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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,36-43

A explicação da parábola do joio entre o trigo, registrada em Mateus 13,36-43, ocupa um lugar privilegiado na tradição litúrgica da Igreja porque constitui a interpretação dada pelo próprio Jesus a uma de suas parábolas mais densas sobre o Reino de Deus. No Lecionário Romano da Igreja Católica, esta perícope é proclamada anualmente na terça-feira da décima sétima semana do Tempo Comum, no ciclo ferial, depois de a Igreja ter proclamado a parábola do joio (Mt 13,24-30) no sábado da décima sexta semana do Tempo Comum. Ela também integra o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A (Mt 13,24-43, ou Mt 13,24-30 na forma breve), juntamente com as parábolas do grão de mostarda e do fermento, proclamada  na segunda-feira  da  17ª  semana  do Tempo Comum Mateus 13, 31-35   oferecendo uma ampla catequese sobre o Reino dos Céus.  A proclamação desse texto no 16º Domingo do Tempo Comum e sua distribuição para a proclamação no sábado  da 16ª Semana do Tempo Comum e na segunda-feira e na terça-feira da 17ª Semana do Tempo Comum, no calendário litúrgico ferial, têm como propósito levar os fiéis a refletir, de forma detalhada, sobre o Reino dos Céus. Essa pedagogia é aplicada da seguinte forma: 
  • Primeiro, a comunidade escuta a parábola do joio
  • Segundo  contempla as parábolas do grão de mostarda e do fermento, que revelam o crescimento silencioso e transformador do Reino
  • Terceiro recebe do próprio Cristo a interpretação da parábola do joio. 
A Igreja respeita, assim, o ritmo do próprio Evangelho, conduzindo gradualmente os fiéis à compreensão dos mistérios do Reino. As Igrejas Ortodoxas Bizantinas também utilizam esse conjunto de parábolas em sua tradição litúrgica, especialmente nos domingos dedicados aos ensinamentos sobre o Reino dos Céus. Da mesma forma, as tradições Anglicana, Luterana, Reformada, Metodista e outras Igrejas históricas conservam esse texto em seus lecionários, normalmente durante o período após Pentecostes ou no Tempo Comum, reconhecendo nele uma das mais importantes reflexões evangélicas sobre o discernimento, a paciência divina e o juízo de Deus.

Convém observar que a parábola do joio entre o trigo e sua explicação constituem uma tradição exclusiva do Evangelho de Mateus. Diferentemente da parábola do semeador, do grão de mostarda e do fermento, preservadas também por Marcos e Lucas (Mc 4,1-20.30-32; Lc 8,4-15; 13,18-21), a narrativa do joio (Mt 13,24-30) e sua interpretação (Mt 13,36-43) pertencem à teologia própria do primeiro evangelho. Isso não significa isolamento, mas aprofundamento. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce por si mesma (Mc 4,26-29), exclusiva de sua tradição, ressaltando o crescimento misterioso do Reino; Lucas enfatiza a misericórdia de Deus e a universalidade da salvação; Mateus contempla de modo particular a convivência dramática entre o bem e o mal na história, insistindo na paciência divina e na certeza do juízo escatológico. Os três evangelistas convergem ao anunciar que o Reino já está presente, embora sua manifestação plena permaneça como esperança futura. A perícope de Mateus 13,36-43 não pode ser compreendida isoladamente. Ela nasce de um longo processo narrativo cuidadosamente construído pelo evangelista. Depois da crescente oposição das autoridades religiosas contra Jesus, especialmente a partir do capítulo 12, quando os fariseus decidem eliminá-lo (Mt 12,14), o Mestre passa a ensinar preferencialmente por meio de parábolas. Não se trata apenas de um recurso pedagógico. As parábolas revelam e escondem ao mesmo tempo: iluminam aqueles que se abrem à Palavra e permanecem enigmáticas para quem endureceu o coração. Cumpre-se, assim, a profecia de Isaías: "Ouvireis, mas não entendereis; olhareis, mas não vereis" (Is 6,9-10; Mt 13,14-15). A linguagem parabólica manifesta que o Reino não se impõe pela força, mas exige abertura interior, conversão e disposição para abandonar antigas formas de pensar Deus, o mundo e a própria religião.

Antes da explicação da parábola, Jesus já havia contado a parábola do semeador (Mt 13,1-23), a do joio (Mt 13,24-30), a do grão de mostarda (Mt 13,31-32) e a do fermento (Mt 13,33), encerrando essa primeira série de ensinamentos com a citação do Salmo 78,2: "Abrirei a boca em parábolas; proclamarei coisas escondidas desde a fundação do mundo" (Mt 13,34-35). Mateus apresenta Jesus como aquele que revela os mistérios do Reino ocultos desde a criação, mostrando que toda a história da salvação encontra nele seu pleno sentido. A explicação da parábola acontece somente depois que Jesus deixa a multidão e entra na casa. Esse detalhe, aparentemente simples, possui grande força simbólica. A multidão permanece às margens do lago, enquanto os discípulos entram na intimidade da casa. Na tradição bíblica, a casa representa o espaço da comunhão, da família da fé, da escuta e da formação. É nesse ambiente de proximidade que Jesus revela o significado profundo da parábola. A revelação exige convivência. Não basta ouvir Jesus de longe; é preciso permanecer com Ele, perguntar, escutar e deixar-se formar por sua Palavra.

O pedido dos discípulos revela uma atitude fundamental da espiritualidade cristã: "Explica-nos a parábola do joio do campo" (Mt 13,36). Diferentemente das lideranças religiosas que julgavam possuir todas as respostas, os discípulos reconhecem seus limites. A humildade intelectual e espiritual torna-se condição indispensável para compreender os mistérios do Reino. Toda autêntica exegese começa pela consciência de que a Palavra de Deus é sempre maior do que nossas interpretações e não pode ser aprisionada por sistemas ideológicos, interesses particulares ou leituras fundamentalistas. Jesus inicia sua explicação identificando cada elemento da parábola: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do Maligno; o inimigo que o semeou é o diabo; a colheita é o fim dos tempos; os ceifeiros são os anjos" (Mt 13,37-39). Chama a atenção que o campo não representa a Igreja, mas o mundo inteiro. A missão do Reino nunca esteve confinada aos limites institucionais da comunidade eclesial. Deus continua semeando sua vida em toda parte, inclusive onde muitos imaginam que Ele esteja ausente. O título "Filho do Homem" remete diretamente à visão de Daniel 7,13-14, onde aquele que vem sobre as nuvens recebe de Deus um reino eterno fundamentado na justiça. Mateus apresenta Jesus como o verdadeiro Filho do Homem que inaugura esse Reino esperado por Israel. Contudo, seu reinado manifesta-se de maneira surpreendente: não elimina imediatamente o mal nem destrói os pecadores, mas continua semeando vida, esperança e misericórdia em meio às ambiguidades da história.

O cenário agrícola descrito por Jesus corresponde fielmente à realidade da Palestina do primeiro século. O joio, provavelmente identificado com a planta Lolium temulentum, era extremamente semelhante ao trigo durante boa parte de seu desenvolvimento. Somente quando ambos amadureciam tornava-se evidente a diferença entre eles. Arrancar o joio antes do tempo significava colocar em risco toda a plantação, pois suas raízes se entrelaçavam às do trigo. O ensinamento de Jesus nasce da observação concreta da vida camponesa. Seu Evangelho nunca é abstrato. Deus fala através da terra, das sementes, das estações, da chuva, do trabalho dos agricultores e da experiência cotidiana do povo..No antigo Oriente, a agricultura estruturava praticamente toda a organização econômica e social. Uma colheita perdida significava fome, endividamento, escravidão e, muitas vezes, morte. O trigo era muito mais do que alimento; representava vida, futuro e sobrevivência coletiva. Assim, quando Jesus fala de uma plantação ameaçada, seus ouvintes compreendem imediatamente a gravidade da situação. O Reino não é apresentado como uma teoria religiosa, mas como aquilo que sustenta a existência humana em todas as suas dimensões.

Entretanto, a parábola introduz um elemento desconcertante: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O mal aparece como ação clandestina, silenciosa e parasitária. Ele não cria nada. Apenas corrompe aquilo que Deus já criou como bom. Desde o Gênesis, a Escritura insiste que toda a criação saiu boa das mãos do Criador (Gn 1,31). O mal não possui existência própria nem poder criador. Ele vive da falsificação, da mentira e da distorção. Como afirma Jesus em outro contexto, o diabo é "pai da mentira" (Jo 8,44). A imagem revela uma verdade permanente sobre a experiência humana. O mal raramente chega de maneira explícita. Quase sempre apresenta-se disfarçado de bem, de eficiência, de patriotismo, de moralidade, de religiosidade ou de prosperidade. A tentação narrada em Gênesis 3 jamais propõe o mal como mal, mas promete autonomia absoluta, poder e conhecimento. Da mesma forma, as tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11) oferecem soluções aparentemente legítimas para necessidades reais. O discernimento espiritual consiste justamente em aprender a distinguir aquilo que parece bom daquilo que verdadeiramente conduz à vida.

É significativo que os servos desejem arrancar imediatamente o joio. A lógica humana prefere respostas rápidas, condenações sumárias e soluções violentas. A lógica divina, porém, é diferente. O senhor responde: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Esta resposta não significa indiferença diante do mal nem relativização da justiça. Significa reconhecer que os seres humanos possuem enorme dificuldade para julgar definitivamente o coração das pessoas. A precipitação frequentemente destrói vidas inocentes em nome de uma suposta pureza.

Ao longo da história bíblica, Deus revela repetidamente esta paciência. Espera por Caim antes de condená-lo (Gn 4,6-7), oferece inúmeras oportunidades de conversão a Israel através dos profetas, envia Jonas para anunciar misericórdia a Nínive (Jn 3,1-10) e faz nascer o sol sobre justos e injustos (Mt 5,45). Como recorda o livro da Sabedoria, "mostras tua força sendo paciente" (Sb 12,16-19). A verdadeira onipotência divina manifesta-se mais na misericórdia do que na destruição.

Essa paciência de Deus constitui uma crítica permanente a toda forma de fundamentalismo religioso. Sempre que grupos humanos se arrogam o direito de separar definitivamente os bons dos maus, os puros dos impuros, os salvos dos condenados, acabam ocupando um lugar que pertence somente ao Senhor da história. Jesus conheceu essa tentação entre alguns fariseus, entre setores rigoristas do judaísmo e até mesmo entre seus discípulos, que desejavam fazer descer fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54-56). Sua resposta permanece atual para toda comunidade cristã que transforma a fé em instrumento de exclusão em vez de caminho de conversão. É precisamente aqui que a parábola começa a iluminar o nosso tempo: ela denuncia o mal com clareza, mas recusa transformar pessoas em objetos descartáveis. A justiça de Deus jamais se separa da misericórdia, e sua misericórdia nunca elimina a exigência da verdade. Nessa tensão fecunda entre justiça e compaixão começa a revelar-se o verdadeiro rosto do Reino dos Céus.  A explicação da parábola prossegue afirmando: "Assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, assim acontecerá no fim dos tempos. O Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que são causa de pecado e os que praticam a iniquidade" (Mt 13,40-41). Essas palavras exigem uma leitura hermenêutica cuidadosa para que não sejam reduzidas a uma linguagem de medo nem utilizadas como instrumento de ameaça religiosa. Ao longo da história, não foram poucas as interpretações que enfatizaram apenas o aspecto punitivo desta passagem, produzindo espiritualidades marcadas pelo temor diante de Deus. Entretanto, quando lida no conjunto do Evangelho de Mateus, a imagem do juízo aparece como expressão da justiça restauradora de Deus, que não permite que a violência, a mentira e a opressão tenham a última palavra sobre a história.

O Evangelho de Mateus apresenta, do início ao fim, um Deus comprometido com a justiça dos pequenos. O nascimento de Jesus já acontece sob a perseguição de Herodes (Mt 2,13-18). No Sermão da Montanha, são proclamados felizes os pobres, os mansos e os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,3-10). Mais adiante, Jesus identifica-se com quem tem fome, sede, está doente, preso ou é estrangeiro (Mt 25,31-46). Assim, quando a parábola anuncia que Deus removerá tudo aquilo que produz injustiça, ela não alimenta o desejo de vingança, mas oferece esperança às vítimas da história. O Reino não consiste apenas em consolar os que sofrem, mas também em desmantelar definitivamente tudo aquilo que produz sofrimento. A expressão "os que são causa de pecado" traduz o termo grego skándala, que designa armadilhas, obstáculos e tudo aquilo que faz alguém tropeçar no caminho da vida. O pecado, portanto, não aparece apenas como ato individual, mas também como realidade estrutural. Essa perspectiva encontra profunda ressonância na Doutrina Social da Igreja. São João Paulo II, na Sollicitudo Rei Socialis, fala das "estruturas de pecado"; o Catecismo da Igreja Católica recorda que o pecado gera situações sociais contrárias ao projeto de Deus; e o Documento de Aparecida denuncia estruturas econômicas, culturais e políticas que produzem exclusão, miséria e morte, incompatíveis com o Reino anunciado por Cristo.

Essa compreensão impede reduzir o Evangelho a uma espiritualidade intimista. O joio cresce não apenas no coração humano, mas também nas instituições, nas economias, nos sistemas políticos e até mesmo nas organizações religiosas. Sempre que uma estrutura produz exclusão permanente, desprezo pelos pobres, racismo, violência, destruição ambiental, exploração econômica ou manipulação das consciências, manifesta algo da lógica do joio infiltrado no campo do mundo. A denúncia profética da Escritura nunca separa pecado pessoal de pecado social. Amós condena os que compram o pobre por um par de sandálias (Am 8,4-7); Isaías denuncia governantes que fazem leis injustas (Is 10,1-2); Miqueias acusa os que acumulam terras expulsando famílias de suas propriedades (Mq 2,1-2); Jeremias combate uma religião que frequenta o templo enquanto oprime órfãos, viúvas e estrangeiros (Jr 7,1-15). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer leitura da parábola que ignore a dimensão social do pecado permanece incompleta. O Filho do Homem não vem apenas julgar indivíduos isolados, mas confrontar toda realidade que transforma pessoas em objetos descartáveis. Em nossos dias, isso inclui economias que absolutizam o lucro acima da dignidade humana, políticas que alimentam o ódio para preservar privilégios, sistemas de comunicação que lucram com a mentira e culturas que naturalizam a desigualdade como se fosse vontade divina. O Reino de Deus confronta tudo aquilo que impede a vida de florescer em abundância (Jo 10,10).

Essa crítica alcança também determinadas formas de religião. Ao longo da história, a fé foi frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder. O Deus libertador do Êxodo foi transformado em garantia dos faraós de cada época, e a cruz de Cristo chegou a ser utilizada para justificar guerras, colonialismos e perseguições. Ainda hoje, sempre que o Evangelho é identificado automaticamente com projetos partidários, ideológicos ou nacionalistas, perde-se de vista a soberania de Deus para colocá-la a serviço de interesses humanos. Jesus jamais permitiu essa instrumentalização. Quando tentaram fazê-lo rei segundo expectativas nacionalistas, retirou-se sozinho para a montanha (Jo 6,15). Diante de Pilatos, declarou que seu Reino "não é deste mundo" (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo a lógica da dominação, da violência e da imposição. Isso não significa alienação da vida pública, mas afirma que toda política deve estar submetida ao serviço do bem comum, da justiça e da dignidade humana. Essa perspectiva exige discernimento também diante das expressões religiosas que absolutizam líderes, transformam ministros em figuras incontestáveis ou confundem fidelidade ao Evangelho com obediência cega a pessoas. O clericalismo, tantas vezes denunciado pelo Magistério contemporâneo, representa precisamente essa deformação. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, recuperou a imagem da Igreja como Povo de Deus, no qual todos os batizados participam da missão de Cristo segundo a própria vocação. Em continuidade com esse ensinamento, o Papa Francisco advertiu repetidas vezes que o clericalismo infantiliza os leigos, concentra poder e enfraquece a corresponsabilidade eclesial. Onde o serviço se transforma em privilégio e a autoridade perde sua dimensão de diaconia, o joio cresce silenciosamente entre o trigo.

Hoje  voltamos a ideia do  farisaísmo, só  tem bênção se tiver sucesso  financeiro com a  teologia da prosperidade  que  desloca o centro do Evangelho. Jesus nunca prometeu riqueza como sinal automático da bênção divina. Ao contrário, advertiu que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), chamou felizes os pobres (Lc 6,20), alertou para o perigo das riquezas (Mc 10,23-27) e viveu ele próprio na simplicidade. Quando a fé é transformada em mecanismo para obtenção de sucesso financeiro ou ascensão social, o Reino deixa de ser dom gratuito para converter-se em produto religioso. Desaparece a centralidade da cruz, enfraquece-se a solidariedade e os pobres acabam sendo responsabilizados por sua própria condição, em flagrante oposição à lógica das Bem-aventuranças. Ainda temos o perigo  das chamadas teologias do domínio contradizem a pedagogia do Reino. Jesus apresenta o Reino como fermento escondido na massa (Mt 13,33), como grão de mostarda (Mt 13,31-32) e como semente que cresce silenciosamente (Mc 4,26-29). Sua força reside na transformação interior das pessoas e das relações humanas, nunca na imposição autoritária ou na conquista de poder. Sempre que a religião procura controlar consciências ou identificar a vontade de Deus com interesses ideológicos, distancia-se do caminho percorrido por Cristo. Hoje  mais que  ontem, torna-se necessário discernir criticamente qualquer forma de instrumentalização política da fé.

 O Evangelho não pode ser instrumento  de poder  ou ser identificar  com projetos de poder da  direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente ideológica. Sua liberdade profética impede que seja reduzido aos interesses de partidos ou governos. Exatamente por essa liberdade, porém, o Evangelho denuncia toda proposta política que absolutize o poder, despreze os pobres, relativize a dignidade humana, incentive a violência, destrua a democracia, negue direitos fundamentais ou transforme adversários em inimigos absolutos. A missão profética da Igreja consiste em iluminar a história à luz do Reino de Deus, jamais em servir como instrumento de dominação. Essa compreensão encontra sólido fundamento no Magistério contemporâneo: 

  • A Evangelii Gaudium denuncia a mundanidade espiritual, a economia da exclusão e a cultura do descarte (EG 53-60; 93-97; 120). 
  • A Fratelli Tutti propõe a fraternidade universal como resposta às polarizações e aos nacionalismos excludentes.
  •  Medellín denunciou a violência institucionalizada da miséria
  •  Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; 
  • Santo Domingo insistiu na promoção integral da pessoa humana
  • Aparecida reafirmou que a evangelização não pode ser separada do compromisso com a justiça.
  •  A CNBB,  na carta ao Povo e  outros  em numerosos documentos, recorda que a missão evangelizadora inclui a defesa da democracia, dos direitos humanos, da paz e da dignidade de toda pessoa humana.

É importante notar que a parábola não autoriza ninguém a identificar previamente quem é trigo e quem é joio. Essa decisão pertence exclusivamente ao Senhor da colheita. Sempre que pessoas ou comunidades pretendem ocupar esse lugar, acabam reproduzindo justamente aquilo que Jesus proibiu. O discernimento cristão consiste em denunciar o pecado sem negar a possibilidade permanente da conversão. Saulo tornou-se Paulo; Pedro, que negara Jesus, tornou-se testemunha da Ressurreição; Zaqueu abandonou a exploração econômica (Lc 19,1-10); a mulher pecadora encontrou perdão (Lc 7,36-50); o bom ladrão recebeu a promessa do paraíso (Lc 23,43). Enquanto há história, permanece aberta a possibilidade da graça.  A expressão "filhos do Maligno" deve ser compreendida à luz da linguagem apocalíptica do judaísmo do século I, jamais como afirmação de que determinadas pessoas tenham sido criadas por Deus para a perdição. Toda a Escritura testemunha o contrário: Deus não tem prazer na morte do pecador (Ez 18,23.32), quer que todos sejam salvos (1Tm 2,4) e é paciente, desejando que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). A parábola descreve escolhas históricas, não destinos previamente determinados.

Somos chamados  a esperançar  e isso  que impede tanto o desespero quanto a ingenuidade e  o Evangelho reconhece a gravidade do mal, mas proclama que a misericórdia continua oferecendo novos começos, se  faz necessário  reconhecer  que a  paciência de Deus não é cumplicidade com a injustiça, mas tempo concedido para que o trigo amadureça e para que o joio, enquanto ainda é tempo, possa ser transformado pela força surpreendente da conversão. É nessa tensão entre verdade e misericórdia, justiça e esperança, juízo e graça que Mateus prepara o leitor para contemplar, na pessoa de Jesus crucificado e ressuscitado, a vitória definitiva do Reino de Deus sobre todas as formas de morte que ainda insistem em crescer no campo da história. A explicação da parábola alcança seu ponto culminante quando Jesus afirma: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça" (Mt 13,43). A conclusão parece simples, mas encerra uma das mais belas promessas de toda a Escritura. O verbo "brilhar" remete diretamente à visão de Daniel: "Os que tiverem conduzido muitos à justiça brilharão como as estrelas para sempre" (Dn 12,3). Mateus estabelece conscientemente essa ligação para afirmar que a esperança escatológica de Israel encontra seu cumprimento em Cristo. O destino último da humanidade não é a destruição, mas a participação na própria luz de Deus. A história não caminha para o triunfo das trevas, mas para a manifestação plena da vida divina. O juízo não constitui o último ato de um Deus irado, mas o momento em que toda mentira será desfeita, toda violência será vencida e toda lágrima será enxugada, como anunciará também o Apocalipse: "Ele enxugará toda lágrima de seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor" (Ap 21,4)..

A imagem da colheita pertence a uma longa tradição profética de Israel; 

  • Joel proclama: "Lançai a foice, porque a colheita está madura" (Jl 4,13), utilizando a ceifa como símbolo do discernimento definitivo de Deus sobre as nações. 
  • Jeremias (Jr 51,33), 
  • Oseias (Os 6,11) 
  •  Isaías (Is 27,12) recorrem à mesma linguagem para anunciar que Deus não abandona a história ao caos, mas conduz todas as coisas à sua plenitude. 
Jesus retoma essas imagens conhecidas de seus ouvintes e lhes confere um significado novo. O juízo não é apresentado como espetáculo de condenação, mas como a restauração definitiva da justiça, da verdade e da vida. Essa perspectiva impede que a escatologia cristã seja reduzida a um discurso sobre o medo do fim do mundo. O Novo Testamento fala do futuro para transformar o presente.

 Quem acredita que Deus fará novas todas as coisas (Ap 21,5) 

Quem acredita, não pode acomodar-se diante da injustiça. A esperança cristã não  pode ser uma alienação; ao contrário, ela deve  gera compromisso histórico. É precisamente porque o Reino definitivo pertence ao Deus da Vida  e  os discípulos são chamados a antecipar seus sinais na história por meio da justiça, da misericórdia, da reconciliação e da paz. O Evangelho de Mateus desenvolve essa convicção ao longo de toda a sua narrativa. Das Bem-aventuranças ao Juízo Final, a fidelidade ao Reino manifesta-se em gestos concretos. Não basta dizer: "Senhor, Senhor" (Mt 7,21); é necessário fazer a vontade do Pai. Não basta conservar a ortodoxia das palavras; é indispensável produzir frutos de justiça. Não basta frequentar o templo; é preciso reconhecer Cristo no faminto, no sedento, no migrante, no enfermo e no encarcerado (Mt 25,31-46). A espiritualidade cristã jamais separa contemplação e compromisso. Quem verdadeiramente encontra Deus descobre inevitavelmente o irmão.

A parábola ainda  revela  um profundo conhecimento da alma humana. Em cada pessoa existe uma tensão permanente entre crescimento e destruição, generosidade e egoísmo, confiança e medo. Nenhum ser humano nasce completamente acabado; a personalidade vai sendo construída pelas escolhas, pelas relações e pelos valores assimilados ao longo da existência. A imagem do trigo crescendo lentamente recorda que a maturidade espiritual exige tempo. Deus não trabalha segundo a lógica da ansiedade, mas segundo o ritmo da vida. A cultura contemporânea, marcada pelo imediatismo e pela busca incessante de resultados rápidos, tem dificuldade para compreender essa pedagogia da paciência. O Reino cresce silenciosamente, como a semente descrita em Marcos 4,26-29, que germina enquanto o agricultor dorme, sem que ele saiba como. Em  todas as sociedades antigas ou atual  existe a tentação de construir identidades por meio da exclusão do outro. Povos, grupos e até religiões, quando adoecem, fortalecem sua identidade criando inimigos permanentes. Jesus rompe radicalmente essa lógica e  critério Dele e  da identidade cristã não é o ódio ao diferente, mas o amor que se faz serviço. O discípulo não é reconhecido por aquilo que combate, mas pela maneira como ama. "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,35).

Essa afirmação adquire especial relevância numa sociedade profundamente marcada pela polarização, pela fragmentação social e pela cultura do confronto permanente. As redes digitais frequentemente amplificam discursos de hostilidade, simplificam problemas complexos e transformam pessoas em caricaturas / memes . Nesse ambiente, torna-se cada vez mais difícil cultivar a escuta, o diálogo e o discernimento, todos querem  viralizar. A parábola do joio recorda que nem tudo o que parece evidente corresponde à verdade,  o discernimento exige paciência, humildade e consciência dos limites do próprio julgamento. Aqui  vale uma  advertência, que serve  igualmente para a vida eclesial. A Igreja corre o risco de perder sua identidade:

  •  Quando se deixa capturar pelas disputas ideológicas do mundo
  • Quando comunidades cristãs organizam sua missão mais em torno de guerras culturais do que do anúncio do Evangelho
  • Quando  buscam  conquista de poder e ignoram  o serviço
  • Quando   defendem  os seu  privilégios e ignora a necessidade da acolhida dos pobres 
Com essaa  atitude  que  o trigo começa a ser sufocado pelo joio da autorreferencialidade. O Concílio Vaticano II oferece um importante antídoto contra esse risco. A Constituição Gaudium et Spes afirma que: 

  •  "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (GS 1)."

E a  Constituição Dei Verbum recorda que Deus continua dialogando com a humanidade através da história e que a Palavra deve ser continuamente acolhida, meditada e encarnada na vida do povo de Deus. Em sintonia com esse ensinamento, o Documento de Aparecida reafirma que toda evangelização autêntica conduz ao encontro pessoal com Jesus Cristo e ao compromisso com a transformação da realidade.  Nesse contexto, a opção preferencial pelos pobres, reafirmada por Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, não constitui uma ideologia, mas nasce da própria cristologia. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres, anunciou a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18), identificou-se com eles (Mt 25,40) e morreu fora dos muros da cidade como um condenado. Uma Igreja que esquece os pobres não apenas perde uma dimensão pastoral; obscurece o próprio rosto de Cristo. Por isso, a denúncia profética das estruturas que geram exclusão não representa um acréscimo sociológico ao Evangelho, mas consequência direta da fidelidade ao Reino. Ao mesmo tempo, essa denúncia conserva sempre sua dimensão espiritual. O combate cristão não se dirige contra pessoas, mas contra tudo aquilo que desfigura nelas a imagem de Deus. São Paulo recorda que "nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados e potestades" (Ef 6,12). O inimigo último do Reino não é um grupo social, um partido, uma nacionalidade ou uma cultura, mas toda força que produz mentira, idolatria, opressão e morte. Sempre que cristãos transformam adversários em inimigos absolutos, esquecem que Cristo morreu também por aqueles de quem discordamos. A cruz destrói toda pretensão de superioridade moral e recorda que todos dependemos igualmente da graça.

Existe ainda uma dimensão profundamente sacramental nesta parábola. O trigo destinado à colheita torna-se, pela ação humana e pela graça divina, pão oferecido sobre o altar. Na Eucaristia, o fruto da terra e do trabalho humano transforma-se no Corpo de Cristo, antecipando sacramentalmente a colheita definitiva do Reino. Aquele que escuta a Palavra participa da Mesa e é enviado novamente ao mundo para semear justiça, paz e misericórdia. A liturgia une inseparavelmente a escuta do Evangelho, a comunhão com Cristo e o compromisso histórico com os irmãos..A explicação da parábola termina com um apelo que atravessa toda a Escritura: "Quem tem ouvidos, ouça." Na tradição bíblica, ouvir significa acolher, obedecer e deixar-se transformar pela Palavra. O maior risco da religião não é a ignorância, mas a surdez espiritual. Podemos conhecer os textos sagrados, dominar conceitos teológicos e participar regularmente das celebrações, permanecendo incapazes de ouvir o clamor dos pobres, o sofrimento dos esquecidos e a voz discreta de Deus que continua falando na história.

A parábola do joio entre o trigo permanece extraordinariamente atual porque recusa tanto o pessimismo quanto a ingenuidade. Reconhece a presença real do mal, mas proclama com igual convicção a soberania de Deus. Denuncia a injustiça sem perder a esperança na conversão. Proclama o juízo sem abandonar a misericórdia. Convida à vigilância sem alimentar o medo. Sobretudo, anuncia que o Reino já está presente, crescendo silenciosamente em meio às ambiguidades da história, aguardando o dia em que Cristo será "tudo em todos" (1Cor 15,28). Enquanto esse dia não chega, a missão da Igreja permanece a mesma: lançar boa semente. Não a semente do medo, mas da esperança; não a do fanatismo, mas do discernimento; não a da intolerância, mas da misericórdia; não a do poder, mas do serviço; não a do privilégio, mas da fraternidade; não a da indiferença diante da pobreza, mas da solidariedade concreta; não a da manipulação religiosa, mas da liberdade dos filhos e filhas de Deus. O discípulo de Jesus é chamado a viver com os pés firmemente plantados na terra da história e o coração voltado para o horizonte do Reino, sabendo que nenhuma força de morte impedirá a colheita preparada pelo Senhor. A última palavra sobre o mundo não pertence ao ódio, à violência, ao autoritarismo, ao clericalismo, ao mercado transformado em ídolo nem às ideologias que instrumentalizam a fé para dominar consciências. A última palavra pertence ao Deus revelado em Jesus Cristo, cuja justiça é inseparável da misericórdia, cuja verdade nunca se separa do amor e cujo Reino continua germinando, muitas vezes de forma quase invisível, no coração daqueles que acreditam que a fraternidade é mais forte do que o medo, a compaixão mais fecunda do que a vingança e a Ressurreição a resposta definitiva de Deus a todas as cruzes da história.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano,  lutando  para permanecer  trigo 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 15, 3-7


A Ovelha Perdida e o Coração que Ama Até o Fim

Na liturgia do Sagrado Coração de Jesus, contemplamos o mistério de um amor que se dá por inteiro, que se consome em fidelidade, e que insiste em amar mesmo quando não é amado (cf. Os 11,1-4; Jr 31,3). Neste dia, a Palavra nos coloca diante de uma das imagens mais conhecidas e paradoxais do Evangelho: o Pastor que deixa noventa e nove ovelhas no deserto para ir em busca da única que se perdeu (Lc 15,3-7). O que parece, aos olhos da lógica racional, uma atitude imprudente ou até negligente, é, na verdade, a mais pura revelação da radicalidade do amor de Deus.

Este texto faz parte de um capítulo profundamente unitário no evangelho de Lucas. Todo o capítulo 15 — com as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida (vv. 8-10) e do filho pródigo (vv. 11-32)  proclamado no 4⁰ Domingo da Quaresma  e retorna  no 24⁰ domingo  do Tempo  Comum  inserido  de forma fluida  na proclamação  de Lucas 15, 1-32 — constitui uma resposta de Jesus às murmurações dos fariseus e escribas, que o criticavam por acolher pecadores e comer com eles (Lc 15,1-2). Não estamos diante de três parábolas soltas, mas de uma tríade pedagógica que revela, em crescendo, o escândalo da misericórdia divina e a centralidade do “buscar e encontrar”. A estrutura é repetida: algo se perde, alguém busca, algo é encontrado, e há festa.

"Qual de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma..."

 Jesus inicia a parábola com uma pergunta que desestabiliza o senso comum. Quem, de fato, deixaria noventa e nove para buscar uma? Nenhum pastor sensato faria isso. E é justamente aí que se revela a diferença entre Deus e o homem. Como diz Isaías, “meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8). O que para nós parece irracional, para Deus é sinal de justiça e fidelidade. A justiça de Deus não se mede por quantidade ou mérito, mas por um compromisso visceral com cada vida, especialmente com a que está à margem.

O texto carrega ecos do Antigo Testamento. O próprio Deus, no livro de Ezequiel, se apresenta como pastor que busca a ovelha perdida: “Procurarei a que estiver perdida, reconduzirei a que se desgarrar, enfaixarei a ferida, darei força à fraca” (Ez 34,16). Jesus não apenas narra essa parábola: Ele encarna esse Deus-pastor, que se lança em missão até as periferias humanas (cf. Mt 9,36; Mc 6,34). Não é por acaso que o Bom Pastor da parábola carrega nos ombros a ovelha reencontrada — gesto de ternura, de responsabilidade, de dignidade restaurada (cf. Is 40,11).

Esse reencontro é celebrado com alegria, porque “há mais alegria no céu por um só pecador que se converte” (Lc 15,7). A festa no céu contrasta com a frieza dos religiosos que murmuravam contra Jesus por acolher os pecadores (Lc 15,2). A parábola, portanto, não é apenas doutrina; é denúncia. Ela põe em xeque uma religião que contabiliza fiéis, mas não conhece seus nomes; que exige pureza moral, mas não tem compaixão; que se envergonha dos fracos e bajula os fortes. Jesus, ao contrário, não se envergonhava de se deixar tocar por leprosos, comer com publicanos, dialogar com samaritanas, curar em dia de sábado. Ele é o Coração que sangra por amar (cf. Jo 19,34).

Nesse sentido, a ovelha que se perde pode ser também aquela que não suportou mais a hipocrisia do redil. Talvez não tenha se desviado por rebeldia, mas por fome de sentido. Talvez tenha sido empurrada para fora por uma comunidade que, ao invés de pastorear, policiava. Quantas vezes a ovelha se afasta porque a Igreja falhou em ser refúgio? Quantas vezes nossas estruturas eclesiais — marcadas por clericalismo, legalismo, autorreferência — produziram mais afastamento que comunhão? Como advertia o Papa Francisco, de santa memória, em sua exortação Evangelii Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada por sair às ruas do que uma Igreja doente por se fechar em si mesma” (EG, 49). Francisco recuperava com força a intuição de que a fé cristã é caminho, dinamismo, travessia. Como a mulher que acende a lâmpada ou o pastor que atravessa o deserto, também a comunidade eclesial é chamada a sair, a iluminar, a buscar com perseverança — mesmo aquilo que outros julgariam perdido para sempre.

A pastoral do coração não calcula perdas, mas busca o que falta. A missão do Cristo, revelada no próprio evangelho de Lucas, é “buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). O mesmo verbo usado para descrever a missão de Jesus reaparece aqui na ação do pastor: ele vai atrás da ovelha. A fé cristã não é estática. É movimento, saída, peregrinação. O amor do Sagrado Coração é dinâmico, inquieto, sempre em busca.

Essa busca envolve riscos. O deserto é perigoso. As noventa e nove ficam desprotegidas. Mas o que está em jogo não é uma organização pastoral eficiente; é o coração do Evangelho. Jesus jamais fundou um modelo de controle, mas de compaixão. Ele mesmo diz que o pastor verdadeiro não foge diante do lobo, mas entrega a vida (Jo 10,11-15). E o apóstolo Paulo interpreta esse gesto como loucura do amor: “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Ou seja, antes mesmo do arrependimento, o amor já nos alcançou. Nesse movimento de busca e encontro, revela-se também a dimensão eucarística da parábola. A festa ao reencontrar a ovelha é um banquete de reconciliação. Lembra o pai do filho pródigo que manda matar o novilho gordo para celebrar o retorno (Lc 15,23). Na Eucaristia, a Igreja revive essa alegria do reencontro, mas ela só é autêntica quando todos têm lugar à mesa. Não podemos comungar o Corpo de Cristo e, ao mesmo tempo, excluir os corpos concretos dos irmãos e irmãs feridos. Não há comunhão sem inclusão.

O drama da religião sem coração, do rito sem vida, é a cegueira diante da ovelha ferida. A extrema-direita religiosa, ao instrumentalizar o cristianismo para justificar políticas de exclusão, violência e supremacia, trai o Evangelho do Pastor que se perde por amor. A verdadeira tradição eclesial está ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos que choram (cf. Mt 5,3-12). A ovelha perdida, para muitos desses movimentos, é escandalosa. Mas é ela que provoca a festa no céu e  talvez seja necessário ir além: quem disse que a ovelha perdida está fora? E se o redil não for sinal de comunhão, mas de conformismo? E se o que chamamos de “segurança” for, na verdade, o aprisionamento de consciências? O profeta Isaías já dizia: “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho” (Is 53,6). A ovelha perdida, portanto, não é exceção: é espelho. Todos somos, de algum modo, buscados por um amor que se recusa a desistir de nós. 

A crítica filosófica pode nos iluminar aqui: Friedrich Nietzsche, embora crítico da religião institucional, intuía que muitas vezes é o doente quem enxerga melhor a doença da sociedade. A ovelha "perdida", nesse sentido, pode ser a mais lúcida. Há uma denúncia implícita contra uma espiritualidade massificada, onde a segurança de estar “dentro” faz com que ninguém mais questione se o caminho é realmente justo. A ovelha perdida pode ser o artista que se afastou porque não havia espaço para sua sensibilidade na rigidez litúrgica; pode ser a mulher excluída por ser mãe solteira; pode ser o jovem que se levantou contra o racismo estrutural da comunidade de fé; pode ser o pobre que se cansou de ouvir sermões sobre obediência enquanto era oprimido.

Nesse sentido, ela não apenas precisa ser buscada — ela nos desafia. O retorno da ovelha perdida não é apenas salvação pessoal, é uma provocação comunitária. Ela carrega consigo o clamor de uma Igreja mais inclusiva, mais humana, mais aberta ao Evangelho como libertação. E é nesse reencontro — com suas feridas, perguntas e esperanças — que o Coração de Jesus se regozija e nos convida a fazer festa.

O Sagrado Coração de Jesus, transpassado e vivo, continua a pulsar por cada um que se distancia. Ele não pergunta o motivo da perda, mas se lança na busca. E o faz com pressa, como a mulher que varre a casa para encontrar a moeda (Lc 15,8-10), como o pai que corre ao encontro do filho (Lc 15,20). Esse Deus corre, busca, carrega, celebra.

Que esta parábola — breve, mas abismal — nos desinstale. Que nos liberte da ilusão de estarmos já salvos só porque permanecemos no “rebanho”. Que nos converta a um cristianismo do coração, onde a prioridade seja sempre o que está fora, ferido, perdido. E que a Igreja, à imagem do seu Senhor, tenha a coragem de deixar os noventa e nove e sair pelas estradas, pelos becos, pelos desertos... até encontrar a que falta. Porque é ela que faz falta ao Coração de Deus e talvez essa saída não seja apenas para buscar, mas para aprender. Talvez o reencontro com a ovelha nos mostre o que esquecemos no redil: o frescor do Evangelho, a dor do povo, o clamor por justiça, o grito de quem nunca foi ouvido. A festa no céu, afinal, começa quando o amor vence o medo, e a misericórdia desfaz os muros da indiferença.

Celebrar o Coração de Jesus é comprometer-se com sua compaixão que não calcula, com sua ternura que não se escandaliza, com sua fidelidade que não desiste. Se nos deixarmos encontrar por esse amor — e se formos capazes de buscá-lo nos caminhos esquecidos — então a parábola deixa de ser apenas palavra e se faz carne em nós e  a Igreja se tornará, enfim, o que é chamada a ser: não um curral fechado de justos, mas casa aberta onde até a ovelha mais ferida encontre abrigo, dignidade e pão.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 23 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 1,57-66.80 – Solenidade da Natividade de São João Batista

Entre Elias e João, entre o fogo e o Jordão, caminhamos com os olhos no Reino e os pés firmes na história.

A narrativa de Lucas 1,57-66.80, proclamada na Solenidade do Nascimento de São João Batista, ocupa um lugar singular no Novo Testamento. A Igreja celebra o nascimento de apenas três pessoas: Jesus Cristo, Maria e João Batista. Esse fato, por si só, revela a importância única daquele que seria o precursor do Messias, a voz que prepara os caminhos do Senhor. Seu nascimento não é apenas um acontecimento familiar extraordinário, mas um sinal de que Deus continua agindo na história humana, especialmente quando tudo parece marcado pela esterilidade, pelo silêncio e pela impossibilidade. Lucas apresenta João como fruto da fidelidade divina às promessas. Em um contexto no qual Isabel carregava o peso social da esterilidade e Zacarias experimentava o silêncio imposto por sua incredulidade, Deus faz florescer a vida onde a sociedade enxergava fracasso e abandono. O nascimento do menino provoca espanto, alegria e questionamentos entre os vizinhos: “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). A pergunta não se dirige apenas ao futuro de João, mas aponta para a ação surpreendente de Deus, que frequentemente escolhe os pequenos, os esquecidos e os improváveis para realizar seus desígnios.

Mais do que narrar um nascimento, Lucas apresenta o surgimento de uma vocação profética destinada a marcar a transição entre as promessas da antiga aliança e sua realização em Jesus Cristo. João nasce para preparar caminhos, despertar consciências e convocar o povo à conversão. Sua vida será um sinal permanente de que Deus não se acomoda às estruturas religiosas cristalizadas nem aos mecanismos de poder que produzem exclusão e injustiça. Sua voz surgirá no deserto, longe dos centros de influência, anunciando que o Reino de Deus está próximo e exigindo uma transformação concreta da vida. Ao contemplarmos o nascimento de João Batista, somos convidados a reconhecer que Deus continua levantando vozes proféticas em tempos de conformismo, silêncio e acomodação. A pergunta feita pelos vizinhos de Isabel permanece atual e desafiante para cada geração de cristãos:

  • Que tipo de testemunhas estamos formando para anunciar o Evangelho em nosso tempo 

O nascimento de João Batista, tal como narrado por Lucas, não é apenas o relato de um milagre doméstico em meio a um casal idoso e estéril. É o sinal de que Deus continua intervindo na história por vias inesperadas, rompendo a lógica da esterilidade espiritual, social e institucional. Zacarias, que emudece por sua incredulidade, e Isabel, que carregava em si o estigma do silêncio social, tornam-se os primeiros porta-vozes de uma nova economia da graça. A realização da promessa não se dá pela força humana, mas pela fidelidade divina que escolhe os humildes, os esquecidos, os que não contam nas genealogias do poder (cf. 1Cor 1,27-28).

Ao insistirem no nome “João”  que significa “Deus é misericordioso”, os pais rejeitam a tradição onomástica patriarcal. Esse gesto aparentemente simples já inaugura uma ruptura: Deus começa a escrever uma nova história que não se curva às convenções familiares nem aos caprichos religiosos. O nome de João é um sinal de que o agir de Deus não é herança biológica, mas vocação profética. E essa vocação começa não no centro, mas na periferia; não no palácio ou no Templo, mas no deserto. O menino cresce longe das estruturas corrompidas, em lugar de silêncio e liberdade, onde não há templos nem altares luxuosos, mas há céu aberto, pão simples e escuta radical. 

É nesse deserto que ressoa a voz de Isaías, o profeta do exílio e da esperança: “Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (Is 40,3).

Essa voz não surge de improviso. João é chamado desde o ventre. Ainda em gestação, ele é o primeiro a reconhecer a presença do Messias  e não com palavras, mas com o estremecimento do corpo (cf. Lc 1,41). A primeira teofania joanina acontece no encontro entre duas mulheres, Maria e Isabel, dois ventres grávidos de promessa e revolução (cf. Lc 1,39-45).  João salta, vibra, dança no útero, como que proclamando: “Ele está aqui!”. Antes de pregar no Jordão, João já profetiza no ventre, reconhecendo Aquele que viria depois dele, mas que é antes de tudo. Esse encontro intrauterino não é apenas afeto familiar; é o início de uma missão que se cumpre com crescente consciência: “Eu não o conhecia, mas para que Ele fosse manifestado a Israel, vim batizando com água” (Jo 1,31). João, mesmo crescendo no deserto, permanece conectado ao Mistério. Quando enfim vê Jesus caminhando à beira do Jordão, ele exclama, com a precisão de quem esperou uma vida inteira por aquele momento: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29).

Da criança que saltou no ventre ao profeta que aponta o Cordeiro, há um fio invisível de fidelidade e escuta. João não age por conveniência ou prestígio; ele reconhece, indica e se retira: “É necessário que Ele cresça, e que eu diminua” (Jo 3,30).

Essa transição, contudo, não foi sem tensões. Os próprios evangelhos registram que, em determinado momento, os discípulos de João questionam Jesus (cf. Lc 7,18-23), revelando que a passagem do profetismo joanino ao seguimento do Messias não se deu de forma homogênea. Alguns grupos continuaram a seguir João mesmo após sua morte, mantendo seu batismo e sua memória profética. Tradições extracanônicas  como as Homilias Clementinas, de provável origem judaico-cristã e hoje consideradas literatura apócrifa  preservam ecos de uma rivalidade entre os seguidores dos “dois profetas”. Ainda que envoltas em linguagem simbólica, essas narrativas revelam uma tensão real entre movimentos que disputavam o sentido da fidelidade ao Deus de Israel. 

O evangelho de João responde a essa tensão com delicadeza teológica. Ao omitir o batismo de Jesus por João e colocar nos lábios do Batista o reconhecimento definitivo — “Eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus” (Jo 1,34), a comunidade joanina evita o conflito, honra a memória do profeta e afirma: João não é a luz, mas veio para dar testemunho da luz (Jo 1,8). Em tempos de disputas eclesiais por autoridade, influência e “paternidade espiritual”, essa atitude é pedagógica: o verdadeiro profeta sabe quando é hora de sair de cena.

A trajetória de João ecoa a de Elias, o profeta do fogo que confrontou a idolatria e desmascarou a aliança perversa entre religião e política nos tempos de Acab e Jezabel (cf. 1Rs 17–19). Ambos vivem à margem, alimentam-se com o mínimo, vestem-se sem ostentação (cf. Mt 3,4), e mantêm distância dos palácios e dos privilégios. Eles não pregam para agradar, mas para despertar. Elias denunciou o adultério espiritual de Israel; João denunciou o adultério moral e político de Herodes (cf. Mt 14,3-4). E ambos pagaram caro por isso. Mas como afirmou Jesus, João é o Elias que devia vir (cf. Mt 11,14; Lc 1,17) — não como repetição literal, mas como encarnação do mesmo espírito de denúncia, justiça e fidelidade ao Deus da Aliança.

A tradição patrística leu João Batista como ponte entre as duas margens da revelação. Agostinho o compreendeu como o último profeta da antiga ordem e o primeiro a apontar o Cordeiro de Deus, sinalizando a chegada do Reino. Orígenes via em seu batismo uma pedagogia divina de transição: não é o fim da Lei, mas o caminho para a Graça. João não substitui Elias; ele o atualiza. Não é reencarnação, mas reinauguração. Seu profetismo não é repetição de fórmulas, mas resposta viva ao contexto concreto. Ele denuncia não só pecados individuais, mas as estruturas que sustentam a injustiça. Sua voz exige conversão real, ética, comunitária e histórica não apenas ajustes morais privados.

Essa ousadia não está ausente do magistério atual da Igreja. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, recorda que a missão evangelizadora não pode se restringir à conservação de estruturas estéreis, mas deve ser ousada, movida pelo Espírito, uma Igreja “em saída”, que prefere os riscos da rua à estagnação das sacristias (EG 49). João já encarnava essa dinâmica muito antes. Não esperava que o povo fosse ao Templo: foi ao deserto, ao Jordão, às margens do sistema religioso (cf. Lc 3,2-3). Seu batismo era um choque de realidade, um grito contra a acomodação, uma convocação ao recomeço. Preparar o caminho do Senhor não era um slogan espiritual, mas uma convocação ética à transformação da vida e da sociedade. 

Na mesma linha, Laudate Deum denuncia as alianças espúrias entre destruição ambiental, economia extrativista e falsas espiritualidades que sacralizam o lucro. João, com sua vida austera e sua palavra incisiva, é um contraponto vivo às religiões do mercado e aos pregadores de paletó e microfone dourado. Muitos dos que hoje falam em nome de Deus o fazem a serviço do capital, da violência simbólica e do negacionismo. Propagam uma teologia que justifica o ódio aos pobres (cf. Am 2,6-7), a exclusão das mulheres, a criminalização dos indígenas e dos migrantes (cf. Ex 23,9). Essa teologia do lucro é o novo Baal de nossos dias. E, como Elias e João, somos chamados a confrontá-la com coragem e fidelidade.

A espera pela segunda vinda de Cristo não pode ser passiva, adormecida em rituais e dogmas fossilizados. A verdadeira espera é ativa, comprometida com os sinais do Reino (cf. Mt 25,31-46). É tempo de conversão encarnada, que se expressa em compromisso com os que sofrem, com os que são silenciados, com os que resistem. Como João, precisamos ser voz que clama no deserto dos sistemas religiosos esvaziados e das democracias corroídas. Como Elias, devemos incendiar os falsos altares com a verdade do Reino (cf. 1Rs 18,38-39). Não há boa nova sem denúncia do que aprisiona. Não há batismo verdadeiro sem transformação da realidade.

Lucas conclui dizendo que João “crescia e se fortalecia em espírito” (Lc 1,80), e isso não se refere a um desenvolvimento individualista, mas à maturidade espiritual que nasce da escuta profunda e da resistência fiel. Em tempos de fé diluída e religiosidade performática, crescer em espírito significa resistir ao comodismo, denunciar as idolatrias (cf. 1Jo 5,21), manter-se fiel mesmo que isso custe a cabeça (cf. Mc 6,27-28). O martírio de João não é acidente de percurso: é consequência da coerência. 

O Reino não virá com palmas, cruzes douradas ou slogans triunfalistas. O Reino vem com justiça (cf. Is 11,1-5), com verdade (cf. Sl 85,11), com a coragem de João e o fogo de Elias. Entre o deserto e o Jordão, entre o grito e o martírio, entre o ventre e a cruz, somos chamados a preparar caminhos onde a vida possa florescer — ainda que custe tudo.

Lucas encerra o relato afirmando que João “crescia e se fortalecia em espírito, e vivia nos desertos até o dia de sua manifestação a Israel” (Lc 1,80). Não se trata apenas de crescimento biológico ou amadurecimento pessoal, mas da formação de uma consciência profundamente enraizada na escuta de Deus e livre das seduções do poder. O deserto torna-se a escola onde o profeta aprende a distinguir a voz do Senhor do ruído das ideologias, dos interesses religiosos e das falsas seguranças humanas.

Também hoje vivemos cercados por desertos: desertos de sentido, de justiça, de solidariedade e de esperança, multiplicam-se discursos religiosos que falam de Deus, mas silenciam diante da pobreza, da violência, da destruição da criação e da exclusão dos mais vulneráveis. Nesse contexto, o nascimento de João Batista continua sendo uma interpelação à Igreja e à sociedade. Deus segue suscitando homens e mulheres capazes de preparar caminhos para o Reino, denunciar os ídolos de seu tempo e anunciar que outro mundo é possível porque Deus permanece fiel à sua promessa.

A pergunta dos vizinhos de Isabel continua ecoando através dos séculos:  “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). Talvez a questão deva ser ampliada para nossas comunidades e para cada um de nós: 

  • Que tipo de discípulos estamos nos tornando?
  •  Seremos apenas consumidores de religião ou testemunhas do Evangelho? 
  • Teremos a coragem de João para apontar o Cristo e denunciar aquilo que desfigura a vida?
 O Reino de Deus continua procurando vozes que clamem no deserto, mãos que preparem caminhos e corações dispostos a diminuir para que Cristo cresça. A verdadeira grandeza de João não esteve em sua fama, mas em sua fidelidade. E é essa mesma fidelidade que o Evangelho continua exigindo de todos aqueles que desejam seguir Jesus.

DNonato – Teólogo do Cotidiano



sábado, 12 de março de 2022

Um Olhar no texto de Lucas 9,28b-36 - 2º Domingo da Quaresma

 Vivemos no Brasil e temos diante das nossas telas as mais variadas  noticias, ouvimos ou assistimos  relatórios das tragédias:  guerra na Ucrânia, o incidente em Petrópolis  e ainda  o aumento dos preços dos combustíveis e a vivência de uma pandemia global somos convidados nesse 2º Domingo da Quaresma a fazer as seguintes leituras: Genesis  15,5-12.17-18; Salmo 26 (27) com a resposta: O Senhor é a minha luz e a minha salvação.; Filipenses: 3,17-4,1 e o evangelho  Lucas9,28b-36.

Neste sentido,  somos convidados  a uma transfiguração dentro da nossa realidade que   acontecerá dentro de um projeto se abraçarmos  a conversão,  onde unimos a oração  com a escuta do Deus Vivo e nossa disposição pra vivermos  a vida em sociedade e na Comunidade de Fé. A promessa de Deus ao Patriarca Abraão  devido a sua fidelidade  total, sua aceitação radical, na sua  entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel nas promessas,  nos faz pensar neste tempo  quaresmal o quanto somos fieis aos projeto do Deus da Vida.

Escutar a voz do Filho do Pai,  que é Jesus passa pelas periferias existências de uma sociedade consumista que não consegue olhar para  o passado tirar lições para o presente, passa pela nossas escolhas e sobretudo da nossa intimidade com Deus.   “Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”. A voz vinda da nuvem pede-nos para escutar aos clamores do Filho de Deus nas diversas cruzes.  Vivemos o tempo  onde todos querem opinar,  todos querem  gerar ou adquirir likes e aprovação, seja na Igreja, seja na sociedade do barulho,  do som alto e algumas vezes das fakenews. Essa mensagem da escuta é algo essencial, precisamos ouvir o Deus que se revela nas periferias, nos becos e vielas, que fala com a boca dos excluídos e exilados por nosso moralismo religioso e hipócrita, precisamos presta atenção nesses filhos de Deus.  No domingo anterior ouvimos que Jesus foi tentado  e viveu uma experiência de se encontrar com o Inimigo de Deus e hoje diante de três testemunha ele se encontra com as bases do Judaísmo (Moisés e Elias) e parece que aqui neste momento,   há uma conversa entre os três,  e não se fala uma palavra de Jesus para os seus discípulos e os mesmos  ficam em êxtase (abobalhados com tudo que estavam testemunhando),  talvez diante das dores e crises,  muitos buscam apenas essa experiência emocional de uma fé  descomprometida  e a fala do Apóstolo Pedro revela uma espiritualidade do comodismo,  não tinha noção dos altos papos de Jesus  com Moisés e Elias, mas deseja construir uma tenda  pra cada um. O gesto de construir tenda envolve fixar-se em um local, e com a manifestação do Pai   de forma imperativa paralisou qualquer proposta que os apóstolos  tivessem em mente.

Dialogar com o a realidade envolve silenciar, envolve ainda nos comprometermos com um Reino que é pra todos, Pedro no seu êxtase e admiração  não olhou pra si e para os companheiros, três tendas e aqui tínhamos  seis pessoa. Agir por emoção positiva ou negativa nos colocam em risco pode provocar conflitos, o famoso eu disse, mas queria dizer isso.  Por impulso se magoa e ofende e depois fica difícil a emenda, na quaresma neste domingo somos convidados a  ouvir a voz  de Deus, muitas das vezes Deus usa  boca do  próximo e até fala aquilo que não queremos ouvir.  O diálogo verdadeiro é uma via de mão dupla, escuta e fala, geralmente nossas orações são falas e falas,  achamos que Deus não nos responde,  mas  quando nos responde não  entendemos, pois estamos acostumados a sociedade do excessos de som, imagens, dos vídeos  etc.

Jesus se encontrando com Moisés e Elias só confirma sua natureza de Filho de Deus e a característica de sua missão. O jeito de ser de Jesus  no falar e no agir deveria ser seguido  por todos, sem a  aplicação  da logicas humana. Ele é  a manifestação de um  Deus, sendo sua plena Revelação, Daquele que  cuida e protege. Nesses tempos que há  os mais diversos tipos e modelo de Igreja,   de pregadores.   Ouvir a voz de Deus é o desafio, pois Deus vira um aplicativo que é usado pra  justificar as mais diversas situações, sempre a serviço daquele pregador ou missionário  que diz representa-Lo naquela realidade.  Partido do pressuposto do evangelho se faz necessário distinguir o que de fato é o projeto de Deus  e aquilo que é o ego desse ou daquele pregador,  que  assumiu a voz de Deus e faz disso um meio de vida.  Deus fala na sua Palavra, na realidade das glória e de derrotas da nossa vida cotidiana. Em 2000 anos de Cristianismo quantos homens surgiram  se dizendo  a voz oficial de Deus,   aqui serve  pra muitos que possuem um cargo de liderança na Igreja. Mesmo com litro de óleo ungido,   se percebe nos seus gesto e atitudes  exigindo uma certa  cerimônia de todos, mesmo com o  tratamento  dos seus títulos, todos  sabem que  dificilmente Deus se manifesta pelo sua boca, sendo um mero   funcionário pra não dizer um mercenário que visa o retorno financeiro. Aquele  que  cumpre seu expediente e  normas, a exemplo dos religiosos do tempo de Jesus.   Eles  constroem  um deus que se manifesta no poder, nas honras, nos triunfos; nos rapapés e não percebem que Deus que se manifesta no dia-a-dia nas dores e lutas do povo, na entrega total de si,  sem necessidade de uma recompensa neste plano, falam em  nome próprio dizendo ser a pessoa de Cristo. Muitos Cristão gostam e se encantam por esse  tipo de pregador que fala bonito no altar  e o líder religioso. O  seu  testemunhos e atitudes e   promiscuidade  pregam bonito  pra arrebata as  multidões, mas não tem nada da voz de Deus, o deus dele  se reduz ao luxo  que cargo proporciona.  

Não precisamos  criar ou sair em  busca  dessa voz de Deus  ou  fazer experiências em  cada dia em uma Igreja  ou religião,   não sejamos tolos  Deus, não fala somente   onde  há um  milagre x, y,     nas revelações de um suposto vidente ou ainda na exibição de conhecimento de um pregador, se você se recorda do evangelho da semana passada quem tentou Jesus fez questão de exibir o conhecimento.  A Igreja Católica  vivendo a realidade do seu tempo no século passado fez um concilio que deu uma virada  no jeito de ser  e ouvir a voz de Deus e na  Constituição Dogmática Dei Verbum no numero 4 diz:    

"Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através de Seu Filho (Heb. 1, 1-2). Com efeito, enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr. Jo. 1, 1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado «como homem para os homens» (3), «fala, portanto, as palavras de Deus» (Jo. 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai lhe mandou realizar (cfr. Jo. 5,36; 17,4). Por isso, Ele, vê-lo a Ele é ver o Pai (cfr. Jo. 14,9), com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está conosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna.  
Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. 1 Tim. 6,14; Tit. 2,13).

O concilio Vaticano II devolveu para o povo a riqueza da  Palavra de Deus  e fortaleceu a escuta da mesma e fez uma revisão sobre o Papel e a Escritura, fazendo uma releitura do papel do povo de Deus  nesse tempo de noticia  triste a Constituição Dogmática Lumen Gentiu  no numero 38 diz:

"Cada leigo deve ser, perante o mundo, uma testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus e um sinal do Deus vivo. Todos em conjunto, e cada um por sua parte, devem alimentar o mundo com frutos espirituais (cfr. Gál. 5,22) e nele difundir aquele espírito que anima os pobres, mansos e pacíficos, que o Senhor no Evangelho proclamou bem-aventurados (cfr. Mt. 5, 3-9). Numa palavra, «sejam os cristãos no mundo aquilo que a alma é no corpo» "

O cristão deve ser a boca Deus   na defesa da Vida  e aqui em consonância com texto da segunda leitura Paulo alerta para pregadores que se diziam mais dignos  da revelação,  sendo os donos da verdade, preocupados com o ritualismo   judaico, a exemplo de pregadores que partem do 1º  Testamento pra justificar essa ou aquela doutrina da sua igreja,  manipulando e instrumentizando a Palavra de Deus pra justificar seu modo de operar e todos sabemos que somos imperfeitos, que devemos  a cada dia caminharmos firmes  no projeto de sermos melhores e para que possamos ser melhores se faz necessário  ouvir a voz do Filho de Deus e com Ele devemos  carregar nossas cruzes cumprindo  a vontade do Pai. 

Ainda olhando pra transfiguração de Jesus nesse domingo  precisamos ter consciência que  esse episodio apresenta elementos do antigo testamento, quando Jesus estava no deserto semana passada, ele foi só e hoje ele leva consigo 3 colaboradores e nesse contexto de revelação temos de fato um projeto sendo gestado. Na montanha Deus falava com Moises e  no monte Ele faz aliança com Povo de Deus (Ex:34,29), sendo ainda que nuvem representa a presença da Gloria e proteção  do próprio Deus, no caso do deserto  Ex 40,35; Nm 9,18.22;10,34). Elias sendo o maior dos profetas aparece pra legitimar a filiação de Jesus, há uma crença judaica que o Reino de Israel será restaurado com volta desse profeta e aqui o evangelista relata os dois presentes para referenda e confirma a condição de Jesus como o Filho de Deus e instauração de um novo tempo.  Jesus anunciou que ele seria condenado a morte, Ele  falou de seu Reino e durante essa semana ele nos ensinou chamar de Deus de Pai, nesse sentido que somos chamados a vivermos  como irmão uns dos outros. No contexto de Jesus subir a montanha envolve tomar uma decisão e receber uma missão, como no caso de Abraão que  recebeu a noticia do próprio Deus  que seria o pai de uma multidão e aqui  Deus revela aos discípulos de Jesus quem de fato Ele era.

Que sejamos mais que pregadores com palavras que sejamos braços  e pernas na missão de revelar a vontade de Deus  aos povos e aqui vale  uma frase de são Paulo: 

"As Escrituras dizem: “Eu acreditei e, por isso, falei”. Assim, tendo o mesmo espírito de fé, nós também acreditamos e, por isso, falamos"

2 Coríntios 4, 13