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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Quando o político se torna ídolo

Existe uma contradição que merece ser examinada com seriedade dentro do cristianismo  e especialmente   na Igreja Católica: pessoas batizadas, crismadas, formadas  e participantes da Eucaristia podem chegar ao ponto de submeter sua compreensão da fé aos interesses de um partido ou à imagem de um líder político. O problema não está em ter preferências eleitorais, defender propostas econômicas ou participar ativamente da vida pública. A participação política é legítima e necessária. O problema começa quando a identidade partidária se torna tão dominante que o cristão já não consegue avaliar criticamente o próprio candidato, reconhecer os erros dos seus aliados ou escutar uma orientação da Igreja que contrarie suas convicções políticas. Nesse momento, a política deixa de ser um instrumento para organizar a sociedade e começa a funcionar como uma religião substituta, com seus salvadores, seus inimigos, seus mitos,  seus dogmas informais e seus mecanismos de exclusão. A pergunta que emerge dessa realidade é incômoda, mas necessária: Estamos colocando a política a serviço de nossa consciência cristã ou sacrificando nossa consciência para permanecer fiéis à política? Como apoiar político  que se dizem  favoráveis a pena de morte, a tortura?

O Evangelho não autoriza essa inversão. Em Lucas 4,16-21, Jesus apresenta sua missão a partir da Boa-Nova anunciada aos pobres, da libertação dos cativos e da recuperação da vista aos cegos. Em Mateus 25,31-46, a relação com Cristo é confrontada com atitudes concretas diante dos famintos,  estrangeiros, dos enfermos e principalmente dos encarcerados. Esses textos não oferecem um programa eleitoral pronto, nem autorizam identificar automaticamente o Reino de Deus com qualquer partido contemporâneo. Oferecem, porém, critérios fundamentais para discernir as consequências morais de nossas escolhas. Uma política precisa ser examinada pelo modo como trata a dignidade humana, distribui oportunidades, protege os vulneráveis, enfrenta as injustiças e exerce o poder. Por isso, nenhum candidato pode reivindicar uma espécie de imunidade espiritual apenas porque frequenta igrejas, cita a Bíblia, utiliza símbolos religiosos ou se apresenta como defensor da família. A fé cristã não transforma declarações religiosas em provas automáticas de integridade moral. O próprio Jesus adverte, em Mateus 7,16, que as pessoas são reconhecidas pelos frutos que produzem. Também é preocupante a relação que parte dos fiéis estabelece com o conhecimento. Na vida profissional, compreendemos que a competência exige pratica, estudo e  atualização e disposição para rever conclusões. Não confiamos a construção de uma ponte a alguém que despreza a engenharia, nem consideramos suficiente a opinião de um médico que rejeita o conhecimento científico. Entretanto, quando se trata de religião e política, algumas pessoas aceitam como verdade definitiva aquilo que ouviram de uma liderança, de um pregador ou de um influenciador, sem consultar as fontes, examinar os argumentos ou conhecer a tradição que afirmam defender. Não é necessário que todo católico seja especialista em teologia, mas é indispensável reconhecer que a maturidade da fé exige formação da consciência. A própria Escritura convida ao discernimento: em Romanos 12,2, Paulo fala da renovação da mente para compreender a vontade de Deus; em Atos 17,11, os bereanos são elogiados por examinarem as Escrituras para verificar o que ouviam, a fé não é inimiga da inteligência. Uma religião que desestimula perguntas, transforma líderes em autoridades incontestáveis e trata o estudo como ameaça corre o risco de produzir dependência, e não discípulos adultos.

