“Ai dos que decretam leis injustas e redigem opressão” (Is 10,1).
Há datas que não passam. Elas não se limitam ao calendário; permanecem inscritas no corpo, na memória e na consciência. O dia 4 de fevereiro de 2021 é uma dessas datas. Foi naquele dia, logo após o retorno das férias — tempo que deveria significar recomeço e confiança — que fomos desligados após 14 anos de dedicação contínua, sob a justificativa genérica de “corte de gastos”.
Desde então, algo se deslocou dentro de nós. Não apenas o vínculo profissional foi rompido, mas também o sentido de pertencimento, de reconhecimento e de estabilidade interior. A tristeza não veio de uma vez; ela se instalou aos poucos, como um silêncio prolongado, como um inverno que insiste em permanecer. A melancolia passou a acompanhar nossos dias, não como vitimismo, mas como memória não elaborada, como luto sem rito.
A narrativa apresentada começou a se fragilizar quase imediatamente. Um dia após a demissão, teve início uma obra no prédio. O fato concreto, público e verificável abriu espaço para uma dúvida legítima: haveria outros elementos envolvidos naquela decisão? Por responsabilidade e segurança jurídica, não afirmamos; insinuamos. Mas a incoerência objetiva permanece como ferida aberta e como interrogação ética que ainda exige resposta.
Durante mais de uma década, não fomos apenas uma função descrita em contrato. Fomos presença constante, apoio silencioso, solução disponível. Fomos fotógrafo quando era preciso registrar, motorista quando a urgência exigia deslocamento, apoio administrativo, auxílio no setor de pessoas e na área financeira. Atuamos sem limitação de horário, sem delimitação rígida de responsabilidades, sempre disponíveis. Fizemos isso não por imposição, mas por compromisso, zelo e pela convicção profunda de que o trabalho também é expressão de serviço humano.
Talvez por isso a ruptura tenha sido tão devastadora. Não foi apenas a perda do trabalho, mas a sensação de descarte. Como se tudo o que foi oferecido com generosidade pudesse ser apagado por uma justificativa administrativa. Como se uma história inteira pudesse ser encerrada sem palavra, sem reconhecimento, sem luto.
O que se seguiu agravou ainda mais a dor. Vieram perseguições veladas e outras mais explícitas. Vieram ataques pessoais, olhares atravessados, comentários indiretos. Aos poucos, fomos sendo empurrados para um lugar ainda mais cruel: o de alguém cuja imagem precisava ser corroída. Sem acusações formais, construiu-se uma névoa moral. Não se dizia claramente, mas deixava-se entender. Não se afirmava, mas se insinuava. Uma tentativa silenciosa de nos transformar em um “pecador público”, não por fatos, mas por suspeitas; não por provas, mas por silêncios estratégicos.
O Direito Canônico é claro ao proteger o direito à boa fama (cân. 220). A Escritura também não relativiza esse tipo de violência: “Quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado” (Tg 4,17). Aqui, o silêncio não foi neutro; tornou-se instrumento.
Quando buscamos a justiça, não o fizemos por vingança, mas por necessidade de sobrevivência interior. Era preciso defender não apenas direitos trabalhistas, mas a própria dignidade. No âmbito judicial, a tristeza ganhou novas camadas: pessoas investidas de funções de liderança tiveram a coragem de negar a realidade objetiva das atividades que exercemos ao longo dos anos, como se a memória pudesse ser reescrita por conveniência institucional. Tal postura afronta o princípio da boa-fé, basilar no ordenamento jurídico, e compromete gravemente a ética das relações institucionais.
Feriu-nos profundamente a omissão. Muitos que caminharam conosco, que se beneficiaram diretamente do nosso trabalho e do nosso apoio cotidiano, optaram por calar. O silêncio daqueles que deviam testemunho pesou como abandono. A ausência de palavra tornou-se cumplicidade com a injustiça.
Mesmo após o reconhecimento dos fatos em três instâncias judiciais, o desrespeito persiste. Persistem tentativas de nos reduzir, de nos manter presos a narrativas já superadas juridicamente, mas sustentadas por resistência moral à verdade. Fica evidente que nem toda derrota judicial gera conversão ética.
À luz do Direito Canônico, essa postura causa perplexidade. O cân. 221 assegura a todo fiel o direito de defender seus direitos em instâncias legítimas. O cân. 128 estabelece a responsabilidade moral e jurídica de quem exerce funções administrativas por danos causados por negligência, omissão ou abuso. Esses princípios não são opcionais nem subordinados à autopreservação institucional.
O Magistério recente da Igreja confirma essa exigência. No pontificado do Papa Francisco, denunciou-se com clareza o pecado estrutural: sistemas que se protegem enquanto sacrificam pessoas concretas (Evangelii Gaudium, 59). Essa denúncia permanece atual e encontra continuidade no pontificado do Papa Leão XIV, que reafirma a centralidade da justiça, da verdade e da responsabilidade ética no exercício da autoridade.
A Gaudium et Spes é contundente ao afirmar que tudo o que viola a dignidade humana deve ser considerado infame (GS 27). A Fratelli Tutti recorda que não há fraternidade possível onde a verdade é sacrificada e a injustiça relativizada (FT 208–211). Não se trata de retórica pastoral, mas de critério objetivo de discernimento.
A Palavra de Deus é ainda mais incisiva: “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (Jr 23,1). E também: “O trabalhador é digno do seu salário” (Lc 10,7). Nenhuma linguagem espiritual, nenhum discurso institucional e nenhuma autoridade simbólica podem se sobrepor à justiça concreta exigida pelo Evangelho.
Meia decada depois, seguimos de pé. Não porque a dor tenha sido pequena, mas porque nos recusamos a mentir para nós mesmos. Caminhamos com tristeza, sim, mas também com consciência. A melancolia que carregamos não é ressentimento; é memória ferida que se recusa a ser apagada. A verdade pode ser adiada, abafada ou distorcida, mas não pode ser anulada. Ela sempre retorna — como juízo e como chamado à conversão.
Esta carta não é ataque. É luto elaborado. É memória que resiste. É denúncia ética e apelo profético. Porque onde tentam transformar a vítima em culpada, Deus não se cala. E onde a justiça é negada, a história continua cobrando.
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
A Boa Nova de Jesus segundo Marcos 6,1-6 nos introduz num dos núcleos mais delicados e provocadores da cristologia evangélica: o escândalo da encarnação vivido não apenas como mistério teológico, mas como experiência concreta de rejeição. Antes mesmo de qualquer elaboração doutrinal, o texto nos situa no terreno da vida cotidiana, onde vozes são desacreditadas não por falta de verdade, mas por excesso de familiaridade e Jesus ja tinha passado pelo conflito familiar em Marcos 3, 31-35. Quem nunca experimentou falar e não ser ouvido exatamente porque todos achavam já saber quem somos? É nesse chão humano, psicológico e social que a Palavra de Deus se deixa ouvir ou silenciar, como já advertia a Sabedoria: “Armemos ciladas contra o justo, porque ele nos incomoda” (Sb 2,12)
A liturgia da Igreja, ao proclamar este texto tanto na quarta-feira da 4ª semana do Tempo Comum quanto no 14º Domingo do Tempo Comum do Ano B, constrói uma verdadeira arquitetura hermenêutica. Ezequiel 2,2-5 apresenta o profeta enviado a um povo de fronte dura e coração obstinado, ecoando o drama de Moisés diante da resistência do povo no deserto (cf. Ex 5–6); o Salmo 122(123) traduz a atitude espiritual da espera humilde, semelhante à do pobre que clama e não é ouvido (cf. Sl 34,7); 2Coríntios 12,7-10 revela a força paradoxal da graça que se manifesta na fraqueza; e Marcos 6,1-6 encarna tudo isso na pessoa de Jesus. Não se trata de leituras justapostas, mas de um único drama salvífico que atravessa toda a Escritura: Deus insiste em falar mesmo quando sua Palavra encontra resistência, como aconteceu com Isaías (Is 6,9-10) e Jeremias (Jr 1,17-19).
Jesus retorna à sua pátria. O detalhe é decisivo. Nazaré não é apenas o lugar de origem, mas o espaço simbólico da memória compartilhada, das categorias já definidas, dos rótulos consolidados. A questão cultural nos ensina que comunidades pequenas tendem a proteger seus sistemas de sentido rejeitando aquilo que ameaça a estabilidade simbólica. Jesus ameaça porque rompe expectativas. Não corresponde ao imaginário messiânico dominante, nem aos critérios de autoridade religiosa vigentes. Sua palavra carrega autoridade (cf. Mc 1,22), mas não vem revestida de poder institucional.
O questionamento dos conterrâneos — “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?” — revela mais do que curiosidade, indicando alguém ligado ao trabalho manual, ao esforço cotidiano, distante das elites cultuais. Aqui emerge uma crítica estrutural: a dificuldade histórica das religiões em reconhecer a revelação quando ela surge fora dos centros legitimados. Trata-se de um mecanismo recorrente na história bíblica. Davi é esquecido por seu próprio pai quando Samuel procura o ungido (1Sm 16,6-13); Amós é desqualificado por não pertencer ao corpo profético oficial (Am 7,10-15); Jeremias é ridicularizado por sua juventude (Jr 1,6). A Palavra de Deus insiste em nascer à margem, como o Servo sofredor que “não tinha aparência nem beleza” (Is 53,2).
Nazaré encarna o processo de desqualificação simbólica do próximo, periferias das periferias. A familiaridade gera a ilusão do domínio: achamos que conhecemos o outro por completo e, assim, anulamos sua capacidade de nos surpreender. A fé, porém, exige abertura ao excesso de sentido. Deus não cabe na biografia que construímos sobre alguém. “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8) torna-se aqui chave hermenêutica para compreender a incredulidade travestida de religiosidade.
Marcos introduz então uma afirmação desconcertante: Jesus não pôde realizar ali muitos milagres. Longe de indicar impotência divina, o evangelista revela a lógica do Reino, já anunciada em outras passagens: a fé precede o sinal (cf. Mc 5,34; Mc 10,52). O milagre não é imposição, nem espetáculo, nem instrumento de convencimento. Ele supõe relação, confiança, acolhida. Aqui se desmonta radicalmente a teologia da prosperidade e toda espiritualidade do resultado, pois Jesus se recusa a fazer do poder um meio de autopromoção (cf. Mt 4,1-11).
Os sinóticos retomam a mesma cena com acentos próprios, oferecendo um rico paralelo hermenêutico. Mateus 13,53-58 e Lucas 8, 19-21 sublinha explicitamente que “não realizou ali muitos milagres por causa da incredulidade deles”, reforçando o vínculo entre fé e acolhida. Lucas 4,16-30 amplia dramaticamente o episódio ao situá-lo no início do ministério público e ao associar Jesus aos profetas Elias e Eliseu, lembrando que a graça alcança estrangeiros — a viúva de Sarepta (1Rs 17,8-16) e Naamã, o sírio (2Rs 5,1-14). A tentativa de lançá-lo do precipício revela que a rejeição do profeta pode rapidamente transformar-se em violência, como já ocorrera com Zacarias (2Cr 24,20-22) e como Jesus denunciará mais tarde: “Jerusalém, que matas os profetas” (Mt 23,37).
É exatamente contra essa lógica de controle religioso que Jesus ensina a oração em Lucas 11,1-4. O Pai-Nosso não forma indivíduos dominadores, mas filhos confiantes. O pedido do pão cotidiano evoca o maná do deserto (Ex 16), alimento suficiente e não acumulável; o perdão rompe a cadeia da violência, ecoando a ética do Levítico (Lv 19,18); e o pedido para não cair em tentação recorda a fragilidade humana diante do poder, tema recorrente na história de Israel (cf. Dt 8). Nazaré fracassa porque quer um Deus previsível; a oração ensina a acolher um Deus livre.
O Salmo 122(123) ecoa essa espiritualidade: olhos erguidos, mãos vazias, espera paciente, como em Lamentações 3,31-33. Trata-se de uma fé que resiste à tentação da mercantilização. Paulo, em 2Coríntios 12,7-10, aprofunda essa lógica ao afirmar que a força de Deus se manifesta na fraqueza, em consonância com a teologia da cruz desenvolvida em 1Coríntios 1,18-25. Aqui se revela o coração do Evangelho: não há glória sem cruz, nem autoridade sem serviço (cf. Mc 10,42-45).
Historicamente, Nazaré era uma aldeia periférica, sem relevância política ou religiosa, confirmando o escândalo expresso em João 1,46: “De Nazaré pode sair coisa boa?”. A ciência histórica mostra que o messianismo popular esperava sinais grandiosos e restauração política (cf. At 1,6). Jesus frustra essas expectativas ao revelar um Reino que cresce como semente lançada na terra (Mc 4,26-29) e como grão de mostarda (Mc 4,30-32). Essa frustração permanece atual sempre que a fé é instrumentalizada para projetos de poder.
Nazaré rejeita Jesus não apenas por conhecê-lo, mas por ele não pertencer ao sistema autorizado de mediação religiosa. Aqui se antecipa a intuição do Concílio Vaticano II ao afirmar que todo o povo de Deus participa da missão profética de Cristo (Lumen Gentium, 12), retomada com vigor pelos documentos latino-americanos de Medellín, Puebla e Aparecida, que denunciam uma Igreja autorreferencial e chamam à escuta dos pobres como lugar teológico. Sempre que a Igreja silencia essas vozes, repete a lógica de Nazaré.
Marcos conclui dizendo que Jesus se admirou da falta de fé deles. Essa admiração é lamento amoroso, semelhante ao pranto sobre Jerusalém (Lc 19,41). Deus não se impõe. Assume o risco da encarnação até o fim, inclusive o risco do fracasso aparente. Aqui se revela uma verdadeira escatologia do fracasso: o Reino avança não apesar da rejeição, mas através dela, como o grão que morre para dar fruto (Jo 12,24). A ausência de milagres torna-se sinal da fidelidade de Deus à liberdade humana.
Celebrar Marcos 6,1-6 no Tempo Comum é reconhecer que o ordinário da vida é o lugar privilegiado da revelação, como em Emaús (Lc 24,13-35). Não há fé madura sem revisão constante de nossas imagens de Deus, de nossas práticas religiosas e de nossas estruturas eclesiais. Nazaré não é apenas um lugar do passado; é uma tentação permanente. Onde quer que a Palavra seja silenciada por não corresponder às expectativas, ali Nazaré se repete.
A Boa Nova de Jesus não promete sucesso, mas sentido. Não oferece domínio, mas comunhão. Não vende milagres, mas convida à conversão do olhar. Diante d’Ele, não somos chamados a aplaudir prodígios, mas a rever certezas, desmontar preconceitos e atravessar o escândalo de um Deus que se faz comum. O problema de Nazaré não foi a falta de poder em Jesus, mas o excesso de familiaridade que cegou o coração. Quando Deus não cabe mais em nossos esquemas, preferimos reduzi-lo ao conhecido, neutralizá-lo, torná-lo inofensivo. A incredulidade, aqui, não é ateísmo declarado, mas fechamento existencial: é quando já sabemos demais sobre Deus para ainda nos deixarmos interpelar por Ele. Por isso Jesus se admira — não da miséria humana, mas da recusa em crer que o Mistério possa habitar o ordinário, o chão da vida, a carpintaria do cotidiano. Onde tudo parece controlado, Deus não impõe sua graça; respeita a liberdade, mesmo quando ela se transforma em barreira.
Quem tem fé, permita-se surpreender. A fé não é posse, é abertura; não é garantia, é risco; não é conforto, é travessia. Deus continua falando — quase sempre a partir de onde menos esperamos: das periferias da história, das vozes desacreditadas, das realidades desprezadas, das pessoas que “já conhecemos demais”. E talvez o maior milagre ainda hoje não seja o extraordinário que impressiona, mas o ordinário acolhido com olhos novos, capaz de devolver sentido, dignidade e esperança à vida.
A narrativa de Marcos 5,21-43 ocupa um lugar privilegiado na pedagogia litúrgica da Igreja (lida na 3ª-feira da 4ª semana ano par e no 13º Domingo do tempo comum do Ano B) por encapsular, de forma dramática, a teologia do Reino. Através de uma estrutura narrativa intercalada, o texto coloca em paralelo duas figuras antagônicas socialmente Jairo, o líder religioso, e a hemorroíssa, a excluída social — unindo-as pela tragédia e pela esperança.O texto transcende o gênero de relato de milagres para se tornar uma teologia da inclusão e da vitória sobre a morte. Onde a lei antiga via impureza (o fluxo de sangue e o cadáver), Jesus vê oportunidades de libertação. A perícope desafia o leitor a compreender que a fé cristã é, essencialmente, uma resposta de vida que se manifesta concretamente no toque, na superação de tabus e na restauração da dignidade humana.
Jesus retorna da outra margem e é imediatamente envolvido pela multidão. O movimento é contínuo, quase caótico, revelando uma realidade onde muitos se aproximam, mas poucos realmente encontram. É nesse cenário que surge Jairo, chefe da sinagoga, representante da instituição religiosa, que se prostra aos pés de Jesus e suplica pela filha de doze anos, gravemente enferma. O gesto de Jairo já é teologicamente significativo: a autoridade religiosa precisa descer de seu lugar de poder e reconhecer que a vida não se sustenta apenas por estruturas, mas pela confiança em Deus. O número doze, que aparece tanto na idade da menina quanto na duração do sofrimento da mulher, não é casual. Na Escritura, doze remete à totalidade do povo de Israel, às doze tribos (Gn 35,22-26). Marcos sugere que ali não estão apenas duas histórias individuais, mas o retrato de um povo cuja vida está interrompida, sangrando ou à beira da morte.
No caminho até a casa de Jairo, a narrativa é interrompida por outra história, recurso literário típico de Marcos. Os paralelos sinóticos enriquecem essa leitura. Mateus (Mt 9,18-26) enfatiza a autoridade de Jesus sobre a morte; Lucas (Lc 8,40-56) destaca o ambiente familiar e o espanto diante da vida restaurada. Marcos, por sua vez, insiste no caminho interrompido, na pedagogia do encontro e na centralidade dos corpos feridos. São leituras complementares que revelam a riqueza da tradição evangélica.
Uma mulher, sem nome, carrega há doze anos um fluxo contínuo de sangue. Sua dor ultrapassa o plano físico. Segundo a legislação de Levítico (Lv 15,25-27), ela vive em estado permanente de impureza, excluída do convívio social e religioso. Seu corpo torna-se lugar de estigma e vergonha. Marcos não romantiza seu sofrimento: ela gastou tudo o que possuía com médicos e, em vez de melhorar, piorou. O evangelista denuncia, de forma sutil e contundente, qualquer sistema que transforma a dor em mercadoria e se alimenta da vulnerabilidade dos pobres. Esssa mulher ousa aproximar-se de Jesus por trás e tocar a orla de sua veste. O gesto é carregado de simbolismo. Tocar alguém considerado sagrado, estando em condição de impureza, significava transgredir normas religiosas e sociais. Por isso, o toque é discreto, quase clandestino. No entanto, é justamente esse toque que revela uma fé profundamente encarnada. Não se trata de magia nem de superstição, mas de uma confiança radical que se expressa no corpo. O toque, tão recorrente no ministério de Jesus (cf. Mc 1,41; Mc 8,23), rompe a lógica da distância sagrada e revela um Deus que se deixa alcançar. A veste, por sua vez, remete às franjas prescritas em Nm 15,37-41, sinal da Aliança. Ao tocar a orla, a mulher toca simbolicamente a fidelidade de Deus. Cumpre-se ali a esperança anunciada pelo profeta Malaquias: a cura que vem nas asas do Sol da Justiça (Ml 3,20).
Quando Jesus pergunta quem o tocou, ele não busca informação, mas promove revelação. Ele interrompe o caminho, suspende a urgência institucional representada por Jairo e coloca no centro uma mulher invisibilizada. Ao fazê-la sair do anonimato, Jesus restitui sua dignidade. O medo que a faz tremer não é apenas reverência, mas o temor de quem viveu à margem e conhece o peso da punição social. A palavra de Jesus “Filha, tua fé te salvou” não apenas confirma a cura, mas reintegra a mulher à comunidade. Ela não é mais impura, é filha. A salvação, aqui, passa pelo corpo, pela palavra e pela relação. Essa Palavra ressoa com força no contexto brasileiro e latino-americano. O sangue que escorre da mulher evoca hoje os corpos descartados nas periferias, os jovens negros assassinados, as mulheres vítimas de feminicídio, os povos indígenas violentados, as crianças privadas de futuro.
É nesse momento que chegam os mensageiros anunciando a morte da menina. A lógica dominante se impõe: não vale mais a pena incomodar o Mestre. Trata-se da voz do conformismo, da naturalização da morte, tão presente em sociedades marcadas pela desigualdade. Jesus responde com uma das palavras mais decisivas do Evangelho: “Não tenhas medo, apenas crê”. A fé não nega a realidade, mas se recusa a aceitá-la como destino final. Jesus entra na casa acompanhado apenas dos pais e de três discípulos. Ele afasta o ruído dos pranteadores, denunciando uma religiosidade que transforma a morte em espetáculo e perde a capacidade de cuidar.
Diante da menina, Jesus pronuncia em aramaico: “Talitha kum” — “Menina, eu te digo, levanta-te”. Marcos preserva a língua original para sublinhar a intimidade do gesto e a força criadora da Palavra, que não descreve, mas realiza (cf. Gn 1). A menina se levanta imediatamente. O gesto final — mandar que ela coma — é uma chave teológica de enorme profundidade. Alimentar-se é sinal de vida restaurada, de reintegração à rotina, à mesa, à comunhão. Não se trata de um detalhe doméstico, mas de uma antecipação da pedagogia eucarística. Na tradição bíblica, comer é sempre um ato relacional. Do maná no deserto (Ex 16) ao banquete escatológico (Is 25,6), Deus deseja um povo vivo e sustentado. No Evangelho de Marcos, essa lógica se aprofunda nas multiplicações dos pães (Mc 6,30-44; Mc 8,1-9) e culmina na Última Ceia (Mc 14,22-25), quando Jesus se oferece como pão partido. Mandar a menina comer é afirmar que a vida devolvida precisa ser sustentada concretamente. Uma fé que celebra a Eucaristia, mas convive pacificamente com a fome e a exclusão, contradiz o Evangelho. A ordem de Jesus levantar e alimentar confronta uma sociedade que naturaliza a morte e uma religião que, muitas vezes, se limita ao rito. Medellín denuncia a miséria como injustiça estrutural; Puebla afirma a opção preferencial pelos pobres; Aparecida recorda que a vida plena prometida por Jesus (Jo 10,10) exige compromisso histórico. A CNBB, em seus documentos e campanhas, insiste que não há fé autêntica sem defesa da vida ameaçada.
Jairo precisa aprender que a autoridade verdadeira nasce do cuidado, não do cargo aqui temos uma crítica aos pastores, duaconos padres, bispos e demais clerigos que abusam do cargo, Jairo se dobra a autoridade de Jesus. A mulher encontra em Jesus não um fiscal da lei, mas um libertador. A fé como mercadoria é desmentida por uma graça que não se compra. Como recorda o Concílio Vaticano II, as dores da humanidade são também as dores da Igreja (Gaudium et Spes, 1), e o Papa Francisco insiste numa Igreja que seja hospital de campanha, não tribunal.
Portanto, a liturgia de hoje não é um eco vazio, mas uma presença viva. Jesus continua sendo o Deus das interrupções santas e das visitas inesperadas, aquele que para no meio da multidão para acolher o toque de um anônimo e que entra na intimidade do luto para devolver o fôlego. O seu 'não tenhas medo, apenas crê' é a âncora lançada em nosso mar de incertezas.
Aqui, crer transforma-se em contato físico: é o toque que cura a exclusão e a mão estendida que levanta da morte. O milagre culmina na ordem simples e humana: 'dai-lhe de comer'. Isso nos ensina que a Eucaristia é a escola do cuidado. Comungar é assumir o compromisso de que nenhuma vida ao nosso redor deve definhar por falta de pão, de afeto ou de esperança. É cuidar do outro para que a morte não tenha a última palavra
A proclamação de Lucas 2,22-40 nos introduz num tempo litúrgico de extraordinária densidade simbólica e teológica. Celebrado em 2 de fevereiro, quarenta dias após o Natal, este Evangelho estrutura a Festa da Apresentação do Senhor, conhecida desde os primeiros séculos como Festa da Luz. No Oriente, recebeu o nome de Hypapante, o Encontro; no Ocidente, tornou-se a Candelária, marcada pelas procissões com velas que confessam Cristo como Luz destinada a todos os povos. A memória dessa celebração já aparece no século IV em Jerusalém, como testemunha a peregrina Egéria, e é incorporada progressivamente à liturgia romana entre os séculos VI e VII, quando assume também um caráter catequético e penitencial, cristianizando antigos ritos de purificação e de passagem do inverno para a luz.
Nesse mesmo horizonte nasce a memória mariana de Nossa Senhora da Luz, não como acréscimo devocional, mas como consequência teológica do próprio mistério celebrado. Maria é aquela que gera a Luz, caminha com a Luz e, sobretudo, entrega a Luz. Seu gesto no templo não é possessivo, mas oblativo. Ao apresentar o Filho, ela reconhece que Ele não lhe pertence, mas é dom para o mundo. Assim, a festa se revela simultaneamente cristológica, mariana e eclesial: Cristo é a Luz; Maria é a portadora obediente dessa Luz; e a Igreja é chamada a refleti-la nas zonas sombrias da história.
Não por acaso, este Evangelho retorna também na Festa da Sagrada Família e no 5º dia da Oitava do Natal. A liturgia insiste porque deseja educar o olhar da fé: o Menino do presépio não é apenas promessa doce, mas sinal de contradição. A apresentação no templo inaugura publicamente uma vida que será marcada por confronto, discernimento e entrega. O lugar escolhido não é neutro. O templo simboliza o coração religioso de Israel, mas também concentra poder, economia e controle simbólico. Ao levar Jesus a esse espaço, Lucas antecipa a tensão que atravessará todo o Evangelho: o Filho apresentado como oferta será o mesmo que denunciará o templo quando este se converter em mercado. A apresentação já contém, em germe, a purificação.
Maria e José cumprem tudo “conforme a Lei do Senhor” (Lc 2,23.39). O Messias não nasce à margem da tradição, mas dentro dela. A Lei não é negada, mas atravessada. Aqui ecoa a afirmação paulina de que Deus enviou seu Filho “nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl 4,4). O símbolo da Lei cumprida revela que a fé bíblica não é ruptura irresponsável, mas transformação a partir de dentro. Ao mesmo tempo, a presença do Menino denuncia qualquer absolutização legalista que transforme a Lei em instrumento de exclusão, controle ou opressão.
O rito do primogênito apresentado, segundo Êxodo 13, carrega o símbolo da libertação. Todo primogênito pertence a Deus como memória viva do êxodo. Ao apresentar Jesus, Maria e José proclamam silenciosamente que este Menino é libertação encarnada. Mas a libertação que Ele traz não se dá pela força, nem pelo domínio, nem pela imposição religiosa. O primogênito apresentado será, mais tarde, o Filho entregue. Aqui se desfaz toda teologia do domínio que instrumentaliza Deus para legitimar projetos de poder.
O sacrifício oferecido — duas rolas ou dois pombinhos — revela a condição social da família e se torna símbolo teológico decisivo. É a oferta permitida aos pobres. O Salvador entra no templo não cercado de glória, mas pela via da precariedade. A salvação não se manifesta no excesso, mas na fidelidade humilde. Como recorda João Crisóstomo, Cristo não se cerca de esplendor para que ninguém confunda Deus com interesse. Este gesto desmonta, desde a origem, qualquer teologia da prosperidade que associe bênção a acúmulo, sucesso ou privilégio religioso.
Simeão encarna a espera amadurecida. Ele representa Israel fiel que não desistiu da promessa, mesmo quando a história parecia negá-la. “Esperava a consolação de Israel” — expressão profundamente enraizada nos cânticos do Segundo Isaías. A consolação, porém, não chega como restauração política imediata, mas como presença frágil de Deus nos braços de um idoso. Ao tomar o Menino, Simeão proclama que a salvação não é ideia abstrata, mas relação concreta. Seu cântico confessa que essa salvação é preparada “diante de todos os povos”, como luz que ilumina e revela. A luz não pertence a grupos, não legitima exclusões, não se deixa capturar por ideologias religiosas. Ela julga, desvela e liberta.
O símbolo da luz atravessa toda a Escritura: da criação à nova criação em Cristo. Luz é revelação, mas também confronto. Psicologicamente, integra e desvela as sombras; sociologicamente, denuncia estruturas injustas; teologicamente, desmascara espiritualidades que preferem a penumbra confortável da alienação. Por isso, Jesus será rejeitado: a luz incomoda quem se beneficia da escuridão.
Ana completa o quadro simbólico. Mulher, idosa, viúva, sem função institucional, ela representa a profecia que resiste à margem. Sua presença desmonta o clericalismo que monopoliza a voz de Deus e reduz a profecia à hierarquia. O Espírito fala onde quer. Ana é imagem de uma Igreja que persevera sem holofotes, que jejua não para barganhar, mas para manter o coração livre, e que anuncia porque não pode silenciar.
A palavra dirigida a Maria — a espada que atravessa a alma — revela que a luz não elimina a dor, mas a atravessa. Trata-se de uma espada de discernimento, que separa ilusões, purifica expectativas e impede uma fé infantilizada. Maria torna-se figura da Igreja que caminha na história sem negar o conflito, sem fugir da cruz, sem negociar a verdade.
Os paralelos bíblicos confirmam essa dinâmica: Mateus sublinha o cumprimento das promessas; João aprofunda o simbolismo da luz; Hebreus recorda que Cristo se fez semelhante aos irmãos em tudo. Não há redenção sem encarnação radical, sem assumir a condição humana concreta.
O Magistério da Igreja retoma essa intuição ao afirmar que o mistério do ser humano só se compreende à luz do Verbo encarnado (Gaudium et Spes, 22) e ao denunciar uma Igreja autorreferencial, mais preocupada com poder do que com o Evangelho (Evangelii Gaudium). Fratelli Tutti amplia o horizonte, lembrando que não existe luz espiritual autêntica sem compromisso com a fraternidade real e a dignidade dos últimos.
Celebrar a Apresentação do Senhor, Festa da Luz, é permitir que essa claridade atravesse nossas falsas seguranças religiosas, nossas teologias de mercado, nossas espiritualidades desencarnadas. É reconhecer que não somos donos da luz, mas seus servidores.Como Simeão, só encontramos paz quando reconhecemos a salvação fora dos privilégios. Como Maria, somos chamados a oferecer Cristo sem domesticá-lo. Como Ana, somos convidados a perseverar quando a profecia incomoda.
Que a luz que entrou no templo continue entrando em nossas casas, comunidades e estruturas. Não para nos confirmar, mas para nos converter. Não para nos tranquilizar, mas para nos comprometer. Porque a verdadeira luz não adormece consciências: ela as desperta.
Antes de mais nada, precisanos saber que a liturgia proclamada no 4º Domingo do Tempo Comum é conjunto de leituras que não foram escolhidas ao acaso, mas cuidadosamente articuladas para nos oferecer uma chave hermenêutica da fé cristã no chão da história.
Sofonias 2,3; 3,12-13 anuncia a sobrevivência de um resto pobre e humilde que buscará refúgio no nome do Senhor;
Salmo 145(146),7.8-9a.9bc-10 proclama um Deus que faz justiça aos oprimidos, liberta os prisioneiros, dá pão aos famintos e sustém o estrangeiro, o órfão e a viúva;
1Coríntios 1,26-31 desmonta radicalmente qualquer teologia da eleição baseada no mérito, no prestígio ou no poder;
Mateus 5,1-12a que iremos aprofundar hoje
O texto das Bem-aventuranças é o critério último pelo qual a história será julgada e além desse domingo, o texto é proclamado integralmente na Solenidade de Todos os Santos como colocamos acima e reaparece na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum que proclamado tanto na Igreja Oriental e Anglicana no 4⁰ Domingo após a Epifania e na liturgia de todos os santos sinalizando que as Bem-aventuranças não pertencem a um momento extraordinário da fé, mas constituem sua gramática permanente.
As Bem-aventuranças não são conselhos de aperfeiçoamento moral nem slogans espirituais destinados ao conforto interior. Elas são Palavra performativa, Palavra que cria realidade, à maneira do discurso criador de Deus em Gênesis e da palavra profética anunciada por Isaías, que não retorna vazia sem realizar sua missão (Is 55,10-11). Assim como em Nazaré Jesus proclama o programa do Reino a partir de Isaías 61 (Lc 4,18-19), no Sermão da Montanha Ele revela não apenas o conteúdo do Reino, mas sua lógica interna, profundamente contracultural e historicamente subversiva. Não se trata de descrever o mundo como ele é, mas de expor o mundo à luz do desejo de Deus, desmascarando estruturas, mentalidades e espiritualidades incompatíveis com o Evangelho.
Mateus constrói a cena com precisão simbólica. Jesus sobe à montanha, senta-se e ensina. A montanha, no horizonte bíblico, é lugar de revelação, aliança e decisão: Sinai, Horeb, Sião. É nela que a Lei é dada, os profetas discernem e o povo é convocado à fidelidade. Ao subir a montanha, Jesus se insere conscientemente nessa tradição, mas a ultrapassa de modo decisivo. Ele não transmite uma lei recebida; Ele é a própria Palavra. O gesto de sentar-se indica autoridade magisterial reconhecida, enquanto a aproximação dos discípulos revela que esse ensinamento forma uma comunidade antes de formar consciências individuais. A multidão está presente, mas o discurso nasce no interior de uma relação discipular, antecipando uma Igreja que não se organiza em torno do poder, mas da escuta e da conversão.
A primeira bem-aventurança estabelece a chave hermenêutica de todo o discurso: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. O termo grego ptōchoí não designa uma pobreza genérica ou metafórica, mas os pobres reais, os despossuídos, aqueles cuja existência é marcada pela dependência. A expressão “em espírito”, própria da redação mateana, não espiritualiza a pobreza nem a transforma em ideal ascético desvinculado da realidade; ela aponta para uma atitude existencial profundamente enraizada em condições concretas de vida. Trata-se da pobreza que gera abertura radical a Deus porque foi privada de outras seguranças. O pano de fundo veterotestamentário é o dos anawim e do ebyôn, os pobres da terra que fazem do Senhor seu único refúgio (Sl 34,7; Sl 37,14). Sofonias retoma essa tradição ao anunciar que Deus preservará um resto humilde e pobre, rompendo com a teologia da retribuição que associava prosperidade à bênção e miséria à maldição.
O diálogo com Lucas 6,20-26 amplia essa leitura. Lucas proclama bem-aventurados os pobres sem qualificações e contrapõe-lhes os “ais” dirigidos aos ricos. Não se trata de versões concorrentes, mas de perspectivas complementares. Lucas enfatiza a materialidade da pobreza e da exclusão; Mateus ilumina sua dimensão interior, comunitária e espiritual. Ambos convergem na denúncia de uma sociedade estruturada pela acumulação e na crítica a qualquer espiritualidade que tente conciliar Evangelho e idolatria do mercado. A fé que promete prosperidade como sinal de eleição divina revela-se incompatível com a lógica das Bem-aventuranças.
Jesus não apenas proclama as Bem-aventuranças; Ele as encarna. Ele nasce fora de casa, vive como peregrino, recusa a violência como método, chora diante da morte e da injustiça, enfrenta estruturas opressoras e é executado fora dos muros da cidade. Sua vida inteira é uma exegese viva do discurso da montanha. Como afirma Paulo, “sendo rico, fez-se pobre por nós” (2Cor 8,9), e ao esvaziar-se, revela que a glória de Deus não se manifesta no acúmulo, mas na doação (Fl 2,6-11). As Bem-aventuranças são, assim, menos um ideal a ser alcançado e mais uma identidade a ser assumida.
A bem-aventurança dos que choram introduz uma espiritualidade da lucidez. Na Escritura, o choro não é sinal de fraqueza, mas de sensibilidade ética. Jeremias chora pelo povo, os salmos transformam lágrimas em linguagem teológica, e o próprio Jesus chora diante da morte de Lázaro e sobre Jerusalém. Do ponto de vista psicológico, trata-se da recusa da anestesia emocional; sociologicamente, da recusa da indiferença organizada; teologicamente, da participação na compaixão divina. Em uma cultura que banaliza a dor alheia ou a transforma em espetáculo, o choro torna-se gesto profético e critério de humanidade.
A mansidão, frequentemente confundida com passividade, revela-se como força interior e resistência não violenta. Moisés é chamado de manso (Nm 12,3), e Jesus se apresenta como manso e humilde de coração (Mt 11,29). A mansidão exige maturidade emocional, autocontrole e coragem ética. Ela confronta diretamente as teologias do domínio, o armamentismo e toda sacralização religiosa da violência. “Os mansos herdarão a terra” não é promessa de submissão, mas anúncio de que a história não pertence aos que a dominam pela força, mas aos que a constroem pela fidelidade.
Quando Jesus proclama felizes os que têm fome e sede de justiça, Ele retoma o núcleo da tradição profética. Justiça bíblica não se reduz à legalidade nem à vingança, mas diz respeito à restauração das relações rompidas. Amós denuncia um culto separado da justiça social, Isaías desmonta jejuns intimistas que não se traduzem em partilha, e Miqueias sintetiza a vontade de Deus na prática da justiça, da misericórdia e da humildade. Paulo, escrevendo aos Coríntios, revela que Deus escolhe o que é fraco e desprezado para confundir os fortes, desmascarando toda pretensão de autossuficiência religiosa.
As bem-aventuranças seguintes explicitam as consequências sociais dessa opção fundamental. Misericórdia confronta uma religião punitiva e legalista; pureza de coração denuncia a duplicidade moral que separa fé e vida; a promoção da paz retoma o horizonte bíblico do shalom, entendido como plenitude de vida, justiça e relações reconciliadas. Qualquer discurso religioso que legitime violência, exclusão ou ódio contradiz frontalmente o Evangelho. A segurança absoluta não nasce das armas nem do controle, mas da fidelidade ao Deus da vida (Sl 127,1).
O contexto histórico da comunidade mateana ilumina ainda mais a radicalidade desse discurso. Trata-se de uma comunidade atravessada por conflitos internos e externos, situada entre o judaísmo rabínico emergente e o mundo greco-romano. As Bem-aventuranças oferecem identidade e esperança, não como fuga da realidade, mas como critério de fidelidade em meio à perseguição e à marginalização. O Reino pertence aos que permanecem na justiça, não aos que instrumentalizam a fé para manter privilégios ou legitimar estruturas excludentes.
A escolha de Mateus por apresentar as Bem-aventuranças como discurso inaugural não é acidental. Antes de qualquer milagre espetacular ou controvérsia pública, Jesus oferece um horizonte de sentido. Ele redefine o que significa viver bem, ser bem-sucedido, ser feliz. Em um mundo organizado pela honra, pela pureza ritual e pela hierarquia social, essa redefinição soa como ameaça. Não por acaso, o Sermão da Montanha funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho: quem não passa por ele corre o risco de transformar Jesus em milagreiro funcional ou em símbolo ideológico.
Ao proclamar felizes os pobres, os que choram e os perseguidos, Jesus desloca o centro da história. Ele não fala a partir do palácio nem do templo, mas da periferia existencial e social. Isso explica por que as Bem-aventuranças sempre incomodaram mais quando lidas com seriedade. Elas não permitem que a fé seja reduzida a refúgio espiritual ou promessa de recompensa individual. Elas exigem revisão das estruturas que produzem sofrimento. Nesse sentido, o texto de Mateus dialoga profundamente com a tradição profética, especialmente com Amós e Isaías, que denunciam uma religião que canta hinos enquanto pisa os pobres.
A oposição entre Mateus e Lucas não deve ser lida como contradição, mas como enriquecimento. Lucas fala diretamente dos pobres, Mateus explicita a dimensão interior e comunitária da pobreza evangélica. Juntos, eles impedem duas distorções recorrentes: a espiritualização que ignora a miséria concreta e o reducionismo sociológico que esvazia a dimensão teológica. A pobreza evangélica não é virtude em si mesma, mas condição imposta a muitos e escolhida conscientemente por outros como forma de liberdade diante do poder. Em ambos os casos, ela se torna lugar teológico, espaço onde Deus se revela de maneira privilegiada.
A mansidão, tantas vezes mal compreendida, aparece aqui como categoria ética fundamental. Num mundo marcado pela brutalização das relações, pela linguagem agressiva e pela naturalização do ódio, a mansidão se apresenta como resistência ativa. Ela não elimina o conflito, mas recusa a lógica da aniquilação do outro. Herdar a terra, nesse horizonte, significa reconstruir relações com o território, com a cidade, com o espaço comum. A crise habitacional contemporânea revela o quanto nos afastamos dessa promessa bíblica. A terra deixou de ser casa para se tornar ativo financeiro. As Bem-aventuranças expõem essa perversão sem necessidade de discursos técnicos: basta proclamar o Evangelho com honestidade.
A fome e a sede de justiça atravessam toda a Escritura como clamor permanente. Não se trata de desejo abstrato, mas de urgência vital. Quem tem fome não adia. Quem tem sede não negocia. Aplicada à justiça, essa imagem revela a radicalidade do discipulado. Não há espaço para fé acomodada. O Reino anunciado por Jesus não convive pacificamente com estruturas que produzem exclusão sistemática. Por isso, a saciedade prometida não se confunde com satisfação individual, mas com plenitude relacional, com restauração da dignidade ferida.
A misericórdia aparece como eixo que atravessa todas as Bem-aventuranças. Sem ela, a justiça se torna vingança e a verdade, opressão. Misericórdia não é permissividade, mas compromisso com a vida concreta. É a recusa de reduzir pessoas a erros, estatísticas ou rótulos. Numa cultura marcada pelo descarte e pela espetacularização do sofrimento, a misericórdia devolve humanidade aos invisíveis. Ela questiona práticas religiosas que se sentem confortáveis condenando à distância. Jesus não declara felizes os que apontam pecados, mas os que se deixam afetar pela dor alheia.
A pureza de coração, nesse contexto, assume dimensão profundamente política. Ser puro é não compactuar com duplicidades, não servir a dois senhores, não justificar privilégios em nome de Deus. Ver Deus não é prêmio reservado a místicos afastados do mundo, mas experiência possível a quem vive com integridade. A idolatria denunciada por Jesus não se limita a imagens; ela se manifesta toda vez que o mercado, o poder ou a ideologia ocupam o lugar do absoluto. As Bem-aventuranças funcionam, assim, como exame de consciência coletivo.
A promoção da paz, por sua vez, desmonta discursos religiosos que confundem paz com silêncio imposto. A paz bíblica nasce da justiça e exige coragem para enfrentar conflitos. Os verdadeiros pacificadores não são neutros; eles tomam partido da vida. Por isso, frequentemente são atacados, ridicularizados ou perseguidos. A perseguição, longe de ser sinal de fracasso, torna-se critério de autenticidade. Um cristianismo que nunca incomoda o sistema dominante precisa se perguntar a quem está servindo.
Quando Mateus acrescenta a bem-aventurança da perseguição e do insulto por causa da justiça, ele prepara sua comunidade para uma fé adulta. Não promete proteção mágica, mas fidelidade sustentada pela esperança. O Reino dos Céus pertence aos que permanecem, não aos que vencem segundo os critérios do mundo. Essa afirmação tem peso escatológico, mas também histórico: ela legitima a resistência das comunidades feridas, perseguidas, marginalizadas.
No horizonte quaresmal, esse discurso ganha ainda mais densidade. A Quaresma não é tempo de autopunição religiosa, mas de desinstalação. As Bem-aventuranças funcionam como critério de conversão pessoal e social. Elas desmascaram práticas penitenciais que não tocam a realidade. Isaías já havia denunciado jejuns vazios, divorciados da justiça. Jesus retoma essa crítica ao colocar no centro os pobres, os mansos, os famintos de justiça. Converter-se é mudar de lógica, não apenas de comportamento externo.
A questão da moradia emerge aqui não como tema lateral, mas como consequência inevitável do Evangelho vivido. Sem casa, não há intimidade, descanso, proteção. Negar moradia é negar humanidade. Uma Igreja que proclama as Bem-aventuranças precisa perguntar-se constantemente de que lado está quando políticas, economias e interesses expulsam famílias de seus lugares de vida. A fé cristã não pode ser cúmplice de estruturas que produzem sem-teto enquanto acumulam templos vazios de compromisso.
Essa tensão atravessa toda a tradição cristã. A patrística já percebia que não há verdadeira espiritualidade sem partilha concreta. A liturgia, quando separada da vida, se torna performance. As Bem-aventuranças impedem essa separação. Elas devolvem à fé seu caráter encarnado, histórico, exigente. Não permitem atalhos.
O Sermão da Montanha, portanto, não é introdução piedosa, mas fundamento radical. Ele molda a ética do Reino e prepara o leitor para compreender os conflitos que virão. Quem acolhe as Bem-aventuranças já escolheu um caminho. Não é o caminho da segurança, mas da fidelidade. Não é o caminho do aplauso, mas da coerência. E é justamente por isso que ele continua atual, provocador e perigoso.
O horizonte escatológico das Bem-aventuranças não desloca o compromisso histórico, mas o radicaliza. A promessa do Reino dos Céus, repetida no início e no fim do conjunto, funciona como moldura interpretativa: tudo o que é dito entre essas duas afirmações acontece já sob o senhorio de Deus, ainda que de forma não consumada. Essa tensão entre o já e o ainda-não impede tanto o desespero quanto o triunfalismo. O Reino não é recompensa futura para os resignados, nem legitimação presente para os vencedores; ele é força em gestação, fermento que age silenciosamente nas entranhas da história.
Nesse sentido, a proclamação litúrgica de Mateus 5,1–12a em contextos específicos da Igreja reforça seu caráter normativo. Além do 4º Domingo do Tempo Comum do Ano A, o texto é retomado na Solenidade de Todos os Santos, quando a Igreja confessa que a santidade não se confunde com perfeccionismo moral nem com heroísmo isolado, mas com fidelidade cotidiana à lógica do Reino. E na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum, o mesmo evangelho retorna como memória insistente, lembrando que não há tempo neutro para o discipulado. A repetição litúrgica não banaliza o texto; ao contrário, desgasta as máscaras que tentam domesticá-lo.
A escuta prolongada das Bem-aventuranças revela que elas não descrevem perfis psicológicos isolados, mas um modo alternativo de organizar a vida pessoal e social. A psicologia contemporânea reconhece que a busca obsessiva por sucesso, reconhecimento e acumulação gera adoecimento, ansiedade crônica e empobrecimento relacional. A felicidade prometida pelo Evangelho não se apoia na negação do sofrimento, mas na possibilidade de atravessá-lo com sentido, vínculo e esperança. O choro, a fome de justiça e a perseguição deixam de ser patologias a serem eliminadas e se tornam sinais de lucidez ética em um mundo adoecido.
As Bem-aventuranças produzem uma crítica estrutural às formas de organização social baseadas na exclusão. Pobres, mansos e misericordiosos não são categorias neutras; eles ocupam posições específicas em sistemas econômicos e políticos. Ao proclamá-los felizes, Jesus questiona o consenso que legitima desigualdades como naturais ou inevitáveis. A fé, nesse horizonte, deixa de ser instrumento de acomodação e se torna força de transformação. Toda tentativa de neutralizar esse potencial crítico resulta em versões domesticadas do cristianismo, frequentemente alinhadas a interesses de poder.
O discurso de Jesus rompe com éticas utilitaristas e meritocráticas. A dignidade humana não decorre do desempenho, da produtividade ou da eficiência. Ela é afirmada a partir da vulnerabilidade compartilhada. As Bem-aventuranças desmontam a lógica da troca e introduzem a lógica do dom. Nesse sentido, elas dialogam com tradições filosóficas que reconhecem o valor da fragilidade como lugar de humanização, antecipando debates contemporâneos sobre cuidado, interdependência e bem comum.
A teologia, por sua vez, reconhece nas Bem-aventuranças uma revelação do próprio rosto de Deus. Não se trata apenas de exigências morais, mas de cristologia implícita. Jesus proclama felizes aqueles que vivem como Ele viveu. O Reino anunciado não é abstração, mas extensão da vida do Filho. Por isso, qualquer teologia que prometa prosperidade automática, domínio político ou blindagem espiritual se afasta do núcleo do Evangelho. Transformar a fé em técnica de sucesso é negar a cruz antes mesmo de chegar a ela. O discurso da prosperidade e do domínio substitui a bem-aventurança pela vantagem, a graça pelo mérito e o Reino pelo mercado religioso. Quando o ministério se transforma em privilégio e a autoridade em controle, as Bem-aventuranças são esvaziadas de sua força crítica. Jesus fala sentado na montanha, não entronizado acima do povo. A autoridade que emerge desse gesto é relacional, não hierárquica. O Vaticano II resgata essa intuição ao afirmar a vocação universal à santidade e ao insistir que a Igreja deve ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho. A Gaudium et Spes recorda que não há verdadeira fidelidade a Deus sem compromisso com a dignidade humana concreto
Os Padres da Igreja não viam nas Bem-aventuranças um ideal etéreo, mas critério de julgamento da vida cristã. A santidade, para eles, passava pela partilha, pela hospitalidade e pela defesa dos vulneráveis. Essa tradição, muitas vezes silenciada, reaparece com força no magistério contemporâneo, especialmente quando se afirma que a economia deve estar a serviço da vida e não o contrário.
e pelo tempo quaresmal, se impõe como verificação concreta dessa fidelidade. A Bíblia inteira pode ser lida como a história de um Deus que busca habitar com a humanidade. Desde o jardim perdido até a cidade escatológica do Apocalipse, a moradia aparece como símbolo de reconciliação. Negar casa é negar pertença. Defender o direito à moradia é participar do movimento divino que arma sua tenda entre os pobres. Não se trata de ideologia, mas de coerência evangélica, aqui precisamos recorda os três T de Francisco
A Quaresma, iniciada nas cinzas que lembram nossa fragilidade comum, encontra nas Bem-aventuranças seu eixo interpretativo mais exigente. Converter-se é abandonar a ilusão de autossuficiência e reaprender a depender de Deus e dos outros. Jejum, oração e partilha só fazem sentido quando reconstroem vínculos e restauram a dignidade ferida. Fora disso, tornam-se ritos vazios, denunciados tanto pelos profetas quanto por Jesus.
Ao final, Mateus 5,1–12a permanece como texto inegociável. Ele não permite cristianismos seletivos, nem espiritualidades de conveniência. Ele expõe as escolhas fundamentais que organizam a vida pessoal, eclesial e social. Em um país marcado por desigualdades profundas, violência simbólica e instrumentalização da fé, as Bem-aventuranças continuam a ecoar como palavra perigosa, libertadora e exigente.
Entre a montanha da Galileia e as periferias do Brasil, Cristo continua a ensinar. Não oferece atalhos, mas caminho. Não promete segurança, mas Reino. Não seduz com poder, mas convoca à fidelidade. Quem escuta esse discurso e o leva a sério já começou a viver, no meio da história ferida, a bem-aventurança que ninguém pode roubar.