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domingo, 26 de julho de 2026

Depois do "Amém": onde continua a Eucaristia?


"Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." A provocação de São Óscar Romero não diminui a grandeza da Eucaristia; ao contrário, convida-nos a descobrir sua verdade mais profunda. A celebração do Corpo e Sangue de Cristo não se esgota na liturgia, mas desdobra-se na vida. O "Amém" pronunciado diante do altar precisa tornar-se um "sim" concreto à justiça, à misericórdia e ao amor ao próximo.

Na Eucaristia, Cristo não apenas se oferece ao Pai no sacrifício da nova e eterna Aliança; Ele se entrega inteiramente à humanidade como alimento de vida eterna (cf. Jo 6,51). No altar, realiza-se o mistério do amor levado ao extremo (cf. Jo 13,1): Aquele que entregou seu corpo na cruz continua a oferecer-se à sua Igreja para que ela viva de sua própria vida. Ao comungar, os fiéis não recebem apenas um alimento espiritual ou um consolo para a alma; recebem o próprio Cristo Ressuscitado, sua vida, seu Espírito, sua missão e seu modo de amar. A comunhão eucarística, portanto, não é um ato de devoção intimista, mas uma profunda configuração com Jesus, que faz da Igreja o seu Corpo vivo na história. Como ensina Santo Agostinho, "recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  E por isso que toda celebração eucarística culmina com o envio: "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe." A liturgia não termina; ela transborda para a vida. O "Ide" não é uma fórmula de encerramento, mas um mandato missionário. Quem participou da mesa do Senhor é enviado a prolongar sua presença no mundo, fazendo da própria existência uma liturgia vivida, na qual a fé se traduz em caridade, a adoração em serviço e a comunhão em compromisso com os irmãos. Não há verdadeira participação na Eucaristia sem disposição para amar, servir, reconciliar, partilhar e defender a dignidade humana.

Essa íntima unidade entre culto e vida atravessa toda a Sagrada Escritura. Desde o Antigo Testamento, os profetas denunciaram uma religiosidade que multiplicava sacrifícios, mas permanecia indiferente ao sofrimento do próximo. O problema nunca foi o culto em si, mas um culto vazio, incapaz de gerar conversão e justiça. Por isso, Isaías faz ecoar uma das mais severas advertências de Deus ao seu povo:

  • "De que me serve a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido; fazei justiça ao órfão; defendei a causa da viúva" (Is 1,11.17).

A crítica profética não rejeita a liturgia; purifica-a. Ela recorda que o Deus que acolhe o incenso do templo é o mesmo que escuta o clamor do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro. Toda celebração que não conduz à misericórdia e à justiça torna-se contraditória. A Eucaristia, ápice do culto cristão, realiza plenamente essa exigência: ela une inseparavelmente a mesa do altar e a mesa da vida, a adoração de Deus e o amor concreto ao próximo e Amós é ainda mais contundente:

  • "Eu detesto as vossas festas... Antes corra o direito como as águas e a justiça como um rio perene" (Am 5,21.24).

Não se trata de rejeitar o culto, mas de purificá-lo. O verdadeiro culto agrada a Deus quando transforma o coração e a sociedade. Jesus assume plenamente essa tradição profética. Ao citar Oseias, declara:

  • "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7).

No julgamento final, narrado por Mateus (25,31-46), Ele identifica sua própria presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. O Cristo adorado na Eucaristia é o mesmo Cristo encontrado nos crucificados da história. Há um detalhe significativo no Evangelho de João. Diferentemente dos Sinópticos, João não narra as palavras da instituição da Eucaristia na Última Ceia. Em seu lugar, apresenta o gesto do lava-pés (Jo 13,1-15). A escolha não é casual. O evangelista mostra que participar da mesa de Cristo significa aprender seu estilo de vida: abaixar-se diante do irmão, servir sem buscar prestígio e fazer do amor concreto a linguagem da fé. A liturgia conduz inevitavelmente ao serviço.

Essa mesma preocupação aparece em São Paulo. Ao escrever aos cristãos de Corinto, ele censura uma comunidade que celebrava a Ceia do Senhor enquanto tolerava divisões e humilhações contra os pobres:

  • "Quando vos reunis, já não é a Ceia do Senhor que comeis" (1Cor 11,20).

A denúncia é impressionante. Não era a fórmula da celebração que estava errada, mas a incoerência entre o altar e a vida. A Eucaristia perdia seu sentido porque a comunhão havia sido rompida entre os irmãos. Desde os primeiros séculos, a Igreja compreendeu essa inseparabilidade. A Didaqué, um dos mais antigos escritos cristãos, exorta os fiéis a partilhar também os bens materiais, pois quem recebeu os bens eternos não pode fechar o coração às necessidades do próximo.

Santo Inácio de Antioquia chama a Eucaristia de "remédio de imortalidade". Mas esse remédio não cura apenas a relação entre Deus e o ser humano; cura também as relações humanas marcadas pelo egoísmo, pela violência e pela exclusão.

São João Crisóstomo adverte com impressionante atualidade: "Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu. Não o honres aqui na igreja com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas sofrendo frio e nudez."

Santo Agostinho sintetiza a identidade da Igreja ao afirmar: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  Quem recebe o Corpo de Cristo torna-se chamado a ser Corpo de Cristo para o mundo.

São Basílio Magno vai ainda mais longe: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa."

Esses Padres da Igreja não opõem oração e compromisso social. Pelo contrário: mostram que a oração verdadeira desemboca inevitavelmente na partilha e na justiça. E  magistério contemporâneo mantém essa mesma linha. São Paulo VI, na Mysterium Fidei, recorda que a participação na Eucaristia impele os cristãos à prática da caridade.

São João Paulo II, na Ecclesia de Eucharistia, afirma que não existe celebração eucarística autêntica sem um compromisso concreto de amor ao próximo.

Bento XVI, na Sacramentum Caritatis, ensina que a união com Cristo implica necessariamente a união com todos aqueles pelos quais Ele entregou sua vida. E, na encíclica Deus Caritas Est, escreve uma frase que permanece desafiadora: "Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido é, em si mesma, fragmentária."

Francisco amplia essa compreensão ao afirmar, na Evangelii Gaudium, que a fé autêntica sempre possui um profundo desejo de transformar o mundo, promover a dignidade humana e deixar a sociedade melhor do que a encontrou (EG 183). Para ele, evangelização e promoção da dignidade humana não são caminhos paralelos, mas dimensões inseparáveis da mesma missão.

Essa visão encontra expressão também na Doutrina Social da Igreja. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a opção preferencial pelos pobres não são temas periféricos nem concessões às ideologias. São consequências da Encarnação e da Eucaristia. Se Cristo se faz pão para todos, ninguém pode ser tratado como descartável. Se o Senhor reúne todos na mesma mesa, nenhuma forma de exclusão pode ser aceita como normal. Por isso, o maior perigo talvez não seja abandonar a Eucaristia, mas reduzi-la a uma devoção intimista. Multiplicam-se procissões, horas santas, congressos eucarísticos e momentos de adoração. Tudo isso é profundamente valioso e faz parte da riqueza espiritual da Igreja. Contudo, quando o Corpo de Cristo é venerado no ostensório, mas ignorado nas vítimas da fome, do desemprego, da corrupção, da violência, do racismo, da exploração, das migrações forçadas e de tantas outras injustiças, algo essencial da mensagem cristã fica incompleto.

Não existe oposição entre adoração e compromisso. Quanto mais autêntica for a adoração, mais profunda será a conversão do coração. Quem permanece longamente diante do Santíssimo aprende a reconhecer o mesmo Cristo nos rostos concretos dos pobres, dos enfermos, dos idosos esquecidos, das crianças abandonadas, das mulheres vítimas de violência, dos migrantes e de todos aqueles cuja dignidade é ferida. A procissão mais importante comece justamente quando a procissão termina. O ostensório retorna ao sacrário, mas milhares de cristãos deixam a igreja levando Cristo em suas próprias vidas. Cada discípulo torna-se uma custódia viva, chamado a manifestar no cotidiano aquilo que contemplou no altar.

No fim, talvez descubramos que Aquele diante de quem nos ajoelhávamos na Eucaristia era o mesmo que nos esperava nas periferias da existência, nos rostos feridos da humanidade e nos clamores silenciosos dos esquecidos. Então compreenderemos que São Óscar Romero tinha razão ao afirmar que "uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." Não porque Deus despreze a liturgia, mas porque a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito: ela é comunhão que se faz missão, adoração que se transforma em serviço, sacramento que se prolonga na caridade, na justiça e na defesa da dignidade humana..  A missa não termina com a bênção final; ela apenas muda de lugar. O altar se estende às ruas, às casas, aos ambientes de trabalho, às periferias existenciais e a todos os lugares onde a vida clama por esperança. É ali que o pão repartido se torna solidariedade, que a verdade vence a mentira, que a justiça derrota a opressão, que o perdão rompe o ciclo da violência e que cada pessoa é reconhecida como imagem e semelhança de Deus.. 