A tradição católica oferece recursos consistentes para essa formação: a Bíblia, o Catecismo da Igreja Católica, os documentos do Concílio Vaticano II e a Doutrina Social da Igreja, cuja formulação moderna ganhou impulso decisivo com a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, publicada em 1891. Ao longo dessa tradição, a Igreja refletiu sobre trabalho, propriedade, desigualdade, direitos humanos, participação política, solidariedade, bem comum e responsabilidade diante da criação. A Laudato Si', de Francisco, por exemplo, relaciona a crise ambiental à cultura do descarte, à desigualdade e aos modelos de desenvolvimento que ameaçam a vida. Conhecer esses ensinamentos permite compreender que a moral cristã não se limita à conduta privada, à sexualidade ou à observância de práticas devocionais. Ela também alcança as estruturas sociais, as relações econômicas e o exercício das responsabilidades públicas. Isso não significa que todos os católicos devam votar da mesma maneira, pois a aplicação dos princípios a situações concretas exige análise, prudência e consideração de diferentes circunstâncias. Significa, contudo, que nenhuma preferência partidária deveria ser considerada superior aos princípios fundamentais que a própria pessoa professa.

A identificação política não se limita à escolha de um programa de governo; pode oferecer pertencimento, reconhecimento, segurança emocional e uma narrativa que organiza a compreensão do mundo. Quando alguém vincula profundamente sua identidade a um grupo, as críticas dirigidas a esse grupo podem ser interpretadas como ataques pessoais. Surge, então, a tendência de selecionar informações favoráveis, minimizar os erros dos aliados e atribuir intenções maliciosas a todos os adversários. As redes sociais podem intensificar esse processo ao favorecer ambientes de confirmação, nos quais opiniões semelhantes circulam repetidamente e versões divergentes são recebidas com desconfiança. Quando esse mecanismo se combina com a linguagem religiosa, a disputa política adquire uma dimensão sagrada: o líder passa a representar a salvação nacional, seus apoiadores se consideram defensores exclusivos da verdade e os críticos são tratados como inimigos de Deus. É nesse terreno que a crítica racional cede espaço ao fanatismo. O fenômeno não pertence exclusivamente a um partido ou campo ideológico, embora suas manifestações e consequências precisem ser analisadas concretamente. O critério deve ser aplicado a todos: quanto mais uma liderança exige lealdade incondicional, menos compatível se torna essa exigência com a responsabilidade de examinar seus atos. É nesse sentido que a idolatria política constitui uma questão teológica. O primeiro mandamento, em Êxodo 20,3-5, proíbe colocar outros deuses no lugar de Deus. Aplicado analogicamente à vida pública, esse princípio denuncia toda realidade humana transformada em absoluto. Um partido pode apresentar propostas legítimas, um governante pode realizar ações importantes e um movimento pode mobilizar pessoas em favor de causas justas; nenhum deles, porém, está livre de erros nem possui autoridade moral ilimitada. Quando o fiel precisa negar fatos comprovados para proteger seu candidato, relativizar a corrupção dos aliados ou rejeitar qualquer crítica como perseguição ideológica, sua lealdade já não está sendo orientada por princípios universais, mas pela preservação do próprio grupo. O problema não é simplesmente votar mal, algo possível a qualquer cidadão, mas construir uma relação de submissão que impede o reconhecimento do erro. Uma consciência cristã formada precisa conservar a liberdade de dizer não ao próprio campo político quando suas práticas entram em conflito com a justiça, a verdade e a dignidade humana.

A Igreja Católica, por sua vez, não pode ser reduzida a uma extensão religiosa de projetos eleitorais. Sua Doutrina Social não cabe integralmente em nenhuma legenda, porque seus princípios exigem avaliação crítica de diferentes propostas e governos. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a defesa dos trabalhadores, a proteção da vida e o cuidado com a criação não podem ser usados seletivamente conforme a conveniência partidária. Um católico pode reconhecer o mérito de determinada política pública e criticar outras decisões do mesmo governo; pode rejeitar propostas de um partido sem desumanizar seus eleitores; pode discordar de uma autoridade eclesiástica e, ainda assim, levar a sério os fundamentos de sua argumentação. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não precisa funcionar como comitê eleitoral para exercer sua missão pastoral e profética e ao mesmo tempo, os bispos não estão acima do discernimento, da avaliação crítica ou da responsabilidade institucional. A comunhão eclesial não significa uniformidade política, assim como a liberdade de consciência não significa licença para ignorar todo ensinamento inconveniente. O desafio é manter diálogo, fundamentação e responsabilidade sem transformar divergências eleitorais em critérios automáticos de fidelidade religiosa.

