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quarta-feira, 25 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX


A ausência que mata?

No dia 20 de junho de 2025, a jovem brasileira Juliana Marins caiu na cratera do vulcão Rinjani, na Indonésia. Ela sobreviveu por quase quatro dias, ferida, sozinha, esperando por ajuda. Lutou porque queria viver. Queria viver com intensidade, amava as montanhas, a natureza e a liberdade. Sua última imagem mostra o rosto de alguém que ainda acreditava — mesmo em meio ao abismo.

A ajuda, no entanto, não chegou a tempo. As decisões foram lentas. A presença falhou. Juliana morreu não porque desistiu da vida, mas porque foi deixada sozinha. Sua morte expõe uma realidade mais ampla: a ausência como prática social naturalizada. A partir dela, precisamos refletir sobre a banalização do abandono em nossa cultura.

Vivemos numa sociedade em que o abandono foi normalizado. Netos não visitam mais seus avós. Pais e mães não têm tempo para seus filhos. Filhos adultos ignoram os pais em nome da autonomia. Há lares emocionalmente desconectados, marcados por silêncios prolongados e afastamentos justificados por agendas ou ressentimentos. Esse distanciamento causa o colapso de vínculos afetivos fundamentais, gerando o que podemos chamar de “morte social”: a sensação de que se está vivo, mas esquecido, ignorado, descartado.

O abandono, portanto, não se restringe ao âmbito privado. Ele é estrutural, cultural e espiritual. Em muitos contextos, quem sofre passa a ser visto como incômodo. Pessoas que expressam dor ou tentam restaurar vínculos são frequentemente taxadas de exageradas. A recusa em dialogar, a desvalorização do cuidado mútuo e o desprezo pelas pequenas presenças revelam uma sociedade doente pela indiferença.

As Escrituras não silenciam diante disso. Os profetas denunciam o abandono como infidelidade à aliança. Jeremias acusa o povo de abandonar a fonte de água viva (Jr 2,13). Isaías mostra um povo que honra com os lábios, mas vive longe de Deus no coração (Is 29,13). Oseias revela o sofrimento divino com a pergunta: “Como posso te abandonar, ó Efraim?” (Os 11,8). Jesus, por sua vez, chorou sobre Jerusalém porque ela recusou o cuidado e a escuta (Lc 13,34).

Na sabedoria dos povos indígenas, a ideia de abandono é inconcebível. Os Guarani falam do teko porã, o bem viver coletivo, onde cada pessoa é parte do equilíbrio de todos. Os Yanomami ensinam que escutar é um ato espiritual e que a dor de um membro afeta o corpo inteiro da comunidade. Ailton Krenak, pensador indígena contemporâneo, alerta que a humanidade está adoecida por não conseguir mais sentir junto com o outro.


Na cosmologia dos Orixás, a ausência tem significado ético. Oxóssi, o caçador, se afasta da aldeia quando a floresta é desrespeitada. Sua ausência é pedagógica: ensina que o sagrado se retira quando os laços são violados. Iansã, senhora dos ventos, também se recolhe diante da mentira. O sagrado, nessas tradições, se retira quando a verdade e o respeito deixam de habitar as relações.

Na tradição greco-romana, o abandono é frequentemente retratado como tragédia. Antígona, Édipo, Medeia — todos são figuras atravessadas por rompimentos e pela incapacidade da cidade de sustentar os vínculos fundamentais. A pietas romana, que exigia fidelidade aos pais, aos deuses e à pátria, mostrava que abandonar era também perder a própria humanidade.

A teologia profética nos alerta que o abandono não é apenas negligência: é idolatria. É preferir o conforto à compaixão, o individualismo ao vínculo, a produtividade ao cuidado. Quando os pequenos são ignorados, o projeto de Deus é traído. Quando o sofrimento é normalizado, a presença divina é banida dos relacionamentos.

Diante disso, precisamos reconhecer que há momentos em que encerrar vínculos é um ato de maturidade. Buscar continuamente quem não quer ser encontrado, insistir onde há apenas indiferença, é tornar-se cúmplice do próprio esvaziamento. Chega o tempo de parar de explicar o óbvio: que o amor exige reciprocidade, e a presença, comprometimento.

