sábado, 14 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 9,1-41

 
A liturgia da Igreja reúne neste domingo um conjunto de leituras profundamente articulado em torno do tema da luz, do discernimento e da visão espiritual. O Evangelho de João 9,1-41 é proclamado na tradição da Igreja Católica Romana no Quarto Domingo da Quaresma do Ano A, conhecido como Domingo Laetare, momento em que a caminhada penitencial se abre para uma antecipação da alegria pascal. Esse texto ocupa lugar especial no itinerário catecumenal da Igreja antiga, sendo proclamado durante os chamados escrutínios dos catecúmenos que se preparavam para o batismo na Vigília Pascal ja fizemos alguma reflexões sobte esse texro aqui no blog temos um video de 2022.  Samemos que a narrativa possui forte caráter batismal. Nas Igrejas históricas que conservam o antigo lecionário cristão, como comunidades anglicanas, luteranas e algumas tradições reformadas, o mesmo Evangelho também aparece no tempo quaresmal com esse sentido de iluminação espiritual. O episódio da cura do cego de nascença é compreendido como um símbolo da passagem das trevas para a luz, da ignorância para a fé, da exclusão para a dignidade.

A liturgia apresenta juntamente com esse Evangelho as seguintes leituras: I Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Salmo 22(23),1-3a.3b-4.5.6 (R. 1); Efésios 5,8-14; e o Evangelho de João 9,1-41 ou a forma breve João 9,1.6-9.13-17.34-38. Cada uma dessas leituras prepara o coração da comunidade para compreender a profundidade do sinal realizado por Jesus.

  • A primeira leitura narra a escolha de Davi como rei de Israel. O profeta Samuel é enviado à casa de Jessé para ungir aquele que Deus escolheu. Samuel observa os filhos mais fortes e imponentes e supõe que ali se encontra o eleito, mas Deus corrige seu olhar: “Não julgues pela aparência nem pela altura de sua estatura… o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7). O escolhido é justamente o menor, o pastor que estava esquecido no campo. Essa lógica divina atravessa toda a Escritura. Deus escolhe Abraão, um estrangeiro sem terra (Gn 12,1-3), escolhe Moisés, um fugitivo escondido no deserto (Ex 3,1-10), escolhe Jeremias ainda jovem e inseguro (Jr 1,6-8), escolhe Maria de Nazaré, uma mulher pobre da periferia do Império Romano (Lc 1,46-55). O agir de Deus frequentemente nasce nas margens da história, onde os olhos humanos raramente enxergam valor.
  • O Salmo 23 responde a essa experiência de confiança profunda: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” (Sl 23,1). A imagem do pastor possui raízes antigas no Oriente Próximo. Reis e governantes eram frequentemente chamados de pastores de seus povos. No entanto, os profetas denunciaram quando esses pastores exploravam o rebanho. O profeta Ezequiel proclamou com vigor: “Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos” (Ez 34,2). O salmo apresenta outro tipo de liderança. Deus é o pastor que conduz às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha mesmo no “vale escuro da morte” (Sl 23,4). A imagem prepara simbolicamente a ação de Jesus, que mais adiante no Evangelho de João se apresentará como o “bom pastor que dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10,11).
  • A segunda leitura, Efésios 5,8-14, retoma explicitamente o tema da luz. O texto afirma: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz” (Ef 5,8). A luz, na tradição bíblica, representa a revelação de Deus que ilumina a consciência humana. O Salmo 119 proclama: “Tua palavra é lâmpada para meus pés e luz para meu caminho” (Sl 119,105). O prólogo do Evangelho de João afirma que a verdadeira luz veio ao mundo para iluminar todo ser humano (Jo 1,9). O autor da carta aos Efésios conclui com uma antiga aclamação batismal: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Ef 5,14). Essa proclamação revela o horizonte espiritual do Evangelho de hoje. A cura do cego não é apenas recuperação física da visão, mas símbolo de uma humanidade despertada para a luz de Deus.

O Evangelho de João 9 encontra-se no contexto de fortes tensões entre Jesus e as autoridades religiosas de Jerusalém. Nos capítulos anteriores, Jesus participava da Festa das Tendas, uma das grandes celebrações judaicas. Durante essa festa eram acesas enormes luminárias no templo que iluminavam Jerusalém durante a noite. Nesse ambiente simbólico, Jesus havia proclamado: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará nas trevas” (Jo 8,12). A cura do cego aparece como uma dramatização concreta dessa declaração.

