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quarta-feira, 18 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,11b-17 - Corpus Christi: a Eucaristia que se faz compromisso

 

Celebrar a Solenidade de Corpus Christi é muito mais do que confeitar ruas com tapetes coloridos por onde passa o Corpo do Senhor em ostensório.
  Já  comentamos  no texto: para  transmitirr  ao mundo no ano 2012  sobre a origem  desta festa  e também  já  fizemos um vídeo  sobre  essa importante  celebração   da Igreja  Católica 
 Celebrar  esse  momento é mergulhar no coração do Evangelho, onde o pão que se parte revela o próprio Cristo que se dá. A beleza da festa só encontra sentido quando a forma se alinha com o conteúdo, quando a arte popular reflete uma fé encarnada na vida concreta, nas dores e esperanças do povo. O Evangelho de Lucas (9,11b-17) nos coloca diante de uma cena que é ao mesmo tempo denúncia e anúncio: o povo tem fome, os discípulos querem dispensá-lo, mas Jesus os desafia com firmeza: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Essa ordem de Jesus desestabiliza a lógica do comodismo. Ela é uma convocação à responsabilidade eclesial e pessoal. Jesus, que acabara de falar do Reino e de curar os doentes, não faz mágica para alimentar a multidão — convida à partilha. Os cinco pães e dois peixes, aparentemente insuficientes, tornam-se abundantes nas mãos daquele que não despreza o pouco oferecido com fé. Os doze cestos cheios que sobram falam de um Deus que não age por escassez, mas por superabundância da graça. A partilha é milagre quando brota da confiança e da solidariedade. A lógica do Reino não é a da acumulação, mas a do dom. Como dirá o profeta Isaías, no capítulo 55, o convite de Deus é para que todos venham à água e comam, mesmo sem dinheiro — porque a graça não é mercadoria, é gratuidade.

É importante perceber os símbolos e números presentes no texto. 

  • Os cinco pães aludem à Torá, fonte da vida e sabedoria de Israel
  •  Os dois peixes apontam para a totalidade da criação, o humano em sua integralidade. 
  • Os doze cestos que sobram remetem às doze tribos, ou seja, ninguém está excluído da mesa do Reino.

 Essa multiplicação não é apenas de alimentos, mas de sentido, de comunhão, de esperança. É a pré-figuração da Eucaristia, como nos lembrará Paulo ao narrar: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (1Cor 11,26). É o memorial do Cristo que se entrega, mas também da comunidade que se compromete. Por isso Santo Irineu dizia: “Nossa doutrina está de acordo com a Eucaristia, e a Eucaristia, por sua vez, confirma nossa doutrina”.

Essa cena ecoa o Banquete Messiânico prometido por Isaías: “O Senhor dos Exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de pratos suculentos, um banquete de vinhos refinados” (Is 25,6). A partilha não é apenas gesto ético, é sinal escatológico — antecipa a plenitude do Reino, onde não haverá mais fome nem lágrimas.

No contexto atual, a fome volta a ser um grito que atravessa nossas ruas, silenciado por discursos religiosos vazios e por líderes que abençoam o poder enquanto desprezam os pobres. Segundo a Rede PENSSAN, mais de 33 milhões de pessoas enfrentam a fome no Brasil. E não é por falta de alimentos, mas por excesso de injustiça, corrupção, concentração de renda e desprezo pelas políticas públicas. O pão está na mesa dos ricos, mas falta nos lares de milhões. E o milagre da multiplicação não virá do céu — ele começa quando rompemos o ciclo do egoísmo. Isaías já alertava que o jejum verdadeiro consiste em “partilhar o pão com o faminto, acolher os pobres sem abrigo, vestir o nu” (Is 58,6-7). E também o profeta Amós, com palavras duras, denuncia a religião descolada da justiça: “Odeio e desprezo as vossas festas, e com vossas assembleias solenes não tenho nenhum prazer. Mas corra o direito como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Am 5,21.24). Ignorar esse apelo é fazer da religião uma caricatura: um culto que agrada aos homens, mas desagrada a Deus.

Diante dessa realidade, é inaceitável que alguns ministros ordenados — padres e pastores — se contentem em rezar, consagrar e enviar o povo de volta para casa com fome. Tornam-se como os discípulos que queriam dispensar a multidão. Pregam um Cristo espiritualizado e inofensivo, alienado da carne sofredora do povo. A Eucaristia que celebram se torna contraditória: é culto sem compaixão, liturgia sem justiça, fé sem obras (cf. Tg 2,14-17). E como recordava o Papa Bento XVI em Deus Caritas Est (§14), “um cristianismo do culto, sem consequências éticas, é uma caricatura”. O risco de se viver uma fé sem encarnação é o mesmo que Jesus denunciou nos fariseus: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mt 15,8).

Mas não se trata apenas de crítica. Trata-se de conversão. Porque a verdadeira comunhão só se dá quando nos deixamos tocar pelas feridas do outro. A “fome de Deus”, de que tanto falamos, não se separa da fome de pão, de dignidade, de reconhecimento. Há uma profunda ligação entre o espiritual e o material, entre o culto e a vida. A antropologia nos ensina que o comer é um gesto de pertencimento, um elo entre os corpos e as culturas. A psicologia social fala em solidariedade afetiva: uma empatia ativa que rompe o isolamento e recria vínculos. E é exatamente por isso que Jesus escolhe o pão — simples, cotidiano — para se tornar presença permanente no meio de nós. Como dizia São João Paulo II, “o cristianismo é a religião da encarnação”, e não há Eucaristia autêntica onde o corpo do irmão é ignorado.

A psicologia também nos ajuda a compreender que a fome, em suas muitas formas, provoca angústia, desorientação, apatia. A fome não é só ausência de nutrientes — é ausência de sentido, de esperança, de vínculo. E quando falta pão, falta também confiança. Por isso, alimentar alguém não é apenas um ato de caridade: é um gesto de cura, é devolver ao outro a certeza de que ele importa. É dar à pessoa o que nenhuma doutrina sozinha pode dar: dignidade. A Eucaristia, nesse sentido, torna-se sacramento terapêutico — cura a solidão, a indiferença, o abandono. Ela não é prêmio para os perfeitos, mas remédio e sustento para os fracos, como bem frisou o Papa Francisco.

Na Bíblia, há outras multiplicações — como as narradas em Mateus 15 e Marcos 8 — mas todas apontam para o mesmo horizonte: o Reino de Deus se manifesta quando há partilha. E em todas elas, a iniciativa de Jesus contrasta com a inércia dos discípulos. No deserto, Deus alimentou o povo com o maná (Ex 16), mas o fez como ensaio para que aprendessem a confiar. No livro de Reis, Eliseu multiplica pães para cem homens (2Rs 4,42-44), sinal de que Deus age por meio de seus profetas. E hoje, quem serão os profetas que romperão o ciclo da indiferença? Onde estão os que anunciam e vivem a lógica do Reino, desafiando os mecanismos da exclusão?

Os documentos da Igreja são claros. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, afirma que “a Eucaristia é fonte e cume de toda a vida cristã” (LG 11), o que significa que tudo converge para ela, e tudo deve dela derivar. E o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, recorda que “o culto separado da promoção da justiça é inaceitável” (EG 183). A Eucaristia nos educa para a comunhão, mas também para a missão. Comungar é comprometer-se. É tornar-se pão para os outros. É assumir as dores dos crucificados da história. A Igreja não é fim em si mesma; é sacramento do Reino, e o Reino não é feito de teorias, mas de práticas que libertam. Como bem afirma Amoris Laetitia (§108):

A Eucaristia exige a integração da dimensão social”.