Todos sabemos  que o enfrentamento da criminalidade exige políticas públicas consistentes, investigação qualificada, inteligência, cooperação institucional, prevenção, proteção das vítimas e responsabilização dos culpados dentro do Estado de Direito. O fenômeno não se limita às facções que disputam territórios ou controlam mercados ilícitos. Inclui também a lavagem de dinheiro, a corrupção e as conexões criminosas que podem alcançar setores econômicos e agentes públicos. Por isso, a retórica de combate ao crime perde credibilidade quando é aplicada apenas aos adversários, enquanto suspeitas ou irregularidades envolvendo aliados recebem tratamento complacente. Defender a segurança pública não exige abandonar as garantias fundamentais, assim como respeitar os direitos humanos não significa tolerar a criminalidade. Uma sociedade justa precisa proteger a população da violência e impedir que a lei seja utilizada seletivamente. A retórica da ordem, quando não se traduz em instituições responsáveis e resultados verificáveis, pode servir apenas para mobilizar ressentimentos e produzir dividendos eleitorais. O cristão deve perguntar não somente quem promete combater o crime, mas quais medidas propõe, quais resultados apresenta e se aceita que os mesmos critérios legais sejam aplicados a todos. Ao ler a Palavra de Deus  nos deparamos com:

  •  Amós denuncia a exploração dos pobres e a corrupção da justiça (Am 5,11-24).
  •  Isaías condena os que promulgam leis injustas e negam direitos aos necessitados (Is 10,1-2); 
  • Natã confronta Davi, o próprio rei de Israel, por causa de sua conduta injusta (2Sm 12,1-9). A força desses relatos está em mostrar que a autoridade não elimina a responsabilidade moral.
 Natã não silencia porque Davi ocupa o trono, e os profetas não limitam suas denúncias aos governantes estrangeiros. A fidelidade à aliança exige confrontar também aqueles que pertencem à própria comunidade. Esse princípio continua válido para a Igreja contemporânea: não basta denunciar abusos de governos dos quais discordamos e silenciar diante de práticas semelhantes quando são cometidas por nossos aliados. Se a indignação depende da identidade política do responsável, ela deixa de ser um compromisso coerente com a justiça e se transforma em instrumento de disputa. O testemunho profético não consiste em abençoar governantes, mas em recordar que todo poder humano é limitado e deve responder pelas consequências de suas decisões. A resposta pastoral a cenário  atual não pode ser a humilhação dos fiéis nem a transformação das comunidades em tribunais eleitorais. A missão da Igreja é formar consciências, promover o estudo, favorecer o diálogo e oferecer critérios para o discernimento moral. Isso exige comunidades capazes de acolher perguntas difíceis, confrontar desinformação e discutir problemas concretos sem converter a divergência partidária em motivo de exclusão. O batismo não torna ninguém politicamente infalível, e a escolha de um partido, considerada isoladamente, não permite concluir que alguém deixou de ser católico. O discernimento requer examinar propostas, práticas, consequências e circunstâncias, reconhecendo que pessoas de boa-fé podem chegar a conclusões diferentes. Ao mesmo tempo, o respeito à pluralidade não obriga a Igreja a tratar como moralmente indiferente qualquer escolha ou projeto. Quando estão em jogo a dignidade humana, a violência, a corrupção, a exploração e os direitos fundamentais, o silêncio pastoral pode comprometer a credibilidade do testemunho cristão. A Igreja não deve fabricar eleitores obedientes, mas formar discípulos capazes de pensar, avaliar, servir e assumir a responsabilidade por suas escolhas. A questão, portanto, não é se um católico deve ter posição política, mas se essa posição continua aberta à correção pela verdade e pelos valores que afirma professar. É possível: 

