segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Raio, riso e poder: entre o ódio e a ironia que desmascara o falso sagrado

A crônica começa antes de qualquer ironia, antes de qualquer charge compartilhada às pressas, antes mesmo do debate público inflamar timelines, púlpitos e microfones. Começa onde deveria sempre começar: no chão da vida concreta. Há vítimas. Há pessoas que passaram por risco real. Há corpos expostos, corações em disparada, mãos trêmulas, olhares perdidos, medo que não vira estatística. Há o segundo seguinte ao estrondo, quando o silêncio pesa mais do que o barulho. Diante disso, qualquer palavra que não passe primeiro pela solidariedade é vazia. Nenhuma crítica política, religiosa ou simbólica tem o direito de relativizar o valor da vida nem de minimizar o impacto físico e psicológico de um acidente dessa natureza.
Um raio não é metáfora quando cai perto de gente. Não é alegoria, nem figura de linguagem, nem meme em potência. É descarga elétrica real, energia brutal, risco concreto de queimadura, parada cardíaca, sequelas neurológicas, morte imediata ou trauma prolongado. Tempestades não pedem licença ideológica para acontecer, não consultam agendas eleitorais nem respeitam slogans religiosos. Elas simplesmente acontecem. E é exatamente por isso que a responsabilidade humana começa antes, muito antes do primeiro trovão: começa no planejamento, na leitura do risco, na decisão ética de interromper, evacuar, proteger.

Do ponto de vista científico, isso não é objeto de debate. É consenso. Aglomerações ao ar livre durante tempestades, especialmente em ambientes com estruturas metálicas, palcos, torres de som, refletores, grades, andaimes, cabos e equipamentos elétricos, ampliam exponencialmente o risco. Por isso existem protocolos internacionais e nacionais. Por isso a recomendação técnica é clara, repetida, didática: suspensão imediata do evento, evacuação organizada e busca de abrigo adequado. Não se trata de fé ou de falta dela. Trata-se de prudência básica, ética do cuidado e responsabilidade objetiva.
Quando esse cuidado falha, não é Deus quem falha. É o humano. E transferir a culpa para o céu — como se o raio fosse mensagem, castigo, aviso sobrenatural ou sinal divino — não apenas distorce profundamente a experiência religiosa, como funciona como mecanismo de fuga. É uma forma sofisticada de terceirizar responsabilidades, encobrir decisões erradas e silenciar perguntas incômodas. Culpar Deus é mais confortável do que revisar protocolos, admitir erro ou assumir negligência. Espiritualizar o acidente é uma maneira elegante de não responder pelo concreto.

Cuidar da vida não é sinal de incredulidade. É, ao contrário, uma das formas mais maduras de fé encarnada. É ética aplicada, espiritualidade com pés no chão, compromisso com o real. Toda religião que despreza o corpo, o risco, o limite e a responsabilidade concreta não é fé profunda; é abstração religiosa que flerta com a irresponsabilidade.

Somente depois desse chão — e somente depois — é possível avançar para o campo da crítica, da ironia, do humor e do uso simbólico da linguagem. Confundir solidariedade com silêncio é tão perigoso quanto confundir ciência com blasfêmia. Há silêncios que não respeitam: apenas protegem discursos, líderes e projetos. E há palavras duras que não ferem pessoas, mas desmontam encenações.
É aqui que a reflexão se torna incômoda, porque grande parte da indignação nas redes não nasce do cuidado com as vítimas, mas da incapacidade — ou da recusa — de distinguir ódio de zoeira, violência de ironia crítica. Tudo vira a mesma coisa quando o alvo deixa de ser “os outros” e passa a ser “os nossos”.

A diferença, no entanto, não se mede pelo tom exaltado nem pelo número de curtidas, mas por três critérios incontornáveis: a intenção da fala, o alvo da crítica e a posição de poder de quem fala. Ódio é quando a palavra abdica de qualquer função crítica e passa a desejar o mal concreto ao outro. É quando a tragédia vira espetáculo, quando a dor vira entretenimento, quando a morte — explícita ou insinuada — aparece como correção moral. Na linguagem bíblica, isso brota do coração humano fechado à alteridade, de onde procedem violências, exclusões e destruições (cf. Mt 15,19).
O ódio não interpreta a realidade. Ele não analisa estruturas nem questiona discursos. Ele reduz pessoas a alvos, dissolve rostos em caricaturas e legitima a eliminação simbólica — e às vezes física — do outro. Psicologicamente, é agressividade descarregada sem mediação simbólica; sociologicamente, é combustível de autoritarismos.

Zoeira e deboche pertencem a outro território. São parte da longa tradição da ironia crítica, usada para desmontar o falso sagrado e o poder que se absolutiza. Os profetas zombam dos ídolos que “têm boca, mas não falam” (Sl 115,5). Elias ironiza os profetas de Baal perguntando se o deus deles cochilou ou saiu para viajar (1Rs 18,27). O próprio Jesus recorre à hipérbole quando fala do cisco e da trave (Mt 7,3-5). Não é ódio. É revelação. É arrancar a máscara do sagrado instrumentalizado.

No caso do raio ocorrido durante o evento de Nikolas Ferreira, o deboche não mirou a vida nem a integridade física dos participantes. Não houve desejo de tragédia. O alvo foi o discurso que transforma Deus em selo político, como se o céu fosse palanque e o Nome divino, slogan eleitoral. Biblicamente, isso toca diretamente o mandamento de não tomar o Nome do Senhor em vão (Ex 20,7): não sequestrar Deus para legitimar projetos de poder.

As charges que circularam — atribuindo o raio a Alexandre de Moraes, a Deus “dando um basta”, ao professor Xavier acionando a mutante Tempestade ou ao Vingador Thor — operam nesse registro simbólico. Ninguém as leu como explicação científica ou desejo real de morte. Elas funcionam como sátira, exagero, linguagem cultural compartilhada. Sociologicamente, dessacralizam o poder. Psicologicamente, permitem elaborar o absurdo sem converter pessoas em alvos de ódio.

Essa distinção se torna cristalina quando lembramos das “piadas” recorrentes de Jair Bolsonaro. Zombou de mortos na pandemia, ironizou vítimas da tortura, ridicularizou mulheres, negros, indígenas, pobres e pessoas com deficiência. Ali não havia humor crítico, porque não se ria do poder: o próprio poder ria. Era escárnio institucionalizado, sempre chutando para baixo. Humor de dominação, não de crítica.

Por isso o critério ético permanece simples e implacável: quando o humor sobe e questiona o poder, ele é crítica; quando desce e humilha os vulneráveis, ele vira violência. Talvez seja isso que explique a reação tão desproporcional. Não é defesa da vida; é incômodo narcísico. Quem sempre riu dos outros não suporta virar alvo.
Psicologicamente, o riso deixa de ser prazer quando ameaça a autoimagem de superioridade. Sociologicamente, ele incomoda porque quebra o monopólio do púlpito, da narrativa e da autoridade simbólica. Quando o sagrado deixa de blindar discursos, a ironia vira afronta.

Daí a inversão: quando a piada aponta para cima, ela vira “ódio”; quando sempre apontou para baixo, era “brincadeira”. A conclusão é desconfortável, mas inevitável: o problema não é o raio, nem a zoeira, nem as charges. É a dificuldade de aceitar que o discurso sacralizado também pode ser desnudado.
No fundo, quando a piada é com a gente, ela nunca tem graça.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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