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quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - X


A Questão do Sentimento e o Respeito por Si Mesmo XVemos no Facebook algumas canções que nos recordam a importância de amar alguém. Não as publicamos porque gostamos de você — que, talvez, nem nos conheça de verdade. Fazemos isso porque, naquele espaço, vemos mensagens que falam sobre o amor a um cachorro, a um gato ou, sei lá, qualquer outra coisa. Resolvemos, então, ser loucos o suficiente para ainda acreditar no ser humano — mesmo quando ele não nos olha, não nos reconhece, ou sequer percebe a simplicidade de nossas atitudes.

Somos tolos quando queremos ser aquilo que outros não foram. Somos loucos por aceitar a possibilidade de nos frustrar, apenas porque acreditamos que tudo é possível quando o ser humano está apaixonado. Precisamos agir como nós mesmos, com a consciência das lutas e dificuldades que fazem parte de nossa natureza humana. Você disse que não é fácil sentir aquilo que diz sentir — e nós acreditamos. Contudo, também não é fácil te ver passar e não poder te dizer que a vida ainda tem tanto a oferecer.

Somos tentados ao ódio quando somos ignorados em nosso amor. Somos chamados à violência quando nosso apelo de paz é silenciado. E, no entanto, somos obrigados a calar a nossa voz para que ela possa falar através de atitudes coerentes. Há uma série de situações em que a nossa atitude precisa ser exatamente o oposto do que o outro espera. Estamos aqui, cheios de sentimentos, tendo que agir de forma diferente do que o mundo exige de nós. Somos humanos demais. Somos imperfeitos. Muitas vezes, só conseguimos ver no espelho os nossos defeitos.

Não conseguimos compreender os autores que cantam músicas com o peito destruído por terem amado, nem tampouco os que sofrem por nunca terem sentido algo tão bonito — ainda que cheio de espinhos. Porque, como ensinam os pajés de nossas florestas, “só quem sabe caminhar sobre o espinho aprende o valor da folha.” E como diria um antigo estóico, o amor é belo não pela ausência da dor, mas por aquilo que nos transforma apesar dela.

Como Prometeu¹, ousamos amar trazendo o fogo da esperança aos nossos próprios dias sombrios. Sabíamos da punição: as águias nos visitam diariamente para dilacerar o coração exposto. E mesmo assim, preferimos a dor da lucidez à frieza da indiferença. Há uma centelha em nós que escolhe arder, ainda que em silêncio, só por ter amado com inteireza.

Lembramos também de Aimberê², o jovem guerreiro tupinambá que, como flecha viva, atravessou as leis dos homens e dos deuses por amor à bela Uira, filha de outro povo, outro canto, outro canto de reza e floresta. Sabia que aquele amor era proibido, feito de silêncio entre as aldeias e vigilância dos caciques. Mas mesmo assim, caminhou com o coração aceso como tocha, enfrentou o medo, o tempo e a guerra. Por ela, atravessou rios e fronteiras com o mesmo passo de quem pisa em sonho. E, mesmo sabendo que não teria o colo dela para repousar, guardou o nome dela no peito como canto sagrado. Como Aimberê, também nós nos lançamos ao impossível — e mesmo sem teu abraço, seguimos levando o teu nome como reza dentro da alma.

Lembramos ainda da Iara³, mulher encantada das águas, que seduz com seu canto e jamais se deixa tocar. Como ela, alguns amores nos envolvem e nos transformam, mas não se realizam. E, como os antigos, sabemos: às vezes, o encanto está justamente na impossibilidade.

Essa é a nossa indignação: sofrer por saber que você existe… mas não estar em nossa vida. Sofrer por ser você a eleita para uma vida comum que não foi conosco, porque tua eleição já tinha sido feita por outro — um dia antes da nossa chegada ao teu mundo.

Essa é a nossa praia sem ondas, sem o sol que dá aquele brilho. Esse é o nosso quintal sem jardim, sem as flores que embelezam. Essa é a nossa vida em tom de cinza, pintada pela esperança de que, um dia, você leria estas linhas. Aquela frase dita — “Se tinha que me apaixonar, que bom que foi por você” — já não sabemos se foi mesmo uma boa escolha. Mas, como diz um outro artista: se é para sofrer, que seja pela entrega total do nosso ser, por termos agido com um só coração, por termos feito o que fizemos, por termos tido a alegria de tê-la por alguns minutos.

Como canta a Escritura: *“As grandes águas não poderiam apagar este amor, nem os rios levá-lo de enxurrada.”*⁴

E se um dia, por algum descuido do tempo, você souber destas palavras, que elas cheguem até você como oração feita em silêncio — não para pedir que volte, mas para que saiba que foi amada.

Obrigado!

DNonato – Teólogo do cotidiano, Graduado em História.

Notas:

¹ Prometeu – Na mitologia grega, titã que deu o fogo à humanidade e foi punido. Simboliza o amor que se doa, mesmo com dor.

² Aimberê – Personagem da tradição tupinambá que se apaixona por uma jovem de outra tribo. Representa o amor que desafia limites e permanece, mesmo sem resposta.

³ Iara – Lenda indígena brasileira. Ser mítico das águas que encanta, mas é inalcançável. Amor belo e impossível.

⁴ Ct 8,7 – Cântico dos Cânticos. Texto bíblico que descreve o amor como força invencível.

terça-feira, 5 de março de 2013

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - VIII

"Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista / O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece..."
— Caetano Veloso, Força Estranha

A vida toma rumos que nos perguntamos qual força nos conduz. Somos tomados por várias tempestades, e a passagem de certas pessoas é um desses momentos. Somos pegos de surpresa por um sorriso bonito que nos derruba fácil e nos traz uma nova luz, revelando sonhos e uma realidade de brilho.
Somos responsáveis por nossas escolhas, por tudo o que acontece em nossas vidas depois de cada decisão. Há uma força que nos sustenta, que nos anima em cada escolha — e é a ela que podemos recorrer para sobreviver às tempestades da vida.
Queríamos partilhar todas as glórias e alegrias, mas só nos resta admitir: perdemos a batalha. Fomos vencidos por um sorriso, por um olhar... E agora, só nos cabe reconhecer que não temos tudo o que queremos — ou o que achávamos que devíamos ter.
A partida de alguém importante nos deixa à deriva, sendo sacudidos pelas ondas. Contudo, essa força misteriosa nos aponta o caminho e não permite que sucumbamos ao fracasso de escolhas mal feitas. Sua presença ainda é sentida, como lembrança daquilo que não foi. Reconhecemos que aquilo que não foi... não devia sequer ter começado.
Vivemos hoje sob nuvens escuras em céu azul. Ao lembrar de você e de sua decisão, revivemos — mesmo sem querer — toda a tempestade que marcou o fim daquilo que jamais deveria ter nascido. Tudo ficou mais difícil depois da sua passagem pelo nosso ser. Nossos sonhos foram destruídos. Nossos projetos, cancelados sem aviso ou consulta. Foi isso que você fez — e em nenhum momento considerou estar errada, nem que a tempestade traria dor para nossas vidas.
Ficamos aqui, vivendo de aventuras, buscando o brilho que perdemos. O passado não pode ser jogado fora. Ele é sinal de algo vivido com intensidade — e, por isso, prova de que vale a pena estar neste mundo. Sim, somos abatidos. Sofremos toda prova por estarmos neste mundo. Mas não somos derrotados, como diz o Livro Sagrado: "Somos perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não destruídos" (2 Coríntios 4,9).
Há uma força que não grita, mas sussurra — como Deus no Horeb, que não estava no vento forte, nem no terremoto, nem no fogo, mas na brisa leve. E é nessa brisa, quase imperceptível, que Ele continua a nos chamar de volta à vida.

DNonato – Graduado em História, leigo católico; movido por uma força estranha que sussurra na brisa, e me faz seguir quando já não sei como.

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - VII

."
Falar de sentimento é algo que muitas pessoas evitam para não revelar a sua fraqueza. Não sabemos se somos fracassados por ter sentido ou ainda sentir algo por alguém que não retribui o sentimento por ela dedicado. Quando paramos por um minuto e observamos o nosso passado, com muitas vitórias e acertos, porém sem a sua presença em nossa vida, sentimos que fracassamos em algo. Era preciso um pouco mais de silêncio ou que tocassem uma canção, como nas telenovelas, naqueles momentos em que não devíamos falar.

E, diante do silêncio, surge a tentação de procurar culpados. Costumamos responsabilizar os outros por nossos fracassos, e assim fugimos para uma zona de conforto: a de vítimas. Vítimas de alguém, do destino ou, para alguns, até mesmo do próprio Deus, que teria permitido o sofrimento. Mas, se o Criador viesse do céu impor sua vontade em todos os nossos assuntos, sinceramente, Ele não seria Deus. Reduzimos Deus ao nosso tamanho, o colocamos dentro da moldura estreita das nossas escolhas, como se Ele fosse um fiador das nossas decisões — boas ou ruins. E fazemos isso para aliviar o peso das nossas próprias mancadas.

Vivemos entre pessoas que ferem, que magoam, que tomam decisões impensadas. Quando percebem o erro, tentam se esquivar: culpam a bebida, o estresse, a pressão do momento — ou até mesmo o outro. Assumir a própria responsabilidade virou quase um ato heroico. Foi isso que fizeste: faltou reflexão e sobraram acusações. Pior ainda, tentaste nos pintar como vilão, distorcendo fatos e negando traços da nossa personalidade. No fim, tiraste de nós um pouco da alegria e deixaste em troca um vazio difícil de preencher.

Ainda assim, resistimos. Juramos que não deixaríamos o sentimento nos abater, que não sentiríamos tua falta. Mas ontem, por um instante que pareceu uma eternidade, nos sentimos sozinhos, fracassados. Silenciosamente, nos recolhemos num canto, buscando em Deus alguma resposta para tudo isso. E talvez a resposta seja a coragem de reconhecer os próprios fracassos como ponto de partida para recomeçar.

O ser humano carrega essa marca: a da falta. Sempre falta algo — seja dinheiro, amor, fé, saúde ou apenas coragem para admitir que somos incompletos. Querendo ou não, somos imperfeitos. Anjos sem asas que tentam, neste mundo empoeirado, refletir a imagem do Criador num espelho quebrado.

As tradições judaica, cristã e islâmica reconhecem essa tensão entre o barro e o sopro divino. Na antropologia sagrada, o ser humano é visto como aquele que caminha entre a luz e a poeira. O Alcorão fala do nafs — a alma em conflito — e da constante busca por equilíbrio interior. Fomos feitos do barro, como Adão, mas carregamos o sopro de Deus em nós. E mesmo assim, com todas as nossas quedas, somos assistidos, silenciosamente, por figuras que habitam o invisível: os anjos.

Na tradição cristã e judaica, são eles: Miguel, o guerreiro; Rafael, o curador; e Gabriel, o mensageiro. No Islã, também os encontramos com nomes próximos: Mikail, Israfil e Jibril. Eles não apenas anunciam, mas também testemunham. E mesmo que não compreendam o mistério do livre-arbítrio humano — pois não conhecem o pecado nem a dúvida —, são presença constante na história da salvação e no drama de cada alma.

Nossa história, contudo, ficou marcada por um fracasso que ainda nos envergonha. Apostamos alto, e perdemos. E embora toda aposta envolva riscos, há derrotas que nos marcam de modo mais profundo. Diante dessa perda, só nos resta acolher a lição.

A solidão é uma dessas presenças fiéis que não nos abandona — nem na multidão, nem no quarto vazio. Por isso, não devemos ter vergonha de sentir. O primeiro passo para a cura é admitir: ainda há um pouco de você em nós que insiste em ficar. Você não foi só uma experiência, tampouco uma aventura com final feliz. Você foi — e talvez ainda seja — aquela pessoa que nos deu asas de cera e nos levou a voar em direção ao sol, como Ícaro.
Perdemos as asas no voo. Mas o desafio, agora, é outro: reconstruí-las enquanto ainda caímos, para que, quando tocarmos o chão, possamos te dizer — com verdade e serenidade — que ainda estamos de pé. E que, enfim, não precisamos mais de você. Porque nossas asas já não são apenas ilusão.

E se hoje ainda restam pedaços de cera grudados em nossos ombros, é porque fomos feitos também de sonho — e sonhar, apesar de tudo, ainda é um dom divino. A queda não nos define, mas nos ensina. E a ausência de quem partiu já não é mais abismo, mas chão fértil onde renascem nossas asas — agora forjadas não de ilusão, mas de esperança temperada pelo tempo. Seguimos, com os pés sujos de barro e o coração cheio de céu, sabendo que nem Miguel com sua espada, nem Gabriel com sua voz, nem Rafael com sua cura — nem mesmo Jibril, mensageiro dos céus — podem nos impedir de amar outra vez, ainda que a queda tenha nos ensinado a voar mais baixo. Porque, afinal, somos apenas humanos tentando ser imagem do Eterno num espelho em reconstrução.

DNonato – Graduado em História, tentando ser imagem do Eterno num espelho em reconstrução.