedade. A cultura da produtividade, da competição e da visibilidade pode fazer com que gestos discretos pareçam inúteis e processos demorados sejam confundidos com fracasso. Jesus apresenta uma temporalidade diferente, na qual o crescimento exige condições adequadas, perseverança e confiança. Isso não significa romantizar a demora ou recomendar passividade diante da injustiça, mas compreender que mudanças profundas raramente acontecem sem continuidade. A superação de preconceitos, a reconstrução de vínculos, a formação da consciência ética e a transformação de instituições exigem trabalho persistente. Em Gálatas 6,9, Paulo exorta a comunidade a não se cansar de praticar o bem, pois a perseverança possui sua própria fecundidade. Em Romanos 12,2, a renovação da mente aparece como condição para discernir a vontade de Deus. O Reino modifica não apenas comportamentos isolados, mas também os critérios pelos quais julgamos o sucesso, a autoridade, a riqueza e a dignidade das pessoas. Essa esperança não deve ser confundida com a ideia de que basta agir individualmente para resolver problemas estruturais. A semente precisa de condições para germinar, e o fermento precisa ser incorporado à massa. Na realidade social, essas condições incluem instituições responsáveis, políticas públicas eficazes, educação, participação democrática e mecanismos que protejam os direitos fundamentais. Em 1 Coríntios 3,6-9, Paulo compara o trabalho missionário ao cultivo, afirmando que uma pessoa planta, outra rega, mas Deus concede o crescimento. A imagem não elimina a responsabilidade humana, mas impede que qualquer agente se considere proprietário absoluto dos resultados. O compromisso com a transformação exige planejamento, cooperação e disposição para reconhecer limites. Ao mesmo tempo, a confiança em Deus liberta da ilusão de que somente aquilo que podemos controlar possui valor. A esperança cristã permite trabalhar por mudanças concretas sem transformar nossas estratégias em absolutos, reconhecendo que a história permanece aberta à ação divina e à possibilidade de recomeço.

No  Gênesis 2,15, a humanidade recebe a tarefa de cultivar e guardar o jardim, uma imagem que associa a existência humana ao cuidado com a criação. A destruição dos ecossistemas, a contaminação das águas e a exploração predatória dos territórios atingem especialmente as comunidades que dependem diretamente da terra para sobreviver. A degradação ambiental não constitui apenas um problema técnico, porque envolve decisões econômicas, relações de poder e escolhas sobre quais vidas merecem proteção. Quando florestas são destruídas, rios contaminados e populações expulsas de seus territórios, a busca de lucro pode converter a criação em mercadoria e as pessoas em obstáculos descartáveis. Romanos 8,19-23 apresenta a criação aguardando libertação, relacionando seu destino à esperança de renovação. A mensagem do Reino convoca, portanto, a superar tanto a indiferença ambiental quanto a ideia de que a natureza existe apenas para satisfazer necessidades ilimitadas. A transformação começa em práticas responsáveis, mas exige também enfrentar estruturas que perpetuam a devastação. Toda comunidade cristã precisa avaliar sua fidelidade não apenas pelo conteúdo que proclama, mas pelos frutos que produz. Uma paróquia pode organizar numerosas celebrações e permanecer distante das famílias endividadas, dos migrantes, dos desempregados e das pessoas que carregam feridas emocionais. Pode ensinar doutrinas corretas e reproduzir preconceitos, ou falar de fraternidade sem permitir que os pobres participem das decisões. Em Lucas 4,16-21, Jesus apresenta sua missão mediante a boa notícia aos pobres, a libertação dos cativos e a recuperação da vista aos cegos. Em Lucas 10,25-37, o samaritano demonstra que a proximidade ética ultrapassa fronteiras religiosas e sociais. Em Mateus 25,31-46, o cuidado oferecido aos famintos, estrangeiros, enfermos e encarcerados aparece associado ao encontro com o próprio Cristo. Essas passagens convergem para uma compreensão concreta da espiritualidade: Deus é honrado quando a dignidade humana é defendida e quando a compaixão se transforma em prática. A conversão comunitária exige escutar os feridos, corrigir estruturas injustas e abandonar a pretensão de que a aparência religiosa seja suficiente para comprovar fidelidade ao Evangelho.

