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sábado, 5 de julho de 2025

"Nem tudo se explica, mas tudo pode ser abraçado"

Em memória de Juliana Marins

"Would you know my name

If I saw you in heaven?"

— Eric Clapton, “Tears in Heaven”

"Será que você saberia meu nome, se eu te encontrasse no céu?"

A pergunta atravessa a canção como uma prece embargada. E talvez seja essa a pergunta de tantos pais que enterram um filho antes do tempo. Para muitos, a notícia sobre a queda e morte de Juliana Marins na Indonésia foi apenas isso: uma notícia. Uma tragédia entre tantas. Um rosto em meio a tantos nomes que cruzam as manchetes por segundos e logo são esquecidos. Mas para sua família, para seus pais, essa notícia é uma ausência que não passa, é um corte na carne, é uma saudade que ninguém pode traduzir. É uma dor que não se explica, mas que continua morando no corpo e na memória, a cada manhã, a cada silêncio.

O sepultamento de Juliana atravessa mais do que oceanos. Ele nos atinge a todos, porque rompe uma ilusão que preferimos manter: a de que a vida sempre terá tempo, de que a juventude é invencível, de que o mal está distante. Mas ele veio, rasgou o tempo e nos fez ver. Uma filha do Brasil, uma jovem cheia de sonhos, morta longe de casa, com seus últimos momentos registrados por um vídeo que ninguém deveria ter visto. Uma imagem que não precisava existir, e que, no entanto, agora permanece gravada como denúncia, como súplica, como escândalo.

Diante do corpo de Juliana sendo trazido de volta ao país, os braços de seus pais se estendem como quem quer reverter o tempo. Como quem quer trazê-la de volta não apenas da Indonésia, mas da morte. É o mesmo gesto de Maria aos pés da cruz, sem entender, mas permanecendo. O mesmo gesto de tantas outras mães e pais que vivem o luto mais cruel: o de enterrar um filho. E, pior ainda, o luto daqueles que nem sequer têm um corpo para enterrar.

Há mães que dormem abraçadas a retratos, sem saber se os filhos ainda vivem ou já partiram. Há pais que frequentam necrotérios e hospitais tentando reconhecer um corpo que preferem nunca encontrar. São mulheres e homens que vivem entre boletins de ocorrência e orações silenciosas, entre a esperança e o desespero, com uma dor que não se publiciza, mas que carrega uma cruz de cada dia. A dor dos pais de Juliana é única, mas ela dialoga com essas tantas outras dores que se acumulam neste país onde vidas são silenciadas, onde jovens são mortos ou desaparecem sem resposta, sem justiça, sem nome. A morte de Juliana não é só uma tragédia. É também um espelho. Porque também nós, vivos, vivemos muitos sepultamentos invisíveis. Quantas vezes enterramos sonhos sem fazer velório? Quantas vezes perdemos alguém – por distância, por violência, por abandono – e seguimos respirando como se viver fosse só isso? Quantas vezes enterramos partes de nós sem sequer perceber? Em uma sociedade onde tudo precisa continuar funcionando, onde o luto é visto como fraqueza, o tempo da dor se torna subversivo. Mas ele é necessário. Porque há perguntas que só podem ser feitas na sombra do sepulcro. E há lágrimas que são semente de compaixão.

O sofrimento dos pais de Juliana não precisa ser explicado. Precisa ser acompanhado. Não com discursos apressados, nem com teologias de conveniência, mas com presença. Como Jó, que acusou até mesmo os amigos por tentarem justificar o injustificável: “Falareis falsidades em favor de Deus?” (Jó 13,7). Há um momento em que até a fé se cala. E se cala não por covardia, mas por reverência ao mistério. Como Jesus no Getsêmani, que suou sangue, que pediu para que o cálice passasse, que não negou o terror da morte.  É esse mesmo Jesus que, na cruz, grita: “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). E ao gritar, nos ensina que até Deus, feito homem, atravessou o abandono. Por isso, não ofereçamos respostas a quem está sofrendo. Ofereçamos ombro. Ofereçamos silêncio. Ofereçamos fidelidade. Porque, como diz a Escritura, “Eis que estarei convosco todos os dias” (Mt 28,20). Não para evitar a dor, mas para estar dentro dela conosco.

Há quem diga que o túmulo é o fim. Mas os cristãos creem que o sepulcro pode ser um ventre. O corpo de Juliana, agora descansando em sua terra, não é só despedida. É também memória. É também semente. “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morre, permanece só; mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). E a vida de Juliana – por mais curta, por mais injustamente interrompida – continua a falar. Sua história agora pertence a todos nós. Como semente que desafia a morte. Como rosto que recusa ser esquecido.

Nessa semana , ao sepultarmos Juliana, sepultamos também um pouco da fé ingênua na segurança das coisas. Enterramos a ilusão de que tragédias só acontecem longe. Mas também semeamos algo: o desejo de sermos um povo mais presente, mais compassivo, mais atento. Que essa morte não passe em branco. Que sua dor não se perca em estatísticas. Que ela nos desperte para a vida dos nossos, para o cuidado com os nossos jovens, para a defesa da dignidade humana – aqui ou na Indonésia, em nossas ruas ou nas periferias do mundo.

Nem tudo se explica. Mas tudo pode ser abraçado. E talvez seja esse o nome de Deus: aquele que abraça. Que se deita conosco no túmulo. Que chora conosco diante da pedra. Que espera conosco o dia da ressurreição – mesmo que ainda distante.

À família de Juliana, não temos consolo, mas temos solidariedade. Não temos respostas, mas temos braços. Não temos palavras certas, mas temos presença. Que vocês sintam o carinho de um país inteiro que não esquece. Que ama. Que respeita. Que se inclina diante do mistério da dor de vocês como quem entra em solo sagrado. E que Juliana, agora livre de todas as dores, continue sendo presença na ausência, como uma estrela que brilha mesmo quando a noite parece não ter fim.

Mas seria injusto — e desumano — não denunciar também o veneno que surge sempre que uma tragédia se transforma em palco para julgamentos. Há quem, com a frieza de quem nunca conheceu o amor, ouse insinuar que Juliana foi culpada por sua própria morte. Como se o desejo de viver, de viajar, de amar e existir em liberdade fosse crime. Juliana não foi imprudente, foi jovem. E ser jovem nunca deve ser uma sentença de morte. Há também os que tentam sequestrar sua história para alimentar narrativas ideológicas: uns à esquerda, outros à direita, todos distantes da dor real. A morte de uma filha não é pauta política. É um altar onde se deve descalçar os pés. É chão sagrado onde não cabem manipulações nem cinismos. Quem faz da dor um palanque revela que perdeu, há muito, a capacidade de sentir.

Juliana não é uma estatística. É semente. É santuário. A juventude que ela representava — com seus riscos, desejos, buscas e ousadias — é, como nos recorda o Documento 85 da CNBB, um lugar teológico, um espaço concreto em que Deus se manifesta e desafia a Igreja e a sociedade. Desprezar a juventude, culpabilizá-la por sua própria vulnerabilidade ou silenciá-la diante da violência é pecar contra a revelação do próprio Deus. Juliana nos revela, mesmo no sofrimento, esse rosto de Deus que pulsa onde muitos não ousam ver: na dor dos pobres, no grito das mulheres, no sangue inocente das juventudes que seguem sendo crucificadas em nosso tempo.

DNonato – Teólogo do Cotidiano,  Para Juliana, para seus pais, e para todas as mães que esperam em silêncio e esperança.


terça-feira, 1 de julho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo XXXII

 

O Amor que Nada Exige, Só Precisa do Outro

Na vida, há amores que se constroem sobre promessas vistosas. Firmam contratos emocionais, calculam reciprocidade como se amar fosse um comércio delicado. Vivemos tempos em que o afeto foi colonizado pelo mercado: tudo precisa dar retorno, tudo precisa performar. Até o amor, em muitos casos, foi reduzido a desempenho emocional e capital de validação social.

Mas também existem outros tipos de amor. Mais raros, mais silenciosos, quase subversivos em tempos de afeto condicionado.

Amores que não exigem, apenas precisam. Que não têm pressa, não cobram retorno, mas se sustentam na simples alegria de estar com o outro. Amores que se bastam na presença partilhada — seja na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê, como canta a banda Kid Abelha. Esse amor não nasce do ideal, mas da realidade. Ele brota nas rachaduras da vida comum, na partilha da escassez, nos silêncios prolongados, nos dias em que nada acontece e, ainda assim, a companhia basta. Ele não se apoia no que se tem, mas no que se é. E no que se escolhe ser, todos os dias.

Às vezes, esse amor é marcado por uma assimetria dolorosa. Como canta a mesma canção: “Não estou disposto, a esquecer seu rosto de vez e acho que é tão normal. Gostar de quem não gosta de mim...”

Amar assim é aceitar a vulnerabilidade de não ter controle, de não possuir o outro, de não exigir garantias. É amar como o Deus de Oséias (cf. Os 2,16-25), que, mesmo traído, não desiste da aliança. Um Deus que transforma o deserto em lugar de encontro e a dor em nova esperança. É amar como quem planta sabendo que talvez nunca colha. Como quem ama sabendo que talvez nunca seja correspondido — mas ama mesmo assim.

Esse amor atravessa o tempo e a dor, resiste ao cansaço e à ausência, e sobrevive mesmo quando tudo parece perdido. Ele não se adapta à lógica do consumo, nem à estética da perfeição. Num tempo em que o amor virou performance nas redes e os afetos se medem por curtidas e respostas rápidas, esse amor desacelera. Desafia o algoritmo, resiste à descartabilidade, permanece sem espetáculo.

Amar assim é ser herege do sistema, profeta da permanência, louco por continuar acreditando que estar com alguém — em silêncio, sem brilho, sem garantias — ainda é a forma mais humana de viver. Esse amor humaniza. Devolve sentido, restitui inteireza. Constrói pontes onde antes havia muros.  

E quando o outro se vai — pela morte, pela distância, pelo tempo — esse amor não morre. Ele muda de forma. Torna-se memória, oração, espaço interno. Torna-se casa.

Porque o amor verdadeiro não termina com a ausência. Ele é semente que permanece, mesmo enterrada, à espera da ressurreição.

Como no Cântico dos Cânticos, onde o amor é busca, ausência e presença ao mesmo tempo:  “Procurei aquele a quem minha alma ama...

Encontrei-o, e não o deixei mais” (Ct 3,1-4)

Esse amor é místico e concreto, carnal e espiritual. É amor que faz do corpo templo e do outro, morada. O Evangelho de João usa o verbo μένω (menô) para falar desse tipo de amor: “Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). Esse “permanecer” é mais do que ficar. É habitar. Tornar-se casa um do outro. É ternura que resiste à perda, que permanece mesmo quando o leito se esvazia.

Mas há um risco silencioso que espreita: o de se tornar uma casa vazia. Um corpo que ainda se move, mas que não abriga mais ninguém. Quando trancamos os sentimentos, quando tentamos matar o amor para evitar a dor, algo em nós morre junto. Ficamos de pé, mas não inteiros. Tornamo-nos estrutura sem alma, voz sem calor, abraço sem morada.

Como canta outra canção:  “Naquela casa ninguém mais mora...” 

E essa casa, tantas vezes, é o corpo de quem desistiu de sentir. De quem apagou memórias por medo da saudade. De quem preferiu o vazio ao risco de lembrar. Mas há rostos que não se esquecem. Não por fraqueza, mas por reverência. Porque o amor que passou por nós com verdade deixa marcas que não queremos apagar. E quando a música insiste:  

“Jogue suas mãos para o céu Agradeça se acaso tiverAlguém que você gostaria que estivesse sempre com você. Na rua, na chuva, na fazenda Ou numa casinha de sapê...”

Ela não fala apenas de romance. Fala de um desejo profundo: o de ter onde morar. Ter um rosto que seja casa. Uma presença que seja abrigo, mesmo quando a ausência toma o lugar do corpo.

O amor que lembra é também o amor que permanece. Aquele que, mesmo quando tudo se desfaz, insiste em sussurrar: “eu ainda sou casa pra você.” Não casa de tijolos, mas de memória. Não morada fixa, mas presença que nos visita no cheiro do café, na dobra da música, no silêncio que pulsa no meio da madrugada. 

Se você tem alguém cuja presença fez o mundo parecer mais inteiro, agradeça. Mesmo que esteja longe. Mesmo que só reste a lembrança. Mesmo que só haja saudade. Porque há ausências que não são abandono. São permanências disfarçadas. Sementes enterradas que continuam vivas, à espera da primavera.

Amar assim é contrariar o tempo e zombar das lógicas do descarte. É transformar o ordinário em altar, a falta em fé, a ausência em altar de permanência. É seguir acreditando que ainda vale a pena abrir espaço, ainda que doa. Porque a dor, quando atravessada com verdade, revela a profundidade do que foi vivido. O amor verdadeiro não termina, ele se transforma. Continua morando na gente, como uma oração que nunca se encerra. Como um perfume que o tempo não apaga. Como um fogo que não consome, mas aquece em silêncio.

Tal amor não exige. Só precisa. Precisa do outro — do seu jeito, da sua risada, da sua lembrança. Não para possuir, mas para habitar. No fim, é isso que salva: amar sem negociar. Continuar amando, mesmo no escuro, mesmo sozinho, mesmo na saudade. 

Até que o próprio amor se torne abrigo. Até que o próprio amor se torne casa.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

Não precisa de uma sequência  para essa leitura, escolha ou faça a sua 

  1. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo.
  2. A Questão do Sentimento e Respeito a si mesmo II
  3. A Questão de sentimento  e o Respeito  por si mesmo III
  4. A Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo IV
  5. Questão do sentimento, Respeito a si mesmo V
  6. Questão do sentimento, respeito a si mesmo VI
  7. Questão do sentimento, respeito por si mesmo VII
  8. Questão do Sentimento, respeito si mesmo VIII
  9. Questão de sentimento e Respeito a si mesmo IX
  10. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo X
  11. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XI
  12. Questão de sentimento Respeito por si mesmo XII
  13. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XIII
  14. Questão de sentimento respeito por si mesmo XIV
  15. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XV
  16. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVI
  17. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo ​XVII​​​
  18. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVIII.
  19. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.
  20. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XX.
  21. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXI
  22. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXII
  23. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIII
  24. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIV
  25. A Questão  do sentimento  e o Respeito  por si mesmo - XXV
  26. A questão do Sentimento e o respeito por si mesmo XXVI
  27. A Questão  de sentimento  e Respeito  por si mesmo  XXVII..
  28. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXVIII
  29.  A Questão  do Sentimento  e Respeito  a si mesmo  XXIX
  30. A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX
  31.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXI

quinta-feira, 26 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXI


Amor é verbo, não pronome: entre a ilusão da fala e a verdade do gesto

"Amor não é alguém dizendo ‘eu te amo’. Amor é tudo o que a pessoa faz por você. Amor é ação." Essa frase, simples e direta, desmonta muita da encenação sentimental que chamamos amor. Há quem diga "eu te amo" com a boca, mas se ausenta na hora do cuidado, da escuta, do cansaço, da partilha da dor. O amor não mora na garganta — ele se abriga nos gestos. Na canção popular, ouvimos promessas eternas: “te amarei até o fim dos meus dias”, “você é tudo pra mim”. Palavras que encantam, mas que, por vezes, traem a realidade. Porque amar é mais que sentir — é decidir permanecer. É saber partir quando o outro precisa ir. É sofrer a ausência e, ainda assim, desejar o bem.

São Paulo, em sua carta aos Coríntios, já denunciava o amor vazio de conteúdo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como bronze que soa ou címbalo que retine.” E o apóstolo vai além: o amor é paciente, é benigno, não busca os próprios interesses. O verdadeiro amor não aprisiona, não sufoca, não exige a posse do outro para se sentir seguro. O amor, quando amadurece, não grita, não acusa, não se impõe. Como o pai da parábola do filho pródigo, ele permite que o outro parta. E sofre — não de raiva, mas de silêncio. Ele permanece de pé, à porta, esperando não o retorno do controle, mas o reencontro da liberdade amada. Esse é o amor que deixa ir... e ainda assim permanece inteiro.

Na psicologia, aprendemos que a paixão — esse arrebatamento inicial — é marcada por projeções, idealizações, desejos de fusão. Mas o amor maduro é diferente: ele reconhece o outro como outro. E, por isso mesmo, aprende a deixar ir. Amar, às vezes, é ver o outro partir... e ainda assim amar. É respeitar a decisão, mesmo que ela nos despedace. É orar pelo bem do outro, mesmo quando nosso nome já não mora em sua vida. Erich Fromm dizia: “O amor é uma decisão, um julgamento, uma promessa.” Mas também é uma ferida aberta — não por desamor, mas por excesso de presença silenciosa. A psicologia do luto nos mostra que há mortes simbólicas que doem tanto quanto as biológicas: o adeus não dito, a ausência que não se explica, o carinho que virou silêncio. Há lutos sem túmulo, dores sem nome. Amar, nesses casos, é resistir à amargura. É não deixar que a dor nos transforme em quem nunca fomos.

Quem ama de verdade, sofre quando perde — mas não fere para manter. A ausência dói, mas não destrói o que foi vivido com verdade. Como dizia Rubem Alves, “o amor é quando o tempo se transforma em memória e ninguém consegue apagar.” O amor real sobrevive até à distância, porque não é só presença física — é raiz que sustenta, mesmo invisível. Há amores que permanecem mesmo quando tudo mudou. Há presenças que continuam mesmo na ausência. E há distâncias que, em vez de romper, revelam a profundidade do vínculo. Amar é isso também: sangrar sem amargura. Permitir que o outro cresça, mesmo que o crescimento o leve para longe de nós. Não aprisionar nem condenar. Como Maria, mãe de Jesus, guardar tudo no coração — inclusive a dor.

Nas tradições indígenas e africanas, amar é cuidar. É partilhar o alimento, vigiar o sono do outro, respeitar o tempo do silêncio. O amor não se diz — se vive. E esse amor, feito de gesto e presença, talvez seja mais cristão que muitos sermões eloquentes e vazios.

Vivemos tempos em que tudo é efêmero. Amar com verdade é quase um escândalo. É insistir na permanência num mundo de liquidez. É ser raiz em tempos de vento. É lutar contra a espiritualidade performática que reduz o amor a música alta e promessas baratas. O amor, como Cristo mostrou, não se grita no templo — se encarna no gesto escondido, no perdão sem plateia, na dor sem revanche.

Na cruz, Jesus amou sem exigir resposta. Perdoou sem se defender. Ali, o amor mostrou sua face mais pura: a de quem permanece, mesmo sendo rejeitado. Quem ama de verdade sabe que às vezes o maior milagre é não deixar o coração endurecer. Talvez, no fim, o amor seja isso: a capacidade de seguir amando mesmo quando o outro já não está. Como Deus faz conosco desde o Éden. Amar é isso: não apagar o outro da alma, mesmo que ele já tenha ido embora da vida.

Porque o amor, quando é real, não morre — ele se crucifica em silêncio, ressuscita em gestos e ascende toda vez que escolhe permanecer... mesmo quando tudo em volta parece ter partido.

Que eu ame mesmo quando perco.

Que eu cuide mesmo à distância.

Que eu deixe ir, sem deixar de amar.

Que minha ausência seja presença que abençoa.

E que o amor, mesmo ferido, continue sendo

carne, sangue e gesto em mim.

 

DNonato – Teólogo do Cotidiano, Amar é também saber partir, e ainda assim permanecer no mistério da entrega.

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quarta-feira, 25 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX


A ausência que mata?

No dia 20 de junho de 2025, a jovem brasileira Juliana Marins caiu na cratera do vulcão Rinjani, na Indonésia. Ela sobreviveu por quase quatro dias, ferida, sozinha, esperando por ajuda. Lutou porque queria viver. Queria viver com intensidade, amava as montanhas, a natureza e a liberdade. Sua última imagem mostra o rosto de alguém que ainda acreditava — mesmo em meio ao abismo.

A ajuda, no entanto, não chegou a tempo. As decisões foram lentas. A presença falhou. Juliana morreu não porque desistiu da vida, mas porque foi deixada sozinha. Sua morte expõe uma realidade mais ampla: a ausência como prática social naturalizada. A partir dela, precisamos refletir sobre a banalização do abandono em nossa cultura.

Vivemos numa sociedade em que o abandono foi normalizado. Netos não visitam mais seus avós. Pais e mães não têm tempo para seus filhos. Filhos adultos ignoram os pais em nome da autonomia. Há lares emocionalmente desconectados, marcados por silêncios prolongados e afastamentos justificados por agendas ou ressentimentos. Esse distanciamento causa o colapso de vínculos afetivos fundamentais, gerando o que podemos chamar de “morte social”: a sensação de que se está vivo, mas esquecido, ignorado, descartado.

O abandono, portanto, não se restringe ao âmbito privado. Ele é estrutural, cultural e espiritual. Em muitos contextos, quem sofre passa a ser visto como incômodo. Pessoas que expressam dor ou tentam restaurar vínculos são frequentemente taxadas de exageradas. A recusa em dialogar, a desvalorização do cuidado mútuo e o desprezo pelas pequenas presenças revelam uma sociedade doente pela indiferença.

As Escrituras não silenciam diante disso. Os profetas denunciam o abandono como infidelidade à aliança. Jeremias acusa o povo de abandonar a fonte de água viva (Jr 2,13). Isaías mostra um povo que honra com os lábios, mas vive longe de Deus no coração (Is 29,13). Oseias revela o sofrimento divino com a pergunta: “Como posso te abandonar, ó Efraim?” (Os 11,8). Jesus, por sua vez, chorou sobre Jerusalém porque ela recusou o cuidado e a escuta (Lc 13,34).

Na sabedoria dos povos indígenas, a ideia de abandono é inconcebível. Os Guarani falam do teko porã, o bem viver coletivo, onde cada pessoa é parte do equilíbrio de todos. Os Yanomami ensinam que escutar é um ato espiritual e que a dor de um membro afeta o corpo inteiro da comunidade. Ailton Krenak, pensador indígena contemporâneo, alerta que a humanidade está adoecida por não conseguir mais sentir junto com o outro.


Na cosmologia dos Orixás, a ausência tem significado ético. Oxóssi, o caçador, se afasta da aldeia quando a floresta é desrespeitada. Sua ausência é pedagógica: ensina que o sagrado se retira quando os laços são violados. Iansã, senhora dos ventos, também se recolhe diante da mentira. O sagrado, nessas tradições, se retira quando a verdade e o respeito deixam de habitar as relações.

