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sábado, 17 de janeiro de 2026

Um outro Olhar sobre João 1,29-34. - 2⁰ domingo do tempo comum

 
Vivemos, na dinâmica do Ano Litúrgico, um tempo densamente vocacional. Não se trata apenas de refletir sobre ministérios específicos ou estados de vida, mas de retomar a pergunta decisiva que atravessa toda a Escritura, de Abraão ao Apocalipse: a quem seguimos e que imagem de Deus revelamos ao mundo. Na Bíblia, a vocação jamais é um chamado abstrato ou intimista; ela é sempre uma convocação concreta, encarnada na história, atravessada por conflitos, ambiguidades, fracassos e esperanças humanas. Deus chama pessoas reais, em contextos reais, e as envia para dentro da trama da vida, nunca para fora dela.

Nesse horizonte, o Segundo Domingo do Tempo Comum ocupa um lugar estratégico na pedagogia litúrgica da Igreja. Ele prolonga o dinamismo iniciado na Epifania e no Batismo do Senhor, quando Jesus se manifesta publicamente como o Filho amado, reconhecido e enviado pelo Pai. A liturgia, agora, desloca o foco da simples revelação da identidade de Jesus para o impacto dessa revelação na vida dos que o encontram. Trata-se de um tempo em que a comunidade cristã é conduzida a discernir, passo a passo, sua própria identidade, sua missão no mundo e a responsabilidade histórica que brota do seguimento de Jesus, não como ideia religiosa, mas como escolha existencial e compromisso concreto com o Reino.

A liturgia da Palavra deste domingo — Isaías 49,3.5-6; Salmo 39(40); 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34  de  forma um conjunto de rara coerência teológica. Não se trata de leituras justapostas, mas de um verdadeiro itinerário vocacional que articula chamado, envio, identidade, testemunho e compromisso histórico. O Lecionário Romano, ao organizar essas perícopes, revela uma profunda intuição pastoral: não se pode falar de fé sem falar de missão, nem de culto sem falar de responsabilidade social.

O texto de Isaías 49 pertence aos chamados cânticos do Servo do Senhor, elaborados no contexto dramático do exílio babilônico. O povo de Israel experimenta a perda da terra, do templo, da monarquia e das referências religiosas tradicionais que sustentavam sua identidade. Trata-se de uma crise não apenas política, mas teológica: onde está Deus quando tudo parece ruir? É precisamente nesse cenário de fracasso histórico que emerge a figura do Servo, chamado desde o ventre materno não para um projeto individual de sucesso, mas para ser sinal da fidelidade de Deus no meio da ruína. A missão inicialmente dirigida à restauração de Israel se expande para um horizonte universal: “é pouco que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó; eu te farei luz das nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6).

A vocação bíblica, portanto, nunca é privilégio intimista nem fuga espiritualista. Ela é sempre responsabilidade histórica. O Servo não se impõe pela força, não domina, não subjuga. Ele se oferece como mediação de esperança num mundo ferido. Aqui já se delineia uma crítica radical a toda forma de messianismo político-religioso que confunde eleição com superioridade e missão com poder. A eleição bíblica não é para isenção do sofrimento, mas para maior compromisso com a vida dos outros.

O Salmo 39(40) aprofunda essa intuição ao deslocar o centro da experiência religiosa do sacrifício ritual para a obediência existencial. “Sacrifício e oblação não quiseste; abriste, porém, os meus ouvidos” (Sl 40,7). No horizonte bíblico, ouvir é mais do que escutar sons; é deixar-se transformar pela Palavra. O verdadeiro culto não se reduz a práticas exteriores, mas se expressa numa vida que se alinha com a vontade de Deus. Esse salmo, relido à luz da tradição cristã, prepara o caminho para compreender o sentido profundo do Cordeiro de Deus: não como legitimação de uma violência sagrada, mas como expressão máxima de uma entrega livre, consciente e amorosa.

Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo escreve a uma comunidade atravessada por divisões internas, disputas de poder, vaidades espirituais e instrumentalização dos dons. Ao saudá-los como “chamados a ser santos” (1Cor 1,2), ele recoloca o eixo da vida cristã no lugar correto. Antes de qualquer ministério, carisma ou liderança, existe um chamado comum à santidade, que se concretiza na comunhão, na partilha e no serviço. Essa afirmação tem enorme densidade eclesiológica e impede que a figura do Cordeiro seja apropriada por projetos religiosos autorreferenciais, ideológicos ou excludentes. A santidade bíblica não é separação do mundo, mas forma concreta de habitar o mundo à maneira de Deus.

