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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 8,23-27


Quando o Mar Grita e Deus Dorme: fé em tempos de travessia”

A narrativa de Jesus acalmando a tempestade (Mt 8,23-27) ocupa um lugar privilegiado na tradição litúrgica da Igreja. Ela é proclamada anualmente na terça-feira da 13ª Semana do Tempo Comum, dentro da sequência em que São Mateus apresenta a autoridade de Jesus sobre a doença, os espíritos impuros, a natureza e, por fim, sobre todas as forças do caos. O mesmo acontecimento aparece também nos outros dois Evangelhos Sinóticos: em Marcos 4,35-41, proclamado no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano B e também no sábado da 3ª Semana do Tempo Comum (anos ímpares); e em Lucas 8,22-25, que integra a tradição lucana, embora não possua um dia próprio na leitura ferial contínua do Tempo Comum, sendo utilizado em diversas celebrações e contextos litúrgicos.

Cada evangelista contempla o mesmo acontecimento por uma perspectiva própria. Mateus enfatiza o discipulado e a "pouca fé" dos seguidores de Jesus; Marcos apresenta o relato mais vivo e dramático, destacando a pergunta angustiada dos discípulos: "Mestre, não te importas que pereçamos?"; Lucas concentra-se na pedagogia da confiança, culminando com a pergunta de Jesus: "Onde está a vossa fé?". Essas diferenças não são contradições, mas expressam a riqueza da tradição apostólica e revelam como a mesma experiência de Cristo ilumina diferentes dimensões da caminhada cristã.  Mais do que a descrição de um milagre, trata-se de uma verdadeira teofania. O domínio de Jesus sobre os ventos e o mar manifesta sua identidade divina, retomando a ação do Deus Criador que, no Antigo Testamento, impõe limites ao caos das águas (Gn 1,6-10; Sl 89,9-10) e conduz seu povo através do mar rumo à liberdade (Ex 14). A travessia do lago torna-se, assim, um ícone da existência cristã: a Igreja e cada discípulo são chamados a navegar entre tempestades, sustentados não pela ausência dos ventos contrários, mas pela presença daquele a quem até o mar e os ventos obedecem. É à luz dessa riqueza bíblica, litúrgica, histórica e existencial que somos convidados a contemplar o Evangelho de Mateus 8,23-27, permitindo que a Palavra ilumine não apenas as tempestades enfrentadas pelos primeiros discípulos, mas também as crises pessoais, sociais, eclesiais e políticas que desafiam a Igreja e a humanidade em nossos dias.

O autor  sagrado  narra que Jesus entrou no barco com seus discípulos. Um gesto simples, quase cotidiano, mas carregado de densidade simbólica e teológica. Vem de Cafarnaum, onde passou o dia inteiro curando os doentes, libertando pessoas dos espíritos impuros, acolhendo o centurião estrangeiro, restaurando a sogra de Pedro e os marginalizados (Mt 8,1-17). Sua autoridade, ao contrário da dos doutores da Lei, nasce da proximidade com os corpos feridos e da compaixão com os caídos. Exausto, adentra a noite para atravessar o lago rumo à região dos gadarenos – terra pagã. Não foge das margens do mundo, vai ao seu encontro. Mas antes, repousa. Dorme. De cansaço, de humanidade, de fé. Enquanto isso, uma violenta tempestade se abate sobre o Mar da Galileia. Esse mar, na verdade um grande lago cercado por colinas, é conhecido por mudanças climáticas bruscas e ventos repentinos que, ao encontrarem resistência da água aquecida, formam tempestades violentas. Trata-se de uma região de fronteira simbólica: entre o mundo judaico e o mundo pagão, entre a tradição e a missão, entre o conhecido e o risco. Jesus não escolhe águas calmas. Ele nos chama justamente onde o medo se mistura com a possibilidade do novo. O texto de Mateus (8,23-27), bem como os paralelos de Marcos (4,35-41) e Lucas (8,22-25), não tratam apenas de um fenômeno meteorológico, mas de uma teofania – manifestação de Deus em meio ao caos. O mar, na cosmovisão bíblica, simboliza as forças do mal, do caos e da morte (cf. Gn 1,2; Sl 89,10; Ap 13,1). A tempestade é imagem viva das adversidades que ameaçam o projeto de Deus no mundo e a estabilidade interior dos seus seguidores.

Jesus dorme enquanto a barca é engolida pelas ondas. Um detalhe perturbador. Como pode o Senhor dormir quando tudo desaba? Essa pergunta não é só dos discípulos, é também nossa, grito antigo e atual: “Senhor, não te importas que pereçamos?” (Mc 4,38). É o clamor do salmista: “Desperta, Senhor! Por que dormes?” (Sl 44,24). É o grito das periferias, dos injustiçados, dos esquecidos pela religião do espetáculo, que prega milagres fáceis, mas fecha os olhos diante da dor concreta do povo.

Mas esse sono de Jesus não é abandono. É confiança. Ele não dorme por insensibilidade como Jonas (Jn 1,5-6), que se esconde da missão e dorme enquanto a morte se aproxima. Jonas dorme por fuga; Jesus, por entrega. O profeta fujão é acordado por marinheiros pagãos; o Messias cansado é despertado por discípulos ainda imaturos na fé. Ali, Deus ensina que não se trata de ausência, mas de outra forma de presença. Jesus dorme como quem confia plenamente no Pai – é o sono do justo, da paz que brota do abandono total. A pedagogia do Evangelho é clara: seguir Jesus não é escapar das tempestades, mas atravessá-las com Ele. A fé que amadurece não se baseia na ausência de crises, mas na certeza de que o Senhor está no barco. Mesmo dormindo, é Ele quem sustenta. Por isso, após o despertar dos discípulos, Jesus repreende primeiro o medo – e só depois o mar. “Por que estais com medo, homens fracos na fé?” (Mt 8,26). A tempestade externa se acalma quando a tempestade interior é confrontada. Ele domina os ventos e o mar porque é o mesmo Verbo por quem todas as coisas foram feitas (Jo 1,3).

É a repetição do gesto criador de Gênesis, quando Deus separa as águas e estabelece a ordem sobre o caos (Gn 1,6-10). Também ecoa o Êxodo, quando o Senhor abre o mar diante do povo oprimido e o liberta das mãos do faraó (Ex 14,21-22). Agora, no Novo Êxodo, o Filho do Homem não apenas atravessa o mar – Ele o silencia com a palavra, como quem restitui à criação o seu equilíbrio original. Na América Latina, essa travessia se atualiza nas lutas do povo contra a colonização, a fome, o extrativismo, a violência contra os corpos racializados e empobrecidos. O mar continua tentando engolir os pequenos, mas Deus segue abrindo caminhos. A Igreja de Aparecida (2007), herdeira de Medellín e Puebla, reafirma que os rostos dos crucificados de hoje clamam por libertação. A travessia é também nossa missão: conduzir o povo para além das águas da exclusão.

A barca, símbolo da Igreja, continua navegando entre tormentas. Mas há algo essencial: ela só é Igreja enquanto Ele estiver nela. A barca não é de Pedro, nem dos discípulos, nem da hierarquia – é de Cristo. E ela só se sustenta quando se mantém aberta, sinodal, orientada pela escuta do Espírito e da voz dos pobres. A travessia só é verdadeira quando feita em comunhão, com cada discípulo remando junto, escutando-se mutuamente, discernindo com humildade. Não há travessia solitária no Evangelho. O discipulado é sempre comunitário. O Sínodo é, assim, um movimento do Espírito que nos chama a deixar a margem da rigidez e a navegar rumo à conversão pastoral. Muitas comunidades eclesiais hoje parecem barcos à deriva, movidos por interesses ideológicos, alianças espúrias com o poder, discursos de ódio travestidos de zelo moral. A extrema-direita se apropria do nome de Cristo, mas o transforma em ídolo nacionalista e justiceiro. Prega o medo, não o Reino. Abençoa armas, despreza os pobres, amaldiçoa os diferentes. Não está com Jesus no barco; constrói sua própria frota para cruzadas de dominação. Esse uso político de Jesus constrói um messianismo falso, onde o Cristo do Evangelho é substituído por um cristo ideológico, defensor da propriedade privada, da violência policial, da meritocracia excludente. Não é o Cristo dos Evangelhos, mas um simulacro construído a serviço do capital e do medo. É o mesmo espírito que exigiu um Messias guerreiro no deserto e crucificou o Messias servidor em Jerusalém.

O clericalismo também alimenta tempestades: pastores que se fazem príncipes, padres que confundem liturgia com espetáculo, líderes que desprezam a escuta, o povo, os leigos. São barcas luxuosas sem rumo, rituais sem presença, evangelho sem cruz. Multiplicam-se hoje igrejas-palco, onde o louvor encobre a violência, e púlpitos que anunciam bênçãos sem conversão, moral sem misericórdia, teologia sem humanidade. Há quem diga que “Jesus acalma a tempestade”, mas se recusa a enfrentar as tormentas da desigualdade, do racismo, da misoginia, da fome. É o mercado da fé travestido de espiritualidade. Uma religião sem profecia é como um barco sem leme: parece seguir, mas está à deriva. Contra essas religiões vazias, Jesus se levanta. Acalma o mar, mas também interpela seus discípulos: “Onde está a vossa fé?” (Lc 8,25). Essa interrogação é pedagógica e terapêutica. Nos obriga a olhar para dentro, para nossas próprias tempestades: o medo da perda, o desânimo, a sensação de fracasso, a apatia. Psicologicamente, o texto revela a luta entre o desejo de controle e o chamado à confiança. O pânico dos discípulos é o reflexo de uma fé ainda baseada em garantias. Mas a fé verdadeira nasce da travessia, do não saber, do seguir mesmo quando tudo treme.

As tempestades que enfrentamos não são só aquelas do mar ou da história coletiva, mas também as que assolam o nosso íntimo. O fim de um namoro que parecia promissor, a perda inesperada do emprego que sustentava a família, o diagnóstico que abala o corpo e a mente — todas essas são tempestades que nos desestabilizam e fazem naufragar a esperança. É fácil sentir-se abandonado, como se Jesus estivesse dormindo no barco enquanto tudo ruge. Porém, a Boa Nova de Mateus nos assegura que não é assim. Jesus está presente na embarcação da nossa vida, mesmo quando parece distante ou silencioso. Reconhecer essas tempestades pessoais é o primeiro passo para que a fé deixe de ser apenas uma ideia e se torne força viva. O Senhor não promete que navegaremos sempre em águas calmas, mas garante que a travessia, por mais difícil que seja, jamais será solitária. O convite é sempre renovar a confiança: levantar os olhos do caos, clamar a Ele e encontrar na palavra de Jesus o poder para acalmar os ventos interiores que nos ameaçam.