É preciso lembrar, como dizia Santo Agostinho, que “ninguém comunga este corpo sem antes comungar o corpo místico de Cristo” — ou seja, os irmãos. Celebrar Corpus Christi não é apenas carregar Jesus pelas ruas, mas reconhecê-lo nos rostos esquecidos, feridos, invisibilizados. O mesmo Cristo que adoramos no altar está também no chão da vida, esperando que o reconheçamos como Ele mesmo nos alertou: “Tive fome e não me destes de comer...” (Mt 25,42). A procissão verdadeira é a que continua depois da missa, no cuidado com os que caíram à beira do caminho. É a liturgia que se estende nas calçadas, nas filas do hospital, nas periferias, nos centros de acolhida. É a Igreja em saída, que não teme se sujar nas ruas do mundo.

Ao final, o apelo de Jesus ecoa como um grito que não pode ser silenciado: “Dai-lhes vós mesmos de comer.” É um imperativo que não admite terceirização, nem desculpas, nem adiamentos. Não haverá milagre enquanto o pão estiver trancado em nossos celeiros, enquanto a fé for um discurso sem prática, enquanto a Igreja for um refúgio para os acomodados e não um abrigo para os necessitados.

Corpus Christi nos lembra que o milagre é possível. Mas ele começa quando abrimos as mãos, o coração, os olhos. Quando deixamos de nos esconder atrás da religiosidade e assumimos o Evangelho como estilo de vida. Quando, ao partilhar o pão, nos tornamos nós mesmos Eucaristia viva. Só assim a festa fará sentido. Só assim a procissão será autêntica. Só assim a Igreja será fiel ao seu Senhor.

DNonato - Teólogo do Cotidiano


domingo, 15 de junho de 2025

Santidade existe? Entre os quatro "erres" da Rua, da Rejeição, do Reino e da Religião


Diante de um mundo que mercantiliza a fé, surge a pergunta: Santidade existe?

Entre a Rua, a Rejeição, o Reino e a Religião, buscamos a resposta. As Escrituras nos conclamam: 
  • "Sede santos, porque Eu sou santo" (Lv 19,2)
  • "Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48)
  • "Tornai-vos santos em todo o vosso proceder" (1Pd 1,15)
Contudo, essa santidade não está à venda. Ela não se encontra nas vitrines da fé, nem nos púlpitos dourados onde a espiritualidade se tornou um mero mercado. Jesus, em sua indignação, entrou no templo e expulsou os vendedores (Mt 21,12).

E por que Ele o fez? 

Porque a santidade não se negocia.  Ela é inegociável. Vale lembrar que, no contexto do Segundo Templo, os comerciantes e cambistas se beneficiavam do sistema sacrificial, transformando a casa de oração num espaço de opressão econômica e exclusão social. A ação de Jesus foi mais que simbólica: foi profética e revolucionária, uma denúncia contra a religião institucionalizada e vendida. A verdadeira santidade nasce na rua, no cotidiano, na realidade  sofrida  da quebrada, da comunidade, ela sofre na rejeição, nas incompreensões do mundo, vive pelo Reino, em serviço e amor, e resiste à religião do domínio que, por vezes, perdeu o coração.  
A Santidade é amor que não se dobra diante das adversidades, é a justiça que não se vende por preço algum, é a graça que não se compra, mas se recebe e se doa livremente. 

A santidade, no Antigo Testamento, é chamada à separação para Deus e compromisso ético com o próximo. Esse compromisso está enraizado na Torá, onde ser santo implica viver de forma justa, defender o estrangeiro, o órfão e a viúva — e isso se prolonga nos profetas.
Não esqueçamos: foi fora do templo que crucificaram o Santo. E é fora dos holofotes que muitos santos ainda caminham hoje, sem aplauso, sem reconhecimento, mas com inabalável fidelidade.

Essa reflexão surgiu em uma madrugada, quando assistimos a um filme nada ortodoxo, quase bobo, chamado “Um Santo Vizinho” (St. Vincent, 2014), estrelado por Bill Murray. O filme apresenta Vicente, um senhor alcoólatra e ranzinza que, apesar de parecer o avesso da santidade para os puritanos, encarna uma realidade dura e um amor profundo: cuida da esposa com Alzheimer, a quem se mantém fiel e dedicado (chegando a se vestir de médico, lembrando seu passado como herói de guerra condecorado), e ainda ajuda uma prostituta do bairro que  esta gravida (Naomi Watts) e uma mãe solo com uma criança necessitada de atenção (Melissa McCarthy).
Um garoto, Oliver (interpretado por Jaeden Martell), diz que não crê em santos durante uma aula e professor passa uma tarefa de cada um pesquisar um santo para apresentar em seminário da escola. Sabemos  que sua descrença nasce dos modelos que ele conhece: pessoas que rezam muito e vivem somente na igreja, mas sem praticar o amor, a compaixão e a solidariedade no cotidiano. Sua fé parece oca, como alerta a Escritura: “De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Será que tal fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisando de alimento diário, e um de vocês lhes disser: 'Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se', sem, contudo, lhes dar o que comer, de que adiantará isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta” (Tiago 2,14-17).

Oliver, contudo, reconhece a santidade encarnada em Vicente, que não tem “cara de santo”, mas vive o amor concreto. O menino, mesmo em sua ingenuidade, pratica uma leitura espiritual mais autêntica e coerente do que muitos adultos de fé institucionalizada.
Esse filme nos recordou outro clássico brasileiro, “Deus é Brasileiro” (2003), dirigido por Carlos Diegues, com Antônio Fagundes no papel de Deus e Wagner Moura como Quinca das Mulas — um pescador ateu do sertão que é considerado por Deus como possível substituto para governar o céu enquanto Ele tira férias. Curiosamente, Quinca, mesmo sem fé institucional, vive uma santidade prática e profunda, mais real que a de muitos cristãos nominais. Ele é generoso, justo, cuidadoso com os outros, e sobretudo, profundamente humano.

Esses dois personagens, Vicente e Quinca, de mundos tão distintos, e longe dos modelos pintados em nossas Igrejas, convergem em um ponto crucial: nos ajudam a compreender que a santidade não é uma moldura religiosa nem um diploma canônico. É presença, é serviço, é ternura concreta. É a mística do cotidiano que se transforma em prática amorosa.
Isso ecoa a exortação de Paulo em Filipenses 2,3-4: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”

E como Jesus mesmo ensinou:
“Quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20,26-28).

A Bíblia está cheia de histórias assim, onde Deus age de maneiras inesperadas e através de pessoas improváveis, mostrando que sua escolha vai além da lógica humana:
“Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. Escolheu as coisas humildes do mundo, as desprezadas e as que não são, para anular as que são, a fim de que ninguém se vanglorie na sua presença” (1 Coríntios 1,27-29).

Naamã, o sírio pagão, cura-se pela fé e pelo gesto humilde de obedecer à palavra do profeta (2Rs 5). A viúva de Sarepta acolhe Elias com o pouco que tem e é exaltada por Jesus (Lc 4,26). A mulher samaritana, rejeitada e marcada por feridas existenciais, se torna evangelizadora (Jo 4). Pedro negou, Paulo perseguiu — mas ambos foram alcançados pela graça que ultrapassa qualquer doutrina.
“O homem vê a aparência, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7).
Essa verdade é um chamado à autenticidade. O profeta Oséias já nos lembrava: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Oséias 6,6).

A verdadeira adoração não está nos ritos vazios, nas missa, cultos  mas na transformação do coração em atos de justiça e bondade, como clamava Isaías: “Aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva” (Isaías 1,17).

Dom Oscar Romero, mártir do nosso tempo, viveu a santidade profética da compaixão. Enfrentou as “semanas injustas” com o corpo e a voz em defesa dos pobres. Sua santidade nasceu da fidelidade à carne ferida do povo. Um episódio marcante foi sua homilia em 23 de março de 1980, onde, diante das Forças Armadas salvadorenhas, exclamou:
“Em nome de Deus, e em nome deste povo sofrido, cujas lamentações sobem até o céu cada dia mais tumultuosas, eu lhes peço, eu lhes suplico, eu lhes ordeno: parem com a repressão!”
No dia seguinte, foi assassinado enquanto celebrava a Eucaristia. Sua vida, como a dos profetas, foi semente de um novo mundo.

E como repete um velho padre sábio:
“Há mais comunhão entre cachaceiros e prostitutas do que em muitas igrejas"  e ousamos  completar: Deus falou por uma jumenta contra um profeta vendido (Nm 22,28); por que não falaria hoje por pecadores rejeitados por normativas que fecham a porta para eles, enquanto tantos de batina , de mitra e com milhares de seguidores nas redes vendem o nome de Deus a serviço do poder? 
 Jesus mesmo declarou diante dessa realidade: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31).

Santidade não se mede por presença em cultos,  conhecimento  teológico ou diploma de sacramento  recebido, mas pela capacidade de encarnar o amor de Deus no mundo.
Como diz a canção popular de Fernando Mendes: “Não adianta ir à igreja e fazer tudo errado. Você quer a frente das coisas olhando de lado
O céu que te cobre não cobra a luz da manha. Desperte pra vida, acredite: a sorte é irmã”

E ainda:
“Não adianta um pé de coelho no bolso traseiro. Nem mesmo a tal ferradura suspensa atrás da porta
Pois toda sorte tem quem acredita nela”
É quase como dizer: não adianta ter aparência de fé sem uma vida de fé. A “sorte” da santidade é irmã da confiança, da prática, da coerência — não do teatro.
E essa mesma denúncia atravessa o rap profético de Godzila do Rap, no seu “Evangelho dos Fariseus”, que questiona a hipocrisia dos que oram alto e pregam prosperidade, mas ignoram o pobre à porta. Godzila, com sua linguagem contundente, escancara a contradição de uma fé que acumula e exclui. É voz periférica, profética, que remete aos clamores dos salmos e dos profetas.
E nessa mesma trilha, o saudoso Papa Francisco, profeta da ternura e da coerência, dizia com firmeza: “É melhor ser ateu do que um cristão hipócrita.” (Audiência Geral, 23 de fevereiro de 2017).
Ele nos lembrava que não basta usar o nome de Cristo — é preciso viver como Ele viveu: com compaixão, verdade, justiça e serviço. O escândalo não está no mundo, mas em cristãos que dizem crer, mas agem como se Deus fosse uma ideia vazia ou uma moeda de troca religiosa.
Essa crítica poética nos remete diretamente ao Evangelho segundo Mateus 25,35-40, onde Jesus aponta com clareza os critérios do juízo final:
Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes me ver.”
“Sempre que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes.”

A pergunta que emerge é dura:  Quem são, então, os verdadeiros santos? 

Aqueles que rezam e condenam, ou aqueles que amam sem alarde, servem sem palco e cuidam sem manual? Jesus foi direto: Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do Pai” (Mt 7,21).
E qual é essa vontade, senão amar como Ele amou (Jo 13,34), fazer da vida um dom para os outros (1Jo 3,16), e ser presença viva de ternura e justiça?
“Deus é amor, e aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4,7-8).
“Não há amor maior do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13).
Talvez por isso, aquele garoto no filme, mesmo sem saber rezar o credo, conseguiu fazer o mais verdadeiro dos atos de fé: reconhecer um santo onde o mundo só via um velho bêbado. Porque santo é quem ama. Santo é quem cuida. Santo é quem fica, mesmo quando todos vão embora.
E isso, nenhuma norma consegue medir. 
Nenhuma teologia sistemática consegue conter. Só a vida, vivida em profundidade,  consegue revelar.

DNonato – Teólogo do Cotidiano, longe da santidade pintada por muitos

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 16,20-23a

No coração do Tempo Pascal da Igreja Católica Romana, a perícope de João 16,20-23a ocupa um lugar profundamente significativo na caminhada litúrgica da Igreja. Este texto é proclamado tradicionalmente na sexta-feira da sexta semana da Páscoa, dentro da sequência espiritual que prepara a comunidade cristã para Pentecostes. A liturgia o insere no grande discurso de despedida de Jesus no Evangelho segundo João, texto de densidade espiritual singular, onde o Cristo prepara seus discípulos para a experiência da ausência visível, da perseguição, do medo e, ao mesmo tempo, da irrupção inesperada da alegria pascal. Variantes temáticas desta passagem também ecoam nas celebrações do Tempo Pascal em diversas tradições cristãs históricas, como nas Igrejas Ortodoxas do Oriente, nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, especialmente nas leituras relacionadas à ressurreição, ao sofrimento da Igreja e à esperança escatológica. O motivo da tristeza transformada em alegria atravessa toda a espiritualidade cristã primitiva e se torna uma das grandes chaves hermenêuticas da fé pascal.

O texto de João 16,20-23a está inserido no chamado Livro da Glória, que compreende os capítulos 13 a 21 do Quarto Evangelho. Trata-se de uma seção profundamente simbólica, construída não apenas como narrativa histórica, mas como catequese espiritual para comunidades marcadas pela perseguição, pelo conflito interno e pela tensão com o poder religioso e político do final do primeiro século. O Evangelho joanino nasce em um contexto de ruptura traumática entre grupos cristãos e setores da sinagoga judaica após a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. pelo Império Romano. A comunidade joanina experimentava exclusão religiosa, marginalização social e perseguição cultural. Por isso, o discurso de Jesus sobre tristeza, dor e alegria não é abstrato nem meramente espiritualizado. Ele emerge de um chão histórico concreto, marcado pelo sofrimento real das comunidades. Quando Jesus afirma: “Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará” (Jo 16,20), Ele não apenas descreve a dor imediata dos discípulos diante da paixão iminente. Ele revela uma estrutura permanente da história humana. Há um conflito entre a lógica do Reino de Deus e a lógica do mundo. No Evangelho de João, o termo “mundo” possui múltiplos sentidos. Em alguns momentos, designa a criação amada por Deus, como em João 3,16. Em outros, representa o sistema organizado de oposição à vida, à verdade e à justiça. Aqui, claramente, “o mundo” é o conjunto das estruturas de poder que celebram a morte dos inocentes, naturalizam a violência e transformam a opressão em normalidade política, econômica e religiosa.
Jesus pronuncia estas palavras poucas horas antes de sua prisão. O pré-texto imediato é o lava-pés de João 13, gesto profundamente revolucionário numa sociedade marcada pela hierarquia e pela pureza ritual. O Mestre ajoelha-se diante dos discípulos, assume a condição do servo e desmonta toda compreensão autoritária do poder religioso. Em seguida, anuncia traição, abandono e sofrimento. A ceia joanina não possui a instituição explícita da Eucaristia como nos Sinóticos, mas possui algo talvez ainda mais radical: a revelação de que a comunhão verdadeira só existe quando o poder se transforma em serviço.

Nesse horizonte, a tristeza dos discípulos não é apenas emocional. Trata-se do colapso de suas expectativas messiânicas. Eles ainda esperavam um Reino glorioso segundo categorias políticas convencionais. Esperavam triunfo visível, estabilidade, restauração nacional. A cruz destrói essas projeções. A morte de Jesus desmascara a violência do Império Romano, a cumplicidade das elites religiosas e a fragilidade humana dos próprios discípulos. O Cristo não morre apenas pelas mãos de Roma. Morre também pela aliança entre religião e poder..Esse dado possui enorme relevância contemporânea. Em todas as épocas, inclusive em nosso tempo, existe a tentação permanente de instrumentalizar Deus para legitimar projetos de dominação. A religião frequentemente é capturada por ideologias de controle social, nacionalismos autoritários e sistemas econômicos excludentes. Quando a fé perde sua dimensão profética, ela deixa de ser Boa Nova para os pobres e se transforma em aparato de manutenção da ordem. Jesus denuncia precisamente essa perversão.
A metáfora do parto utilizada em João 16,21 é uma das imagens antropológicas mais belas e profundas do Novo Testamento. “A mulher, quando vai dar à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra do sofrimento, por causa da alegria de ter vindo um ser humano ao mundo.” O símbolo do parto atravessa toda a tradição bíblica. Em Isaías 66,7-14, Sião aparece como mulher que gera um povo novo. Em Miqueias 4,9-10, o sofrimento do parto torna-se imagem da esperança coletiva. Em Romanos 8,22, Paulo afirma que toda a criação geme em dores de parto aguardando redenção.
No mundo bíblico, o parto era experiência profundamente arriscada. A mortalidade materna era elevada. Não havia anestesia, segurança hospitalar ou assistência adequada para a maioria das mulheres pobres. A dor do parto simbolizava vulnerabilidade extrema, mas também potência criadora. Jesus utiliza precisamente essa experiência para revelar que o Reino nasce no interior da dor histórica. Não existe ressurreição sem travessia da cruz.
A antropologia cultural nos ajuda a compreender que sociedades antigas frequentemente associavam o sofrimento do parto à ambiguidade da vida humana: dor e esperança coexistindo inseparavelmente. O nascimento é ruptura traumática, passagem, transformação radical. Assim também acontece com a experiência espiritual e histórica das comunidades humanas. Nenhuma transformação profunda ocorre sem crise.

Por isso, o cristianismo autêntico jamais pode ser reduzido a espiritualidade alienante, triunfalismo religioso ou teologia da prosperidade. O Evangelho não promete imunidade ao sofrimento. Promete sentido, presença e esperança dentro da travessia histórica. A lógica neoliberal contemporânea, porém, transforma felicidade em mercadoria e sofrimento em fracasso individual. A fé mercantilizada vende sucesso pessoal, riqueza financeira e vitória social como sinais automáticos da bênção divina. Tal perspectiva contradiz frontalmente o Evangelho de Jesus.
A chamada teologia da prosperidade, difundida em diversos ambientes religiosos contemporâneos, representa uma profunda distorção hermenêutica da tradição bíblica. Ela substitui o Deus do Êxodo pelo deus do mercado. Troca a cruz pelo consumo. Reduz oração a técnica motivacional. Nessa lógica, pobres são culpabilizados por sua própria pobreza, enquanto ricos são apresentados como modelos espirituais. Jesus, porém, jamais associou riqueza à santidade. Pelo contrário. Em Lucas 6,20, proclama: “Bem-aventurados vós, os pobres.” Em Mateus 25,31-46, identifica-se diretamente com os famintos, presos e excluídos..João 16 denuncia precisamente o escândalo de um mundo que se alegra enquanto os justos choram. Essa dinâmica permanece brutalmente atual. Vivemos em uma civilização marcada pela concentração obscena de riqueza, pela destruição ambiental, pela precarização da vida e pela naturalização da violência. Crianças morrem de fome enquanto mercados financeiros celebram lucros recordes. Povos indígenas são expulsos de seus territórios em nome do agronegócio predatório. Migrantes são tratados como ameaça. Mulheres continuam vítimas de violência estrutural em sociedades patriarcais. Negros seguem morrendo nas periferias sob o peso histórico do racismo.

Nesse contexto, recordar os ataques sofridos por figuras públicas comprometidas com a justiça socioambiental revela a permanência da lógica denunciada pelo Evangelho. Quando mulheres são silenciadas, ridicularizadas ou violentadas em espaços institucionais, manifesta-se não apenas misoginia individual, mas uma estrutura histórica de dominação. A reação hostil contra mulheres que resistem ao poder autoritário reproduz mecanismos antigos de exclusão. O corpo feminino continua sendo território de disputa simbólica e política.
Jesus utiliza justamente a figura da mulher que dá à luz para revelar que a vida nova nasce das dores históricas dos marginalizados. Há aqui uma profunda inversão teológica. O Reino não nasce nos palácios imperiais nem nos templos aliados ao poder. Nasce nas periferias da história. Nasce no ventre das mulheres pobres. Nasce entre pescadores da Galileia. Nasce entre trabalhadores explorados pelo sistema tributário romano.. A geografia do Evangelho é profundamente significativa. A Galileia do século I era região marginalizada economicamente em relação à Judeia. Era espaço de mistura cultural, tensão política e exploração econômica. O campesinato galileu sofria com impostos abusivos, concentração fundiária e presença militar romana. Jesus nasce e atua nesse contexto de sofrimento social concreto. Sua mensagem não é abstrata. É encarnada.

A sociologia da religião ajuda a compreender como movimentos espirituais frequentemente surgem entre populações marginalizadas. O cristianismo primitivo foi, inicialmente, movimento de pobres, mulheres, escravizados e excluídos. Seu anúncio subvertia hierarquias tradicionais ao afirmar que todos possuem dignidade diante de Deus. Paulo escreve em Gálatas 3,28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher.” Essa afirmação era explosiva no mundo antigo.
Por isso, a alegria prometida por Jesus é profundamente política no sentido mais elevado do termo. Não política partidária estreita, mas política da dignidade humana, da justiça e da comunhão. O Magnificat de Maria em Lucas 1,46-55 já anunciava essa subversão: Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta humildes. O cristianismo perde sua alma quando abandona os pobres.
O Concílio Vaticano II recuperou fortemente essa dimensão histórica da fé. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Aqui ressoa diretamente João 16. A Igreja é chamada a compartilhar as dores do mundo, não a fugir delas.

A Conferência de Medellín em 1968 aprofundou essa perspectiva ao denunciar estruturas de pecado presentes na sociedade latino-americana. Puebla, em 1979, reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida, em 2007, insistiu na necessidade de uma Igreja em saída missionária, próxima dos sofrimentos reais do povo. O Papa Francisco retoma continuamente essa tradição ao denunciar “uma economia que mata” e ao criticar o clericalismo como deformação da vida eclesial. O clericalismo constitui uma das patologias espirituais mais graves da Igreja contemporânea. Ele transforma ministério em privilégio, autoridade em dominação e serviço em poder. No Evangelho de João, Jesus desmonta radicalmente essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. Onde existe clericalismo, a comunidade deixa de ser povo de Deus e se converte em estrutura piramidal de controle. O clericalismo infantiliza os leigos, silencia mulheres e sufoca a dimensão profética da fé.

Psicologicamente, sistemas religiosos autoritários frequentemente produzem culpa patológica, dependência emocional e medo espiritual. A manipulação religiosa utiliza símbolos sagrados para controlar consciências. Jesus, porém, age de modo oposto. Ele liberta. Ele cura. Ele restitui dignidade. Ele rompe mecanismos de exclusão religiosa. Em Marcos 2,27 afirma: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” A extrema direita religiosa contemporânea frequentemente instrumentaliza o cristianismo como ferramenta identitária e ideológica. Constrói inimigos morais, promove pânico social e reduz o Evangelho a guerra cultural. Nesse processo, o Cristo das bem-aventuranças é substituído por um messias nacionalista e violento. A cruz deixa de ser solidariedade com os crucificados da história e se transforma em símbolo de poder tribal.

Os Evangelhos Sinóticos ajudam a iluminar ainda mais João 16. Em Marcos 8,34, Jesus afirma: “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” Em Mateus 5,4 proclama: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Em Lucas 24,26 pergunta aos discípulos de Emaús: “Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” João aprofunda teologicamente essa tradição ao apresentar a cruz já como glorificação. No Quarto Evangelho, a paixão não é derrota definitiva, mas revelação máxima do amor.
Existe também diferença redacional importante. Enquanto os Sinóticos enfatizam mais explicitamente o abandono e a angústia de Jesus, João apresenta um Cristo soberano que atravessa livremente a paixão. Essa perspectiva não elimina o sofrimento, mas sublinha que o amor permanece mais forte que a violência.

A psicologia da esperança humana revela que pessoas e comunidades conseguem resistir ao sofrimento quando encontram significado coletivo para sua dor. Viktor Frankl observou que o sentido sustenta a existência mesmo em condições extremas. O Evangelho oferece precisamente uma esperança histórica e transcendente capaz de impedir que a dor se transforme em desespero absoluto..João 16,22 afirma: “A vossa alegria ninguém poderá tirar.” Trata-se de afirmação extraordinária. Jesus não promete ausência de perseguição. Pelo contrário. O próprio Evangelho joanino fala de expulsão das sinagogas e hostilidade do mundo. A alegria cristã não depende de estabilidade econômica, reconhecimento social ou sucesso político. Ela nasce do encontro com o Ressuscitado e da experiência de comunhão solidária.

Essa alegria possui dimensão escatológica. Ela aponta para a plenitude futura do Reino. Contudo, também possui dimensão histórica concreta. Ela já se manifesta onde existe compaixão, justiça e resistência ao mal. Surge nas comunidades que partilham pão. Nas mães que sustentam filhos em contextos de pobreza extrema. Nos povos indígenas que defendem a terra como sacramento da vida. Nos agentes pastorais perseguidos por defender direitos humanos. Nos jovens que recusam discursos de ódio. Nos trabalhadores que lutam por dignidade.
A tradição profética bíblica sempre denunciou religião vazia e culto desvinculado da justiça. Isaías 1,11-17 rejeita sacrifícios sem compromisso ético. Amós 5,21-24 proclama: “Quero ver o direito brotar como fonte.” Miqueias 6,8 resume a vontade divina: praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Jesus se insere integralmente nessa tradição. Por isso, não existe espiritualidade cristã autêntica compatível com indiferença diante da fome, do racismo, da misoginia e da destruição ambiental. A fé que ignora o sofrimento humano torna-se idolatria religiosa. A cruz de Cristo revela que Deus não está do lado dos impérios da morte, mas dos crucificados da história.

O CELAM insiste repetidamente na necessidade de uma evangelização libertadora e encarnada. O Documento de Aparecida afirma que a Igreja deve ser “advogada da justiça e defensora dos pobres”. Essa missão exige discernimento crítico diante das ideologias contemporâneas. Nem todo discurso religioso é evangélico. Nem toda invocação do nome de Deus produz vida.
A crise contemporânea também é crise de sentido. Milhões vivem esmagados pela lógica do desempenho, pela hipercompetitividade e pelo isolamento social. O individualismo neoliberal destrói vínculos comunitários e transforma pessoas em consumidores permanentes. Nesse cenário, João 16 oferece horizonte profundamente humano. A tristeza não é negada. O sofrimento não é romantizado. Mas a dor não possui a última palavra.
A ressurreição não apaga as feridas de Cristo. O Ressuscitado continua marcado pelos cravos. Isso significa que a memória do sofrimento permanece integrada na história da salvação. O cristianismo não é amnésia espiritual. É transformação da dor em solidariedade.

Há também profunda dimensão contemplativa nesse texto. Jesus convida os discípulos a atravessarem a noite confiando na fidelidade do Pai. Trata-se de espiritualidade da esperança teimosa. Não esperança ingênua, mas esperança resistente. A esperança bíblica nasce frequentemente em contextos de exílio, perseguição e aparente fracasso.
A própria história da Igreja testemunha isso. Mártires antigos e contemporâneos revelam que a alegria do Evangelho floresce mesmo sob perseguição. Oscar Romero, assassinado enquanto celebrava a Eucaristia em El Salvador, afirmava que a Igreja deve estar onde o povo sofre. Dorothy Stang entregou a vida defendendo os pobres da Amazônia. Dom Hélder Câmara denunciou as estruturas de opressão que produzem fome e violência. Essas testemunhas encarnam João 16. O Reino continua germinando silenciosamente nas periferias do mundo. Continua nascendo em comunidades invisíveis aos olhos dos poderosos. Continua florescendo onde alguém reparte pão, acolhe feridos e resiste à lógica da morte. O Cristo Ressuscitado permanece caminhando entre os pobres.

A conclusão dessa perícope é profundamente significativa. Jesus afirma: “Naquele dia, não me perguntareis mais nada” (Jo 16,23a). Não se trata da eliminação do pensamento crítico ou das perguntas humanas. Trata-se da plenitude da comunhão. O encontro definitivo com Deus dissipará as ambiguidades da história. Contudo, enquanto caminhamos neste mundo, continuamos perguntando, buscando, discernindo e lutando.
A fé cristã madura não foge das perguntas difíceis. Ela atravessa a dúvida sem abandonar a esperança. O próprio Cristo clamou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). O Evangelho legitima o grito humano diante da dor. Por isso, a Igreja não pode oferecer respostas simplistas ao sofrimento do mundo. Sua missão é caminhar solidariamente com os que choram, denunciar estruturas de injustiça e anunciar que a vida é mais forte que a morte. João 16 não é convite à resignação passiva. É convocação à esperança ativa.
Em tempos marcados pela banalização da violência, pelo crescimento de fundamentalismos religiosos e pelo avanço de discursos autoritários, o Evangelho continua sendo palavra profundamente subversiva. Jesus permanece desafiando sistemas que transformam pessoas em descartáveis. Permanece denunciando alianças perversas entre religião e poder. Permanece chamando discípulos e discípulas para uma espiritualidade encarnada, solidária e libertadora.
A alegria prometida por Cristo continua sendo perigosa para os impérios da morte porque ela gera resistência. Quem experimenta essa alegria não aceita facilmente a lógica da opressão. Não se conforma com injustiças naturalizadas. Não transforma fé em mercadoria. Não adora líderes políticos como salvadores messiânicos.

A verdadeira alegria cristã nasce da certeza de que Deus continua agindo na história, mesmo quando tudo parece perdido. Ela floresce no interior da luta coletiva por dignidade. Surge quando comunidades escolhem partilhar em vez de acumular. Quando a compaixão vence o medo. Quando o amor rompe os ciclos de violência.
João 16,20-23a permanece, assim, como uma das mais profundas sínteses da espiritualidade pascal. O Cristo não promete fuga da história, mas presença no interior dela. Não promete ausência de lágrimas, mas transformação das lágrimas em esperança. Não promete vitória triunfalista segundo os critérios do mundo, mas fidelidade amorosa capaz de atravessar a cruz. E talvez seja precisamente essa a grande tarefa espiritual do nosso tempo. Permanecer humanos em meio à brutalidade. Permanecer compassivos em meio ao ódio. Permanecer solidários em meio ao individualismo. Permanecer proféticos em meio à manipulação religiosa. Permanecer discípulos do Ressuscitado quando tantos desejam transformar o Evangelho em instrumento de dominação.
A tristeza dos discípulos se transformará em alegria porque o amor crucificado ressuscitou. E toda vez que alguém escolhe a justiça em vez da violência, a partilha em vez da acumulação, a misericórdia em vez da condenação, essa ressurreição continua acontecendo na história.

Que a Igreja jamais esqueça isso. Que nunca troque o Reino pelo poder. Que nunca transforme o altar em palco de ideologias autoritárias. Que nunca abandone os pobres. Que nunca silencie diante das vítimas da história. Porque o Cristo continua vivo entre os que resistem. Continua ressuscitando nas periferias do mundo. Continua chorando nos crucificados da história e sorrindo nas pequenas vitórias da dignidade humana.
E ninguém poderá tirar essa alegria daqueles que aprenderam a reconhecer o Ressuscitado no rosto dos pobres, dos perseguidos e dos que continuam acreditando, mesmo em meio à noite, que a vida vencerá.

Por isso, mesmo em meio às lágrimas e ao peso das injustiças, seguimos firmes, alimentados por essa promessa: a tristeza se transformará em alegria. Não caminhamos em vão. A cruz que carregamos hoje é semente de ressurreição. A esperança que floresce do chão dos oprimidos é sinal de que o Reino está próximo,   e já desponta entre nós, nas pequenas vitórias do amor, da solidariedade e Que assim seja.... fé que não desiste. 

DNonato – Vigia das alegrias indomáveis do Reino, teólogo do cotidiano, indignado pela justiça e indigente do sagrado.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXIV


Desde o Éden, quando Adão apontou Eva e Eva a serpente, o gesto de transferir a culpa parece ter se fixado em nosso código existencial. 
Terceirizar a responsabilidade, colocar a culpa no outro por nossas omissões ou leviandades, é um reflexo ancestral. Somos assim: tantas vezes relutantes em reconhecer nossas fragilidades e desvios. Queremos que o outro seja o ser humano perfeito, repleto de qualidades, mas não nos empenhamos em ser esse humano para o outro.
Ansiamos por paz, mas frequentemente oferecemos conflito. Desejamos amor, mas semeamos o rancor. E, mesmo assim, insistimos em afirmar que o defeito está no outro, que ele é o culpado. Exigimos que aceitem nossas imperfeições, enquanto cobramos do outro aquilo que, muitas vezes, não conseguimos oferecer.
Esperamos que o outro seja comoum anjo — sem vontades, sem desejos próprios —, apenas um servo da nossa segurança emocional. No entanto, ser autêntico, dizer “não” a quem se ama, ou indignar-se diante de atitudes injustas, não nos torna inimigos. Pelo contrário: isso é maturidade. É amor que não se acomoda, mas cresce.
Relacionamentos humanos são construídos entre pessoas distintas, com histórias, ideias, dores e alegrias únicas. Muitas vezes, reclamamos do excesso ou da ausência de cuidado do outro, sem perceber que também exageramos ou faltamos. Enfim, somos humanos. E, como tais, temos o direito — e o dever — de buscar caminhos para nossos próprios conflitos. Não é justo cobrar o que não damos, nem esperar que o outro seja uma espécie de “anjo da guarda” que nos acompanha em silêncio, engolindo tudo sem questionar.
Aliás, até os anjos, segundo a tradição religiosa, têm a missão de advertir. Não são bonecos decorativos nem sombras obedientes. Nos alertam sobre escolhas erradas. Mas preferimos não escutar, como se fossem apenas presságios ou intuições vagas.
E aqui vale lembrar: um dia houve um anjo que, fascinado por sua própria beleza e luz, quis ocupar o lugar de Deus. Não suportou ser apenas uma criatura entre outras — desejava ser adorado, desejava que sua vontade fosse absoluta, que sua luz ofuscasse todas as demais. Esse anjo, tomado por orgulho, não queria servir: queria ser servido. Não queria comunhão: queria domínio. E ao tentar impor sua grandeza acima da humildade, transformou a própria luz em sombra, e foi precipitado no abismo que ele mesmo cavou com sua vaidade.
Esse anjo representa mais do que uma figura teológica: ele é o espelho dos nossos egos inflados. Sempre que nos recusamos a reconhecer o outro como legítimo em sua diferença, sempre que exigimos centralidade, aplauso, controle absoluto sobre os afetos e ações alheias, encenamos esse mesmo drama celeste. Tentamos nos tornar “deuses” nos relacionamentos, desejando que o outro orbite ao nosso redor — sem crítica, sem vontade, sem voz. Mas todo ego que se pretende absoluto é, no fundo, um precipício disfarçado de trono.
Enquanto esse anjo caía por tentar subir demais, Cristo, sendo Deus, escolheu descer: esvaziou-se de sua glória (cf. Fl 2,6-8), tomou a forma de servo, e mostrou que a verdadeira grandeza está em se entregar. Amar é descer do trono do ego e sentar-se à mesa da partilha.
Temos o péssimo hábito de querer que o outro se encaixe no nosso ideal, moldando-o com críticas: se é gordo ou magro, solteiro ou casado, religioso ou não. Esquecemos de nos olhar no espelho e avaliar nossas próprias condutas. E não se trata apenas de um espelho de vidro, mas daquele que nos mostra as sombras que escondemos. Quem se recusa a olhar para si vive de projetar no outro aquilo que teme encarar.
Se alguém nos liga, reclamamos; se não liga, também nos queixamos. Se somos cuidados, achamos sufocante; se nos faltam, nos vitimizamos. Até quando viveremos essa gangorra emocional? Quantas vezes exigimos do outro o que nós mesmos não ousamos entregar? Até quando tentaremos ser deuses nos afetos, sem assumir a humildade de simplesmente amar?
Como nas avenidas, em que há tráfego nos dois sentidos, os relacionamentos também são assim: se você oferece amor, receberá amor. Se transmite insegurança e desconfiança, é isso que colherá. Se não aceita os defeitos do outro, também não terá os seus aceitos. Essa é a lei da vida.
Se você permite que todos decidam por você, ignorando os valores que moldaram seu caráter, sua vida poderá parecer exemplar — mas talvez esteja imitando aquele anjo que, em nome da própria virtude, desejou ser mais que Deus. Há um tipo de “virtude” que se disfarça de luz, mas carrega orgulho e controle.
Somos homens e mulheres guiados por emoções, e essas emoções podem nos elevar ou nos arruinar. É isso que nos diferencia dos anjos. Saber conduzir esse turbilhão emocional pode nos tornar mais humanos e, quem sabe, mais próximos do divino.
Amar alguém não deve nos anular, nem nos transformar em zumbis emocionais. Amar é corresponsabilidade: uma troca consciente, constante e real. Quem ama só pode cobrar aquilo que está disposto a oferecer. Se você faz o outro sofrer, inevitavelmente também sofrerá. Se provoca lágrimas, também chorará. A vida é uma via de mão dupla — e a sinalização é feita pelas nossas atitudes.
Os conflitos surgem quando, no meio dessa via, o outro freia bruscamente ou você invade o espaço dele. Não somos imortais, nem anjos, e o conflito emocional constante pode nos matar aos poucos. Morremos emocionalmente — matamos nossos sonhos, nossos desejos, nossa felicidade — e nos tornamos zumbis sociais, reféns das expectativas alheias.
Precisamos de alteridade. Precisamos romper o ciclo da infantilidade — e seguir quem realmente somos, enfrentando nosso orgulho, nossa carência, nossa imaturidade. A felicidade começa quando deixamos de esperar um anjo ao nosso lado e aceitamos o humano que caminha conosco. Ainda é tempo de parar na beira da estrada, rever a rota e seguir mais leves — sem exigir asas do outro, mas oferecendo mãos.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado. “Todo ego que se pretende absoluto é, no fundo, um precipício disfarçado de trono.”

1.       Não precisa de uma sequência  para essa leitura, escolha ou faça a sua 

  1. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo.
  2. A Questão do Sentimento e Respeito a si mesmo II
  3. A Questao de sentimento  e o Respeito  por si mesmo III
  4. A Questão do Sentimento, Respeitsi mesmo IV
  5. Questão do sentimento, Respeito a si mesmo V
  6. Questão do sentimento, respeito a si mesmo VI
  7. Questão do sentimento, respeito por si mesmo VII
  8. Questão do Sentimento, respeito si mesmo VIII
  9. Questão de sentimento e Respeito a si mesmo IX
  10. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo X
  11. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XI
  12. Questão de sentimento Respeito por si mesmo XII
  13. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XIII
  14. Questão de sentimento respeito por si mesmo XIV
  15. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XV
  16. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVI
  17. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo ​XVII​​​
  18. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVIII.
  19. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.
  20. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XX.
  21. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXI
  22. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXII
  23. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIII



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XVI


Quem nunca se pegou sorrindo por fora e em guerra por dentro?

O coração humano é esse campo de batalha constante entre o desejo e a consciência, entre o que sentimos e o que julgamos sentir. Sentir prazer ou alegria é essencial para que nos sintamos integrados à realidade concreta da vida. Contudo, somos nós os responsáveis pelas nossas escolhas — certas ou erradas. Ainda assim, é comum atribuirmos os caminhos que trilhamos aos caprichos do Divino ou do destino. No entanto, é crucial lembrar: somos nós que moldamos o amanhã, que construímos nossa história e que realizamos aquilo que está ao nosso alcance.

Frequentemente, olhamos para os acontecimentos e responsabilizamos os outros — ou as circunstâncias da vida — pelas dores que experimentamos, quando, na verdade, cada situação emerge das decisões que tomamos. Ao revisitarmos nossa própria trajetória, encontramos sonhos, aventuras e o desejo legítimo de sermos felizes com o que temos e com o que somos. Apesar disso, persistimos em culpar o outro. Afirmamos que este ou aquele compreende melhor o que se passa em nosso íntimo, como se o que sentimos pudesse ser mensurado ou corrigido por alguém externo.

Poucas coisas nos desestabilizam tanto quanto a tentativa alheia de nos ensinar a sentir o que já sentimos — mesmo involuntariamente — ou quando vivenciamos a emoção de um sentimento que, teoricamente, não deveria existir. Somos, portanto, responsáveis pelas nossas dores, nossas alegrias e, sobretudo, pelo mal que causamos ao próximo. Aprendi essa lição há muitos anos, quando precisei escolher entre silenciar meus sentimentos ou correr o risco de não ser compreendido. Vale evocar as palavras de um santo que reconheceu, em meio à sua missão, os próprios conflitos interiores: “Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio.” (Romanos 7,15). Essa dualidade nos define: desejamos o bem, mas tantas vezes praticamos o contrário.
Em certos momentos, somos chamados a decidir — e a escolha nos coloca entre o bem e o mal. Por ignorância ou por prazer, permitimo-nos ser guiados pelo desejo de fazer nossa própria vontade, sem nos importarmos com sua justiça. O anseio é simplesmente sermos livres, inclusive das regras que estabelecemos para nós mesmos. Que possamos cultivar em nós um único desejo: praticar o bem — sempre o bem maior.
Desconhecemos os motivos de certas escolhas, assim como a origem de tanta mágoa ou rancor. Contudo, sabemos que um sentimento rejeitado pode se transformar em dor profunda em um futuro próximo, uma dor talvez irreparável. Rejeitar um sentimento verdadeiro assemelha-se a silenciar uma criança que tenta nos indicar onde sente dor. Ela se cala... mas a dor persiste.
O passado é irrevisível. O relógio não retrocede após a hora marcada e o instante perdido. Quisera Deus que pudéssemos, como um Super-Homem de alma ferida diante da morte da amada, voar na tentativa desesperada de fazer o tempo retroceder — unicamente para evitar a dor da perda, tal como Hércules lamentou a perda de sua família ou Orfeu a de Eurídice. Essa fantasia inevitavelmente nos desperta uma ponta de inveja nobre, se é que tal sentimento existe.
Essa imagem ecoa nosso desejo humano fundamental de corrigir o passado, de desfazer as escolhas que nos trouxeram sofrimento ou causaram dor a outros. Se possuíssemos esse poder extraordinário de viajar pelas linhas temporais, talvez revisitássemos aqueles momentos cruciais em que nos encontramos na encruzilhada entre o desejo egoísta e a consciência, entre a palavra áspera proferida e o silêncio compassivo. Essa fantasia de controle temporal nos confronta, em última análise, com a imutabilidade do já vivido e a importância de assumirmos integralmente as consequências de cada decisão, pois, desprovidos de superpoderes, resta-nos apenas a capacidade presente de construir um futuro diferente, aprendendo com as cicatrizes do ontem.
Em nossa realidade, o relógio, implacável, jamais gira ao contrário depois da hora marcada e do momento perdido. Quando o tempo silencia, o que nos resta é a quietude da saudade.


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*DNonato – Leigo católico, graduado em História, sem superpoderes, mas com amor bastante para continuar tentando.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XIV

Ontem te vi chorar de novo. Ficamos ali, parados, apenas contemplando o silêncio do teu olhar molhado, tentando dizer, sem palavras, que eu também não sabia onde guardar tanta emoção. Não havia resposta exata, apenas atitude — no encontro dos nossos lábios, no abraço desesperado pedindo um pouco de afeto — para dar algum sentido a essa vida confusa que insiste em nos afastar e nos proibir de sermos, simplesmente, um homem e uma mulher.  Sofrer por amar e não ser amado é algo que todo ser humano experimenta em sua vida em algum momento. Sabemos, em nossos corpos — pra não dizer na alma —, o que carregamos. Somos inteiros divididos em dois mundos. Somos parte da mesma  essência, mas obrigados, por nossas escolhas, a seguir caminhos opostos: eu, rumo à solidão por escolha; você, em direção a uma prisão sem muros.
Entre nós dois não há inocentes. Também não há culpados. Somos o que somos: humanos. Experimentamos um envolvimento de corpos, um encontro por prazer, por desejo de encontrar um instante de felicidade. Nosso sentir, nosso ser, não podem ser reduzidos a uma aventura ou a um fogo em carpela. Somos frágeis — e em nossa fragilidade, um vulcão nos consome.

Esse vulcão nos incendeia, nos toma por inteiro, nos faz sofrer por querermos estar juntos por mais que minutos ou horas. Queremos uma eternidade vivida em um dia — mesmo que isso signifique o fim do mundo amanhã. Na tentativa de evitar esse fim, tu revelas tuas imaturidades, tua “chicha” — e sabes, no fundo, que o que temos é algo mais.

Uma carta de uma amiga me veio à mente:

"Certa vez, tive um sonho de ser feliz. Esse sonho me levou ao encontro de uma pessoa que me fez sentir algo maior que a própria felicidade, por certo tempo. O castelo construído na base de um sentimento real foi se revelando ilusão… e, aos poucos, desmoronou.
"Amo-te há tanto tempo… mas também te odeio, pelas poucas vezes em que trouxeste o sofrimento à tona. No meu coração, na minha vida, só um desejo: Te fazer feliz. Sei que cheguei perto. Naquela loucura vivida, naquela entrega, fui inteira.
"É muito estranho. Destruí meu único refúgio, que era você. Nos tornamos amargos, tristes, e precisamos reconhecer — no brilho dos olhos, no sorriso escondido, nos momentos secretos — que ainda precisamos um do outro, para cessar a dor acumulada de tantas desventuras."

Somos como crianças que não sabem onde esconder o rosto depois de aprontar. Somos imaturos, tolos nas atitudes. Mas, como diz o poeta: 

"É preciso perder um pouco para ganhar o inteiro". 

E tudo que fizeste… foi perder toda a graça que tinhas, por alguns minutos.
Espero te reencontrar… Mesmo destruídos, mesmo sufocados por essa utopia do sentimento. Talvez, nesse reencontro, possamos encontrar um pouco daquilo que perdemos. E tudo que fizeste… foi perder toda a graça que tinhas, por alguns minutos...



Daniel Nonato – Teólogo do cotidiano, P em História

terça-feira, 22 de julho de 2014

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XI

Por DNonato* 
Por vezes, escutamos a frase: "Você não é nada.
" Tal afirmação soa brutal — especialmente quando proferida por alguém que se diz cristão — e compreendemos bem a dor que ela acarreta. Deus, nosso Pai, nos concebeu como seres únicos, em um universo de particularidades, onde cada indivíduo carrega um brilho singular. Ainda assim, temos a capacidade sombria de reduzir o outro a uma partícula insignificante de um mundo irreal.
Gostamos de nos apresentar como donos do controle, quando, na verdade, muitas mágoas nascem de atitudes movidas por um orgulho imaturo e insensato. As palavras ferem como lâminas. E quando pedimos que respeitem nossa intimidade como algo sagrado, paradoxalmente, a transformas em troféu a ser exibido diante de todos.
Demonstras uma força que agora negas possuir. Em teus lábios, há apenas falsidade. Foste capaz de fazer uma acusação infundada, lançando-nos na posição injusta de quem cobiça o que não lhe pertence. Nossas palavras, naquele instante, expressaram mágoa, não amor. Teria sido mais digno calar, pois o silêncio fala mais alto quando nasce de um coração sensível.
Na tradição bíblica, a palavra tem um peso sagrado — “A morte e a vida estão no poder da língua”¹. Proferir injúrias é, portanto, ferir a imagem e semelhança de Deus no outro, esquecendo que somos todos “pó e sopro”² — frágeis, mas infinitamente sagrados.
Como bem observa a antropologia, o reconhecimento é um dos pilares que sustentam a existência humana³. Negar esse reconhecimento é como ferir o servo sofredor, rejeitado por todos, como descrito por Isaías. Nas antigas sociedades, como a romana, ser banido da polis era comparável a deixar de existir⁴. Não ser visto é, de algum modo, deixar de ser.
Adotamos comportamentos que, aos olhos dos que te cercam, se tornam motivo de rótulos: insensatos, insignificantes. Nossa opinião perde valor, tua escuta nos rejeita. Desprezas quem tenta te orientar para o bem. E nos tornamos impotentes ao ouvir tua voz e não conseguir resistir a ela. Somos tratados como brinquedo; e o carinho, quando nos é negado, nos torna desvalorizados
A cultura greco-romana ensinava que os afetos eram parte da paideía — a formação ética do coração. O verdadeiro sábio cultivava a philía, o amor fraterno, como sinal de maturidade e justiça⁵. Santo Agostinho resumiu isso com simplicidade desarmadora: “Ama e faz o que quiseres”⁶ — porque quem ama de verdade jamais age com injustiça
Teus gestos e palavras te denunciam, e nos relegam à condição de vencidos, como cantou Renato Russo em Monte Castelo⁷ e como a banda Jota Quest proclamou em Amor Maior, dizendo que precisa de um amor maior, e de você, com qualquer humor, com qualquer sorriso⁸. Mas nossa alegria não pode ser sustentada pelas lágrimas que derramamos diante da tua incompreensão, da tua falta de cuidado com nossa história.
Do ponto de vista teológico, o sofrimento nunca é só dor: é lugar de encontro. Na cruz, Cristo ressignifica a dor humana como revelação do amor. Ferir o outro gratuitamente é, assim, recusar o Cristo presente no sofredor⁹. E não há fé verdadeira onde falta compaixão.
Dizes conhecer o sofrimento, mas parece que foi há tanto tempo que já esqueceste como dói uma ferida aberta pela palavra. Duvidamos que sintas tanta angústia quanto quem vive solitário e tem na saudade sua única companhia. Tuas escolhas são difíceis, imprudentes e tolas.
Se tua intenção era magoar, parabéns: conseguiste. Nossa maior indignação¹⁰, no entanto, não vem disso, mas do fato de que estiveste em nossa vida para iluminar com certo fulgor — e, ao final, levaste até o cinza sem graça que antes coloria nossos dias. Deixaste tudo na melancolia...
Sabemos que tu também necessitas de nossa presença para que tua felicidade seja plena — assim como nós precisamos da tua. Resta-nos esperar que tenhas coragem de te assumir, descer do alto da barreira ilusória que construíste e aceitar renunciar à fantasia... para, enfim, ganhar.
Não te propomos o ontem, pois já é passado, e nem o amanhã, pois é futuro. Te pedimos: venha logo no presente¹⁰. Porque a vida é breve demais para quem anseia amar, ser amado e ser feliz... agora.
Pois como dizia o velho místico: “O tempo do amor é sempre agora.”¹¹
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* autor; DNonato Leigo católico, graduado em História
1. Provérbios 18,21 – Versículo do Antigo Testamento, parte da literatura sapiencial hebraica (século VI a.C.).
2. Gênesis 2,7 – Relato da criação do homem, compilado entre os séculos X e VI a.C.
3. Axel Honneth (n. 1949) – Filósofo alemão, integrante da Escola de Frankfurt, autor de A Luta por Reconhecimento.
4. Direito Romano – Sistema jurídico em vigor entre os séculos V a.C. e VI d.C.; o exílio significava perda de identidade cívica.
5. Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) – Filósofo grego, autor da Ética a Nicômaco, onde define a philía como virtude ética.
6. Santo Agostinho de Hipona (354 – 430 d.C.) – Bispo e teólogo cristão, autor de In Epistolam Ioannis ad Parthos.
7. Renato Russo – “Monte Castelo” (1993) – Canção da banda Legião Urbana, lançada no álbum O Descobrimento do Brasil, falando sobre o amor e a fé.
8. Jota Quest – “Amor Maior” (2001) – Canção da banda brasileira Jota Quest, composta em 2001, falando sobre o desejo de um amor mais profundo.
9. *Questão do Sentimento, Respeito por Si Mesmo X, publicado em 28/05/2014.
10. A Questão do Sentimento e Respeito a Si Mesmo II, publicado em 9/11/2011.
11. Anselm Grün, OSB (n. 1945) – Monge beneditino e autor contemporâneo, conhecido por obras espirituais voltadas à vida interior.
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