É nesse horizonte que o Evangelho de João proclama Jo 1,29-34. Esse texto ocupa um lugar singular no Lecionário Romano. Ele é proclamado no Segundo Domingo do Tempo Comum do Ano A (reflexão em nosso blog de 2023), no Lecionário Dominical, e também no dia 3 de janeiro, (reflexão aqui  no blog) ainda dentro do Tempo do Natal, no Lecionário Ferial. Essa dupla inserção não é um detalhe técnico, mas uma chave hermenêutica decisiva. A liturgia insiste que o mistério do Cordeiro só pode ser compreendido à luz da Encarnação. O Verbo que se fez carne é o mesmo que tira o pecado do mundo. A salvação não acontece fora da história, mas no interior da carne humana, com suas fragilidades, ambiguidades e contradições.

O Evangelho de João não descreve o batismo de Jesus (liturgia  do domingo passado) como fazem os sinóticos. Ele prefere apresentar o testemunho interpretativo de João Batista. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Essa afirmação concentra em si toda a história da salvação. O símbolo do cordeiro atravessa a Escritura como fio condutor da relação entre Deus e a humanidade. Em Gênesis 22, o cordeiro aparece como substituto no lugar de Isaac, revelando que o Deus bíblico não deseja sacrifícios humanos, mas confiança e vida. No Êxodo, o cordeiro pascal marca a libertação do povo escravizado, quando o sangue nos umbrais das portas se torna sinal de vida em meio à morte (Ex 12). Em Isaías 53, o Servo sofredor é comparado a um cordeiro levado ao matadouro, silencioso diante da violência injusta. João Batista recolhe essas tradições e as relê à luz da pessoa e da missão de Jesus.

Do ponto de vista exegético, a expressão “tirar o pecado do mundo” não se limita à dimensão moral individual. Em João, o “mundo” designa uma realidade atravessada por estruturas de fechamento, mentira, opressão e morte. O pecado é também estrutural, social e histórico. O Cordeiro não vem apenas aliviar culpas pessoais, mas desarticular sistemas que produzem exclusão. Essa leitura encontra forte ressonância nos sinóticos: Jesus cura no sábado, toca o leproso, acolhe o paralítico, senta-se à mesa com publicanos e chama Mateus para segui-lo. Cada gesto rompe fronteiras religiosas e sociais e revela uma prática concreta de libertação.

João Batista ocupa um lugar decisivo nesse processo. Ele afirma não conhecer Jesus até que o Espírito se manifeste. No vocabulário bíblico, conhecer é sempre relacional. João aprende quem é Jesus no dinamismo da experiência espiritual. O Espírito que desce e permanece sobre Jesus evoca o Espírito criador de Gênesis 1, inaugurando uma nova criação. Essa dimensão pneumatológica impede qualquer tentativa de controle da missão. Onde o Espírito é silenciado, a religião se torna rígida, funcional, moralista ou mercantil.

A antropologia bíblica que emerge desse texto revela um ser humano chamado à resposta livre e responsável. Jesus não recruta seguidores por meio de promessas de sucesso, poder ou prosperidade. Ele desperta um desejo que reorganiza o sentido da vida. Psicologicamente, isso exige amadurecimento da fé. Uma espiritualidade baseada em barganhas com Deus infantiliza o sujeito religioso e abre espaço para as teologias da prosperidade e do domínio, que transformam o Evangelho em instrumento de ascensão pessoal e legitimação da desigualdade.

A figura do Cordeiro confronta diretamente as lógicas de violência que estruturam nossas sociedades. Em um país marcado por profundas desigualdades, onde milhões vivem sob insegurança alimentar, a fé no Cordeiro exige indignação ética. Reclamar da simplicidade do alimento enquanto outros passam fome revela uma espiritualidade desconectada da realidade. O Evangelho é claro: Cristo se identifica com os famintos, os doentes e os excluídos (Mt 25,31-46). Qualquer discurso religioso que legitime o desprezo pelos pobres trai o núcleo da fé cristã.