O mar agitado é o ventre do novo, o batismo do Reino. Toda a história bíblica é uma sucessão de travessias. Noé atravessa o dilúvio com a arca; Moisés, o mar Vermelho com o povo; Elias, o deserto até o Horeb; Paulo, naufraga a caminho de Roma. Ninguém caminha com Deus sem enfrentar marés. Cada travessia purifica, amadurece, desinstala. A fé que não passa pela água nunca será fé pascal.

Cada travessia nos desinstala. A espiritualidade do Evangelho é pascal: atravessar para renascer. A água que ameaça também é a mesma que batiza. O mar é útero e túmulo, fim e começo. E no centro, a palavra de Jesus: “Vamos para a outra margem” (Mc 4,35). A margem onde estão os endemoninhados, os sujos, os outros. O discipulado verdadeiro começa quando aceitamos deixar a margem do conforto para nos lançarmos na missão da compaixão. Esse despertar da fé, muitas vezes, nasce do silêncio orante, da escuta contemplativa da Palavra. Em tempos de excesso de ruído, a mística cristã é um ato de resistência. A oração não é fuga do mundo, mas afinamento da alma para discernir por onde remar. O silêncio de Jesus, mesmo dormindo, é um chamado à interioridade: é preciso entrar em si para reencontrar o Senhor que acalma por dentro.

Jesus não apenas acalma a natureza; revela quem Ele é. Os discípulos, ainda confusos, perguntam: “Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt 8,27). É a pergunta fundamental da existência cristã. Não basta seguir Jesus por admiração ou por conveniência. É preciso reconhecê-lo como o Filho de Deus, Senhor sobre a criação e sobre o caos. Só assim a fé deixa de ser acessório e passa a ser fundamento. A tradição patrística via nessa cena uma imagem da Igreja atravessando a história. Agostinho escreve: “A barca está em perigo... o coração está agitado... o Mestre dorme... acordemos a fé, para que Cristo esteja vigilante em nós” (Sermão 63). A Igreja verdadeira é aquela que não se deixa dominar pelas ondas do medo, mas desperta o Cristo interior e professa a confiança radical.

Essa maturidade se alimenta da Palavra e da Eucaristia, onde Cristo se faz presente no meio da comunidade que rema unida. O altar é, por assim dizer, a âncora do barco: ali, Ele se entrega de novo por nós, silencioso, mas vivo. É dali que tiramos a força para continuar navegando, mesmo quando os ventos contrários sopram. A cena termina em calma – mas não na calmaria. Jesus segue rumo aos gadarenos, aos excluídos, à margem. A missão não termina com o milagre, ela apenas começa. E continua hoje, em cada travessia onde se luta por justiça, dignidade e paz. Nossa fé será madura quando deixarmos de buscar um Cristo que nos protege das tempestades e nos unirmos ao Cristo que navega conosco por dentro delas.

Que possamos aprender com esta travessia que o Senhor não quer um barco perfeito, nem uma fé inabalável isenta de dúvidas e dores, mas uma comunidade e um coração que se mantêm firmes no meio da tempestade. Que o silêncio de Jesus no barco seja para nós o convite à confiança profunda, capaz de gerar paz mesmo nas noites mais escuras da alma.  Quando as tempestades da vida parecerem querer nos afundar — e elas virão — que não esqueçamos: o Deus que criou os ventos e os mares é o mesmo que vela pelo nosso sono, o mesmo que nos chama a remar juntos para a outra margem. E essa certeza nos faz mais fortes que qualquer vendaval.

Ao término desta travessia do Evangelho, permanece uma pergunta que atravessa os séculos e continua ecoando em nossos corações: "Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?" (Mt 8,27). Toda a vida cristã nasce da resposta a essa pergunta. Se reconhecemos em Jesus apenas um mestre admirável, nossa fé vacilará diante das primeiras ondas. Mas, se o reconhecemos como o Filho de Deus, Senhor da história e da criação, descobriremos que nenhuma tempestade possui a última palavra. A barca continuará enfrentando ventos contrários. A Igreja seguirá atravessando crises, perseguições, divisões e desafios internos. As famílias conhecerão momentos de dor; os trabalhadores enfrentarão a insegurança; os pobres continuarão clamando por justiça; homens e mulheres lutarão diariamente contra o medo, o sofrimento e a solidão. O Evangelho não promete uma existência sem tempestades. Promete algo infinitamente maior: que Cristo jamais abandona aqueles que navegam com Ele.

Por isso, a verdadeira maturidade da fé não consiste em esperar milagres que eliminem todas as dificuldades, mas em aprender a permanecer confiantes quando Deus parece silencioso. O silêncio de Cristo nunca é ausência; é um convite para que nossa confiança amadureça. Muitas vezes, antes de acalmar os ventos que rugem ao nosso redor, Ele deseja pacificar o mar agitado que carregamos dentro de nós. Num mundo marcado pela violência, pela desigualdade, pelo individualismo, pela instrumentalização da religião e pela perda do sentido da fraternidade, este Evangelho continua sendo um chamado profético. Cristo não nos convida a fugir das tempestades da história, mas a enfrentá-las construindo comunidades sinodais, solidárias e missionárias, comprometidas com a dignidade humana, a justiça, a paz e o Reino de Deus. A barca da Igreja só permanece fiel quando continua remando em direção às periferias humanas e existenciais, levando esperança aos que já perderam as forças.

Que esta Palavra desperte em nós uma fé adulta, capaz de confiar quando não compreende, de perseverar quando tudo parece perdido e de continuar remando quando os ventos sopram contra. Afinal, a travessia cristã nunca é realizada por heróis solitários, mas por discípulos que caminham juntos, sustentados pela Palavra, alimentados pela Eucaristia e guiados pelo Espírito Santo. Enquanto houver tempestades, haverá também a voz de Cristo dizendo ao nosso coração: "Coragem. Eu estou aqui." E enquanto Ele estiver na barca, nenhuma noite será definitiva, nenhuma onda será mais forte que sua presença e nenhuma travessia terminará em fracasso. O Reino de Deus sempre nos espera na outra margem.

Pois, no barco onde Jesus está, mesmo o silêncio é um sinal da sua presença salvadora. Navegar com Ele não é promessa de calmaria, mas garantia de que nenhuma tempestade é maior do que o amor que nos sustenta. Que a nossa fé não seja um abrigo contra as tormentas, mas a coragem de continuar, navegando na confiança de que, mesmo quando tudo parece naufragar, Ele está conosco  e isso basta.


DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 15, 3-7


A Ovelha Perdida e o Coração que Ama Até o Fim

Na liturgia do Sagrado Coração de Jesus, contemplamos o mistério de um amor que se dá por inteiro, que se consome em fidelidade, e que insiste em amar mesmo quando não é amado (cf. Os 11,1-4; Jr 31,3). Neste dia, a Palavra nos coloca diante de uma das imagens mais conhecidas e paradoxais do Evangelho: o Pastor que deixa noventa e nove ovelhas no deserto para ir em busca da única que se perdeu (Lc 15,3-7). O que parece, aos olhos da lógica racional, uma atitude imprudente ou até negligente, é, na verdade, a mais pura revelação da radicalidade do amor de Deus.

Este texto faz parte de um capítulo profundamente unitário no evangelho de Lucas. Todo o capítulo 15 — com as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida (vv. 8-10) e do filho pródigo (vv. 11-32)  proclamado no 4⁰ Domingo da Quaresma  e retorna  no 24⁰ domingo  do Tempo  Comum  inserido  de forma fluida  na proclamação  de Lucas 15, 1-32 — constitui uma resposta de Jesus às murmurações dos fariseus e escribas, que o criticavam por acolher pecadores e comer com eles (Lc 15,1-2). Não estamos diante de três parábolas soltas, mas de uma tríade pedagógica que revela, em crescendo, o escândalo da misericórdia divina e a centralidade do “buscar e encontrar”. A estrutura é repetida: algo se perde, alguém busca, algo é encontrado, e há festa.

"Qual de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma..."

 Jesus inicia a parábola com uma pergunta que desestabiliza o senso comum. Quem, de fato, deixaria noventa e nove para buscar uma? Nenhum pastor sensato faria isso. E é justamente aí que se revela a diferença entre Deus e o homem. Como diz Isaías, “meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8). O que para nós parece irracional, para Deus é sinal de justiça e fidelidade. A justiça de Deus não se mede por quantidade ou mérito, mas por um compromisso visceral com cada vida, especialmente com a que está à margem.

O texto carrega ecos do Antigo Testamento. O próprio Deus, no livro de Ezequiel, se apresenta como pastor que busca a ovelha perdida: “Procurarei a que estiver perdida, reconduzirei a que se desgarrar, enfaixarei a ferida, darei força à fraca” (Ez 34,16). Jesus não apenas narra essa parábola: Ele encarna esse Deus-pastor, que se lança em missão até as periferias humanas (cf. Mt 9,36; Mc 6,34). Não é por acaso que o Bom Pastor da parábola carrega nos ombros a ovelha reencontrada — gesto de ternura, de responsabilidade, de dignidade restaurada (cf. Is 40,11).

Esse reencontro é celebrado com alegria, porque “há mais alegria no céu por um só pecador que se converte” (Lc 15,7). A festa no céu contrasta com a frieza dos religiosos que murmuravam contra Jesus por acolher os pecadores (Lc 15,2). A parábola, portanto, não é apenas doutrina; é denúncia. Ela põe em xeque uma religião que contabiliza fiéis, mas não conhece seus nomes; que exige pureza moral, mas não tem compaixão; que se envergonha dos fracos e bajula os fortes. Jesus, ao contrário, não se envergonhava de se deixar tocar por leprosos, comer com publicanos, dialogar com samaritanas, curar em dia de sábado. Ele é o Coração que sangra por amar (cf. Jo 19,34).