Somente quando o "Amém" pronunciado diante do Corpo de Cristo continua sendo vivido no corpo ferido dos irmãos, a Eucaristia alcança toda a sua plenitude. É então que a adoração se torna testemunho, a comunhão se faz compromisso e a Igreja revela, no coração do mundo, a presença viva de seu Senhor.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-30

O Evangelho de Mateus 11,25-30  nele, Jesus revela a ternura do Pai para com os pequenos e faz um dos convites mais consoladores de toda a Escritura:

  • "Vinde a mim, vós todos que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28).

Esse texto  e proclamado nos seguintes  dias do calendário  litúrgico da Igreja Católica:

  • 14º Domingo do Tempo Comum (Ano A): Evangelho principal que conduz toda a reflexão litúrgica do domingo.
  • Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (Ano A) Celebração dedicada ao amor misericordioso, à mansidão e à humildade do Coração de Cristo.
  • Memória de São Francisco de Assis,  O santo que, com sua vida simples e desapegada, encarnou a pequenez e a humildade reveladas por Jesus.
  • Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos:  Uma das leituras frequentemente escolhidas para anunciar a esperança cristã e o descanso prometido por Deus aos que partiram desta vida.
  • Quarta-feira e Quinta-feira da 15ª Semana do Tempo Comum:  dividido  na quarta-feira Mateus 11,25-27 e na quinta-feira Mateus 11,28-30. permitindo uma meditação mais aprofundada sobre o convite de Jesus.

Ao longo do Ano Litúrgico, a Igreja nos faz retornar a essa Palavra porque ela responde a uma das necessidades mais profundas do ser humano: encontrar repouso para a alma. Em um mundo marcado pelo cansaço, pela ansiedade e pelas inúmeras cargas da vida, Cristo continua repetindo o mesmo convite:

  • "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas" (Mt 11,29).

O contexto em que essa passagem aparece é decisivo para sua compreensão. Pouco antes, Jesus havia pronunciado palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum, cidades que testemunharam sinais do Reino, mas permaneceram resistentes à conversão (Mt 11,20-24). A crítica não é dirigida aos pobres nem aos simples, mas àqueles que, possuindo privilégios religiosos e sociais, recusam-se a acolher a visita de Deus. É justamente após denunciar essa dureza de coração que Jesus eleva ao Pai uma das mais belas orações dos Evangelhos: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Lucas preserva essa mesma oração e acrescenta um detalhe precioso: Jesus exulta no Espírito Santo enquanto louva o Pai (Lc 10,21). Dessa forma, somos introduzidos numa das mais luminosas manifestações trinitárias dos Evangelhos. O Filho, movido pelo Espírito, bendiz o Pai pela forma como conduz a história da salvação. O Reino não se revela prioritariamente aos autossuficientes, mas aos que permanecem abertos à graça. À primeira vista, poderia parecer que Jesus opõe fé e inteligência. Contudo, uma leitura exegética mais cuidadosa mostra exatamente o contrário. A Escritura jamais condena a sabedoria. Os livros sapienciais exaltam-na como dom divino. O livro dos Provérbios apresenta a Sabedoria participando da própria obra da criação (Pr 8,22-31), enquanto o Eclesiástico a descreve como fonte de vida para aqueles que a procuram (Eclo 24,1-22). O problema denunciado por Jesus não é o conhecimento, mas a arrogância que transforma o conhecimento em autossuficiência espiritual.

Os “sábios e entendidos” representam aqueles que acreditam possuir Deus sob controle. Os “pequeninos”, ao contrário, são os que reconhecem sua necessidade de Deus. São os pobres em espírito proclamados bem-aventurados no Sermão da Montanha (Mt 5,3). São aqueles que recebem o Reino com a simplicidade das crianças, como recorda Marcos: “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele” (Mc 10,15).

Essa lógica atravessa toda a história da salvação Deus escolhe: 

  •  Abraão, um migrante sem terra (Gn 12,1-4).
  •  Moisés, um fugitivo refugiado no deserto (Ex 3,1-12). 
  • Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Maria, uma jovem da periferia da Galileia (Lc 1,26-38).
  • Pescadores para anunciar o Evangelho (Mc 1,16-20). 
A pedagogia divina raramente segue os caminhos do prestígio humano ou pede um  currículo ou carta de recomendação. Deus manifesta sua força precisamente onde o mundo enxerga fragilidade. Essa realidade torna-se ainda mais significativa quando lembramos o contexto social da Palestina do século I. Sob o domínio romano, a população sofria com impostos elevados, concentração fundiária e profundas desigualdades econômicas. Muitos camponeses perdiam suas terras e tornavam-se dependentes de grandes proprietários. Nesse ambiente, a religião corria o risco de ser utilizada como instrumento de legitimação das estruturas existentes. Nem todos os grupos religiosos agiam dessa forma, mas havia setores que associavam pureza ritual, prestígio religioso e posição social,  bem  parecido  com  realidade  em algumas Igrejas atualmente 

Jesus rompe essa lógica ao afirmar que os mistérios do Reino são revelados aos pequeninos. Sua declaração possui uma força teológica e sociológica extraordinária. Deus não pode ser apropriado por nenhuma classe social, nenhuma instituição, nenhuma ideologia ou qualquer projeto de poder. O Deus revelado por Jesus permanece livre diante de todas as tentativas humanas de monopolizar sua presença. Essa convicção encontra ressonância nos profetas. Isaías denuncia uma religiosidade incapaz de libertar os oprimidos (Is 58,6-7). Amós rejeita cultos que coexistem com a injustiça social (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Zacarias exorta o povo a defender viúvas, órfãos, estrangeiros e pobres (Zc 7,9-10). Jesus não surge isolado dessa tradição; ele a leva à sua plenitude.

O versículo 27 aprofunda ainda mais o mistério: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”Estamos diante de uma das declarações cristológicas mais densas dos Evangelhos Sinóticos. Muitos estudiosos observam que essas palavras possuem profundidade comparável às grandes afirmações do Evangelho de João. Jesus não se apresenta apenas como mestre ou profeta. Ele se apresenta como revelador definitivo do Pai.

Na linguagem bíblica, conhecer não significa apenas compreender intelectualmente. Conhecer é entrar em comunhão. É participar da vida do outro. Quando Jesus fala do conhecimento mútuo entre Pai e Filho, está revelando uma intimidade única, da qual os discípulos são convidados a participar. Por isso conhecer Deus: 

  • Não consiste simplesmente em acumular doutrinas corretas. 
  • Conhecer Deus significa aprender sua compaixão, participar de sua misericórdia e reproduzir sua justiça. 

A revelação do Pai não afasta o discípulo da realidade humana; conduz exatamente para dentro dela. É nesse contexto que surge o grande convite: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Essas palavras ecoam toda a história bíblica. O verbo “vir” recorda os convites dirigidos por Deus ao longo das Escrituras. Isaías proclama: “Vinde às águas todos os que tendes sede” (Is 55,1). A Sabedoria convida os simples para sua mesa (Pr 9,1-6). O Eclesiástico proclama: “Aproximai-vos de mim, vós que sois ignorantes” (Eclo 51,23).

Diversos exegetas observam que Mateus 11 apresenta Jesus assumindo para si a linguagem da própria Sabedoria divina. O Eclesiástico afirma: “Submetei o vosso pescoço ao seu jugo” (Eclo 51,26). Agora é Jesus quem oferece o jugo. O que antes era atribuído à Sabedoria de Deus encontra sua realização na pessoa do Cristo. Os cansados e sobrecarregados mencionados por Jesus não são apenas indivíduos fatigados por dificuldades pessoais. São todos aqueles esmagados por estruturas que roubam a dignidade humana. Entre eles estavam os pobres submetidos à exploração econômica, os doentes marginalizados pela cultura da pureza, os pecadores excluídos da convivência religiosa e todos aqueles que carregavam fardos impostos por interpretações distorcidas da Lei. Lucas registra uma crítica semelhante quando Jesus denuncia os especialistas da Lei: “Carregais os homens com fardos difíceis de suportar” (Lc 11,46). A questão não era a Lei em si, mas sua transformação em instrumento de opressão. A religião perde sua vocação quando deixa de curar para ferir, quando deixa de libertar para controlar, quando deixa de anunciar esperança para produzir medo. Jesus oferece um caminho diferente. Ele não exige que os cansados provem seu valor. Não pede que conquistem o descanso por mérito próprio. Simplesmente os convida a aproximarem-se dele.

O descanso prometido possui raízes profundas na tradição bíblica. Remete ao repouso de Deus após a criação (Gn 2,2-3), à Terra Prometida como lugar de descanso para Israel (Dt 12,9-10) e à promessa feita a Moisés: “Minha presença irá contigo e eu te darei descanso” (Ex 33,14). O descanso oferecido por Cristo é a continuação dessa presença libertadora de Deus no meio de seu povo. Não se trata apenas de alívio psicológico ou emocional. É reconciliação. É restauração da dignidade. É libertação das forças que desumanizam. É a possibilidade de reencontrar a própria humanidade diante de Deus.

Em seguida, Jesus acrescenta: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). À primeira vista, a imagem parece paradoxal. Como alguém pode oferecer descanso e, ao mesmo tempo, propor um jugo? Entretanto, o jugo de Cristo é completamente diferente dos fardos impostos pelos sistemas de dominação. No mundo judaico, falava-se frequentemente do jugo da Lei. Jesus retoma essa linguagem, mas redefine seu significado. Seu jugo não é um sistema opressor. Seu jugo é a participação em sua própria forma de viver. É aprender sua mansidão, sua humildade e seu serviço.

A mansidão, na Bíblia, não é passividade. É força sob controle. É recusa da violência como método de relação. É a capacidade de resistir sem reproduzir a lógica do opressor. A mesma palavra aparece nas Bem-aventuranças: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,5)A humildade, por sua vez, não significa autodesprezo. Significa viver na verdade diante de Deus. Jesus é humilde porque toda sua existência está voltada para o serviço. A carta aos Filipenses descreve esse movimento de esvaziamento: Cristo não se apega aos privilégios, mas assume a condição de servo (Fl 2,6-8). Por isso seu jugo é suave. Não porque elimine toda responsabilidade, mas porque conduz à plenitude da vida. O jugo dos impérios existe para beneficiar os poderosos. O jugo de Cristo existe para restaurar os seres humanos. Essa diferença atravessa toda a narrativa evangélica. Marcos apresenta Jesus acolhendo crianças e marginalizados. Lucas destaca sua proximidade com os pobres, os pecadores e as mulheres excluídas. Mateus enfatiza continuamente sua compaixão pelas multidões cansadas e abatidas. Os três Sinóticos convergem para a mesma imagem: um Messias que não domina, mas serve.

Ao longo de seu ministério, Jesus atravessa fronteiras sociais e religiosas. Toca leprosos (Mc 1,40-45), senta-se à mesa com pecadores (Lc 15,1-2), conversa com excluídos, acolhe estrangeiros e oferece dignidade àqueles que haviam sido descartados pela sociedade. Seu jugo é leve porque rompe com a lógica da exclusão. Essa dimensão possui enorme relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa época marcada por exaustão coletiva. Milhões carregam o peso da insegurança econômica, da ansiedade, da solidão e da perda de sentido. Muitos experimentam também um profundo cansaço espiritual, resultado de experiências religiosas marcadas por culpa, medo e manipulação.

Essa passagem continua oferecendo uma palavra de libertação. Jesus não convida à fuga da realidade. Convida a uma nova forma de habitá-la. Seu descanso não produz alienação. Produz missão. Quem encontra descanso em Cristo torna-se capaz de carregar os sofrimentos dos outros. Quem experimenta misericórdia aprende a praticar misericórdia. Quem recebe compaixão torna-se instrumento de compaixão. Uma Igreja fiel a esse Evangelho deve tornar-se sinal concreto desse descanso. Deve ser casa para os cansados, hospital para os feridos, comunidade para os solitários e espaço de esperança para os desencorajados. Não pode reproduzir lógicas de dominação, clericalismo ou exclusão. Seu modelo permanece aquele que lavou os pés dos discípulos (Jo 13,1-15).

Mateus 11,25-30 não é apenas um texto de consolação individual. É uma síntese extraordinária da Boa-Nova. Nele encontramos o Pai que se revela aos pequenos, o Filho que acolhe os cansados e o Reino que se manifesta através da mansidão e do amor. A passagem começa com um louvor e termina com um convite. Entre esses dois movimentos encontramos a essência do Evangelho. Deus aproxima-se da humanidade não através da força, mas através da misericórdia. Não através da imposição, mas através do amor. Não através da exclusão, mas através do acolhimento.

O convite “Vinde a mim” ecoa toda a trajetória de Jesus. É o mesmo Cristo que chama pescadores às margens do lago (Mc 1,16-20), que acolhe os pecadores à mesa (Lc 15,1-2), que proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), que se compadece das multidões sem pastor (Mt 9,36), que chora sobre Jerusalém (Lc 19,41) e que, após a ressurreição, continua chamando seus discípulos para segui-lo. Por isso Mateus 11 permanece como uma das páginas mais luminosas do Novo Testamento. Em um mundo frequentemente dominado pela competição, pelo medo, pela violência e pela instrumentalização da fé, a voz de Jesus continua ressoando com a mesma força das colinas da Galileia. É uma voz que não oprime, não ameaça e não exclui. É uma voz que convida. Convida os cansados ao descanso, os feridos à cura, os pecadores à misericórdia, os pequenos à dignidade e toda a humanidade à vida abundante do Reino de Deus. Nessa voz encontramos não apenas consolo para nossas fadigas, mas também a esperança de uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma e com toda a criação. 

Que acolhamos esse chamado com fé e confiança, permitindo que o Senhor alivie nossos fardos, cure nossas inquietações e conduza nossos corações ao verdadeiro descanso que somente Ele pode oferecer.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 21 de junho de 2025

Israel: Terra Prometida, Terra Ferida.


DNonato  graduado em História

A Terra de Israel, ao longo dos séculos, tornou-se mais que um território: converteu-se em símbolo, mito, campo de disputa e instrumento ideológico. Desde a promessa feita a Abraão até a criação do moderno Estado de Israel em 1948, essa terra passou por rupturas, reformulações e, sobretudo, profundas distorções do que originalmente simbolizava uma aliança com a humanidade. A terra prometida, na narrativa bíblica, nunca foi apenas uma posse, mas uma herança condicionada pela justiça, pela fidelidade e pela prática da misericórdia.

A promessa feita a Abraão (Gn 12,1-3; 15,18)¹ era acompanhada de um propósito ético: “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”. O chamado de Abraão não era para fundar um império, mas para se tornar pai de uma fé que abençoasse a humanidade. A terra era parte dessa promessa, mas nunca foi um direito absoluto ou militarizado. A posse da terra estava sempre condicionada à fidelidade ao Deus da justiça (cf. Dt 8,11-20)².

A entrada de Josué em Canaã é descrita na Bíblia como um ato de conquista divina, mas a análise histórica e arqueológica contemporânea problematiza essa narrativa, vendo-a menos como uma invasão típica da antiguidade — marcada por violência, deslocamento e imposição cultural — e mais como um processo gradual, envolvendo migrações, assimilação cultural e conflitos locais, e não uma invasão rápida e total⁴. O livro de Josué relata a destruição de cidades como Jericó e Ai (Josué 6-8), ações que são interpretadas por muitos estudiosos como episódios simbólicos ou ideologizados para afirmar a soberania do Deus de Israel sobre a terra³.

Este padrão de “invasão” é reflexo das lógicas bélicas das sociedades antigas, que legitimavam a posse da terra pelo uso da força, associando-a à bênção divina condicionada à obediência. Contudo, o texto bíblico também contém advertências severas sobre a fidelidade a essa aliança, sinalizando que a terra é um dom precário, dependente da justiça social e do compromisso com o Deus da aliança (Josué 23,12-16)⁵

Com a monarquia, Israel se aproxima dos modelos de poder das outras nações. A centralização política sob Davi e Salomão traz estabilidade, mas também opressão, desigualdade e idolatria. A aliança tornou-se uma formalidade religiosa, e o profetismo emerge como denúncia: “Este povo se aproxima de mim com a boca... mas o coração está longe” (Is 29,13)⁶. A fé é reduzida a aparato estatal, e a justiça social se esvai.

A infidelidade leva à tragédia: o Reino do Norte cai diante da Assíria (722 a.C.); o Sul é deportado à Babilônia (586 a.C.). O Exílio rompe o vínculo direto com a terra, e a fé se reinventa: nasce o judaísmo da Torá, da memória e da esperança. Surge um novo Israel, espalhado, errante, mas guardando consigo a promessa — não mais como território, mas como identidade espiritual. A terra não está mais sob os pés, mas na liturgia, nos salmos, na oração voltada a Jerusalém. Começa assim a diáspora, a dispersão que moldaria a alma judaica por mais de dois milênios.


A Terra Prometida não pode ser discutida sem recordar a origem dos povos semitas na Bíblia: Abraão, pai de muitos povos, teve dois filhos — Ismael e Isaac (cf. Gn 16 e 21)⁷ Ismael, o primogênito, é considerado pelos muçulmanos como seu ancestral direto. Isaac, filho da promessa, é pai de Jacó, que recebe o nome de Israel. Mas o texto bíblico não apresenta a bênção de Isaac como anulação da bênção de Ismael. Ao contrário: Deus abençoa ambos, promete fazer de Ismael uma grande nação (Gn 21,13.18)⁸ e o acompanha no deserto.

A Bíblia não coloca Ismael como amaldiçoado, mas como irmão. O conflito entre seus descendentes é posterior, fruto de interpretações enviesadas que instrumentalizaram a genealogia para justificar exclusões políticas e teológicas. O mesmo vale para os filhos de Isaac: Esaú, o mais velho, e Jacó, o mais novo. O direito de primogenitura é negociado e depois tomado com astúcia, o que gera rancor e exílio. No entanto, mais tarde, Jacó e Esaú se reconciliam (Gn 33)⁹ , e Esaú torna-se também um grande povo.

Ora, se a herança fosse exclusivamente do mais velho, ela pertenceria a Ismael e Esaú. A Bíblia, no entanto, subverte essa lógica patriarcal e nos mostra que a herança de Deus não segue critérios humanos de mérito, sangue ou posse. A bênção, quando autêntica, é sempre vocação para servir, e não direito para dominar.

Ao recordar que todos descendem de Abraão, e que todos foram abençoados — ainda que por caminhos distintos — o texto sagrado desmonta o uso excludente da genealogia. O Deus de Abraão não é monopolizável. Sua promessa é maior que fronteiras políticas, maior que etnias, maior que exércitos. Ao longo da história, os judeus viveram como minoria perseguida em diversos impérios: do helenismo à Roma, da Inquisição às proibições em guetos europeus. A mística da terra prometida permaneceu viva, não como plano militar, mas como saudade, como símbolo escatológico de retorno e reconciliação. Mas a modernidade traria uma ruptura.

O sionismo do século XIX emerge em meio ao nacionalismo europeu, buscando dar ao povo judeu um território onde pudesse existir como nação soberana. Laico, político e inspirado por modelos ocidentais de Estado-nação, o sionismo rompe com o tempo litúrgico da promessa e entra no tempo cronológico da geopolítica. A fundação do Estado de Israel em 1948, após a partilha da Palestina pelas Nações Unidas, é a concretização dessa visão política — não da promessa bíblica. É uma criação moderna, com exército, fronteiras e interesses econômicos. Contudo, como toda criação política, ela foi marcada por exclusões inerentes: a Nakba (“catástrofe” em árabe) representou o deslocamento forçado de mais de 700 mil palestinos.

A tragédia do Holocausto, em que cerca de seis milhões de judeus foram exterminados pela Alemanha nazista, fortaleceu o apelo do sionismo: nunca mais um povo sem pátria, sem defesa. O trauma da Shoá tornou-se parte fundante da identidade israelense moderna. Mas aqui reside o paradoxo: o Estado criado para garantir a sobrevivência de um povo perseguido tornou-se, ele mesmo, instrumento de perseguição e exclusão de outro povo — os palestinos. A terra que deveria acolher virou fronteira vigiada. A herança da dor foi usada como licença para o domínio.

O uso da Bíblia para legitimar o moderno Estado de Israel é uma operação ideológica, não teológica. Os textos que prometem terra são transformados em escritura notarial, como se Deus fosse corretor imobiliário. Mas os profetas já diziam: “A terra será tirada de vós, porque pisastes os pobres e oprimistes o inocente” (Am 5)¹⁰. A terra, na Bíblia, nunca é posse individual ou étnica: é dom condicional, dependente da justiça.

Essa distorção, porém, não é novidade. Nas Cruzadas medievais, a mesma instrumentalização da fé aconteceu. Convocadas entre os séculos XI e XIII pela Igreja latina, as Cruzadas foram vendidas como missão espiritual, mas movidas por interesses políticos, econômicos e expansionistas. A ideia de “libertar Jerusalém” dos muçulmanos era envolta por mística escatológica: acreditava-se que o retorno de Cristo só se daria após a purificação da Terra Santa. Peregrinos viraram soldados. A cruz virou espada. Massacres de muçulmanos, judeus e cristãos orientais foram cometidos em nome de Deus. A fé foi pervertida em bandeira imperial. A Cruzada era, ao mesmo tempo, penitência e violência — uma alucinação sagrada que santificava o sangue.

Curiosamente, essa escatologia também está presente no Islã. Para os muçulmanos, Jerusalém (Al-Quds) é a terceira cidade mais sagrada, depois de Meca e Medina. Ali, segundo a tradição, o profeta Muhammad ascendeu aos céus na chamada Noite da Ascensão (Isra e Mi'raj). Na escatologia islâmica, Jerusalém será palco dos eventos finais, quando o Mahdi (o “Guiado por Deus”) retornará para restaurar a justiça antes do fim dos tempos. Assim como para judeus e cristãos, Jerusalém tem peso apocalíptico no Islã: não apenas geográfico, mas cósmico. Isso explica por que os conflitos em torno da cidade ultrapassam o plano político — são guerras carregadas de misticismo, símbolos e memórias do fim.

Hoje, Israel é um Estado moderno, com cerca de 74% da população identificada como judia, 18% muçulmana e 2% cristã. Mas a convivência é marcada por apartheid, vigilância militar, colonatos ilegais e humilhação cotidiana. A mística da promessa virou doutrina de segurança nacional. A terra virou ídolo. A fé, retórica bélica. O outro, inimigo.

O Israel bíblico era chamado a ser luz para as nações (Is 49,6); o moderno Estado de Israel tornou-se reflexo das trevas do mundo: segregação, domínio e impunidade. A verdadeira terra prometida não é uma questão de controle, mas de comunhão. “Ai dos que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça!” (Am 5)¹¹.

A Terra Prometida não é herança de quem a domina pela força, mas de quem caminha com humildade, compartilha o pão, respeita o estrangeiro e não oprime o fraco. Entre a terra prometida e a terra ferida, que a humanidade possa reencontrar a memória do sagrado: não aquela que abençoa impérios, mas a que ouve o clamor do oprimido e faz brotar a justiça como rio caudaloso.

Notas

[^1]: BIBLIA. Gênesis 12,1-3; 15,18. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^2]: DEUTERONÔMIO 8,11-20. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^3]: BIBLIA. Josué 6-8. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^4]: FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. New York: Free Press, 2001.

[^5]: BIBLIA. Josué 23,12-16. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^6]: BIBLIA. Isaías 29,13. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^7]: BIBLIA. Gênesis 16 e 21. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^8]: BIBLIA. Gênesis 21,13.18. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^9]: BIBLIA. Gênesis 33. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^10]: BIBLIA. Amós 5. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^11]: BIBLIA. Amós 5,7. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.


domingo, 15 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,38-42

 “Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, vos digo: não enfrenteis quem é malvado; ao contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a outra.” 

(Mateus 5,38-39)








Para refletirmos sobre Mateus 5,38-42, é interessante recordar que este ensinamento de Jesus ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja. A passagem em que o Mestre convida seus discípulos a romperem a lógica da vingança  “não resistais ao malvado” e “oferece a outra face” é proclamada regularmente tanto na liturgia diária quanto na liturgia dominical. No ciclo anual, ela é lida na Segunda-feira da 11ª Semana do Tempo Comum; já no ciclo dominical, aparece inserida na leitura mais ampla de Mateus 5,38-48, proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano A. A mesma mensagem ecoa no Evangelho de Lucas, dentro do Sermão da Planície (Lc 6,27-38), sendo proclamada na Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum e também no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano C.

Essa repetida presença no calendário litúrgico revela a importância que a Igreja atribui a este ensinamento. Longe de ser uma proposta de passividade diante da injustiça, Jesus apresenta um caminho de resistência ativa que rompe o ciclo da violência e da revanche. Em uma sociedade marcada pelo princípio do “olho por olho e dente por dente”, o Reino de Deus inaugura uma nova lógica, fundada na misericórdia, na dignidade humana e na força transformadora do amor. Ao ouvirmos essas palavras, somos convidados a examinar nossas relações, nossas reações diante das ofensas e nossa disposição de construir uma convivência marcada não pela retaliação, maspela reconciliação e pela justiça que nasce do amor.Jesus, ao dizer essas palavras no Sermão da Montanha, está rompendo com uma lógica jurídica que já atravessava séculos. A chamada Lex Talionis, “olho por olho, dente por dente”  não nasce originalmente da tradição hebraica revelada, mas sim da civilização mesopotâmica, mais precisamente do Código de Hamurábi, redigido por volta de 1750 a.C. Esse código, um dos mais antigos conjuntos de leis escritos, expressava uma visão de justiça baseada na equivalência da punição. O artigo 196 dizia com clareza: “Se um homem destruir o olho de outro homem, destruir-se-á o seu olho.” Esse princípio seria posteriormente incorporado à legislação mosaica, como vemos em Êxodo 21,24  “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”  e também em Levítico 24,20 e Deuteronômio 19,21. A intenção original dessas passagens não era estimular a violência, mas conter a vingança desproporcional, tão comum nas culturas tribais da Antiguidade. Era, de certo modo, um avanço civilizatório. No entanto, mesmo esse avanço já revelava suas falhas: a justiça, ainda que escrita, não era cega  ela via a classe social do acusado e da vítima. Prova disso é que, no próprio Código de Hamurábi, a aplicação da pena variava conforme a classe da pessoa envolvida. Se um homem nobre causasse um dano a outro nobre, sofreria a pena conforme a regra. Mas se causasse o mesmo dano a um pobre, bastava pagar uma indenização. Se fosse o pobre a ofender o rico, era punido com toda severidade. A desigualdade não era exceção, mas parte da estrutura legal. Assim como hoje, o peso da lei recaía sobre os ombros dos pequenos, enquanto os poderosos, com posses e influência, escapavam por frestas abertas pelas próprias regras. A lei existia, mas a justiça, não para todos..

É neste contexto que a palavra de Jesus se torna escandalosa. Quando ele diz “Eu, porém, vos digo...”, não está apenas reinterpretando a lei; está fundando uma nova ordem ética, a partir do Reino de Deus. A proposta de Cristo é profundamente subversiva: interromper o ciclo da violência, não por resignação, mas por uma resistência ativa e profética, que desarma o agressor sem assumir sua lógica. Oferecer a outra face, caminhar a segunda milha, dar a túnica, são gestos que desestabilizam o opressor, pois negam a ele a reciprocidade da violência e o forçam a confrontar a própria injustiça, revelando sua crueldade, mas sem que o oprimido perca sua dignidade. Jesus não propõe submissão, mas liberdade interior. Ele não está dizendo “aceite tudo”, mas: não se torne aquilo que você combate. O apóstolo Paulo, inspirado nesta ética do Reino, vai reforçar essa mesma espiritualidade: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12,21). E antes disso, já havia afirmado: “A ninguém pagueis o mal com o mal... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos” (Romanos 12,17-18). Paulo reconhece a dificuldade, mas aponta o caminho..Ao longo da história, cristãos e não cristãos que acolheram o espírito dessa mensagem mudaram o mundo:
  •  Gandhi, profundamente inspirado pelo Sermão da Montanha, afirmou: “Se todos os livros sagrados se perdessem, mas restasse o Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” Sua luta contra o Império Britânico não se fez com armas, mas com jejum, resistência civil e dignidade. Gandhi foi um hindu que compreendeu  e viveu  melhor que muitos cristãos batizados o que significa “dar a outra face”.
  • Nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr., pastor batista e teólogo, levou adiante essa ética em sua luta contra o racismo. Marchou, pregou, foi preso e ameaçado  e nunca revidou com ódio. Dizia: “A escuridão não pode expulsar a escuridão; só a luz pode. O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode.” Sua fidelidade ao Evangelho não era ingênua: era politicamente eficaz. Sua fé mudou leis e consciências. Ele viveu o Evangelho como cruz, e por isso foi martirizado como Cristo. 
  • No Brasil, Dom Helder Câmara resistiu à ditadura com o Evangelho como escudo. Nunca incitou à violência, mas denunciou o sistema opressor. Dizia: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Sua opção pelos pobres não era ideológica, mas evangélica. Caminhava com os humildes, sem medo dos poderosos.
  • Dorothy Stang, religiosa assassinada no Pará por defender os camponeses e a floresta, lia as bem-aventuranças momentos antes de ser morta. Foi fiel até o fim. A irmã Dorothy mostrou que a não violência não é passividade: é fidelidade escandalosa ao Cristo dos pobres. 
  • Oscar Romero, arcebispo mártir de El Salvador, foi assassinado enquanto celebrava a Missa. Denunciava os crimes da elite e do Estado. Nunca pregou o ódio, mas a justiça do Reino. Sua morte revelou que o Evangelho, quando vivido com radicalidade, se torna intolerável para os senhores deste mundo..
A lógica do “olho por olho” ainda vive, infelizmente, nos sistemas penais e nas ideologias de morte. A pena de morte, por exemplo, ainda é aplicada em muitos países  entre eles, regimes islâmicos com interpretação radical da Sharia, e também Estados dos EUA sob forte influência da extrema direita cristã. Nesses contextos, a punição é irreversível, mesmo quando se descobre depois que o acusado era inocente. Uma justiça sem misericórdia se torna uma máquina de matar.

Hoje, vemos com preocupação como certas lideranças religiosas inclusive cristãs defendem armamentismo, extermínio de “bandidos”, e clamam por penas duríssimas em nome de Deus. Transformam a cruz em fuzil, o púlpito em palanque ideológico. Essa religião punitivista nega o Cristo que morreu perdoando seus algozes, e rebaixa a fé à ideologia..Jesus nos oferece outra estrada: a do perdão, da reconciliação e da justiça restaurativa. Ele não veio revogar a Lei, mas levá-la à plenitude (cf. Mt 5,17). E a plenitude da Lei é o amor (cf. Rm 13,10). Ele não nos convida à neutralidade, mas a uma militância que resiste sem matar, que enfrenta o mal sem repetir sua lógica. Essa ética do Reino exige uma conversão do coração e das estruturas. É preciso abandonar o desejo de vingança e buscar a justiça que repara e liberta.

Como disse Jesus, “se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5,20). A justiça do Reino não é medida por leis, mas por misericórdia. E a misericórdia verdadeira não ignora o mal, mas o transforma..A espiritualidade que brota do Sermão da Montanha não é alienada, mas revolucionária. Não se trata de sofrer calado, mas de resistir com amor. O mundo não será salvo pela espada, mas pela cruz. Como afirmou o profeta Isaías, descrevendo o Servo Sofredor: “Maltratado, humilhou-se, e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro” (Isaías 53,7). Foi assim que o mal foi vencido  não com mais violência, mas com entrega.

Essa mesma profecia messiânica já havia sido anunciada em Isaías 2,4, quando o profeta vislumbra o dia em que Deus julgará com justiça entre as nações, e então “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices. Uma nação não levantará espada contra outra, e não se aprenderá mais a fazer guerra.” Aqui, Isaías nos apresenta o projeto de Deus: a superação da lógica bélica, do castigo, da punição e da morte, substituída por um mundo onde as ferramentas da guerra são convertidas em instrumentos de cultivo, paz e vida.

Essa visão de Isaías é a mesma que se realiza em Jesus: o Cristo não pegou em armas, mas tomou a cruz. Ele não feriu ninguém, mas foi ferido por todos. Seu caminho não destrói o inimigo, mas oferece redenção até ao que o trai. Ao transformar a espada em arado, Jesus nos convida a trocar a lógica da vingança pela da fecundidade, a construir pontes no lugar de muros, a semear justiça no lugar da violência.

E é por esse caminho que a Igreja deve andar: desarmada, fiel, compassiva. Não se trata de ser fraco, mas de ser forte o suficiente para não precisar revidar. A verdadeira força do Evangelho está na capacidade de perdoar, amar os inimigos e romper o ciclo do ódio. Por isso, hoje e sempre, Jesus nos diz: “Eu, porém, vos digo...”, convidando-nos a escolher, a cada dia, o caminho da vida sobre a lógica da morte.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 10 de junho de 2025

Um breve olhar sobte Mateus 10, 7-13

 

“Ide e proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar.” (Mt 10,7-8)

O texto de Mateus 10,7-13, que meditamos na Memória de São Barnabé, celebrada em 11 de junho, e que também retorna em outros momentos do Ano Litúrgico, como no Sábado da 10ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos núcleos mais profundos da espiritualidade missionária cristã. Jesus dirige aos discípulos uma ordem clara e urgente:

“Anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Dai de graça o que de graça recebestes.”

Não se trata apenas de uma recomendação para um grupo específico de discípulos do primeiro século, mas de um chamado permanente que atravessa os tempos e alcança toda a Igreja. Para compreender melhor a riqueza desse ensinamento, é importante olhar também para os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6, nos quais encontramos o mesmo envio missionário sob diferentes perspectivas. A Igreja, ao nos permitir revisitar esses textos em diversas ocasiões, recorda-nos que a missão não é um acontecimento isolado, mas uma dimensão constitutiva da vida cristã.

Observemos:

  • Em Marcos, Jesus envia os Doze dois a dois, conferindo-lhes autoridade sobre os espíritos impuros e ensinando-os a confiar radicalmente em Deus.
  • Em Lucas, a ênfase recai sobre o anúncio do Reino e o cuidado dos enfermos, mostrando que a evangelização não se reduz a palavras, mas se manifesta em gestos concretos de libertação, cura e restauração da dignidade humana.

Ao reunir os testemunhos de Mateus, Marcos e Lucas, a Igreja nos recorda que a missão permanece sempre atual. Jesus continua enviando seus discípulos para anunciar a proximidade do Reino em um mundo marcado por desigualdades, exclusões, individualismos e falsas seguranças. O verdadeiro operário da colheita é aquele que caminha com simplicidade, vive da confiança em Deus, promove a paz, cuida dos mais frágeis e testemunha, por palavras e ações, que o Reino dos Céus já começou a florescer entre nós. É importante recordar que, em Mateus, a expressão “Reino dos Céus” corresponde ao que Marcos e Lucas chamam de “Reino de Deus”. Trata-se de uma forma judaica reverente de evitar pronunciar diretamente o nome divino. Assim, quando Jesus anuncia a proximidade do Reino dos Céus, proclama a presença ativa e transformadora de Deus na história humana.

Em Mateus 10,7-13, observamos um envio missionário que espelha o total desprendimento dos discípulos em relação a tudo aquilo que as estruturas mundanas consideram indispensável. Este envio não é uma simples instrução sobre técnicas de pregação, mas uma orientação profundamente profética que questiona as lógicas de poder, acumulação e dominação. O Reino dos Céus que se aproxima não é uma promessa de evasão da realidade nem um acontecimento reservado para um futuro distante. É uma realidade que começa a se manifestar já no presente, onde a vida vence a morte, a misericórdia supera a exclusão e a esperança se impõe sobre o desespero.

Por isso, a missão transcende o mero anúncio verbal. Ela se concretiza em ações que restauram pessoas e comunidades. Em paralelo com Marcos 6,12-13, vemos que os discípulos não apenas pregavam a conversão, mas também expulsavam demônios e curavam enfermos, ungindo-os com óleo. Na linguagem bíblica, esses gestos representam mais do que milagres isolados. Revelam a ação libertadora de Deus contra todas as forças que escravizam o ser humano. Curar os doentes e expulsar os demônios significa confrontar tudo aquilo que produz sofrimento, exclusão, alienação e morte. O Reino anunciado por Jesus toca os corpos feridos, as consciências oprimidas e as relações sociais rompidas. A expressão “o Reino dos Céus está próximo” não significa apenas que algo está para acontecer. Em Mateus, a proximidade do Reino indica a presença ativa de Deus na história através da pessoa e da missão de Jesus. O Reino se torna visível quando os pobres recuperam sua dignidade, quando os marginalizados são acolhidos, quando a justiça floresce e quando a paz substitui a violência. Evangelizar, portanto, não consiste apenas em transmitir doutrinas, mas em tornar presente a ação transformadora de Deus no mundo.

O envio dos apóstolos também sublinha a dependência absoluta da providência divina. Jesus ordena que não levem ouro, prata ou cobre, nem acumulem recursos para garantir a própria segurança. Essa orientação possui uma dimensão espiritual profunda e, ao mesmo tempo, uma crítica contundente à lógica da autossuficiência e da acumulação. O discípulo é chamado a confiar em Deus e a reconhecer que sua missão não depende do poder econômico, do prestígio social ou da influência política.

Essa palavra adquire especial relevância em um contexto no qual a fé, por vezes, é reduzida a instrumento de ascensão econômica ou sucesso individual. A proposta de Jesus segue caminho oposto. O Reino de Deus não é mercadoria. Não pode ser comprado, vendido ou manipulado para benefício próprio.nA ordem “dai de graça o que de graça recebestes” denuncia toda tentativa de transformar a experiência religiosa em negócio, privilégio ou instrumento de poder. O Evangelho é dom antes de ser tarefa. Quem recebeu gratuitamente a misericórdia de Deus é chamado a compartilhá-la gratuitamente.

A confiança radical na providência divina encontra eco nas palavras de Jesus em Mateus 6,25-34, quando ele convida seus discípulos a não viverem dominados pela ansiedade em relação ao alimento, à roupa ou às necessidades materiais. O Pai conhece aquilo de que seus filhos precisam. Da mesma forma, Lucas 10,4 reforça essa lógica missionária ao ordenar: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Em ambos os textos, a mensagem é clara: a missão não nasce da segurança dos bens acumulados, mas da confiança naquele que conduz a história. 

A confiança na providência divina não conduz os discípulos ao isolamento nem à indiferença diante da realidade. Pelo contrário, abre-os ao encontro com as pessoas e com as comunidades que encontrarão pelo caminho. Por isso, Jesus ordena que, ao entrarem numa casa, ofereçam a sua paz. Essa saudação não constitui um simples gesto de cortesia ou um cumprimento convencional. Trata-se da comunicação de um dom que procede do próprio Deus e que exige acolhida. A paz anunciada pelos discípulos é a paz do Reino, uma paz que restaura relações, reconcilia pessoas e inaugura novas formas de convivência.

Quando Jesus afirma que, caso a casa seja digna, a paz repousará sobre ela, mas, se não for acolhida, retornará aos discípulos, revela que o Reino jamais se impõe pela força. Deus respeita a liberdade humana. A paz oferecida torna-se, assim, um sinal que interpela consciências e desafia cada pessoa a posicionar-se diante da Boa Nova. Essa compreensão encontra eco nas palavras de Jesus em João 14,27: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”. A paz cristã não é mera ausência de conflitos nem simples tranquilidade individual. É fruto da justiça, da reconciliação e da restauração da dignidade humana. Ela floresce onde existe abertura para ouvir a Palavra e acolher o Reino como dom de Deus.

Nesse sentido, a hospitalidade ultrapassa os limites de um costume cultural. Ela torna-se elemento fundamental da missão. A acolhida do mensageiro representa a acolhida da própria mensagem, enquanto a rejeição manifesta resistência ao projeto libertador de Deus. Ao longo da história bíblica, os profetas experimentaram essa realidade. Muitos foram perseguidos exatamente porque denunciaram sistemas de opressão e injustiça. As palavras de Jesus sobre Jerusalém em Mateus 23,37 recordam essa dramática resistência ao chamado divino.

Por essa razão, a evangelização autêntica não pode ser reduzida a um discurso espiritual desvinculado da realidade concreta. O anúncio do Reino possui implicações sociais, econômicas e humanas. A missão que nasce do Evangelho busca restaurar a vida onde ela foi ferida, devolver esperança aos desanimados, dignidade aos excluídos e voz aos silenciados. Contudo, o Evangelho une inseparavelmente:  a conversão pessoal e a transformação das estruturas injustas. Uma sem a outra torna-se incompleta. O Reino de Deus transforma corações e, por meio deles, transforma também as relações sociais.

Nessa perspectiva, diversos teólogos da América Latina, entre eles Gustavo Gutiérrez, insistiram que a missão cristã possui uma dimensão libertadora inseparável do compromisso com os pobres e com a justiça. Essa compreensão também nos leva a uma necessária crítica ao clericalismo e às formas de religião que se distanciam do Evangelho. Sempre que a fé é utilizada como instrumento de dominação, acumulação de privilégios ou manutenção de poderes, contradiz-se o caminho indicado por Jesus.

O envio dos discípulos sem ouro, prata ou recursos acumulados revela que a força da missão não reside no prestígio institucional, mas na fidelidade ao Reino. A Igreja existe para servir, não para dominar; para anunciar a Boa Nova, não para preservar privilégios. Essa crítica não é nova. O próprio Jesus denunciou com firmeza uma religiosidade reduzida a aparências externas, quando afirmou: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8-9). E retomando o profeta Oséias, declarou: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7).

A verdadeira espiritualidade não se limita a ritos ou discursos. Ela se expressa em práticas concretas de misericórdia, acolhimento, partilha e compromisso com a vida. É uma espiritualidade encarnada na história, capaz de reconhecer a presença de Deus nos pobres, nos sofredores e nos marginalizados..Hoje, o testemunho de São Barnabé torna-se particularmente significativo. Conhecido como “filho da consolação”, Barnabé destacou-se por sua capacidade de acolher, reconciliar e construir pontes. Foi ele quem acreditou em Paulo quando muitos ainda o viam com desconfiança.

Além disso, Atos 4,36-37 nos informa que Barnabé vendeu um campo que possuía e entregou o valor aos apóstolos para o serviço da comunidade. Sua vida torna-se um exemplo concreto do desprendimento, da confiança e da partilha que Jesus propõe em Mateus 10..Sua trajetória demonstra que a missão cristã não consiste em erguer muros, mas em criar comunhão; não em excluir, mas em integrar; não em buscar prestígio, mas em servir. Barnabé soube reconhecer a ação de Deus onde outros enxergavam apenas ameaça ou fracasso.

Mateus 10,7-13 nos convida, portanto, a uma fé profundamente encarnada e comprometida com a realidade. Não se trata apenas de alimentar a esperança de uma vida futura, mas de colaborar, já agora, com a transformação das condições que negam a dignidade humana e obscurecem os sinais do Reino..Que a nossa fé jamais se acomode diante da injustiça, nem se torne cúmplice da opressão, da indiferença ou da exclusão. Que seja uma fé viva e encarnada, capaz de curar feridas, acolher os rejeitados, defender os vulneráveis e anunciar a esperança em meio às dores da história.

Que saibamos reconhecer o rosto de Cristo nos pobres, nos marginalizados, nos enfermos, nos migrantes, nos esquecidos e em todos aqueles cuja dignidade é negada pelos mecanismos de poder deste mundo..O testemunho de São Barnabé, dos profetas de Israel, dos apóstolos, dos mártires da justiça e das vozes proféticas que atravessaram os séculos recorda-nos que o Evangelho não é uma ideologia religiosa nem um instrumento de privilégio, mas uma força transformadora que irrompe na história para gerar vida, reconciliação e libertação.

O Reino de Deus torna-se visível sempre que: 

  1.  A Misericórdia vence o egoísmo, 
  2. A Partilha supera a acumulação, 
  3. A Fraternidade derrota a exclusão, 
  4.  A Verdade desmascara a mentira 
  5. A  Vida triunfa sobre todas as formas de morte.

A missão confiada por Jesus continua atual e urgente. Cada cristão é chamado a ser sinal da presença amorosa de Deus no mundo, não apenas por palavras, mas por escolhas concretas de solidariedade, justiça e serviço. Anunciar o Reino é construir pontes onde existem muros, gerar esperança onde reina o desânimo, defender a dignidade onde prevalece a humilhação e testemunhar, com a própria vida, que outro mundo é possível quando Deus ocupa o centro da existência humana.

Que, a exemplo de São Barnabé e de tantos discípulos e apóstolos de ontem e de hoje, sejamos homens e mulheres capazes de encorajar, reconciliar e servir. Que caminhemos com simplicidade, confiando na providência divina e colocando nossos dons a serviço da vida. E que, ao anunciar gratuitamente o que gratuitamente recebemos, nos tornemos colaboradores da obra de Deus, para que seu Reino de justiça, paz, fraternidade e amor continue florescendo no coração da humanidade e nas realidades concretas da história.

DNonato — Teólogo do cotidiano, discípulo do Reino em construção

domingo, 8 de junho de 2025

O Embuste das Armas e a Morte da Família no Brasil


Mais uma vez, as manchetes do Brasil trazem uma tragédia doméstica marcada por sangue, silêncio e uma arma legalizada. Em Limeira (SP), uma mulher e um bebê de apenas dois meses foram encontrados mortos ao lado do corpo do procurador municipal Rafael Horta, 40 anos. A Polícia Civil de São Paulo investiga o caso como um possível feminicídio seguido de infanticídio e suicídio. O revólver encontrado ao lado da cama — onde os corpos estavam — estava legalmente registrado no nome de Horta, que era CAC: colecionador, atirador e caçador. Se foi ele quem disparou, a perícia dirá. Mas o que já se sabe é incontornável: a arma era dele. A ideologia, também.
Agora, esposa, filho e o próprio Rafael Horta estão mortos — vítimas da mesma arma legalizada que prometia proteger. A arma era dele. O discurso, também. E o sangue, inevitável.

Não se trata de um caso isolado, nem de um “monstro” fora da curva. Trata-se de uma tragédia com raízes profundas em um projeto político e cultural que naturalizou a violência como forma de autoridade, transformou o armamento civil em símbolo de virtude e revestiu o autoritarismo de valores religiosos. Como alerta o profeta Jeremias, “Porquanto clamarão, mas não será ouvido; clamarão a mim, mas não responderei” (Jeremias 7:28). É esse grito sufocado, esse clamor ignorado, que traduz a voz das vítimas da violência institucionalizada.

Rafael Horta era um bolsonarista convicto. Defendia o armamento civil como garantia da “proteção da família”, idolatrava Sergio Moro, atacava o Supremo Tribunal Federal, chamava de “escolha” a crença na Terra plana e rejeitava o aborto no ventre — porque, segundo suas convicções, “a vida é sagrada desde a concepção”. Contudo, há fortes indícios de que compartilhava ou apoiava a ideia da pena de morte social, ou seja, a eliminação das minorias e dos vulneráveis como solução política e ideológica. Em outras palavras: a vida seria sagrada na concepção, mas, uma vez nascida, poderia ser descartada. Essa contradição expõe a face cruel e hipócrita de um projeto que mascara o extermínio como moralidade. 

A Escritura é clara ao denunciar a hipocrisia: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem da escuridão luz, e da luz, escuridão” (Isaías 5:20). Esse projeto político-cultural, que se esconde atrás de um falso moralismo, pratica essa inversão perversa. Usa a retórica da família e da fé para justificar a disseminação da morte e da opressão. É preciso dizer com clareza: essa não é apenas uma tragédia familiar. É o reflexo brutal de um modelo ideológico que legitima a posse de armas como virtude moral e a masculinidade violenta como modelo de conduta. Um modelo que foi promovido por Jair Bolsonaro — embusteiro travestido de Messias — que fez da retórica armamentista um programa de governo, das armas um fetiche e da família um campo de controle. Como o Salmo alerta: “O Senhor prova o justo, mas odeia o perverso e aquele que ama a violência” (Salmo 11:5). E é essa violência que se naturalizou na política, na cultura e nas casas brasileiras. 

O que antes poderia ser entendido como exceção tornou-se regra: a banalização da morte, o culto à força bruta e a negação da dignidade humana no íntimo do lar. O que deveria ser o espaço do cuidado tornou-se campo minado de medo e opressão. A tragédia de Limeira é mais um resultado previsível da política de morte disseminada por esse projeto. Um projeto que usou o nome de Deus, da Pátria e da Família não para proteger a vida, mas para justificar seu extermínio — especialmente o de mulheres, crianças e minorias. O discurso do “cidadão de bem armado” nunca foi sobre segurança. Sempre foi sobre poder, medo e dominação.

O apóstolo Tiago adverte: “Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males” (Tiago 3:16). E não há ambição mais perversa do que a ambição pelo controle violento, revestida de falsa justiça. Do ponto de vista sociológico, esse tipo de violência é alimentado por uma cultura que reforça a masculinidade como dominação e controle absoluto. Da psicologia, sabemos que a frustração emocional, quando armada, é destrutiva e pode explodir em tragédias irreparáveis. Da filosofia política, compreendemos que o Estado que abdica do monopólio legítimo da força abre caminho para o caos travestido de “liberdade”. E da economia, observamos o fortalecimento de uma indústria armamentista que lucra com o medo — enquanto as famílias enterram seus mortos.

Clamam contra mim, mas não há quem responda; clamam sobre a violência, mas não é libertado (Jeremias 5:28). E é esse silêncio cúmplice que permite que as balas continuem a matar. Da religião — verdadeira — só pode vir o escândalo: o nome de Deus foi usado para justificar a posse de armas, enquanto o Evangelho foi traído em cada disparo. Não há cristianismo possível na legitimação da violência doméstica, do ódio ideológico e da cultura da bala.

O próprio Jesus deixou claro que o mandamento maior é o amor, e que “quem vive pelo sangue, pelo sangue morrerá” (Mateus 26:52). Não é a força que constrói comunidades, mas o amor e a justiça. A legitimidade do poder não reside no calibre da arma, mas na capacidade de cuidar, proteger e respeitar o outro.

Se foi Horta quem apertou o gatilho, a perícia dirá. Mas quem carregou essa arma de sentido foi uma ideologia que ainda vive — e mata. Porque mesmo quando o dedo treme, a bala já foi autorizada. E o silêncio da sociedade diante dessas tragédias é cúmplice. 

Armar a população nunca foi sobre liberdade. Foi sempre sobre submissão. Sobre o controle dos corpos pela força. Sobre o retorno do patriarcalismo armado. E agora, uma mulher e uma criança estão mortos. E o nome de Deus ainda é invocado como justificativa. 

A quem interessa esse modelo? 

Quantas famílias mais terão de ser destruídas até que se reconheça que a política do ódio não é um desvio — é um projeto?

Até quando vamos chamar de valores o que é, na verdade, violência legitimada?

Que essa tragédia não seja mais uma manchete esquecida, mas o grito irrompido das famílias que clamam por justiça verdadeira. Que não nos acostumemos com a banalização da dor, nem nos calemos diante do poder que mata e silencia. Que saibamos ver, na morte de uma mulher e de uma criança, o rosto do Brasil ferido — e, sobretudo, rejeitemos o embuste que usurpa o nome de Deus para justificar o massacre. É hora de romper com essa lógica perversa, de desmontar a ideologia da violência que mascara o medo, o autoritarismo e a exclusão. É hora de recuperar o verdadeiro sentido da família, não como instrumento de controle e opressão, mas como espaço sagrado de amor, cuidado e liberdade.

Se queremos um Brasil digno, justo e em paz, precisamos urgentemente desarmar não apenas as armas, mas os corações e as mentes que alimentam o ódio e o fascínio pela morte. Porque só há futuro na cultura da vida, e essa vida começa na defesa intransigente da dignidade de cada pessoa — da criança no berço, da mulher na sua casa, do homem na sua vulnerabilidade.

O tempo do silêncio acabou. Que a justiça e a compaixão sejam as únicas armas legítimas que empunhemos. E que o verdadeiro Deus, que nos chama a amar até o fim, seja nossa luz e nosso escudo.

Como nos exorta a Escritura:

“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.” (Romanos 12:10)

Que este seja o fundamento de nossa resistência à violência e o caminho para reconstruirmos um Brasil onde a vida seja sagrada em todas as suas formas.

Prof. DNonato - Teólogo do cotidiano.


sábado, 24 de maio de 2025

Um outro olhar sobre João 14,23-29

  •  A Paz Inquieta do Ressuscitado: Um Chamado Profético 

Em 2022  fizemos  o texto um  olhar  sobre  o texto de João 14,23-29  e uma  reflexão   em nosso canal e  hoje  voltamos ao  texto.    Recordamos que    6º Domingo da Páscoa  tem a seguinte liturgia:  
  • 1ª leitura:   Atos dos Apóstolos 15,1-2.22-29;  
  • Salmo 66(67),2-3.5.6 e 8 (R. 4); 
  • 2ª leitura: Apocalipse de São João  21,10-14.22-23  
  • Evangelho João 14,23-29

"Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz" (Jo 14,27)  que nos  ajuda a pensar, que paz é essa que Jesus nos oferece?

Certamente não é a Pax Romana, imposta pela força das espadas, sustentada por muros de exclusão e pela opressão dos povos. Não é o silêncio dos cemitérios, nem a estabilidade ilusória que nasce da injustiça e da conformidade. A paz de Cristo é o shalom bíblico: uma plenitude relacional que abarca a reconciliação integral entre Deus, a humanidade e toda a criação (cf. Is 32,17; Sl 85,10-13). É uma justiça restaurativa que não se contenta com a ausência de conflito, mas clama por dignidade onde a morte quis fazer morada.

O Cristo Ressuscitado, nos domingos anteriores, aparece aos discípulos desejando a paz: no primeiro dia da semana, ao entardecer, com as portas fechadas por medo (Jo 20,19); depois a Tomé, que duvida e precisa tocar as feridas (Jo 20,26); e aos caminhantes de Emaús, que, desiludidos, partem rumo à fuga (Lc 24,13-35). Em todas essas manifestações, a paz anunciada não é calmaria conformista, mas alento para os que caminham na noite escura da história. Essa paz ressuscitada é dom e missão, consolo e envio, presença e incômodo. O Ressuscitado não anestesia consciências; ele as desperta com o sopro do Espírito.

Como nos lembra o profeta Isaías, o Messias é o "Príncipe da Paz" (Is 9,6), e seu reinado será de "paz sem fim" (Is 9,7), fundamentado na justiça e no direito. Não se trata, portanto, de uma emoção confortável, mas de uma vocação profética que nos impulsiona à ação. É a paz de Jeremias (Jr 6,14), que denuncia os falsos profetas que “tratam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: ‘Paz! Paz!’, quando não há paz.”

O contexto joanino, marcado por perseguições externas, cisões internas, medo e desorientação na comunidade cristã primitiva, encontra eco perturbador em nossa própria realidade contemporânea. A Palavra de Deus ressoa hoje em uma sociedade fraturada pela desigualdade estrutural, corroída por ideologias de exclusão e ódio, e frequentemente capturada por uma extrema direita fundamentalista que manipula símbolos religiosos para sustentar projetos de poder, violência simbólica e dominação

Estamos diante de um fenômeno perigoso: a transformação do cristianismo em ideologia política, associando a fé ao controle moral, ao autoritarismo e à intolerância. Essa captura da fé pela lógica do mercado e do militarismo reatualiza o farisaísmo denunciado por Jesus (cf. Mt 23), que impõe fardos pesados sem mover um dedo para ajudar. Não se pode servir a Deus e ao poder (cf. Mt 6,24). Jesus promete o envio do Paráclito – o Defensor, o Consolador, o Espírito da Verdade (Jo 14,26). Este não é um espírito dócil à ordem vigente, que se acomoda às injustiças ou abençoa o status quo. Pelo contrário, é um sopro transformador que desinstala, que incomoda, que convoca à missão e à denúncia. Como em Pentecostes, Ele nos empurra para fora dos espaços de medo (At 2), para anunciar com ousadia o Reino. A antropologia bíblica entende shalom como bem-estar coletivo, harmonia social e comunhão plena entre Criador, criatura e criação. É uma paz com nome e endereço: paz no campo espoliado, na favela marginalizada, no quilombo ameaçado, no corpo ferido das vítimas da fome, da negligência e da violência. É a paz que se manifesta na "justiça que corre como um rio e a retidão como um ribeiro perene" (Am 5,24).

A filosofia política crítica, de inspiração kantiana e pós-marxista, também nos ajuda a compreender que a paz verdadeira é fruto de estruturas justas, não apenas de boa vontade individual. Paulo Freire afirmava que “a paz é fruto da justiça e não da acomodação”. Hannah Arendt denunciava os perigos do totalitarismo e da banalização do mal, sempre que a cidadania se cala diante da violência institucionalizada.

Este ano marca os 10 anos da encíclica Laudato Si’, um grito profético do Papa Francisco que denunciou o colapso ambiental como sintoma evidente de um colapso espiritual e ético. A paz verdadeira não será possível enquanto continuarmos a destruir os ecossistemas e a descartar vidas humanas como lixo. A justiça climática é inseparável da justiça social.

Neste horizonte de esperança e desafio, ressoa a homilia de início do pontificado do Papa Leão XIV, o cardeal Robert Francis Prevost, que no último 18 de maio assumiu o ministério petrino. Suas palavras ecoam como continuidade encarnada do Evangelho pascal: “Esta é a hora do amor! Olhem para Cristo e aproximem-se Dele. A paz cristã é caminho de solidariedade entre os povos e reconciliação com a terra ferida.”

Ao evocar o amor como bússola da paz, Leão XIV denuncia com elegância, mas com firmeza, os sistemas que promovem o medo do diferente e erguem os muros do preconceito. Sua fala não é neutra; é profundamente comprometida com a causa do Reino. Ele fala de uma Igreja que não se curva à extrema direita que, em diversas partes do mundo, tenta transformar o cristianismo em ideologia de dominação, pureza étnico-moral e exclusão. Leão XIV recusa também os vícios do clericalismo e da autorreferencialidade eclesiástica, quando lembra que o Papa é antes de tudo “irmão e servo da fé”, e não gestor de dogmas ou senhor de palácios. Seu gesto simbólico de não se instalar nos aposentos pontifícios tradicionais é um sinal de uma Igreja que deseja descer dos tronos e subir ao calvário dos povos.

A teologia da paz, que perpassa os profetas do Antigo Testamento até o Apocalipse, exige uma conversão estrutural e um compromisso radical com a justiça. A Nova Jerusalém descrita por João (Ap 21,10-14.22-23) não é uma miragem celestial distante, mas uma proposta política e espiritual para o aqui e agora. Ela surge onde a justiça floresce, onde os portões se abrem à diversidade e à acolhida, onde não há templo porque Deus habita diretamente no povo (cf. Ap 21,3), em cada pessoa e em cada relação fraterna. Mas, para que ela emerja, é preciso denunciar e derrubar as Babilônias modernas: os sistemas financeiros desumanos que geram miséria, os altares do consumo desenfreado que destroem a criação, os púlpitos do moralismo excludente que condenam em vez de acolher. Como alertava o teólogo alemão Johann Baptist Metz, a fé cristã deve manter viva a “memória perigosa” do Crucificado, que questiona todos os poderes estabelecidos.

Dizia Dom Pedro Casaldáliga, profeta latino-americano da esperança encarnada e da luta pela libertação: “A paz que o mundo promete é a paz do cemitério. A paz que Jesus nos dá é a paz da luta, da entrega, do amor que não recua.” Essa é a paz que perturba os acomodados e consola os crucificados. Não é tolerância passiva diante da injustiça, mas resistência amorosa e ativa que se manifesta em gestos concretos de solidariedade.

Jesus nos chama à fidelidade que se faz morada de Deus. E essa fidelidade não se mede por discursos vazios ou por uma fé meramente intelectual, mas por gestos concretos de amor e serviço (cf. Mt 25,31-46). Somos templos do Espírito Santo (1Cor 6,19), e esse Espírito nos envia aos caminhos da vida, não às vitrines da ostentação religiosa. Ele clama contra uma espiritualidade de aparência, que mascara a ausência de compaixão com reverências estéreis e liturgias vazias (cf. Is 1,11-17).

Como diz o Papa Francisco na Evangelii Gaudium: “Não podemos viver numa eterna sexta-feira santa.” A ressurreição não é apenas um consolo para a dor, mas uma rebelião contra toda forma de morte que assola a humanidade e a criação. Cada gesto de solidariedade, cada ato de partilha, cada denúncia profética contra a injustiça é Páscoa. Cada justiça conquistada é uma pedra removida do túmulo da história.

Neste último domingo da Páscoa, invoquemos com ousadia e fé:

Vem, Espírito da Verdade! Sopra sobre os desertos do nosso tempo: sobre a Igreja que teme a profecia e se apega ao poder, sobre os governos que oprimem os pobres e desconsideram a vida, sobre os povos que se esquecem de sonhar e de lutar por um mundo mais justo. Faz de nós morada do Ressuscitado, santuário do amor revolucionário, fermento de um mundo novo, onde a vida plena seja para todos. Arranca de nossas mãos os ídolos do comodismo e da indiferença, rasga as liturgias vazias de sentido e de compromisso, purifica os altares da conveniência e da hipocrisia. Não queremos uma paz de fachada, que silencia as vítimas e abençoa a injustiça, mas o shalom que transforma a história, que incomoda e que liberta.

Queremos amar com gestos concretos, viver com os pés na terra ferida e os olhos fixos no Reino que vem, construindo-o dia a dia. Ensina-nos a guardar a Palavra de Jesus: não como doutrina decorada e estéril, mas como caminho de justiça, ternura, compaixão e partilha.

E que um dia, entre lágrimas enxugadas e feridas curadas, possamos reconhecer a Nova Jerusalém nascendo entre nós, em cada ato de amor que transforma o mundo.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano e um sonhador da Paz.