Essa compreensão encontra sólido respaldo na Doutrina Social da Igreja. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma logo no início que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Nos números 63 a 66, o Concílio denuncia sistemas econômicos que absolutizam o lucro e recorda que toda atividade econômica deve estar a serviço da pessoa humana e do bem comum.

Em Rerum Novarum, Leão XIII já afirmava que o trabalho não pode ser tratado como mercadoria (RN 43) e que a dignidade do trabalhador precede o capital. O Papa Francisco retoma e radicaliza essa tradição em Evangelii Gaudium, ao denunciar uma economia que mata (EG 53) e ao afirmar que não se pode confiar cegamente nas forças do mercado (EG 204). Em Fratelli Tutti, ele aprofunda essa crítica ao lembrar que “ninguém se salva sozinho” (FT 32) e que a fraternidade exige processos históricos de encontro, mesmo atravessados por conflitos e desencontros (FT 215).

A liturgia traduz essa teologia em símbolos concretos. O Tempo Comum, marcado pela cor verde, não indica banalidade, mas crescimento paciente e fidelidade cotidiana. O Salmo responsorial expressa a disposição interior do Servo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. Na Eucaristia, a assembleia proclama o Agnus Dei, reconhecendo que o Cordeiro se faz alimento para a vida do mundo. O pecado é nomeado no singular porque a salvação é abrangente e estrutural. Separar altar e mundo é trair o Evangelho.

 Santo Agostinho via no Cordeiro a humildade de Deus que desarma o orgulho humano. João Crisóstomo insistia que a Eucaristia se torna contraditória quando não se prolonga no cuidado com os pobres. A história da Igreja confirma isso no testemunho dos mártires e santos, desde os primeiros cristãos perseguidos pelo Império Romano até figuras como Francisco de Assis, Oscar Romero e Dorothy Stang. Sempre que a Igreja se aliou excessivamente ao poder, perdeu credibilidade profética; sempre que retornou à lógica do Cordeiro, tornou-se sinal de esperança.

O Apocalipse, escrito em contexto de perseguição, apresenta o Cordeiro como aquele que venceu, embora tenha sido imolado (Ap 5,6). A vitória não vem da espada, mas da fidelidade até o fim. Essa imagem desmonta qualquer teologia do domínio que confunda Reino de Deus com poder político ou religioso. “Meu Reino não é deste mundo”, afirma Jesus (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo as lógicas de dominação.

Assim, a proclamação de João 1,29-34 no Segundo Domingo do Tempo Comum e no dia 3 de janeiro recorda que a fé cristã é essencialmente encarnada, histórica e relacional. Seguir o Cordeiro não é aderir a uma ideologia nem refugiar-se em um mundo religioso paralelo, mas assumir a realidade com suas dores e contradições, iluminados pela lógica do amor que se entrega. A pergunta permanece aberta e urgente: conhecemos, de fato, Jesus? E qual Jesus estamos apresentando às nossas comunidades, famílias e espaços sociais?

O Cordeiro de Deus continua passando no meio de nós, silencioso e desarmado, muitas vezes ignorado porque não corresponde às expectativas de poder, sucesso ou espetáculo religioso. Cabe a cada geração reconhecê-lo, apontá-lo e segui-lo, como João, não para se colocar no centro, mas para desviar o olhar de si e conduzi-lo Àquele que vem ao encontro da história ferida. Reconhecer o Cordeiro é um exercício de discernimento espiritual e ético: é aprender a vê-lo onde o mundo prefere não olhar, nos corpos feridos, nas vozes silenciadas, nas periferias humanas e existenciais.

Segui-lo não significa aderir a um fanatismo cego nem a um triunfalismo religioso que promete glória sem cruz. Significa assumir a lógica paradoxal do Evangelho, na qual a força se manifesta na fraqueza, a vitória passa pela entrega e a salvação não nasce da dominação, mas da fidelidade amorosa até o fim. O Cordeiro não impõe, não coage, não manipula; ele se oferece. E é precisamente aí que reside sua potência transformadora.