  1. Defender um candidato sem transformá-lo em salvador.
  2. Apoiar um partido sem ignorar seus erros 
  3.  discordar de bispos sem desprezar toda a tradição da Igreja. 
O que não se sustenta cristãmente é exigir que o Evangelho permaneça em silêncio sempre que suas exigências contrariem os interesses do próprio grupo. A Eucaristia não é instrumento de propaganda, a comunidade cristã não é propriedade de uma legenda e Jesus Cristo não pode ser reduzido a símbolo de uma campanha. Em última análise, a fidelidade cristã não se mede pela intensidade com que defendemos nossos aliados, mas pela coerência com que buscamos a verdade, praticamos a justiça, exercemos a misericórdia e reconhecemos a dignidade até daqueles com quem discordamos. Quando a política exige que abandonemos esses compromissos para preservar nossa lealdade partidária, não é o Evangelho que precisa ser adaptado. É nossa maneira de fazer política que precisa passar por uma profunda conversão.
DNonato - Pela Democracia, ainda Católico Romano e Eleitor brasileiro 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Raio, riso e poder: entre o ódio e a ironia que desmascara o falso sagrado

A crônica começa antes de qualquer ironia, antes de qualquer charge compartilhada às pressas, antes mesmo do debate público inflamar timelines, púlpitos e microfones. Começa onde deveria sempre começar: no chão da vida concreta. Há vítimas. Há pessoas que passaram por risco real. Há corpos expostos, corações em disparada, mãos trêmulas, olhares perdidos, medo que não vira estatística. Há o segundo seguinte ao estrondo, quando o silêncio pesa mais do que o barulho. Diante disso, qualquer palavra que não passe primeiro pela solidariedade é vazia. Nenhuma crítica política, religiosa ou simbólica tem o direito de relativizar o valor da vida nem de minimizar o impacto físico e psicológico de um acidente dessa natureza.
Um raio não é metáfora quando cai perto de gente. Não é alegoria, nem figura de linguagem, nem meme em potência. É descarga elétrica real, energia brutal, risco concreto de queimadura, parada cardíaca, sequelas neurológicas, morte imediata ou trauma prolongado. Tempestades não pedem licença ideológica para acontecer, não consultam agendas eleitorais nem respeitam slogans religiosos. Elas simplesmente acontecem. E é exatamente por isso que a responsabilidade humana começa antes, muito antes do primeiro trovão: começa no planejamento, na leitura do risco, na decisão ética de interromper, evacuar, proteger.

Do ponto de vista científico, isso não é objeto de debate. É consenso. Aglomerações ao ar livre durante tempestades, especialmente em ambientes com estruturas metálicas, palcos, torres de som, refletores, grades, andaimes, cabos e equipamentos elétricos, ampliam exponencialmente o risco. Por isso existem protocolos internacionais e nacionais. Por isso a recomendação técnica é clara, repetida, didática: suspensão imediata do evento, evacuação organizada e busca de abrigo adequado. Não se trata de fé ou de falta dela. Trata-se de prudência básica, ética do cuidado e responsabilidade objetiva.
Quando esse cuidado falha, não é Deus quem falha. É o humano. E transferir a culpa para o céu — como se o raio fosse mensagem, castigo, aviso sobrenatural ou sinal divino — não apenas distorce profundamente a experiência religiosa, como funciona como mecanismo de fuga. É uma forma sofisticada de terceirizar responsabilidades, encobrir decisões erradas e silenciar perguntas incômodas. Culpar Deus é mais confortável do que revisar protocolos, admitir erro ou assumir negligência. Espiritualizar o acidente é uma maneira elegante de não responder pelo concreto.

Cuidar da vida não é sinal de incredulidade. É, ao contrário, uma das formas mais maduras de fé encarnada. É ética aplicada, espiritualidade com pés no chão, compromisso com o real. Toda religião que despreza o corpo, o risco, o limite e a responsabilidade concreta não é fé profunda; é abstração religiosa que flerta com a irresponsabilidade.

Somente depois desse chão — e somente depois — é possível avançar para o campo da crítica, da ironia, do humor e do uso simbólico da linguagem. Confundir solidariedade com silêncio é tão perigoso quanto confundir ciência com blasfêmia. Há silêncios que não respeitam: apenas protegem discursos, líderes e projetos. E há palavras duras que não ferem pessoas, mas desmontam encenações.
É aqui que a reflexão se torna incômoda, porque grande parte da indignação nas redes não nasce do cuidado com as vítimas, mas da incapacidade — ou da recusa — de distinguir ódio de zoeira, violência de ironia crítica. Tudo vira a mesma coisa quando o alvo deixa de ser “os outros” e passa a ser “os nossos”.