A esperança cristã nasce da convicção de que Deus continua agindo na história sem dispensar a responsabilidade humana. O Reino não é uma realidade que possuímos integralmente, nem um projeto que podemos identificar sem reservas com nossas instituições ou ideologias. É uma promessa que nos chama a participar de sua realização mediante escolhas concretas, reconhecendo que a plenitude ainda está por vir. Em Romanos 8,18-25, a esperança permanece ligada à criação que geme e aguarda libertação, enquanto a fé aprende a perseverar diante daquilo que ainda não pode contemplar plenamente. A semente de mostarda e o fermento expressam essa tensão entre presença e plenitude: o Reino já atua, mas sua consumação não está concluída. Por isso, a confiança em Deus não justifica a acomodação; sustenta a perseverança. Plantar, regar, cuidar, alimentar, proteger e transformar são responsabilidades que adquirem sentido quando orientadas pela justiça, pela misericórdia e pela fidelidade à vida. O centro  de Lucas 13,18-21 encontra-se, portanto, na revelação de uma grandeza que não depende dos critérios humanos de poder. O grão de mostarda questiona a tendência de desprezar aquilo que parece insignificante, enquanto o fermento revela a necessidade de uma transformação que alcance a totalidade da existência. Essas imagens convocam cada pessoa, comunidade e instituição a examinar as próprias prioridades, perguntando se o crescimento produzido favorece a liberdade ou amplia a dominação, se a autoridade protege os vulneráveis ou preserva privilégios, se a religião aproxima as pessoas de Deus ou as afasta daqueles que sofrem. O Reino torna-se perceptível quando a injustiça é enfrentada, a dignidade é restaurada e a esperança deixa de ser discurso para assumir a forma de compromisso. Sua força não está em reproduzir os mecanismos dos impérios, mas em criar relações nas quais ninguém seja considerado descartável. A semente precisa ser lançada, o fermento precisa penetrar a massa e a comunidade precisa permitir que o Evangelho transforme suas práticas.

A pergunta decisiva que Jesus nos dirige não é simplesmente:  Se acreditamos na grandeza de Deus, mas se conseguimos reconhecê-la onde nossos olhos acostumados ao prestígio dificilmente a procuram?

 Talvez o Reino comece quando alguém interrompe uma humilhação, partilha alimento, protege uma vítima ou se recusa a participar de uma mentira. Talvez cresça quando uma comunidade deixa de apenas falar dos pobres e começa a escutá-los, quando uma instituição assume seus erros ou quando cidadãos se organizam para defender direitos ameaçados. Esses gestos não esgotam a promessa divina, mas tornam sua presença historicamente perceptível. O Evangelho nos chama a abandonar a religião da aparência, a política da desumanização e a espiritualidade indiferente, reconhecendo que a fidelidade a Deus exige responsabilidade diante da vida. Quando as pequenas ações se articulam com a justiça e a perseverança, tornam-se sinais de uma transformação que ultrapassa seus próprios limites. É nessa confiança que o Reino cresce, silenciosamente, sem deixar de confrontar os poderes, até que a espmerança se converta em realidade compartilhada e a dignidade humana encontre espaço para florescer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 2,22-35

 
A perícope de Lucas 2,22-35 é proclamada liturgicamente em diferentes contextos que se entrelaçam e se iluminam mutuamente. Ela aparece na Festa da Apresentação do Senhor (2 de fevereiro), tradicionalmente conhecida como Candelária, e também é proclamada no 5º dia da Oitava do Natal, quando a Igreja prolonga o mistério da Encarnação não como lembrança sentimental, mas como acontecimento que atravessa, fere e redefine a história humana. A liturgia não permite que o Natal se feche em imagens edulcoradas: a criança é conduzida ao Templo, isto é, ao coração religioso, político e simbólico de Israel, lugar onde convergem promessa e conflito, fé e poder, memória e tensão. A manjedoura de Belém e o altar de Jerusalém pertencem à mesma lógica pascal, pois, como recorda o Salmo 40(39),7-9, “não quiseste sacrifícios nem oferendas… então eu disse: eis-me aqui”.