Por isso, a verdadeira libertação não acontece fora da história nem à margem dos conflitos humanos, mas no coração deles. Ela brota da coragem humilde de quem permanece fiel quando o caminho se estreita, de quem ama sem garantias, de quem se recusa a negociar a dignidade em troca de privilégios religiosos ou políticos. Seguir o Cordeiro é aprender a caminhar com Ele pelos vales da história, acreditando que o amor que se entrega, mesmo ferido, é o único capaz de abrir futuro. É essa fé encarnada, paciente e profética que continua, geração após geração, a mover o mundo por dentro.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre João 1,29-34

A perícope de João 1,29-34 situa-se no limiar entre o tempo do Natal e a manifestação plena do mistério de Cristo. Na liturgia, este texto é proclamado no dia 3 de janeiro, ainda no ciclo do Natal, como preparação imediata para a Epifania do Senhor, quando a Igreja contempla a revelação de Jesus às nações. Ao mesmo tempo, a mesma passagem retorna com força no 2º Domingo do Tempo Comum, Ano B, já fora do clima natalino, indicando que a identidade de Jesus como Cordeiro de Deus não é um dado restrito ao início do Evangelho, mas um eixo permanente da fé cristã. A liturgia, com sua pedagogia própria, insiste: aquilo que se anuncia no início precisa ser continuamente reaprendido no caminho, porque a fé não é um ponto de chegada, mas um processo de reconhecimento que atravessa a história e a vida concreta.
O Evangelho de João não apresenta o batismo de Jesus de forma narrativa, como fazem os sinóticos, mas o retoma a partir do testemunho de João Batista. O foco não está no gesto ritual em si, mas na interpretação teológica do acontecimento. Antes do milagre, antes do sinal, antes do discurso, há um testemunho. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Não se trata de uma frase devocional nem de um título piedoso criado para alimentar a religiosidade popular; trata-se de uma chave hermenêutica para compreender toda a missão de Jesus. João Batista não aponta para si, não constrói um movimento próprio, não capitaliza seguidores, não se apropria do sagrado; ele indica outro, desloca o centro, desinstala expectativas. Aqui já se delineia uma crítica profunda a toda forma de liderança religiosa autorreferencial, clericalista ou messiânica no sentido político-militar. O verdadeiro profeta não se coloca como fim, mas como sinal, e sabe desaparecer para que o Outro apareça.
A imagem do cordeiro carrega uma densidade simbólica que atravessa toda a Escritura como memória ferida e esperança aberta. No horizonte do Antigo Testamento, ressoam pelo menos três grandes camadas de sentido que João não inventa, mas recolhe e ressignifica. 
 
  camada remete a Gênesis 22, o sacrifício de Isaac. Abraão sobe o monte disposto a entregar o filho da promessa, e Isaac pergunta: “Onde está o cordeiro para o holocausto?” (Gn 22,7). A resposta — “Deus providenciará o cordeiro”  permanece em suspensão, como uma pergunta que atravessa a história bíblica. No Evangelho de João, essa pergunta antiga encontra uma resposta paradoxal e escandalosa: o próprio Filho é o Cordeiro. Mas isso não revela um Deus sádico que exige a morte, e sim um Deus que entra na história humana e assume, Ele mesmo, o custo da fidelidade ao amor. Deus não se alimenta da morte; Ele a atravessa para vencê-la por dentro.

camada simbólica vem do Êxodo. O cordeiro pascal, imolado e cujo sangue marca as portas, torna-se sinal de libertação (Ex 12). Não é um rito mágico, mas um gesto que implica decisão, ruptura, travessia. Comer o cordeiro é aceitar sair do Egito, abandonar a segurança da escravidão e enfrentar o risco da liberdade. João escreve para comunidades profundamente marcadas pela memória judaica e pela experiência pascal. Ao chamar Jesus de Cordeiro de Deus, o evangelista afirma que a libertação definitiva não se reduz a uma saída geográfica, étnica ou política, mas toca a raiz do pecado que estrutura relações, sistemas e consciências. Não se trata apenas de um pecado individual, mas do “pecado do mundo”, isto é, de uma lógica coletiva de morte, exclusão e dominação que se normaliza e se sacraliza ao longo da história.

camada ecoa o Servo Sofredor de Isaías: “como cordeiro levado ao matadouro” (Is 53,7). Aqui, a força não está na violência reativa, mas na fidelidade silenciosa que desmascara o mal. O Servo não vence pela espada, mas pela entrega; não impõe, mas revela. João Batista, ao apontar Jesus, rompe com a expectativa de um messias guerreiro, tão presente em diversos grupos do judaísmo do século I, como os zelotas e outros movimentos messiânicos armados   Essa ruptura continua escandalosa hoje, sobretudo em contextos onde o nome de Jesus é instrumentalizado para justificar discursos de ódio, armamentismo, nacionalismos religiosos e projetos de poder que se pretendem sagrados.