O relato começa com um encontro aparentemente simples. Jesus vê um homem cego de nascença. A cegueira no mundo antigo tinha implicações profundas. Sem sistemas públicos de assistência, pessoas com deficiência frequentemente sobreviviam por meio da esmola. Além disso, existia uma mentalidade religiosa que interpretava doenças como consequência de pecado. Essa ideia aparece implicitamente na pergunta dos discípulos: “Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9,2). A pergunta reflete uma lógica de causalidade moral muito difundida na antiguidade. O sofrimento era frequentemente associado a punição divina. Jesus rompe essa lógica ao responder: “Nem ele pecou nem seus pais; mas isso aconteceu para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9,3). Essa resposta ecoa a crítica já presente no livro de Jó, onde Deus reprova os amigos que tentavam explicar o sofrimento do patriarca como castigo divino (Jó 42,7). O Evangelho revela que a dor humana não pode ser reduzida a uma contabilidade moral.

Esse questionamento continua extremamente atual. Muitas sociedades ainda culpam os pobres por sua pobreza, os doentes por sua doença, os marginalizados por sua exclusão. Essa mentalidade produz uma cegueira social que impede reconhecer estruturas injustas. O Evangelho desloca o olhar da busca por culpados para a manifestação da graça. 

Jesus realiza então um gesto profundamente simbólico. Ele cospe no chão, faz barro com a saliva e unge os olhos do cego (Jo 9,6). O gesto evoca diretamente a narrativa da criação. O livro do Gênesis afirma que Deus formou o ser humano do pó da terra (Gn 2,7). Ao utilizar barro, Jesus atua como aquele que recria a humanidade. O milagre não é apenas cura, mas nova criação. Outros textos bíblicos ampliam esse simbolismo. O profeta Jeremias compara Deus a um oleiro que molda o barro conforme sua vontade (Jr 18,1-6). Isaías afirma: “Nós somos o barro e tu és o oleiro” (Is 64,8). O gesto de Jesus indica que a obra criadora de Deus continua acontecendo na história.

Depois de ungir os olhos do homem, Jesus o envia a lavar-se na piscina de Siloé. O evangelista observa que Siloé significa “Enviado” (Jo 9,7). A água possui forte simbolismo bíblico. A travessia do mar Vermelho (Ex 14) marcou o nascimento do povo de Israel. O batismo de Jesus no Jordão (Mt 3,13-17) inaugurou seu ministério. No Evangelho de João, a água aparece como sinal de vida nova (Jo 4,14). A lavagem em Siloé possui clara dimensão batismal. O homem volta vendo. A partir desse momento, a narrativa assume um caráter social e quase judicial. Os vizinhos começam a discutir se aquele homem é realmente o mesmo que mendigava. Ele afirma com simplicidade: “Sou eu mesmo” (Jo 9,9). Recuperar a visão significa também recuperar identidade. O caso chega aos fariseus. O problema central é que o milagre ocorreu no sábado. A observância do sábado era um elemento fundamental da identidade judaica desde o exílio babilônico (Ex 20,8-11). Contudo, Jesus já havia questionado interpretações legalistas dessa lei. Em Marcos 2,27 ele afirma: “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado”. Em Mateus 12,7 ele recorda a palavra profética de Oseias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6).

Entre os fariseus surge divisão. Alguns reconhecem que um pecador não poderia realizar sinais dessa natureza (Jo 9,16). Outros insistem em manter a acusação.  JOs pais do homem curado são chamados para depor. Eles confirmam que o filho nasceu cego, mas evitam responder como ocorreu a cura. O texto explica o motivo: eles tinham medo de serem expulsos da sinagoga (Jo 9,22). Essa informação revela um dado histórico importante. A comunidade joanina provavelmente vivia um contexto de expulsão das sinagogas no final do século I, após a reorganização do judaísmo depois da destruição de Jerusalém no ano 70. Ser expulso da sinagoga significava perder lugar social, religioso e comunitário.

A exclusão religiosa não era fenômeno raro no mundo bíblico. O livro do Levítico descreve regras de pureza que isolavam leprosos (Lv 13). Deuteronômio impedia certos grupos de participar da assembleia (Dt 23,1). Contudo, os profetas começaram a questionar essas fronteiras. Isaías anuncia que estrangeiros e eunucos seriam acolhidos na casa de Deus (Is 56,3-7). Jesus encarna essa abertura radical. Ele toca leprosos (Mc 1,41), conversa com samaritanos (Jo 4,9), acolhe publicanos (Lc 19,1-10) e permite que uma mulher considerada impura toque suas vestes (Mc 5,25-34). O Evangelho rompe continuamente barreiras sociais e religiosas.

O homem curado passa por um processo gradual de crescimento na fé. No início ele diz apenas: “O homem chamado Jesus fez barro” (Jo 9,11). Depois afirma: “Ele é um profeta” (Jo 9,17). Mais tarde declara que Jesus vem de Deus (Jo 9,33). Finalmente reconhece: “Creio, Senhor” (Jo 9,38). Esse caminho lembra o itinerário espiritual dos discípulos de Emaús que passam da confusão ao reconhecimento de Cristo (Lc 24,13-35). Enquanto isso, as autoridades religiosas mergulham cada vez mais em sua própria cegueira. Elas tentam desacreditar o testemunho do homem curado. Diante da pressão, ele responde com uma das frases mais simples e poderosas do Evangelho: “Uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo” (Jo 9,25).

A Bíblia utiliza frequentemente a cegueira como metáfora espiritual. Isaías denuncia líderes que têm olhos mas não veem (Is 42,18-20). Jeremias lamenta um povo que possui olhos mas permanece cego (Jr 5,21). Jesus retoma essa tradição ao dizer que certos líderes são “guias cegos conduzindo cegos” (Mt 15,14). O relato termina com uma afirmação paradoxal de Jesus: “Eu vim a este mundo para um julgamento: para que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). A verdadeira cegueira não é física, mas espiritual. Trata-se da incapacidade de reconhecer a verdade quando ela se manifesta.

Essa realidade continua presente na história contemporânea. Existem muitas formas de cegueira coletiva. A desigualdade social torna milhões de pessoas invisíveis. Em muitas cidades, populações inteiras vivem nas periferias sem acesso pleno a direitos básicos. A violência, o racismo estrutural e a exclusão econômica produzem realidades que muitos preferem não enxergar. Outra forma de cegueira aparece quando a religião é manipulada para legitimar projetos de poder. Ao longo da história, discursos religiosos foram utilizados para justificar dominação política, exclusão social e até violência. Quando a fé se transforma em instrumento ideológico, perde sua dimensão profética.

A chamada teologia da prosperidade muitas vezes interpreta riqueza como sinal de bênção divina e pobreza como sinal de falta de fé. Essa lógica repete a mentalidade que os discípulos expressaram ao perguntar quem pecou para que o homem nascesse cego. O Evangelho desafia também o clericalismo, entendido como uso da autoridade religiosa para controlar consciências. Jesus afirmou claramente que entre seus seguidores a autoridade deveria ser serviço: “Quem quiser ser o primeiro seja servo de todos” (Mc 10,44).

O Concílio Vaticano II recorda que Cristo revela plenamente o ser humano ao próprio ser humano (Gaudium et Spes 22). A constituição pastoral Gaudium et Spes afirma ainda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos pobres são também as alegrias e angústias da Igreja (GS 1). Os documentos da Igreja latino-americana aprofundaram essa consciência. Medellín denunciou estruturas de pecado que produzem pobreza. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida recordou que a fé cristã exige compromisso com a dignidade humana e a justiça social.

O milagre narrado em João 9 torna-se então uma parábola viva da missão cristã. A luz do Evangelho não apenas ilumina consciências individuais. Ela denuncia sistemas que produzem cegueira coletiva. A psicologia da experiência espiritual também ajuda a compreender esse processo. Encontros autênticos com o transcendente frequentemente geram maior sensibilidade ética e compaixão social. Quando alguém experimenta a luz de Deus, torna-se mais capaz de reconhecer a dor do outro.

O homem curado torna-se testemunha dessa luz. Mesmo ameaçado, ele não nega a verdade de sua experiência. Ele passa da condição de mendigo invisível para sujeito de palavra.nA pergunta final dos fariseus permanece ecoando através da história: “Acaso também nós somos cegos?” (Jo 9,40). Essa pergunta atravessa gerações e alcança cada comunidade cristã.

  • Onde estão hoje nossas cegueiras? 
  • Nas ideologias que desumanizam o outro? Nos discursos religiosos que prometem poder e riqueza? 
  • Na indiferença diante da pobreza e da violência? 
  • Na incapacidade de reconhecer Deus presente nos pequenos e invisíveis?

O Evangelho convida a reconhecer que a luz de Deus frequentemente aparece onde menos esperamos. Aparece nos pobres que resistem, nas comunidades que lutam por justiça, nos gestos silenciosos de solidariedade que sustentam a esperança do mundo. A Quaresma torna-se então tempo de abertura dos olhos. Tempo de permitir que o barro do Evangelho toque nossa visão interior e cure nossas cegueiras pessoais e coletivas.

Assim como o homem lavou-se na piscina de Siloé e voltou vendo, também a humanidade continua sendo convidada a atravessar as águas da conversão.. Voltando er, no Evangelho, significa reconhecer a presença de Deus na dignidade de cada pessoa humana. E cada vez que alguém recupera essa visão, o sinal narrado em João 9 volta a acontecer na história, iluminando caminhos de justiça, compaixão e esperança no meio das sombras do mundo.

DNonato - Ainda cego para algumas  coisas...

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