Nesse sentido, a ovelha que se perde pode ser também aquela que não suportou mais a hipocrisia do redil. Talvez não tenha se desviado por rebeldia, mas por fome de sentido. Talvez tenha sido empurrada para fora por uma comunidade que, ao invés de pastorear, policiava. Quantas vezes a ovelha se afasta porque a Igreja falhou em ser refúgio? Quantas vezes nossas estruturas eclesiais — marcadas por clericalismo, legalismo, autorreferência — produziram mais afastamento que comunhão? Como advertia o Papa Francisco, de santa memória, em sua exortação Evangelii Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada por sair às ruas do que uma Igreja doente por se fechar em si mesma” (EG, 49). Francisco recuperava com força a intuição de que a fé cristã é caminho, dinamismo, travessia. Como a mulher que acende a lâmpada ou o pastor que atravessa o deserto, também a comunidade eclesial é chamada a sair, a iluminar, a buscar com perseverança — mesmo aquilo que outros julgariam perdido para sempre.

A pastoral do coração não calcula perdas, mas busca o que falta. A missão do Cristo, revelada no próprio evangelho de Lucas, é “buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). O mesmo verbo usado para descrever a missão de Jesus reaparece aqui na ação do pastor: ele vai atrás da ovelha. A fé cristã não é estática. É movimento, saída, peregrinação. O amor do Sagrado Coração é dinâmico, inquieto, sempre em busca.

Essa busca envolve riscos. O deserto é perigoso. As noventa e nove ficam desprotegidas. Mas o que está em jogo não é uma organização pastoral eficiente; é o coração do Evangelho. Jesus jamais fundou um modelo de controle, mas de compaixão. Ele mesmo diz que o pastor verdadeiro não foge diante do lobo, mas entrega a vida (Jo 10,11-15). E o apóstolo Paulo interpreta esse gesto como loucura do amor: “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Ou seja, antes mesmo do arrependimento, o amor já nos alcançou. Nesse movimento de busca e encontro, revela-se também a dimensão eucarística da parábola. A festa ao reencontrar a ovelha é um banquete de reconciliação. Lembra o pai do filho pródigo que manda matar o novilho gordo para celebrar o retorno (Lc 15,23). Na Eucaristia, a Igreja revive essa alegria do reencontro, mas ela só é autêntica quando todos têm lugar à mesa. Não podemos comungar o Corpo de Cristo e, ao mesmo tempo, excluir os corpos concretos dos irmãos e irmãs feridos. Não há comunhão sem inclusão.

O drama da religião sem coração, do rito sem vida, é a cegueira diante da ovelha ferida. A extrema-direita religiosa, ao instrumentalizar o cristianismo para justificar políticas de exclusão, violência e supremacia, trai o Evangelho do Pastor que se perde por amor. A verdadeira tradição eclesial está ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos que choram (cf. Mt 5,3-12). A ovelha perdida, para muitos desses movimentos, é escandalosa. Mas é ela que provoca a festa no céu e  talvez seja necessário ir além: quem disse que a ovelha perdida está fora? E se o redil não for sinal de comunhão, mas de conformismo? E se o que chamamos de “segurança” for, na verdade, o aprisionamento de consciências? O profeta Isaías já dizia: “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho” (Is 53,6). A ovelha perdida, portanto, não é exceção: é espelho. Todos somos, de algum modo, buscados por um amor que se recusa a desistir de nós. 

A crítica filosófica pode nos iluminar aqui: Friedrich Nietzsche, embora crítico da religião institucional, intuía que muitas vezes é o doente quem enxerga melhor a doença da sociedade. A ovelha "perdida", nesse sentido, pode ser a mais lúcida. Há uma denúncia implícita contra uma espiritualidade massificada, onde a segurança de estar “dentro” faz com que ninguém mais questione se o caminho é realmente justo. A ovelha perdida pode ser o artista que se afastou porque não havia espaço para sua sensibilidade na rigidez litúrgica; pode ser a mulher excluída por ser mãe solteira; pode ser o jovem que se levantou contra o racismo estrutural da comunidade de fé; pode ser o pobre que se cansou de ouvir sermões sobre obediência enquanto era oprimido.

Nesse sentido, ela não apenas precisa ser buscada — ela nos desafia. O retorno da ovelha perdida não é apenas salvação pessoal, é uma provocação comunitária. Ela carrega consigo o clamor de uma Igreja mais inclusiva, mais humana, mais aberta ao Evangelho como libertação. E é nesse reencontro — com suas feridas, perguntas e esperanças — que o Coração de Jesus se regozija e nos convida a fazer festa.

O Sagrado Coração de Jesus, transpassado e vivo, continua a pulsar por cada um que se distancia. Ele não pergunta o motivo da perda, mas se lança na busca. E o faz com pressa, como a mulher que varre a casa para encontrar a moeda (Lc 15,8-10), como o pai que corre ao encontro do filho (Lc 15,20). Esse Deus corre, busca, carrega, celebra.

Que esta parábola — breve, mas abismal — nos desinstale. Que nos liberte da ilusão de estarmos já salvos só porque permanecemos no “rebanho”. Que nos converta a um cristianismo do coração, onde a prioridade seja sempre o que está fora, ferido, perdido. E que a Igreja, à imagem do seu Senhor, tenha a coragem de deixar os noventa e nove e sair pelas estradas, pelos becos, pelos desertos... até encontrar a que falta. Porque é ela que faz falta ao Coração de Deus e talvez essa saída não seja apenas para buscar, mas para aprender. Talvez o reencontro com a ovelha nos mostre o que esquecemos no redil: o frescor do Evangelho, a dor do povo, o clamor por justiça, o grito de quem nunca foi ouvido. A festa no céu, afinal, começa quando o amor vence o medo, e a misericórdia desfaz os muros da indiferença.

Celebrar o Coração de Jesus é comprometer-se com sua compaixão que não calcula, com sua ternura que não se escandaliza, com sua fidelidade que não desiste. Se nos deixarmos encontrar por esse amor — e se formos capazes de buscá-lo nos caminhos esquecidos — então a parábola deixa de ser apenas palavra e se faz carne em nós e  a Igreja se tornará, enfim, o que é chamada a ser: não um curral fechado de justos, mas casa aberta onde até a ovelha mais ferida encontre abrigo, dignidade e pão.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 21 de junho de 2025

Israel: Terra Prometida, Terra Ferida.


DNonato  graduado em História

A Terra de Israel, ao longo dos séculos, tornou-se mais que um território: converteu-se em símbolo, mito, campo de disputa e instrumento ideológico. Desde a promessa feita a Abraão até a criação do moderno Estado de Israel em 1948, essa terra passou por rupturas, reformulações e, sobretudo, profundas distorções do que originalmente simbolizava uma aliança com a humanidade. A terra prometida, na narrativa bíblica, nunca foi apenas uma posse, mas uma herança condicionada pela justiça, pela fidelidade e pela prática da misericórdia.

A promessa feita a Abraão (Gn 12,1-3; 15,18)¹ era acompanhada de um propósito ético: “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”. O chamado de Abraão não era para fundar um império, mas para se tornar pai de uma fé que abençoasse a humanidade. A terra era parte dessa promessa, mas nunca foi um direito absoluto ou militarizado. A posse da terra estava sempre condicionada à fidelidade ao Deus da justiça (cf. Dt 8,11-20)².

A entrada de Josué em Canaã é descrita na Bíblia como um ato de conquista divina, mas a análise histórica e arqueológica contemporânea problematiza essa narrativa, vendo-a menos como uma invasão típica da antiguidade — marcada por violência, deslocamento e imposição cultural — e mais como um processo gradual, envolvendo migrações, assimilação cultural e conflitos locais, e não uma invasão rápida e total⁴. O livro de Josué relata a destruição de cidades como Jericó e Ai (Josué 6-8), ações que são interpretadas por muitos estudiosos como episódios simbólicos ou ideologizados para afirmar a soberania do Deus de Israel sobre a terra³.

Este padrão de “invasão” é reflexo das lógicas bélicas das sociedades antigas, que legitimavam a posse da terra pelo uso da força, associando-a à bênção divina condicionada à obediência. Contudo, o texto bíblico também contém advertências severas sobre a fidelidade a essa aliança, sinalizando que a terra é um dom precário, dependente da justiça social e do compromisso com o Deus da aliança (Josué 23,12-16)⁵

Com a monarquia, Israel se aproxima dos modelos de poder das outras nações. A centralização política sob Davi e Salomão traz estabilidade, mas também opressão, desigualdade e idolatria. A aliança tornou-se uma formalidade religiosa, e o profetismo emerge como denúncia: “Este povo se aproxima de mim com a boca... mas o coração está longe” (Is 29,13)⁶. A fé é reduzida a aparato estatal, e a justiça social se esvai.

A infidelidade leva à tragédia: o Reino do Norte cai diante da Assíria (722 a.C.); o Sul é deportado à Babilônia (586 a.C.). O Exílio rompe o vínculo direto com a terra, e a fé se reinventa: nasce o judaísmo da Torá, da memória e da esperança. Surge um novo Israel, espalhado, errante, mas guardando consigo a promessa — não mais como território, mas como identidade espiritual. A terra não está mais sob os pés, mas na liturgia, nos salmos, na oração voltada a Jerusalém. Começa assim a diáspora, a dispersão que moldaria a alma judaica por mais de dois milênios.


A Terra Prometida não pode ser discutida sem recordar a origem dos povos semitas na Bíblia: Abraão, pai de muitos povos, teve dois filhos — Ismael e Isaac (cf. Gn 16 e 21)⁷ Ismael, o primogênito, é considerado pelos muçulmanos como seu ancestral direto. Isaac, filho da promessa, é pai de Jacó, que recebe o nome de Israel. Mas o texto bíblico não apresenta a bênção de Isaac como anulação da bênção de Ismael. Ao contrário: Deus abençoa ambos, promete fazer de Ismael uma grande nação (Gn 21,13.18)⁸ e o acompanha no deserto.

A Bíblia não coloca Ismael como amaldiçoado, mas como irmão. O conflito entre seus descendentes é posterior, fruto de interpretações enviesadas que instrumentalizaram a genealogia para justificar exclusões políticas e teológicas. O mesmo vale para os filhos de Isaac: Esaú, o mais velho, e Jacó, o mais novo. O direito de primogenitura é negociado e depois tomado com astúcia, o que gera rancor e exílio. No entanto, mais tarde, Jacó e Esaú se reconciliam (Gn 33)⁹ , e Esaú torna-se também um grande povo.

Ora, se a herança fosse exclusivamente do mais velho, ela pertenceria a Ismael e Esaú. A Bíblia, no entanto, subverte essa lógica patriarcal e nos mostra que a herança de Deus não segue critérios humanos de mérito, sangue ou posse. A bênção, quando autêntica, é sempre vocação para servir, e não direito para dominar.

Ao recordar que todos descendem de Abraão, e que todos foram abençoados — ainda que por caminhos distintos — o texto sagrado desmonta o uso excludente da genealogia. O Deus de Abraão não é monopolizável. Sua promessa é maior que fronteiras políticas, maior que etnias, maior que exércitos. Ao longo da história, os judeus viveram como minoria perseguida em diversos impérios: do helenismo à Roma, da Inquisição às proibições em guetos europeus. A mística da terra prometida permaneceu viva, não como plano militar, mas como saudade, como símbolo escatológico de retorno e reconciliação. Mas a modernidade traria uma ruptura.

O sionismo do século XIX emerge em meio ao nacionalismo europeu, buscando dar ao povo judeu um território onde pudesse existir como nação soberana. Laico, político e inspirado por modelos ocidentais de Estado-nação, o sionismo rompe com o tempo litúrgico da promessa e entra no tempo cronológico da geopolítica. A fundação do Estado de Israel em 1948, após a partilha da Palestina pelas Nações Unidas, é a concretização dessa visão política — não da promessa bíblica. É uma criação moderna, com exército, fronteiras e interesses econômicos. Contudo, como toda criação política, ela foi marcada por exclusões inerentes: a Nakba (“catástrofe” em árabe) representou o deslocamento forçado de mais de 700 mil palestinos.

A tragédia do Holocausto, em que cerca de seis milhões de judeus foram exterminados pela Alemanha nazista, fortaleceu o apelo do sionismo: nunca mais um povo sem pátria, sem defesa. O trauma da Shoá tornou-se parte fundante da identidade israelense moderna. Mas aqui reside o paradoxo: o Estado criado para garantir a sobrevivência de um povo perseguido tornou-se, ele mesmo, instrumento de perseguição e exclusão de outro povo — os palestinos. A terra que deveria acolher virou fronteira vigiada. A herança da dor foi usada como licença para o domínio.

O uso da Bíblia para legitimar o moderno Estado de Israel é uma operação ideológica, não teológica. Os textos que prometem terra são transformados em escritura notarial, como se Deus fosse corretor imobiliário. Mas os profetas já diziam: “A terra será tirada de vós, porque pisastes os pobres e oprimistes o inocente” (Am 5)¹⁰. A terra, na Bíblia, nunca é posse individual ou étnica: é dom condicional, dependente da justiça.

Essa distorção, porém, não é novidade. Nas Cruzadas medievais, a mesma instrumentalização da fé aconteceu. Convocadas entre os séculos XI e XIII pela Igreja latina, as Cruzadas foram vendidas como missão espiritual, mas movidas por interesses políticos, econômicos e expansionistas. A ideia de “libertar Jerusalém” dos muçulmanos era envolta por mística escatológica: acreditava-se que o retorno de Cristo só se daria após a purificação da Terra Santa. Peregrinos viraram soldados. A cruz virou espada. Massacres de muçulmanos, judeus e cristãos orientais foram cometidos em nome de Deus. A fé foi pervertida em bandeira imperial. A Cruzada era, ao mesmo tempo, penitência e violência — uma alucinação sagrada que santificava o sangue.

Curiosamente, essa escatologia também está presente no Islã. Para os muçulmanos, Jerusalém (Al-Quds) é a terceira cidade mais sagrada, depois de Meca e Medina. Ali, segundo a tradição, o profeta Muhammad ascendeu aos céus na chamada Noite da Ascensão (Isra e Mi'raj). Na escatologia islâmica, Jerusalém será palco dos eventos finais, quando o Mahdi (o “Guiado por Deus”) retornará para restaurar a justiça antes do fim dos tempos. Assim como para judeus e cristãos, Jerusalém tem peso apocalíptico no Islã: não apenas geográfico, mas cósmico. Isso explica por que os conflitos em torno da cidade ultrapassam o plano político — são guerras carregadas de misticismo, símbolos e memórias do fim.

Hoje, Israel é um Estado moderno, com cerca de 74% da população identificada como judia, 18% muçulmana e 2% cristã. Mas a convivência é marcada por apartheid, vigilância militar, colonatos ilegais e humilhação cotidiana. A mística da promessa virou doutrina de segurança nacional. A terra virou ídolo. A fé, retórica bélica. O outro, inimigo.

O Israel bíblico era chamado a ser luz para as nações (Is 49,6); o moderno Estado de Israel tornou-se reflexo das trevas do mundo: segregação, domínio e impunidade. A verdadeira terra prometida não é uma questão de controle, mas de comunhão. “Ai dos que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça!” (Am 5)¹¹.

A Terra Prometida não é herança de quem a domina pela força, mas de quem caminha com humildade, compartilha o pão, respeita o estrangeiro e não oprime o fraco. Entre a terra prometida e a terra ferida, que a humanidade possa reencontrar a memória do sagrado: não aquela que abençoa impérios, mas a que ouve o clamor do oprimido e faz brotar a justiça como rio caudaloso.

Notas

[^1]: BIBLIA. Gênesis 12,1-3; 15,18. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^2]: DEUTERONÔMIO 8,11-20. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^3]: BIBLIA. Josué 6-8. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^4]: FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. New York: Free Press, 2001.

[^5]: BIBLIA. Josué 23,12-16. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^6]: BIBLIA. Isaías 29,13. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^7]: BIBLIA. Gênesis 16 e 21. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^8]: BIBLIA. Gênesis 21,13.18. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^9]: BIBLIA. Gênesis 33. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^10]: BIBLIA. Amós 5. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^11]: BIBLIA. Amós 5,7. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.


terça-feira, 17 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 6,1-6.16-18

 

Quando ouvimos Mateus 6,1-6.16-18 na liturgia da Quarta-feira de Cinzas e, novamente, na Quarta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum, somos colocados diante de uma das páginas mais incisivas do Evangelho. Trata-se de uma palavra afiada como espada (Hb 4,12), capaz de discernir não apenas nossas ações, mas também as intenções ocultas do coração. Jesus não oferece um simples conselho moral nem uma recomendação para aperfeiçoar a vida espiritual. Ele realiza uma crítica profética que desmascara uma religião transformada em espetáculo e denuncia toda prática religiosa utilizada para conquistar prestígio, poder ou reconhecimento.  A escolha deste evangelho para a Quarta-feira de Cinzas não é acidental. A Igreja o proclama justamente na abertura da Quaresma, quando os fiéis são convidados ao caminho da conversão, da penitência e do retorno ao Senhor. Nesse contexto, Jesus apresenta as três práticas tradicionais da piedade judaica: A esmola,  a oração   e o  jejum.
Não para rejeitá-las, mas para purificá-las. O problema não está nas práticas em si, mas na motivação que as sustenta. O Reino de Deus não se mede pela visibilidade da devoção, mas pela autenticidade do coração que busca a vontade do Pai.
A liturgia das Cinzas reforça essa mensagem. Enquanto os cristãos recebem sobre a cabeça o sinal da fragilidade humana "Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás" (Gn 3,19) ou o chamado à conversão  "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15),  o evangelho alerta contra a tentação de transformar até mesmo os sinais da penitência em instrumentos de exibição religiosa. A Quaresma começa, portanto, com um convite à verdade interior: não basta parecer convertido; é necessário deixar-se transformar por Deus.
Quando o mesmo texto retorna na 11ª Semana do Tempo Comum, fora do contexto quaresmal, a Igreja recorda que a conversão não é uma exigência sazonal, limitada a quarenta dias do ano. A autenticidade do discipulado deve marcar toda a existência cristã. A esmola, a oração e o jejum permanecem como expressões permanentes da fé, mas sempre orientadas para a comunhão com Deus e para o serviço aos irmãos, jamais para a autopromoção.
Essa perícope  esta  centro do Sermão da Montanha (Mt 5–7), a grande síntese da ética do Reino. Depois de apresentar as Bem-aventuranças na segunda-feira da 10 semana do tempo comum,  e de exigir uma justiça superior à dos escribas e fariseus (Mt 5,20) proclamada na 6ª-feira da 1ª semana da Quaresma e também na 5ª-feira da 10ª semana do Tempo ComumJesus aprofunda o significado da verdadeira piedade. O foco desloca-se do exterior para o interior, da aparência para a consciência, da busca dos aplausos humanos para a relação filial com o Pai. A expressão repetida ao longo do texto  "teu Pai, que vê o que está oculto" revela o centro da espiritualidade cristã: Deus não se impressiona com performances religiosas; Ele contempla o coração.
Jesus vivia  a religiosa do seu tempo. Em uma sociedade ondce a honra pública possuía enorme valor, práticas como a esmola, a oração e o jejum podiam tornar-se mecanismos de distinção social. A religião corria o risco de converter-se em capital simbólico, instrumento de status e legitimação. Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai. denúncia permanece extraordinariamente atual. Também hoje a fé pode ser capturada pela lógica da visibilidade, da autopromoção e da busca de reconhecimento se   tornando um vivência  hipócrita 
A palavra "hipócrita", no grego original (hypokritēs), significava literalmente “ator”, alguém que representa um papel. O uso desse termo não é inocente, pois Jesus denuncia uma espiritualidade teatral, onde o altar vira palco e a fé é usada como maquiagem para encobrir estruturas de dominação e conveniência pessoal. Essa mesma denúncia ecoa nos profetas: 
  • Isaías 1,13-17 rejeita os sacrifícios de mãos sujas de sangue
  • Amós 5,21-24 repudia os cultos vazios sem justiça; 
  • Oséias 6,6 nos recorda que Deus prefere a misericórdia ao ritual. 
O problema não são as práticas, mas as intenções corrompidas. A oração verdadeira é silenciosa, o jejum autêntico é discreto, e a esmola legítima é secreta  porque o Pai “vê o que está oculto” (Mt 6,4.6.18). E Jesus questiona a sociedade onde a honra pública possuía enorme valor, práticas como a esmola, a oração e o jejum pode se  tornar um  mecanismos de distinção social. Vivemos  esse  perigo hoje, onde   a  religião converter-se em capital simbólico,  instrumento de status e legitimação. Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai.

A pergunta fundamental não é quanto rezamos, quanto jejuamos ou quanto damos aos pobres. Mas  para quem fazemos essas coisas? 
O evangelho nos conduz ao exame mais profundo da vida espiritual: buscamos a glória de Deus ou a nossa própria? 
A resposta a essa pergunta determina se nossas práticas religiosas são expressão do Reino ou apenas encenação diante dos homens. O Sermão da Montanha, anuncia o Reino de Deus como contracultura, um caminho de justiça superior (cf. Mt 5,20), rompendo com uma religiosidade fortemente institucionalizada onde práticas como o jejum, a oração e a esmola haviam se tornado ferramentas de distinção social e autoexaltação. A crítica de Jesus, portanto, é profundamente enraizada numa realidade concreta: a religião usada como instrumento de prestígio e poder 
Essa crítica, tão particular ao seu contexto, ressoa em uma verdade universal. Afinal, do ponto de vista antropológico e histórico, todas as civilizações desenvolveram ritos que expressam relação com o sagrado. O jejum, por exemplo, já era praticado em contextos mesopotâmicos, egípcios e greco-romanos como forma de purificação, luto ou preparação espiritual.

  • Entre os povos indígenas do Brasil, o jejum aparece em contextos iniciáticos, como preparação para rituais de cura, escuta do espírito ou contato com os encantados. A oração, nesses contextos, não é discurso, mas relação cósmica — diálogo com a natureza, com os ancestrais, com os mistérios. A esmola, por sua vez, se manifesta em formas comunitárias de partilha, em que o bem coletivo supera o individual.
  • As religiões de matriz afro-brasileira nos oferecem outro exemplo vigoroso de autenticidade: a oração é canto, dança, corpo que se doa. O jejum se dá nas restrições alimentares ligadas ao orixá ou ao processo ritual. A caridade, o axé que circula, é força de vida compartilhada. Essas práticas são vividas com reverência e verdade, sem a pretensão de parecer mais espirituais que outros. 
  • No judaísmo, de onde vêm as práticas que Jesus menciona, oração, jejum e esmola são parte inseparável da halachá, a caminhada do justo. O jejum de Yom Kippur é arrependimento profundo, a oração é mergulho na Palavra, e a tzedaká é justiça social. 
  • No Islã, o Ramadã é um grito coletivo de sobriedade e compaixão — jejum diário, orações comunitárias e caridade obrigatória.
  •  Nas religiões orientais, como o budismo e o hinduísmo, o jejum é disciplina do desapego, a oração é meditação, e a generosidade é um dos caminhos para a iluminação.

Desde Durkheim a Bourdieu  que a fé pode ser tanto instrumento de libertação quanto de dominação. No Brasil contemporâneo, vemos essa fé sequestrada por lideranças que a utilizam como capital político. A extrema-direita brasileira invadiu o sagrado: jejuns manipulados por políticos corruptos, orações nas redes usadas como marketing de guerra cultural, e caridades exibidas com câmeras na mão. O nome de Jesus é invocado não para salvar, mas para excluir. Transformaram o altar em palanque e o Evangelho em doutrina de ódio. Essa fé não liberta; ela oprime, revelando-se a religião de Caifás, não a de Jesus. Vivemos  esse narcisismo religioso. O ego que busca aplauso se traveste de piedade. O jejum é usado para autopunição neurótica ou para exibir força de vontade. A oração vira monólogo do ego com o espelho. A esmola, feita para os likes, é caridade colonizadora. Mas o verdadeiro encontro com Deus desmascara, descentra e transforma. Jung dizia: “Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro desperta.” A verdadeira espiritualidade não é estética, mas ética. Ela nos obriga a encarar nossos abismos e os rostos dos que sofrem.

A teologia bíblica  fiel à tradição dos profetas e de Jesus não pode compactuar com o cristianismo de fachada. A oração cristã nasce da escuta da Palavra e da solidariedade com os crucificados da história. O jejum cristão é recusa concreta aos ídolos do consumo, do egoísmo, da indiferença. A esmola cristã é profecia contra a miséria institucionalizada. O Papa Francisco é contundente ao dizer que "não há verdadeira piedade sem justiça" (EG 186) e que “a fé que não se traduz em defesa dos pobres é ideologia sem alma” (FT 275). O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes 1, afirma que o sofrimento da humanidade deve ecoar no coração da Igreja. E não há sofrimento maior hoje do que ver o nome de Deus usado para legitimar o racismo, o machismo, a homofobia e a desigualdade

.É  preciso  lembrar que 

  •  A filosofia , nos lembra que a verdade religiosa precisa ser crítica. 
  • Paulo Freire nos ensinou que a educação  e a fé precisam ser libertadoras, não domesticadoras. 
  • Nietzsche, apesar de crítico da religião, denunciava a moral de rebanho e a fé sem coragem.
  •  Kierkegaard clamava por uma fé que não fosse espetáculo, mas risco existencial. 
  • Simone Weil escreveu que “a atenção pura é a forma mais rara e generosa de oração”. 
  • Todos esses ecos nos recordam:  que o Evangelho é  o convite ao abismo de Deus, não ao conforto do palco. 
Em tempos de “culto-show”, de missas que viram apresentações, de padres que se comportam como celebridades e de pastores que vendem bênçãos como produtos, Mateus 6 nos devolve à essência. A fé não precisa de aplausos. Deus não está nos holofotes, mas no quarto fechado, no rosto do pobre, no pão dividido em silêncio. O Pai que vê no oculto não se impressiona com redes sociais, mas com o coração quebrantado. Se nossa religião virou entretenimento, então perdemos o Cristo. Se nossas igrejas se parecem mais com shoppings do que com comunidades de partilha, então é hora de voltar ao deserto. Nos tempos de exposição constante, de espiritualidade transformada em espetáculo e de religião usada para acumular influência social, econômica ou política, a palavra de Jesus conserva toda a sua força profética. Ela interpela o clericalismo, a ostentação religiosa e toda forma de devoção vazia, convidando-nos a redescobrir a simplicidade do Evangelho.Contra essa lógica, Jesus proclama uma verdadeira contracultura do Reino. O discípulo não vive para ser visto, admirado ou celebrado. Sua recompensa não está nos aplausos da praça, mas na comunhão silenciosa com o Pai.

Que esta Palavra não nos deixe tranquilos. Que ela desinstale nossas falsas seguranças e derrube os altares da vaidade religiosa erguidos em nosso coração. Não sejamos cúmplices de uma fé domesticada, reduzida a espetáculo, capturada pelos interesses do mercado, pelo moralismo sem misericórdia ou pela sedução do poder. O Evangelho não foi dado para legitimar privilégios, mas para gerar discípulos. Como clamava o profeta Joel: "Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes" (Jl 2,13). É tempo de abandonar as máscaras da piedade aparente que escondem o orgulho, a indiferença diante do sofrimento humano e a busca de reconhecimento. O Pai, que vê o que está oculto, não procura exibicionismo religioso; procura corações convertidos. Por isso, deixemos que a oração nos reconduza à intimidade com Deus, que o jejum nos liberte da tirania do ego e do consumo, e que a esmola nos devolva aos irmãos e irmãs que o mundo descarta. Essas práticas não são troféus espirituais, mas caminhos de transformação, sinais concretos de uma vida configurada ao Reino. Não há mais espaço para uma religião de aparência, para um cristianismo sem cruz, sem justiça, sem misericórdia e sem compromisso com os pequenos. A fé autêntica nasce no segredo do encontro com Deus, amadurece na escuta da Palavra e floresce no serviço ao próximo. É a fé que se ajoelha diante do Pai e se levanta para lavar os pés dos irmãos.

Voltemos ao Evangelho. Retornemos ao silêncio que nos permite ouvir a voz de Deus. Reencontremos os pobres, porque neles o próprio Cristo continua a nos visitar. Sejamos, como pede o Sermão da Montanha, sal da terra e luz do mundo; não atores em busca de aplausos, mas testemunhas do Reino. A  Palavra foi proclamada. O chamado foi feito. A conversão não pode esperar. A hora da profecia é agora. O tempo favorável é hoje. E o Reino de Deus já está entre nós, aguardando discípulos que tenham a coragem de viver o Evangelho sem máscaras

DNonato — Teólogo do Cotidiano, servo do Evangelho e filho da Igreja.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXIX

 


Entre Razões e Emoções: A teologia do amor que fica

Há músicas que não apenas nos tocam — elas nos despem por dentro. Como espelhos cruéis, revelam histórias que às vezes nem conseguimos colocar em palavras. “Razões e Emoções”, da banda NX Zero, é exatamente uma dessas. Uma oração desesperada de quem amou demais e não foi escolhido. Um grito contido, um apelo em forma de melodia, um amor que não coube no mundo real, mas que explodiu dentro da nossa alma.

“Dizer, o que eu posso dizer, se estou cantando agora pra você ouvir com outra pessoa...”

Essa frase nos corta fundo. O amor foi vivido, foi verdadeiro — mas não foi suficiente. Agora, só sobra a canção. Como se fosse o último respiro desse sentimento que não encontrou espaço. Como se cantar com dor fosse o único jeito de dizer aquilo que ficou preso, sufocado no momento certo.

Vemos histórias assim o tempo todo. Histórias que não acabam porque falta sentimento, mas porque alguém teve que escolher. Escolher entre o que é seguro e o que o coração pedia. O amor estava ali, vivo, pulsante, sincero — mas alguém preferiu voltar atrás. Por medo. Por conveniência. Por não ter coragem para romper com o que já conhece.

Quantas vezes isso acontece com a gente? 

Quantas vezes preferimos a segurança de uma relação que já não dá certo a nos jogar no risco de um amor que exige entrega total?

“É que às vezes acho que não sou o melhor pra você, mas às vezes acho que poderíamos ser o melhor pra nós dois...”

Isso dói demais. Um coração partido entre o medo e a fé. Entre a dúvida sobre nós mesmos e a esperança tola — ou talvez não tão tola assim — de que o amor inteiro poderia mudar tudo. E é justamente aí que mora o drama: quando há amor, mas falta coragem.

Vivemos num tempo em que a intensidade assusta. Nos apaixonamos, mas temos medo do que sentimos. Preferimos ficar em relações mornas do que nos entregarmos a um sentimento que mexe com tudo. Fugimos de um amor grande simplesmente porque não sabemos lidar com a alma exposta, vulnerável.

“Pois Deus não nos deu espírito de medo, mas de poder, amor e equilíbrio.” (2Tm 1,7)

Mas amar de verdade é justamente isso: romper com o confortável, enfrentar o desconhecido. Nem todos aguentam.

Então sobra a espera. Não aquela espera idealizada, romântica, mas uma espera silenciosa, quase involuntária. Uma espera que não está ali para que o outro volte, mas que carrega a ausência como se fosse presença.

“Entre razões e emoções, a saída é fazer valer a pena... se não agora, depois não importa... por você, posso esperar.”

Esse “posso esperar” se repete feito um eco triste dentro do peito de quem ficou. É a forma de dizer “ainda estou aqui”, mesmo quando tudo parece ter se calado.

A verdade é que quem parte nem sempre sai por falta de amor. Muitas vezes, sai porque não sabe amar. Ou porque não acredita que merece ser amado de verdade. E quem fica... fica tentando entender. Fica tentando engolir o silêncio, a ausência, o retrocesso do outro. Fica agarrado a um futuro que foi arrancado. E mesmo assim, mesmo ferido, quem fica sabe: tudo valeu a pena. Porque amou. Porque mergulhou. Porque foi real.

Temos visto gente que volta para antigos lugares não porque quer reencontrar, mas porque tem medo de seguir em frente. Que escolhe o conhecido, mesmo ferido, em vez de se lançar no desconhecido com quem poderia ser a história mais linda da vida. E quando isso acontece, não é só o amor que se frustra. É a esperança que se despedaça.

Mas mesmo diante da dor, da ruptura, da não-escolha, existe algo maior: a dignidade de quem amou de verdade. De quem não se escondeu com medo. De quem esperou o tempo que foi preciso, não para alimentar ilusão, mas porque sabia que sentimentos reais não desaparecem da noite para o dia.

 “A esperança não decepciona...” (Rm 5,5)

Se a história acabou, foi porque o outro não sustentou. Porque o outro voltou atrás. Porque escolheu o mais fácil.

E mesmo com o coração quebrado, seguimos. Não com raiva, não com amargura, mas com gratidão. Porque o amor vivido deixou marcas que nunca se apagam. Porque, mesmo doendo, foi lindo. Porque o que sentimos foi tão grande, tão profundo, que o fim não destruiu — só transformou em memória.

Amores impossíveis existem, sim. Mas o que os torna impossíveis quase nunca são as circunstâncias — são as fragilidades da gente. São as portas que fechamos por medo, as escolhas feitas por covardia. 

 “O amor nunca falha.” (1Cor 13,8)

E no fim, o que sobra é respirar fundo e continuar. Com a alma marcada, sim, mas o coração intacto. Porque amar nunca foi um erro. O erro não é amar — é fugir do amor por medo de viver. Porque amar, mesmo que doa, é um gesto que toca a eternidade.

Por tudo isso, essa música não é só uma canção. É o retrato silencioso do que muita gente vive por dentro. Uma prece cantada por quem ficou esperando, não por fraqueza, mas por fidelidade ao que sentiu. E mesmo que o outro tenha partido, o amor que ficou não morreu. Só mudou de lugar,  porque amar é sempre o primeiro passo para a eternidade que nos espera

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Prof. DNonato — Teólogo do Cotidiano, entre razões e emoções, a dignidade está em termos amado de verdade.

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domingo, 8 de junho de 2025

O Embuste das Armas e a Morte da Família no Brasil


Mais uma vez, as manchetes do Brasil trazem uma tragédia doméstica marcada por sangue, silêncio e uma arma legalizada. Em Limeira (SP), uma mulher e um bebê de apenas dois meses foram encontrados mortos ao lado do corpo do procurador municipal Rafael Horta, 40 anos. A Polícia Civil de São Paulo investiga o caso como um possível feminicídio seguido de infanticídio e suicídio. O revólver encontrado ao lado da cama — onde os corpos estavam — estava legalmente registrado no nome de Horta, que era CAC: colecionador, atirador e caçador. Se foi ele quem disparou, a perícia dirá. Mas o que já se sabe é incontornável: a arma era dele. A ideologia, também.
Agora, esposa, filho e o próprio Rafael Horta estão mortos — vítimas da mesma arma legalizada que prometia proteger. A arma era dele. O discurso, também. E o sangue, inevitável.

Não se trata de um caso isolado, nem de um “monstro” fora da curva. Trata-se de uma tragédia com raízes profundas em um projeto político e cultural que naturalizou a violência como forma de autoridade, transformou o armamento civil em símbolo de virtude e revestiu o autoritarismo de valores religiosos. Como alerta o profeta Jeremias, “Porquanto clamarão, mas não será ouvido; clamarão a mim, mas não responderei” (Jeremias 7:28). É esse grito sufocado, esse clamor ignorado, que traduz a voz das vítimas da violência institucionalizada.

Rafael Horta era um bolsonarista convicto. Defendia o armamento civil como garantia da “proteção da família”, idolatrava Sergio Moro, atacava o Supremo Tribunal Federal, chamava de “escolha” a crença na Terra plana e rejeitava o aborto no ventre — porque, segundo suas convicções, “a vida é sagrada desde a concepção”. Contudo, há fortes indícios de que compartilhava ou apoiava a ideia da pena de morte social, ou seja, a eliminação das minorias e dos vulneráveis como solução política e ideológica. Em outras palavras: a vida seria sagrada na concepção, mas, uma vez nascida, poderia ser descartada. Essa contradição expõe a face cruel e hipócrita de um projeto que mascara o extermínio como moralidade. 

A Escritura é clara ao denunciar a hipocrisia: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem da escuridão luz, e da luz, escuridão” (Isaías 5:20). Esse projeto político-cultural, que se esconde atrás de um falso moralismo, pratica essa inversão perversa. Usa a retórica da família e da fé para justificar a disseminação da morte e da opressão. É preciso dizer com clareza: essa não é apenas uma tragédia familiar. É o reflexo brutal de um modelo ideológico que legitima a posse de armas como virtude moral e a masculinidade violenta como modelo de conduta. Um modelo que foi promovido por Jair Bolsonaro — embusteiro travestido de Messias — que fez da retórica armamentista um programa de governo, das armas um fetiche e da família um campo de controle. Como o Salmo alerta: “O Senhor prova o justo, mas odeia o perverso e aquele que ama a violência” (Salmo 11:5). E é essa violência que se naturalizou na política, na cultura e nas casas brasileiras. 

O que antes poderia ser entendido como exceção tornou-se regra: a banalização da morte, o culto à força bruta e a negação da dignidade humana no íntimo do lar. O que deveria ser o espaço do cuidado tornou-se campo minado de medo e opressão. A tragédia de Limeira é mais um resultado previsível da política de morte disseminada por esse projeto. Um projeto que usou o nome de Deus, da Pátria e da Família não para proteger a vida, mas para justificar seu extermínio — especialmente o de mulheres, crianças e minorias. O discurso do “cidadão de bem armado” nunca foi sobre segurança. Sempre foi sobre poder, medo e dominação.

O apóstolo Tiago adverte: “Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males” (Tiago 3:16). E não há ambição mais perversa do que a ambição pelo controle violento, revestida de falsa justiça. Do ponto de vista sociológico, esse tipo de violência é alimentado por uma cultura que reforça a masculinidade como dominação e controle absoluto. Da psicologia, sabemos que a frustração emocional, quando armada, é destrutiva e pode explodir em tragédias irreparáveis. Da filosofia política, compreendemos que o Estado que abdica do monopólio legítimo da força abre caminho para o caos travestido de “liberdade”. E da economia, observamos o fortalecimento de uma indústria armamentista que lucra com o medo — enquanto as famílias enterram seus mortos.

Clamam contra mim, mas não há quem responda; clamam sobre a violência, mas não é libertado (Jeremias 5:28). E é esse silêncio cúmplice que permite que as balas continuem a matar. Da religião — verdadeira — só pode vir o escândalo: o nome de Deus foi usado para justificar a posse de armas, enquanto o Evangelho foi traído em cada disparo. Não há cristianismo possível na legitimação da violência doméstica, do ódio ideológico e da cultura da bala.

O próprio Jesus deixou claro que o mandamento maior é o amor, e que “quem vive pelo sangue, pelo sangue morrerá” (Mateus 26:52). Não é a força que constrói comunidades, mas o amor e a justiça. A legitimidade do poder não reside no calibre da arma, mas na capacidade de cuidar, proteger e respeitar o outro.

Se foi Horta quem apertou o gatilho, a perícia dirá. Mas quem carregou essa arma de sentido foi uma ideologia que ainda vive — e mata. Porque mesmo quando o dedo treme, a bala já foi autorizada. E o silêncio da sociedade diante dessas tragédias é cúmplice. 

Armar a população nunca foi sobre liberdade. Foi sempre sobre submissão. Sobre o controle dos corpos pela força. Sobre o retorno do patriarcalismo armado. E agora, uma mulher e uma criança estão mortos. E o nome de Deus ainda é invocado como justificativa. 

A quem interessa esse modelo? 

Quantas famílias mais terão de ser destruídas até que se reconheça que a política do ódio não é um desvio — é um projeto?

Até quando vamos chamar de valores o que é, na verdade, violência legitimada?

Que essa tragédia não seja mais uma manchete esquecida, mas o grito irrompido das famílias que clamam por justiça verdadeira. Que não nos acostumemos com a banalização da dor, nem nos calemos diante do poder que mata e silencia. Que saibamos ver, na morte de uma mulher e de uma criança, o rosto do Brasil ferido — e, sobretudo, rejeitemos o embuste que usurpa o nome de Deus para justificar o massacre. É hora de romper com essa lógica perversa, de desmontar a ideologia da violência que mascara o medo, o autoritarismo e a exclusão. É hora de recuperar o verdadeiro sentido da família, não como instrumento de controle e opressão, mas como espaço sagrado de amor, cuidado e liberdade.

Se queremos um Brasil digno, justo e em paz, precisamos urgentemente desarmar não apenas as armas, mas os corações e as mentes que alimentam o ódio e o fascínio pela morte. Porque só há futuro na cultura da vida, e essa vida começa na defesa intransigente da dignidade de cada pessoa — da criança no berço, da mulher na sua casa, do homem na sua vulnerabilidade.

O tempo do silêncio acabou. Que a justiça e a compaixão sejam as únicas armas legítimas que empunhemos. E que o verdadeiro Deus, que nos chama a amar até o fim, seja nossa luz e nosso escudo.

Como nos exorta a Escritura:

“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.” (Romanos 12:10)

Que este seja o fundamento de nossa resistência à violência e o caminho para reconstruirmos um Brasil onde a vida seja sagrada em todas as suas formas.

Prof. DNonato - Teólogo do cotidiano.


quinta-feira, 29 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 16,20-23a

No coração do Tempo Pascal da Igreja Católica Romana, a perícope de João 16,20-23a ocupa um lugar profundamente significativo na caminhada litúrgica da Igreja. Este texto é proclamado tradicionalmente na sexta-feira da sexta semana da Páscoa, dentro da sequência espiritual que prepara a comunidade cristã para Pentecostes. A liturgia o insere no grande discurso de despedida de Jesus no Evangelho segundo João, texto de densidade espiritual singular, onde o Cristo prepara seus discípulos para a experiência da ausência visível, da perseguição, do medo e, ao mesmo tempo, da irrupção inesperada da alegria pascal. Variantes temáticas desta passagem também ecoam nas celebrações do Tempo Pascal em diversas tradições cristãs históricas, como nas Igrejas Ortodoxas do Oriente, nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, especialmente nas leituras relacionadas à ressurreição, ao sofrimento da Igreja e à esperança escatológica. O motivo da tristeza transformada em alegria atravessa toda a espiritualidade cristã primitiva e se torna uma das grandes chaves hermenêuticas da fé pascal.

O texto de João 16,20-23a está inserido no chamado Livro da Glória, que compreende os capítulos 13 a 21 do Quarto Evangelho. Trata-se de uma seção profundamente simbólica, construída não apenas como narrativa histórica, mas como catequese espiritual para comunidades marcadas pela perseguição, pelo conflito interno e pela tensão com o poder religioso e político do final do primeiro século. O Evangelho joanino nasce em um contexto de ruptura traumática entre grupos cristãos e setores da sinagoga judaica após a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. pelo Império Romano. A comunidade joanina experimentava exclusão religiosa, marginalização social e perseguição cultural. Por isso, o discurso de Jesus sobre tristeza, dor e alegria não é abstrato nem meramente espiritualizado. Ele emerge de um chão histórico concreto, marcado pelo sofrimento real das comunidades. Quando Jesus afirma: “Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará” (Jo 16,20), Ele não apenas descreve a dor imediata dos discípulos diante da paixão iminente. Ele revela uma estrutura permanente da história humana. Há um conflito entre a lógica do Reino de Deus e a lógica do mundo. No Evangelho de João, o termo “mundo” possui múltiplos sentidos. Em alguns momentos, designa a criação amada por Deus, como em João 3,16. Em outros, representa o sistema organizado de oposição à vida, à verdade e à justiça. Aqui, claramente, “o mundo” é o conjunto das estruturas de poder que celebram a morte dos inocentes, naturalizam a violência e transformam a opressão em normalidade política, econômica e religiosa.
Jesus pronuncia estas palavras poucas horas antes de sua prisão. O pré-texto imediato é o lava-pés de João 13, gesto profundamente revolucionário numa sociedade marcada pela hierarquia e pela pureza ritual. O Mestre ajoelha-se diante dos discípulos, assume a condição do servo e desmonta toda compreensão autoritária do poder religioso. Em seguida, anuncia traição, abandono e sofrimento. A ceia joanina não possui a instituição explícita da Eucaristia como nos Sinóticos, mas possui algo talvez ainda mais radical: a revelação de que a comunhão verdadeira só existe quando o poder se transforma em serviço.

Nesse horizonte, a tristeza dos discípulos não é apenas emocional. Trata-se do colapso de suas expectativas messiânicas. Eles ainda esperavam um Reino glorioso segundo categorias políticas convencionais. Esperavam triunfo visível, estabilidade, restauração nacional. A cruz destrói essas projeções. A morte de Jesus desmascara a violência do Império Romano, a cumplicidade das elites religiosas e a fragilidade humana dos próprios discípulos. O Cristo não morre apenas pelas mãos de Roma. Morre também pela aliança entre religião e poder..Esse dado possui enorme relevância contemporânea. Em todas as épocas, inclusive em nosso tempo, existe a tentação permanente de instrumentalizar Deus para legitimar projetos de dominação. A religião frequentemente é capturada por ideologias de controle social, nacionalismos autoritários e sistemas econômicos excludentes. Quando a fé perde sua dimensão profética, ela deixa de ser Boa Nova para os pobres e se transforma em aparato de manutenção da ordem. Jesus denuncia precisamente essa perversão.
A metáfora do parto utilizada em João 16,21 é uma das imagens antropológicas mais belas e profundas do Novo Testamento. “A mulher, quando vai dar à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra do sofrimento, por causa da alegria de ter vindo um ser humano ao mundo.” O símbolo do parto atravessa toda a tradição bíblica. Em Isaías 66,7-14, Sião aparece como mulher que gera um povo novo. Em Miqueias 4,9-10, o sofrimento do parto torna-se imagem da esperança coletiva. Em Romanos 8,22, Paulo afirma que toda a criação geme em dores de parto aguardando redenção.
No mundo bíblico, o parto era experiência profundamente arriscada. A mortalidade materna era elevada. Não havia anestesia, segurança hospitalar ou assistência adequada para a maioria das mulheres pobres. A dor do parto simbolizava vulnerabilidade extrema, mas também potência criadora. Jesus utiliza precisamente essa experiência para revelar que o Reino nasce no interior da dor histórica. Não existe ressurreição sem travessia da cruz.
A antropologia cultural nos ajuda a compreender que sociedades antigas frequentemente associavam o sofrimento do parto à ambiguidade da vida humana: dor e esperança coexistindo inseparavelmente. O nascimento é ruptura traumática, passagem, transformação radical. Assim também acontece com a experiência espiritual e histórica das comunidades humanas. Nenhuma transformação profunda ocorre sem crise.

Por isso, o cristianismo autêntico jamais pode ser reduzido a espiritualidade alienante, triunfalismo religioso ou teologia da prosperidade. O Evangelho não promete imunidade ao sofrimento. Promete sentido, presença e esperança dentro da travessia histórica. A lógica neoliberal contemporânea, porém, transforma felicidade em mercadoria e sofrimento em fracasso individual. A fé mercantilizada vende sucesso pessoal, riqueza financeira e vitória social como sinais automáticos da bênção divina. Tal perspectiva contradiz frontalmente o Evangelho de Jesus.
A chamada teologia da prosperidade, difundida em diversos ambientes religiosos contemporâneos, representa uma profunda distorção hermenêutica da tradição bíblica. Ela substitui o Deus do Êxodo pelo deus do mercado. Troca a cruz pelo consumo. Reduz oração a técnica motivacional. Nessa lógica, pobres são culpabilizados por sua própria pobreza, enquanto ricos são apresentados como modelos espirituais. Jesus, porém, jamais associou riqueza à santidade. Pelo contrário. Em Lucas 6,20, proclama: “Bem-aventurados vós, os pobres.” Em Mateus 25,31-46, identifica-se diretamente com os famintos, presos e excluídos..João 16 denuncia precisamente o escândalo de um mundo que se alegra enquanto os justos choram. Essa dinâmica permanece brutalmente atual. Vivemos em uma civilização marcada pela concentração obscena de riqueza, pela destruição ambiental, pela precarização da vida e pela naturalização da violência. Crianças morrem de fome enquanto mercados financeiros celebram lucros recordes. Povos indígenas são expulsos de seus territórios em nome do agronegócio predatório. Migrantes são tratados como ameaça. Mulheres continuam vítimas de violência estrutural em sociedades patriarcais. Negros seguem morrendo nas periferias sob o peso histórico do racismo.

Nesse contexto, recordar os ataques sofridos por figuras públicas comprometidas com a justiça socioambiental revela a permanência da lógica denunciada pelo Evangelho. Quando mulheres são silenciadas, ridicularizadas ou violentadas em espaços institucionais, manifesta-se não apenas misoginia individual, mas uma estrutura histórica de dominação. A reação hostil contra mulheres que resistem ao poder autoritário reproduz mecanismos antigos de exclusão. O corpo feminino continua sendo território de disputa simbólica e política.
Jesus utiliza justamente a figura da mulher que dá à luz para revelar que a vida nova nasce das dores históricas dos marginalizados. Há aqui uma profunda inversão teológica. O Reino não nasce nos palácios imperiais nem nos templos aliados ao poder. Nasce nas periferias da história. Nasce no ventre das mulheres pobres. Nasce entre pescadores da Galileia. Nasce entre trabalhadores explorados pelo sistema tributário romano.. A geografia do Evangelho é profundamente significativa. A Galileia do século I era região marginalizada economicamente em relação à Judeia. Era espaço de mistura cultural, tensão política e exploração econômica. O campesinato galileu sofria com impostos abusivos, concentração fundiária e presença militar romana. Jesus nasce e atua nesse contexto de sofrimento social concreto. Sua mensagem não é abstrata. É encarnada.

A sociologia da religião ajuda a compreender como movimentos espirituais frequentemente surgem entre populações marginalizadas. O cristianismo primitivo foi, inicialmente, movimento de pobres, mulheres, escravizados e excluídos. Seu anúncio subvertia hierarquias tradicionais ao afirmar que todos possuem dignidade diante de Deus. Paulo escreve em Gálatas 3,28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher.” Essa afirmação era explosiva no mundo antigo.
Por isso, a alegria prometida por Jesus é profundamente política no sentido mais elevado do termo. Não política partidária estreita, mas política da dignidade humana, da justiça e da comunhão. O Magnificat de Maria em Lucas 1,46-55 já anunciava essa subversão: Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta humildes. O cristianismo perde sua alma quando abandona os pobres.
O Concílio Vaticano II recuperou fortemente essa dimensão histórica da fé. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Aqui ressoa diretamente João 16. A Igreja é chamada a compartilhar as dores do mundo, não a fugir delas.

A Conferência de Medellín em 1968 aprofundou essa perspectiva ao denunciar estruturas de pecado presentes na sociedade latino-americana. Puebla, em 1979, reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida, em 2007, insistiu na necessidade de uma Igreja em saída missionária, próxima dos sofrimentos reais do povo. O Papa Francisco retoma continuamente essa tradição ao denunciar “uma economia que mata” e ao criticar o clericalismo como deformação da vida eclesial. O clericalismo constitui uma das patologias espirituais mais graves da Igreja contemporânea. Ele transforma ministério em privilégio, autoridade em dominação e serviço em poder. No Evangelho de João, Jesus desmonta radicalmente essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. Onde existe clericalismo, a comunidade deixa de ser povo de Deus e se converte em estrutura piramidal de controle. O clericalismo infantiliza os leigos, silencia mulheres e sufoca a dimensão profética da fé.

Psicologicamente, sistemas religiosos autoritários frequentemente produzem culpa patológica, dependência emocional e medo espiritual. A manipulação religiosa utiliza símbolos sagrados para controlar consciências. Jesus, porém, age de modo oposto. Ele liberta. Ele cura. Ele restitui dignidade. Ele rompe mecanismos de exclusão religiosa. Em Marcos 2,27 afirma: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” A extrema direita religiosa contemporânea frequentemente instrumentaliza o cristianismo como ferramenta identitária e ideológica. Constrói inimigos morais, promove pânico social e reduz o Evangelho a guerra cultural. Nesse processo, o Cristo das bem-aventuranças é substituído por um messias nacionalista e violento. A cruz deixa de ser solidariedade com os crucificados da história e se transforma em símbolo de poder tribal.

Os Evangelhos Sinóticos ajudam a iluminar ainda mais João 16. Em Marcos 8,34, Jesus afirma: “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” Em Mateus 5,4 proclama: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Em Lucas 24,26 pergunta aos discípulos de Emaús: “Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” João aprofunda teologicamente essa tradição ao apresentar a cruz já como glorificação. No Quarto Evangelho, a paixão não é derrota definitiva, mas revelação máxima do amor.
Existe também diferença redacional importante. Enquanto os Sinóticos enfatizam mais explicitamente o abandono e a angústia de Jesus, João apresenta um Cristo soberano que atravessa livremente a paixão. Essa perspectiva não elimina o sofrimento, mas sublinha que o amor permanece mais forte que a violência.

A psicologia da esperança humana revela que pessoas e comunidades conseguem resistir ao sofrimento quando encontram significado coletivo para sua dor. Viktor Frankl observou que o sentido sustenta a existência mesmo em condições extremas. O Evangelho oferece precisamente uma esperança histórica e transcendente capaz de impedir que a dor se transforme em desespero absoluto..João 16,22 afirma: “A vossa alegria ninguém poderá tirar.” Trata-se de afirmação extraordinária. Jesus não promete ausência de perseguição. Pelo contrário. O próprio Evangelho joanino fala de expulsão das sinagogas e hostilidade do mundo. A alegria cristã não depende de estabilidade econômica, reconhecimento social ou sucesso político. Ela nasce do encontro com o Ressuscitado e da experiência de comunhão solidária.

Essa alegria possui dimensão escatológica. Ela aponta para a plenitude futura do Reino. Contudo, também possui dimensão histórica concreta. Ela já se manifesta onde existe compaixão, justiça e resistência ao mal. Surge nas comunidades que partilham pão. Nas mães que sustentam filhos em contextos de pobreza extrema. Nos povos indígenas que defendem a terra como sacramento da vida. Nos agentes pastorais perseguidos por defender direitos humanos. Nos jovens que recusam discursos de ódio. Nos trabalhadores que lutam por dignidade.
A tradição profética bíblica sempre denunciou religião vazia e culto desvinculado da justiça. Isaías 1,11-17 rejeita sacrifícios sem compromisso ético. Amós 5,21-24 proclama: “Quero ver o direito brotar como fonte.” Miqueias 6,8 resume a vontade divina: praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Jesus se insere integralmente nessa tradição. Por isso, não existe espiritualidade cristã autêntica compatível com indiferença diante da fome, do racismo, da misoginia e da destruição ambiental. A fé que ignora o sofrimento humano torna-se idolatria religiosa. A cruz de Cristo revela que Deus não está do lado dos impérios da morte, mas dos crucificados da história.

O CELAM insiste repetidamente na necessidade de uma evangelização libertadora e encarnada. O Documento de Aparecida afirma que a Igreja deve ser “advogada da justiça e defensora dos pobres”. Essa missão exige discernimento crítico diante das ideologias contemporâneas. Nem todo discurso religioso é evangélico. Nem toda invocação do nome de Deus produz vida.
A crise contemporânea também é crise de sentido. Milhões vivem esmagados pela lógica do desempenho, pela hipercompetitividade e pelo isolamento social. O individualismo neoliberal destrói vínculos comunitários e transforma pessoas em consumidores permanentes. Nesse cenário, João 16 oferece horizonte profundamente humano. A tristeza não é negada. O sofrimento não é romantizado. Mas a dor não possui a última palavra.
A ressurreição não apaga as feridas de Cristo. O Ressuscitado continua marcado pelos cravos. Isso significa que a memória do sofrimento permanece integrada na história da salvação. O cristianismo não é amnésia espiritual. É transformação da dor em solidariedade.

Há também profunda dimensão contemplativa nesse texto. Jesus convida os discípulos a atravessarem a noite confiando na fidelidade do Pai. Trata-se de espiritualidade da esperança teimosa. Não esperança ingênua, mas esperança resistente. A esperança bíblica nasce frequentemente em contextos de exílio, perseguição e aparente fracasso.
A própria história da Igreja testemunha isso. Mártires antigos e contemporâneos revelam que a alegria do Evangelho floresce mesmo sob perseguição. Oscar Romero, assassinado enquanto celebrava a Eucaristia em El Salvador, afirmava que a Igreja deve estar onde o povo sofre. Dorothy Stang entregou a vida defendendo os pobres da Amazônia. Dom Hélder Câmara denunciou as estruturas de opressão que produzem fome e violência. Essas testemunhas encarnam João 16. O Reino continua germinando silenciosamente nas periferias do mundo. Continua nascendo em comunidades invisíveis aos olhos dos poderosos. Continua florescendo onde alguém reparte pão, acolhe feridos e resiste à lógica da morte. O Cristo Ressuscitado permanece caminhando entre os pobres.

A conclusão dessa perícope é profundamente significativa. Jesus afirma: “Naquele dia, não me perguntareis mais nada” (Jo 16,23a). Não se trata da eliminação do pensamento crítico ou das perguntas humanas. Trata-se da plenitude da comunhão. O encontro definitivo com Deus dissipará as ambiguidades da história. Contudo, enquanto caminhamos neste mundo, continuamos perguntando, buscando, discernindo e lutando.
A fé cristã madura não foge das perguntas difíceis. Ela atravessa a dúvida sem abandonar a esperança. O próprio Cristo clamou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). O Evangelho legitima o grito humano diante da dor. Por isso, a Igreja não pode oferecer respostas simplistas ao sofrimento do mundo. Sua missão é caminhar solidariamente com os que choram, denunciar estruturas de injustiça e anunciar que a vida é mais forte que a morte. João 16 não é convite à resignação passiva. É convocação à esperança ativa.
Em tempos marcados pela banalização da violência, pelo crescimento de fundamentalismos religiosos e pelo avanço de discursos autoritários, o Evangelho continua sendo palavra profundamente subversiva. Jesus permanece desafiando sistemas que transformam pessoas em descartáveis. Permanece denunciando alianças perversas entre religião e poder. Permanece chamando discípulos e discípulas para uma espiritualidade encarnada, solidária e libertadora.
A alegria prometida por Cristo continua sendo perigosa para os impérios da morte porque ela gera resistência. Quem experimenta essa alegria não aceita facilmente a lógica da opressão. Não se conforma com injustiças naturalizadas. Não transforma fé em mercadoria. Não adora líderes políticos como salvadores messiânicos.

A verdadeira alegria cristã nasce da certeza de que Deus continua agindo na história, mesmo quando tudo parece perdido. Ela floresce no interior da luta coletiva por dignidade. Surge quando comunidades escolhem partilhar em vez de acumular. Quando a compaixão vence o medo. Quando o amor rompe os ciclos de violência.
João 16,20-23a permanece, assim, como uma das mais profundas sínteses da espiritualidade pascal. O Cristo não promete fuga da história, mas presença no interior dela. Não promete ausência de lágrimas, mas transformação das lágrimas em esperança. Não promete vitória triunfalista segundo os critérios do mundo, mas fidelidade amorosa capaz de atravessar a cruz. E talvez seja precisamente essa a grande tarefa espiritual do nosso tempo. Permanecer humanos em meio à brutalidade. Permanecer compassivos em meio ao ódio. Permanecer solidários em meio ao individualismo. Permanecer proféticos em meio à manipulação religiosa. Permanecer discípulos do Ressuscitado quando tantos desejam transformar o Evangelho em instrumento de dominação.
A tristeza dos discípulos se transformará em alegria porque o amor crucificado ressuscitou. E toda vez que alguém escolhe a justiça em vez da violência, a partilha em vez da acumulação, a misericórdia em vez da condenação, essa ressurreição continua acontecendo na história.

Que a Igreja jamais esqueça isso. Que nunca troque o Reino pelo poder. Que nunca transforme o altar em palco de ideologias autoritárias. Que nunca abandone os pobres. Que nunca silencie diante das vítimas da história. Porque o Cristo continua vivo entre os que resistem. Continua ressuscitando nas periferias do mundo. Continua chorando nos crucificados da história e sorrindo nas pequenas vitórias da dignidade humana.
E ninguém poderá tirar essa alegria daqueles que aprenderam a reconhecer o Ressuscitado no rosto dos pobres, dos perseguidos e dos que continuam acreditando, mesmo em meio à noite, que a vida vencerá.

Por isso, mesmo em meio às lágrimas e ao peso das injustiças, seguimos firmes, alimentados por essa promessa: a tristeza se transformará em alegria. Não caminhamos em vão. A cruz que carregamos hoje é semente de ressurreição. A esperança que floresce do chão dos oprimidos é sinal de que o Reino está próximo,   e já desponta entre nós, nas pequenas vitórias do amor, da solidariedade e Que assim seja.... fé que não desiste. 

DNonato – Vigia das alegrias indomáveis do Reino, teólogo do cotidiano, indignado pela justiça e indigente do sagrado.