Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,13-21 - 18⁰ Domingo do Tempo Comum.

A liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum (Ano A) nos apresenta um conjunto de leituras profundamente articuladas entre si: Isaias 55,1-3; Salmo 144(145),8-9.15-16.17-18 (R. cf. 16); Romanos 8,35.37-39 e Mateus 14,13-21. Longe de constituírem textos independentes, elas formam uma única catequese sobre o Deus da Aliança, que escuta o clamor dos famintos, permanece fiel ao seu povo e, em Jesus Cristo, inaugura o banquete messiânico onde ninguém é excluído. A liturgia conduz a assembleia por um itinerário teológico que parte do convite gratuito à vida proclamado por:  Isaías, passa pelo testemunho do Deus providente cantado pelo salmista, encontra Paulo em Romanos a certeza de um amor que jamais abandona os seus e alcança sua plenitude no gesto de Jesus que parte o pão no deserto. A abundância prometida pelos profetas torna-se realidade na pessoa de Cristo, verdadeiro Pão da Vida, antecipando a Eucaristia e o banquete definitivo do Reino.

A perícope de Mateus 14,13-21 já foi objeto de outras reflexões em nosso blog, como Um breve olhar sobre Lucas 9,11b-17 , Corpus Christi: a Eucaristia que se faz compromisso e Um breve olhar sobre João 6,1-15 (2025), bem como em nosso canal no YouTube. Vale recordar ainda que esse mesmo Evangelho é proclamado na segunda-feira da 18ª Semana do Tempo Comum. No Ano A, porém, ele ocupa o lugar central da celebração dominical, evidenciando a importância teológica desse relato na caminhada da Igreja e na pedagogia litúrgica que conduz progressivamente ao discurso do Pão da Vida.

  • A primeira leitura Isaías 55,1-3:  pertence ao chamado Segundo Isaías (Is 40–55), escrito nos últimos anos do exílio babilônico. Israel atravessa uma das maiores crises de sua história. Jerusalém encontra-se destruída, o Templo foi reduzido a ruínas e o povo experimenta o drama da perda da terra, da identidade e da esperança. É justamente nesse contexto de aparente fracasso que o profeta anuncia uma palavra de extraordinária esperança: "Vós todos que tendes sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei." A força desse convite está precisamente em sua gratuidade. Água, vinho, leite e pão não designam apenas bens materiais, mas tornam-se símbolos da vida plena oferecida por Deus. A água representa a vida que brota gratuitamente da fidelidade divina; o vinho recorda a alegria messiânica; o leite simboliza o alimento que faz crescer; o pão aponta para a comunhão restaurada entre Deus e seu povo. O Senhor oferece aquilo que ninguém pode adquirir pelo mérito ou pelo dinheiro: a renovação da Aliança. O profeta denuncia, ao mesmo tempo, a ilusão daqueles que "gastam dinheiro naquilo que não alimenta e o salário naquilo que não sacia" (Is 55,2). Essa crítica ultrapassa o contexto do exílio e alcança todas as épocas. Também hoje homens e mulheres investem suas energias em bens incapazes de responder à sede mais profunda do coração humano. O consumismo, o individualismo, a absolutização do mercado, a busca incessante por prestígio e poder prometem felicidade, mas não conseguem saciar a fome de sentido, de justiça, de comunhão e de transcendência.Sob a perspectiva hermenêutica, Isaías anuncia o grande banquete escatológico prometido pelos profetas (cf. Is 25,6-9), quando Deus reunirá todos os povos ao redor de sua mesa. Essa promessa encontra sua realização em Jesus Cristo. Aquele que convida gratuitamente para comer e beber torna-se, no Evangelho, o próprio alimento oferecido ao mundo. A mesa anunciada por Isaías prepara a mesa do Reino inaugurada por Jesus.
  • O Salmo 145(144) prolonga essa esperança ao apresentar o verdadeiro rosto de Deus. "Todos os olhos esperam em vós, e vós lhes dais no tempo certo o alimento." O salmista não contempla apenas um Deus criador, mas um Deus cuidador, cuja grandeza manifesta-se na misericórdia. Os atributos repetidos ao longo do salmo, misericordioso, compassivo, paciente e cheio de amor, retomam a antiga profissão de fé de Israel (cf. Ex 34,6), revelando que o Senhor governa o mundo não pela força opressora dos impérios, mas pela fidelidade à sua Aliança. O centro da composição encontra-se na afirmação: "Abris a vossa mão e saciais os desejos de todos os viventes." Enquanto os poderosos fecham as mãos para acumular riquezas e preservar privilégios, Deus abre as mãos e reparte vida. O salmo torna-se, assim, verdadeira preparação para o Evangelho. Em Mateus, Jesus também abrirá as mãos para tomar os pães, elevar os olhos ao céu, pronunciar a bênção, partir o alimento e distribuí-lo à multidão. A providência celebrada pelo salmista torna-se visível na ação concreta do Filho.
  • A segunda leitura Romanos 8,35.37-39:  encerra uma das mais profundas reflexões paulinas sobre a vida nova em Cristo. Depois de apresentar a ação libertadora do Espírito Santo, Paulo proclama uma certeza que sustentou gerações de cristãos perseguidos: "Quem nos separará do amor de Cristo?" O Apóstolo não ignora a realidade do sofrimento. Pelo contrário, menciona tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada. Entre essas experiências aparece a fome, realidade que voltará ao centro da narrativa evangélica. Entretanto, Paulo afirma que nenhuma dessas situações possui a última palavra. A vitória cristã não nasce do êxito humano nem da prosperidade material, mas da fidelidade irrevogável de Deus. "Somos mais que vencedores" significa que o amor de Cristo permanece invencível mesmo quando tudo parece perdido. A cruz, que aos olhos do mundo representa derrota, torna-se manifestação definitiva da vitória do amor. Essa convicção prepara o Evangelho: o Cristo cujo amor jamais abandona seu povo será aquele que verá a multidão faminta e recusará deixá-la entregue ao abandono.
Chegamos, assim, ao Evangelho de Mateus 14,13-21. A narrativa inicia-se imediatamente após o relato do martírio de João Batista (Mt 14,1-12). Essa proximidade não é casual. Mateus constrói um vigoroso contraste entre dois banquetes que representam dois projetos de sociedade. De um lado encontra-se o banquete de Herodes Antipas. Celebrado dentro do palácio, cercado por autoridades, marcado pelo luxo, pela ostentação, pela manipulação política e pelo abuso do poder, esse banquete termina com a morte do profeta João Batista texto proclamado no sábado da 17ªsemana do Tempo Comum. O poder imperial alimenta seus privilégios à custa da vida dos inocentes. Do outro lado está o banquete de Jesus. Celebrado no deserto, entre os pobres, os enfermos, os excluídos e os famintos, ele culmina na vida abundante oferecida gratuitamente a todos. Enquanto Herodes preserva seu poder eliminando o profeta, Jesus revela que o verdadeiro poder consiste em servir, curar, acolher e alimentar. Esse contraste permanece atual. Também hoje convivem dois modelos de sociedade e de Igreja. De um lado, estruturas marcadas pelo privilégio, pela autorreferencialidade, pela lógica do poder e da exclusão; de outro, o Reino inaugurado por Cristo, onde a autoridade se expressa no serviço e a grandeza se manifesta na capacidade de repartir a vida.

Jesus ao receber a notícia da morte de João Batista, Jesus retira-se para um lugar deserto. Esse gesto não deve ser interpretado como medo ou fuga. Na tradição bíblica, o deserto é o espaço privilegiado da revelação de Deus. 

  • Foi no deserto que Israel aprendeu a depender exclusivamente do Senhor
  •  Foi no deserto  que Moisés encontrou sua vocação
  •  No deserto Elias reencontrou a esperança
  • No deserto  que  Jesus venceu as tentações antes de iniciar sua missão pública. 
O deserto representa, ao mesmo tempo, provação, purificação e renovação. Há ainda um significado mais profundo. Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés que inaugura um novo Êxodo, se Moisés conduziu Israel da escravidão do Egito rumo à terra prometida, Jesus conduz a humanidade da escravidão do pecado para a liberdade do Reino. No antigo Êxodo, Deus alimentou seu povo com o maná (Ex 16); agora, no novo Êxodo, o próprio Filho torna-se o alimento que sustenta a caminhada do novo povo de Deus. O deserto deixa de ser lugar de escassez para transformar-se em espaço da superabundância da graça. Quando a multidão descobre para onde Jesus havia ido, segue-o a pé. A tentativa de recolhimento transforma-se em nova manifestação da misericórdia divina,  Mateus afirma que, ao ver aquela multidão, Jesus "encheu-se de compaixão por ela e curou os seus doentes" (Mt 14,14).

O verbo grego utilizado pelo evangelista, splagchnízomai, exprime uma compaixão que brota das entranhas, indicando uma comoção profunda diante do sofrimento alheio, não se trata de um sentimento passageiro ou de uma emoção superficial. A compaixão de Jesus traduz a própria misericórdia de Deus que se torna ação concreta. No Evangelho, sentir compaixão significa curar, alimentar, libertar e devolver dignidade aos que foram feridos pela vida como no caso do Bom Samaritano 

Essa compaixão prepara o grande sinal que está prestes a acontecer, entretanto, a multiplicação dos pães não recorda apenas o maná do Êxodo. Ela dialoga também com o episódio do profeta Eliseu (2Rs 4,42-44), quando vinte pães de cevada alimentam cem homens e ainda sobra alimento, conforme a palavra do Senhor: "Comerão e ainda sobrará." Mateus mostra que Jesus supera Eliseu. O profeta alimenta cem pessoas com vinte pães; Jesus alimenta cerca de cinco mil homens, além das mulheres e crianças, com apenas cinco pães e dois peixes. Mais do que um milagre extraordinário, trata-se da revelação de que, em Cristo, todas as promessas do Antigo Testamento encontram sua plenitude. A compaixão de Jesus logo encontra um obstáculo concreto: a fome da multidão. Ao cair da tarde, os discípulos apresentam uma solução aparentemente sensata: "Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida" (Mt 14,15). A proposta revela uma lógica muito presente também em nossos dias: diante de um problema coletivo, transfere-se a responsabilidade para cada indivíduo. A preocupação não é construir comunhão, mas encaminhar cada pessoa para resolver sozinha sua necessidade. A resposta dos discípulos nasce da racionalidade do mercado, onde o alimento é mercadoria e quem não possui recursos permanece excluído. Jesus rompe radicalmente essa lógica ao responder: "Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14,16). Essas palavras constituem o centro teológico de toda a narrativa. Antes de realizar qualquer milagre, Jesus forma seus discípulos. O Reino de Deus não admite neutralidade diante da fome, da injustiça e do sofrimento humano. A comunidade dos discípulos é chamada a assumir corresponsabilidade pela vida dos irmãos. A missão da Igreja nunca consiste apenas em anunciar verdades, mas em tornar visível a misericórdia de Deus através de gestos concretos. Essa palavra continua ecoando na Igreja do século XXI. Diante das novas formas de pobreza, da fome, das migrações forçadas, das guerras, da crise ambiental, da exclusão social, do desemprego estrutural e das desigualdades produzidas por sistemas econômicos excludentes, Cristo continua dizendo aos seus discípulos: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Não basta denunciar estruturas injustas; é preciso tornar-se instrumento da providência divina, fazendo da comunidade cristã um espaço onde ninguém seja descartado. 

Os discípulos respondem: "Só temos aqui cinco pães e dois peixes." O advérbio "só" revela uma mentalidade dominada pela lógica da escassez. Aos olhos humanos, aquilo que possuem é insignificante diante da imensidão da necessidade. Jesus, porém, não pergunta pelo que falta. Ele acolhe aquilo que existe. O Reino de Deus começa sempre a partir do pouco colocado nas mãos do Senhor. Deus não espera abundância para agir; transforma a fragilidade humana em lugar de manifestação da sua graça. Também é significativo que Jesus não produza o alimento sem a participação humana. Ele poderia criar o pão diretamente, mas escolhe receber aquilo que os discípulos possuem. Deus realiza sua obra envolvendo homens e mulheres na construção do Reino. A graça não elimina a responsabilidade humana; ao contrário, desperta-a e a transforma. O milagre nasce quando o pouco deixa de ser motivo de medo e passa a ser oferta generosa. 

Os cinco pães podem recordar simbolicamente os cinco livros da Torá, fundamento da fé de Israel, os dois peixes receberam diversas interpretações na tradição patrística, sendo vistos como referência aos Profetas e aos Escritos ou ainda às duas naturezas de Cristo, plenamente humano e plenamente divino. Embora Mateus não explicite esse simbolismo, sua narrativa conduz o leitor a reconhecer que Jesus leva à plenitude toda a história da revelação. Nele convergem a Lei, os Profetas e todas as promessas da antiga Aliança. Jesus ordena então que a multidão se sente sobre a relva,  esse detalhe, aparentemente secundário, possui enorme riqueza teológica. A relva recorda imediatamente o Salmo 23: "Em verdes pastagens me faz repousar". Jesus manifesta-se como o verdadeiro Pastor prometido pelos profetas (cf. Ez 34), aquele que reúne o rebanho disperso, conduz seu povo ao descanso e oferece alimento abundante.

O Evangelho de Marcos acrescenta uma informação significativa: as pessoas foram organizadas em grupos de cem e de cinquenta (Mc 6,39-40). Essa organização recorda a estrutura estabelecida por Moisés durante a caminhada do Êxodo (Ex 18,21-25). Assim como Israel foi organizado para que todos fossem cuidados, também a comunidade reunida por Jesus não é uma multidão desordenada, mas um povo organizado em fraternidade. Sob o olhar sociológico, essa organização revela que o Reino de Deus não nasce do improviso nem do individualismo. A comunhão exige participação, corresponsabilidade e estruturas que favoreçam o cuidado mútuo. A caridade cristã não pode limitar-se ao assistencialismo ocasional. Ela precisa gerar comunidades capazes de promover justiça, fortalecer vínculos e garantir que cada pessoa encontre seu lugar na vida comum. Segue então o gesto central da narrativa: "Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos, e os discípulos os distribuíram às multidões" (Mt 14,19). O gesto de elevar os olhos ao céu revela que toda vida procede do Pai. Antes de olhar para a insuficiência dos recursos, Jesus contempla a abundância da graça divina. A bênção pronunciada recorda a tradicional oração judaica sobre o pão, reconhecendo que tudo pertence a Deus. O alimento nunca deve ser visto apenas como fruto do esforço humano, mas como dom da criação confiado à responsabilidade de todos. O verbo utilizado por Mateus para indicar a bênção é o grego eulogēsen ("abençoou"). Já o Evangelho de João, ao narrar o mesmo episódio (Jo 6,11), emprega o verbo eucharistēsas ("deu graças"), do qual deriva a palavra "Eucaristia". As duas tradições não se opõem; completam-se. A bênção transforma-se em ação de graças, e a ação de graças conduz naturalmente ao dom de si mesmo. A Igreja reconheceu nesses gestos uma clara antecipação da Ceia do Senhor.

Os quatro verbos:  tomar, abençoar, partir e distribuir  reaparecem na Última Ceia (Mt 26,26), na refeição de Emaús (Lc 24,30) e na vida da Igreja primitiva (At 2,42). Desde os primeiros séculos, a tradição cristã compreendeu que a multiplicação dos pães aponta para a Eucaristia. O centro do milagre não está simplesmente na multiplicação material dos alimentos, mas na lógica do pão partido. O pão guardado permanece alimento; o pão repartido torna-se sacramento do Reino. A Eucaristia, portanto, jamais pode ser reduzida a um ato devocional desligado da vida concreta. O Corpo de Cristo recebido no altar exige tornar-se Corpo de Cristo na história. Celebrar a fração do pão implica assumir compromisso com os famintos, os pobres, os excluídos e todos aqueles cuja dignidade foi ferida.

Essa compreensão atravessa toda a tradição patrística. São João Crisóstomo advertia que não se pode honrar Cristo no altar enquanto Ele permanece abandonado nos pobres. São Basílio Magno afirmava que o pão guardado pertence ao faminto e a roupa acumulada pertence a quem dela necessita. Santo Agostinho exortava continuamente os fiéis: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia transforma não apenas o pão e o vinho, mas também a comunidade reunida, fazendo dela o Corpo vivo de Cristo no mundo. Essa compreensão explica por que a Igreja nascente unia inseparavelmente a fração do pão e a partilha dos bens (At 2,42-47). Da mesma forma, em Atos 6,1-7, quando surgem conflitos na distribuição dos alimentos às viúvas, os Apóstolos instituem os Sete para o serviço das mesas. Palavra e mesa pertencem à mesma missão. Evangelizar e cuidar dos necessitados não constituem atividades concorrentes, mas dimensões inseparáveis da única missão da Igreja. Na vida em sociedade a refeição ocupa lugar central em praticamente todas as culturas. Comer juntos significa estabelecer alianças, criar pertencimento, fortalecer identidades e reconhecer o outro como membro da mesma comunidade. A mesa é um dos primeiros espaços onde o ser humano aprende a confiança, a reciprocidade e a partilha. Jesus ressignifica profundamente esse símbolo universal. Sua mesa rompe as fronteiras estabelecidas pela religião, pela política e pela economia. Nela há lugar para pobres e ricos, pecadores e justos, homens e mulheres, crianças, doentes e estrangeiros. O banquete do Reino não exclui ninguém; ao contrário, reúne aqueles que a sociedade frequentemente separa.

Na realidade social  e pessoal  a fome ultrapassa a dimensão biológica, ela produz insegurança, medo, ansiedade, humilhação e perda da esperança. Quem vive permanentemente ameaçado pela escassez tende a desenvolver mecanismos de defesa baseados na acumulação e na competição. Jesus rompe esse ciclo ao despertar uma lógica diferente: a confiança. Quando o pouco é colocado nas mãos de Deus, desaparece o medo que aprisiona e nasce a liberdade para repartir. O verdadeiro milagre acontece também no interior do ser humano, quando o coração deixa de viver segundo a lógica da posse para viver segundo a lógica do dom. Todos comem e ficam satisfeitos. Mateus utiliza um verbo que indica saciedade plena. Não se trata apenas de matar a fome imediata, mas de experimentar a abundância própria das promessas messiânicas. Depois da refeição, Jesus ordena que sejam recolhidos os pedaços que sobraram. Nada deve ser desperdiçado. A abundância do Reino não autoriza o desperdício; ao contrário, educa para o cuidado, para a responsabilidade e para a gratidão diante dos dons recebidos.

São recolhidos doze cestos cheios. O número doze representa as doze tribos de Israel e manifesta que Jesus reúne novamente o povo da Aliança em torno do verdadeiro Pastor. Surge o novo Israel, não fundamentado na exclusão ou no privilégio, mas na comunhão em torno do Messias. Essa primeira multiplicação diferencia-se da segunda, narrada em Mateus 15,32-39, realizada em território predominantemente gentílico. Ali aparecem sete cestos, número associado à universalidade e à plenitude. Aqui, os doze cestos recordam que as promessas feitas a Israel encontram seu cumprimento em Cristo, preparando sua abertura a todas as nações. Assim, a multiplicação dos pães revela-se muito mais que um prodígio extraordinário. Ela constitui um verdadeiro programa de vida para a Igreja: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela confiança em Deus, substitui o acúmulo pela partilha, organiza a esperança em fraternidade e faz da Eucaristia um compromisso permanente com a justiça, a misericórdia e a dignidade de toda pessoa humana. 

A mensagem da multiplicação dos pães ultrapassa o contexto histórico da Galileia e continua interpelando a Igreja e a sociedade contemporânea. Em um mundo marcado por profundas desigualdades, não falta alimento para a humanidade; falta justiça na distribuição, compromisso político com o bem comum e solidariedade efetiva entre os povos. O Evangelho denuncia a lógica da acumulação que concentra riquezas nas mãos de poucos enquanto milhões vivem privados do necessário para uma existência digna. Essa denúncia encontra um significativo paralelo na parábola do rico insensato (Lc 12,13-21), proclamada no 18º Domingo do Tempo Comum do Ano C. Embora pertençam a contextos litúrgicos diferentes, ambas as passagens dialogam profundamente. Enquanto o rico constrói celeiros cada vez maiores para garantir sua segurança, Jesus, no deserto, ensina que a verdadeira segurança nasce da confiança em Deus e da partilha. O rico da parábola fala apenas consigo mesmo. Seu vocabulário é dominado pelos pronomes possessivos: "meus frutos", "meus celeiros", "meus bens". O outro simplesmente não existe. A lógica da acumulação destrói a capacidade de reconhecer o próximo. Na multiplicação dos pães ocorre exatamente o contrário: o alimento deixa de ser propriedade para tornar-se comunhão. A abundância nasce quando o pouco deixa de ser protegido e passa a ser repartido, essa oposição permanece extremamente atual. Vivemos numa cultura marcada pelo individualismo, pelo consumismo, pela competição e pela mercantilização das relações humanas. O sucesso costuma ser medido pela capacidade de acumular, enquanto a pobreza é frequentemente interpretada como fracasso individual. O Evangelho desmonta essa lógica ao afirmar que a dignidade humana está acima do lucro e que os bens da criação possuem uma destinação universal, princípio reafirmado continuamente pela Doutrina Social da Igreja.

Cada  vez  temos uma religião que se permite a  instrumentalização da fé. Quando a religião transforma Deus em meio para obtenção de riqueza, prestígio ou poder, perde sua dimensão profética e deixa de anunciar o Reino para legitimar interesses particulares. A chamada teologia do lucro do sucesso  financeiro  corre o risco de reduzir a graça à lógica da recompensa econômica, como se a bênção divina pudesse ser medida pelo patrimônio acumulado. Contra essa mentalidade, o Papa Francisco denunciava  "a adoração do antigo bezerro de ouro que encontrou uma versão nova e cruel no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano" (Evangelii Gaudium, 55). Sua crítica não é dirigida à legítima atividade econômica, mas a um sistema que transforma pessoas em objetos descartáveis e submete toda a vida à lógica do lucro.  Na mesma direção, o Concílio Vaticano II ensina que "a economia deve estar a serviço da pessoa humana" (Gaudium et Spes, 63). Esse princípio permanece profundamente atual diante da fome, da concentração de renda, da precarização do trabalho, do desemprego estrutural e das novas formas de exclusão social que ferem a dignidade de milhões de pessoas.

Os Padres da Igreja compreenderam que a Eucaristia possui consequências sociais inevitáveis. 

  • São Basílio Magno afirmava: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa"
  • São João Crisóstomo insistia que não existe verdadeira adoração quando o Cristo presente no altar é ignorado no pobre.
  • Santo Agostinho exortava continuamente: "Tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia não transforma apenas o pão e o vinho; transforma aqueles que dela participam, fazendo da comunidade o Corpo vivo de Cristo na história.
Essa era precisamente a experiência da Igreja nascente: "Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum" (At 2,44-46). Não se tratava de um sistema econômico imposto, mas da consequência natural da conversão produzida pelo Evangelho. A comunhão com Cristo gerava comunhão entre os irmãos. A partilha não era uma estratégia social, mas expressão concreta da fé celebrada.  O gesto  de comer juntos continua sendo um dos atos mais importantes da construção da identidade humana, desde as sociedades mais antigas, a mesa representa pertencimento, hospitalidade, reconciliação e reconhecimento mútuo. Quem é convidado para a mesa deixa de ser estranho e torna-se membro da comunidade. Jesus recupera esse significado original ao transformar a refeição num espaço de inclusão. Em sua mesa há lugar para pecadores, pobres, doentes, estrangeiros e marginalizados. O Reino rompe as fronteiras erguidas pela religião, pela política, pela economia e por todas as formas de discriminação.  Alimentar alguém significa muito mais do que suprir uma necessidade biológica. A fome prolongada destrói vínculos, produz medo, ansiedade, humilhação e desesperança. Ao alimentar a multidão, Jesus restaura também sua dignidade, devolve-lhe confiança e recria laços comunitários. O verdadeiro milagre não consiste apenas na multiplicação do pão, mas na multiplicação da esperança, da solidariedade e da confiança mútua.

Mateus também aponta ainda para sua dimensão escatológica,  o banquete no deserto antecipa o grande banquete anunciado por Isaías (Is 25,6-9), quando o Senhor preparará para todos os povos uma mesa abundante, destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos. Jesus realiza antecipadamente essa promessa, revelando que o Reino de Deus já começou a manifestar-se na história, embora aguarde sua plenitude. Essa esperança reaparece nas palavras do próprio Cristo (Mt 8,11) e alcança sua expressão definitiva no Apocalipse: "Nunca mais terão fome nem sede" (Ap 7,16). Cada celebração eucarística torna presente essa promessa futura. A mesa do Senhor é antecipação do Reino definitivo, onde toda lágrima será enxugada, toda injustiça será vencida e ninguém será excluído da comunhão com Deus. Por isso, a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito intimista ou desvinculado da realidade histórica. Como ensina o Concílio Vaticano II, ela é "fonte e ápice de toda a vida cristã" (Lumen Gentium, 11). Sendo fonte, alimenta a missão; sendo ápice, conduz toda a vida ao encontro com Cristo. Não existe verdadeira espiritualidade eucarística sem compromisso concreto com a justiça, a paz, a reconciliação e a dignidade humana.  

A liturgia deste domingo conduz-nos do convite universal de Isaías ao banquete messiânico realizado por Jesus. O Deus que oferece gratuitamente a água da vida, que abre as mãos para alimentar todas as criaturas e cujo amor jamais abandona seu povo manifesta-se plenamente em Cristo, o verdadeiro Pão da Vida. A multiplicação dos pães revela que Deus continua respondendo às fomes da humanidade, mas escolhe fazê-lo através de mãos humanas dispostas a repartir e a ordem de Jesus permanece atual e continua ecoando na consciência da Igreja: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Esse imperativo não é dirigido apenas aos Doze, mas a toda comunidade cristã. Ele interpela paróquias, comunidades, movimentos, pastorais, famílias e cada batizado. Não basta celebrar a Eucaristia; é necessário tornar-se Eucaristia, fazendo da própria vida um pão repartido em favor dos irmãos.

Vivemos  tempos marcados pela cultura do descarte, pelo clericalismo, pela autorreferencialidade e pela instrumentalização da religião, o Evangelho recorda que a Igreja nasce ao redor da mesa de Jesus, e não dos palácios do poder. Sua credibilidade não depende da riqueza que acumula, da influência política que conquista ou do prestígio social que alcança, mas da fidelidade ao Cristo que parte o pão, serve os pequenos e devolve dignidade aos excluídos. O banquete de Herodes continua presente em algumas paróquias,  palácios episcopais onde o poder elimina profetas, silencia vozes críticas, transforma pessoas em instrumentos e protege privilégios e o  banquete de Jesus continua acontecendo sempre que a comunidade escolhe a compaixão em vez da indiferença, a partilha em vez da acumulação, a fraternidade em vez da competição e o serviço em vez da dominação. O contraste entre esses dois banquetes continua sendo um critério de discernimento para a Igreja: ou ela se deixa seduzir pela lógica do poder, ou permanece fiel ao Reino inaugurado por Cristo.

Cada Eucaristia é também um envio missionário. Ao recebermos o Corpo de Cristo, assumimos a missão de sermos seu Corpo no mundo. A mesa do altar prolonga-se na mesa da vida; o pão consagrado exige o pão repartido; a comunhão celebrada exige comunhão vivida. A verdadeira adoração não termina com a bênção final, mas continua nas ruas, nas periferias, nos hospitais, nas escolas, nos locais de trabalho, nas famílias e em todos os espaços onde a vida clama por justiça, misericórdia e esperança. Essa verdade torna-se ainda mais exigente à luz de Mateus 25,31-46. No julgamento final, Jesus revela que o critério da autenticidade da fé é o amor concretizado nas obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, acolher o estrangeiro, vestir o nu, cuidar do enfermo e visitar o preso. O Cristo que se entrega como Pão da Vida sobre o altar é o mesmo Cristo que continua faminto nas periferias, nos esquecidos, nas vítimas da injustiça e em todos aqueles cuja dignidade é negada. Não reconhecer Cristo no pobre é esvaziar o sentido da própria Eucaristia.

Celebrar a Eucaristia, portanto, é aceitar tornar-se pão repartido para o mundo e não existe culto agradável a Deus sem compromisso com a vida, assim como não existe verdadeira caridade sem sua fonte em Cristo. A liturgia prolonga-se na história; o altar continua nas ruas; o Corpo de Cristo recebido na comunhão pede para ser reconhecido e servido no corpo sofredor dos irmãos. Somente assim a Igreja será verdadeiramente sinal do Reino inaugurado por Jesus: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela abundância do amor, substitui o poder pelo serviço, faz da mesa eucarística uma escola de fraternidade e anuncia, por palavras e obras, que Deus continua abrindo as mãos para saciar a fome de toda a humanidade, até o dia em que todos participarão do banquete eterno do Reino.

DNonato  -  Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,14-17.

 Vinho Novo, Odres Vivos. 

No sábado da 13ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos convida a refletir sobre Mateus 9,14-17. Essa mesma tradição também é preservada nos Evangelhos Sinóticos: em Marcos 2,18-22, proclamado na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, e em Lucas 5,33-39, proclamado na sexta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum. A narrativa tem início com uma pergunta feita pelos discípulos de João Batista a respeito do jejum. Já tratamos em outro momento  abordamos os conflitos iniciais entre os discípulos de João e os de Jesus, bem como o contexto em que essas tensões surgiram. Agora, voltamos nosso olhar para o significado da resposta de Jesus e para a novidade do Reino que ela revela
A pergunta feita pelos discípulos de João Batista  “Por que motivo nós e os fariseus jejuamos, e os teus discípulos não jejuam?” Vai além de uma simples dúvida ascética. Revela, na verdade, um conflito mais profundo: o embate entre estruturas religiosas antigas e o novo horizonte que Jesus inaugura. O jejum, prática comum entre os judeus do Segundo Templo, era sinal de penitência, súplica e preparação messiânica (cf. Joel 2,12; Zac 8,19). Contudo, neste contexto, aparece como símbolo de um tempo em transição, que exige discernimento espiritual e abertura profética. Jesus responde com três imagens simbólicas: o esposo, o remendo e o vinho novo — cada uma reveladora de sua identidade e da radical novidade do Reino.

Ao se autodefinir como “o esposo”, Jesus retoma uma imagem profundamente enraizada na teologia profética do Antigo Testamento. Deus é o esposo de Israel (cf. Os 2,16-22; Is 54,5-8; Jr 2,2), e a aliança entre YHWH e o povo é descrita como um matrimônio. Quando Jesus afirma que seus discípulos não jejuam porque “o esposo está com eles”, está anunciando que, n’Ele, Deus se faz presente de modo íntimo e jubiloso — não como doutrina abstrata, mas como presença viva e transformadora. É tempo de núpcias, e ninguém jejua em meio à festa do casamento. O jejum voltará, mas apenas quando o esposo lhes for tirado — alusão velada à sua paixão e morte (cf. Mt 26,31; Mc 2,20).


Nos Evangelhos Sinópticos, essa passagem encontra paralelos em Marcos 2,18-22 e Lucas 5,33-39, mantendo estrutura semelhante: o questionamento sobre o jejum, a resposta com a imagem do esposo e as parábolas do remendo e dos odres. Em todos os relatos, Jesus responde não com condenação, mas com profunda densidade simbólica. O foco não está em proibir o jejum ou exaltá-lo, mas em reinterpretar o tempo presente à luz de sua vinda: é o kairós — o tempo oportuno e fecundo (cf. 2Cor 6,2) — no qual as práticas religiosas precisam ser reformuladas à altura do acontecimento do Reino. A fidelidade a Deus já não pode ser medida apenas por práticas exteriores, mas pela adesão interior a uma nova lógica: a do Evangelho.

As imagens do remendo novo em roupa velha e do vinho novo em recipientes ressequidos reforçam a tensão entre a novidade trazida por Jesus e as estruturas religiosas endurecidas, incapazes de acolher o dinamismo do Espírito. O remendo novo rasga ainda mais o tecido antigo, e o vinho em fermentação rompe o odre ressequido. Ambas as imagens anunciam o risco de tentar conter o Reino dentro de formas obsoletas. A antropologia e a sociologia nos ajudam a perceber como culturas e instituições, quando cristalizadas em sistemas rígidos, tendem a rejeitar tudo aquilo que desafia suas certezas. A tentativa de adaptar o Evangelho a estruturas esgotadas só amplia o rasgão — a violência é inevitável quando a graça é comprimida por estruturas mortas.

Há, portanto, um apelo radical à renovação — não apenas uma conversão pessoal, mas uma reforma da Igreja, das relações e das estruturas que a sustentam. A Igreja, segundo o Concílio Vaticano II, é chamada a uma perene reforma (semper reformanda) (cf. Unitatis Redintegratio, n. 6), pois carrega “um tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7). A patrística recorda que o Espírito Santo sopra onde quer (Jo 3,8), e Santo Agostinho adverte: “Teme o Espírito que passa e não volta”. Os odres novos simbolizam a renovação do coração, a abertura do entendimento (cf. Rm 12,2), o abandono de modelos religiosos legalistas e moralistas que sufocam a liberdade dos filhos e filhas de Deus (cf. Gl 5,1).

Essa crítica de Jesus às estruturas fossilizadas da religião encontra ressonância na filosofia contemporânea, especialmente nas denúncias à razão instrumental feitas por Adorno e Horkheimer, e no alerta de Nietzsche contra uma fé desconectada da vida. O jejum sem alegria, a religião sem festa, a fé sem amor — tudo isso são cascas ressecadas. Um cristianismo que apenas repete ritos, normas e doutrinas, mas não se deixa transformar pelo vinho novo do Espírito, torna-se apenas mecanismo de controle — letra que mata, como Paulo já alertava (2Cor 3,6).

No contexto atual, essa palavra ressoa com força profética. Vivemos tempos em que muitos desejam restaurar “odres velhos”: a rigidez litúrgica como identidade, o moralismo como medida da fé, a religião como instrumento de poder e exclusão. Há setores eclesiais que, em nome da “verdade”, jejuam da alegria do Evangelho, como se a graça fosse escassa ou racionada por mérito. Embora o Papa Francisco — que faleceu em abril de 2025 — tenha sido duramente combatido por tais grupos, ele insistiu até o fim: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium, n. 1). E esse é o vinho novo: uma Igreja que celebra a presença do Esposo é uma Igreja que dança, que canta, que cuida dos pobres e celebra a vida, mesmo em meio à dor.

Ao mesmo tempo, Jesus não despreza o jejum. Ele diz que chegará o tempo em que jejuarão — e isso remete à dimensão escatológica da esperança. O jejum cristão não é mera penitência, mas linguagem do desejo: expressão de uma sede que ainda não se saciou por completo. O Esposo está conosco, mas ainda esperamos sua plenitude. Por isso jejuamos. Por isso também celebramos. O cristão vive neste entre-tempo, onde jejum e festa convivem como ressonâncias do já e ainda não do Reino.

A simbologia do vinho tem profundo enraizamento nas Escrituras. Desde o Gênesis, onde Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão (Gn 14,18), até o Apocalipse, onde o vinho da ira de Deus é imagem do juízo (Ap 14,10), essa bebida representa tanto alegria quanto aliança. O salmista canta: “o vinho que alegra o coração do homem” (Sl 104,15), e os Provérbios alertam para seu uso excessivo (Pv 23,29-35). Na tradição bíblica, o vinho simboliza bênção, comunhão e festa — mas também responsabilidade e vigilância.

Na narrativa das bodas de Caná (Jo 2,1-11), Jesus transforma água em vinho — não qualquer vinho, mas o melhor vinho, guardado para o final. A cena é carregada de simbolismo: ali, o Esposo verdadeiro manifesta sua glória, inaugurando o tempo novo da abundância messiânica. O vinho novo em Caná antecipa o vinho novo do Reino. E esse mesmo vinho se tornará, na última ceia, o sangue da nova e eterna aliança (cf. Mt 26,28).

O apóstolo Paulo, por sua vez, aconselha Timóteo a não beber apenas água, mas também “um pouco de vinho, por causa do estômago e das frequentes enfermidades” (1Tm 5,23). Esse conselho pastoral e realista de Paulo confronta visões moralistas e puritanas que demonizam toda bebida alcoólica. O problema não está na substância, mas no excesso, na alienação e na hipocrisia daqueles que julgam os outros sem discernir o espírito da liberdade cristã (cf. Rm 14,17).

Hoje a a liturgia nos convida a rever nossas estruturas religiosas, comunitárias e existenciais. 

  • Estamos tentando conter vinho novo em odres endurecidos? 
  • Temos remendado com doutrinas o que só o amor pode restaurar? 
  • Transformamos o cristianismo num peso ou nos tornamos testemunhas da leveza e da presença do Esposo em nosso meio?

A maturidade da fé se revela não na adesão exterior a costumes, mas na capacidade de discernir os tempos, de ser odre novo, de sustentar a fermentação do Espírito que renova todas as coisas. Que saibamos jejuar quando for necessário, mas também celebrar com a liberdade dos filhos e filhas que reconhecem: o Esposo está conosco — “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Para compreender melhor a profundidade desse gesto que Jesus reinterpreta, é preciso olhar como o jejum atravessa toda a Escritura. A palavra “jejum” e seus derivados aparecem mais de 70 vezes na Bíblia, com significados que vão muito além da privação alimentar. Moisés jejua quarenta dias no Sinai antes de receber as tábuas da Lei (Ex 34,28), Elias jejua enquanto caminha rumo ao encontro com Deus no Horeb (1Rs 19,8), Ester convoca um jejum coletivo em defesa do povo (Est 4,16), e o próprio Jesus inicia seu ministério com um jejum de quarenta dias (Mt 4,2). O livro de Isaías denuncia o jejum hipócrita (Is 58), ensinando que o jejum verdadeiro rompe correntes de injustiça. O Novo Testamento mostra que o jejum, quando praticado em comunidade, prepara o discernimento do Espírito (At 13,2-3). Assim, o jejum bíblico é sempre orientado para Deus e para o outro: gesto de humildade, de escuta, de solidariedade. Quando perde esse foco, torna-se apenas disciplina ou exibicionismo religioso.

No tempo de Jesus, o jejum dos fariseus — duas vezes por semana, às segundas e quintas — era sinal de devoção, mas também de distinção social e moral (cf. Lc 18,12). Jesus não invalida o jejum, mas o desloca de lugar: não é o rito em si que salva, mas a capacidade de discernir o tempo de Deus e responder com inteireza. Enquanto o Esposo está presente, a fome é transformada em festa. Quando Ele for tirado, o jejum voltará — mas como saudade ativa, desejo ardente, vigilância amorosa.

Já os odres, objetos típicos do cotidiano camponês e nômade da Judeia e da Galileia, eram feitos com peles inteiras de animais, geralmente cabras ou ovelhas. Depois de limpas e tratadas com sal e cinza, essas peles eram costuradas e impermeabilizadas para armazenar líquidos, especialmente o vinho. O vinho novo, em fermentação, produzia gases que exigiam flexibilidade do recipiente. Se o odre estivesse envelhecido e ressecado, rachava-se e o vinho se perdia. Daí o princípio: vinho novo só em odres novos. A metáfora é clara: o Evangelho exige estruturas e corações capazes de conter sua vitalidade. Um coração endurecido não suporta a expansão da graça; uma instituição presa ao legalismo não comporta o sopro do Espírito. Mais que metáfora, é um apelo escatológico: um novo mundo fermenta entre nós, e só odres renovados poderão contê-lo sem explodir.

Que nossos odres sejam renovados pela ternura e pela justiça. Que o vinho novo da alegria do Evangelho nos embriague de esperança. E que, em cada comunidade, o Esposo encontre festa, não jejum — porque onde Ele está, há liberdade, amor e ressurreição.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 1 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 8,28-34

 
Somos  chamados a contemplar o Evangelho de Mateus 8,28-34, proclamado na quarta-feira da 13ª Semana do Tempo Comum. Em Mateus, essa narrativa sucede imediatamente a travessia do lago e a tempestade acalmada (Mt 8,23-27), cujo paralelo encontra-se em Marcos 4,35-41 e Lucas 8,22-25. A sequência é profundamente teológica: depois de manifestar sua autoridade sobre o caos das águas, símbolo das forças primordiais contrárias à criação (cf. Gn 1,2; Sl 74,13-14), Jesus atravessa para o território dos gadarenos, rompendo fronteiras geográficas, religiosas e culturais. Não se trata apenas de uma mudança de lugar, mas da entrada do Reino de Deus em um espaço marcado pela exclusão, pela impureza e pela morte. O mesmo episódio é narrado também em Marcos 5,1-20 e Lucas 8,26-39, ainda que cada evangelista destaque aspectos próprios da missão libertadora de Jesus.

Quando Jesus pisa o chão estrangeiro dos gadarenos, não é apenas o território geográfico que se altera, é a própria ordem espiritual e social que começa a desmoronar. Depois de vencer o caos do mar, Ele enfrenta agora o caos que aprisiona o ser humano. O Reino de Deus não conhece fronteiras nem aceita que alguém permaneça condenado às geografias da exclusão. Os discípulos, no mar, temem morrer diante das ondas; os gadarenos, em terra, temem viver diante da libertação. Ambos se encontram diante do poder de Jesus, mas enquanto uns clamam por socorro, outros pedem que Ele vá embora. O medo é o mesmo: perder o controle sobre aquilo que julgavam dominar..Dois homens possuídos por demônios saem ao encontro de Jesus, vindos dos túmulos, lugares de morte e impureza segundo a Lei (cf. Nm 19,11-16). Marcos e Lucas apresentam apenas um homem; Mateus menciona dois, possivelmente para evidenciar que o mal não destrói apenas indivíduos, mas comunidades inteiras. A possessão deixa de ser apenas um drama pessoal para revelar também uma realidade estrutural, coletiva e social.

Esses homens perderam o nome, a casa, os vínculos e a dignidade. Vivem entre os mortos, afastados da convivência humana. Sua violência não nasce de sua natureza, mas do abandono. Marcos acrescenta que feriam a si mesmos com pedras, numa imagem profundamente humana da dor psíquica e existencial. Representam todos aqueles que foram expulsos da convivência social, invisibilizados pelas estatísticas, esquecidos pelas instituições e até pelas comunidades religiosas. Eles representam a fragmentação da identidade e o sofrimento de quem já não encontra sentido para viver. Orígenes afirmava que "a possessão é, muitas vezes, sinal da alma invadida por pensamentos estranhos à verdade". Nos relatos de Marcos e Lucas, Jesus pergunta o nome do espírito que os domina. Nomear significa devolver identidade, romper o anonimato da exclusão e iniciar um caminho de restauração. Antes de libertar, Cristo escuta.

Mateus vem  denunciar a lógica da marginalização. Quando uma sociedade não sabe cuidar dos seus feridos, prefere escondê-los. Quando não consegue curar, isola. Quando a religião perde a compaixão, transforma sofrimento em culpa. Jesus faz exatamente o contrário. Aproxima-se dos excluídos, atravessa fronteiras proibidas e restitui aos marginalizados o direito de voltar à vida. Como recorda Leonardo Boff, a libertação envolve toda a pessoa, em sua dimensão espiritual, social e histórica. Libertar é devolver lugar na comunidade e restituir a dignidade perdida. A  cena constitui uma verdadeira manifestação messiânica. Os demônios reconhecem Jesus como Filho de Deus antes mesmo de muitos dos que se consideravam religiosos. Perguntam se Ele veio atormentá-los antes do tempo, revelando que o juízo definitivo já começa a acontecer onde Cristo chega. Sua presença inaugura, no presente, aquilo que será pleno no fim dos tempos. Diante d'Ele não existe neutralidade. O Reino confronta inevitavelmente tudo aquilo que produz morte.

A manada de porcos, cerca de dois mil segundo Marcos, precipita-se no mar. Para além da questão da impureza ritual prevista em Levítico 11,7, os porcos simbolizam estruturas econômicas e sociais construídas sobre a exploração da vida. O texto não expressa desprezo pela criação, mas denuncia sistemas que transformam pessoas em mercadorias e fazem do lucro um ídolo. Também a criação, como afirma Paulo (Rm 8,22), geme esperando sua libertação. O prejuízo econômico provocado pela perda da manada explica a reação dos habitantes da cidade. Eles pedem que Jesus se retire. A libertação custa caro porque ameaça interesses estabelecidos. Sempre que o Evangelho toca privilégios, surgem resistências. Pierre Bourdieu observou que a religião pode servir tanto à dominação quanto à transformação social. O drama dos gadarenos consiste justamente em preferir preservar sua economia a celebrar a restauração de vidas humanas.

A crítica do Evangelho alcança igualmente toda forma de religião que se acomoda diante da injustiça. Quando comunidades de fé silenciam diante da violência, absolutizam o poder, transformam o nacionalismo em idolatria ou utilizam a religião para legitimar a exclusão, repetem, sob novas formas, o pedido dos gadarenos: "Retira-te daqui." O Cristo do Evangelho continua sendo incômodo porque sua presença desmonta privilégios, denuncia idolatrias e restitui dignidade aos descartados da história. Como afirma o Concílio Vaticano II na Gaudium et Spes, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo". A Igreja permanece fiel ao seu Senhor quando caminha ao lado dos feridos da história e não quando protege estruturas que perpetuam exclusões.

O gesto de Jesus realiza, de maneira concreta, o espírito do Jubileu descrito em Levítico 25. Libertam-se os cativos, restitui-se a dignidade aos excluídos e confrontam-se as estruturas que lucram com a opressão. Entre os túmulos acontece uma nova criação. Em Marcos e Lucas, o homem restaurado deseja seguir Jesus, mas recebe outra missão: voltar para casa e anunciar tudo o que Deus realizou em sua vida. O lugar da dor transforma-se em lugar da missão. A evangelização nasce da experiência da misericórdia. As cicatrizes tornam-se testemunho vivo da ação libertadora de Deus.

Toda a narrativa converge para um ensinamento decisivo:

  •  Os túmulos simbolizam a morte social
  • os porcos representam estruturas que negociam a vida humana
  • o mar recorda o caos já vencido pela autoridade do Criador
O Cristo não faz acordos com aquilo que destrói a dignidade humana. Sua presença rompe correntes, restitui identidade e devolve esperança. É precisamente por isso que Ele é rejeitado. A cidade suporta conviver com os possessos, mas não suporta pagar o preço de sua libertação. Prefere um Messias que confirme seus interesses a um Senhor que converta seu coração.

Os gadarenos continuam existindo em todas as épocas. Manifestam-se sempre que povos originários, comunidades quilombolas, pessoas em situação de rua, migrantes, encarcerados, pessoas em sofrimento psíquico e todos os vulneráveis são tratados como descartáveis. Também aparecem quando igrejas preferem proteger privilégios a anunciar a justiça do Reino. Ao final, permanece uma pergunta dirigida a cada discípulo. Quando Cristo atravessa nossas fronteiras, denuncia nossos ídolos e rompe nossos pactos com aquilo que produz morte, qual será nossa resposta? Teremos coragem de acolher sua libertação, mesmo quando ela exige conversão e renúncia, ou lhe pediremos que se retire para que nossos "porcos" permaneçam seguros?

O Evangelho não termina com a derrota dos demônios, mas com o início de uma vida nova. Jesus continua atravessando mares, entrando em nossos territórios, quebrando correntes e devolvendo voz aos silenciados. A verdadeira questão não é se Ele tem poder para libertar. A questão é se estamos dispostos a permitir que essa libertação transforme também nossas escolhas, nossas estruturas e nosso modo de viver a fé. Sobra uma interrogaçãooculta do texto;  queremos voltar à tua casa? Queres contar o que o Senhor fez por nós  ou preferimos  que  jesus se  retire, para que os nossos porcos permaneçam em paz?

0remos,   como resposta a Jesus:

  • Senhor da travessia, que atravessas os mares do medo  e nos encontras entre os túmulos, liberta-nos de tudo o que nos prende à morte.. Dá-nos nome, voz e missão. E quando quisermos te expulsar  para preservar nossos porcos, .sopra sobre nós o Espírito da verdade, e ensina-nos de novo a viver. Amém.


DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 30 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 8,23-27


Quando o Mar Grita e Deus Dorme: fé em tempos de travessia”

A narrativa de Jesus acalmando a tempestade (Mt 8,23-27) ocupa um lugar privilegiado na tradição litúrgica da Igreja. Ela é proclamada anualmente na terça-feira da 13ª Semana do Tempo Comum, dentro da sequência em que São Mateus apresenta a autoridade de Jesus sobre a doença, os espíritos impuros, a natureza e, por fim, sobre todas as forças do caos. O mesmo acontecimento aparece também nos outros dois Evangelhos Sinóticos: em Marcos 4,35-41, proclamado no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano B e também no sábado da 3ª Semana do Tempo Comum (anos ímpares); e em Lucas 8,22-25, que integra a tradição lucana, embora não possua um dia próprio na leitura ferial contínua do Tempo Comum, sendo utilizado em diversas celebrações e contextos litúrgicos.

Cada evangelista contempla o mesmo acontecimento por uma perspectiva própria. Mateus enfatiza o discipulado e a "pouca fé" dos seguidores de Jesus; Marcos apresenta o relato mais vivo e dramático, destacando a pergunta angustiada dos discípulos: "Mestre, não te importas que pereçamos?"; Lucas concentra-se na pedagogia da confiança, culminando com a pergunta de Jesus: "Onde está a vossa fé?". Essas diferenças não são contradições, mas expressam a riqueza da tradição apostólica e revelam como a mesma experiência de Cristo ilumina diferentes dimensões da caminhada cristã.  Mais do que a descrição de um milagre, trata-se de uma verdadeira teofania. O domínio de Jesus sobre os ventos e o mar manifesta sua identidade divina, retomando a ação do Deus Criador que, no Antigo Testamento, impõe limites ao caos das águas (Gn 1,6-10; Sl 89,9-10) e conduz seu povo através do mar rumo à liberdade (Ex 14). A travessia do lago torna-se, assim, um ícone da existência cristã: a Igreja e cada discípulo são chamados a navegar entre tempestades, sustentados não pela ausência dos ventos contrários, mas pela presença daquele a quem até o mar e os ventos obedecem. É à luz dessa riqueza bíblica, litúrgica, histórica e existencial que somos convidados a contemplar o Evangelho de Mateus 8,23-27, permitindo que a Palavra ilumine não apenas as tempestades enfrentadas pelos primeiros discípulos, mas também as crises pessoais, sociais, eclesiais e políticas que desafiam a Igreja e a humanidade em nossos dias.

O autor  sagrado  narra que Jesus entrou no barco com seus discípulos. Um gesto simples, quase cotidiano, mas carregado de densidade simbólica e teológica. Vem de Cafarnaum, onde passou o dia inteiro curando os doentes, libertando pessoas dos espíritos impuros, acolhendo o centurião estrangeiro, restaurando a sogra de Pedro e os marginalizados (Mt 8,1-17). Sua autoridade, ao contrário da dos doutores da Lei, nasce da proximidade com os corpos feridos e da compaixão com os caídos. Exausto, adentra a noite para atravessar o lago rumo à região dos gadarenos – terra pagã. Não foge das margens do mundo, vai ao seu encontro. Mas antes, repousa. Dorme. De cansaço, de humanidade, de fé. Enquanto isso, uma violenta tempestade se abate sobre o Mar da Galileia. Esse mar, na verdade um grande lago cercado por colinas, é conhecido por mudanças climáticas bruscas e ventos repentinos que, ao encontrarem resistência da água aquecida, formam tempestades violentas. Trata-se de uma região de fronteira simbólica: entre o mundo judaico e o mundo pagão, entre a tradição e a missão, entre o conhecido e o risco. Jesus não escolhe águas calmas. Ele nos chama justamente onde o medo se mistura com a possibilidade do novo. O texto de Mateus (8,23-27), bem como os paralelos de Marcos (4,35-41) e Lucas (8,22-25), não tratam apenas de um fenômeno meteorológico, mas de uma teofania – manifestação de Deus em meio ao caos. O mar, na cosmovisão bíblica, simboliza as forças do mal, do caos e da morte (cf. Gn 1,2; Sl 89,10; Ap 13,1). A tempestade é imagem viva das adversidades que ameaçam o projeto de Deus no mundo e a estabilidade interior dos seus seguidores.

Jesus dorme enquanto a barca é engolida pelas ondas. Um detalhe perturbador. Como pode o Senhor dormir quando tudo desaba? Essa pergunta não é só dos discípulos, é também nossa, grito antigo e atual: “Senhor, não te importas que pereçamos?” (Mc 4,38). É o clamor do salmista: “Desperta, Senhor! Por que dormes?” (Sl 44,24). É o grito das periferias, dos injustiçados, dos esquecidos pela religião do espetáculo, que prega milagres fáceis, mas fecha os olhos diante da dor concreta do povo.

Mas esse sono de Jesus não é abandono. É confiança. Ele não dorme por insensibilidade como Jonas (Jn 1,5-6), que se esconde da missão e dorme enquanto a morte se aproxima. Jonas dorme por fuga; Jesus, por entrega. O profeta fujão é acordado por marinheiros pagãos; o Messias cansado é despertado por discípulos ainda imaturos na fé. Ali, Deus ensina que não se trata de ausência, mas de outra forma de presença. Jesus dorme como quem confia plenamente no Pai – é o sono do justo, da paz que brota do abandono total. A pedagogia do Evangelho é clara: seguir Jesus não é escapar das tempestades, mas atravessá-las com Ele. A fé que amadurece não se baseia na ausência de crises, mas na certeza de que o Senhor está no barco. Mesmo dormindo, é Ele quem sustenta. Por isso, após o despertar dos discípulos, Jesus repreende primeiro o medo – e só depois o mar. “Por que estais com medo, homens fracos na fé?” (Mt 8,26). A tempestade externa se acalma quando a tempestade interior é confrontada. Ele domina os ventos e o mar porque é o mesmo Verbo por quem todas as coisas foram feitas (Jo 1,3).

É a repetição do gesto criador de Gênesis, quando Deus separa as águas e estabelece a ordem sobre o caos (Gn 1,6-10). Também ecoa o Êxodo, quando o Senhor abre o mar diante do povo oprimido e o liberta das mãos do faraó (Ex 14,21-22). Agora, no Novo Êxodo, o Filho do Homem não apenas atravessa o mar – Ele o silencia com a palavra, como quem restitui à criação o seu equilíbrio original. Na América Latina, essa travessia se atualiza nas lutas do povo contra a colonização, a fome, o extrativismo, a violência contra os corpos racializados e empobrecidos. O mar continua tentando engolir os pequenos, mas Deus segue abrindo caminhos. A Igreja de Aparecida (2007), herdeira de Medellín e Puebla, reafirma que os rostos dos crucificados de hoje clamam por libertação. A travessia é também nossa missão: conduzir o povo para além das águas da exclusão.

A barca, símbolo da Igreja, continua navegando entre tormentas. Mas há algo essencial: ela só é Igreja enquanto Ele estiver nela. A barca não é de Pedro, nem dos discípulos, nem da hierarquia – é de Cristo. E ela só se sustenta quando se mantém aberta, sinodal, orientada pela escuta do Espírito e da voz dos pobres. A travessia só é verdadeira quando feita em comunhão, com cada discípulo remando junto, escutando-se mutuamente, discernindo com humildade. Não há travessia solitária no Evangelho. O discipulado é sempre comunitário. O Sínodo é, assim, um movimento do Espírito que nos chama a deixar a margem da rigidez e a navegar rumo à conversão pastoral. Muitas comunidades eclesiais hoje parecem barcos à deriva, movidos por interesses ideológicos, alianças espúrias com o poder, discursos de ódio travestidos de zelo moral. A extrema-direita se apropria do nome de Cristo, mas o transforma em ídolo nacionalista e justiceiro. Prega o medo, não o Reino. Abençoa armas, despreza os pobres, amaldiçoa os diferentes. Não está com Jesus no barco; constrói sua própria frota para cruzadas de dominação. Esse uso político de Jesus constrói um messianismo falso, onde o Cristo do Evangelho é substituído por um cristo ideológico, defensor da propriedade privada, da violência policial, da meritocracia excludente. Não é o Cristo dos Evangelhos, mas um simulacro construído a serviço do capital e do medo. É o mesmo espírito que exigiu um Messias guerreiro no deserto e crucificou o Messias servidor em Jerusalém.

O clericalismo também alimenta tempestades: pastores que se fazem príncipes, padres que confundem liturgia com espetáculo, líderes que desprezam a escuta, o povo, os leigos. São barcas luxuosas sem rumo, rituais sem presença, evangelho sem cruz. Multiplicam-se hoje igrejas-palco, onde o louvor encobre a violência, e púlpitos que anunciam bênçãos sem conversão, moral sem misericórdia, teologia sem humanidade. Há quem diga que “Jesus acalma a tempestade”, mas se recusa a enfrentar as tormentas da desigualdade, do racismo, da misoginia, da fome. É o mercado da fé travestido de espiritualidade. Uma religião sem profecia é como um barco sem leme: parece seguir, mas está à deriva. Contra essas religiões vazias, Jesus se levanta. Acalma o mar, mas também interpela seus discípulos: “Onde está a vossa fé?” (Lc 8,25). Essa interrogação é pedagógica e terapêutica. Nos obriga a olhar para dentro, para nossas próprias tempestades: o medo da perda, o desânimo, a sensação de fracasso, a apatia. Psicologicamente, o texto revela a luta entre o desejo de controle e o chamado à confiança. O pânico dos discípulos é o reflexo de uma fé ainda baseada em garantias. Mas a fé verdadeira nasce da travessia, do não saber, do seguir mesmo quando tudo treme.

As tempestades que enfrentamos não são só aquelas do mar ou da história coletiva, mas também as que assolam o nosso íntimo. O fim de um namoro que parecia promissor, a perda inesperada do emprego que sustentava a família, o diagnóstico que abala o corpo e a mente — todas essas são tempestades que nos desestabilizam e fazem naufragar a esperança. É fácil sentir-se abandonado, como se Jesus estivesse dormindo no barco enquanto tudo ruge. Porém, a Boa Nova de Mateus nos assegura que não é assim. Jesus está presente na embarcação da nossa vida, mesmo quando parece distante ou silencioso. Reconhecer essas tempestades pessoais é o primeiro passo para que a fé deixe de ser apenas uma ideia e se torne força viva. O Senhor não promete que navegaremos sempre em águas calmas, mas garante que a travessia, por mais difícil que seja, jamais será solitária. O convite é sempre renovar a confiança: levantar os olhos do caos, clamar a Ele e encontrar na palavra de Jesus o poder para acalmar os ventos interiores que nos ameaçam.

O mar agitado é o ventre do novo, o batismo do Reino. Toda a história bíblica é uma sucessão de travessias. Noé atravessa o dilúvio com a arca; Moisés, o mar Vermelho com o povo; Elias, o deserto até o Horeb; Paulo, naufraga a caminho de Roma. Ninguém caminha com Deus sem enfrentar marés. Cada travessia purifica, amadurece, desinstala. A fé que não passa pela água nunca será fé pascal.

Cada travessia nos desinstala. A espiritualidade do Evangelho é pascal: atravessar para renascer. A água que ameaça também é a mesma que batiza. O mar é útero e túmulo, fim e começo. E no centro, a palavra de Jesus: “Vamos para a outra margem” (Mc 4,35). A margem onde estão os endemoninhados, os sujos, os outros. O discipulado verdadeiro começa quando aceitamos deixar a margem do conforto para nos lançarmos na missão da compaixão. Esse despertar da fé, muitas vezes, nasce do silêncio orante, da escuta contemplativa da Palavra. Em tempos de excesso de ruído, a mística cristã é um ato de resistência. A oração não é fuga do mundo, mas afinamento da alma para discernir por onde remar. O silêncio de Jesus, mesmo dormindo, é um chamado à interioridade: é preciso entrar em si para reencontrar o Senhor que acalma por dentro.

Jesus não apenas acalma a natureza; revela quem Ele é. Os discípulos, ainda confusos, perguntam: “Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt 8,27). É a pergunta fundamental da existência cristã. Não basta seguir Jesus por admiração ou por conveniência. É preciso reconhecê-lo como o Filho de Deus, Senhor sobre a criação e sobre o caos. Só assim a fé deixa de ser acessório e passa a ser fundamento. A tradição patrística via nessa cena uma imagem da Igreja atravessando a história. Agostinho escreve: “A barca está em perigo... o coração está agitado... o Mestre dorme... acordemos a fé, para que Cristo esteja vigilante em nós” (Sermão 63). A Igreja verdadeira é aquela que não se deixa dominar pelas ondas do medo, mas desperta o Cristo interior e professa a confiança radical.

Essa maturidade se alimenta da Palavra e da Eucaristia, onde Cristo se faz presente no meio da comunidade que rema unida. O altar é, por assim dizer, a âncora do barco: ali, Ele se entrega de novo por nós, silencioso, mas vivo. É dali que tiramos a força para continuar navegando, mesmo quando os ventos contrários sopram. A cena termina em calma – mas não na calmaria. Jesus segue rumo aos gadarenos, aos excluídos, à margem. A missão não termina com o milagre, ela apenas começa. E continua hoje, em cada travessia onde se luta por justiça, dignidade e paz. Nossa fé será madura quando deixarmos de buscar um Cristo que nos protege das tempestades e nos unirmos ao Cristo que navega conosco por dentro delas.

Que possamos aprender com esta travessia que o Senhor não quer um barco perfeito, nem uma fé inabalável isenta de dúvidas e dores, mas uma comunidade e um coração que se mantêm firmes no meio da tempestade. Que o silêncio de Jesus no barco seja para nós o convite à confiança profunda, capaz de gerar paz mesmo nas noites mais escuras da alma.  Quando as tempestades da vida parecerem querer nos afundar — e elas virão — que não esqueçamos: o Deus que criou os ventos e os mares é o mesmo que vela pelo nosso sono, o mesmo que nos chama a remar juntos para a outra margem. E essa certeza nos faz mais fortes que qualquer vendaval.

Ao término desta travessia do Evangelho, permanece uma pergunta que atravessa os séculos e continua ecoando em nossos corações: "Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?" (Mt 8,27). Toda a vida cristã nasce da resposta a essa pergunta. Se reconhecemos em Jesus apenas um mestre admirável, nossa fé vacilará diante das primeiras ondas. Mas, se o reconhecemos como o Filho de Deus, Senhor da história e da criação, descobriremos que nenhuma tempestade possui a última palavra. A barca continuará enfrentando ventos contrários. A Igreja seguirá atravessando crises, perseguições, divisões e desafios internos. As famílias conhecerão momentos de dor; os trabalhadores enfrentarão a insegurança; os pobres continuarão clamando por justiça; homens e mulheres lutarão diariamente contra o medo, o sofrimento e a solidão. O Evangelho não promete uma existência sem tempestades. Promete algo infinitamente maior: que Cristo jamais abandona aqueles que navegam com Ele.

Por isso, a verdadeira maturidade da fé não consiste em esperar milagres que eliminem todas as dificuldades, mas em aprender a permanecer confiantes quando Deus parece silencioso. O silêncio de Cristo nunca é ausência; é um convite para que nossa confiança amadureça. Muitas vezes, antes de acalmar os ventos que rugem ao nosso redor, Ele deseja pacificar o mar agitado que carregamos dentro de nós. Num mundo marcado pela violência, pela desigualdade, pelo individualismo, pela instrumentalização da religião e pela perda do sentido da fraternidade, este Evangelho continua sendo um chamado profético. Cristo não nos convida a fugir das tempestades da história, mas a enfrentá-las construindo comunidades sinodais, solidárias e missionárias, comprometidas com a dignidade humana, a justiça, a paz e o Reino de Deus. A barca da Igreja só permanece fiel quando continua remando em direção às periferias humanas e existenciais, levando esperança aos que já perderam as forças.

Que esta Palavra desperte em nós uma fé adulta, capaz de confiar quando não compreende, de perseverar quando tudo parece perdido e de continuar remando quando os ventos sopram contra. Afinal, a travessia cristã nunca é realizada por heróis solitários, mas por discípulos que caminham juntos, sustentados pela Palavra, alimentados pela Eucaristia e guiados pelo Espírito Santo. Enquanto houver tempestades, haverá também a voz de Cristo dizendo ao nosso coração: "Coragem. Eu estou aqui." E enquanto Ele estiver na barca, nenhuma noite será definitiva, nenhuma onda será mais forte que sua presença e nenhuma travessia terminará em fracasso. O Reino de Deus sempre nos espera na outra margem.

Pois, no barco onde Jesus está, mesmo o silêncio é um sinal da sua presença salvadora. Navegar com Ele não é promessa de calmaria, mas garantia de que nenhuma tempestade é maior do que o amor que nos sustenta. Que a nossa fé não seja um abrigo contra as tormentas, mas a coragem de continuar, navegando na confiança de que, mesmo quando tudo parece naufragar, Ele está conosco  e isso basta.


DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 15, 3-7


A Ovelha Perdida e o Coração que Ama Até o Fim

Na liturgia do Sagrado Coração de Jesus, contemplamos o mistério de um amor que se dá por inteiro, que se consome em fidelidade, e que insiste em amar mesmo quando não é amado (cf. Os 11,1-4; Jr 31,3). Neste dia, a Palavra nos coloca diante de uma das imagens mais conhecidas e paradoxais do Evangelho: o Pastor que deixa noventa e nove ovelhas no deserto para ir em busca da única que se perdeu (Lc 15,3-7). O que parece, aos olhos da lógica racional, uma atitude imprudente ou até negligente, é, na verdade, a mais pura revelação da radicalidade do amor de Deus.

Este texto faz parte de um capítulo profundamente unitário no evangelho de Lucas. Todo o capítulo 15 — com as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida (vv. 8-10) e do filho pródigo (vv. 11-32)  proclamado no 4⁰ Domingo da Quaresma  e retorna  no 24⁰ domingo  do Tempo  Comum  inserido  de forma fluida  na proclamação  de Lucas 15, 1-32 — constitui uma resposta de Jesus às murmurações dos fariseus e escribas, que o criticavam por acolher pecadores e comer com eles (Lc 15,1-2). Não estamos diante de três parábolas soltas, mas de uma tríade pedagógica que revela, em crescendo, o escândalo da misericórdia divina e a centralidade do “buscar e encontrar”. A estrutura é repetida: algo se perde, alguém busca, algo é encontrado, e há festa.

"Qual de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma..."

 Jesus inicia a parábola com uma pergunta que desestabiliza o senso comum. Quem, de fato, deixaria noventa e nove para buscar uma? Nenhum pastor sensato faria isso. E é justamente aí que se revela a diferença entre Deus e o homem. Como diz Isaías, “meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8). O que para nós parece irracional, para Deus é sinal de justiça e fidelidade. A justiça de Deus não se mede por quantidade ou mérito, mas por um compromisso visceral com cada vida, especialmente com a que está à margem.

O texto carrega ecos do Antigo Testamento. O próprio Deus, no livro de Ezequiel, se apresenta como pastor que busca a ovelha perdida: “Procurarei a que estiver perdida, reconduzirei a que se desgarrar, enfaixarei a ferida, darei força à fraca” (Ez 34,16). Jesus não apenas narra essa parábola: Ele encarna esse Deus-pastor, que se lança em missão até as periferias humanas (cf. Mt 9,36; Mc 6,34). Não é por acaso que o Bom Pastor da parábola carrega nos ombros a ovelha reencontrada — gesto de ternura, de responsabilidade, de dignidade restaurada (cf. Is 40,11).

Esse reencontro é celebrado com alegria, porque “há mais alegria no céu por um só pecador que se converte” (Lc 15,7). A festa no céu contrasta com a frieza dos religiosos que murmuravam contra Jesus por acolher os pecadores (Lc 15,2). A parábola, portanto, não é apenas doutrina; é denúncia. Ela põe em xeque uma religião que contabiliza fiéis, mas não conhece seus nomes; que exige pureza moral, mas não tem compaixão; que se envergonha dos fracos e bajula os fortes. Jesus, ao contrário, não se envergonhava de se deixar tocar por leprosos, comer com publicanos, dialogar com samaritanas, curar em dia de sábado. Ele é o Coração que sangra por amar (cf. Jo 19,34).

Nesse sentido, a ovelha que se perde pode ser também aquela que não suportou mais a hipocrisia do redil. Talvez não tenha se desviado por rebeldia, mas por fome de sentido. Talvez tenha sido empurrada para fora por uma comunidade que, ao invés de pastorear, policiava. Quantas vezes a ovelha se afasta porque a Igreja falhou em ser refúgio? Quantas vezes nossas estruturas eclesiais — marcadas por clericalismo, legalismo, autorreferência — produziram mais afastamento que comunhão? Como advertia o Papa Francisco, de santa memória, em sua exortação Evangelii Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada por sair às ruas do que uma Igreja doente por se fechar em si mesma” (EG, 49). Francisco recuperava com força a intuição de que a fé cristã é caminho, dinamismo, travessia. Como a mulher que acende a lâmpada ou o pastor que atravessa o deserto, também a comunidade eclesial é chamada a sair, a iluminar, a buscar com perseverança — mesmo aquilo que outros julgariam perdido para sempre.

A pastoral do coração não calcula perdas, mas busca o que falta. A missão do Cristo, revelada no próprio evangelho de Lucas, é “buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). O mesmo verbo usado para descrever a missão de Jesus reaparece aqui na ação do pastor: ele vai atrás da ovelha. A fé cristã não é estática. É movimento, saída, peregrinação. O amor do Sagrado Coração é dinâmico, inquieto, sempre em busca.

Essa busca envolve riscos. O deserto é perigoso. As noventa e nove ficam desprotegidas. Mas o que está em jogo não é uma organização pastoral eficiente; é o coração do Evangelho. Jesus jamais fundou um modelo de controle, mas de compaixão. Ele mesmo diz que o pastor verdadeiro não foge diante do lobo, mas entrega a vida (Jo 10,11-15). E o apóstolo Paulo interpreta esse gesto como loucura do amor: “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Ou seja, antes mesmo do arrependimento, o amor já nos alcançou. Nesse movimento de busca e encontro, revela-se também a dimensão eucarística da parábola. A festa ao reencontrar a ovelha é um banquete de reconciliação. Lembra o pai do filho pródigo que manda matar o novilho gordo para celebrar o retorno (Lc 15,23). Na Eucaristia, a Igreja revive essa alegria do reencontro, mas ela só é autêntica quando todos têm lugar à mesa. Não podemos comungar o Corpo de Cristo e, ao mesmo tempo, excluir os corpos concretos dos irmãos e irmãs feridos. Não há comunhão sem inclusão.

O drama da religião sem coração, do rito sem vida, é a cegueira diante da ovelha ferida. A extrema-direita religiosa, ao instrumentalizar o cristianismo para justificar políticas de exclusão, violência e supremacia, trai o Evangelho do Pastor que se perde por amor. A verdadeira tradição eclesial está ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos que choram (cf. Mt 5,3-12). A ovelha perdida, para muitos desses movimentos, é escandalosa. Mas é ela que provoca a festa no céu e  talvez seja necessário ir além: quem disse que a ovelha perdida está fora? E se o redil não for sinal de comunhão, mas de conformismo? E se o que chamamos de “segurança” for, na verdade, o aprisionamento de consciências? O profeta Isaías já dizia: “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho” (Is 53,6). A ovelha perdida, portanto, não é exceção: é espelho. Todos somos, de algum modo, buscados por um amor que se recusa a desistir de nós. 

A crítica filosófica pode nos iluminar aqui: Friedrich Nietzsche, embora crítico da religião institucional, intuía que muitas vezes é o doente quem enxerga melhor a doença da sociedade. A ovelha "perdida", nesse sentido, pode ser a mais lúcida. Há uma denúncia implícita contra uma espiritualidade massificada, onde a segurança de estar “dentro” faz com que ninguém mais questione se o caminho é realmente justo. A ovelha perdida pode ser o artista que se afastou porque não havia espaço para sua sensibilidade na rigidez litúrgica; pode ser a mulher excluída por ser mãe solteira; pode ser o jovem que se levantou contra o racismo estrutural da comunidade de fé; pode ser o pobre que se cansou de ouvir sermões sobre obediência enquanto era oprimido.

Nesse sentido, ela não apenas precisa ser buscada — ela nos desafia. O retorno da ovelha perdida não é apenas salvação pessoal, é uma provocação comunitária. Ela carrega consigo o clamor de uma Igreja mais inclusiva, mais humana, mais aberta ao Evangelho como libertação. E é nesse reencontro — com suas feridas, perguntas e esperanças — que o Coração de Jesus se regozija e nos convida a fazer festa.

O Sagrado Coração de Jesus, transpassado e vivo, continua a pulsar por cada um que se distancia. Ele não pergunta o motivo da perda, mas se lança na busca. E o faz com pressa, como a mulher que varre a casa para encontrar a moeda (Lc 15,8-10), como o pai que corre ao encontro do filho (Lc 15,20). Esse Deus corre, busca, carrega, celebra.

Que esta parábola — breve, mas abismal — nos desinstale. Que nos liberte da ilusão de estarmos já salvos só porque permanecemos no “rebanho”. Que nos converta a um cristianismo do coração, onde a prioridade seja sempre o que está fora, ferido, perdido. E que a Igreja, à imagem do seu Senhor, tenha a coragem de deixar os noventa e nove e sair pelas estradas, pelos becos, pelos desertos... até encontrar a que falta. Porque é ela que faz falta ao Coração de Deus e talvez essa saída não seja apenas para buscar, mas para aprender. Talvez o reencontro com a ovelha nos mostre o que esquecemos no redil: o frescor do Evangelho, a dor do povo, o clamor por justiça, o grito de quem nunca foi ouvido. A festa no céu, afinal, começa quando o amor vence o medo, e a misericórdia desfaz os muros da indiferença.

Celebrar o Coração de Jesus é comprometer-se com sua compaixão que não calcula, com sua ternura que não se escandaliza, com sua fidelidade que não desiste. Se nos deixarmos encontrar por esse amor — e se formos capazes de buscá-lo nos caminhos esquecidos — então a parábola deixa de ser apenas palavra e se faz carne em nós e  a Igreja se tornará, enfim, o que é chamada a ser: não um curral fechado de justos, mas casa aberta onde até a ovelha mais ferida encontre abrigo, dignidade e pão.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 23 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 1,57-66.80 – Solenidade da Natividade de São João Batista

Entre Elias e João, entre o fogo e o Jordão, caminhamos com os olhos no Reino e os pés firmes na história.

A narrativa de Lucas 1,57-66.80, proclamada na Solenidade do Nascimento de São João Batista, ocupa um lugar singular no Novo Testamento. A Igreja celebra o nascimento de apenas três pessoas: Jesus Cristo, Maria e João Batista. Esse fato, por si só, revela a importância única daquele que seria o precursor do Messias, a voz que prepara os caminhos do Senhor. Seu nascimento não é apenas um acontecimento familiar extraordinário, mas um sinal de que Deus continua agindo na história humana, especialmente quando tudo parece marcado pela esterilidade, pelo silêncio e pela impossibilidade. Lucas apresenta João como fruto da fidelidade divina às promessas. Em um contexto no qual Isabel carregava o peso social da esterilidade e Zacarias experimentava o silêncio imposto por sua incredulidade, Deus faz florescer a vida onde a sociedade enxergava fracasso e abandono. O nascimento do menino provoca espanto, alegria e questionamentos entre os vizinhos: “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). A pergunta não se dirige apenas ao futuro de João, mas aponta para a ação surpreendente de Deus, que frequentemente escolhe os pequenos, os esquecidos e os improváveis para realizar seus desígnios.

Mais do que narrar um nascimento, Lucas apresenta o surgimento de uma vocação profética destinada a marcar a transição entre as promessas da antiga aliança e sua realização em Jesus Cristo. João nasce para preparar caminhos, despertar consciências e convocar o povo à conversão. Sua vida será um sinal permanente de que Deus não se acomoda às estruturas religiosas cristalizadas nem aos mecanismos de poder que produzem exclusão e injustiça. Sua voz surgirá no deserto, longe dos centros de influência, anunciando que o Reino de Deus está próximo e exigindo uma transformação concreta da vida. Ao contemplarmos o nascimento de João Batista, somos convidados a reconhecer que Deus continua levantando vozes proféticas em tempos de conformismo, silêncio e acomodação. A pergunta feita pelos vizinhos de Isabel permanece atual e desafiante para cada geração de cristãos:

  • Que tipo de testemunhas estamos formando para anunciar o Evangelho em nosso tempo 

O nascimento de João Batista, tal como narrado por Lucas, não é apenas o relato de um milagre doméstico em meio a um casal idoso e estéril. É o sinal de que Deus continua intervindo na história por vias inesperadas, rompendo a lógica da esterilidade espiritual, social e institucional. Zacarias, que emudece por sua incredulidade, e Isabel, que carregava em si o estigma do silêncio social, tornam-se os primeiros porta-vozes de uma nova economia da graça. A realização da promessa não se dá pela força humana, mas pela fidelidade divina que escolhe os humildes, os esquecidos, os que não contam nas genealogias do poder (cf. 1Cor 1,27-28).

Ao insistirem no nome “João”  que significa “Deus é misericordioso”, os pais rejeitam a tradição onomástica patriarcal. Esse gesto aparentemente simples já inaugura uma ruptura: Deus começa a escrever uma nova história que não se curva às convenções familiares nem aos caprichos religiosos. O nome de João é um sinal de que o agir de Deus não é herança biológica, mas vocação profética. E essa vocação começa não no centro, mas na periferia; não no palácio ou no Templo, mas no deserto. O menino cresce longe das estruturas corrompidas, em lugar de silêncio e liberdade, onde não há templos nem altares luxuosos, mas há céu aberto, pão simples e escuta radical. 

É nesse deserto que ressoa a voz de Isaías, o profeta do exílio e da esperança: “Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (Is 40,3).

Essa voz não surge de improviso. João é chamado desde o ventre. Ainda em gestação, ele é o primeiro a reconhecer a presença do Messias  e não com palavras, mas com o estremecimento do corpo (cf. Lc 1,41). A primeira teofania joanina acontece no encontro entre duas mulheres, Maria e Isabel, dois ventres grávidos de promessa e revolução (cf. Lc 1,39-45).  João salta, vibra, dança no útero, como que proclamando: “Ele está aqui!”. Antes de pregar no Jordão, João já profetiza no ventre, reconhecendo Aquele que viria depois dele, mas que é antes de tudo. Esse encontro intrauterino não é apenas afeto familiar; é o início de uma missão que se cumpre com crescente consciência: “Eu não o conhecia, mas para que Ele fosse manifestado a Israel, vim batizando com água” (Jo 1,31). João, mesmo crescendo no deserto, permanece conectado ao Mistério. Quando enfim vê Jesus caminhando à beira do Jordão, ele exclama, com a precisão de quem esperou uma vida inteira por aquele momento: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29).

Da criança que saltou no ventre ao profeta que aponta o Cordeiro, há um fio invisível de fidelidade e escuta. João não age por conveniência ou prestígio; ele reconhece, indica e se retira: “É necessário que Ele cresça, e que eu diminua” (Jo 3,30).

Essa transição, contudo, não foi sem tensões. Os próprios evangelhos registram que, em determinado momento, os discípulos de João questionam Jesus (cf. Lc 7,18-23), revelando que a passagem do profetismo joanino ao seguimento do Messias não se deu de forma homogênea. Alguns grupos continuaram a seguir João mesmo após sua morte, mantendo seu batismo e sua memória profética. Tradições extracanônicas  como as Homilias Clementinas, de provável origem judaico-cristã e hoje consideradas literatura apócrifa  preservam ecos de uma rivalidade entre os seguidores dos “dois profetas”. Ainda que envoltas em linguagem simbólica, essas narrativas revelam uma tensão real entre movimentos que disputavam o sentido da fidelidade ao Deus de Israel. 

O evangelho de João responde a essa tensão com delicadeza teológica. Ao omitir o batismo de Jesus por João e colocar nos lábios do Batista o reconhecimento definitivo — “Eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus” (Jo 1,34), a comunidade joanina evita o conflito, honra a memória do profeta e afirma: João não é a luz, mas veio para dar testemunho da luz (Jo 1,8). Em tempos de disputas eclesiais por autoridade, influência e “paternidade espiritual”, essa atitude é pedagógica: o verdadeiro profeta sabe quando é hora de sair de cena.

A trajetória de João ecoa a de Elias, o profeta do fogo que confrontou a idolatria e desmascarou a aliança perversa entre religião e política nos tempos de Acab e Jezabel (cf. 1Rs 17–19). Ambos vivem à margem, alimentam-se com o mínimo, vestem-se sem ostentação (cf. Mt 3,4), e mantêm distância dos palácios e dos privilégios. Eles não pregam para agradar, mas para despertar. Elias denunciou o adultério espiritual de Israel; João denunciou o adultério moral e político de Herodes (cf. Mt 14,3-4). E ambos pagaram caro por isso. Mas como afirmou Jesus, João é o Elias que devia vir (cf. Mt 11,14; Lc 1,17) — não como repetição literal, mas como encarnação do mesmo espírito de denúncia, justiça e fidelidade ao Deus da Aliança.

A tradição patrística leu João Batista como ponte entre as duas margens da revelação. Agostinho o compreendeu como o último profeta da antiga ordem e o primeiro a apontar o Cordeiro de Deus, sinalizando a chegada do Reino. Orígenes via em seu batismo uma pedagogia divina de transição: não é o fim da Lei, mas o caminho para a Graça. João não substitui Elias; ele o atualiza. Não é reencarnação, mas reinauguração. Seu profetismo não é repetição de fórmulas, mas resposta viva ao contexto concreto. Ele denuncia não só pecados individuais, mas as estruturas que sustentam a injustiça. Sua voz exige conversão real, ética, comunitária e histórica não apenas ajustes morais privados.

Essa ousadia não está ausente do magistério atual da Igreja. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, recorda que a missão evangelizadora não pode se restringir à conservação de estruturas estéreis, mas deve ser ousada, movida pelo Espírito, uma Igreja “em saída”, que prefere os riscos da rua à estagnação das sacristias (EG 49). João já encarnava essa dinâmica muito antes. Não esperava que o povo fosse ao Templo: foi ao deserto, ao Jordão, às margens do sistema religioso (cf. Lc 3,2-3). Seu batismo era um choque de realidade, um grito contra a acomodação, uma convocação ao recomeço. Preparar o caminho do Senhor não era um slogan espiritual, mas uma convocação ética à transformação da vida e da sociedade. 

Na mesma linha, Laudate Deum denuncia as alianças espúrias entre destruição ambiental, economia extrativista e falsas espiritualidades que sacralizam o lucro. João, com sua vida austera e sua palavra incisiva, é um contraponto vivo às religiões do mercado e aos pregadores de paletó e microfone dourado. Muitos dos que hoje falam em nome de Deus o fazem a serviço do capital, da violência simbólica e do negacionismo. Propagam uma teologia que justifica o ódio aos pobres (cf. Am 2,6-7), a exclusão das mulheres, a criminalização dos indígenas e dos migrantes (cf. Ex 23,9). Essa teologia do lucro é o novo Baal de nossos dias. E, como Elias e João, somos chamados a confrontá-la com coragem e fidelidade.

A espera pela segunda vinda de Cristo não pode ser passiva, adormecida em rituais e dogmas fossilizados. A verdadeira espera é ativa, comprometida com os sinais do Reino (cf. Mt 25,31-46). É tempo de conversão encarnada, que se expressa em compromisso com os que sofrem, com os que são silenciados, com os que resistem. Como João, precisamos ser voz que clama no deserto dos sistemas religiosos esvaziados e das democracias corroídas. Como Elias, devemos incendiar os falsos altares com a verdade do Reino (cf. 1Rs 18,38-39). Não há boa nova sem denúncia do que aprisiona. Não há batismo verdadeiro sem transformação da realidade.

Lucas conclui dizendo que João “crescia e se fortalecia em espírito” (Lc 1,80), e isso não se refere a um desenvolvimento individualista, mas à maturidade espiritual que nasce da escuta profunda e da resistência fiel. Em tempos de fé diluída e religiosidade performática, crescer em espírito significa resistir ao comodismo, denunciar as idolatrias (cf. 1Jo 5,21), manter-se fiel mesmo que isso custe a cabeça (cf. Mc 6,27-28). O martírio de João não é acidente de percurso: é consequência da coerência. 

O Reino não virá com palmas, cruzes douradas ou slogans triunfalistas. O Reino vem com justiça (cf. Is 11,1-5), com verdade (cf. Sl 85,11), com a coragem de João e o fogo de Elias. Entre o deserto e o Jordão, entre o grito e o martírio, entre o ventre e a cruz, somos chamados a preparar caminhos onde a vida possa florescer — ainda que custe tudo.

Lucas encerra o relato afirmando que João “crescia e se fortalecia em espírito, e vivia nos desertos até o dia de sua manifestação a Israel” (Lc 1,80). Não se trata apenas de crescimento biológico ou amadurecimento pessoal, mas da formação de uma consciência profundamente enraizada na escuta de Deus e livre das seduções do poder. O deserto torna-se a escola onde o profeta aprende a distinguir a voz do Senhor do ruído das ideologias, dos interesses religiosos e das falsas seguranças humanas.

Também hoje vivemos cercados por desertos: desertos de sentido, de justiça, de solidariedade e de esperança, multiplicam-se discursos religiosos que falam de Deus, mas silenciam diante da pobreza, da violência, da destruição da criação e da exclusão dos mais vulneráveis. Nesse contexto, o nascimento de João Batista continua sendo uma interpelação à Igreja e à sociedade. Deus segue suscitando homens e mulheres capazes de preparar caminhos para o Reino, denunciar os ídolos de seu tempo e anunciar que outro mundo é possível porque Deus permanece fiel à sua promessa.

A pergunta dos vizinhos de Isabel continua ecoando através dos séculos:  “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). Talvez a questão deva ser ampliada para nossas comunidades e para cada um de nós: 

  • Que tipo de discípulos estamos nos tornando?
  •  Seremos apenas consumidores de religião ou testemunhas do Evangelho? 
  • Teremos a coragem de João para apontar o Cristo e denunciar aquilo que desfigura a vida?
 O Reino de Deus continua procurando vozes que clamem no deserto, mãos que preparem caminhos e corações dispostos a diminuir para que Cristo cresça. A verdadeira grandeza de João não esteve em sua fama, mas em sua fidelidade. E é essa mesma fidelidade que o Evangelho continua exigindo de todos aqueles que desejam seguir Jesus.

DNonato – Teólogo do Cotidiano