Lucas escreve para uma comunidade marcada pela tensão entre judaísmo e cristianismo nascente, entre a fidelidade à Torá e a experiência nova do Espírito. Por isso, ele insiste que Maria e José cumprem a Lei “segundo Moisés” (Lc 2,22-24), ecoando Levítico 12,2-8, onde se prescreve o rito de purificação da mulher após o parto. Não se trata de um detalhe ritualista, mas de uma afirmação teológica: Jesus nasce dentro da história concreta de Israel, dentro de suas instituições, de suas ambiguidades e de sua esperança. Ele é o primogênito que pertence ao Senhor, conforme Êxodo 13,1-2 e 13,12, memória viva da libertação do Egito, quando Deus arrancou um povo da casa da servidão (Ex 20,2). O Menino apresentado no Templo carrega, em silêncio, toda a história de opressão e libertação do seu povo.

O Templo, contudo, não é apenas espaço sagrado; é também lugar de controle social, de centralização econômica e de poder religioso. Os profetas já o haviam denunciado quando a instituição se tornava surda ao clamor dos pobres: “Este templo… tornou-se uma caverna de ladrões?” (Jr 7,11). É nesse espaço carregado de ambiguidade que o Espírito age livremente. Simeão não é sacerdote, não pertence à aristocracia do culto, não é citado por sua função, mas por sua atitude: “justo e piedoso”. Como Noé (Gn 6,9), como Jó (Jó 1,1), como os pobres do Senhor cantados nos Salmos (Sl 37; Sl 146), Simeão encarna uma justiça que nasce da confiança, não do poder.

Ele “esperava a consolação de Israel”, expressão profundamente enraizada em Isaías 40,1: “Consolai, consolai o meu povo”. Essa consolação não é anestesia espiritual, mas promessa de reconstrução histórica, de retorno da dignidade roubada, de justiça restauradora. Simeão vive da esperança, como Abraão que “esperou contra toda esperança” (Rm 4,18), como os anawim que confiam quando tudo parece estéril.

O Espírito Santo, protagonista silencioso do Evangelho da infância, é mencionado três vezes nesse breve texto. Assim como em Juízes 6,34, quando o Espírito reveste Gedeão, ou em 1Samuel 10,6, quando toma Saul, aqui o Espírito conduz Simeão ao encontro decisivo. Em Lucas-Atos, o Espírito jamais legitima privilégios; Ele desloca, incomoda, surpreende. Psicologicamente, Simeão representa o ser humano reconciliado com sua finitude; sociologicamente, ele é a memória viva de um povo que não se rendeu; teologicamente, é testemunha de que a promessa não envelhece.

O gesto central é o abraço. Simeão toma o
Menino nos braços. A fé bíblica passa pelo corpo: Jacó luta com Deus e sai mancando (Gn 32,25-32); a mulher hemorroíssa toca Jesus e é curada (Mc 5,27-34); Tomé precisa tocar as feridas (Jo 20,27). Aqui, Simeão abraça o sentido da história. Seu cântico — o Nunc Dimittis — dialoga com os Salmos de confiança final, como o Salmo 31(30),6: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”. Ele pode partir porque viu. Ver, na Bíblia, é mais do que enxergar: é reconhecer, como em Isaías 6,5 ou em Jó 42,5, quando a visão transforma a existência.