Assim como Oxóssi que se retira para proteger o sagrado, como Iansã que recolhe o vento quando a palavra é violada, e como Jesus que se cala diante do desprezo, também nós aprendemos a nos afastar. Não por mágoa, mas por dignidade. Não por desamor, mas por sanidade. Não por derrota, mas por fé.

Quem quiser estar, que esteja de verdade. Quem quiser amar, que apareça com integridade. Quem continua ausente, que aceite perder o lugar que recusou ocupar.

Porque já enterramos demais. E há vivos que continuam respirando, mas vivem sepultados na memória dos que um dia os amaram com verdade, entrega e coragem.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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domingo, 8 de junho de 2025

O Embuste das Armas e a Morte da Família no Brasil


Mais uma vez, as manchetes do Brasil trazem uma tragédia doméstica marcada por sangue, silêncio e uma arma legalizada. Em Limeira (SP), uma mulher e um bebê de apenas dois meses foram encontrados mortos ao lado do corpo do procurador municipal Rafael Horta, 40 anos. A Polícia Civil de São Paulo investiga o caso como um possível feminicídio seguido de infanticídio e suicídio. O revólver encontrado ao lado da cama — onde os corpos estavam — estava legalmente registrado no nome de Horta, que era CAC: colecionador, atirador e caçador. Se foi ele quem disparou, a perícia dirá. Mas o que já se sabe é incontornável: a arma era dele. A ideologia, também.
Agora, esposa, filho e o próprio Rafael Horta estão mortos — vítimas da mesma arma legalizada que prometia proteger. A arma era dele. O discurso, também. E o sangue, inevitável.

Não se trata de um caso isolado, nem de um “monstro” fora da curva. Trata-se de uma tragédia com raízes profundas em um projeto político e cultural que naturalizou a violência como forma de autoridade, transformou o armamento civil em símbolo de virtude e revestiu o autoritarismo de valores religiosos. Como alerta o profeta Jeremias, “Porquanto clamarão, mas não será ouvido; clamarão a mim, mas não responderei” (Jeremias 7:28). É esse grito sufocado, esse clamor ignorado, que traduz a voz das vítimas da violência institucionalizada.

Rafael Horta era um bolsonarista convicto. Defendia o armamento civil como garantia da “proteção da família”, idolatrava Sergio Moro, atacava o Supremo Tribunal Federal, chamava de “escolha” a crença na Terra plana e rejeitava o aborto no ventre — porque, segundo suas convicções, “a vida é sagrada desde a concepção”. Contudo, há fortes indícios de que compartilhava ou apoiava a ideia da pena de morte social, ou seja, a eliminação das minorias e dos vulneráveis como solução política e ideológica. Em outras palavras: a vida seria sagrada na concepção, mas, uma vez nascida, poderia ser descartada. Essa contradição expõe a face cruel e hipócrita de um projeto que mascara o extermínio como moralidade. 

A Escritura é clara ao denunciar a hipocrisia: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem da escuridão luz, e da luz, escuridão” (Isaías 5:20). Esse projeto político-cultural, que se esconde atrás de um falso moralismo, pratica essa inversão perversa. Usa a retórica da família e da fé para justificar a disseminação da morte e da opressão. É preciso dizer com clareza: essa não é apenas uma tragédia familiar. É o reflexo brutal de um modelo ideológico que legitima a posse de armas como virtude moral e a masculinidade violenta como modelo de conduta. Um modelo que foi promovido por Jair Bolsonaro — embusteiro travestido de Messias — que fez da retórica armamentista um programa de governo, das armas um fetiche e da família um campo de controle. Como o Salmo alerta: “O Senhor prova o justo, mas odeia o perverso e aquele que ama a violência” (Salmo 11:5). E é essa violência que se naturalizou na política, na cultura e nas casas brasileiras. 