A diferença, no entanto, não se mede pelo tom exaltado nem pelo número de curtidas, mas por três critérios incontornáveis: a intenção da fala, o alvo da crítica e a posição de poder de quem fala. Ódio é quando a palavra abdica de qualquer função crítica e passa a desejar o mal concreto ao outro. É quando a tragédia vira espetáculo, quando a dor vira entretenimento, quando a morte — explícita ou insinuada — aparece como correção moral. Na linguagem bíblica, isso brota do coração humano fechado à alteridade, de onde procedem violências, exclusões e destruições (cf. Mt 15,19).
O ódio não interpreta a realidade. Ele não analisa estruturas nem questiona discursos. Ele reduz pessoas a alvos, dissolve rostos em caricaturas e legitima a eliminação simbólica — e às vezes física — do outro. Psicologicamente, é agressividade descarregada sem mediação simbólica; sociologicamente, é combustível de autoritarismos.

Zoeira e deboche pertencem a outro território. São parte da longa tradição da ironia crítica, usada para desmontar o falso sagrado e o poder que se absolutiza. Os profetas zombam dos ídolos que “têm boca, mas não falam” (Sl 115,5). Elias ironiza os profetas de Baal perguntando se o deus deles cochilou ou saiu para viajar (1Rs 18,27). O próprio Jesus recorre à hipérbole quando fala do cisco e da trave (Mt 7,3-5). Não é ódio. É revelação. É arrancar a máscara do sagrado instrumentalizado.

No caso do raio ocorrido durante o evento de Nikolas Ferreira, o deboche não mirou a vida nem a integridade física dos participantes. Não houve desejo de tragédia. O alvo foi o discurso que transforma Deus em selo político, como se o céu fosse palanque e o Nome divino, slogan eleitoral. Biblicamente, isso toca diretamente o mandamento de não tomar o Nome do Senhor em vão (Ex 20,7): não sequestrar Deus para legitimar projetos de poder.

As charges que circularam — atribuindo o raio a Alexandre de Moraes, a Deus “dando um basta”, ao professor Xavier acionando a mutante Tempestade ou ao Vingador Thor — operam nesse registro simbólico. Ninguém as leu como explicação científica ou desejo real de morte. Elas funcionam como sátira, exagero, linguagem cultural compartilhada. Sociologicamente, dessacralizam o poder. Psicologicamente, permitem elaborar o absurdo sem converter pessoas em alvos de ódio.

Essa distinção se torna cristalina quando lembramos das “piadas” recorrentes de Jair Bolsonaro. Zombou de mortos na pandemia, ironizou vítimas da tortura, ridicularizou mulheres, negros, indígenas, pobres e pessoas com deficiência. Ali não havia humor crítico, porque não se ria do poder: o próprio poder ria. Era escárnio institucionalizado, sempre chutando para baixo. Humor de dominação, não de crítica.

Por isso o critério ético permanece simples e implacável: quando o humor sobe e questiona o poder, ele é crítica; quando desce e humilha os vulneráveis, ele vira violência. Talvez seja isso que explique a reação tão desproporcional. Não é defesa da vida; é incômodo narcísico. Quem sempre riu dos outros não suporta virar alvo.
Psicologicamente, o riso deixa de ser prazer quando ameaça a autoimagem de superioridade. Sociologicamente, ele incomoda porque quebra o monopólio do púlpito, da narrativa e da autoridade simbólica. Quando o sagrado deixa de blindar discursos, a ironia vira afronta.

Daí a inversão: quando a piada aponta para cima, ela vira “ódio”; quando sempre apontou para baixo, era “brincadeira”. A conclusão é desconfortável, mas inevitável: o problema não é o raio, nem a zoeira, nem as charges. É a dificuldade de aceitar que o discurso sacralizado também pode ser desnudado.
No fundo, quando a piada é com a gente, ela nunca tem graça.
DNonato – Teólogo do Cotidiano