A salvação proclamada não é privada nem sectária: “luz para iluminar as nações”. Aqui ressoam Isaías 2,2-5, onde todos os povos sobem ao monte do Senhor; Isaías 42,6-7, onde o servo é luz para os gentios; Isaías 49,6, que recusa uma missão estreita. Toda teologia do domínio, toda fé nacionalista ou exclusivista, é desmentida nesse versículo. O Deus bíblico não se deixa capturar por fronteiras nem por projetos de poder.

Mas a luz provoca reação. Simeão anuncia a contradição. O mesmo Cristo que ilumina também desvela. Ele será causa de queda e de soerguimento, como já anunciava Isaías 8,14-15: pedra de tropeço para muitos. Maria, figura de Israel e da Igreja, ouvirá que uma espada atravessará sua alma. Essa espada ecoa Ezequiel 14,17, mas também Hebreus 4,12, onde a Palavra é descrita como espada que penetra até o mais íntimo. Não há seguimento sem ferida, não há fé sem atravessamento. Os paralelos sinóticos ampliam essa leitura. Mateus apresenta a infância de Jesus sob o signo da perseguição (Mt 2,13-18), mostrando que desde o início o Reino colide com os poderes estabelecidos. Marcos, ao iniciar seu Evangelho com o deserto (Mc 1,1-13), reforça que a revelação nasce à margem. João, ao proclamar que “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14), afirma o mesmo escândalo: Deus assume fragilidade. Paulo retoma essa lógica quando escreve que Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes (1Cor 1,27).

O sacrifício oferecido por Maria e José — o sacrifício dos pobres — denuncia toda espiritualidade que confunde bênção com prosperidade. O Deus de Jesus se manifesta na kenosis, no esvaziamento (Fl 2,6-11), não na ostentação. A fé como mercadoria, a religião como promessa de sucesso individual, não encontram abrigo nesse Templo nem nesse Menino. Também o clericalismo é desmascarado pela narrativa. Não são os especialistas da Lei que reconhecem o Messias, mas Simeão e Ana, uma mulher idosa, profetisa, viúva (Lc 2,36-38). Como Débora (Jz 4,4), como Hulda (2Rs 22,14), como Joel anunciara (Jl 3,1-2), o Espírito fala fora dos esquemas de poder. A Igreja trai o Evangelho quando silencia essas vozes.

Os Padres da Igreja aprofundaram essa leitura. Orígenes via no abraço de Simeão a necessidade de “tomar Cristo nos braços da alma”. Ambrósio via nele a humanidade cansada que encontra repouso. Irineu reconhecia ali a recapitulação da história inteira em Cristo (Ef 1,10). Todos convergem: o encontro com Jesus redefine tempo, corpo e esperança. O texto patrístico citado ecoa o Cântico dos Cânticos porque a fé bíblica é também desejo, busca, travessia noturna. Como a Esposa que procura o amado (Ct 3,1-4), Simeão buscou e encontrou. Contra espiritualidades utilitaristas, o texto afirma o silêncio, o mistério, o abraço. Deus não é objeto de consumo, mas relação que transforma. 

Simeão desmonta a idolatria da longevidade sem sentido. Biblicamente, ele se aproxima de Eclesiastes 12,1-7: a vida encontra plenitude quando reconhece seu limite. Teologicamente, ele ensina que a morte não é derrota quando a vida foi entrega.

Assim, Lucas 2,22-35 nos devolve um Natal sem anestesia, em continuidade com toda a Escritura. Um Natal que dialoga com Êxodo, Isaías, Salmos, Profetas, Evangelhos e Cartas. Um Natal que abraça e fere, consola e provoca. Simeão recebe o Menino nos braços — e, com ele, a história inteira é convidada a decidir se acolherá um Deus vulnerável ou continuará fabricando deuses à sua imagem. O Cristo apresentado no Templo permanece, ontem e hoje, sinal de contradição.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 8,5-11


