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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quem é o fiel numa Igreja centralizada no clero? Antes do altar, a vida!

Nos dias atuais, impõe-se uma reflexão séria, honesta e corajosa sobre quem é o fiel no interior de uma Igreja ainda profundamente marcada por estruturas clericalizadas, bem como sobre o lugar real do leigo e do clero na vida e na missão eclesial. Tal discernimento torna-se ainda mais urgente quando a experiência de fé passa a ser construída quase exclusivamente a partir da observância rigorosa de normas litúrgicas ou da defesa intransigente do espaço ritual, como se o cristianismo se esgotasse na preservação de formas e rubricas.

Essa configuração não é neutra. Ela carrega o risco concreto de deslocar o eixo central da fé cristã, que não reside na sacralização do rito em si, mas no seguimento existencial de Jesus e na vivência histórica do Reino de Deus no tecido concreto da vida. A Igreja não nasce do altar, mas do chamado que desinstala, da escuta que converte, do caminho partilhado, da mesa aberta e da missão assumida no meio do mundo (cf. Mc 1,16–20; Lc 24,13–35; At 2,42–47). Antes de haver rito, houve estrada; antes do templo, houve encontro; antes do altar, houve vida entregue. O altar é consequência de uma fé encarnada, jamais o seu ponto de partida absoluto.

Quando essa ordem é invertida, o que se instaura não é maior fidelidade ao Evangelho, mas uma distorção da própria identidade eclesial: uma forma sutil — e por vezes explícita — de clericalismo. Trata-se de uma verdadeira patologia da vida da Igreja, que absolutiza o sagrado institucional e o poder simbólico do culto em detrimento da dignidade batismal e da corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Não por acaso, essa lógica tem sido amplamente denunciada pelo Magistério recente, de modo particular pelo saudoso Papa Francisco, que a identificou como um dos maiores obstáculos à maturidade da fé e à autenticidade da missão evangelizadora (cf. Evangelii Gaudium, n. 102; Discurso à Cúria Romana, 22/12/2014).

Essa constatação exige honestidade histórica. A divisão rígida entre clero e leigos, tal como frequentemente se apresenta hoje, não pertence ao núcleo originário do cristianismo. Trata-se de uma construção progressiva que ganha força a partir do século IV, especialmente após o Édito de Milão (313 d.C.) e, mais tarde, com Teodósio I, quando o cristianismo se torna religião oficial do Império Romano (380 d.C.). Nesse processo, a Igreja passa a assimilar categorias jurídicas, simbólicas e hierárquicas do império: distinções de status, títulos honoríficos, vestes diferenciadas (leia: Batina seu significado e significante - 2025)  e privilégios simbólicos. O que antes era serviço (diakonia) assume progressivamente contornos de poder; o que era carisma partilhado torna-se função sacralizada. Essa evolução histórica ajuda a compreender por que, ainda hoje, muitos identificam a Igreja quase exclusivamente com o clero, reduzindo o leigo a uma presença periférica ou meramente funcional.

À luz do Novo Testamento, essa lógica não se sustenta. Jesus não pertence à classe sacerdotal. Não é levita nem descendente de Aarão. Não exerce funções cultuais no Templo. Ao contrário, sua prática o coloca em conflito direto com a aristocracia sacerdotal de Jerusalém: ele cura no sábado (Mc 3,1–6), toca os impuros (Mc 1,40–45), perdoa pecados fora do sistema sacrificial (Mc 2,1–12) e relativiza o próprio Templo como centro absoluto da relação com Deus (Mc 13,1–2; Jo 2,19–21). Sua autoridade não nasce do rito, mas da vida; não lhe é conferida por uma instituição cultual, mas reconhecida pela coerência entre palavra e prática (cf. Mt 7,28–29). Em Jesus, o sagrado deixa de ser monopólio de uma classe e torna-se presença viva no meio do povo.

A Carta aos Hebreus aprofunda essa ruptura ao desmontar qualquer tentativa de clericalização excessiva da fé. Ao apresentar Jesus como sumo sacerdote, insiste que se trata de um sacerdócio radicalmente novo, “não segundo a ordem de Aarão, mas segundo a ordem de Melquisedec” (Hb 7,11–17). Não se funda na genealogia nem no culto repetitivo, mas numa existência entregue de uma vez por todas (cf. Hb 9,11–14; 10,10). O sacrifício de Cristo não é um rito reiterado, mas a totalidade de sua vida oferecida por amor. Retornar a uma lógica cultual fechada, que absolutiza o rito e sacraliza funções, é esvaziar a radicalidade da Páscoa.

Essa crítica atravessa toda a tradição profética de Israel. Amós denuncia um culto que não produz justiça: “Detesto vossas festas… que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene” (Am 5,21–24). Isaías rejeita sacrifícios dissociados da defesa do órfão e da viúva (Is 1,10–17). Miqueias sintetiza a vontade de Deus em justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,6–8). Jesus se insere nessa linhagem ao afirmar que a misericórdia vale mais que o sacrifício (Mt 9,13; 12,7). A liturgia, portanto, só é fiel quando se abre à ética e à vida.

Os Evangelhos convergem nesse ponto essencial: Jesus descentraliza o sagrado. O sábado foi feito para o ser humano, e não o contrário (Mc 2,27). O verdadeiro culto não depende de um lugar sagrado específico, mas acontece “em espírito e verdade” (Jo 4,21–24). Isso não elimina a dimensão celebrativa da fé, mas impede sua absolutização ritual. A liturgia existe para alimentar uma vida segundo o Reino, não para proteger identidades religiosas ou sustentar privilégios simbólicos.

Paulo radicaliza essa compreensão ao afirmar que, em Cristo, as divisões estruturantes da sociedade religiosa e cultural são relativizadas: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; todos sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28). Essa afirmação tem alcance eclesiológico. A Igreja é corpo, e nenhum membro pode dizer ao outro: “Não preciso de ti” (1Cor 12,21). Os ministérios existem como dons para o bem comum (1Cor 12,4–7), não como degraus de status. Quando um ministério se absolutiza, o corpo inteiro adoece.

Essa visão encontra respaldo explícito no Direito Canônico. O cânon 208 afirma que, “em virtude da regeneração em Cristo, existe entre todos os fiéis verdadeira igualdade quanto à dignidade e à ação”. O cânon 204 recorda que todos os fiéis, incorporados a Cristo pelo Batismo, participam da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo. O cânon 225 explicita que os leigos têm o dever e o direito de trabalhar para que a mensagem da salvação alcance todos, especialmente nas realidades temporais. Reduzi-los ao espaço interno do templo não é fidelidade canônica, mas sua distorção.

O próprio Direito Canônico define o ministério ordenado como serviço. O cânon 275 exorta os clérigos a promoverem a comunhão e evitarem qualquer forma de domínio. O cânon 384 atribui ao bispo o dever de proteger os direitos dos fiéis leigos e favorecer sua participação ativa na missão da Igreja. Assim, o clericalismo viola não apenas o Evangelho e o Concílio Vaticano II, mas o próprio ordenamento jurídico da Igreja.

Biblicamente, a identidade cristã nasce do Batismo, não da ordenação. É pelo Batismo que todos são enxertados em Cristo (Rm 6,3–5), revestidos dele (Gl 3,27) e incorporados num só corpo (1Cor 12,13). A Eucaristia confirma essa verdade: há um só pão e um só cálice para todos (1Cor 10,16–17). O altar não é fronteira, mas sinal de comunhão.

Essa lógica encontra seu ápice na escatologia ensinada por Jesus. Diante da pergunta dos saduceus, ele relativiza as categorias jurídicas e institucionais do mundo presente: “Na ressurreição, não se casam nem se dão em casamento” (Mt 22,30). O que permanece é a filiação: Deus é Deus de vivos, não de mortos (Mt 22,32). Se no Reino definitivo não há hierarquias de poder, toda organização eclesial só pode ser provisória e servidora.

Jesus já havia advertido seus discípulos: “Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro, seja o servo” (Mc 10,42–45). Essa palavra vale tanto para clérigos quanto para leigos que desejam clericalizar-se.

O Concílio Vaticano II recoloca essa verdade no centro ao afirmar que a Igreja é Povo de Deus em caminho (Lumen Gentium, n. 9). Todos os batizados participam do tríplice múnus de Cristo (LG 10–12). O sacerdócio comum dos fiéis é realidade fundada no Batismo, e o ministério ordenado existe para servi-lo.

O Magistério recente aprofunda essa visão. João Paulo II afirma que os leigos são corresponsáveis pela missão da Igreja no mundo (Christifideles Laici, n. 15). Bento XVI recorda que a Igreja se expressa inseparavelmente no anúncio da Palavra, na celebração dos sacramentos e no serviço da caridade (Deus Caritas Est, n. 25). O Papa Francisco denuncia com clareza o clericalismo como deformação que sufoca o Espírito e torna a Igreja autorreferencial (Evangelii Gaudium, n. 93; Discurso ao CELAM, 28/07/2013).

No Brasil, o Documento 105 da CNBB afirma que os leigos são sujeitos eclesiais e sociais, portadores do profetismo da Igreja no mundo, e que uma fé reduzida ao espaço intraeclesial trai o Evangelho.

Nesse contexto emerge o fenômeno da neocristandade: a tentativa de restaurar uma Igreja defensiva, hierarquizada e autorreferencial, centrada no culto e pouco aberta à justiça do Reino. Liturgias impecáveis coexistem com indiferença diante da fome, da violência e da exclusão, repetindo o erro denunciado por Jesus: “Vós pagais o dízimo… mas negligenciais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23).

Defender a liturgia é necessário. Defender o ministério ordenado é indispensável. Mas fazê-lo à custa da fraternidade batismal, da corresponsabilidade dos leigos e da centralidade do Reino é trair o Evangelho, o Concílio Vaticano II e a própria história viva da Igreja. A alternativa não é o caos, mas a conversão; não é o poder, mas o serviço; não é o altar isolado, mas a comunhão em missão, à imagem daquele que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).

Convém recordar, com humildade evangélica e memória histórica, que todo clérigo, antes de tudo, foi leigo, mergulhado no mesmo Batismo que o inseriu no Corpo de Cristo. Não há dois batismos, nem dois Evangelhos. O único sacramento que Jesus recebeu foi o Batismo no Jordão (cf. Mt 3,13-17), sinal de que a vida cristã começa pela comunhão, pela escuta e pela obediência ao Espírito, e não pela hierarquia. O ministério ordenado não paira acima do povo, mas nasce do seio da comunidade, como dom e serviço, e só se realiza plenamente em relação viva com ela. Um pastor sem ovelhas não é pastor; uma comunidade sem pastores continua sendo povo de Deus, mas ferida em sua organização e cuidado.

A própria Escritura é clara: os ministérios existem “para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4,12). Pedro lembra que todos os batizados participam do sacerdócio de Cristo como “raça eleita, sacerdócio real, nação santa” (1Pd 2,9), enquanto Paulo insiste que os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo, e todos são dados “para o bem comum” (1Cor 12,4-7). O ministério ordenado, portanto, não substitui o povo, nem o infantiliza; ele o serve, o anima e o organiza.

Historicamente, a Ordem surge da necessidade concreta da Igreja se estruturar, não como ruptura com a fraternidade batismal, mas como seu desdobramento. Atos dos Apóstolos mostra que os ministérios emergem das tensões reais da comunidade (cf. At 6,1-6), e não de um ideal abstrato de poder sagrado. O Concílio Vaticano II recupera essa consciência ao afirmar que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus (Lumen Gentium, 9), no qual todos participam, cada qual segundo sua vocação, da missão de Cristo. O sacerdócio ministerial “difere essencialmente e não apenas em grau” do sacerdócio comum, mas existe em função dele (LG 10), jamais contra ele.

Quando o ministério se descola da comunidade, transforma-se em função; quando se absolutiza, degenera em clericalismo; quando esquece o Batismo, trai sua própria razão de ser. Por isso, defender a Igreja hoje não é fechar-se em castelos litúrgicos ou identitários, mas retornar à fonte, onde o altar se abre para a vida, o ministério se ajoelha diante do povo e a autoridade se converte em cuidado. Só assim a Igreja permanece fiel ao Evangelho, ao Concílio e à sua própria história: não como fortaleza de poucos, mas como casa comum, em comunhão e missão, a serviço do Reino que já está entre nós.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Um outro Olhar sobre João 1,29-34. - 2⁰ domingo do tempo comum

 
Vivemos, na dinâmica do Ano Litúrgico, um tempo densamente vocacional. Não se trata apenas de refletir sobre ministérios específicos ou estados de vida, mas de retomar a pergunta decisiva que atravessa toda a Escritura, de Abraão ao Apocalipse: a quem seguimos e que imagem de Deus revelamos ao mundo. Na Bíblia, a vocação jamais é um chamado abstrato ou intimista; ela é sempre uma convocação concreta, encarnada na história, atravessada por conflitos, ambiguidades, fracassos e esperanças humanas. Deus chama pessoas reais, em contextos reais, e as envia para dentro da trama da vida, nunca para fora dela.

Nesse horizonte, o Segundo Domingo do Tempo Comum ocupa um lugar estratégico na pedagogia litúrgica da Igreja. Ele prolonga o dinamismo iniciado na Epifania e no Batismo do Senhor, quando Jesus se manifesta publicamente como o Filho amado, reconhecido e enviado pelo Pai. A liturgia, agora, desloca o foco da simples revelação da identidade de Jesus para o impacto dessa revelação na vida dos que o encontram. Trata-se de um tempo em que a comunidade cristã é conduzida a discernir, passo a passo, sua própria identidade, sua missão no mundo e a responsabilidade histórica que brota do seguimento de Jesus, não como ideia religiosa, mas como escolha existencial e compromisso concreto com o Reino.

A liturgia da Palavra deste domingo — Isaías 49,3.5-6; Salmo 39(40); 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34  de  forma um conjunto de rara coerência teológica. Não se trata de leituras justapostas, mas de um verdadeiro itinerário vocacional que articula chamado, envio, identidade, testemunho e compromisso histórico. O Lecionário Romano, ao organizar essas perícopes, revela uma profunda intuição pastoral: não se pode falar de fé sem falar de missão, nem de culto sem falar de responsabilidade social.

O texto de Isaías 49 pertence aos chamados cânticos do Servo do Senhor, elaborados no contexto dramático do exílio babilônico. O povo de Israel experimenta a perda da terra, do templo, da monarquia e das referências religiosas tradicionais que sustentavam sua identidade. Trata-se de uma crise não apenas política, mas teológica: onde está Deus quando tudo parece ruir? É precisamente nesse cenário de fracasso histórico que emerge a figura do Servo, chamado desde o ventre materno não para um projeto individual de sucesso, mas para ser sinal da fidelidade de Deus no meio da ruína. A missão inicialmente dirigida à restauração de Israel se expande para um horizonte universal: “é pouco que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó; eu te farei luz das nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6).

A vocação bíblica, portanto, nunca é privilégio intimista nem fuga espiritualista. Ela é sempre responsabilidade histórica. O Servo não se impõe pela força, não domina, não subjuga. Ele se oferece como mediação de esperança num mundo ferido. Aqui já se delineia uma crítica radical a toda forma de messianismo político-religioso que confunde eleição com superioridade e missão com poder. A eleição bíblica não é para isenção do sofrimento, mas para maior compromisso com a vida dos outros.

O Salmo 39(40) aprofunda essa intuição ao deslocar o centro da experiência religiosa do sacrifício ritual para a obediência existencial. “Sacrifício e oblação não quiseste; abriste, porém, os meus ouvidos” (Sl 40,7). No horizonte bíblico, ouvir é mais do que escutar sons; é deixar-se transformar pela Palavra. O verdadeiro culto não se reduz a práticas exteriores, mas se expressa numa vida que se alinha com a vontade de Deus. Esse salmo, relido à luz da tradição cristã, prepara o caminho para compreender o sentido profundo do Cordeiro de Deus: não como legitimação de uma violência sagrada, mas como expressão máxima de uma entrega livre, consciente e amorosa.

Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo escreve a uma comunidade atravessada por divisões internas, disputas de poder, vaidades espirituais e instrumentalização dos dons. Ao saudá-los como “chamados a ser santos” (1Cor 1,2), ele recoloca o eixo da vida cristã no lugar correto. Antes de qualquer ministério, carisma ou liderança, existe um chamado comum à santidade, que se concretiza na comunhão, na partilha e no serviço. Essa afirmação tem enorme densidade eclesiológica e impede que a figura do Cordeiro seja apropriada por projetos religiosos autorreferenciais, ideológicos ou excludentes. A santidade bíblica não é separação do mundo, mas forma concreta de habitar o mundo à maneira de Deus.

É nesse horizonte que o Evangelho de João proclama Jo 1,29-34. Esse texto ocupa um lugar singular no Lecionário Romano. Ele é proclamado no Segundo Domingo do Tempo Comum do Ano A (reflexão em nosso blog de 2023), no Lecionário Dominical, e também no dia 3 de janeiro, (reflexão aqui  no blog) ainda dentro do Tempo do Natal, no Lecionário Ferial. Essa dupla inserção não é um detalhe técnico, mas uma chave hermenêutica decisiva. A liturgia insiste que o mistério do Cordeiro só pode ser compreendido à luz da Encarnação. O Verbo que se fez carne é o mesmo que tira o pecado do mundo. A salvação não acontece fora da história, mas no interior da carne humana, com suas fragilidades, ambiguidades e contradições.