O que antes poderia ser entendido como exceção tornou-se regra: a banalização da morte, o culto à força bruta e a negação da dignidade humana no íntimo do lar. O que deveria ser o espaço do cuidado tornou-se campo minado de medo e opressão. A tragédia de Limeira é mais um resultado previsível da política de morte disseminada por esse projeto. Um projeto que usou o nome de Deus, da Pátria e da Família não para proteger a vida, mas para justificar seu extermínio — especialmente o de mulheres, crianças e minorias. O discurso do “cidadão de bem armado” nunca foi sobre segurança. Sempre foi sobre poder, medo e dominação.

O apóstolo Tiago adverte: “Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males” (Tiago 3:16). E não há ambição mais perversa do que a ambição pelo controle violento, revestida de falsa justiça. Do ponto de vista sociológico, esse tipo de violência é alimentado por uma cultura que reforça a masculinidade como dominação e controle absoluto. Da psicologia, sabemos que a frustração emocional, quando armada, é destrutiva e pode explodir em tragédias irreparáveis. Da filosofia política, compreendemos que o Estado que abdica do monopólio legítimo da força abre caminho para o caos travestido de “liberdade”. E da economia, observamos o fortalecimento de uma indústria armamentista que lucra com o medo — enquanto as famílias enterram seus mortos.

Clamam contra mim, mas não há quem responda; clamam sobre a violência, mas não é libertado (Jeremias 5:28). E é esse silêncio cúmplice que permite que as balas continuem a matar. Da religião — verdadeira — só pode vir o escândalo: o nome de Deus foi usado para justificar a posse de armas, enquanto o Evangelho foi traído em cada disparo. Não há cristianismo possível na legitimação da violência doméstica, do ódio ideológico e da cultura da bala.

O próprio Jesus deixou claro que o mandamento maior é o amor, e que “quem vive pelo sangue, pelo sangue morrerá” (Mateus 26:52). Não é a força que constrói comunidades, mas o amor e a justiça. A legitimidade do poder não reside no calibre da arma, mas na capacidade de cuidar, proteger e respeitar o outro.

Se foi Horta quem apertou o gatilho, a perícia dirá. Mas quem carregou essa arma de sentido foi uma ideologia que ainda vive — e mata. Porque mesmo quando o dedo treme, a bala já foi autorizada. E o silêncio da sociedade diante dessas tragédias é cúmplice. 

Armar a população nunca foi sobre liberdade. Foi sempre sobre submissão. Sobre o controle dos corpos pela força. Sobre o retorno do patriarcalismo armado. E agora, uma mulher e uma criança estão mortos. E o nome de Deus ainda é invocado como justificativa. 

A quem interessa esse modelo? 

Quantas famílias mais terão de ser destruídas até que se reconheça que a política do ódio não é um desvio — é um projeto?

Até quando vamos chamar de valores o que é, na verdade, violência legitimada?

Que essa tragédia não seja mais uma manchete esquecida, mas o grito irrompido das famílias que clamam por justiça verdadeira. Que não nos acostumemos com a banalização da dor, nem nos calemos diante do poder que mata e silencia. Que saibamos ver, na morte de uma mulher e de uma criança, o rosto do Brasil ferido — e, sobretudo, rejeitemos o embuste que usurpa o nome de Deus para justificar o massacre. É hora de romper com essa lógica perversa, de desmontar a ideologia da violência que mascara o medo, o autoritarismo e a exclusão. É hora de recuperar o verdadeiro sentido da família, não como instrumento de controle e opressão, mas como espaço sagrado de amor, cuidado e liberdade.

Se queremos um Brasil digno, justo e em paz, precisamos urgentemente desarmar não apenas as armas, mas os corações e as mentes que alimentam o ódio e o fascínio pela morte. Porque só há futuro na cultura da vida, e essa vida começa na defesa intransigente da dignidade de cada pessoa — da criança no berço, da mulher na sua casa, do homem na sua vulnerabilidade.

O tempo do silêncio acabou. Que a justiça e a compaixão sejam as únicas armas legítimas que empunhemos. E que o verdadeiro Deus, que nos chama a amar até o fim, seja nossa luz e nosso escudo.

Como nos exorta a Escritura:

“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.” (Romanos 12:10)

Que este seja o fundamento de nossa resistência à violência e o caminho para reconstruirmos um Brasil onde a vida seja sagrada em todas as suas formas.

Prof. DNonato - Teólogo do cotidiano.