O Advento sempre foi, para a Igreja, um tempo em que o futuro de Deus invade o presente humano. É um período em que a liturgia nos obriga a olhar para além das paredes estreitas do cotidiano e perceber que, atrás das dobras da história, há um Deus que se aproxima não com estrondos imperiais, mas com passos discretos, criando fissuras no mundo velho para que o novo possa nascer e nesse sentido que na segunda-feira da primeira semana do Tempo do advento que se proclama Mateus8,5-11. Nesse horizonte, o episódio do encontro entre Jesus e o Centurião em Cafarnaum, proclamado na liturgia é de modo mais amplo, evocado sempre que meditamos os milagres de Jesus realizados em Cafarnaum — torna-se mais que uma cena isolada; é uma janela escancarada para o modo como Deus subverte expectativas, derruba fronteiras, desmonta poderes e inaugura um Reino que ninguém imaginava possível. O Advento nos prepara para reconhecer esse Deus que surpreende, e Mateus 8,5-11 nos ensina a ver exatamente como essa surpresa se manifesta: não na solenidade dos templos, mas na fé inesperada de um estrangeiro, na abertura silenciosa de alguém que, mesmo situado no lado estruturalmente opressor da história, consegue romper com o ciclo da dominação. Cafarnaum, construída na fricção entre culturas, comércio e ocupação militar, é o cenário perfeito para este encontro. A arqueologia revela que era uma cidade diversificada, economicamente pulsante, constantemente atravessada por tensões entre colonizados e colonizadores. Ali se cruzavam pescadores galileus, mercadores sírios, soldados romanos, camponeses pobres e religiosos atentos em preservar a pureza ritual. É esse caldeirão sociológico que o Evangelho escolhe como palco. A encarnação acontece sempre em territórios híbridos, onde a humanidade se mistura com a poeira e com a política — não em templos isolados. Jesus chega à cidade logo após o Sermão da Montanha, carregando consigo o eco das Bem-Aventuranças, que já anunciavam um Reino invertido, onde os pobres são felizes e os mansos herdam a terra. Por isso, quando o Centurião surge caminhando em sua direção, todo o contexto histórico vibra como uma corda esticada prestes a ser tocada. Não se trata apenas de mais um personagem: trata-se de uma figura-limite, de alguém que encarna o choque entre dois mundos e, paradoxalmente, acaba revelando uma verdade que muitos religiosos não conseguiram enxergar.

O Centurião não é apenas um soldado. Ele é o símbolo vivo da máquina imperial, o braço militar que sustenta a Pax Romana, essa “paz” construída sobre o medo, a força e a dominação. Sua armadura reflete o sol, mas também reflete a opressão: é o brilho do poder que objetiva corpos e subjuga povos. Os evangelhos sinóticos deixam claro que sua presença não era bem-vinda entre os judeus (cf. Lc 7,1-10). Mateus, ao retratá-lo aproximando-se de Jesus, força o leitor a enfrentar o contraste entre dois tipos de autoridade: a autoridade que mata para manter controle e a autoridade que cura para gerar vida. A lógica do Império sempre acreditou que o poder reside na capacidade de fazer obedecer pela força. A lógica de Jesus revela que o verdadeiro poder é a autoridade da palavra que cria e restaura — o sopro que moldou o cosmos em Gênesis 1 e que continua moldando realidades quando pronunciado pelo Verbo encarnado.

A aproximação do Centurião é antropologicamente e psicologicamente fascinante. Em vez de impor, ele pede; em vez de exigir, ele suplica; em vez de reforçar fronteiras, ele as ultrapassa. A psicologia social lembra que pessoas inseridas em estruturas hierárquicas rígidas tendem a introjetar a lógica da autoridade. Aqui, ocorre o contrário: é justamente a experiência de comandar que desperta nele a percepção de um nível mais profundo da realidade. Sua posição militar o leva a compreender o que muitos religiosos não entendem: toda autoridade humana é limitada, derivada, frágil. Nenhuma ordem humana toca o núcleo último da existência. Nenhuma força política ou religiosa pode conferir sentido final. Ele intui, de modo quase filosófico, que Jesus detém um tipo de autoridade completamente diferente, que não se baseia em coerção, mas em verdade. A fenomenologia poderia chamar esta postura de abertura radical ao absoluto; a teologia chama de fé. Santo Agostinho já dizia que o verdadeiro poder se manifesta no serviço e não na dominação, e aqui vemos isso acontecer de forma surpreendente: é o dominador que reconhece sua própria insuficiência diante do único que verdadeiramente liberta.

Quando ele chama Jesus de “Senhor” (Kyrie), a palavra explode em camadas simbólicas. Na boca de um romano, é quase um desafio político: era o título reservado ao imperador. Na boca daquele homem, torna-se um ato teológico, consciente ou não: o Império não é último, César não é absoluto, o poder definitivo não está nas mãos do dominador. Orígenes já percebia nisso uma ruptura espiritual: um estrangeiro, pagão, reconhece em Jesus aquilo que muitos dos herdeiros da promessa não conseguem ver. E Crisóstomo sugeria que este reconhecimento não é apenas verbal, mas existencial: o Centurião submete toda a sua lógica militar ao senhorio do Cristo. Quando Jesus responde: “Eu irei e o curarei”, uma revolução simbólica acontece. Entrar na casa de um gentio poderia ser visto como quebra de pureza ritual segundo certos grupos farisaicos (cf. At 10,28). Jesus simplesmente ignora a lógica da exclusão. Ele prioriza o humano sobre o jurídico, a dor sobre a norma, a vida sobre o sistema. A sociologia da religião nos ensina que instituições tendem a se proteger criando fronteiras identitárias; Jesus constantemente as desestabiliza. Aqui emerge a crítica necessária ao clericalismo contemporâneo, que tenta transformar a fé em “casta espiritual”, em território controlado por poucos, como se a graça fosse propriedade privada. O clericalismo — essa lógica de corte que transforma pastores em gestores e discípulos em súditos — nada tem a ver com Jesus. É mais próximo da lógica imperial que do Evangelho. Francisco o chama de “perversão espiritual” porque privatiza Deus e transforma a comunidade cristã em uma pirâmide invertida, onde poucos mandam e muitos obedecem. O Centurião rasga essa ilusão, mostrando que Deus pode suscitar fé onde o sistema religioso não imagina.

A atitude do Centurião ao dizer: “Senhor, não sou digno que entres em minha casa… mas basta uma palavra” transcende qualquer gesto de humildade superficial. É diálogo intercultural, reconhecimento do outro, respeito às sensibilidades ritualísticas de Israel, consciência das fronteiras simbólicas que estruturam a vida religiosa da época. É, em sua essência, uma forma pré-cristã de sinodalidade: o movimento de caminhar junto, cada um reconhecendo o mundo do outro. Ele não força Jesus a lhe obedecer; não o exige como faz com seus soldados. Ele entra na lógica do Reino e compreende que a autoridade de Jesus funciona no plano do logos criador, não no plano da presença física. Ele tocou, sem saber, o núcleo da teologia bíblica da Palavra: Deus cria pelo verbo (Gn 1); sustenta pelo verbo (Sl 33); consola pelo verbo (Is 55); recria pelo verbo. A Palavra é o lugar da ação divina. O servo curado à distância torna-se sacramento da transcendência da graça.

Jesus se maravilha. Esta reação, tão rara nos evangelhos, diz muito. O que maravilha Jesus não é o heroísmo, não é o cumprimento exato de normas, não é a ortodoxia perfeita; é a confiança radical. Marcos mostra Jesus admirado pela falta de fé (Mc 6,6); Mateus, pela sua presença surpreendente (Mt 8,10). A admiração de Jesus é teológica: é Deus se encantando com o humano quando o humano rompe o ciclo do medo e ousa confiar. O sorriso de Jesus — imaginado, mas biblicamente coerente — é o sorriso de um Deus que encontra, fora dos limites institucionais, a fé simples que move montanhas. Essa admiração desmascara toda pretensão de controle religioso, toda ideia de que Deus só age “aqui” e nunca “lá”, toda arrogância espiritual que presume conhecer os critérios de Deus. É a crítica mais profunda à religião como sistema de poder.  A seguir, Jesus declara: “Muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó.” Essa mesa escatológica é uma das imagens mais belas do Antigo Testamento: o banquete universal de Isaías 25,6, onde todos os povos são acolhidos; o Salmo 22(23), onde Deus prepara a mesa diante dos adversários; e os escritos intertestamentários que imaginam o banquete messiânico como plenitude da justiça. Jesus faz do Centurião a chave de leitura: o estrangeiro se torna símbolo do futuro, e os filhos do Reino, símbolo do risco de fechamento. Não é condenação, é advertência pedagógica. A antropologia religiosa mostra que grupos identitários fortes correm sempre o risco de se tornarem autorreferenciais. Jesus confronta este risco e o faz em plena Galileia dos gentios, onde culturas se cruzam e barreiras se desfazem. A mesa aberta denuncia as mesas fechadas da religião.

A patrística viu nisso o início da universalidade cristã. São Jerônimo interpretou o Centurião como o prenúncio da Igreja que se estende às nações. Hilário viu nele a fé pura não deformada por disputas religiosas. Crisóstomo pregava que a fé do Centurião ultrapassava a de muitos que estudavam as Escrituras diariamente. Agostinho via na cura à distância o símbolo da ação da graça em povos que ainda não conhecem plenamente o Cristo, mas que o intuem pela busca do bem. É a tradição patrística afirmando que Deus sempre foi maior que as fronteiras da Igreja. 

O Magistério também bebe dessa fonte. Gaudium et Spes, ao discorrer sobre autoridade, recorda que poder só é legítimo quando serve ao bem comum, nunca quando se impõe com violência ou manipulação (GS 63-66). Evangelii Gaudium denuncia o fechamento autorreferencial de comunidades que se tornam alfândegas da graça. Fratelli Tutti clama por uma fraternidade capaz de incluir “os que vêm do oriente e do ocidente”, denunciando a cultura do muro, do medo, da indiferença, da exclusão. O Centurião é, assim, ícone da fraternidade universal, antecipação da Igreja que abraça, e não apenas tolera, os diferentes. Este texto é também, inevitavelmente, um golpe profundo contra a teologia da prosperidade e sua idolatria dos resultados. O Centurião não pede prosperidade, não pede riqueza, não pede promoção, não pede poder. Pede cura para seu servo — alguém que, para o Império, valia menos que uma ferramenta. A fé que ele apresenta é intercessão, não autopromoção. A teologia da prosperidade desfigura o Evangelho ao transformar Deus em máquina de benefícios, e os pregadores da prosperidade se encarregam de transformar a fé em produto vendável, com garantias e promessas ilusórias. O Centurião desmonta essa lógica, porque sua fé é ética, relacional, descentrada de si. A teologia do domínio — que pretende cristianizar estruturas políticas via força, imposição e poder — também se dissolve diante desta cena. O representante do Império se curva não diante de um Jesus militante armado para tomar o poder, mas diante do Jesus desarmado que cura pela palavra. A fé como mercadoria, como show, como embalagem religiosa para consumo emocional, perde totalmente seu sentido. O servo é curado no silêncio, sem palco, sem marketing, sem espetáculo.

