Mostrando postagens com marcador prazer alegria paz depressão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prazer alegria paz depressão. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de agosto de 2026

A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XXXVII

 

  • Podem nos julgar. Deus nos conhece.

Todos nós carregamos batalhas que quase ninguém conhece. Há dores que nunca se transformaram em palavras, lágrimas derramadas no silêncio, noites de angústia, recomeços, perdas, decepções e cicatrizes que permanecem escondidas aos olhos do mundo. No entanto, basta uma fotografia, um comentário ou uma narrativa conveniente para que muitos acreditem conhecer toda a nossa história. Cada um de nós já descobriu que nem todas as feridas são provocadas pelas dificuldades da vida. Algumas são abertas pelas palavras, outras pelos julgamentos precipitados, e as mais profundas nascem da indiferença de quem nunca teve a humildade de perguntar: “O que realmente aconteceu?”

Há feridas que o tempo cicatriza. Outras voltam a sangrar sempre que alguém decide julgar uma história que nunca viveu. Vivemos uma época em que a pressa substituiu a escuta e a aparência passou a valer mais do que a verdade. Julgar tornou-se entretenimento; destruir reputações tornou-se espetáculo. As redes sociais criaram um tribunal permanente, no qual muitos assumem ao mesmo tempo o papel de juízes, promotores e carrascos. Não investigam os fatos, não ouvem a outra parte e não procuram compreender. Basta uma versão conveniente para que a condenação seja decretada.

Quantas vezes pessoas que nunca caminharam ao nosso lado, nunca conheceram nossas lutas e nunca choraram conosco se sentem no direito de nos julgar, ridicularizar e transformar nossa história em motivo de comentários cruéis? Conhecem apenas um capítulo e acreditam conhecer o livro inteiro. Julgam uma fotografia, mas ignoram o filme. Leem uma página solta e imaginam compreender toda a obra. Esquecem que existem capítulos da nossa vida que somente Deus conhece. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores injustiças do nosso tempo: pessoas que sabem muito pouco sobre nossas lutas sentem-se autorizadas a emitir sentenças definitivas sobre quem somos.. Todos nós conhecemos dias em que o cansaço vence. Dias em que nos perguntamos se vale a pena continuar lutando. Dias em que o silêncio parece mais seguro do que qualquer palavra, porque, em nosso tempo, a mentira costuma correr mais depressa do que a verdade, enquanto a verdade muitas vezes precisa caminhar silenciosamente. Há momentos em que não nos calamos porque não temos o que dizer, mas porque percebemos que algumas pessoas não querem ouvir. Já decidiram o que pensar, já escolheram quem somos e qualquer explicação será interpretada como desculpa.

A Escritura nos ensina que a multidão nem sempre caminha com a justiça. A mesma multidão que estendeu mantos para acolher Jesus em Jerusalém foi a que, poucos dias depois, gritou: “Crucifica-o!”. Por isso, a própria Escritura adverte: “Não seguirás a multidão para fazer o mal” (Êxodo 23,2). A maioria nunca foi garantia de verdade. Lembramo-nos de Jó, acusado pelos próprios amigos quando mais precisava de consolo; de Jeremias, rejeitado porque insistia em anunciar a verdade; dos profetas perseguidos por denunciarem a injustiça. E, acima de todos, lembramo-nos de Jesus, condenado por falsas testemunhas, vítima da manipulação, dos interesses políticos e religiosos e da covardia daqueles que preferiram o silêncio à verdade. A cruz nos recorda que ser injustiçado não significa estar abandonado por Deus. Mas também precisamos ter honestidade diante de nós mesmos. Não afirmamos que somos perfeitos. Cada um de nós carrega erros, arrependimentos, limitações e escolhas das quais gostaria de ter feito diferente. Nenhuma vida é escrita apenas com acertos. Todos temos páginas que gostaríamos de reescrever. Reconhecer nossos erros, porém, não significa aceitar que outras pessoas tenham o direito de transformar nossos erros em toda a nossa identidade. Há uma diferença entre assumir responsabilidades e permitir que nos reduzam às nossas quedas. O Evangelho não nos ensina a negar nossos erros; ensina-nos a reconhecer, levantar e recomeçar.

Apesar de tudo, continuamos caminhando. Continuamos acreditando que Deus conhece aquilo que ninguém vê. As pessoas enxergam resultados; Deus conhece as intenções. As pessoas observam aparências; Deus contempla o coração. As pessoas contam vitórias e derrotas; Deus conhece as batalhas travadas no silêncio. Como afirma a Escritura: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1 Samuel 16,7). Essa certeza não apaga nossas dores, mas impede que elas tenham a última palavra.

Não escrevemos estas palavras para despertar pena, nem para responder aos nossos acusadores. Escrevemo-las porque estamos cansados de uma cultura em que se condena antes de ouvir, rotula-se antes de conhecer e destrói-se antes de compreender. Precisamos reaprender a ouvir antes de condenar, dialogar antes de rotular e conhecer antes de julgar. Precisamos recuperar algo que parece cada vez mais raro: a capacidade de olhar para o outro como ser humano, e não como personagem de uma narrativa construída para ser atacado.

Continuaremos caminhando. Não porque sejamos mais fortes do que os outros, mas porque Deus sustenta os nossos passos. Como rezou o salmista: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” (Salmo 23,4). Talvez não tenhamos respostas para todas as perguntas. Talvez algumas feridas permaneçam abertas por muito tempo. Talvez algumas pessoas jamais compreendam nossa história. Ainda assim, podemos escolher não transformar a dor em ódio, nem a injustiça que sofremos em injustiça contra os outros.

Os homens podem fabricar versões, apagar capítulos, distorcer palavras e espalhar mentiras. As redes sociais podem transformar suspeitas em certezas, opiniões em sentenças e boatos em verdades. Mas Deus não lê manchetes, não julga por comentários e não condena pela aparência. Deus conhece o coração, conhece as intenções e conhece toda a história. Por isso, recusamo-nos a viver prisioneiros dos julgamentos humanos. Nossa identidade não nasce dos aplausos nem morre nas críticas. Ela está firmada naquele que conhece nossas lágrimas, sonda nossos corações e continua nos chamando para a esperança e para um novo começo.

Podem contar a nossa história sem a gente. Deus, porém, nunca deixa de escrevê-la conosco.

E isso nos basta.

Porque a verdade pode ser escondida, mas não destruída. Pode ser combatida, mas não vencida. Pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá sepultada para sempre. Talvez não sejamos compreendidos por todos. Talvez algumas pessoas continuem acreditando nas versões que escolheram ouvir. Talvez alguns jamais tenham interesse em conhecer o que realmente aconteceu. Mas não precisamos viver para satisfazer o tribunal das opiniões humanas. Precisamos continuar caminhando com dignidade, consciência e fé.  E  no fim, não seremos definidos pelos comentários das redes sociais, pelas versões inventadas sobre nós ou pelos julgamentos daqueles que nunca conheceram nossas batalhas. Também não seremos definidos apenas pelos nossos erros ou pelas nossas quedas. Somos seres humanos em construção, marcados por acertos e fracassos, por perdas e recomeços, por feridas e esperanças. E, para quem crê, existe algo maior do que a opinião dos homens: existe o olhar misericordioso de Deus.

A última palavra não pertence aos nossos acusadores. Não pertence:  às multidões, às redes sociais ou aos nossos próprios fracassos. A última palavra pertence à Verdade, que  não é apenas uma ideia, uma teoria ou uma opinião. A Verdade tem um nome: Jesus Cristo, por isso, continuamos. Não porque a vida tenha sido fácil, nem porque todas as feridas estejam curadas, mas porque ainda existe caminho. E enquanto houver caminho, haverá possibilidade de recomeço.

Podem contar a nossa história sem a gente. Podem até tentar escrever o nosso fim. E enquanto Deus continuar escrevendo, a nossa história ainda não terminou.

DNonato - Fazendo história 

Leia também; 

  1. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo.
  2. A Questão do Sentimento e Respeito a si mesmo II
  3. A Questao de sentimento  e o Respeito  por si mesmo III
  4. A Questão do Sentimento, Respeitsi mesmo IV
  5. Questão do sentimento, Respeito a si mesmo V
  6. Questão do sentimento, respeito a si mesmo VI
  7. Questão do sentimento, respeito por si mesmo VII
  8. Questão do Sentimento, respeito si mesmo VIII
  9. Questão de sentimento e Respeito a si mesmo IX
  10. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo X
  11. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XI
  12. Questão de sentimento Respeito por si mesmo XII
  13. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XIII
  14. Questão de sentimento respeito por si mesmo XIV
  15. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XV
  16. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVI
  17. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo ​XVII​​​
  18. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVIII.
  19. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.
  20. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XX.
  21. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXI
  22. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXII
  23. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIII
  24. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIV
  25. A Questão  do sentimento  e o Respeito  por si mesmo - XXV
  26. A questão do Sentimento e o respeito por si mesmo XXVI
  27. A Questão  de sentimento  e Respeito  por si mesmo  XXVII..
  28. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXVIII
  29.  A Questão  do Sentimento  e Respeito  a si mesmo  XXIX
  30. A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX
  31.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo – XXXII
  32.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXI
  33.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXIII
  34.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXIV
  35. Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXV
  36. Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXVI

quarta-feira, 25 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo- coletânea

  • "Algumas histórias que não se encerram, elas repousam como brasas sob a pele, esperando o sopro certo para arder de novo, com menos dor e mais sentido."
A primeira palavra desta série foi escrita numa segunda-feira, 27 de junho de 2011. A última ainda não foi dada 
. Entre uma data e o hoje , não se passaram apenas catorze anos — passou uma vida.
Esses textos não nasceram de uma intenção literária, mas de uma necessidade vital. São crônicas, cartas, confissões e lendas pessoais e de todos que não desistem  de acreditar  na vida em meio aos espinhos da realidade 
 Pequenos mitos cotidianos que carregam mais verdade de todos,  do que biografia. Neles, o tempo dobra, o passado reaparece com outras roupas, e o coração vira personagem. Aqui, a memória não é museu, é território sagrado.
As personagens atravessam essas páginas como figuras de um velho sonho:

– uma menina que ensinou o que é o amor quando já era tarde demais;
– um jovem índio nahua que  guardava os segredos do respeito e da renúncia;;
– um escriba cansado, entre a dor e o riso, tentando salvar-se com palavras.

Não espere cronologia. Aqui, o tempo é espiral. Há textos que nascem da ausência, outros da presença insuportável. Há histórias que parecem inventadas, mas são apenas simbólicas demais para caber na realidade bruta.
Por entre as linhas, surgem sombras de mitos antigos: a fênix, que renasce de suas próprias cinzas como quem ama de novo;
Ícaro, que voou alto demais com asas frágeis, mas preferiu cair a viver rasteiro; e Paulo, apóstolo de rupturas, que aprendeu a viver com um espinho na carne, sem deixar de correr a corrida até o fim, a citação de canções  e mitos  das mitologias  possíveis  e músicas  que  carregam  histórias  dos autores  que nós  roubamos para nossa história  pessoal 
Cada texto caminha entre a vida e a eternidade, entre o que foi e o que insiste em permanecer e se tem um verbo que podemos  usar  em todo final dos textos será o esperançar de Paulo Freire. 
Porque certas memórias não morrem,  ressuscitam em palavras  motivando o caminho 

Publico esta série não é um gesto de vaidade, mas de rito. É o fechar de um ciclo. É como colocar pedras num rio para lembrar por onde se atravessou.
Quem lê, talvez se encontre. Quem já viveu, talvez entenda..

 E quem ama, saberá: respeitar o sentimento é também respeitar-se.

Bom encontro!

DNonato – graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.

Não precisa de uma sequência  para essa leitura, escolha ou faça a sua 

Não precisa de uma sequência  para essa leitura, escolha ou faça a sua 

  1. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo.
  2. A Questão do Sentimento e Respeito a si mesmo II
  3. A Questao de sentimento  e o Respeito  por si mesmo III
  4. A Questão do Sentimento, Respeitsi mesmo IV
  5. Questão do sentimento, Respeito a si mesmo V
  6. Questão do sentimento, respeito a si mesmo VI
  7. Questão do sentimento, respeito por si mesmo VII
  8. Questão do Sentimento, respeito si mesmo VIII
  9. Questão de sentimento e Respeito a si mesmo IX
  10. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo X
  11. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XI
  12. Questão de sentimento Respeito por si mesmo XII
  13. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XIII
  14. Questão de sentimento respeito por si mesmo XIV
  15. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XV
  16. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVI
  17. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo ​XVII​​​
  18. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVIII.
  19. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.
  20. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XX.
  21. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXI
  22. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXII
  23. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIII
  24. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIV
  25. A Questão  do sentimento  e o Respeito  por si mesmo - XXV
  26. A questão do Sentimento e o respeito por si mesmo XXVI
  27. A Questão  de sentimento  e Respeito  por si mesmo  XXVII..
  28. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXVIII
  29.  A Questão  do Sentimento  e Respeito  a si mesmo  XXIX
  30. A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX
  31.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo – XXXII
  32.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXI
  33.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXIII
  34.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXIV
  35. Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXV
  36. Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXVI
  37. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo. XXXVII

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXII

Certa vez, um pobre índio nahua¹ teve um sonho. Um sonho de ser imensamente feliz² — sonho que lhe foi despertado por uma bela morena de olhos de jabuticaba. O encontro entre os dois foi algo divino, uma daquelas coincidências que só a força do querer consegue explicar. Como todo homem, todo filho da terra, ele descobriu que decifrar os desejos e as manias de uma mulher é tarefa árdua. Quando se encontravam, os minutos viravam segundos, e os segundos se prolongavam como horas — mergulhavam num tempo suspenso, onde o tempo, paradoxalmente, era seu maior inimigo.
Passaram de amigos a amantes e, com o tempo, de amantes tornaram-se apenas conhecidos — incapazes de se olharem nos olhos e assumirem o desejo contido de recomeçar. Ela, como já foi dito, permanece acorrentada aos seus próprios grilhões, sem coragem de sonhar ou de ousar acreditar que o amor, sim, é capaz de nos realizar. Senhora de si mesma, senhora do destino do pobre mortal que um dia ousou amá-la.
Mas por quê? Como pode um sentimento tão nobre ser abandonado, abortado ou simplesmente deixado à deriva? Somos assim: desejamos o sublime, o divino, mas não conseguimos perdoar as falhas do ser amado. Somos ágeis em apontar defeitos, lentos em reconhecer nossas próprias escolhas frágeis, nossas vontades volúveis. E, mesmo assim, não deixamos de julgar, de alegar que o outro não é “nosso tipo” — como se o amor pudesse ser moldado por padrões ou expectativas.
Quando foi que desaprendemos a essência do amor? Quando foi que deixamos de entender que amar é aceitar o outro como ele é — inteiro, com luzes e sombras, com virtudes e tropeços? Só quando somos capazes de acolher o outro em sua inteireza é que podemos, enfim, nos aceitar também. E, nesse abraço, nos tornamos melhores. E, sendo melhores, tocamos o divino. E, nesse toque, o perdão brota — simples, sincero — e se revela como a mais pura prova de amor.
Não somos máquinas. Não somos programados para amar ou para odiar. Somos humanos — e, como tais, convidados a cultivar esse sentimento nobre que nos aproxima de Deus. Não se vive pela metade. Não se ama pela metade. Não há meia felicidade. A vida exige inteireza: ou somos, ou não somos; ou vivemos, ou apenas passamos.

Esperar um milagre no outro exige, antes, cultivar esse milagre em si mesmo. Só assim se desperta, no outro, o milagre do amor. Tudo o que vivemos tem um preço. Cada escolha traz uma consequência — são leis naturais, imutáveis, como na física, na química, na própria alma da existência.
Não se pode alegar ignorância diante do que se sente. Não se foge da verdade do coração — ela nos persegue em silêncio, como sombra ao entardecer. Não se abandona o eu que ainda pulsa, nem o outro que, mesmo em silêncio, ainda habita o peito. Mas a morena... ah, a morena tem esse dom estranho de viver como se fosse possível ignorar tudo isso. Vive como se o amor fosse apenas uma canção que se canta uma vez — e depois se cala.
No fim de tudo, quem escolhe sua própria felicidade é você. Mas diga-me: como ser verdadeiramente feliz, sabendo o que se fez ao outro? Como negar uma segunda chance a quem poderia ter sido mais do que amigo, mais do que conselheiro — alguém capaz de doar-se inteiro?
Assim como na canção de La Barca, “nos dijimos adiós...”, mas o adeus, talvez, tenha sido apenas de palavras. Porque, no fundo, onde o amor ainda resiste, o barco segue esperando o mar certo, o vento justo, o momento de retornar.

DNonato
Teólogo do cotidiano, Graduado em História



---

¹ Nahua: designação para diversos povos indígenas do México, descendentes dos astecas, que falam línguas da família náuatle. Guardam uma rica herança cultural e espiritual da Mesoamérica pré-colombiana.

terça-feira, 5 de março de 2013

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - VIII

"Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista / O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece..."
— Caetano Veloso, Força Estranha

A vida toma rumos que nos perguntamos qual força nos conduz. Somos tomados por várias tempestades, e a passagem de certas pessoas é um desses momentos. Somos pegos de surpresa por um sorriso bonito que nos derruba fácil e nos traz uma nova luz, revelando sonhos e uma realidade de brilho.
Somos responsáveis por nossas escolhas, por tudo o que acontece em nossas vidas depois de cada decisão. Há uma força que nos sustenta, que nos anima em cada escolha — e é a ela que podemos recorrer para sobreviver às tempestades da vida.
Queríamos partilhar todas as glórias e alegrias, mas só nos resta admitir: perdemos a batalha. Fomos vencidos por um sorriso, por um olhar... E agora, só nos cabe reconhecer que não temos tudo o que queremos — ou o que achávamos que devíamos ter.
A partida de alguém importante nos deixa à deriva, sendo sacudidos pelas ondas. Contudo, essa força misteriosa nos aponta o caminho e não permite que sucumbamos ao fracasso de escolhas mal feitas. Sua presença ainda é sentida, como lembrança daquilo que não foi. Reconhecemos que aquilo que não foi... não devia sequer ter começado.
Vivemos hoje sob nuvens escuras em céu azul. Ao lembrar de você e de sua decisão, revivemos — mesmo sem querer — toda a tempestade que marcou o fim daquilo que jamais deveria ter nascido. Tudo ficou mais difícil depois da sua passagem pelo nosso ser. Nossos sonhos foram destruídos. Nossos projetos, cancelados sem aviso ou consulta. Foi isso que você fez — e em nenhum momento considerou estar errada, nem que a tempestade traria dor para nossas vidas.
Ficamos aqui, vivendo de aventuras, buscando o brilho que perdemos. O passado não pode ser jogado fora. Ele é sinal de algo vivido com intensidade — e, por isso, prova de que vale a pena estar neste mundo. Sim, somos abatidos. Sofremos toda prova por estarmos neste mundo. Mas não somos derrotados, como diz o Livro Sagrado: "Somos perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não destruídos" (2 Coríntios 4,9).
Há uma força que não grita, mas sussurra — como Deus no Horeb, que não estava no vento forte, nem no terremoto, nem no fogo, mas na brisa leve. E é nessa brisa, quase imperceptível, que Ele continua a nos chamar de volta à vida.

DNonato – Graduado em História, leigo católico; movido por uma força estranha que sussurra na brisa, e me faz seguir quando já não sei como.

Você  vai gostar  também