Quando João proclama que o Cordeiro “tira o pecado do mundo”, ele desloca radicalmente a compreensão religiosa do mal. O pecado, aqui, não é apenas transgressão moral individual, mas uma realidade histórica, estrutural e coletiva. O “mundo” (kosmos), no Evangelho de João, não é a criação amada por Deus, mas a ordem que se fecha sobre si mesma, absolutiza poder, riqueza e prestígio, e transforma a vida em mercadoria. O pecado do mundo é a organização sistemática da morte. Por isso, a ação do Cordeiro não se limita ao perdão privado, mas atinge as engrenagens profundas que sustentam injustiças normalizadas.
Paulo desenvolve essa intuição na Carta aos Romanos ao falar do pecado como uma força que reina (Rm 5,21), que escraviza e condiciona a humanidade. A criação inteira geme e sofre como em dores de parto (Rm 8,22), não porque Deus a tenha abandonado, mas porque está submetida a uma lógica que a corrói por dentro. O Cordeiro entra nesse gemido coletivo, não como juiz distante, mas como solidário radical. Ele não salva à distância; salva assumindo a carne ferida da história.

Os profetas já haviam denunciado com vigor esse pecado estrutural. Amós expõe um sistema religioso que convive pacificamente com a exploração e a desigualdade, denunciando a venda do justo por dinheiro (Am 2,6) e um culto que Deus rejeita porque ignora a justiça (Am 5,21-24). Miquéias desmonta a teologia do sacrifício espetacular ao afirmar que Deus exige justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,8). Aqui se revela o pecado do mundo como dissociação entre fé e vida, culto e ética, liturgia e compromisso histórico. Essa denúncia alcança sua forma mais radical no Apocalipse, onde o pecado do mundo assume a forma de um império idolátrico. Babilônia não é apenas uma cidade; é um sistema econômico que visa só o lucro, sendo o  modelo político  religioso que seduz, explora e mata. Reis, comerciantes e elites religiosas  que se beneficiam dela (Ap 18). O pecado do mundo se organiza, se legitima e se apresenta como inevitável. É nesse cenário que o Cordeiro aparece como única alternativa escatológica real. Em Apocalipse 5, o Cordeiro imolado é o único digno de abrir o livro da história. Não o leão da violência, não o império da força, não o mercado da prosperidade, mas o Cordeiro da entrega.
A escatologia cristã, assim, não é fuga do mundo, mas crítica radical do presente. Se o futuro pertence ao Cordeiro, então todo sistema fundado na exclusão já está condenado, mesmo quando parece invencível. No Evangelho de João, essa lógica aparece na “hora” de Jesus. Sua glorificação não acontece no sucesso, mas na cruz. A cruz torna-se trono; o fracasso aparente revela-se vitória definitiva. Essa inversão desmonta toda teologia que promete glória sem cruz, prosperidade sem entrega, poder sem serviço.
Nesse ponto, a crítica bíblica às teologias da prosperidade e do domínio torna-se inevitável. O livro de Jó desmonta a lógica retributiva que associa prosperidade à bênção e sofrimento ao pecado. Jó é justo e sofre, e seus amigos, defensores dessa teologia cruel, são duramente repreendidos por Deus (Jó 42,7). Amós e Miquéias denunciam uma fé que legitima desigualdades. Tiago, no Novo Testamento, retoma essa crítica com palavras contundentes contra a acumulação injusta e a exploração do trabalhador (Tg 5,1-6).   Longe de ser um projeto político-ideológico ou sociologia secular, trata-se de teologia bíblica em estado puro. Chamar isso de “projeto socialista” é esquecer que tal horizonte existia muito antes de o socialismo sequer ser nomeado.
João 1,29-34 também é um texto profundamente vocacional. “Eu não o conhecia”, diz o Batista, usando um verbo que, na Bíblia, não significa informação, mas relação (Jo 1,31). A vocação nasce quando se aprende a reconhecer a ação de Deus na história e a apontá-la aos outros. O testemunho de João torna-se espelho incômodo para nossas comunidades:
  •  indicamos Cristo ou a nós mesmos? 
  • Geramos comunhão ou disputas? 
  • Formamos discípulos ou consumidores religiosos?
Do ponto de vista psicológico, João revela
maturidade afetiva e espiritual. Ele não sofre da necessidade de protagonismo, tão comum em lideranças que dependem de aplauso e visibilidade. “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Em termos antropológicos, isso confronta sociedades marcadas pela performance e pela autoexposição. A identidade, no Evangelho, não se constrói pela acumulação de poder, mas pela fidelidade à missão.
A descida do Espírito em forma de pomba evoca Gênesis 1 e Gênesis 8. Criação e recriação se encontram. O Espírito que permanece sobre Jesus inaugura uma humanidade reconciliada. Ele não legitima privilégios nem sustenta projetos de dominação; Ele conduz à verdade e ao serviço (Jo 16,13). Isso desmonta espiritualidades que confundem Espírito com êxtase, espetáculo ou sucesso.
Os sinóticos narram a mesma cena com ênfases distintas, revelando a riqueza do evento. Marcos fala dos céus rasgados, Mateus do cumprimento da justiça, Lucas da oração. João escolhe o testemunho. Cada abordagem responde a feridas e desafios concretos das comunidades. A diversidade não é contradição, mas profundidade.
Proclamar Jesus como Cordeiro de Deus é questionar sistemas religiosos baseados na troca, no mérito e na mercantilização da fé. Não há espaço para discursos de “eleitos” contra “descartáveis”, nem para espiritualidades que prometem bênçãos em troca de dinheiro, submissão ou silêncio. A fé, quando vira produto, trai o Cordeiro.
O autor  nos apresenta  uma crítica ao  clericalismo que  emerge com força na pessoa  de João.  Ele  não monopoliza o sagrado. O Concílio Vaticano II reafirma que a Igreja é povo de Deus em caminho (Lumen Gentium) e que sua missão é ler os sinais dos tempos (Gaudium et Spes). O clericalismo, ao transformar serviço em poder, contradiz o Evangelho.
Santo  Agostinho distingue a voz que passa do Verbo que permanece. Orígenes vê no Cordeiro a pedagogia divina que respeita a liberdade. Irineu fala da recapitulação da história em Cristo. Essas vozes antigas continuam a iluminar um presente marcado por polarizações e idolatrias religiosas.
O Cordeiro confronta o paradigma da força como motor da história. Contra o cinismo político, o Evangelho afirma que a verdade se oferece, não se impõe. Jesus habita o mundo, toca feridas, atravessa conflitos, sem absolutizar o poder.  A adesão ao Cordeiro não é ideológica nem identitária. É prática encarnada que ultrapassa os muros do culto. Católicos, evangélicos e pessoas de outras tradições são desafiados a reconhecer no bem, na justiça e na defesa da vida sinais do Espírito que sopra onde quer (Jo 3,8). Toda espiritualidade que sacraliza a exclusão ou legitima a violência se afasta radicalmente do Cordeiro.
O tom profético de João 1,29-34 permanece atual porque denuncia falsas mediações e convoca a uma fé adulta. O Cristo apontado por João não negocia a verdade para ganhar seguidores, não promete atalhos fáceis. Seguir implica entrega, descentramento e compromisso com a vida concreta. A encarnação não é evento isolado, mas estilo de vida.
Apontar o Cordeiro hoje é resistir às seduções do poder religioso, do mercado da fé e do messianismo político. É assumir que a salvação não acontece fora do mundo, mas no interior de suas contradições. João Batista continua a nos interpelar: somos voz que aponta ou queremos ocupar o lugar do Verbo?
A Boa Nova segundo João não permite neutralidade confortável. Ela desloca, desnuda e envia. E, como toda verdadeira experiência pascal, só pode ser acolhida por quem aceita caminhar não atrás de um ídolo moldado ao próprio desejo, mas daquele que tira o pecado do mundo oferecendo a própria vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano