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domingo, 6 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,18-26

Nesta Segunda-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, o Evangelho de Mateus 9,18-26 — cujos mesmos acontecimentos também são narrados em Marcos 5,21-43 sendo proclamados ainda na terça-feira da 4ª Semana do Tempo Comum (Ano Par) e no 13º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e Lucas 8,40-56,  nos conduz a uma das páginas mais belas e comoventes do Evangelho. Nela, Jesus se deixa interromper por duas realidades de sofrimento profundamente humanas e, ao mesmo tempo, abertas à ação transformadora de Deus: a dor pública de um pai que acaba de perder sua filha e a dor silenciosa de uma mulher que, havia doze anos, carregava no corpo e na alma o peso da enfermidade, da exclusão social e da impureza ritual. Duas pessoas completamente diferentes — um chefe da sinagoga, respeitado pela sociedade, e uma mulher anônima, marginalizada pela religião e pela cultura de seu tempo  aproximam-se de Jesus movidas pela mesma esperança. Ambos rompem convenções sociais, religiosas e culturais para encontrá-Lo. Mateus, ao relatar esse episódio de forma mais concisa do que Marcos e Lucas, concentra a atenção na força da fé e na compaixão de Jesus, revelando que, diante d'Ele, não existem privilégios nem exclusões: a fé abre caminho para a vida, e a misericórdia de Deus alcança tanto os que sofrem à vista de todos quanto aqueles cuja dor permanece escondida.

Ambos os personagens se arriscam. O chefe da sinagoga, provavelmente alguém respeitado dentro da instituição religiosa, se curva diante de Jesus, reconhecendo que mesmo a morte pode ser vencida por Ele. A mulher, marcada por doze anos de fluxo de sangue uma condição que, à luz da Lei (cf. Lv 15,25-27), a tornava impura e excluída do convívio social e religioso —, decide romper o silêncio que lhe era imposto. Ela toca o manto de Jesus por trás, pois tocar um homem, ainda mais um mestre, seria considerado escandaloso. Contudo, é nesse gesto clandestino que Jesus revela o rosto do Deus que não apenas permite ser tocado, mas que reconhece e valoriza a fé de quem o procura com sinceridade.

Jesus não só cura. Ele vê. Ele se volta. Ele dá palavra a quem a sociedade silenciava. Ele diz: “Coragem, filha!”  chamando de “filha” uma mulher até então considerada impura. Este não é apenas um gesto de afeto, mas uma ruptura com toda uma estrutura patriarcal e religiosa que desumanizava. Nesse gesto, Jesus desmantela não apenas uma enfermidade, mas toda uma ideologia de exclusão. A fé não é um ato religioso intimista, mas um movimento de libertação. Fé é atravessar barreiras, é acreditar que o toque do Cristo é mais forte que as normas de pureza, que o medo, que a morte. Fé é insurgência amorosa contra as estruturas que matam. A mulher e o chefe da sinagoga são modelos de fé que se arriscam e, por isso, encontram vida.

Neste episódio, Jesus é o oposto do sistema religioso que se distancia do sofrimento humano em nome de uma santidade estéril. Diferente de uma religião que impõe pesos sem tocar a dor do povo (cf. Mt 23,4), Jesus se deixa tocar, se faz acessível, se compadece. A religião institucional especialmente quando controlada por castas clericais, fundamentalistas ou por interesses políticos  tende a transformar o sagrado em controle e o culto em espetáculo. Mas Jesus, o Filho do Homem, desvia-se dos caminhos do poder e das elites religiosas para encontrar-se com os pobres, as mulheres, os excluídos, os que choram. E neles, revela a presença viva de Deus.

A mulher anônima do Evangelho, silenciada pela religião e pela cultura de seu tempo, torna-se símbolo das muitas mulheres que, ao longo da história da Igreja, foram mantidas à margem dos espaços de decisão, mesmo sendo a espinha dorsal da vida eclesial nas comunidades, nas famílias e na missão. No entanto, o gesto de Jesus que rompe com essa exclusão ecoa hoje nos processos sinodais impulsionados pelo saudoso Papa Francisco, que abriu caminhos concretos para uma Igreja mais inclusiva, participativa e sensível à voz das mulheres. Ele nos alertava com clareza: “Não podemos continuar a manter as mulheres à margem da vida da Igreja” (Evangelii Gaudium, 103). O Documento de Aparecida já reconhecia que “é hora de a mulher ser mais valorizada na sua dignidade e nos seus dons” (DAp, 451). No caminho do Sínodo sobre a Sinodalidade, que marcou profundamente a Igreja do século XXI, ouvimos repetidamente o clamor de que as mulheres sejam não apenas colaboradoras, mas co-partícipes na tomada de decisões, nos ministérios instituídos e na reflexão teológica. A sinodalidade, como escuta mútua e discernimento comunitário, tem reconhecido a urgência de integrar plenamente a experiência, a espiritualidade e a liderança das mulheres nos processos eclesiais. Embora os avanços ainda encontrem resistências por parte de setores clericalistas e tradicionalistas que insistem em manter estruturas hierárquicas rígidas e masculinizadas, é inegável que o Espírito continua a soprar, convidando-nos a romper com modelos de Igreja patriarcal e a construir comunidades onde as mulheres não sejam apenas acolhidas, mas reconhecidas como protagonistas do Reino — à imagem daquela mulher do Evangelho que, pela fé e ousadia, tocou o manto de Jesus e antecipou, com seu gesto, o novo modo de ser Igreja que hoje queremos viver.

A pedagogia de Jesus nos ensina a escutar os clamores que muitas vezes não são ditos com palavras. A mulher do Evangelho representa as muitas mulheres de ontem e de hoje silenciadas, patologizadas, invisibilizadas. Seja pela religião que as cala, pela política que as ignora, pela sociedade que as julga, ou pela psicologia que, às vezes, as reduz a sintomas. Jesus, ao vê-la, reconhece a dignidade roubada e restitui sua voz. Este é um caminho pedagógico: ver, escutar, reconhecer e devolver a palavra ao oprimido.

Não podemos ignorar o simbolismo do número doze presente nos dois casos: a menina de doze anos, a mulher que sofria há doze anos. O número doze, que na tradição judaica remete às doze tribos de Israel, representa o povo inteiro. É como se Mateus quisesse dizer: todo o povo precisa ser tocado, curado, ressuscitado. A menina morta e a mulher sangrando são símbolos de uma sociedade adoecida — e Jesus é aquele que vem para restaurar integralmente, no corpo e na alma, no indivíduo e na coletividade. 

Mas há ainda um entrelaçamento mais profundo: enquanto a menina vivia seus doze primeiros anos, tempo que no judaísmo marca a passagem para a responsabilidade religiosa (a bat mitzvah) a mulher passava os mesmos doze anos sofrendo. Uma começa sua adolescência, outra vive uma adolescência perdida. Uma representa o futuro, outra, o passado ferido. Uma estava morrendo no corpo, a outra, morrendo na alma. Ambas, no entanto, são visitadas pela mesma graça. Jesus é o ponto de encontro entre essas duas histórias que o sistema social e religioso manteria separadas: uma filha de um líder da sinagoga e uma mulher impura e anônima. O Reino de Deus, portanto, começa a se manifestar quando o tempo da dor se cruza com o tempo da promessa. Quando Jesus é tocado, o tempo cronológico (kronos) é interrompido e o tempo de Deus (kairós) se instala: o tempo da mulher que sofria chega ao fim; o tempo da menina que mal havia começado é restituído.

Esse encontro entre duas gerações femininas também nos interpela a pensar nos ciclos de exclusão vividos pelas mulheres em nossos dias.

  •  Quantas adolescentes hoje têm sua infância interrompida por abusos, desigualdades e opressões? 
  • Quantas mulheres adultas carregam por anos feridas físicas, emocionais e espirituais causadas por um sistema que as silencia, seja na Igreja, na política ou dentro de casa? 

A pedagogia do Reino encarnada por Jesus vem para estancar esses sangramentos e ressuscitar aquilo que foi dado como morto. Ressignifica o tempo, redime a história, reconstrói a dignidade. 

Os  doze anos marcam períodos de transição, de formação da identidade, de sofrimento acumulado. Doze anos de dor não são apenas uma estatística: são memórias, traumas, abandono. Já os doze anos da menina falam do limiar da juventude, do potencial interrompido. Sociologicamente, podemos ler esse cruzamento como denúncia de uma cultura que marginaliza mulheres em todas as fases da vida: na juventude, com hipersexualização ou desvalorização; na idade adulta, com apagamento e exploração. A menina e a mulher, portanto, não são apenas personagens do passado: elas são rostos do presente. E a resposta de Jesus  que se deixa tocar por uma, e toma pela mão a outra  revela uma nova forma de se relacionar com o tempo, com os corpos, com a dor e com a esperança. A psicologia pode nos ajudar a compreender o alcance desse toque de Jesus como uma ação que ressignifica a subjetividade ferida. O toque não é apenas físico, mas relacional. Ele acolhe, devolve valor, reintegra à vida. A antropologia nos lembra que o toque é um dos primeiros gestos de linguagem humana, anterior à palavra. Jesus, portanto, comunica com gestos o que as palavras religiosas muitas vezes não conseguem transmitir. Já a sociologia nos mostra que a exclusão ritual dessas mulheres reflete mecanismos de poder que ainda hoje se perpetuam: 

  • Quem tem acesso à cura? 
  • Quem tem direito de tocar e ser tocado?