O Evangelho de João não descreve o batismo de Jesus (liturgia  do domingo passado) como fazem os sinóticos. Ele prefere apresentar o testemunho interpretativo de João Batista. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Essa afirmação concentra em si toda a história da salvação. O símbolo do cordeiro atravessa a Escritura como fio condutor da relação entre Deus e a humanidade. Em Gênesis 22, o cordeiro aparece como substituto no lugar de Isaac, revelando que o Deus bíblico não deseja sacrifícios humanos, mas confiança e vida. No Êxodo, o cordeiro pascal marca a libertação do povo escravizado, quando o sangue nos umbrais das portas se torna sinal de vida em meio à morte (Ex 12). Em Isaías 53, o Servo sofredor é comparado a um cordeiro levado ao matadouro, silencioso diante da violência injusta. João Batista recolhe essas tradições e as relê à luz da pessoa e da missão de Jesus.

Do ponto de vista exegético, a expressão “tirar o pecado do mundo” não se limita à dimensão moral individual. Em João, o “mundo” designa uma realidade atravessada por estruturas de fechamento, mentira, opressão e morte. O pecado é também estrutural, social e histórico. O Cordeiro não vem apenas aliviar culpas pessoais, mas desarticular sistemas que produzem exclusão. Essa leitura encontra forte ressonância nos sinóticos: Jesus cura no sábado, toca o leproso, acolhe o paralítico, senta-se à mesa com publicanos e chama Mateus para segui-lo. Cada gesto rompe fronteiras religiosas e sociais e revela uma prática concreta de libertação.

João Batista ocupa um lugar decisivo nesse processo. Ele afirma não conhecer Jesus até que o Espírito se manifeste. No vocabulário bíblico, conhecer é sempre relacional. João aprende quem é Jesus no dinamismo da experiência espiritual. O Espírito que desce e permanece sobre Jesus evoca o Espírito criador de Gênesis 1, inaugurando uma nova criação. Essa dimensão pneumatológica impede qualquer tentativa de controle da missão. Onde o Espírito é silenciado, a religião se torna rígida, funcional, moralista ou mercantil.

A antropologia bíblica que emerge desse texto revela um ser humano chamado à resposta livre e responsável. Jesus não recruta seguidores por meio de promessas de sucesso, poder ou prosperidade. Ele desperta um desejo que reorganiza o sentido da vida. Psicologicamente, isso exige amadurecimento da fé. Uma espiritualidade baseada em barganhas com Deus infantiliza o sujeito religioso e abre espaço para as teologias da prosperidade e do domínio, que transformam o Evangelho em instrumento de ascensão pessoal e legitimação da desigualdade.

A figura do Cordeiro confronta diretamente as lógicas de violência que estruturam nossas sociedades. Em um país marcado por profundas desigualdades, onde milhões vivem sob insegurança alimentar, a fé no Cordeiro exige indignação ética. Reclamar da simplicidade do alimento enquanto outros passam fome revela uma espiritualidade desconectada da realidade. O Evangelho é claro: Cristo se identifica com os famintos, os doentes e os excluídos (Mt 25,31-46). Qualquer discurso religioso que legitime o desprezo pelos pobres trai o núcleo da fé cristã.

Essa compreensão encontra sólido respaldo na Doutrina Social da Igreja. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma logo no início que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Nos números 63 a 66, o Concílio denuncia sistemas econômicos que absolutizam o lucro e recorda que toda atividade econômica deve estar a serviço da pessoa humana e do bem comum.

Em Rerum Novarum, Leão XIII já afirmava que o trabalho não pode ser tratado como mercadoria (RN 43) e que a dignidade do trabalhador precede o capital. O Papa Francisco retoma e radicaliza essa tradição em Evangelii Gaudium, ao denunciar uma economia que mata (EG 53) e ao afirmar que não se pode confiar cegamente nas forças do mercado (EG 204). Em Fratelli Tutti, ele aprofunda essa crítica ao lembrar que “ninguém se salva sozinho” (FT 32) e que a fraternidade exige processos históricos de encontro, mesmo atravessados por conflitos e desencontros (FT 215).

A liturgia traduz essa teologia em símbolos concretos. O Tempo Comum, marcado pela cor verde, não indica banalidade, mas crescimento paciente e fidelidade cotidiana. O Salmo responsorial expressa a disposição interior do Servo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. Na Eucaristia, a assembleia proclama o Agnus Dei, reconhecendo que o Cordeiro se faz alimento para a vida do mundo. O pecado é nomeado no singular porque a salvação é abrangente e estrutural. Separar altar e mundo é trair o Evangelho.

 Santo Agostinho via no Cordeiro a humildade de Deus que desarma o orgulho humano. João Crisóstomo insistia que a Eucaristia se torna contraditória quando não se prolonga no cuidado com os pobres. A história da Igreja confirma isso no testemunho dos mártires e santos, desde os primeiros cristãos perseguidos pelo Império Romano até figuras como Francisco de Assis, Oscar Romero e Dorothy Stang. Sempre que a Igreja se aliou excessivamente ao poder, perdeu credibilidade profética; sempre que retornou à lógica do Cordeiro, tornou-se sinal de esperança.

O Apocalipse, escrito em contexto de perseguição, apresenta o Cordeiro como aquele que venceu, embora tenha sido imolado (Ap 5,6). A vitória não vem da espada, mas da fidelidade até o fim. Essa imagem desmonta qualquer teologia do domínio que confunda Reino de Deus com poder político ou religioso. “Meu Reino não é deste mundo”, afirma Jesus (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo as lógicas de dominação.

Assim, a proclamação de João 1,29-34 no Segundo Domingo do Tempo Comum e no dia 3 de janeiro recorda que a fé cristã é essencialmente encarnada, histórica e relacional. Seguir o Cordeiro não é aderir a uma ideologia nem refugiar-se em um mundo religioso paralelo, mas assumir a realidade com suas dores e contradições, iluminados pela lógica do amor que se entrega. A pergunta permanece aberta e urgente: conhecemos, de fato, Jesus? E qual Jesus estamos apresentando às nossas comunidades, famílias e espaços sociais?

O Cordeiro de Deus continua passando no meio de nós, silencioso e desarmado, muitas vezes ignorado porque não corresponde às expectativas de poder, sucesso ou espetáculo religioso. Cabe a cada geração reconhecê-lo, apontá-lo e segui-lo, como João, não para se colocar no centro, mas para desviar o olhar de si e conduzi-lo Àquele que vem ao encontro da história ferida. Reconhecer o Cordeiro é um exercício de discernimento espiritual e ético: é aprender a vê-lo onde o mundo prefere não olhar, nos corpos feridos, nas vozes silenciadas, nas periferias humanas e existenciais.

Segui-lo não significa aderir a um fanatismo cego nem a um triunfalismo religioso que promete glória sem cruz. Significa assumir a lógica paradoxal do Evangelho, na qual a força se manifesta na fraqueza, a vitória passa pela entrega e a salvação não nasce da dominação, mas da fidelidade amorosa até o fim. O Cordeiro não impõe, não coage, não manipula; ele se oferece. E é precisamente aí que reside sua potência transformadora.

Por isso, a verdadeira libertação não acontece fora da história nem à margem dos conflitos humanos, mas no coração deles. Ela brota da coragem humilde de quem permanece fiel quando o caminho se estreita, de quem ama sem garantias, de quem se recusa a negociar a dignidade em troca de privilégios religiosos ou políticos. Seguir o Cordeiro é aprender a caminhar com Ele pelos vales da história, acreditando que o amor que se entrega, mesmo ferido, é o único capaz de abrir futuro. É essa fé encarnada, paciente e profética que continua, geração após geração, a mover o mundo por dentro.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 14 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 21,23-27

O Evangelho de Mateus 21,23-27, proclamado na segunda-feira da segunda semana do Advento, não aparece por acaso no itinerário litúrgico deste tempo. O Advento, mais do que um intervalo devocional que antecede o Natal, é uma escola espiritual de espera lúcida, de vigilância crítica e de discernimento profundo. Ele não nos prepara para acolher um Deus genérico, moldado por hábitos religiosos, nem um Messias funcional aos interesses do poder político, econômico ou clerical. Ao contrário, educa o coração e a consciência para reconhecer a origem das vozes que orientam nossa fé, nossas práticas e nossas decisões concretas.

Nesse horizonte, a pergunta dirigida a Jesus no Templo — “Com que autoridade fazes estas coisas?” — deixa de ser apenas um embate entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo e se transforma numa interrogação que atravessa os séculos. Ela chega até nós, comunidades crentes do hoje, como um espelho incômodo: quem, de fato, esperamos neste Advento? De onde procede a autoridade que guia nossas escolhas, sustenta nossos valores e define nossos compromissos? Entre a autoridade que nasce do poder instituído e aquela que brota da fidelidade ao projeto de Deus, o Advento nos coloca diante de uma decisão que não é teórica, mas existencial.

Jesus entra no Templo e ensina. Esse detalhe, aparentemente simples, carrega enorme densidade simbólica. O Templo, em Mateus, é o coração religioso, econômico e político de Israel. Não é apenas um espaço de culto, mas o centro de legitimação do poder, da pureza ritual, da arrecadação, das alianças com Roma. Ensinar ali é reivindicar autoridade. E Jesus o faz sem credenciais oficiais, sem pertencer às elites sacerdotais, sem o selo das escolas rabínicas reconhecidas. Por isso a pergunta dos sumos sacerdotes e anciãos não nasce de uma busca sincera pela verdade, mas de uma tentativa de enquadramento: é preciso saber se Jesus pode ser controlado, rotulado, neutralizado.

A pergunta “quem te deu tal autoridade?” revela uma concepção de religião profundamente marcada pelo status, pela hierarquia e pela autorização institucional. A autoridade, nesse esquema, não brota da verdade nem do serviço à vida, mas do cargo, da linhagem, do reconhecimento do sistema. Jesus, ao perceber a armadilha, não responde diretamente. Ele desloca o eixo da questão e coloca João Batista no centro do debate: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens?”. Com isso, Jesus revela que o verdadeiro problema não é Ele, mas a incapacidade de discernir a origem da autoridade profética.

João Batista surge, então, como chave hermenêutica do texto. João não pertence ao Templo, não ocupa cargo oficial, não se beneficia do sistema religioso. Ele vem do deserto, espaço bíblico da travessia, da purificação e da ruptura com as estruturas opressoras. O deserto é o lugar onde Israel reaprende a depender de Deus e não de suas seguranças (cf. Dt 8). João se inscreve na longa tradição profética que sempre incomodou o poder. Como Amós, que é expulso do santuário por não fazer parte da corte (cf. Am 7,10-17), como Jeremias, acusado de traição por denunciar a falsa segurança religiosa (cf. Jr 26), João encarna uma autoridade que nasce da fidelidade ao chamado e da coerência entre palavra e vida.

Os líderes religiosos sabem exatamente o que está em jogo. Reconhecer João como profeta significaria admitir que Deus fala fora dos esquemas oficiais e, pior ainda, reconhecer que eles próprios rejeitaram essa voz. Negar João, por outro lado, significaria enfrentar o povo, que o reconhece como profeta. Diante desse impasse, eles escolhem a saída mais confortável: “não sabemos”. Essa resposta não é sinal de humildade, mas de cálculo. É o silêncio estratégico de quem prefere perder a verdade a perder privilégios.

Aqui o evangelho toca numa ferida ética profunda. O “não sabemos” é a linguagem da neutralidade cúmplice. É a recusa de se posicionar quando a verdade exige conversão. A Carta de Tiago afirma com clareza: “Quem sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4,17). O silêncio, nesse caso, não é ausência de palavra, mas escolha consciente pela manutenção do status quo. Quantas vezes também nós, hoje, preferimos não saber para não precisar mudar? Quantas vezes chamamos de prudência aquilo que, na verdade, é medo de perder lugar, prestígio ou segurança?

Jesus, então, responde: “Também eu não vos direi com que autoridade faço estas coisas”. Não se trata de evasão, mas de juízo. Quem não reconhece a verdade quando ela se manifesta não está apto a recebê-la em plenitude. A autoridade de Jesus não pode ser explicada nos termos de um sistema que já perdeu a capacidade de escuta. Como afirma Mateus no final do Sermão da Montanha, o povo reconhecia que Ele ensinava “como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Sua autoridade não se impõe pelo medo, mas se revela pela força da verdade que liberta.

Os evangelhos sinóticos preservam essa mesma cena com pequenas variações. Marcos 11,27-33 situa o confronto logo após a expulsão dos vendilhões do Templo, deixando claro que a questão da autoridade está ligada à denúncia de um sistema religioso transformado em mercado. Lucas 20,1-8 sublinha que Jesus ensinava o povo e anunciava a Boa Nova, reforçando que sua autoridade nasce do serviço à vida. Em todos os casos, a pergunta sobre a autoridade revela o conflito entre carisma e instituição, tema recorrente na história religiosa. Esse embate pode ser compreendido à luz da tensão entre carisma e estrutura. O carisma nasce da experiência fundante, da força simbólica que mobiliza consciências. A instituição é necessária para organizar, mas corre sempre o risco de absolutizar suas formas e sufocar o espírito. Quando a instituição deixa de servir à vida, passa a servir a si mesma. É nesse momento que o profeta se torna incômodo.

O texto revela o medo profundo da perda de controle. A identidade das autoridades religiosas está colada ao cargo que ocupam. Reconhecer João significaria admitir que erraram, que resistiram à ação de Deus. Para evitar essa dor, escolhem a negação. Trata-se de um clássico mecanismo de defesa: quando a verdade ameaça a imagem que construímos de nós mesmos, preferimos negar a realidade. O evangelho nos pergunta se nossa fé é suficientemente madura para suportar a verdade que nos desinstala. Mateus 21,23-27 denuncia toda forma de fé baseada no autoritarismo religioso. A autoridade de Deus não se confunde com poder, dominação ou sucesso. Por isso esse texto confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio, que associam a bênção divina ao crescimento numérico, ao acúmulo de bens e à influência política. João não tem nada disso. Jesus também não. Ambos terminam perseguidos e mortos. Segundo a lógica do mercado religioso, seriam fracassados; segundo o Evangelho, são a revelação mais autêntica de Deus.

A fé transformada em mercadoria é sempre uma fé que exige credenciais visíveis, resultados mensuráveis e obediência cega. Jesus desmonta essa lógica ao se recusar a legitimar sua autoridade nos termos do sistema. Ele não vende sua palavra, não negocia sua missão, não transforma Deus em produto. Isso confronta também o individualismo religioso, que reduz a fé a uma experiência privada, desconectada da justiça, da responsabilidade social e do sofrimento histórico dos pobres. O clericalismo, entendido como apropriação da autoridade espiritual para fins de domínio, é frontalmente desmascarado por esse evangelho. O Concílio Vaticano II recorda que todo o povo de Deus participa do sensus fidei e é chamado a discernir a ação do Espírito (cf. Lumen Gentium, 12). O Papa Francisco denuncia o clericalismo como uma perversão da autoridade, pois transforma o serviço em privilégio e o ministério em poder. Em Evangelii Gaudium, ele afirma que uma fé autêntica implica sempre o desejo de transformar a realidade à luz do Reino.

 Orígenes afirmava que João é a voz que prepara, mas Cristo é a Palavra; rejeitar a voz é fechar-se à Palavra. Santo Agostinho insistia que a verdadeira autoridade nasce da verdade que habita em Cristo e ressoa no coração humano quando este não está endurecido. João Crisóstomo via nesse episódio a denúncia de uma religião que, por medo do povo e do poder, perde a coragem da verdade.

O Confronto no Templo antecipa o destino de Jesus. Questionar sua autoridade é o primeiro passo para eliminá-lo. A cruz não é um acidente, mas o resultado lógico de uma autoridade que desmascara as estruturas injustas. Por isso esse texto não é apenas uma catequese sobre o passado, mas um chamado à conversão no presente. E Mateus 21,23-27 nos obriga a perguntar: de onde vem a autoridade que orienta nossas escolhas? Do Evangelho ou do mercado? Da consciência iluminada pela Palavra ou do medo de perder pertencimento? Do serviço ou do domínio? O Advento nos coloca em estado de vigília, lembrando que esperar o Messias é permitir que Ele desestabilize nossas falsas seguranças.

Antes de chegar a esse ponto decisivo, o evangelho ainda nos convida a olhar com mais atenção para o próprio Jesus no interior do Templo. Ele não responde como alguém acuado, nem como quem teme perder espaço. Sua serenidade revela uma liberdade interior profunda. Jesus não depende do reconhecimento das autoridades para ser quem é. Aqui há um ensinamento espiritual decisivo: quando a identidade está enraizada na relação com Deus, a necessidade de aprovação perde sua força. Isso confronta diretamente uma religiosidade baseada na validação externa, tão comum hoje, em que ministérios, lideranças e até comunidades inteiras vivem reféns de números, visibilidade e prestígio.

Nesse sentido, a pergunta sobre a autoridade revela também uma antropologia implícita. O ser humano religioso pode construir sua identidade a partir do chamado ou a partir do cargo. Quando o cargo se torna fundamento da identidade, qualquer questionamento é vivido como ameaça existencial. É por isso que as autoridades reagem com medo e cálculo. A fé, então, deixa de ser caminho de libertação e se transforma em mecanismo de autopreservação. Jesus, ao contrário, vive uma liberdade que nasce da filiação: Ele sabe de onde vem e para onde vai (cf. Jo 8,14). Essa consciência o torna incontrolável.

A ciência histórica ajuda a compreender ainda mais a radicalidade desse gesto. O Templo de Jerusalém, no tempo de Jesus, era também um centro financeiro. As elites sacerdotais estavam profundamente ligadas à aristocracia local e ao poder romano. Questionar a autoridade religiosa significava, inevitavelmente, questionar um sistema econômico e político. Por isso, a pergunta dirigida a Jesus não é apenas teológica; é uma tentativa de neutralização política. A fé que Jesus anuncia ameaça os alicerces de um sistema que se alimenta da desigualdade e da sacralização do poder. Essa dimensão histórica ilumina o modo como o evangelho continua atual. Sempre que a fé se alia de forma acrítica aos poderes econômicos e políticos, ela perde sua capacidade profética. Sempre que líderes religiosos se tornam gestores do sagrado a serviço de interesses particulares, repetem o gesto daqueles que perguntaram a Jesus com que autoridade Ele falava, não para aprender, mas para silenciar. O evangelho nos obriga a perguntar se nossas comunidades são espaços de discernimento ou de reprodução de privilégios.

Do ponto de vista pastoral, esse texto desafia profundamente a formação da consciência cristã. Não basta repetir fórmulas de fé ou defender tradições se não somos capazes de discernir a ação de Deus na história concreta. O sensus fidei, recordado pelo Concílio Vaticano II, não é uma opinião subjetiva, mas a capacidade do povo de Deus de reconhecer a voz do Espírito quando ela se manifesta, mesmo fora dos esquemas esperados. Ignorar essa dimensão é reduzir a fé a um sistema fechado, incapaz de conversão.

A filosofia ajuda a perceber que a pergunta sobre a autoridade é, no fundo, uma pergunta sobre o fundamento da verdade. Vivemos tempos em que a verdade é frequentemente subordinada ao interesse, à ideologia ou ao lucro. Nesse contexto, o “não sabemos” das autoridades religiosas encontra eco em discursos contemporâneos que relativizam tudo para não assumir compromissos éticos. O evangelho, porém, insiste que a verdade não é neutra. Ela exige posicionamento, escolha e, muitas vezes, ruptura.

Essa ruptura tem um custo. João Batista pagou com a vida. Jesus também. O martírio, aqui, não é buscado como heroísmo, mas assumido como consequência de uma fidelidade radical. Isso questiona profundamente uma espiritualidade do conforto, que promete bênçãos sem cruz, glória sem entrega, Reino sem justiça. O seguimento de Jesus, como lembra Mateus em outros momentos, passa pela disposição de perder para ganhar, de morrer para viver (cf. Mt 16,24-26).

A tradição patrística insistiu que esse texto não deve ser lido apenas como denúncia das autoridades do passado, mas como advertência permanente à Igreja. Santo Agostinho alertava que o maior perigo não vem dos inimigos externos, mas da corrupção interna da fé quando ela se acomoda ao poder. Orígenes lembrava que a Palavra de Deus continua sendo interrogada em cada geração: ela será acolhida ou será submetida a critérios que a esvaziam?

Nesse horizonte, o Advento se revela como tempo privilegiado de purificação do olhar. Esperar o Messias é desaprender as falsas imagens de Deus que legitimam opressões e reaprender a reconhecer Sua presença nos sinais humildes da história. João aponta para um Deus que não se deixa domesticar; Jesus encarna esse Deus que entra no Templo, mas não se submete ao Templo. Essa tensão é constitutiva da fé bíblica.

No fim, a pergunta permanece aberta e ecoa como juízo e promessa: a autoridade que seguimos vem do céu ou dos homens? A resposta não se dá apenas com palavras, mas com a vida. É essa respostaque decide que tipo de fé vivemos, que tipo de Igreja construímos e que tipo de humanidade ajudamos a formar.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Olhando novamente para Lucas 14,25-33.

 
O texto do Evangelho segundo Lucas 14,25-33 é proclamado no 23º Domingo do Tempo Comum com reflexão  em noss blog em 2022 e 2025 também na 31ª quarta-feira do mesmo tempo litúrgico. Ele nos apresenta um Jesus radical, que exige de seus seguidores um compromisso total com o projeto do Reino de Deus. Trata-se de um dos textos mais duros e, ao mesmo tempo, mais libertadores da tradição lucana, pois nos obriga a perguntar: somos apenas frequentadores de igreja, participantes de grupos e pastorais, ou realmente discípulos que vivem o mistério de construir o Reino aqui e agora? O texto nos provoca a olhar para dentro e ao redor, e, à luz de João 15,4-6.14-15, compreender que o discipulado é permanência e fidelidade, não entusiasmo passageiro.

Lucas nos apresenta Jesus cercado por uma grande multidão. É significativo que, ao invés de aproveitar o momento de popularidade, Ele se volta para essas pessoas e lança um desafio quase desconcertante: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, e até mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” A palavra “odiar”, na língua semítica, não expressa ódio afetivo, mas prioridade. Significa “colocar em segundo lugar”. Jesus está dizendo que, para segui-lo, é preciso inverter a lógica dos laços e dos valores. Nada pode estar acima do Reino.

A multidão, movida talvez pelo fascínio dos milagres e da novidade do pregador da Galileia, é confrontada com o real sentido do seguimento. Jesus desilude as ilusões. Ele não quer fãs, mas fiéis; não quer admiradores, mas discípulos. Por isso fala da cruz, da renúncia, do cálculo. “Quem não carrega sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo.” É uma advertência à coerência. Jesus não quer seguidores movidos pela emoção, pela busca de recompensas, ou pelo conforto religioso. Ele quer gente consciente, capaz de planejar a construção e discernir o combate.

O Evangelho nos ensina, assim, que seguir Cristo é entrar em um processo de maturidade espiritual, que envolve planejamento, discernimento e coragem. Ser discípulo é estar mergulhado na realidade, com todas as suas dores, e nela testemunhar o amor de Deus. Esse Cristo que muitos usam para justificar discursos de poder, autoritarismo ou vaidades religiosas, nada tem a ver com o Jesus do Evangelho. Ele não está nos sapateados religiosos, nos templos lotados de emoção, nem nas mesas fartas onde a fé é negociada.

Ao ouvir esse texto, lembramos dos profetas e santos que escolheram a coerência com o Evangelho acima da aparência de santidade. Recordamos Dom Adriano Hipólito, que dizia que o céu começa aqui; lembramos de Irmã Dulce dos Pobres, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Valdir Calheiros, Dom Helder Câmara, Desmond Tutu, Martin Luther King, Padre Júlio Lancellotti, Padre Renato Chiera, e tantos outros discípulos anônimos de nossas comunidades que, pela renúncia cotidiana, testemunham o Reino. Citamo-los sem títulos eclesiásticos porque muitos que ocupam cargos na Igreja têm muito de cargo e pouco de Cristo. Como dizia um velho padre, há religiosos tão presos ao próprio status que já não reconhecem o Cristo Servo, chagado, ferido, crucificado — e, pior ainda, acabam gritando com a multidão: “Crucifica-o!”.

O Reino inaugurado por Jesus exige coerência. O contexto histórico de Lucas mostra uma comunidade perseguida e pobre, marcada por tensões com o Império e com o judaísmo oficial. Dizer “sou discípulo” custava caro. Era pôr-se em rota de colisão com o poder. Por isso, o evangelista insiste na necessidade de calcular o custo da construção e da guerra. A torre é símbolo do projeto de fé: quem começa a construir deve terminar. A guerra é metáfora da luta interior, da batalha contra o ego e as estruturas de pecado que escravizam a alma e a sociedade.

Nesse sentido, a cruz é o preço da liberdade. A palavra “renunciar”, usada por Jesus, vem do grego apotássomai, que significa “romper alianças”. O discipulado, então, é rompimento com tudo que nos prende à lógica do mundo — o egoísmo, o poder, o lucro, a vaidade — e adesão a uma nova aliança de amor. Paulo expressará isso em Filipenses 3,8: “Tudo considero perda diante da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.”

Do ponto de vista psicológico, o chamado de Jesus é uma travessia do “ter” para o “ser”. O discípulo amadurece quando deixa de medir a vida pelo acúmulo de bens ou pela aprovação social. A sociologia denuncia essa cultura de consumo e espetáculo, onde até a fé se torna produto. Lucas, o evangelista dos pobres, confronta a religião do prestígio com a espiritualidade da compaixão. A filosofia, por sua vez, recorda que a liberdade exige escolha, e toda escolha implica renúncia. O amor verdadeiro é sempre renúncia: não por dor, mas por coerência.

A teologia afirma que o seguimento de Cristo é ato de liberdade e amor. E o amor, como ensina Santo Agostinho, “não pesa o que dá, mas se alegra em dar”. Amar Cristo acima de tudo é viver em estado de dom. É negar-se a si mesmo para que o Reino floresça nos outros. É resistir ao clericalismo, às vaidades religiosas e ao carreirismo eclesiástico que transformam o altar em trono.

As teologias da prosperidade e do domínio distorcem o Evangelho porque vendem um Cristo sem cruz, sem periferia, sem compaixão. Prometem bênçãos como prêmio, transformam a fé em investimento e o altar em vitrine. Esquecem que Jesus disse: “Ai de vós, ricos, porque já recebestes a vossa consolação” (Lc 6,24). A fé-mercadoria é a negação do discipulado. A Igreja não é empresa; o Evangelho não é produto. Quando a espiritualidade se torna performance e o pastor se torna astro, o Cristo desaparece.

Jesus, ao pedir que calculemos o custo, não quer desanimar, mas purificar a motivação. O discípulo consciente sabe que a cruz não é adereço, mas caminho. Ele entende que o Reino é construído com suor, lágrimas e esperança. Na hermenêutica do texto, “carregar a cruz” não é buscar sofrimento, mas aceitar a solidariedade com os crucificados do mundo — os pobres, os injustiçados, os invisíveis.

O Magistério da Igreja ecoa essa verdade. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes 24, recorda: “O homem não se realiza plenamente senão pelo dom sincero de si mesmo.” E a Evangelii Gaudium insiste: “A missão é paixão por Jesus e paixão pelo seu povo.” Seguir Cristo é sair de si, é viver uma mística do encontro, como pede Fratelli Tutti: “O amor constrói pontes e nós somos feitos para o encontro” (n. 215).

Na patrística, São João Crisóstomo dizia: “Nada há mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros.” E Santo Inácio de Antioquia lembrava: “O cristianismo não consiste em palavras persuasivas, mas em grandeza de alma quando somos odiados.” Eis o eco do radicalismo de Jesus: uma fé que não se acomoda, que prefere a coerência à conveniência.

No horizonte antropológico, essa renúncia é um chamado à plenitude humana. Renunciar a tudo é reencontrar-se. É libertar-se da posse para viver o dom. É tornar-se humano à imagem do Cristo Servo. É uma espiritualidade encarnada, ecológica, política, que cuida da vida e da criação. O Papa Francisco, em Laudato Si’, nos convida a essa conversão integral — espiritual e ecológica — que nasce da compaixão.

O clericalismo, ao contrário, é a antítese do Evangelho. É a idolatria do poder revestida de piedade. Jesus desmonta essa farsa ao lavar os pés dos discípulos. Quem quiser ser grande, que sirva. A autoridade no Reino é o serviço, não o prestígio. O padre, o bispo, o teólogo, o leigo — todos são chamados à mesma conversão: descer do pedestal e caminhar com o povo.

A cruz, neste contexto, é sinal de fecundidade. Ela é o ponto onde o amor toca a ferida do mundo e a transforma em esperança. O seguimento de Cristo é permanecer nesse ponto, entre a dor e a ressurreição. É ser fiel quando tudo parece ruir. É amar quando o amor parece inútil.

O radicalismo de Jesus é o caminho da liberdade. O cálculo do custo é discernimento da fé. A renúncia é o outro nome do amor maduro, aquele que sabe permanecer. O Reino não se constrói com discursos nem com marketing religioso, mas com gestos concretos de justiça e misericórdia. Jesus não busca multidões; busca fidelidade. Ele não quer templos cheios de ruído, mas corações inteiros.E quando a noite da fé chega, quando tudo parece se apagar, o discípulo se recorda: “Quem não carrega sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,27) É essa lembrança que o sustenta — não uma cruz de peso, mas de sentido; não uma fé de emoção, mas de permanência..

Assim, o convite de Jesus é radical porque é libertador. O discipulado é o caminho dos que amam até o fim, dos que constroem o Reino nas margens da história, dos que se levantam a cada queda e continuam acreditando que o amor é mais forte do que a morte.

DNonato – Teólogo do Cotidiano