terça-feira, 4 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,21-28

A perícope de Mateus 15,21-28, que narra o encontro de Jesus com a mulher cananeia, ocupa um lugar significativo na vida litúrgica da Igreja. No Lecionário Romano, essa passagem é proclamada na quarta-feira da 18ª Semana do Tempo Comum e a  sua íntegra, no 20º Domingo  Tempo Comum do Ano A. A tradição paralela conservada em Marcos 7,24-30 é proclamada na quinta-feira da 5ª Semana do Tempo Comum.  Além dessas celebrações, o texto inspira frequentemente retiros, encontros missionários, catequeses e momentos de formação cristã dedicados à universalidade da salvação, à fé perseverante e à missão da Igreja junto aos povos. Nas Igrejas Ortodoxas, embora o ordenamento das leituras siga tradições litúrgicas próprias, essa narrativa permanece presente no ciclo de proclamação dos Evangelhos de Mateus e Marcos como expressão da abertura do Reino de Deus a todas as nações. Também as Igrejas Anglicana, Luterana, Metodista e Reformada, por meio do Lecionário Comum Revisado, acolhem essa passagem em alguns domingos após Pentecostes. A permanência desse texto nas diversas tradições cristãs revela que ele toca uma das questões fundamentais da fé bíblica: como Deus atravessa as fronteiras construídas pelos seres humanos para manifestar sua misericórdia universal.   O encontro entre Jesus e a mulher cananeia não é apenas uma narrativa sobre uma cura milagrosa. Trata-se de uma revelação profunda sobre a identidade de Deus, sobre a missão de Cristo e sobre a transformação necessária da própria comunidade religiosa. A mulher estrangeira, considerada distante da aliança de Israel, torna-se aquela que manifesta uma fé capaz de surpreender os discípulos e provocar uma mudança de compreensão sobre o alcance do Reino. Ela aparece como testemunha de que Deus não pode ser aprisionado por fronteiras étnicas, culturais, religiosas ou sociais. Sua presença no Evangelho denuncia toda tentativa humana de controlar a graça e revela que a misericórdia divina sempre ultrapassa os limites que estabelecemos.  

O episódio encontra-se imediatamente após um dos confrontos mais decisivos entre Jesus e os fariseus. Em Mateus 15,1-20, os mestres da Lei questionam os discípulos por não seguirem determinadas tradições de purificação ritual antes das refeições. A resposta de Jesus é profundamente profética. Ele não rejeita a tradição enquanto expressão da fé de Israel, mas denuncia quando ela se transforma em instrumento de superioridade religiosa e deixa de conduzir ao amor de Deus e ao cuidado com o próximo. Citando Isaías 29,13, afirma: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim". O problema não está nos ritos exteriores, mas na distância entre a prática religiosa e a transformação interior. Jesus revela que a verdadeira impureza não vem de fora para dentro, mas nasce do coração humano, onde podem surgir homicídios, injustiças, adultérios, mentiras e toda forma de maldade.  

Essa sequência narrativa possui grande importância teológica. Depois de denunciar uma religião preocupada apenas com pureza externa, Jesus dirige-se justamente para uma região considerada impura pelos setores religiosos de Israel. A mudança geográfica é também uma mudança simbólica. Jesus atravessa uma fronteira que muitos religiosos preferiam manter fechada. O caminho para Tiro e Sidônia representa o movimento do próprio Deus em direção à humanidade excluída. O Reino anunciado por Jesus não se limita aos espaços considerados sagrados pelos homens, porque a presença de Deus não depende das barreiras construídas pelas sociedades humanas.  As regiões de Tiro e Sidônia, cidades fenícias localizadas ao norte da Galileia, próximas ao Mar Mediterrâneo. Eram centros comerciais importantes, marcados pela circulação de povos, mercadorias, culturas e religiões. O mundo mediterrâneo antigo era profundamente plural, mas também marcado por intensas divisões sociais e religiosas. A identidade de um povo estava frequentemente ligada à separação entre aqueles que pertenciam ao grupo e aqueles considerados estrangeiros.  

As duas cidades  carregavam uma história complexa. Sidônia foi a origem de Jezabel, esposa do rei Acab, cuja influência fortaleceu o culto a Baal em Israel, provocando uma grave crise religiosa narrada em 1 Reis 16-21. Entretanto, a relação entre Israel e essas cidades nunca foi apenas de oposição. Hirão, rei de Tiro, colaborou com Davi e Salomão na construção do Templo de Jerusalém, conforme 2 Samuel 5,11 e 1 Reis 5. Os profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Amós denunciaram a arrogância, a exploração econômica e o orgulho dessas cidades, especialmente quando a riqueza produzia injustiça e desprezo pelos pequenos.  

Portanto, quando Jesus entra nesse território, ele não está simplesmente visitando uma região estrangeira. Ele está entrando em um espaço carregado de memórias, conflitos e preconceitos. Seu gesto revela que o Reino de Deus não pode ser reduzido às fronteiras religiosas de um grupo. O Deus de Israel continua fiel à sua aliança, mas essa fidelidade sempre teve uma dimensão universal. Desde Abraão, a promessa era que todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12,3).  

Mateus identifica a personagem como uma "mulher cananeia". Marcos, ao narrar o mesmo acontecimento, utiliza outra expressão: "uma mulher grega, siro-fenícia de nascimento" (Mc 7,26). Essa diferença é importante para compreender a intenção de cada evangelista. 

  • Marcos escreve para comunidades com forte presença de cristãos vindos do mundo gentílico e destaca sua origem cultural.
  •  Mateus, porém, recupera conscientemente o termo "cananeia", uma palavra carregada de memória histórica. No Antigo Testamento, os cananeus representavam os povos que habitavam a terra antes da formação de Israel e eram frequentemente associados aos inimigos da aliança.  

Ao utilizar essa expressão, Mateus cria um contraste teológico profundo. Aquela que simboliza alguém considerado distante das promessas torna-se exemplo de fé para aqueles que deveriam reconhecer primeiro o Messias. O evangelista não pretende reforçar preconceitos contra os estrangeiros. Pelo contrário, deseja mostrar que a graça de Deus alcança justamente aqueles que os sistemas humanos costumam colocar à margem. A mulher cananeia representa todos aqueles que, ao longo da história, foram considerados indignos, impuros ou incapazes de participar plenamente da vida religiosa.  

Ela aproxima-se de Jesus clamando: "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está horrivelmente atormentada por um demônio" (Mt 15,22). Suas palavras são uma profunda profissão de fé. Ela chama Jesus de Senhor, reconhecendo sua autoridade. Chama-o de Filho de Davi, reconhecendo nele o Messias esperado por Israel. É significativo que uma estrangeira perceba aquilo que muitos membros do povo escolhido ainda não haviam compreendido.   Sua oração começa com um pedido de misericórdia. Ela não apresenta méritos, não reivindica privilégios, não exige reconhecimento. Ela simplesmente confia na compaixão de Jesus. Essa atitude está no centro de toda espiritualidade bíblica. Deus revela seu próprio nome a Moisés dizendo: "O Senhor, Deus misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor" (Ex 34,6). Os Salmos repetem constantemente que a misericórdia do Senhor permanece para sempre. O profeta Oseias anuncia que Deus deseja misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará em Mateus 9,13 e 12,7.  

A mulher cananeia compreende algo essencial: antes de qualquer estrutura religiosa, existe o coração misericordioso de Deus. A relação com o Senhor não nasce do orgulho de quem se considera merecedor, mas da humildade de quem reconhece sua necessidade de graça.   Sua filha está "atormentada por um demônio". No contexto bíblico, essa linguagem expressa a realidade do mal que aprisiona e desumaniza. Os Evangelhos apresentam as libertações realizadas por Jesus como sinais da chegada do Reino, pois o Filho de Deus veio destruir as obras do mal (1Jo 3,8). A ação demoníaca simboliza tudo aquilo que rompe a comunhão, destrói a dignidade e impede a pessoa de viver plenamente sua vocação humana.  

Essa dimensão continua profundamente atual. Hoje as forças que desumanizam aparecem em diferentes formas: violência, fome, exploração, racismo, guerras, dependências que escravizam, discursos de ódio, manipulações políticas, desigualdades estruturais e todas as situações em que seres humanos deixam de ser reconhecidos como filhos e filhas de Deus. A libertação trazida por Cristo não é apenas interior. Ela alcança a pessoa inteira e suas relações sociais.  A  reação inicial de Jesus diante do clamor da mulher causa estranhamento: "Ele, porém, não lhe respondeu palavra alguma" (Mt 15,23). Esse silêncio de Cristo constitui uma das experiências mais profundas da espiritualidade bíblica. A Sagrada Escritura conhece o sofrimento daqueles que buscam Deus e não encontram imediatamente uma resposta. Jó atravessa a dor perguntando por que Deus permanece em silêncio diante de sua angústia. Muitos salmos transformam essa experiência em oração: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Sl 22,2). Os profetas também conhecem o tempo da espera e da aparente ausência divina. O próprio Jesus, na cruz, assumirá esse clamor humano ao rezar o Salmo 22.  

O silêncio de Deus não significa ausência ou rejeição. Muitas vezes ele revela um processo de amadurecimento da fé. Existe uma diferença entre uma fé baseada apenas em respostas imediatas e uma fé que permanece mesmo quando atravessa a escuridão. A psicologia da experiência religiosa mostra que os momentos de crise, dúvida e silêncio podem se tornar espaços de crescimento espiritual, nos quais a pessoa abandona uma relação infantil com Deus e aprende a confiar profundamente em sua presença.   Os discípulos, porém, revelam uma dificuldade diferente. Eles não parecem preocupados com a dor daquela mãe, mas com o incômodo provocado pelo seu grito. "Despede-a, pois vem gritando atrás de nós" (Mt 15,23). Essa atitude revela uma tentação permanente das comunidades religiosas: transformar aqueles que sofrem em um problema a ser afastado, em vez de reconhecê-los como presença que interpela a própria fé.   O Evangelista escreve essa narrativa também para sua própria comunidade. A Igreja nascente precisava compreender que a missão de Jesus não poderia ficar limitada a um grupo étnico ou cultural. Os discípulos ainda carregavam antigas fronteiras de pensamento. Eles precisavam aprender que seguir Cristo significa aproximar-se daqueles que a sociedade considera distantes.  

A Bíblia inteira apresenta Deus como aquele que escuta o clamor dos pequenos. No Êxodo, Deus afirma: "Eu ouvi o clamor do meu povo no Egito" (Ex 3,7). Os profetas denunciam constantemente a indiferença diante do sofrimento humano. Isaías afirma que o verdadeiro culto consiste em defender o direito do oprimido, fazer justiça ao órfão e proteger a causa da viúva (Is 1,17). Amós denuncia uma religião que celebra festas e sacrifícios enquanto pratica injustiça: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24).  A mulher cananeia coloca a comunidade cristã diante de uma pergunta permanente: será que ouvimos realmente o grito daqueles que sofrem ou apenas buscamos uma religião confortável, organizada e protegida das dores do mundo?  

Jesus então responde: "Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15,24). Essa afirmação precisa ser compreendida dentro da história da salvação. Jesus não está negando a universalidade do Reino, mas afirmando a fidelidade de Deus às promessas feitas a Israel. O Messias nasce dentro de uma história concreta, de um povo concreto, de uma tradição concreta.   A eleição de Israel nunca foi um privilégio fechado, mas uma missão. Deus chama Abraão para que nele sejam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12,3). O profeta Isaías anuncia que o servo do Senhor será "luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra" (Is 49,6). O projeto de Deus sempre apontou para a humanidade inteira.  

O Evangelho de Mateus desenvolve progressivamente essa abertura. Após o episódio da mulher cananeia, Jesus realiza uma multiplicação dos pães em território gentílico (Mt 15,32-39). Depois, Pedro faz sua profissão de fé em Cesareia de Filipe, uma região marcada pela diversidade religiosa (Mateus 16,13-20 proclamado na quinta-feira da 18ªsemanadoTempoComum). No final do Evangelho, o Ressuscitado envia os discípulos: "Ide, portanto, fazei discípulos todos os povos" (Mt 28,19).   A missão universal da Igreja nasce dessa passagem da exclusividade para a comunhão. Deus não abandona Israel, mas revela que sua promessa sempre foi maior do que qualquer fronteira humana.  

A mulher, porém, continua perseverante. Ela aproxima-se, prostra-se diante de Jesus e faz uma oração ainda mais simples: "Senhor, ajuda-me" (Mt 15,25). Toda a sua existência está concentrada nessa súplica. Ela não tem argumentos de poder, não possui posição social, não pertence ao grupo religioso dominante. Ela tem apenas a confiança de quem ama e sofre.  

A Bíblia apresenta diversas orações semelhantes:

A verdadeira oração não depende da quantidade de palavras, mas da profundidade da confiança.   A resposta seguinte de Jesus permanece uma das passagens mais difíceis dos Evangelhos: "Não é bom tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos" (Mt 15,26). Uma leitura superficial poderia interpretar essa frase como uma aceitação dos preconceitos contra os estrangeiros. Entretanto, essa interpretação entra em conflito com toda a mensagem de Jesus.  

O termo utilizado por Mateus no original grego possui o sentido de pequenos cães domésticos, não dos animais selvagens frequentemente desprezados no mundo antigo. Além disso, a própria narrativa mostra que Jesus conduz um processo pedagógico. O diálogo revela a mentalidade existente e conduz os discípulos a uma compreensão maior da missão messiânica.   A mulher não responde com revolta, mas com uma fé extraordinariamente inteligente: "Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos" (Mt 15,27). Ela não aceita ser excluída da misericórdia divina. Sua resposta revela que a graça de Deus não é limitada. A abundância do amor divino é tão grande que existe lugar para todos.  

A mulher compreende algo que muitas vezes esquecemos: Deus não precisa negar alguém para acolher outro. A lógica humana frequentemente funciona pela competição, pela escassez e pela exclusão. A lógica do Reino funciona pela partilha, pela comunhão e pela abundância.  Nesse momento Jesus revela a grandeza daquela fé: "Mulher, grande é a tua fé. Seja feito como queres" (Mt 15,28). É uma das maiores afirmações de reconhecimento feitas por Jesus nos Evangelhos. Em Mateus 8,5-13, ele também elogia a fé de um centurião romano, outro estrangeiro. O evangelista constrói uma profunda ironia: aqueles que estavam mais próximos da tradição religiosa nem sempre reconhecem o Messias, enquanto pessoas consideradas distantes revelam uma confiança admirável.  

A salvação não depende de origem étnica, posição social, título religioso ou proximidade institucional. Ela nasce da abertura do coração à graça de Deus.  A cura acontece à distância. Jesus não precisa tocar a menina para libertá-la. Sua palavra atravessa fronteiras geográficas, culturais e religiosas. Essa característica possui profundo significado teológico. A Palavra de Cristo não está presa a lugares, estruturas ou privilégios humanos. Ela alcança onde a necessidade humana se encontra.  

Paulo compreenderá essa realidade ao afirmar que Cristo "é a nossa paz, aquele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de separação" (Ef 2,14). A mulher cananeia torna-se antecipação da humanidade reconciliada em Cristo.   Essa abertura continuará presente na Igreja primitiva. Em Atos 10, Pedro entra na casa de Cornélio, um pagão, e precisa superar suas próprias barreiras culturais. Depois da experiência do Espírito Santo, afirma: "Reconheço de fato que Deus não faz acepção de pessoas" (At 10,34). Em Atos 15, no Concílio de Jerusalém, a comunidade cristã discerne que os povos gentios não precisam abandonar sua identidade cultural para pertencer plenamente a Cristo.  

Aquilo que Jesus realiza simbolicamente no encontro com a mulher cananeia torna-se uma decisão concreta da Igreja missionária. O Espírito Santo conduz a comunidade a compreender que o Evangelho não é propriedade de um grupo, mas dom oferecido a todos e a tradição cristã percebeu desde cedo a profundidade espiritual desse encontro. Os Padres da Igreja contemplaram na mulher cananeia uma imagem da humanidade que busca Deus para além das fronteiras estabelecidas pelos homens. 

  • Santo Agostinho via nela a figura dos povos gentios que seriam incorporados ao povo da nova aliança pela fé. 
  • São João Crisóstomo admirava especialmente sua perseverança, porque ela não abandona a esperança diante do silêncio ou das dificuldades, mas transforma cada obstáculo em oportunidade de aproximar-se ainda mais de Cristo. 
  • Orígenes interpretava sua atitude como símbolo da alma humana que, purificada pelo sofrimento, aprende a confiar plenamente na misericórdia divina.  

Essa leitura espiritual não elimina o sentido histórico do texto, mas revela sua profundidade permanente. A mulher cananeia não é apenas uma personagem do passado. Ela representa todos aqueles que, em diferentes épocas, aproximam-se de Deus carregando dores, feridas e esperanças, muitas vezes vindos de lugares considerados distantes pelas estruturas religiosas.  .A própria Igreja compreendeu nessa narrativa sua vocação missionária. 

  • A Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, afirma que a Igreja é, em Cristo, "como sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano". Essa afirmação impede uma compreensão fechada da comunidade cristã. A Igreja não existe para construir barreiras espirituais, mas para ser sinal da reconciliação oferecida por Deus.  
  • A Constituição Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias das pessoas de hoje, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A mulher cananeia ensina exatamente isso: a dor humana deve tornar-se uma questão espiritual para a comunidade de fé.  
  • A Constituição Dei Verbum, especialmente ao tratar da interpretação da Escritura, recorda que a Palavra de Deus deve ser compreendida considerando o contexto histórico, os gêneros literários e a unidade de toda a revelação. Por isso, Mateus 15 jamais pode ser usado para justificar exclusões. A direção da revelação bíblica é exatamente contrária: Deus conduz continuamente seu povo para uma compreensão mais ampla de sua misericórdia.  

Sabemoa que todas as sociedades criam fronteiras simbólicas, existem aqueles que pertencem ao grupo e aqueles que são vistos como estrangeiros. Essas fronteiras podem produzir identidade, mas também podem gerar preconceito e violência. A religião, quando perde sua centralidade em Deus, pode transformar diferenças humanas em justificativas para exclusão.  Jesus realiza o movimento oposto. Ele atravessa fronteiras,  aproxima-se dos considerados impuros, escuta quem era ignorado e  reconhece a fé onde muitos não esperavam encontrá-la. A verdadeira identidade do povo de Deus não nasce da rejeição do outro, mas da acolhida da misericórdia.   Por isso, toda comunidade cristã precisa perguntar continuamente se suas estruturas aproximam as pessoas de Cristo ou se criam obstáculos para aqueles que buscam Deus. A Igreja deixa de manifestar o Reino quando transforma tradições humanas, costumes culturais ou estruturas institucionais em muros que impedem o encontro com a graça.  

É preciso compreender que toda experiência religiosa corre o risco de ser utilizada como instrumento de poder. Quando isso acontece, a fé deixa de libertar e passa a justificar privilégios. Jesus denuncia essa deformação em Mateus 23, quando critica líderes religiosos que colocam pesados fardos sobre os outros, mas não praticam aquilo que ensinam.  

Em Lucas 4,16-30 proclamado  na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum e na  3º Domingo do Tempo Comum do ano C, Jesus apresenta sua missão como anúncio de libertação aos pobres, aos cativos e aos oprimidos. Em Mateus 25,31-46 proclamado na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, encerrando o Ano Litúrgico, e também na Segunda-feira da 1ª Semana da Quaresma,  identifica sua própria presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos. A mulher cananeia pertence exatamente ao grupo daqueles que a sociedade frequentemente coloca nas margens. Seu grito revela que Deus continua presente onde muitos preferem não olhar.  

Aimda podemos perceber outra dimensão desse encontro. A perseverança daquela mulher nasce do amor. Ela não insiste por orgulho, mas porque carrega o sofrimento da filha. O amor por outra pessoa torna-se força espiritual e  sua experiência se repete na vida de tantas mães e pais que lutam diariamente pela vida dos filhos, enfrentando doenças, violência, pobreza, abandono e tantas formas de sofrimento.  .Sua oração também denuncia uma religiosidade centrada apenas em benefícios pessoais. Ela não busca riqueza, status ou poder, ela busca vida. O Evangelho confronta, assim, uma espiritualidade reduzida ao consumo religioso, na qual Deus é tratado como instrumento para satisfazer desejos individuais. A fé verdadeira nasce da relação com Deus e se expressa no amor concreto pelo outro.  

Os profetas de Israel sempre denunciaram uma religião separada da justiça. 

  • Isaías afirma que o verdadeiro jejum consiste em libertar os oprimidos, repartir o pão com o faminto e acolher o pobre sem abrigo (Is 58). 
  • Amós rejeita celebrações religiosas quando não são acompanhadas pela prática da justiça (Am 5,21-24). 
  • Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8).  

Jesus continua essa tradição profética. A mulher cananeia mostra que Deus escuta aqueles que permanecem nas margens das estruturas religiosas, econômicas e sociais.  .Essa mensagem permanece atual na reflexão da Igreja latino-americana.

  •  Medellín (1968) denunciou a realidade de pobreza como uma situação que clama por transformação. 
  • Puebla (1979) reafirmou a opção preferencial pelos pobres como consequência do seguimento de Jesus. 
  • Santo Domingo (1992) aprofundou o compromisso missionário diante das mudanças culturais. 
  • Aparecida (2007) recordou que os discípulos missionários são chamados a reconhecer Cristo nos rostos daqueles cuja dignidade é negada.  

A CNBB, em seus documentos pastorais, mantém essa mesma perspectiva ao afirmar que evangelizar envolve defender a vida, promover a justiça, proteger os direitos humanos e construir uma sociedade baseada na solidariedade.  Por isso, a fé cristã não pode ser instrumentalizada para projetos de dominação política ou social. Quando a religião é usada para alimentar ódio, justificar privilégios, transformar adversários em inimigos absolutos ou conquistar poder, ela se afasta da lógica do Evangelho.   A chamada teologia da prosperidade também precisa ser discernida criticamente quando transforma a relação com Deus em uma troca comercial, como se a bênção divina fosse resultado de pagamento ou sucesso econômico. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres e afirmou: "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus" (Lc 6,20)?. da mesma forma, uma teologia do domínio que identifica o Reino de Deus com projetos de conquista política ou controle cultural contradiz o cauminho de Cristo. Jesus reina a partir da cruz, do serviço e da entrega. Ele afirma: "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10,45) e o  clericalismo também precisa ser confrontado pelo Evangelho. Quando o ministério se transforma em privilégio, quando a autoridade substitui o serviço e quando a posição institucional vale mais que a escuta do sofrimento humano, a missão cristã é deformada. A mulher cananeia não era discípula oficial, não possuía reconhecimento religioso, mas tornou-se exemplo de fé para os próprios seguidores de Jesus.  

Também é necessário discernir toda aproximação entre cristianismo e projetos autoritários ou ideologias de extrema direita quando estas absolutizam o poder, promovem exclusão, incentivam violência, alimentam preconceitos ou transformam a religião em instrumento de disputa política. O Evangelho não pertence a nenhuma ideologia. Ele julga todas as ideologias à luz da dignidade humana, da justiça e da misericórdia.  Isso não significa que os cristãos devam ser indiferentes diante da realidade social. Pelo contrário. A fé exige compromisso com a vida, com a paz, com os pobres, com os migrantes, com a criação e com todos aqueles que sofrem.  

A mesa mencionada pela mulher cananeia possui também uma dimensão sacramental. As migalhas que caem da mesa apontam para uma realidade maior: a mesa definitiva do Reino. Na Eucaristia, Cristo reúne pessoas diferentes em um único corpo e o pão partido manifesta uma humanidade reconciliada. Não existem lugares privilegiados diante do altar segundo critérios de riqueza, origem ou poder.  .Essa mesa encontra sua plenitude no banquete anunciado pelo profeta Isaías para todos os povos (Is 25,6-9) e na celebração das núpcias do Cordeiro (Ap 19,9). Deus não oferece uma graça limitada. Sua misericórdia é abundante e universal.  

Vivemos um tempo marcado por desigualdades, crises ambientais, guerras, violência, intolerância religiosa, polarizações e manipulação das consciências. Ainda hoje a mulher cananeia caminha pelas nossas cidades. Ela está nos pobres esquecidos, nos migrantes rejeitados, nas vítimas da violência, nas crianças sem futuro, nos idosos abandonados, nos trabalhadores explorados e em todos aqueles cujo sofrimento muitas vezes incomoda mais do que provoca solidariedade.  

A pergunta do Evangelho permanece diante da Igreja: vamos repetir a atitude dos discípulos, pedindo que esses gritos sejam afastados, ou permitiremos que o clamor dos sofredores transforme nossa maneira de viver a fé?  .A mulher cananeia revela que a verdadeira fé nasce quando a misericórdia vence o preconceito. Ela mostra que Deus não pode ser aprisionado por fronteiras humanas. O Cristo que caminhou para Tiro e Sidônia continua caminhando para as periferias humanas de cada tempo. Ele continua ouvindo aqueles que ninguém deseja ouvir.  

Que sua oração se torne também a oração da Igreja: "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de nós". Tem piedade quando construímos muros onde deveríamos construir pontes. Tem piedade quando preferimos nossas estruturas ao serviço. Tem piedade quando esquecemos os pobres e os excluídos.  .Que o Espírito Santo nos conceda uma fé semelhante àquela mulher, uma fé humilde, perseverante e aberta à misericórdia. Assim a Igreja será verdadeiramente sinal do Reino anunciado pelos profetas, realizado em Jesus de Nazaré e continuamente renovado na história pelo amor de Deus, para que toda a humanidade experimente a justiça, a paz e a comunhão que vêm do Deus da vida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,1-2.10-14.

A liturgia da Igreja Católica Romana proclama o Evangelho de Mateus 15,1-2.10-14 na terça-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, dentro do caminho espiritual das celebrações feriais em que a comunidade cristã é conduzida a aprofundar o mistério de Cristo e a compreender progressivamente as exigências do Reino de Deus. Nesse período do Tempo Comum, a Igreja contempla Jesus como aquele que revela o verdadeiro rosto do Pai e conduz seus discípulos para além de uma religiosidade marcada apenas por práticas externas, chamando-os a uma conversão profunda do coração. O texto paralelo de Marcos 7,1-23 também possui lugar importante na liturgia. Nas missas feriais da 5ª Semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Marcos 7,1-13 na terça-feira e Marcos 7,14-23 na quarta-feira, apresentando a mesma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os escribas sobre a verdadeira fonte da pureza. Nas celebrações dominicais do Ano B, Marcos 7,1-8.14-15.21-23 é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum, oferecendo à assembleia uma reflexão sobre a relação entre tradição, consciência e fidelidade a Deus. Outras tradições cristãs históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais comunidades que conservam calendários litúrgicos baseados nos Evangelhos Sinóticos, também acolhem essa passagem como um texto fundamental para o discernimento entre uma fé autêntica e uma religiosidade reduzida à aparência. O texto de Mateus 15,1-2.10-14 não apresenta apenas um debate sobre costumes religiosos do século I. Ele revela um dos conflitos centrais da missão de Jesus: a tensão entre uma religião que pode se prender às estruturas externas e a fé que nasce da transformação interior realizada por Deus. A pergunta dos fariseus e escribas não é simplesmente sobre lavar ou não lavar as mãos, mas sobre o modo como o ser humano compreende sua relação com Deus. A questão profunda é saber se as tradições religiosas permanecem como caminhos que conduzem à vida ou se podem transformar-se em obstáculos quando são colocadas acima da misericórdia. Jesus está profundamente enraizado na história de Israel. Ele não aparece como alguém que despreza a Lei, os profetas ou a tradição de seu povo. Pelo contrário, afirma: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mt 5,17). A novidade de Cristo está em revelar o sentido pleno da vontade divina, mostrando que toda prática religiosa deve estar orientada pelo amor a Deus e ao próximo. A fidelidade verdadeira não consiste apenas em preservar formas externas, mas em permitir que a Palavra de Deus transforme a existência.

Para compreender a força dessa passagem, é necessário observar o contexto narrativo que a antecede. O capítulo 14 de Mateus apresenta uma sequência de acontecimentos que revelam o modo como Jesus manifesta o Reino. João Batista é assassinado por denunciar a corrupção moral do poder de Herodes Antipas (Mt 14,1-12). O profeta que preparou o caminho do Messias torna-se testemunha da verdade até o fim. Sua morte revela que a palavra de Deus frequentemente confronta interesses políticos, privilégios e estruturas injustas. Depois desse episódio, Jesus alimenta uma multidão no deserto (Mt 14,13-21). O gesto da multiplicação dos pães recorda a ação de Deus no Êxodo e revela que o Reino não é uma realidade distante da vida concreta. Deus preocupa-se com a fome, com a necessidade e com a dignidade das pessoas. Jesus não oferece apenas ensinamentos espirituais; Ele manifesta uma presença que cura, alimenta e restaura.

Em seguida, Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33), revelando sua autoridade sobre o caos e o medo, e cura os enfermos em Genesaré (Mt 14,34-36), mostrando uma santidade que não se afasta da fragilidade humana, mas aproxima-se dela para comunicar vida. Essa sequência prepara o leitor para compreender o contraste presente em Mateus 15: enquanto Jesus se aproxima das dores humanas, alguns líderes religiosos aproximam-se preocupados com questões externas de pureza. O conflito, portanto, não acontece entre fé e ausência de fé. Jesus não está diante de pessoas que rejeitam Deus, mas diante de pessoas religiosas que interpretam a fidelidade de uma maneira diferente. O Evangelho apresenta uma pergunta sempre atual: é possível defender a religião e, ao mesmo tempo, afastar-se do coração de Deus?

Os fariseus e escribas que vêm de Jerusalém representam uma autoridade religiosa reconhecida. Jerusalém era o centro espiritual do judaísmo do período, cidade do Templo e símbolo da identidade religiosa de Israel. A pergunta dirigida a Jesus possui caráter de fiscalização: "Por que teus discípulos transgridem a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem?" (Mt 15,2). No contexto judaico do primeiro século, a questão das mãos não estava relacionada principalmente à higiene, mas às práticas de pureza ritual desenvolvidas pela tradição dos anciãos. Essas interpretações buscavam proteger a observância da Lei, criando aplicações detalhadas para a vida cotidiana. O termo grego utilizado por Mateus para tradição é "parádosis" (παράδοσις), aquilo que foi transmitido, recebido e conservado.

A tradição, em si mesma, possui valor. A própria fé cristã nasce de uma tradição recebida e transmitida: "Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi" (1Cor 15,3). O problema não está em conservar a memória da fé, mas em transformar interpretações humanas em absolutos, colocando-as acima da Palavra de Deus. Quando uma tradição deixa de conduzir à misericórdia, à justiça e ao amor, ela perde sua finalidade. Por isso Jesus responde com uma denúncia profética: "Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mt 15,3). Ele não permanece no nível da discussão ritual, mas revela a questão ética que está por trás dela. Como exemplo, menciona o mandamento de honrar pai e mãe (Ex 20,12; Dt 5,16), mostrando que nenhuma prática religiosa pode justificar o abandono das responsabilidades fundamentais com a vida humana.

A crítica de Jesus está em plena continuidade com a tradição profética de Israel. Os profetas sempre denunciaram uma religião separada da justiça. Isaías proclama: "Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is 1,17). Amós anuncia: "Quero ver o direito correndo como água e a justiça como um rio permanente" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8)..Jesus, portanto, não destrói a religião de Israel, mas revela sua verdadeira finalidade. Ele recorda que Deus nunca desejou um culto separado da compaixão. A adoração autêntica sempre conduz ao cuidado com o outro, especialmente com aqueles que sofrem.

Quando chama a multidão e afirma: "Escutai e compreendei" (Mt 15,10), Jesus utiliza uma linguagem profundamente ligada à espiritualidade bíblica. Escutar, no sentido das Escrituras, não significa apenas ouvir, mas acolher uma palavra que transforma a vida. O grande mandamento de Israel começa com o chamado: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Jesus convida a uma escuta mais profunda, capaz de ultrapassar aparências e alcançar a vontade de Deus. A questão da pureza possuía grande importância na organização religiosa e social do mundo bíblico. As categorias de puro e impuro ajudavam Israel a preservar sua identidade, mas também poderiam ser utilizadas para estabelecer fronteiras de exclusão. Toda sociedade cria símbolos de pertencimento; o problema surge quando essas fronteiras deixam de proteger a vida e passam a justificar superioridade, rejeição ou indiferença..Jesus realiza uma mudança decisiva ao deslocar a pureza do exterior para o interior. O ser humano não se afasta de Deus apenas pelo contato com determinadas realidades externas, mas pelas escolhas que nascem de um coração fechado ao amor. A verdadeira impureza nasce daquilo que destrói a comunhão com Deus e com o próximo.

O coração, na compreensão bíblica, não representa apenas o campo dos sentimentos. O termo hebraico "lev" indica o centro da pessoa, onde estão a consciência, a vontade, a memória e as decisões fundamentais. Por isso a sabedoria bíblica afirma: "Guarda teu coração, porque dele brotam as fontes da vida" (Pr 4,23)..A mensagem de Jesus conduz a humanidade para uma profunda conversão interior. O problema fundamental não está apenas nas ações visíveis, mas nas raízes invisíveis que orientam essas ações. O Evangelho revela que Deus deseja transformar o coração humano para que a vida inteira seja renovada..A transformação do coração anunciada por Jesus encontra suas raízes nas grandes promessas proféticas de Israel. Jeremias havia anunciado uma nova aliança na qual Deus não escreveria sua vontade apenas em tábuas de pedra, mas no interior da pessoa humana: "Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seu coração" (Jr 31,33). Ezequiel utiliza uma imagem ainda mais forte ao proclamar a ação renovadora de Deus: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). Jesus, portanto, não apresenta uma novidade desligada da história bíblica, mas realiza a esperança de uma humanidade reconciliada interiormente com Deus.

Essa visão possui uma profunda dimensão antropológica. A Bíblia compreende o ser humano como uma realidade integrada, na qual pensamentos, desejos, escolhas e ações estão unidos. A violência, a injustiça e a indiferença não aparecem de forma repentina; frequentemente são frutos de processos interiores alimentados por egoísmo, medo, ressentimento ou desejo de dominação. Jesus revela que a transformação do mundo começa também pela transformação da pessoa e a  compreensão do  fato  dialoga com a psicologia humana. As atitudes externas geralmente revelam valores, convicções e afetos cultivados no interior. Uma pessoa pode construir uma imagem religiosa diante da sociedade e, ao mesmo tempo, carregar no íntimo sentimentos contrários ao amor de Deus. Por isso Jesus critica uma espiritualidade baseada apenas na aparência. A verdadeira conversão exige sinceridade diante de Deus e diante de si mesmo.

O livro do Gênesis já apresenta essa realidade no relato das origens. O pecado humano começa como uma ruptura interior da confiança em Deus (Gn 3,1-19). Antes de ser uma ação externa, ele nasce de uma interpretação equivocada sobre Deus e sobre a própria liberdade humana. A história de Caim aprofunda essa reflexão quando Deus pergunta: "Onde está teu irmão Abel?" (Gn 4,9). A pergunta divina atravessa toda a história porque nenhuma espiritualidade pode ser considerada verdadeira quando ignora o sofrimento do outro e  a  perspectiva aparece na pregação de Jesus. No Sermão da Montanha, Ele aprofunda o sentido do mandamento "não matarás", mostrando que a raiz da violência também está na ira, no desprezo e na incapacidade de reconhecer a dignidade do irmão (Mt 5,21-22). O Reino de Deus não transforma apenas comportamentos visíveis, mas modifica a maneira como o ser humano olha, pensa e se relaciona.

Paulo desenvolve essa compreensão ao afirmar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernirdes a vontade de Deus" (Rm 12,2). A conversão cristã não é simplesmente adequação moral a determinadas normas, mas uma nova forma de existir orientada pelo Espírito Santo..Os grandes mestres da tradição cristã compreenderam essa dimensão interior do Evangelho. 

  • Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a busca humana por sentido ao afirmar que o coração permanece inquieto enquanto não encontra sua verdadeira orientação em Deus. Sua reflexão revela que muitas crises espirituais nascem quando o ser humano coloca realidades limitadas no lugar do absoluto e busca nelas uma plenitude que elas não podem oferecer.
  • São João Crisóstomo, ao comentar os Evangelhos, insistia que não existe verdadeira devoção a Deus quando a pessoa permanece indiferente diante da pobreza e do sofrimento humano. Para ele, a celebração religiosa perde seu sentido quando não conduz à caridade concreta. Essa interpretação permanece atual diante de uma religiosidade que pode valorizar manifestações externas e, ao mesmo tempo, esquecer aqueles que vivem situações de abandono.
  • Orígenes desenvolveu uma leitura espiritual da Escritura mostrando que a Palavra de Deus não deve ser recebida apenas como uma norma exterior, mas como uma força capaz de iluminar o interior humano. A Bíblia não revela somente quem é Deus; ela também revela quem somos nós diante dele e quais áreas da existência precisam ser transformadas.

A compreensão encontra confirmação nas cartas do Novo Testamento. A Carta de Tiago afirma: "A religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1,27). João também ensina: "Quem possui os bens deste mundo e vê seu irmão necessitado, mas fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). O Evangelho de Mateus, portanto, confronta uma das grandes tentações da experiência religiosa: separar a fé da vida concreta. É possível possuir discursos religiosos, defender tradições e participar de práticas espirituais sem permitir que o coração seja realmente transformado. Jesus recorda que a autenticidade da fé aparece nos frutos produzidos na existência.

 A advertência possui grande importância para compreender a religião enquanto fenômeno humano e social. As tradições religiosas possuem capacidade de gerar solidariedade, esperança e sentido comunitário. Ao mesmo tempo, podem sofrer deformações quando seus símbolos são utilizados para controle, exclusão ou busca de poder. A religião permanece fiel à sua vocação quando conduz à liberdade interior e ao compromisso com a vida..O próprio Jesus denuncia esse risco ao confrontar lideranças religiosas que haviam transformado a autoridade espiritual em instrumento de prestígio. No capítulo 23 de Mateus, Ele critica aqueles que colocam cargas pesadas sobre os outros sem ajudá-los a carregar (Mt 23,4), que procuram reconhecimento público (Mt 23,5-7) e que impedem as pessoas de aproximarem-se do Reino de Deus (Mt 23,13). E a  denúncia continua atual diante do clericalismo, entendido como uma deformação da autoridade eclesial quando o serviço se transforma em privilégio e a liderança passa a ser exercida como domínio. O próprio Jesus estabelece outro modelo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve" (Mc 10,43). A autoridade cristã nasce da entrega, da escuta e da proximidade com o povo.

A passagem de Mateus também ilumina o discernimento necessário diante da instrumentalização da religião na sociedade contemporânea. A fé possui consequências públicas e deve participar da construção do bem comum, mas não pode ser reduzida a instrumento de disputa de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para legitimar interesses particulares, a mensagem do Evangelho corre o risco de ser substituída por projetos humanos..Jesus rejeitou essa lógica desde o início de sua missão. Nas tentações do deserto, Ele recusou utilizar poder, prestígio ou domínio como caminhos para cumprir sua missão (Mt 4,1-11). Sua autoridade nasce da fidelidade ao Pai e do serviço aos irmãos. A cruz revela uma forma de poder completamente diferente daquela oferecida pelos sistemas humanos: o poder do amor que se entrega.

Por isso, Mateus 15 oferece um critério para avaliar toda expressão religiosa: aquilo que produz misericórdia, justiça, reconciliação e cuidado com a vida está em sintonia com o coração de Deus; aquilo que gera ódio, exclusão, desprezo e desumanização contradiz a lógica de Cristo, ainda que utilize linguagem religiosa..A fé cristã não pode ser confundida com projetos de superioridade espiritual ou cultural. Jesus não construiu uma comunidade baseada na rejeição dos outros, mas no acolhimento daqueles que buscavam vida nova. Ele aproximou-se dos marginalizados, tocou os excluídos, acolheu pecadores e revelou que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Olhando  texto  da perícope  de Mateus 15: Deus não olha apenas para aquilo que aparece diante dos olhos humanos, mas para o coração. A verdadeira santidade não está em criar distância dos outros, mas em permitir que o amor de Deus transforme a maneira como vemos, acolhemos e servimos cada pessoa.

A palavra de Jesus sobre a verdadeira pureza conduz diretamente à missão da Igreja no mundo. Se a origem das ações humanas está no coração, então a evangelização não pode limitar-se à transmissão de normas ou à preservação de estruturas. A missão cristã consiste em permitir que o encontro com Cristo transforme pessoas, comunidades e realidades sociais. O Evangelho não é uma proposta de fuga da história, mas uma força de renovação dentro da própria história humana. O Concílio Vaticano II aprofundou essa compreensão ao recordar que a Igreja deve interpretar permanentemente os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação rompe com uma visão religiosa fechada em si mesma. Uma comunidade cristã fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e das feridas que atingem a dignidade humana.

  • A Constituição Dogmática Lumen Gentium apresenta a Igreja como povo de Deus, chamado à comunhão e à participação na missão de Cristo. Essa visão recorda que todos os batizados possuem responsabilidade na construção do Reino. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência reservada apenas a ministros ou especialistas religiosos. O Espírito Santo age em todo o povo de Deus e chama cada discípulo a testemunhar o Evangelho na realidade concreta.
  • A Constituição Dei Verbum oferece uma chave fundamental para compreender a relação entre Escritura e vida. A Palavra de Deus não é um conjunto de frases isoladas utilizadas para defender interesses humanos, mas um diálogo vivo entre Deus e a humanidade. A interpretação bíblica exige respeito ao contexto histórico, ao sentido do texto e à tradição da Igreja. A Escritura não deve ser manipulada para confirmar ideologias, mas acolhida como Palavra que julga, ilumina e converte.

Na América Latina, essa consciência adquiriu uma expressão profética própria. A Conferência de Medellín, ao aplicar o espírito do Concílio Vaticano II à realidade latino-americana, chamou a Igreja a reconhecer as estruturas que produzem pobreza e injustiça. Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como dimensão essencial da missão evangelizadora. Santo Domingo e Aparecida reafirmaram o chamado para uma Igreja missionária, próxima das periferias humanas e comprometida com a vida dos mais vulneráveis.

  • O Documento de Aparecida recorda que o encontro com Jesus Cristo transforma discípulos em missionários. A fé não pode ser reduzida a uma busca individual de conforto espiritual, pois o verdadeiro encontro com Cristo conduz ao serviço. Uma Igreja que anuncia o Reino precisa estar presente onde a vida está ameaçada, reconhecendo o rosto de Jesus nos pobres, nos excluídos e nos que sofrem.

A perspectiva ajuda a compreender os desafios religiosos do presente. Algumas expressões da chamada teologia da prosperidade podem reduzir a relação com Deus a uma lógica de recompensa material, como se a fé fosse um instrumento para garantir sucesso econômico e realização individual. Essa visão corre o risco de substituir o Evangelho da graça por uma mentalidade de troca. Jesus, porém, anuncia uma vida marcada pela partilha, pelo serviço e pela solidariedade. Ele afirma: "A vida de alguém não consiste na abundância dos bens" (Lc 12,15)..O centro da fé cristã permanece a cruz de Cristo. O Filho de Deus não revela o amor dominando, acumulando ou impondo-se sobre os outros, mas entregando a própria vida. O gesto do lava-pés resume essa lógica do Reino: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu vos fiz" (Jo 13,15). A grandeza cristã não está no poder sobre pessoas, mas na capacidade de servir..É  preciso   discernir quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar projetos de controle ou dominação. A chamada teologia do domínio, quando transforma a missão cristã em busca de influência política ou superioridade cultural, distancia-se do caminho de Jesus. O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. A autoridade de Cristo nasce da humildade, da verdade e da misericórdia.

A relação entre fé e política exige igualmente discernimento. Os cristãos são chamados a participar da construção da sociedade e defender a dignidade humana, mas a religião não pode ser transformada em instrumento de manipulação partidária ou legitimação de projetos autoritários. Quando o nome de Deus é usado para alimentar ódio, exclusão ou desprezo por grupos humanos, ocorre uma profunda contradição com o Evangelho. Jesus nunca anunciou um Reino baseado na eliminação do outro. Sua prática foi marcada pela aproximação dos marginalizados, pela cura dos enfermos, pelo perdão aos pecadores e pela defesa dos pequenos. Por isso, toda expressão religiosa que se aproxima de discursos de intolerância, violência ou desumanização precisa ser confrontada pela mensagem de Cristo.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia o risco do mundanismo espiritual, quando a fé passa a buscar prestígio, segurança institucional ou reconhecimento humano em vez de anunciar o Evangelho. A Igreja é chamada a ser uma comunidade em saída, capaz de escutar as dores do mundo e aproximar-se das periferias existenciais..

  • Na Encíclica Laudato Si', Francisco mostra que a crise ecológica possui uma raiz espiritual. Um coração humano dominado pelo desejo de possuir e controlar transforma a criação em objeto de exploração. O cuidado com a casa comum está ligado à defesa dos pobres, pois são os mais frágeis aqueles que mais sofrem com a degradação ambiental.
  • Em Fratelli Tutti, o Papa apresenta a fraternidade como resposta à cultura da indiferença e da divisão. Essa mensagem encontra profunda sintonia com Mateus 15, pois Jesus revela que a maior impureza não está nas coisas externas, mas em um coração incapaz de reconhecer o outro como irmão.

A passagem de Mateus continua, portanto, como uma pergunta dirigida à Igreja e a cada discípulo: nossas práticas religiosas revelam o rosto de Cristo ou apenas preservam aparências? Nossas tradições conduzem à misericórdia ou criam barreiras? Nossa fé produz serviço ou busca privilégios?

A conversão proposta por Jesus é uma transformação integral. Não basta mudar discursos; é necessário renovar atitudes. Não basta defender valores cristãos; é preciso viver o amor que esses valores anunciam. Não basta falar sobre Deus; é necessário permitir que Deus transforme a forma como tratamos as pessoas e assumimos a realidade. A verdadeira pureza cristã é um coração reconciliado com Deus e aberto ao próximo. É uma vida libertada do egoísmo, da violência e da indiferença. É a capacidade de olhar a humanidade com os olhos de Cristo e reconhecer que cada pessoa possui uma dignidade que nasce do próprio Criador..Assim, Mateus 15,1-2.10-14 permanece como uma palavra profética para o nosso tempo. Ele chama a Igreja a uma renovação permanente, recordando que a tradição só permanece viva quando conduz ao amor, que a autoridade só é cristã quando se torna serviço e que a religião só revela Deus quando produz misericórdia.

A voz de Jesus continua atravessando a história: "Escutai e compreendei". O convite permanece para que a fé deixe de ser apenas aparência e se transforme em vida concreta. O mundo não necessita apenas de discursos religiosos, mas de testemunhas capazes de revelar, através de suas atitudes, o rosto daquele que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). Essa palavra resume o coração do Evangelho. Deus procura uma humanidade reconciliada, uma Igreja servidora e discípulos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a esperança. Quando a misericórdia ocupa o centro, a religião reencontra sua verdadeira vocação: revelar ao mundo o amor transformador de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 2 de agosto de 2026

Continuemos Gentis, Iluminados e Iluminadores

  • Padre Zezinho Scj, a gratidão de um discípulo formado pela sua missão 

A GOTA D’ÁGUA 

Pe Zezinho scj

A partir do próximo domingo , dia 2 de agosto silenciarei na internet,  na qual  entrei a conselho de bispos e de um  irmão de congregação .   Apenas conversarei com meus 100 catequistas da WhatsApp . Devo isso a eles !   Não sei se voltarei às outras redes sociais .   Cansei de ser chamado “câncer da Igreja”  por pregar a Teologia da Libertação devidamente  corrigida por São João Paulo II em carta de 9.4.1986  sendo eu discípulo do advogado e sociólogo  Padre Dehon ,  lutei em defesa da Doutrina Social da Igreja ( DSI) .   Outros irmãos de outra corrente social gritaram  mais alto do que eu !  Foram 60 anos tentando dialogar sobre catequese católica ! 

Minha simples resposta paterna sobre o jeito de pregar ao microfone virou confronto político e discórdia entre católicos de  diferente corrente e postura pastoral ! 

Não fiquei padre para ouvir o que ouvi e li  no dia 19 de julho ! Quem postou aquele confronto e a maneira como foi postado quis me cancelar e alcançou   seu objetivo !  Reitero minha opinião de que a catequese deve ser sempre gentil , mesmo dizendo verdades exigentes .  

Padre Zezinho scj

Poucas frases conseguem resumir tão bem uma vida inteira. Foi com essas palavras que José Fernandes Oliveira  o Padre Zezinho, SCJ, anunciou, no dia 2 de agosto, Dia das Vocações Sacerdotais, que encerrava sua atuação nas redes sociais leia o texto acima. Não é um gesto de desistência, nem um adeus à missão. É a decisão serena de quem sabe que o Evangelho não depende de uma plataforma para continuar transformando vidas. Os meios de comunicação mudam; a missão permanece. Ao ler sua mensagem, senti tristeza, mas, acima de tudo, gratidão. Gratidão porque sua despedida das redes sociais não representa um silêncio. Quem evangelizou durante tantas décadas por meio da música, dos livros, dos artigos, da rádio, da televisão, das palestras e dos retiros jamais deixará de falar. Sua voz continuará ecoando nas comunidades, nas famílias, nas salas de catequese, nas igrejas e no coração de milhões de pessoas..Na verdade, aquela breve mensagem soou como um verdadeiro testamento espiritual. Padre Zezinho recordou que o púlpito é um lugar sagrado; que o microfone católico existe para anunciar Jesus Cristo, nunca para espalhar ódio, humilhação ou condenação; que o Evangelho pode ser anunciado com firmeza sem perder a delicadeza; e que a verdade nunca precisa ser agressiva para permanecer verdade. 

Ao recordar os Boanerges, os "filhos do trovão", que desejaram fazer cair fogo do céu sobre aqueles que pensavam diferente, Padre Zezinho trouxe à memória a resposta do próprio Jesus, que repreendeu aquele espírito de intolerância. Em tempos marcados por radicalismos, polarizações e discursos violentos, essa reflexão é profundamente evangélica e extraordinariamente atual. Ela nos lembra que o discípulo de Cristo não é chamado a vencer discussões, mas a testemunhar o amor que brota do Evangelho..  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho permaneceu fiel a esse princípio. Sacerdote do Sagrado Coração de Jesus, compositor, escritor, comunicador, pregador e catequista, tornou-se um dos maiores evangelizadores que a Igreja no Brasil conheceu. Sua missão ultrapassou fronteiras. Suas músicas foram traduzidas, gravadas e cantadas por inúmeras comunidades. Seus livros formaram gerações de catequistas, ministros, religiosos, seminaristas, padres e leigos. Seus artigos ensinaram milhares de pessoas a pensar a fé, enquanto seus programas de rádio levaram esperança a incontáveis famílias.

Mais do que produzir canções ou escrever livros, Padre Zezinho ajudou a traduzir para a linguagem do povo a riqueza do Concílio Vaticano II. Mostrou, com palavras simples e profunda fidelidade ao Magistério da Igreja, que ela é chamada a ser Mãe e Mestra, missionária, acolhedora, misericordiosa e profundamente humana. Ensinou que fidelidade ao Evangelho jamais significa intolerância e que a verdade de Cristo caminha sempre de mãos dadas com a caridade..Por isso, sua despedida das redes sociais não é um ponto final. É apenas o encerramento de uma etapa de uma história que continuará sendo escrita na vida daqueles que foram formados por sua missão.

Particularmente  cheguei à Igreja Católica aos 17 anos de idade, na década de 1990. Era um jovem em busca de ideal, de um projeto,  na verdade  buscava Deus,  precisava  de respostas e de um sentido para a vida,  como tantos outros, procurava algo que desse direção à minha existência. Foi na Igreja que encontrei Jesus Cristo e, pouco tempo depois, tive a graça de ser chamado para servir como Ministro da Palavra. Começava ali uma caminhada de fé, de estudo, de oração e de serviço ao povo de Deus..Naquele tempo, eu ainda não imaginava quantas pessoas Deus colocaria em meu caminho para ajudar na minha formação. Entre todas elas, uma ocupa um lugar muito especial: Padre Zezinho.

Conheci primeiro sua voz. Depois vieram as músicas, os livros, os artigos, os LPs, naquele tempo  ainda  era os LPs e as reflexões. Sem perceber, eu estava sendo catequizado por um sacerdote que conseguia unir profundidade teológica, fidelidade à Igreja, amor à Sagrada Escritura, sensibilidade humana, compromisso social e uma linguagem simples, acessível e profundamente cristã..Com o passar dos anos, compreendi que Padre Zezinho nunca foi apenas um compositor,  mas um educador da fé e  nunca foi apenas um cantor.  Ele é  um catequista,  também  nunca foi apenas um escritor,  na  verdade  é  um mestre que ajudava e ajuda  o povo de Deus a pensar, rezar e viver o Evangelho.

Foi por meio de sua obra que descobri uma verdade que levo comigo até hoje: a música também pode evangelizar, pode formar consciências, ensinar teologia, despertar vocações, fortalecer famílias, alimentar a esperança e aproximar as pessoas de Jesus Cristo. Sem exagero, posso dizer que minha formação como jovem católico, como Ministro  leigo comprometido com a Igreja foi profundamente marcada pela riqueza espiritual, humana e catequética de sua missão. Foi ela que ajudou a moldar minha maneira de compreender a fé, viver a Igreja e anunciar o Evangelho.  Foi justamente por isso que, ao saber de sua despedida das redes sociais, senti a necessidade de escrever estas palavras. Não apenas para agradecer por sua trajetória, mas para testemunhar que sua missão continua viva na história de inúmeras pessoas.

 Jamais imaginei que Deus ainda me concederia uma graça maior: encontrá-lo pessoalmente. Antes desse encontro, porém, sua obra já havia se tornado presença constante na minha caminhada de fé. E  sua  obra carrega um convite à conversão, à oração e ao compromisso com o Evangelho. Suas músicas não são apenas melodias bonitas, mas verdadeiras reflexões sobre Deus, sobre a vida humana e sobre a missão cristã no mundo e sem  perceber, fui sendo formado também por suas canções, que acompanharam diferentes momentos da minha história de fé.

Como não  agradecer  ao Mestre Padre Zezinho SCj  as musicas, os textos  aa reflexões  e tudo mais. Como não  lembrar de; 

  • "Maria de Minha Infância"  que despertou em mim um profundo amor filial pela Mãe de Jesus. Por meio daquela canção, Maria deixou de ser apenas uma personagem da história da salvação para tornar-se uma presença materna na minha vida espiritual. 
  •  "Mãe do Céu Morena"  que  me abriu um novo horizonte. A curiosidade despertada por essa música levou-me a conhecer a história de Nossa Senhora de Guadalupe, sua aparição a São Juan Diego e a riqueza espiritual da Padroeira das Américas..Com o passar dos anos, essa descoberta transformou-se em devoção. Hoje, com alegria, posso dizer que sou guadalupano. Minha devoção à Virgem de Guadalupe nasceu, em grande parte, porque essa  canção abriu meu coração para conhecer essa manifestação tão bonita do amor de Deus através de Maria. Talvez Padre Zezinho jamais tenha imaginado quantas histórias semelhantes nasceram por causa dessa música. Na minha vida, ela foi muito mais do que uma composição: tornou-se um caminho de evangelização.
  • "Oração pela Família"  ensinou-me que a família é uma verdadeira Igreja doméstica, onde o amor, o diálogo, o perdão e a oração sustentam a vida cotidiana. Em tempos de tantas dificuldades para as famílias, essa canção continua lembrando que a presença de Deus dentro do lar é fonte de força e esperança.
  • "Família do Brasil" ampliou meu olhar, mostrando que o Evangelho não se limita às paredes de nossas casas. A família cristã também possui uma responsabilidade diante da sociedade, chamada a promover o cuidado com o próximo, a solidariedade e o compromisso com o bem comum.
  • "Jovem Galileu". Nela encontrei um Jesus próximo, humano e amigo, capaz de caminhar ao lado dos jovens e continuar fazendo o mesmo convite de sempre: "Vem e segue-me." Não era um Cristo distante, mas o Mestre que chama cada pessoa para uma vida nova.
  • Cristo Inconstante e Meu Cristo Jovem, lançado em dois  LPs de reflexão, obras que guardo com especial carinho. Elas ajudaram-me a compreender que seguir Jesus exige conversão permanente.
São músicas que não oferecem uma fé superficial, mas provoca perguntas, desperta  a consciência e convida  a um cristianismo autêntico, no qual aquilo que professamos precisa estar unido àquilo que vivemos.  Padre Zezinho também me ensinou que a espiritualidade cristã não pode ignorar o sofrimento humano.

  •  Em "País Paraplégico", conheci uma dimensão muito pessoal de sua história. Ao transformar a experiência vivida com seus pais em uma reflexão sobre dignidade, perseverança, amor e esperança, mostrou que a dor, quando iluminada pela fé, pode tornar-se testemunho.
  • Em "Briga com Deus", encontrei uma das mais belas expressões da dor humana transformada em oração. Ao narrar o sofrimento de pais que perderam um filho, mostrou que a fé não elimina as lágrimas nem proíbe as perguntas. Como Jó, Jeremias e tantos salmistas, também podemos apresentar nossas dores diante de Deus. Essa canção ensinou-me que até o silêncio de Deus pode se transformar em lugar de encontro com Ele.

Outras músicas ampliaram meu olhar sobre as exigências do Evangelho. 

  • " Mais um Irmão" despertou em mim a consciência de que seguir Cristo significa defender a vida, promover a paz e reconhecer a dignidade de toda pessoa humana. 
  • "Menores Abandonados" fez-me compreender que a opção pelos pequenos, pelos pobres e pelos esquecidos pertence ao coração da Boa-Nova anunciada por Jesus.
  • "A Verdade Vos Libertará" e "A Verdade é Bem Maior" ensinaram-me que a verdade do Evangelho está acima de nossas preferências pessoais, ideológicas ou partidárias. Cristo continua sendo a Verdade que liberta e conduz à verdadeira liberdade.
Em muitos momentos da minha vida no silêncio vem a mente 

  • "Estou Pensando em Deus" transformou-se em oração. 
  • "Chuva no Telhado" mostrou-me que Deus também se revela na simplicidade do cotidiano,  quando  chove e estou bem abrigafo e meu irmão  sem um lugar para  morar,  nos pequenos gestos e no silêncio.
  •  "Quando Jesus Passar" fortaleceu minha esperança, lembrando-me de que um encontro verdadeiro com Cristo é capaz de transformar completamente uma existência.
  • "Amar Como Jesus Amou" tornou-se, para mim, uma síntese do próprio Evangelho: não existe verdadeira espiritualidade cristã sem amor, porque o amor é o caminho deixado por Jesus.
Entre tantas canções, "Utopia" ocupa um lugar especial me faz lembrar do meu pai, da minha mae  e irmãs e irmãos.  As  canções  alimentaram  em mim o sonho de uma Igreja mais fraterna, misericordiosa, missionária e fiel ao Evangelho; uma Igreja que dialoga sem perder sua identidade, acolhe sem abandonar a verdade e anuncia Cristo sem transformar o altar em tribunal.

Na  mensagem com que Padre Zezinho se despede das redes sociais, reconheci exatamente essa mesma esperança. É a continuidade de tudo aquilo que ele sempre cantou, escreveu e testemunhou ao longo da vida e  é  assim que compreendo que Padre Zezinho nunca escreveu simplesmente canções religiosas. Fez teologia em linguagem popular, transformou poesia em catequese, música em evangelização e arte em formação humana e cristã.  Milhões de pessoas aprenderam a rezar, a amar a Igreja e a seguir Jesus Cristo por meio de sua missão e  posso afirma que: Eu sou uma delas.

Depois de tantos anos de caminhada ouvindo suas músicas, lendo seus livros e sendo formado por suas reflexões, Deus concedeu-me uma graça que guardo com profundo carinho: conhecer pessoalmente Padre Zezinho. Nas celebrações do Jubileu de Ouro da criação da Diocese de Nova Iguaçu em 2010, tive a alegria de participar de um momento que jamais esquecerei. Fui responsável por conduzi-lo ao local do show comemorativo daquele jubileu e traze-lo,  esta no palco fazendo a algumas fotos pra Diocese. Para muitos, poderia parecer apenas uma tarefa de organização, mas para mim, porém, foi um presente de Deus.

Ali, eu não estava simplesmente acompanhando um sacerdote conhecido em todo o Brasil, estava convivendo, ainda que por poucas horas, com alguém que já fazia parte da minha história de fé muito antes daquele encontro. As canções que marcaram minha juventude, os livros que alimentaram minha formação e as reflexões que tantas vezes iluminaram meu caminho agora ganhavam o rosto de uma pessoa que eu podia ouvir, observar e conhecer de perto, e era mesmo padre, alguém  perto  e real.  Ele não  é  personagem  de palco, ele é   único 

Aqueles  dias ficaram  gravado em minha memória não apenas pelo evento, pelo palco ou pela multidão que aguardava sua chegada, mas, sobretudo, pelos momentos simples que compartilhamos. Sentamo-nos à mesma mesa no café da manhã, no almoço e no jantar,  nao teve ego de pop star. Foi justamente nessa convivência cotidiana que confirmei aquilo que durante tantos anos havia percebido em suas obras. Por trás do compositor admirado, do escritor reconhecido e do evangelizador que alcançou milhões de pessoas havia um sacerdote simples, acolhedor e profundamente humano. Ele conversava com naturalidade, tratava todos com respeito e demonstrava uma serenidade que não precisava de discursos para se revelar, a simplicidade que transparecia em suas músicas também estava presente em seus gestos.

Guardo com especial carinho uma lembrança daquele café da manhã. Em razão do diabetes, Padre Zezinho comentou sobre os cuidados com a alimentação e disse, de maneira muito espontânea, que o açúcar era um veneno no café da manhã e que todo excesso acaba fazendo mal. À primeira vista, parecia apenas uma observação sobre hábitos alimentares,  no entanto, aquela frase carregava uma sabedoria que ia muito além da mesa, quando tomo café e coloco açúcar. Lembro dessa frase e naquele instante compreendi, mais uma vez, que a fé cristã toca a vida concreta. Ela se manifesta também nas pequenas escolhas, no equilíbrio, na prudência, no cuidado consigo mesmo e com os outros...Era a mesma coerência que eu encontrava em seus livros e canções: um Evangelho vivido no cotidiano, sem artificialismos, sem espetáculo e sem distância da realidade.

Ao final daquele dia, saí com uma certeza ainda mais profunda: A grandeza de uma pessoa não se mede apenas pelo número de livros escritos, de discos gravados ou de pessoas que a conhecem. Mede-se, sobretudo, pela maneira como ela trata quem está ao seu lado quando os holofotes não estão acesos.

O Padre Zezinho que encontrei naquele jubileu era exatamente o mesmo que eu conhecia por meio de suas músicas: um homem de fé, sensível ao sofrimento humano, apaixonado por Jesus Cristo e comprometido com a missão de evangelizar..Não havia diferença entre o sacerdote do palco e o sacerdote da mesa; entre o comunicador admirado e o homem simples do convívio cotidiano. Essa coerência talvez seja um dos maiores testemunhos que sua vida oferece à Igreja e por isso, quando  leio a  sua decisão de deixar as redes sociais, lembrei-me imediatamente daquele dia. Compreendi que os instrumentos de comunicação podem mudar, mas o testemunho permanece. As redes sociais deixam de receber suas publicações, mas sua presença continua viva em cada comunidade que canta suas músicas, em cada catequista que utiliza seus livros, em cada jovem que reencontra a esperança por meio de suas palavras e em cada família que aprende, com suas canções, que amar é o caminho do Evangelho.

Sua  vida inteiramente dedicada a Cristo não termina quando uma atividade chega ao fim. Ela continua produzindo frutos na existência de todos aqueles que foram alcançados pelo testemunho de quem viveu para anunciar o Reino de Deus. É por isso que Padre Zezinho não está encerrando uma missão. Apenas conclui uma etapa de um ministério que continuará ecoando na memória, na fé e no coração de milhões de pessoas.

Ao chegar ao fim desta homenagem, percebo que ela fala tanto sobre Padre Zezinho quanto sobre a ação de Deus na minha  vida  e daqueles que ele ajudou a formar. Quando olho para minha própria caminhada, reconheço que muitas das sementes lançadas em meu coração chegaram por meio de sua missão.  Deus serviu-se de suas canções, de seus livros, de seus artigos e de seu testemunho sacerdotal para fortalecer minha fé, ampliar minha compreensão do Evangelho e ensinar-me que seguir Jesus Cristo é um caminho de conversão permanente.  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho mostra  a milhares de pessoas que é possível anunciar a verdade sem abrir mão da caridade, defender a fé sem transformar o altar em tribuna de ataques e exercer uma voz profética sem perder a ternura.

Vivemos  tempos em que tantos utilizam a religião para alimentar divisões, ressentimentos e intolerâncias, seu testemunho permanece como um convite a redescobrir o coração do Evangelho: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Foi ouvindo suas canções, lendo seus livros e acompanhando suas reflexões que compreendi, cada vez mais, que a Igreja é chamada a ser sinal de comunhão, misericórdia e esperança. Uma Igreja que acolhe sem relativizar a verdade, que corrige sem humilhar, que evangeliza sem condenar e que jamais deixa de enxergar, em cada pessoa, um filho amado de Deus. Essa talvez seja uma das maiores marcas de sua missão. Padre Zezinho nunca apresentou um cristianismo baseado no medo, na agressividade ou na exclusão. Sempre apontou para uma fé profundamente humana porque profundamente enraizada no Evangelho. Por isso, sua voz continuará necessária, mesmo que já não esteja presente diariamente nas redes sociais.

Obrigado, Padre Zezinho, por tudo o que o senhor plantou na Igreja do Brasil e além de suas fronteiras, pelas canções que se transformaram em oração, pelos livros que se transformaram em formação, pelos artigos que despertaram reflexão, pelas palavras que iluminaram consciências e pelo testemunho sacerdotal que mostrou que é possível permanecer fiel a Cristo sem perder a simplicidade, a sensibilidade e a humanidade,  por ter ajudado a formar minha caminhada de fé desde aquele jovem de dezessete anos que chegou à Igreja em busca de sentido para a vida e encontrou, no serviço como Ministro da Palavra, uma vocação de leigo comprometido com o Reino de Deus. 

Obrigado!

Hoje, olhando para trás, reconheço, com profunda gratidão, que uma parte importante dessa história também foi construída pela sua presença. Peço ao Sagrado Coração de Jesus, a quem Padre Zezinho consagrou sua vida como religioso dehoniano, que continue sustentando sua saúde, sua paz e sua missão. Peço também à Virgem de Guadalupe, cuja devoção floresceu em meu coração por meio de uma de suas canções, que continue intercedendo por sua caminhada com ternura de Mãe.

Padre Zezinho deixa as redes sociais, mas permanece onde sempre esteve: na memória agradecida da Igreja, nas comunidades que continuam cantando suas músicas, nos catequistas que formam novas gerações, nas famílias que rezam inspiradas por suas composições e no coração de milhões de pessoas que aprenderam, por meio de sua missão, que anunciar Jesus Cristo é anunciar também a misericórdia, a verdade e o amor.

Os verdadeiros evangelizadores não desaparecem quando deixam os holofotes. Permanecem vivos nas vidas que ajudaram a transformar, na fé que despertaram, nas vocações que inspiraram e nas sementes do Reino que lançaram ao longo do caminho.

Muito obrigado, Padre Zezinho.

Que Deus continue abençoando sua vida e recompense, com a abundância de sua graça, todo o bem que o senhor realizou e continua realizando na Igreja. E que suas palavras, que atravessaram gerações e chegaram ao coração de tantas pessoas, continuem ecoando como um convite para todos nós:

"Continuemos gentis, iluminados e iluminadores."

DNonato - Ainda aprendendo a amar como Jesus amou.

Um breve olhar sobre Mateus 14,22-36

 "Travessia e grito: quando o Evangelho exige sair da margem"

Na segunda-feira da 18ª Semana do T.empo Comum, a liturgia nos apresenta o episódio de Jesus caminhando sobre as águas Mateus 14,22-36, à primeira vista, isso pode causar estranheza, pois, na sequência habitual do Lecionário nos anos B dedicada a leitura  do Evangelho  de Marcos  e C dedicada ao evangelho  de Lucas, essa perícope é proclamada na terça-feira, enquanto a segunda-feira é dedicada ao relato da multiplicação dos pães Mateus  14,13-21 e proclamada na segunda-feira da 18ª semanado Tempo Comum. Essa alteração ocorre quando o Ano A dos domingos coincide com o dos dias de semana. Como o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum já proclama a multiplicação dos pães, a Igreja evita repetir o mesmo texto na segunda-feira e prossegue diretamente para a narrativa da terça-feira  da 18ª semanadoTempoComum. Trata-se de uma adaptação pedagógica do Lecionário, que preserva a riqueza da proclamação dominical e, ao mesmo tempo, mantém a continuidade do capítulo 14 de Mateus. Essa opção litúrgica possui também um profundo significado teológico. Somos conduzidos imediatamente da mesa da abundância para a travessia da tempestade,  o mesmo Jesus que alimenta a multidão é aquele que obriga os discípulos a entrarem na barca e seguirem para a outra margem. O verbo grego anankázō ("obrigar", "compelir"), empregado por Mateus (14,22), revela que não se trata de um simples convite, mas de um imperativo: os discípulos precisam partir, mesmo sem compreender plenamente o caminho. A cena se desenrola durante a noite. A barca encontra-se no meio do mar, o vento é contrário e Jesus ainda não está visivelmente com eles. Na tradição bíblica, o mar simboliza as forças do caos e da morte (cf. Sl 74,13-14; Is 51,9-10), enquanto a travessia representa o caminho da fé, marcado por provações e amadurecimento. A ausência momentânea de Jesus não significa abandono, mas torna-se uma pedagogia espiritual: é nas noites escuras da existência que os discípulos são chamados a confiar na presença daquele que, mesmo invisível, continua conduzindo a história.

Então na sequência  a liturgia estabelece uma ligação inseparável entre os dois episódios. O milagre do pão desemboca na prova da fé,  a providência experimentada na multiplicação prepara os discípulos para enfrentar os ventos contrários. Aquele que sacia a fome do povo é o mesmo Senhor que caminha sobre as águas, vence o caos e revela sua identidade divina. A mesa da abundância conduz à travessia da confiança, ensinando que a fé amadurece quando reconhecemos Cristo não apenas no pão repartido, mas também nas tempestades da vidaNeste cenário hostil, Jesus se aproxima, mas os discípulos não o reconhecem. O medo distorce o olhar. Acham que é um fantasma. É sempre assim: quando estamos dominados pelo medo, até Jesus nos parece ameaça. A resposta dele, porém, é imediata: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). O "Sou eu" (ἐγώ εἰμι) evoca o nome de Deus revelado a Moisés na sarça ardente (Ex 3,14). É mais do que uma autodeclaração de identidade; é uma epifania. Jesus se revela como o Deus presente na tempestade, Aquele que domina o caos e atravessa conosco as noites escuras da história.

Pedro, então, pede para ir ao encontro dele sobre as águas. É um pedido ousado, expressão de uma fé que deseja caminhar além da segurança da barca. Jesus consente. Pedro caminha. Mas, ao sentir a força do vento, se atemoriza e começa a afundar. O medo paralisa, afunda, derruba. Pedro grita: "Senhor, salva-me!". Jesus estende a mão, segura-o e diz: "Homem fraco na fé, por que duvidaste?" (Mt 14,31). A travessia exige confiança. Duvidar é tirar os olhos de Jesus e fixá-los no vento. Mas, mesmo na dúvida, o grito por salvação é escutado, e a mão de Jesus nos alcança. Esse grito ressoa hoje nos recantos mais dolorosos da Igreja: nos silêncios cúmplices diante dos abusos, nas liturgias desconectadas da vida, nas alianças que trocam o Evangelho pelo prestígio político. É o grito de um corpo eclesial que precisa mais do que reformas administrativas: precisa reaprender a gritar por salvação. A fé que se recusa a sair da margem para permanecer em portos seguros torna-se cúmplice do sistema, como os sacerdotes e levitas que evitam o ferido à beira do caminho (cf. Lc 10,31-32), a religião que não se lança à travessia transforma o Evangelho em retórica, e não em revolução.

Santo Agostinho comentava que "a barca é figura da Igreja; o mar, do mundo; e o vento, das tentações. Quando a caridade esfria, o barco se agita" (In Iohannis Evangelium Tractatus, 2),  a  cena não é só eclesial, também  não  só  pessoal. Cada um de nós é Pedro, cada um de nós precisa ousar sair da barca, arriscar-se na direção de Jesus e, ao sentir o peso do vento e das ondas, aprender a gritar: "Senhor, salva-me!". Ninguém caminha sobre as águas sem medo e  ninguém é salvo sem confiar na graça  e misericórdia .

Os relatos de Mateus 14,22-36 e Marcos 6,45-52 proclamado quarta-feira após a Solenidade da Epifania do Senhor, quarta-feira após  epifania que apresenta a travessia como consequência direta da multiplicação dos pães , enfatizando o afastamento de Jesus para o monte e a permanência dos discípulos no mar agitado. Em ambos, Jesus caminha sobre as águas e acalma os discípulos. No entanto, Mateus é o único que insere o episódio de Pedro tentando caminhar sobre as águas, sublinhando o drama pessoal da fé em crise, o grito por salvação e o toque da mão de Jesus,  um detalhe com alto valor teológico e simbólico. Lucas não narra este episódio. Já João, que não é sinótico, relata o mesmo acontecimento (Jo 6,16-21) com seu estilo próprio: omite o episódio de Pedro e acentua que a barca chegou “imediatamente” ao destino ao acolherem Jesus,  símbolo joanino da presença que realiza a travessia. Cada evangelista oferece, assim, uma lente própria: Marcos destaca o endurecimento do coração dos discípulos, João acentua a presença reveladora de Jesus, e Mateus foca na fé que se arrisca e vacila, mas é sustentada pelo Senhor. O mar agitado também habita a interioridade humana. Há noites em que a fé parece diluir-se na ansiedade, em que o rosto de Deus desaparece sob as brumas da dúvida. Como ensina São João da Cruz, essas são noites purificadoras, onde o silêncio de Deus é mais presença do que ausência, mais fogo do que ausência de luz. A travessia do lago continua sendo a travessia da Igreja e de cada discípulo. Depois do pão partilhado, chega a hora da confiança; depois do entusiasmo da multidão, vem a noite da fé. O Evangelho nos recorda que os milagres não eliminam as tempestades, mas revelam Quem caminha conosco em meio a elas. Cristo não promete um mar sem ventos, mas a sua presença no coração da tormenta.

Também hoje a Igreja enfrenta ondas violentas: a tentação do poder, o clericalismo, os escândalos que ferem a credibilidade do Evangelho, a indiferença diante dos pobres e a sedução de ideologias que instrumentalizam a fé. Nesse cenário, a resposta não está em permanecer ancorados em portos seguros, mas em voltar o olhar para Cristo. Quando a comunidade fixa os olhos apenas nas ondas da crise, afunda no medo; quando os fixa no Senhor, reencontra a coragem para continuar a travessia. Cada um de nós é chamado a descer da barca das falsas seguranças, enfrentar as águas da própria história e aprender que a fé não é ausência de medo, mas confiança que permanece apesar dele. E, quando as forças faltarem, basta repetir a oração mais sincera do Evangelho: "Senhor, salva-me!". A mão de Cristo continua estendida. Ele não abandona quem vacila, mas sustenta quem, mesmo entre dúvidas e lágrimas, persevera em buscá-lo.

Que esta Palavra nos ensine a atravessar as noites da vida com esperança, certos de que Aquele que venceu o caos continua dizendo à sua Igreja e a cada um de nós: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). Essa é a certeza que transforma a tempestade em caminho, o medo em confiança e a travessia em encontro com o Senhor. Avancemos, mesmo com o medo nos ombros. Caminhemos, mesmo com as águas sob os pés. A barca está viva, porque Aquele que caminha sobre o caos ainda diz: "Coragem! Sou eu!" E sua mão continua estendida. Que ninguém se iluda com calmarias compradas; que todos se deixem curar pelas travessias que tocam. E que a fé, entre ventos e ondas, permaneça como travessia que salva.

DNonato - Teólogo do Cotidiano