Na tradição greco-romana, o abandono é frequentemente retratado como tragédia. Antígona, Édipo, Medeia — todos são figuras atravessadas por rompimentos e pela incapacidade da cidade de sustentar os vínculos fundamentais. A pietas romana, que exigia fidelidade aos pais, aos deuses e à pátria, mostrava que abandonar era também perder a própria humanidade.

A teologia profética nos alerta que o abandono não é apenas negligência: é idolatria. É preferir o conforto à compaixão, o individualismo ao vínculo, a produtividade ao cuidado. Quando os pequenos são ignorados, o projeto de Deus é traído. Quando o sofrimento é normalizado, a presença divina é banida dos relacionamentos.

Diante disso, precisamos reconhecer que há momentos em que encerrar vínculos é um ato de maturidade. Buscar continuamente quem não quer ser encontrado, insistir onde há apenas indiferença, é tornar-se cúmplice do próprio esvaziamento. Chega o tempo de parar de explicar o óbvio: que o amor exige reciprocidade, e a presença, comprometimento.

Assim como Oxóssi que se retira para proteger o sagrado, como Iansã que recolhe o vento quando a palavra é violada, e como Jesus que se cala diante do desprezo, também nós aprendemos a nos afastar. Não por mágoa, mas por dignidade. Não por desamor, mas por sanidade. Não por derrota, mas por fé.

Quem quiser estar, que esteja de verdade. Quem quiser amar, que apareça com integridade. Quem continua ausente, que aceite perder o lugar que recusou ocupar.

Porque já enterramos demais. E há vivos que continuam respirando, mas vivem sepultados na memória dos que um dia os amaram com verdade, entrega e coragem.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

Vale a pena ler

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terça-feira, 3 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXVIII

 


  • A liturgia secreta da saudade

Entre pousos que não chegam, preces que não ecoam e canções que não se calam. Há despedidas que não rompem o ar com gritos. Elas sangram por dentro, num silêncio que ensurdece a alma. O mundo, indiferente, gira em seu compasso habitual, como se a ausência fosse apenas um detalhe – mas, em quem fica, tudo se interrompe. O tempo perde o rumo, os dias se estilhaçam, recusando qualquer encaixe. Há presenças que se tornam insistentes na ausência: recusam-se a partir por completo. Acomodam-se nas dobras da memória, no cheiro que resiste, no nome que ainda embarga a voz. A saudade, então, deixa de ser lembrança. Torna-se corpo: carne, osso e espera. Uma espera que não cessa. Uma prece que ninguém ouve.

Algumas lacunas tornam-se morada. Há quem parta sem fechar a porta, sem dizer adeus – e, no entanto, permaneça. Habita o canto da casa onde o silêncio respira, na peça de roupa que não se teve coragem de lavar, na caneca deixada sobre a mesa, no café passado todas as manhãs, como se o outro ainda fosse voltar. É um ritual. Uma missa silenciosa. A canção que insiste em tocar justo quando se tenta esquecer – ou talvez quando mais se precisa lembrar. 

Cada gesto,  o café passado, a peça de roupa intocada, o nome sussurrado,  compõe uma liturgia secreta. É missa cotidiana, celebrada não com hóstias, mas com lágrimas. Um rito sem rito, onde a saudade é ministra, e o amor, sacramento. Para quem vive nesse território da ausência, certas canções não são apenas trilha sonora: são espelhos. Revelam o que as palavras não alcançam. É assim com “Esperando Aviões” e “Onde Deus Possa Me Ouvir”, de Vander Lee – melodias que não apenas embalam a dor, mas a encarnam. Na primeira, a dor se traduz numa espera sem fim. Como alguém que se perde na solidão de uma pista deserta, aguardando pousos que nunca acontecem:

“Cada dia que passo sem sua presença 

Sou um presidiário cumprindo sentença

Sou um velho diário, perdido na areia, esperando que você me leia. Sou pista vazia esperando aviões.”

É a imagem de quem permanece à margem do que um dia foi promessa. Um amor que não aterrissou. A ausência como um castigo, uma sentença silenciosa. A dor, aqui, não grita: ela sussurra, sem descanso, até esgotar o fôlego da alma. 

Na segunda canção, a solidão se transforma em prece. Um clamor exausto, um grito abafado:

“Meu amor! Deixa eu chorar até cansar, me leve pra qualquer lugar, Aonde Deus possa me ouvir.”

Ali, a alma, ferida, se recolhe. Não há mais certezas, só o desejo de ser escutada. A fé não é triunfante – é trêmula, vacilante, e por isso mesmo, mais autêntica. É a fé dos que choram sozinhos no escuro, dos que não recebem respostas, mas continuam rezando. Mesmo entre os escombros.

Na tradição cristã, a memória não é apenas uma lembrança: é sacramento. “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19) é mais que repetição — é atualização do amor que se fez ausência para nunca mais partir. A saudade, nesse contexto, é uma eucaristia afetiva. Um altar íntimo onde o amor continua sendo celebrado. São Paulo, escrevendo aos Coríntios, oferece um lampejo desse amor que sobrevive à ausência:

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus próprios interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.  O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-7).

Não é um amor idealizado ou de contos de fadas. É o amor dos que permanecem quando tudo se desfaz. Que resiste sem alarde. Que espera, mesmo em lágrimas. Que, mesmo sangrando, continua amando – sem exigência de retorno, sem garantias. Apenas ama.

Como o salmista que clama: “Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim?” (Sl 13,1), e como quem chora sem voz:

“Por que estás abatida, ó minha alma? Espera em Deus” (Sl 42,5), a alma que ama também se interroga: até quando esta espera? Mas, logo depois, se agarra à esperança que renasce da memória:  “Todavia, lembro-me do que pode me dar esperança” (Lm 3,21).

Esperar, então, não é rendição.

É insistência.

É fidelidade.

É um ato de coragem afetiva.

A sabedoria ancestral dos povos indígenas compreende isso com ternura. Entre os Guarani, o amor é uma travessia. Quando alguém parte, não some – apenas segue para a Terra Sem Males. Lá, o reencontro é possível. A saudade se transforma em canto, e os afetos reencontram seu lugar. A separação, nessa cosmovisão, não é fim – é passagem sagrada.

As canções de Vander Lee – assim como outras que nos embalam a alma – não apenas narram a dor: elas a sentem conosco. Como “Por Enquanto”, de Renato Russo: “Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar Que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre sempre acaba?”

Ou “Saudade”, de Fagner: “Saudade, palavra triste quando se perde um grande amor…” Ou ainda “Coração Selvagem”, de Belchior:  “ Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar, que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar.”

E há dias em que cada célula do nosso corpo parece esperar por um reencontro impossível. O desejo não é grandioso. É singelo: contar a alguém – que já não está – como temos sobrevivido. Dizer que seguimos. Que ainda esperamos. Que, apesar de tudo, continuamos amando. Talvez essa seja a prece mais verdadeira: que, de algum modo, essa pessoa retorne.

Nem que seja num sonho.

Nem que seja num cheiro.

Nem que seja num fragmento de canção.

Num sopro.

Porque talvez,  e só talvez, em algum recanto onde Deus possa nos ouvir, ou onde o tempo devolva o que nos foi arrancado, alguém escute a música da nossa saudade e volte. Nem que seja por um instante. Nem que seja apenas no altar secreto do coração, esse espaço onde a fé se ajoelha junto com a dor e canta, mesmo sem voz, a esperança. 

Mas que volte.

Porque o amor – o verdadeiro amor – não termina.

Ele crê.

Ele espera.

Ele suporta.

Ele canta, mesmo em silêncio.

Ele voa, mesmo sem asas.

Ele pousa, mesmo no invisível.

Talvez – e ainda talvez – o amor seja

o único avião que nunca cai, o único voo que jamais será cancelado, a única chegada certa no tempo de Deus.

 “E Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima. 

Não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor...” (Ap 21,4)

E se houver um céu,  ou apenas o sopro da lembrança, é lá que tudo se reencontra. No silêncio das preces que ninguém mais ouve. No canto das músicas que só o coração compreende.  Na eternidade preservada no instante em que nos lembramos...

E algo em nós ainda teimosamente acredita.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, uma pista vazia esperando que o amor possa me ouvir.







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domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - VII

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Falar de sentimento é algo que muitas pessoas evitam para não revelar a sua fraqueza. Não sabemos se somos fracassados por ter sentido ou ainda sentir algo por alguém que não retribui o sentimento por ela dedicado. Quando paramos por um minuto e observamos o nosso passado, com muitas vitórias e acertos, porém sem a sua presença em nossa vida, sentimos que fracassamos em algo. Era preciso um pouco mais de silêncio ou que tocassem uma canção, como nas telenovelas, naqueles momentos em que não devíamos falar.

E, diante do silêncio, surge a tentação de procurar culpados. Costumamos responsabilizar os outros por nossos fracassos, e assim fugimos para uma zona de conforto: a de vítimas. Vítimas de alguém, do destino ou, para alguns, até mesmo do próprio Deus, que teria permitido o sofrimento. Mas, se o Criador viesse do céu impor sua vontade em todos os nossos assuntos, sinceramente, Ele não seria Deus. Reduzimos Deus ao nosso tamanho, o colocamos dentro da moldura estreita das nossas escolhas, como se Ele fosse um fiador das nossas decisões — boas ou ruins. E fazemos isso para aliviar o peso das nossas próprias mancadas.

Vivemos entre pessoas que ferem, que magoam, que tomam decisões impensadas. Quando percebem o erro, tentam se esquivar: culpam a bebida, o estresse, a pressão do momento — ou até mesmo o outro. Assumir a própria responsabilidade virou quase um ato heroico. Foi isso que fizeste: faltou reflexão e sobraram acusações. Pior ainda, tentaste nos pintar como vilão, distorcendo fatos e negando traços da nossa personalidade. No fim, tiraste de nós um pouco da alegria e deixaste em troca um vazio difícil de preencher.

Ainda assim, resistimos. Juramos que não deixaríamos o sentimento nos abater, que não sentiríamos tua falta. Mas ontem, por um instante que pareceu uma eternidade, nos sentimos sozinhos, fracassados. Silenciosamente, nos recolhemos num canto, buscando em Deus alguma resposta para tudo isso. E talvez a resposta seja a coragem de reconhecer os próprios fracassos como ponto de partida para recomeçar.

O ser humano carrega essa marca: a da falta. Sempre falta algo — seja dinheiro, amor, fé, saúde ou apenas coragem para admitir que somos incompletos. Querendo ou não, somos imperfeitos. Anjos sem asas que tentam, neste mundo empoeirado, refletir a imagem do Criador num espelho quebrado.

As tradições judaica, cristã e islâmica reconhecem essa tensão entre o barro e o sopro divino. Na antropologia sagrada, o ser humano é visto como aquele que caminha entre a luz e a poeira. O Alcorão fala do nafs — a alma em conflito — e da constante busca por equilíbrio interior. Fomos feitos do barro, como Adão, mas carregamos o sopro de Deus em nós. E mesmo assim, com todas as nossas quedas, somos assistidos, silenciosamente, por figuras que habitam o invisível: os anjos.

Na tradição cristã e judaica, são eles: Miguel, o guerreiro; Rafael, o curador; e Gabriel, o mensageiro. No Islã, também os encontramos com nomes próximos: Mikail, Israfil e Jibril. Eles não apenas anunciam, mas também testemunham. E mesmo que não compreendam o mistério do livre-arbítrio humano — pois não conhecem o pecado nem a dúvida —, são presença constante na história da salvação e no drama de cada alma.

Nossa história, contudo, ficou marcada por um fracasso que ainda nos envergonha. Apostamos alto, e perdemos. E embora toda aposta envolva riscos, há derrotas que nos marcam de modo mais profundo. Diante dessa perda, só nos resta acolher a lição.

A solidão é uma dessas presenças fiéis que não nos abandona — nem na multidão, nem no quarto vazio. Por isso, não devemos ter vergonha de sentir. O primeiro passo para a cura é admitir: ainda há um pouco de você em nós que insiste em ficar. Você não foi só uma experiência, tampouco uma aventura com final feliz. Você foi — e talvez ainda seja — aquela pessoa que nos deu asas de cera e nos levou a voar em direção ao sol, como Ícaro.
Perdemos as asas no voo. Mas o desafio, agora, é outro: reconstruí-las enquanto ainda caímos, para que, quando tocarmos o chão, possamos te dizer — com verdade e serenidade — que ainda estamos de pé. E que, enfim, não precisamos mais de você. Porque nossas asas já não são apenas ilusão.

E se hoje ainda restam pedaços de cera grudados em nossos ombros, é porque fomos feitos também de sonho — e sonhar, apesar de tudo, ainda é um dom divino. A queda não nos define, mas nos ensina. E a ausência de quem partiu já não é mais abismo, mas chão fértil onde renascem nossas asas — agora forjadas não de ilusão, mas de esperança temperada pelo tempo. Seguimos, com os pés sujos de barro e o coração cheio de céu, sabendo que nem Miguel com sua espada, nem Gabriel com sua voz, nem Rafael com sua cura — nem mesmo Jibril, mensageiro dos céus — podem nos impedir de amar outra vez, ainda que a queda tenha nos ensinado a voar mais baixo. Porque, afinal, somos apenas humanos tentando ser imagem do Eterno num espelho em reconstrução.

DNonato – Graduado em História, tentando ser imagem do Eterno num espelho em reconstrução.