Não estamos sozinhos. Jesus continua passando em meio às multidões, sensível aos clamores explícitos e aos que se escondem por vergonha ou medo. Continua parando para ver quem o tocou com fé. Continua dizendo:  Coragem, minha filha! Coragem, meu filho!”. Palavras que não são fórmula mágica, mas um chamado à esperança ativa. O toque da fé que cura é o gesto que ousa romper o conformismo religioso e a cegueira institucional. É o grito silencioso de quem se recusa a morrer sem lutar por vida plena. 

O Evangelho de hoje nos convida a assumir o lugar daquela mulher: dar um passo de fé mesmo quando tudo parece conspirar contra nós: 

  • Romper o medo
  • Vencer as barreiras 
  • Tocar o Cristo que continua passando pela história.
Mas também nos chama a sermos como Jesus: pessoas capazes de se deixar interromper pelo sofrimento alheio, de enxergar os invisíveis, de escutar os silenciados e de transformar a compaixão em compromisso concreto. Que a Igreja, tantas vezes marcada pelo clericalismo, pela indiferença e pela cumplicidade com estruturas de exclusão, permita-se ser continuamente convertida por este Evangelho. Que reaprenda a ver os que ninguém vê, a tocar os que ninguém toca e a acolher os que foram marginalizados pela sociedade e, por vezes, até pela própria religião. Que seja uma comunidade onde as mulheres não sejam silenciadas nem tratadas como cidadãs de segunda categoria, mas reconhecidas, como por Jesus, em sua plena dignidade de filhas de Deus. Que a fé cristã volte a ser hospital de campanha para a humanidade ferida, e nunca trincheira de ideologias de ódio, violência ou morte. No caminho da fé, Jesus continua repetindo ao coração de cada discípulo: "Não tenhas medo. Crê somente" (cf. Mc 5,36). A fé não elimina imediatamente todas as dores, mas abre espaço para que Deus realize o impossível. Quando ela é autêntica, ainda que pequena e trêmula, torna-se encontro com a graça. Então, o que parecia perdido reencontra esperança; o que estava paralisado volta a caminhar; e aquilo que parecia definitivamente morto revive pela força da vida nova. Porque o Deus revelado em Jesus Cristo não abandona ninguém no vale das lágrimas (cf. Sl 23,4). Ele continua sendo o Deus que se deixa tocar pela dor humana e que toca a humanidade com um amor misericordioso, libertador e verdadeiramente revolucionário, capaz de vencer a exclusão, restaurar a dignidade e fazer florescer a vida onde muitos já enxergavam apenas o fim.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 29 de junho de 2025

Um breve um olhar sobre Mateus 8,18-22

 


Os Mortos e a Barca: Quando o chamado não Pode Esperar.

Na tradição litúrgica do Tempo Comum, a Igreja proclama Mateus 8,18-22 na segunda-feira da 13ª semana  do Tempo Comum anualmente, inserindo esse pequeno bloco narrativo dentro de uma sequência de sinais e ensinamentos que revelam a identidade itinerante e desconfortável do discipulado de Jesus. Não se trata de uma perícope isolada, mas de um texto que se articula com paralelos sinóticos em em Lucas Lucas 9,51-62 proclamado no Domingo da 13º semana do Tempo Comum -Ano C onde a travessia do lago, os chamados radicais e o confronto com as exigências do Reino aparecem como um eixo teológico comum. É importante observar que o Evangelho de São Marcos não possui um texto paralelo a Mateus 8,18-22 (nem ao conjunto de Lucas 9,57-62). Marcos não registra o diálogo com o mestre da Lei que promete seguir Jesus, tampouco o encontro com o discípulo que pede para primeiro sepultar seu pai. Por isso, essa passagem específica nunca é proclamada a partir de Marcos na liturgia da Igreja. Essa ausência não é casual, mas resulta do projeto teológico próprio de cada evangelista:
  •  Mateus e Lucas preservam uma série de ensinamentos de Jesus sobre a radicalidade do discipulado que, segundo muitos estudiosos, provêm de uma tradição comum de ditos de Jesus, conhecida como Fonte Q. Nessa tradição, o foco recai sobre as exigências do seguimento e sobre a urgência do Reino de Deus.
  • Marcos, por sua vez, é o Evangelho mais antigo e também o mais conciso. Sua narrativa privilegia o dinamismo da ação de Jesus: os milagres, os conflitos e o caminho que conduz à cruz. Em vez de longos discursos sobre as condições para seguir o Mestre, Marcos apresenta essas exigências por meio dos próprios acontecimentos e das atitudes dos discípulos.
sso, porém, não significa que Marcos apresente um discipulado menos exigente. Ao contrário, a radicalidade do seguimento aparece distribuída em diferentes momentos do Evangelho e é proclamada pela liturgia ao longo do Ano B, dedicado a Marcos. Logo no início da missão de Jesus em Marcos 1,16-20 proclamado no 3º Domingo do Tempo Comum no Ano B*, ouvimos o chamado dos primeiros discípulos, que deixam imediatamente as redes, o barco e até mesmo seu pai, Zebedeu, para segui-lo. Mais adiante, no centro do Evangelho Marcos  8,34-35 proclamado  no 24º Domingo do Tempo Comum  no Ano B, Jesus formula uma das exigências mais fortes do discipulado: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me." Assim, embora Marcos não conserve o episódio de Mateus 8,18-22, ele transmite a mesma verdade teológica: seguir Jesus exige uma decisão radical, sem reservas, colocando o Reino de Deus acima de qualquer segurança, vínculo ou projeto pessoal.

Em Mateus, o evangelista condensa duas cenas de vocação e deslocamento logo após o impacto das curas em Cafarnaum (Mt 8,1-17), criando um contraste deliberado entre o sucesso pastoral de Jesus junto às multidões e a exigência silenciosa de uma adesão não domesticada. Marcos e Lucas preservam a mesma tensão, embora com variações redacionais: em todos, porém, o discipulado é apresentado como um processo de desinstalação, não como acomodação religiosa.
A “ordem de passar para a outra margem” (Mt 8,18) funciona como marcador narrativo de transição teológica. Essa travessia não é apenas geográfica, mas simbólica: deslocamento do centro para a periferia, da previsibilidade religiosa para o risco existencial, da segurança institucional para a exposição ao imprevisível do Reino.
A liturgia, ao inserir este texto no ciclo anual, impede que o discipulado cristão seja reduzido a moralismo privado ou a espiritualidade intimista. Pelo contrário, ela reinscreve a fé no horizonte pascal da travessia: sair de Cafarnaum espaço de reconhecimento e eficácia  para enfrentar a alteridade radical da “outra margem”, onde o puro e o impuro, o incluído e o excluído, o religioso e o marginalizado se encontram sob o juízo do Reino.
Nesse sentido, a proclamação litúrgica não apenas recorda um episódio do passado, mas atualiza uma crise permanente da fé: 
  • A tensão entre seguimento e segurança, 
  • Entre Reino e instituição, entre profecia e acomodação. 
Essa tensão atravessa também a história da Igreja, especialmente quando estruturas clericais ou sistemas religiosos se fecham em autorreferencialidade, perdendo a capacidade de escuta dos clamores sociais e das feridas históricas do povo.
Precisamos  lembrar que já  refletimos no you tube pelo menos 3 vezes sobre esse tema:  em 2020 em plena pandemia,  em 2021 em pleno desemprego  2024 

Jesus estava cercado por uma multidão em Cafarnaum, após curas e exorcismos. A cena parece triunfante, um momento alto de sua missão pública. No entanto, nesse contexto, o evangelista nos conduz a um gesto inesperado: Jesus “mandou passar para a outra margem” (Mt 8,18).

É sobre essa travessia, e os encontros que nela ocorrem, que iremos refletir, à luz do evangelho segundo Mateus 8,18-22 proclamado  na 2ª-feira da 13ª semana do Tempo Comum.

À primeira vista, pode parecer uma simples decisão logística para evitar o tumulto das multidões, mas o evangelho de Mateus, como os demais sinóticos, é teologicamente elaborado. Cada movimento de Jesus, sobretudo nas transições geográficas, carrega profundidade simbólica e escatológica. Ir para “a outra margem” não é apenas atravessar um lago, mas um gesto pascal de deslocamento: da zona de conforto para a zona de conflito, do centro para a periferia, da pureza ritual para o contato com o impuro. Trata-se de uma travessia teológica, social, existencial.

Jesus sai de Cafarnaum, cidade com um núcleo judaico, rumo à região dos gadarenos ou gerasenos (cf. Mt 8,28; Mc 5,1; Lc 8,26), uma terra gentia, marcada por práticas consideradas impuras, como a criação de porcos. O movimento de Jesus não é neutro; é provocativo. Atravessar o lago é atravessar fronteiras étnicas, religiosas e simbólicas. É uma recusa de qualquer fé que se isole em seus próprios muros. O Cristo que atravessa o mar de Tiberíades antecipa sua cruz, porque se expõe à impureza, à alteridade e à incompreensão. Ele abandona a “segurança do sagrado” para mergulhar no caos do outro, do marginalizado, do que foi excluído pela religião oficial. Esta cena, à luz do Êxodo, ressignifica a travessia não mais como fuga da escravidão, mas como descida solidária ao lugar onde vivem os escravizados. Jesus, o novo Moisés, não caminha rumo à Terra Prometida, mas em direção ao território da impureza, onde a dor é mais bruta e a presença de Deus parece mais ausente. Há, nesse gesto, um contraste implícito com o profeta Jonas, que foge da missão e tenta evitar a cidade estrangeira. Jesus é o antijonas: ele atravessa em direção ao que é impuro, hostil, estrangeiro — porque o Reino de Deus não conhece fronteiras étnicas, religiosas ou morais. A travessia de Jesus não foge da alteridade; ela a assume como campo de encarnação. O lago, como no Êxodo, separa o povo da escravidão e da liberdade. Mas aqui, a liberdade está na margem do outro. O discipulado cristão não começa na segurança, mas na travessia.

Essa decisão de partir gera uma ruptura interna. A barca está prestes a partir, e com ela o sinal de um discipulado exigente. Nesse momento, aproximam-se dois homens. O primeiro, um escriba — conhecedor da Lei, alguém de dentro da instituição religiosa — declara com entusiasmo: “Mestre, eu te seguirei para onde quer que vás.” Mas Jesus, com a lucidez de quem conhece os corações, responde com uma frase que corta como espada: “As raposas têm tocas, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” A advertência é clara: seguir Jesus não é aderir a um projeto de estabilidade, mas lançar-se num caminho de desinstalação. A referência ao “Filho do Homem” remete ao livro de Daniel (7,13-14), onde esta figura messiânica recebe domínio eterno. Contudo, em Jesus, esse título ganha conotação de vulnerabilidade e entrega. Ele é o Filho do Homem que não domina com poder, mas redime com serviço e despojamento. O discipulado, aqui, exige o abandono da expectativa de segurança institucional, de benefícios sociais ou reconhecimento religioso. O escriba, símbolo da religião da letra, parece querer ajustar o seguimento ao seu mundo de certezas. Mas Jesus o desilude: não há Escritura sem esvaziamento. Não há Reino com estabilidade. Não há discipulado sem kenosis. Como lembra a carta aos Filipenses, Cristo “esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,7).

O segundo personagem é mais ambíguo. Ele já é um discípulo, alguém que segue Jesus, mas ainda preso a estruturas do passado. “Senhor, deixa-me primeiro ir sepultar meu pai.” O pedido parece legítimo, até mesmo sagrado. Na cultura judaica do século I, enterrar os pais era uma das obrigações mais sagradas, derivada diretamente do mandamento de honrar pai e mãe (cf. Ex 20,12). Não só era um dever familiar, mas uma responsabilidade comunitária, religiosa, e até escatológica, pois muitos judeus acreditavam que a sepultura familiar preservava a identidade e a bênção da linhagem. Negar o sepultamento seria visto como afronta à memória e ao vínculo com a tradição. No entanto, Jesus responde: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.” Essa resposta, embora chocante, deve ser compreendida à luz do uso simbólico da palavra “mortos”. Ele não se refere aos cadáveres, mas aos vivos que estão espiritualmente mortos — aos que, mesmo respirando, estão presos às estruturas caducas, a uma religião sem compaixão, a uma tradição fossilizada. É a mesma lógica que aparece em Lucas 15,24, quando o pai do filho pródigo diz: “Este meu filho estava morto e voltou à vida.” Morte, aqui, é alienação do Reino. É a idolatria do passado, a fé paralisada em ritos que não geram vida. Como em Mateus 23, Jesus denuncia os que se tornaram “sepulcros caiados”: vivos por fora, mas mortos por dentro. É o eco direto da denúncia de Isaías: “Que me importa a multidão dos vossos sacrifícios?” (Is 1,11). A fé que se reduz a rituais, desconectada da justiça e da compaixão, torna-se cemitério da presença divina.

A frase de Jesus é uma convocação à urgência. Não é desrespeito aos pais, mas um chamado a não adiar o seguimento com desculpas piedosas. O “deixa” é um verbo de ruptura. Ele convida à liberdade de um discipulado não mais condicionado pelo “primeiro deixa-me...”, mas enraizado no “segue-me” incondicional. Essa tensão entre tradição e missão, entre luto legítimo e adiamento espiritual, é perene. Ela atravessa os séculos da fé cristã. A religião, quando perde a dimensão do Reino, torna-se obstáculo. A fé que adia é a fé dos mortos. A religião, quando perde o Espírito, torna-se necroespiritualidade: sepulta os vivos com dogmas sem amor, com liturgias sem compaixão, com estruturas que protegem os poderosos e silenciam os pequenos. É essa religião que Jesus desmascara.

Esse ensinamento se alinha à doutrina social da Igreja, que sempre defendeu que a caridade concreta é inseparável do seguimento real. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje são também as dos discípulos de Cristo” (GS 1). O discipulado é sensível à urgência do agora. A missão da Igreja não pode ser retardada por apegos a ritos ou estruturas que já não comunicam vida. A Evangelii Gaudium de Francisco afirma com força que a Igreja deve sair, que “prefere uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49). A Lumen Gentium, ao definir a Igreja como “sacramento universal da salvação” (LG 48), implica que sua missão é dinâmica, encarnada, concreta — não ritualizada ou institucionalizada em si mesma. Paulo VI já dizia em Evangelii Nuntiandi que “o homem contemporâneo escuta mais as testemunhas do que os mestres” (EN 41), e Francisco amplia isso ao lembrar, em Laudato Si’, que “tudo está interligado”: a vida espiritual autêntica se reconhece pela capacidade de ir ao encontro do que sofre, de romper com as bolhas de proteção religiosa. Como nos recorda a carta aos Hebreus, os verdadeiros discípulos são aqueles que vivem como peregrinos e estrangeiros nesta terra, “porque esperam uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste” (Hb 11,16). Mas não a esperam passivamente. Eles a inauguram, aqui e agora, na travessia concreta do Reino.

Hoje, como ontem, muitos vivem esse dilema. Quantos desejam seguir Jesus, mas querem primeiro sepultar suas tradições, terminar seus projetos, esperar a estabilidade. Desejam o Reino, mas sem ruptura. Esperam condições ideais, uma fé sem travessia. A teologia da prosperidade alimenta essa ilusão: uma fé que promete bênçãos, mas recusa a cruz. Uma religião que oferece ninhos e tocas, mas não barcas em movimento. Os mortos continuam sepultando os mortos: são os que vivem de aparências, presos ao moralismo, ao clericalismo, à idolatria institucional.

Mateus 8,18-22 permanece como um dos mais incisivos testes espirituais do Evangelho: ele desmonta qualquer tentativa de reduzir o seguimento de Jesus a adesão confortável, a pertencimento institucional ou a identidade religiosa estabilizada. A travessia proposta não é metáfora decorativa, mas ruptura concreta com formas de vida que absolutizam segurança, tradição sem vida e religiosidade sem justiça.

O ser humano  não pode ser   definido por pertença fixa, mas por movimento: o discípulo é aquele que atravessa. E essa travessia revela uma teologia do risco, onde fé não é proteção, mas exposição ao outro; não é fechamento identitário, mas abertura ao estrangeiro, ao excluído, ao impuro socialmente produzido.

Este conflito revela que as comunidades religiosas podem facilmente reproduzir lógicas de poder, distinção e exclusão, transformando o sagrado em capital simbólico, é nesse ponto, que  o Evangelho se torna denúncia profética contra qualquer forma de religião que legitime desigualdades, silencie a dor dos pobres ou se alinhe a projetos políticos que absolutizam ordem, controle e hierarquia como se fossem vontade divina. A crítica não se dirige apenas a estruturas internas da Igreja, mas também a leituras ideológicas,  inclusive de extrema direita  que instrumentalizam o nome de Deus para justificar exclusões, violência simbólica ou indiferença social.

Jesus, porém, desestabiliza essas construções. Ele não oferece abrigo ideológico nem segurança institucional. Sua resposta ao escriba e ao discípulo em luto revela que o Reino não tolera adiamentos, nem sacraliza estruturas mortas. O “segue-me” rompe o tempo da procrastinação religiosa e inaugura o tempo da decisão.

A tradição profética bíblica sustenta essa mesma lógica: Isaías denuncia culto vazio (Is 1), Amós rejeita liturgias desconectadas da justiça (Am 5), e os profetas insistem que Deus não habita ritos sem ética. No Novo Testamento, essa linha culmina na denúncia dos “sepulcros caiados” (Mt 23), onde a aparência religiosa encobre morte interior. Assim, a travessia para a outra margem não é apenas deslocamento geográfico de Jesus, mas convocação permanente da Igreja e de cada discípulo. Permanecer na margem conhecida é, em última instância, recusar o Reino que se faz encontro com o outro.

As perguntas que  precisamos  nos fazer  não é teórica, mas existencial: 

  • Que tipo de fé se está vivendo? 
  • Uma fé que protege estruturas?
  • Uma fé que atravessa fronteiras?
 O Evangelho não permite neutralidade. Ele obriga decisão.

E enquanto houver multidões, instituições, tradições e ideologias tentando fixar Deus em uma margem segura, o Cristo de Mateus continuará  atravessando para a outra margem. E essa margem hoje são os presídios superlotados, os hospitais sem atendimento, as favelas esquecidas, as travestis na rua, os povos indígenas acuados, os refugiados ignorados. A travessia hoje se faz na escuta dos que não têm voz, no abraço dos indesejados, na coragem de romper com a religião domesticada. Por isso, a barca continua partindo. E nela estão os que optaram por seguir, mesmo sem garantias: as Conferências Vicentinas, que batem nas portas dos pobres com o rosto da ternura; os irmãos da Toca de Assis, que vivem entre os rejeitados; padres como Júlio Lancellotti, que atua na cidade de São Paulo, especialmente na região da Mooca e do Brás, na Pastoral do Povo da Rua, enfrentando diariamente a indiferença institucional e a hostilidade urbana com o evangelho do acolhimento; e Renato Chiera, que fundou e conduz a Casa do Menor São Miguel Arcanjo em Miguel Couto, distrito de Nova Iguaçu (RJ), lugar onde a esperança brota do asfalto quente e das vielas feridas, acolhendo adolescentes marcados pela violência, pelo tráfico e pela exclusão. Ambos recusam os altares dourados e preferem a calçada e o barraco como sacrário, como espaço sagrado onde o Cristo abandonado é tocado, lavado, alimentado e chamado pelo nome. A Pastoral Carcerária, que enfrenta o sistema penal e enxerga Cristo em cada cela, é outra expressão dessa travessia pascal. Esses homens e mulheres não sepultam os vivos. Eles os libertam. São parábolas encarnadas do Evangelho. Testemunhos que desmascaram uma fé que se esconde atrás de desculpas. Eles não estão apenas no templo, mas na travessia. E nos interrogam com força:

  • Que margem ainda me prende? 
  • Que morte me paralisa? 
  • Que desculpa piedosa me  impede de dizer sim ao chamado?

No Reino, os mortos vivem, e os vivos sepultados na religião morrem.

Por isso, não há tempo para desculpas. O seguimento é hoje. Nunca amanhã. Não se trata de saber mais, mas de seguir. Não de sentir, mas de andar. Não de venerar, mas de viver.

Jesus continua a dizer: “Segue-me.” E a barca segue. Com ou sem você.

DNonato – Teólogo do Cotidiano - “O discipulado é sempre hoje. Nunca amanhã.”


terça-feira, 10 de junho de 2025

Um breve olhar sobte Mateus 10, 7-13

 

“Ide e proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar.” (Mt 10,7-8)

O texto de Mateus 10,7-13, que meditamos na Memória de São Barnabé, celebrada em 11 de junho, e que também retorna em outros momentos do Ano Litúrgico, como no Sábado da 10ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos núcleos mais profundos da espiritualidade missionária cristã. Jesus dirige aos discípulos uma ordem clara e urgente:

“Anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Dai de graça o que de graça recebestes.”

Não se trata apenas de uma recomendação para um grupo específico de discípulos do primeiro século, mas de um chamado permanente que atravessa os tempos e alcança toda a Igreja. Para compreender melhor a riqueza desse ensinamento, é importante olhar também para os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6, nos quais encontramos o mesmo envio missionário sob diferentes perspectivas. A Igreja, ao nos permitir revisitar esses textos em diversas ocasiões, recorda-nos que a missão não é um acontecimento isolado, mas uma dimensão constitutiva da vida cristã.

Observemos:

  • Em Marcos, Jesus envia os Doze dois a dois, conferindo-lhes autoridade sobre os espíritos impuros e ensinando-os a confiar radicalmente em Deus.
  • Em Lucas, a ênfase recai sobre o anúncio do Reino e o cuidado dos enfermos, mostrando que a evangelização não se reduz a palavras, mas se manifesta em gestos concretos de libertação, cura e restauração da dignidade humana.

Ao reunir os testemunhos de Mateus, Marcos e Lucas, a Igreja nos recorda que a missão permanece sempre atual. Jesus continua enviando seus discípulos para anunciar a proximidade do Reino em um mundo marcado por desigualdades, exclusões, individualismos e falsas seguranças. O verdadeiro operário da colheita é aquele que caminha com simplicidade, vive da confiança em Deus, promove a paz, cuida dos mais frágeis e testemunha, por palavras e ações, que o Reino dos Céus já começou a florescer entre nós. É importante recordar que, em Mateus, a expressão “Reino dos Céus” corresponde ao que Marcos e Lucas chamam de “Reino de Deus”. Trata-se de uma forma judaica reverente de evitar pronunciar diretamente o nome divino. Assim, quando Jesus anuncia a proximidade do Reino dos Céus, proclama a presença ativa e transformadora de Deus na história humana.

Em Mateus 10,7-13, observamos um envio missionário que espelha o total desprendimento dos discípulos em relação a tudo aquilo que as estruturas mundanas consideram indispensável. Este envio não é uma simples instrução sobre técnicas de pregação, mas uma orientação profundamente profética que questiona as lógicas de poder, acumulação e dominação. O Reino dos Céus que se aproxima não é uma promessa de evasão da realidade nem um acontecimento reservado para um futuro distante. É uma realidade que começa a se manifestar já no presente, onde a vida vence a morte, a misericórdia supera a exclusão e a esperança se impõe sobre o desespero.

Por isso, a missão transcende o mero anúncio verbal. Ela se concretiza em ações que restauram pessoas e comunidades. Em paralelo com Marcos 6,12-13, vemos que os discípulos não apenas pregavam a conversão, mas também expulsavam demônios e curavam enfermos, ungindo-os com óleo. Na linguagem bíblica, esses gestos representam mais do que milagres isolados. Revelam a ação libertadora de Deus contra todas as forças que escravizam o ser humano. Curar os doentes e expulsar os demônios significa confrontar tudo aquilo que produz sofrimento, exclusão, alienação e morte. O Reino anunciado por Jesus toca os corpos feridos, as consciências oprimidas e as relações sociais rompidas. A expressão “o Reino dos Céus está próximo” não significa apenas que algo está para acontecer. Em Mateus, a proximidade do Reino indica a presença ativa de Deus na história através da pessoa e da missão de Jesus. O Reino se torna visível quando os pobres recuperam sua dignidade, quando os marginalizados são acolhidos, quando a justiça floresce e quando a paz substitui a violência. Evangelizar, portanto, não consiste apenas em transmitir doutrinas, mas em tornar presente a ação transformadora de Deus no mundo.

O envio dos apóstolos também sublinha a dependência absoluta da providência divina. Jesus ordena que não levem ouro, prata ou cobre, nem acumulem recursos para garantir a própria segurança. Essa orientação possui uma dimensão espiritual profunda e, ao mesmo tempo, uma crítica contundente à lógica da autossuficiência e da acumulação. O discípulo é chamado a confiar em Deus e a reconhecer que sua missão não depende do poder econômico, do prestígio social ou da influência política.

Essa palavra adquire especial relevância em um contexto no qual a fé, por vezes, é reduzida a instrumento de ascensão econômica ou sucesso individual. A proposta de Jesus segue caminho oposto. O Reino de Deus não é mercadoria. Não pode ser comprado, vendido ou manipulado para benefício próprio.nA ordem “dai de graça o que de graça recebestes” denuncia toda tentativa de transformar a experiência religiosa em negócio, privilégio ou instrumento de poder. O Evangelho é dom antes de ser tarefa. Quem recebeu gratuitamente a misericórdia de Deus é chamado a compartilhá-la gratuitamente.

A confiança radical na providência divina encontra eco nas palavras de Jesus em Mateus 6,25-34, quando ele convida seus discípulos a não viverem dominados pela ansiedade em relação ao alimento, à roupa ou às necessidades materiais. O Pai conhece aquilo de que seus filhos precisam. Da mesma forma, Lucas 10,4 reforça essa lógica missionária ao ordenar: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Em ambos os textos, a mensagem é clara: a missão não nasce da segurança dos bens acumulados, mas da confiança naquele que conduz a história. 

A confiança na providência divina não conduz os discípulos ao isolamento nem à indiferença diante da realidade. Pelo contrário, abre-os ao encontro com as pessoas e com as comunidades que encontrarão pelo caminho. Por isso, Jesus ordena que, ao entrarem numa casa, ofereçam a sua paz. Essa saudação não constitui um simples gesto de cortesia ou um cumprimento convencional. Trata-se da comunicação de um dom que procede do próprio Deus e que exige acolhida. A paz anunciada pelos discípulos é a paz do Reino, uma paz que restaura relações, reconcilia pessoas e inaugura novas formas de convivência.

Quando Jesus afirma que, caso a casa seja digna, a paz repousará sobre ela, mas, se não for acolhida, retornará aos discípulos, revela que o Reino jamais se impõe pela força. Deus respeita a liberdade humana. A paz oferecida torna-se, assim, um sinal que interpela consciências e desafia cada pessoa a posicionar-se diante da Boa Nova. Essa compreensão encontra eco nas palavras de Jesus em João 14,27: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”. A paz cristã não é mera ausência de conflitos nem simples tranquilidade individual. É fruto da justiça, da reconciliação e da restauração da dignidade humana. Ela floresce onde existe abertura para ouvir a Palavra e acolher o Reino como dom de Deus.

Nesse sentido, a hospitalidade ultrapassa os limites de um costume cultural. Ela torna-se elemento fundamental da missão. A acolhida do mensageiro representa a acolhida da própria mensagem, enquanto a rejeição manifesta resistência ao projeto libertador de Deus. Ao longo da história bíblica, os profetas experimentaram essa realidade. Muitos foram perseguidos exatamente porque denunciaram sistemas de opressão e injustiça. As palavras de Jesus sobre Jerusalém em Mateus 23,37 recordam essa dramática resistência ao chamado divino.

Por essa razão, a evangelização autêntica não pode ser reduzida a um discurso espiritual desvinculado da realidade concreta. O anúncio do Reino possui implicações sociais, econômicas e humanas. A missão que nasce do Evangelho busca restaurar a vida onde ela foi ferida, devolver esperança aos desanimados, dignidade aos excluídos e voz aos silenciados. Contudo, o Evangelho une inseparavelmente:  a conversão pessoal e a transformação das estruturas injustas. Uma sem a outra torna-se incompleta. O Reino de Deus transforma corações e, por meio deles, transforma também as relações sociais.

Nessa perspectiva, diversos teólogos da América Latina, entre eles Gustavo Gutiérrez, insistiram que a missão cristã possui uma dimensão libertadora inseparável do compromisso com os pobres e com a justiça. Essa compreensão também nos leva a uma necessária crítica ao clericalismo e às formas de religião que se distanciam do Evangelho. Sempre que a fé é utilizada como instrumento de dominação, acumulação de privilégios ou manutenção de poderes, contradiz-se o caminho indicado por Jesus.

O envio dos discípulos sem ouro, prata ou recursos acumulados revela que a força da missão não reside no prestígio institucional, mas na fidelidade ao Reino. A Igreja existe para servir, não para dominar; para anunciar a Boa Nova, não para preservar privilégios. Essa crítica não é nova. O próprio Jesus denunciou com firmeza uma religiosidade reduzida a aparências externas, quando afirmou: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8-9). E retomando o profeta Oséias, declarou: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7).

A verdadeira espiritualidade não se limita a ritos ou discursos. Ela se expressa em práticas concretas de misericórdia, acolhimento, partilha e compromisso com a vida. É uma espiritualidade encarnada na história, capaz de reconhecer a presença de Deus nos pobres, nos sofredores e nos marginalizados..Hoje, o testemunho de São Barnabé torna-se particularmente significativo. Conhecido como “filho da consolação”, Barnabé destacou-se por sua capacidade de acolher, reconciliar e construir pontes. Foi ele quem acreditou em Paulo quando muitos ainda o viam com desconfiança.

Além disso, Atos 4,36-37 nos informa que Barnabé vendeu um campo que possuía e entregou o valor aos apóstolos para o serviço da comunidade. Sua vida torna-se um exemplo concreto do desprendimento, da confiança e da partilha que Jesus propõe em Mateus 10..Sua trajetória demonstra que a missão cristã não consiste em erguer muros, mas em criar comunhão; não em excluir, mas em integrar; não em buscar prestígio, mas em servir. Barnabé soube reconhecer a ação de Deus onde outros enxergavam apenas ameaça ou fracasso.

Mateus 10,7-13 nos convida, portanto, a uma fé profundamente encarnada e comprometida com a realidade. Não se trata apenas de alimentar a esperança de uma vida futura, mas de colaborar, já agora, com a transformação das condições que negam a dignidade humana e obscurecem os sinais do Reino..Que a nossa fé jamais se acomode diante da injustiça, nem se torne cúmplice da opressão, da indiferença ou da exclusão. Que seja uma fé viva e encarnada, capaz de curar feridas, acolher os rejeitados, defender os vulneráveis e anunciar a esperança em meio às dores da história.

Que saibamos reconhecer o rosto de Cristo nos pobres, nos marginalizados, nos enfermos, nos migrantes, nos esquecidos e em todos aqueles cuja dignidade é negada pelos mecanismos de poder deste mundo..O testemunho de São Barnabé, dos profetas de Israel, dos apóstolos, dos mártires da justiça e das vozes proféticas que atravessaram os séculos recorda-nos que o Evangelho não é uma ideologia religiosa nem um instrumento de privilégio, mas uma força transformadora que irrompe na história para gerar vida, reconciliação e libertação.

O Reino de Deus torna-se visível sempre que: 

  1.  A Misericórdia vence o egoísmo, 
  2. A Partilha supera a acumulação, 
  3. A Fraternidade derrota a exclusão, 
  4.  A Verdade desmascara a mentira 
  5. A  Vida triunfa sobre todas as formas de morte.

A missão confiada por Jesus continua atual e urgente. Cada cristão é chamado a ser sinal da presença amorosa de Deus no mundo, não apenas por palavras, mas por escolhas concretas de solidariedade, justiça e serviço. Anunciar o Reino é construir pontes onde existem muros, gerar esperança onde reina o desânimo, defender a dignidade onde prevalece a humilhação e testemunhar, com a própria vida, que outro mundo é possível quando Deus ocupa o centro da existência humana.

Que, a exemplo de São Barnabé e de tantos discípulos e apóstolos de ontem e de hoje, sejamos homens e mulheres capazes de encorajar, reconciliar e servir. Que caminhemos com simplicidade, confiando na providência divina e colocando nossos dons a serviço da vida. E que, ao anunciar gratuitamente o que gratuitamente recebemos, nos tornemos colaboradores da obra de Deus, para que seu Reino de justiça, paz, fraternidade e amor continue florescendo no coração da humanidade e nas realidades concretas da história.

DNonato — Teólogo do cotidiano, discípulo do Reino em construção

domingo, 1 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 16,29-33


No  coração do discurso de despedida do Evangelho segundo Evangelho de João, a perícope de João 16,29-33 ocupa um lugar decisivo dentro da tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana, este texto é proclamado na segunda-feira da sétima semana da Páscoa, imediatamente antes da grande oração sacerdotal de Jesus narrada no capítulo 17 de João, dentro da caminhada espiritual que conduz a comunidade ao Pentecostes. A leitura surge exatamente quando a Igreja contempla a tensão entre ausência e promessa, entre cruz e ressurreição, entre medo humano e fidelidade divina. Nas tradições orientais históricas, especialmente na Igreja Ortodoxa, o texto é relido dentro da espiritualidade pascal que insiste na vitória do Ressuscitado sobre os poderes da morte e do caos. Em comunidades anglicanas, luteranas e reformadas históricas, João 16 aparece frequentemente ligado às leituras sobre perseguição, perseverança e esperança escatológica. A passagem, portanto, não é apenas memória da última ceia, mas anúncio permanente para uma Igreja chamada a atravessar a história sem abandonar a esperança. Precisamos   lembrar  sempre  a mensagem  de Jesus: 
“No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo.” (Jo 16, 33)

O contexto imediato da narrativa revela uma atmosfera de despedida carregada de densidade espiritual. Desde João 13, após o lava-pés, Jesus conduz os discípulos a uma compreensão nova do discipulado. O Mestre que “sabia que o Pai tudo colocara em suas mãos” (Jo 13,3) ajoelha-se diante dos discípulos como servo, rompendo radicalmente com toda lógica de poder religioso ou político. O Reino anunciado por Jesus não se estrutura pela dominação, mas pela kenosis, pelo esvaziamento de si, conforme canta o antigo hino cristológico de Filipenses 2,6-11: “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo”. A pedagogia joanina conduz lentamente os discípulos a compreenderem que seguir Jesus significa participar desse movimento de entrega, abandono confiante e amor radical. Quando os discípulos afirmam “Agora falas claramente e não usas mais figuras” (Jo 16,29), demonstram acreditar que finalmente compreenderam o Mestre. Contudo, a resposta de Jesus possui força profundamente profética: “Credes agora? Eis que vem a hora em que vos dispersareis” (Jo 16,31-32). A pergunta de Cristo funciona quase como um espelho espiritual, revelando a fragilidade escondida por trás do entusiasmo religioso. Os discípulos creem sinceramente, mas ainda não passaram pela experiência da noite escura, ainda não atravessaram o escândalo da cruz anunciado em João 12,24: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica sozinho; mas se morre, produz muito fruto”.

Essa tensão percorre toda a Escritura. Em Êxodo 14, o povo afirma confiar em Deus ao sair do Egito, mas diante do Mar Vermelho entra em desespero. Em 1Reis 19, Elias, o grande profeta do Carmelo, foge aterrorizado para o deserto após ameaças de Jezabel. Em Jeremias 20, o profeta chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento diante da perseguição sofrida por causa da Palavra. Em Jonas 4, o profeta não suporta a misericórdia divina para com Nínive. A Bíblia inteira desmonta idealizações superficiais da fé, porque a experiência de Deus nunca elimina automaticamente a fragilidade humana; frequentemente a expõe, purifica e transforma. A antropologia bíblica presente em João 16 revela precisamente essa condição humana marcada por medo, dispersão e ambiguidade. Pedro promete fidelidade absoluta em João 13,37: “Darei minha vida por ti”. Poucas horas depois, negará Jesus diante de servos e soldados (Jo 18,15-27). A Escritura não esconde as fraquezas dos discípulos porque o Evangelho não é propaganda religiosa, mas revelação da graça agindo dentro da precariedade humana. Paulo compreenderá profundamente isso quando escreve em 2Coríntios 12,9: “Minha graça te basta, porque é na fraqueza que a força se manifesta plenamente”. No mundo antigo mediterrâneo, honra e vergonha eram categorias sociais fundamentais. Ser abandonado pelos discípulos às vésperas da prisão representava humilhação extrema. Contudo, Jesus não constrói sua identidade sobre aprovação social. “Não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Mesmo cercado pela solidão humana, Cristo permanece em comunhão com o Pai, recordando o Salmo 27,10: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá”.

A palavra “mundo” em João 16,33 possui enorme densidade teológica. O termo grego kosmos aparece no quarto Evangelho tanto como realidade amada por Deus quanto como sistema que rejeita a luz. “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16), mas também “o mundo os odiou porque eles não são do mundo” (Jo 17,14). O “mundo” que Cristo vence não é a criação em si, mas a ordem histórica organizada contra o projeto do Reino, sustentada por estruturas de violência, mentira, exploração e idolatria denunciadas pelos profetas. Jesus vive sob o domínio do Império Romano, sistema sustentado por militarismo, tributação opressiva e concentração de poder. A chamada pax romana era garantida pela espada, e as crucificações públicas funcionavam como instrumentos de terror político. Nesse contexto, anunciar um Reino baseado no amor aos inimigos (Mt 5,44), no perdão (Lc 23,34) e na misericórdia representava profunda subversão histórica. Quando Jesus diz “Eu venci o mundo”, não fala como César ou qualquer conquistador imperial. Sua vitória acontece precisamente na cruz, lugar máximo da humilhação social..A cruz, para judeus e romanos, era escândalo absoluto. Deuteronômio 21,23 afirmava: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro”. Para Roma, crucificados eram inimigos do império. Contudo, Deus transforma exatamente o instrumento de vergonha em sinal de redenção. Aqui se cumpre a lógica paradoxal já anunciada em Isaías 53, onde o Servo Sofredor carrega as dores do povo. O triunfo de Cristo não se constrói sobre cadáveres alheios, mas sobre a própria entrega. Isso desmonta radicalmente toda teologia do domínio, toda espiritualidade de conquista e toda ideologia religiosa que busca legitimar poder através da violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus afirma claramente: “Os chefes das nações as dominam... entre vós não deverá ser assim”. O Evangelho estabelece oposição direta entre a lógica imperial e a lógica do Reino. Contudo, ao longo da história, setores cristãos frequentemente traíram essa palavra, aliando-se a projetos de dominação política, colonialismo e exclusão social. Hoje, em muitos contextos, símbolos cristãos são instrumentalizados por movimentos autoritários e extremistas que promovem intolerância, armamentismo, nacionalismo excludente e ódio ideológico. O nome de Jesus é utilizado para justificar violência contra pobres, migrantes, indígenas, negros, mulheres e minorias sociais. Tal deformação representa profunda negação do Evangelho.

Em Mateus 25,31-46, Cristo se identifica explicitamente com os famintos, presos, estrangeiros e marginalizados. O critério do juízo final não é identidade religiosa formal, mas prática concreta da misericórdia. “Tive fome e me destes de comer.” O Jesus dos Evangelhos não legitima projetos de supremacia religiosa ou cultural. Ele se aproxima dos leprosos (Mc 1,40-45), conversa com samaritanos (Jo 4), acolhe pecadores públicos (Lc 19,1-10), defende mulheres marginalizadas (Jo 8,1-11) e denuncia hipocrisias religiosas (Mt 23). A sociologia da religião ajuda a compreender como instituições religiosas podem tornar-se instrumentos de controle social quando se afastam da lógica profética. Em Amós 5,21-24, Deus rejeita cultos vazios desconectados da justiça: “Quero ver o direito brotar como fonte”. Isaías 58 denuncia jejuns que ignoram a opressão dos pobres. Miqueias 6,8 resume a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus”. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética. Sua crítica ao Templo em Marcos 11,15-17 não é rejeição da espiritualidade, mas denúncia de uma religião transformada em mercado e mecanismo de exploração.

Essa crítica permanece profundamente atual diante da mercantilização contemporânea da fé. A teologia da prosperidade transforma Deus em garantidor de sucesso financeiro. O sofrimento é interpretado como fracasso espiritual. A pobreza deixa de ser consequência de estruturas injustas e passa a ser apresentada como falta de fé. Tal lógica contradiz frontalmente o Evangelho. Em Lucas 6,20, Jesus proclama: “Felizes vós, os pobres”. Em Tiago 2,5, lemos: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé?”. O Novo Testamento inteiro insiste na centralidade dos pequenos e vulneráveis. A tradição da Igreja retomou continuamente essa dimensão social do Evangelho. O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. A Lumen Gentium recorda que a Igreja é povo peregrino, não estrutura de poder autossuficiente. A Evangelii Gaudium denuncia “uma economia que mata”. Em Laudato Si', o Papa Francisco relaciona crise ambiental e injustiça social, mostrando como os pobres são os primeiros a sofrer as consequências da destruição da criação. Os documentos do CELAM aprofundam essa consciência histórica. Medellín denunciou estruturas de pecado presentes na América Latina. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida insistiu numa Igreja missionária em saída. A CNBB frequentemente recorda que evangelizar implica compromisso concreto com dignidade humana, justiça social e defesa da vida. João 16,33 ressoa profundamente nesse horizonte: “No mundo tereis tribulações”. Jesus não promete imunidade ao sofrimento; prepara os discípulos para perseguições. Em João 15,20 já advertira: “Se perseguiram a mim, também perseguirão a vós”. Paulo e Barnabé repetirão em Atos 14,22: “É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus”. O discipulado cristão jamais foi caminho de triunfalismo confortável. A cruz permanece centro incontornável da fé.
A psicologia contemporânea reconhece que sociedades marcadas por insegurança e medo frequentemente buscam líderes autoritários e discursos religiosos simplificadores. O fundamentalismo oferece respostas fáceis para realidades complexas. Contudo, o Evangelho conduz exatamente no sentido contrário. Jesus não manipula multidões pelo medo. Ele convida à liberdade interior. Em João 8,32 afirma: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A verdade do Evangelho nunca serve à opressão; sempre conduz à dignidade humana. Também o clericalismo constitui profunda deformação do discipulado. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que quem quiser ser o primeiro deve tornar-se servo de todos. Contudo, ao longo da história, estruturas eclesiais frequentemente reproduziram modelos autoritários. O Papa Francisco insiste repetidamente que o clericalismo infantiliza o povo de Deus e transforma ministério em privilégio. O lava-pés de João 13 continua sendo correção permanente contra qualquer espiritualidade de poder.

A geografia simbólica do Evangelho também ilumina a reflexão. Jerusalém representa simultaneamente centro da fé e lugar da rejeição profética. Jesus sobe conscientemente para Jerusalém sabendo o que o espera. Em Lucas 13,34 lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas”. A cidade santa torna-se símbolo ambíguo da humanidade capaz de acolher e rejeitar Deus. Essa ambiguidade continua presente em toda experiência religiosa contemporânea. Igrejas podem tornar-se espaços de libertação ou mecanismos de opressão. A figura de Maria aos pés da cruz em João 19,25 possui enorme força espiritual. Enquanto muitos fogem, ela permanece. Maria encarna a fidelidade silenciosa que resiste mesmo sem compreender plenamente o mistério. Sua presença recorda as mulheres discípulas mencionadas em Marcos 15,40-41, que permanecem próximas de Jesus quando quase todos os outros desapareceram. A espiritualidade cristã autêntica nasce dessa permanência amorosa junto aos crucificados da história.

Hoje, os crucificados continuam presentes. Crianças famintas, povos indígenas expulsos de suas terras, refugiados atravessando fronteiras, jovens negros mortos nas periferias, mulheres vítimas de violência, idosos abandonados, trabalhadores explorados, vítimas do tráfico humano e da devastação ambiental. Em Mateus 25, Cristo continua dizendo: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes”. Não existe espiritualidade pascal sem solidariedade histórica. Paulo escreve em Romanos 8,35-39: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição?”. A resposta é profundamente joanina: nada pode destruir a comunhão inaugurada pelo Ressuscitado. Contudo, essa esperança não produz alienação. Pelo contrário, gera compromisso radical com a transformação da realidade. Em Tiago 2,17 lemos: “A fé sem obras é morta”. O Evangelho jamais permite separar espiritualidade de justiça. A vitória de Cristo sobre o mundo não significa fuga da história, mas transfiguração da história. Em Apocalipse 21, João contempla “um novo céu e uma nova terra”. A esperança cristã aponta para plenitude futura, mas já começa agora em cada gesto de misericórdia, justiça e reconciliação. Cada vez que alguém escolhe o amor em vez do ódio, a partilha em vez da acumulação, o perdão em vez da vingança, a vida em vez da violência, o Reino se manifesta silenciosamente. Por isso, João 16,29-33 continua sendo palavra profundamente necessária para nosso tempo. Vivemos uma época marcada por crises múltiplas: colapso ambiental, desigualdade extrema, polarização política, manipulação digital, fundamentalismos religiosos e perda de sentido existencial. Muitos procuram salvadores autoritários, messianismos políticos ou espiritualidades narcísicas incapazes de enfrentar a dor do mundo. Contudo, Cristo continua dizendo: “Tende coragem! Eu venci o mundo”. Essa coragem não nasce da arrogância dos vencedores, mas da esperança dos que permanecem fiéis em meio à escuridão. É a coragem de Maria junto à cruz, a coragem de Pedro restaurado após negar o Mestre, a coragem de Paulo preso cantando hinos na prisão (At 16,25), a coragem dos mártires antigos e contemporâneos, a coragem dos pobres que continuam lutando por dignidade, das mães que enterram filhos vítimas da violência estrutural, de quem resiste ao ódio sem abandonar a ternura. No fim, a pergunta de Jesus permanece ecoando sobre toda a Igreja e sobre cada discípulo: “Credes agora?”. Não como condenação, mas como convite à profundidade. A fé verdadeira nasce quando desaparecem as ilusões triunfalistas e resta apenas a confiança perseverante naquele que atravessou a morte sem abandonar o amor. O Ressuscitado continua carregando as marcas dos cravos porque a glória cristã nunca apaga a memória dos crucificados.

Que não sejamos uma comunidade fascinada pelo poder, mas apaixonada pelo Reino. Que não troquemos o Evangelho pela idolatria política, econômica ou ideológica. Que não transformemos Jesus em bandeira de guerra cultural. Que sejamos capazes de permanecer junto aos feridos da história como o próprio Cristo permaneceu conosco. Porque somente quem atravessa a cruz com o Senhor compreenderá verdadeiramente o sentido de sua vitória. E então perceberemos que vencer o mundo não significa dominar pessoas, acumular riquezas ou conquistar influência, mas permanecer fiel ao amor até o fim. Como escreveu Paulo em Gálatas 2,20: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. A verdadeira vitória cristã acontece quando o amor do Crucificado começa a transformar nossas relações, nossas comunidades e nossa própria história.

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DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.



quinta-feira, 29 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 16,20-23a

No coração do Tempo Pascal da Igreja Católica Romana, a perícope de João 16,20-23a ocupa um lugar profundamente significativo na caminhada litúrgica da Igreja. Este texto é proclamado tradicionalmente na sexta-feira da sexta semana da Páscoa, dentro da sequência espiritual que prepara a comunidade cristã para Pentecostes. A liturgia o insere no grande discurso de despedida de Jesus no Evangelho segundo João, texto de densidade espiritual singular, onde o Cristo prepara seus discípulos para a experiência da ausência visível, da perseguição, do medo e, ao mesmo tempo, da irrupção inesperada da alegria pascal. Variantes temáticas desta passagem também ecoam nas celebrações do Tempo Pascal em diversas tradições cristãs históricas, como nas Igrejas Ortodoxas do Oriente, nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, especialmente nas leituras relacionadas à ressurreição, ao sofrimento da Igreja e à esperança escatológica. O motivo da tristeza transformada em alegria atravessa toda a espiritualidade cristã primitiva e se torna uma das grandes chaves hermenêuticas da fé pascal.

O texto de João 16,20-23a está inserido no chamado Livro da Glória, que compreende os capítulos 13 a 21 do Quarto Evangelho. Trata-se de uma seção profundamente simbólica, construída não apenas como narrativa histórica, mas como catequese espiritual para comunidades marcadas pela perseguição, pelo conflito interno e pela tensão com o poder religioso e político do final do primeiro século. O Evangelho joanino nasce em um contexto de ruptura traumática entre grupos cristãos e setores da sinagoga judaica após a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. pelo Império Romano. A comunidade joanina experimentava exclusão religiosa, marginalização social e perseguição cultural. Por isso, o discurso de Jesus sobre tristeza, dor e alegria não é abstrato nem meramente espiritualizado. Ele emerge de um chão histórico concreto, marcado pelo sofrimento real das comunidades. Quando Jesus afirma: “Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará” (Jo 16,20), Ele não apenas descreve a dor imediata dos discípulos diante da paixão iminente. Ele revela uma estrutura permanente da história humana. Há um conflito entre a lógica do Reino de Deus e a lógica do mundo. No Evangelho de João, o termo “mundo” possui múltiplos sentidos. Em alguns momentos, designa a criação amada por Deus, como em João 3,16. Em outros, representa o sistema organizado de oposição à vida, à verdade e à justiça. Aqui, claramente, “o mundo” é o conjunto das estruturas de poder que celebram a morte dos inocentes, naturalizam a violência e transformam a opressão em normalidade política, econômica e religiosa.
Jesus pronuncia estas palavras poucas horas antes de sua prisão. O pré-texto imediato é o lava-pés de João 13, gesto profundamente revolucionário numa sociedade marcada pela hierarquia e pela pureza ritual. O Mestre ajoelha-se diante dos discípulos, assume a condição do servo e desmonta toda compreensão autoritária do poder religioso. Em seguida, anuncia traição, abandono e sofrimento. A ceia joanina não possui a instituição explícita da Eucaristia como nos Sinóticos, mas possui algo talvez ainda mais radical: a revelação de que a comunhão verdadeira só existe quando o poder se transforma em serviço.

Nesse horizonte, a tristeza dos discípulos não é apenas emocional. Trata-se do colapso de suas expectativas messiânicas. Eles ainda esperavam um Reino glorioso segundo categorias políticas convencionais. Esperavam triunfo visível, estabilidade, restauração nacional. A cruz destrói essas projeções. A morte de Jesus desmascara a violência do Império Romano, a cumplicidade das elites religiosas e a fragilidade humana dos próprios discípulos. O Cristo não morre apenas pelas mãos de Roma. Morre também pela aliança entre religião e poder..Esse dado possui enorme relevância contemporânea. Em todas as épocas, inclusive em nosso tempo, existe a tentação permanente de instrumentalizar Deus para legitimar projetos de dominação. A religião frequentemente é capturada por ideologias de controle social, nacionalismos autoritários e sistemas econômicos excludentes. Quando a fé perde sua dimensão profética, ela deixa de ser Boa Nova para os pobres e se transforma em aparato de manutenção da ordem. Jesus denuncia precisamente essa perversão.
A metáfora do parto utilizada em João 16,21 é uma das imagens antropológicas mais belas e profundas do Novo Testamento. “A mulher, quando vai dar à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra do sofrimento, por causa da alegria de ter vindo um ser humano ao mundo.” O símbolo do parto atravessa toda a tradição bíblica. Em Isaías 66,7-14, Sião aparece como mulher que gera um povo novo. Em Miqueias 4,9-10, o sofrimento do parto torna-se imagem da esperança coletiva. Em Romanos 8,22, Paulo afirma que toda a criação geme em dores de parto aguardando redenção.
No mundo bíblico, o parto era experiência profundamente arriscada. A mortalidade materna era elevada. Não havia anestesia, segurança hospitalar ou assistência adequada para a maioria das mulheres pobres. A dor do parto simbolizava vulnerabilidade extrema, mas também potência criadora. Jesus utiliza precisamente essa experiência para revelar que o Reino nasce no interior da dor histórica. Não existe ressurreição sem travessia da cruz.
A antropologia cultural nos ajuda a compreender que sociedades antigas frequentemente associavam o sofrimento do parto à ambiguidade da vida humana: dor e esperança coexistindo inseparavelmente. O nascimento é ruptura traumática, passagem, transformação radical. Assim também acontece com a experiência espiritual e histórica das comunidades humanas. Nenhuma transformação profunda ocorre sem crise.

Por isso, o cristianismo autêntico jamais pode ser reduzido a espiritualidade alienante, triunfalismo religioso ou teologia da prosperidade. O Evangelho não promete imunidade ao sofrimento. Promete sentido, presença e esperança dentro da travessia histórica. A lógica neoliberal contemporânea, porém, transforma felicidade em mercadoria e sofrimento em fracasso individual. A fé mercantilizada vende sucesso pessoal, riqueza financeira e vitória social como sinais automáticos da bênção divina. Tal perspectiva contradiz frontalmente o Evangelho de Jesus.
A chamada teologia da prosperidade, difundida em diversos ambientes religiosos contemporâneos, representa uma profunda distorção hermenêutica da tradição bíblica. Ela substitui o Deus do Êxodo pelo deus do mercado. Troca a cruz pelo consumo. Reduz oração a técnica motivacional. Nessa lógica, pobres são culpabilizados por sua própria pobreza, enquanto ricos são apresentados como modelos espirituais. Jesus, porém, jamais associou riqueza à santidade. Pelo contrário. Em Lucas 6,20, proclama: “Bem-aventurados vós, os pobres.” Em Mateus 25,31-46, identifica-se diretamente com os famintos, presos e excluídos..João 16 denuncia precisamente o escândalo de um mundo que se alegra enquanto os justos choram. Essa dinâmica permanece brutalmente atual. Vivemos em uma civilização marcada pela concentração obscena de riqueza, pela destruição ambiental, pela precarização da vida e pela naturalização da violência. Crianças morrem de fome enquanto mercados financeiros celebram lucros recordes. Povos indígenas são expulsos de seus territórios em nome do agronegócio predatório. Migrantes são tratados como ameaça. Mulheres continuam vítimas de violência estrutural em sociedades patriarcais. Negros seguem morrendo nas periferias sob o peso histórico do racismo.

Nesse contexto, recordar os ataques sofridos por figuras públicas comprometidas com a justiça socioambiental revela a permanência da lógica denunciada pelo Evangelho. Quando mulheres são silenciadas, ridicularizadas ou violentadas em espaços institucionais, manifesta-se não apenas misoginia individual, mas uma estrutura histórica de dominação. A reação hostil contra mulheres que resistem ao poder autoritário reproduz mecanismos antigos de exclusão. O corpo feminino continua sendo território de disputa simbólica e política.
Jesus utiliza justamente a figura da mulher que dá à luz para revelar que a vida nova nasce das dores históricas dos marginalizados. Há aqui uma profunda inversão teológica. O Reino não nasce nos palácios imperiais nem nos templos aliados ao poder. Nasce nas periferias da história. Nasce no ventre das mulheres pobres. Nasce entre pescadores da Galileia. Nasce entre trabalhadores explorados pelo sistema tributário romano.. A geografia do Evangelho é profundamente significativa. A Galileia do século I era região marginalizada economicamente em relação à Judeia. Era espaço de mistura cultural, tensão política e exploração econômica. O campesinato galileu sofria com impostos abusivos, concentração fundiária e presença militar romana. Jesus nasce e atua nesse contexto de sofrimento social concreto. Sua mensagem não é abstrata. É encarnada.

A sociologia da religião ajuda a compreender como movimentos espirituais frequentemente surgem entre populações marginalizadas. O cristianismo primitivo foi, inicialmente, movimento de pobres, mulheres, escravizados e excluídos. Seu anúncio subvertia hierarquias tradicionais ao afirmar que todos possuem dignidade diante de Deus. Paulo escreve em Gálatas 3,28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher.” Essa afirmação era explosiva no mundo antigo.
Por isso, a alegria prometida por Jesus é profundamente política no sentido mais elevado do termo. Não política partidária estreita, mas política da dignidade humana, da justiça e da comunhão. O Magnificat de Maria em Lucas 1,46-55 já anunciava essa subversão: Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta humildes. O cristianismo perde sua alma quando abandona os pobres.
O Concílio Vaticano II recuperou fortemente essa dimensão histórica da fé. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Aqui ressoa diretamente João 16. A Igreja é chamada a compartilhar as dores do mundo, não a fugir delas.

A Conferência de Medellín em 1968 aprofundou essa perspectiva ao denunciar estruturas de pecado presentes na sociedade latino-americana. Puebla, em 1979, reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida, em 2007, insistiu na necessidade de uma Igreja em saída missionária, próxima dos sofrimentos reais do povo. O Papa Francisco retoma continuamente essa tradição ao denunciar “uma economia que mata” e ao criticar o clericalismo como deformação da vida eclesial. O clericalismo constitui uma das patologias espirituais mais graves da Igreja contemporânea. Ele transforma ministério em privilégio, autoridade em dominação e serviço em poder. No Evangelho de João, Jesus desmonta radicalmente essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. Onde existe clericalismo, a comunidade deixa de ser povo de Deus e se converte em estrutura piramidal de controle. O clericalismo infantiliza os leigos, silencia mulheres e sufoca a dimensão profética da fé.

Psicologicamente, sistemas religiosos autoritários frequentemente produzem culpa patológica, dependência emocional e medo espiritual. A manipulação religiosa utiliza símbolos sagrados para controlar consciências. Jesus, porém, age de modo oposto. Ele liberta. Ele cura. Ele restitui dignidade. Ele rompe mecanismos de exclusão religiosa. Em Marcos 2,27 afirma: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” A extrema direita religiosa contemporânea frequentemente instrumentaliza o cristianismo como ferramenta identitária e ideológica. Constrói inimigos morais, promove pânico social e reduz o Evangelho a guerra cultural. Nesse processo, o Cristo das bem-aventuranças é substituído por um messias nacionalista e violento. A cruz deixa de ser solidariedade com os crucificados da história e se transforma em símbolo de poder tribal.

Os Evangelhos Sinóticos ajudam a iluminar ainda mais João 16. Em Marcos 8,34, Jesus afirma: “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” Em Mateus 5,4 proclama: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Em Lucas 24,26 pergunta aos discípulos de Emaús: “Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” João aprofunda teologicamente essa tradição ao apresentar a cruz já como glorificação. No Quarto Evangelho, a paixão não é derrota definitiva, mas revelação máxima do amor.
Existe também diferença redacional importante. Enquanto os Sinóticos enfatizam mais explicitamente o abandono e a angústia de Jesus, João apresenta um Cristo soberano que atravessa livremente a paixão. Essa perspectiva não elimina o sofrimento, mas sublinha que o amor permanece mais forte que a violência.

A psicologia da esperança humana revela que pessoas e comunidades conseguem resistir ao sofrimento quando encontram significado coletivo para sua dor. Viktor Frankl observou que o sentido sustenta a existência mesmo em condições extremas. O Evangelho oferece precisamente uma esperança histórica e transcendente capaz de impedir que a dor se transforme em desespero absoluto..João 16,22 afirma: “A vossa alegria ninguém poderá tirar.” Trata-se de afirmação extraordinária. Jesus não promete ausência de perseguição. Pelo contrário. O próprio Evangelho joanino fala de expulsão das sinagogas e hostilidade do mundo. A alegria cristã não depende de estabilidade econômica, reconhecimento social ou sucesso político. Ela nasce do encontro com o Ressuscitado e da experiência de comunhão solidária.

Essa alegria possui dimensão escatológica. Ela aponta para a plenitude futura do Reino. Contudo, também possui dimensão histórica concreta. Ela já se manifesta onde existe compaixão, justiça e resistência ao mal. Surge nas comunidades que partilham pão. Nas mães que sustentam filhos em contextos de pobreza extrema. Nos povos indígenas que defendem a terra como sacramento da vida. Nos agentes pastorais perseguidos por defender direitos humanos. Nos jovens que recusam discursos de ódio. Nos trabalhadores que lutam por dignidade.
A tradição profética bíblica sempre denunciou religião vazia e culto desvinculado da justiça. Isaías 1,11-17 rejeita sacrifícios sem compromisso ético. Amós 5,21-24 proclama: “Quero ver o direito brotar como fonte.” Miqueias 6,8 resume a vontade divina: praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Jesus se insere integralmente nessa tradição. Por isso, não existe espiritualidade cristã autêntica compatível com indiferença diante da fome, do racismo, da misoginia e da destruição ambiental. A fé que ignora o sofrimento humano torna-se idolatria religiosa. A cruz de Cristo revela que Deus não está do lado dos impérios da morte, mas dos crucificados da história.

O CELAM insiste repetidamente na necessidade de uma evangelização libertadora e encarnada. O Documento de Aparecida afirma que a Igreja deve ser “advogada da justiça e defensora dos pobres”. Essa missão exige discernimento crítico diante das ideologias contemporâneas. Nem todo discurso religioso é evangélico. Nem toda invocação do nome de Deus produz vida.
A crise contemporânea também é crise de sentido. Milhões vivem esmagados pela lógica do desempenho, pela hipercompetitividade e pelo isolamento social. O individualismo neoliberal destrói vínculos comunitários e transforma pessoas em consumidores permanentes. Nesse cenário, João 16 oferece horizonte profundamente humano. A tristeza não é negada. O sofrimento não é romantizado. Mas a dor não possui a última palavra.
A ressurreição não apaga as feridas de Cristo. O Ressuscitado continua marcado pelos cravos. Isso significa que a memória do sofrimento permanece integrada na história da salvação. O cristianismo não é amnésia espiritual. É transformação da dor em solidariedade.

Há também profunda dimensão contemplativa nesse texto. Jesus convida os discípulos a atravessarem a noite confiando na fidelidade do Pai. Trata-se de espiritualidade da esperança teimosa. Não esperança ingênua, mas esperança resistente. A esperança bíblica nasce frequentemente em contextos de exílio, perseguição e aparente fracasso.
A própria história da Igreja testemunha isso. Mártires antigos e contemporâneos revelam que a alegria do Evangelho floresce mesmo sob perseguição. Oscar Romero, assassinado enquanto celebrava a Eucaristia em El Salvador, afirmava que a Igreja deve estar onde o povo sofre. Dorothy Stang entregou a vida defendendo os pobres da Amazônia. Dom Hélder Câmara denunciou as estruturas de opressão que produzem fome e violência. Essas testemunhas encarnam João 16. O Reino continua germinando silenciosamente nas periferias do mundo. Continua nascendo em comunidades invisíveis aos olhos dos poderosos. Continua florescendo onde alguém reparte pão, acolhe feridos e resiste à lógica da morte. O Cristo Ressuscitado permanece caminhando entre os pobres.

A conclusão dessa perícope é profundamente significativa. Jesus afirma: “Naquele dia, não me perguntareis mais nada” (Jo 16,23a). Não se trata da eliminação do pensamento crítico ou das perguntas humanas. Trata-se da plenitude da comunhão. O encontro definitivo com Deus dissipará as ambiguidades da história. Contudo, enquanto caminhamos neste mundo, continuamos perguntando, buscando, discernindo e lutando.
A fé cristã madura não foge das perguntas difíceis. Ela atravessa a dúvida sem abandonar a esperança. O próprio Cristo clamou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). O Evangelho legitima o grito humano diante da dor. Por isso, a Igreja não pode oferecer respostas simplistas ao sofrimento do mundo. Sua missão é caminhar solidariamente com os que choram, denunciar estruturas de injustiça e anunciar que a vida é mais forte que a morte. João 16 não é convite à resignação passiva. É convocação à esperança ativa.
Em tempos marcados pela banalização da violência, pelo crescimento de fundamentalismos religiosos e pelo avanço de discursos autoritários, o Evangelho continua sendo palavra profundamente subversiva. Jesus permanece desafiando sistemas que transformam pessoas em descartáveis. Permanece denunciando alianças perversas entre religião e poder. Permanece chamando discípulos e discípulas para uma espiritualidade encarnada, solidária e libertadora.
A alegria prometida por Cristo continua sendo perigosa para os impérios da morte porque ela gera resistência. Quem experimenta essa alegria não aceita facilmente a lógica da opressão. Não se conforma com injustiças naturalizadas. Não transforma fé em mercadoria. Não adora líderes políticos como salvadores messiânicos.

A verdadeira alegria cristã nasce da certeza de que Deus continua agindo na história, mesmo quando tudo parece perdido. Ela floresce no interior da luta coletiva por dignidade. Surge quando comunidades escolhem partilhar em vez de acumular. Quando a compaixão vence o medo. Quando o amor rompe os ciclos de violência.
João 16,20-23a permanece, assim, como uma das mais profundas sínteses da espiritualidade pascal. O Cristo não promete fuga da história, mas presença no interior dela. Não promete ausência de lágrimas, mas transformação das lágrimas em esperança. Não promete vitória triunfalista segundo os critérios do mundo, mas fidelidade amorosa capaz de atravessar a cruz. E talvez seja precisamente essa a grande tarefa espiritual do nosso tempo. Permanecer humanos em meio à brutalidade. Permanecer compassivos em meio ao ódio. Permanecer solidários em meio ao individualismo. Permanecer proféticos em meio à manipulação religiosa. Permanecer discípulos do Ressuscitado quando tantos desejam transformar o Evangelho em instrumento de dominação.
A tristeza dos discípulos se transformará em alegria porque o amor crucificado ressuscitou. E toda vez que alguém escolhe a justiça em vez da violência, a partilha em vez da acumulação, a misericórdia em vez da condenação, essa ressurreição continua acontecendo na história.

Que a Igreja jamais esqueça isso. Que nunca troque o Reino pelo poder. Que nunca transforme o altar em palco de ideologias autoritárias. Que nunca abandone os pobres. Que nunca silencie diante das vítimas da história. Porque o Cristo continua vivo entre os que resistem. Continua ressuscitando nas periferias do mundo. Continua chorando nos crucificados da história e sorrindo nas pequenas vitórias da dignidade humana.
E ninguém poderá tirar essa alegria daqueles que aprenderam a reconhecer o Ressuscitado no rosto dos pobres, dos perseguidos e dos que continuam acreditando, mesmo em meio à noite, que a vida vencerá.

Por isso, mesmo em meio às lágrimas e ao peso das injustiças, seguimos firmes, alimentados por essa promessa: a tristeza se transformará em alegria. Não caminhamos em vão. A cruz que carregamos hoje é semente de ressurreição. A esperança que floresce do chão dos oprimidos é sinal de que o Reino está próximo,   e já desponta entre nós, nas pequenas vitórias do amor, da solidariedade e Que assim seja.... fé que não desiste. 

DNonato – Vigia das alegrias indomáveis do Reino, teólogo do cotidiano, indignado pela justiça e indigente do sagrado.