A crítica ao clericalismo se aprofunda mais ainda quando se percebe que Jesus elogia a fé de alguém que, segundo muitos líderes religiosos da época, não deveria ter fé alguma. A fé não segue hierarquias sociológicas nem fronteiras eclesiásticas.  O Evangelho não se submete à lógica da casta. Papa  Francisco dizia que o clericalismo é perversão porque substitui o seguimento de Jesus pela busca de prestigio, controle e distinções internas. O Centurião desmonta essa lógica com seu gesto de humildade, e Jesus a desmonta quando o elogia publicamente. Aqui, a Igreja aprende que a graça não se explica sociologicamente, e que Deus pode surpreender a partir de lugares que julgamos impróprios. Além disso, há uma dimensão profundamente pedagógica no modo como Jesus cura à distância. A cura não exige presença física. Não exige toque. Não exige prova. Não exige espetáculo. Ela revela que a compaixão é a mais alta forma de autoridade. A filosofia contemporânea fala do poder como capacidade de gerar possibilidade; Jesus, pela palavra, devolve ao servo a possibilidade de viver. A psicologia nos lembra que a autoridade saudável não controla, mas potencializa; Jesus potencializa. A sociologia mostra que sistemas de dominação se reproduzem por medo; Jesus dissolve o medo. A antropologia recorda que encontros interculturais frequentemente produzem tensão; aqui, produzem revelação. A teologia afirma que Deus se comunica de modos que ultrapassam estruturas religiosas; aqui, isso se torna evidente.

No mundo de hoje, esta cena se torna espelho incômodo. Vivemos saturados de líderes que gritam, que impõem, que prometem, que manipulam emoções, que vendem soluções rápidas. Vivemos cercados de pastores-digitais, profetas do entretenimento, gurus de palco, apóstolos de cartão de crédito, todos prometendo o que o Evangelho jamais prometeu. Vivemos cercados pela teologia da eficiência, que mede fé por resultados, por números, por engajamentos e por curtidas. Vivemos cercados por movimentos políticos que instrumentalizam a fé para conquistar poder. Vivemos cercados por versões religiosas do individualismo neoliberal, onde Deus é uma espécie de coach celestial que serve de trampolim motivacional. Neste cenário, o Centurião se levanta como profeta. Ele desfaz a lógica da autopromoção. Ele pede pelo outro. Ele reconhece limites. Ele não faz da fé uma ferramenta para ganhar vantagem. Ele não transforma Jesus em amuleto motivacional. Ele não se apropria do sagrado para validar seu poder. Ele simplesmente confia. O Centurião, paradoxalmente, encarna o que o Advento deseja despertar em nós: a prontidão humilde diante do Deus que chega. O servo curado é sinal do Deus que vem para restaurar, libertar, transformar. A mesa com Abraão, Isaac e Jacó é sinal do Deus que vem para reunir. A admiração de Jesus é sinal do Deus que vem para se encantar com a fé humana quando ela brota em liberdade. Tudo isso dialoga com o tempo litúrgico em que esta passagem é proclamada: o Advento nos chama a recomeçar, a abrir janelas, a desmontar estruturas de fechamento, a romper com lógicas imperiais — políticas, religiosas, psicológicas — que impedem a chegada do Reino.

E é bonito perceber que, num mundo saturado de discursos agressivos e teologias violentas, a fé do Centurião está ancorada na vulnerabilidade. Ele expõe sua necessidade. Reconhece sua impotência. Assume sua insuficiência. E justamente aí sua fé floresce. A vulnerabilidade se torna o solo da revelação. A antropologia contemporânea fala da vulnerabilidade como marca constitutiva do humano. A teologia cristã reconhece a vulnerabilidade como o lugar da encarnação. Jesus se maravilha diante dessa vulnerabilidade assumida, porque ela abre espaço para a graça operar. O Centurião anuncia um cristianismo que não será fundado na força, mas no amor que cura, no encontro que transforma, na escuta que acolhe, na palavra que cria vida.

Esta é a Boa Nova do Advento: Deus vem sempre de forma inesperada. Ele não escolhe os puros, mas os abertos; não escolhe os fortes, mas os vulneráveis; não escolhe os que se gabam de possuir a fé, mas os que ousam confiar sem garantias. Jesus sorri diante do Centurião porque vê nele o futuro da humanidade reconciliada. E talvez, se deixarmos, Ele poderá sorrir de novo ao encontrar em nós essa mesma disponibilidade humilde que reconhece: “Senhor, não sou digno… mas basta uma palavra.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano