A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum, Ano A e a..seguinte: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9 (R. 6a); Filipenses 2,1-11 e Mateus 21,28-32 também proclamado na terça-feira da 3ª semana do Tempo do advnto e coloca diante de nós uma pergunta que atravessa as quatro leituras: Onde se manifesta verdadeiramente a vontade de Deus?
Ezequiel 18,25-28 enfrenta a acusação de que o caminho do Senhor seria injusto e responde afirmando a responsabilidade humana. O justo que abandona a justiça e o pecador que abandona o mal não permanecem definidos para sempre pelo passado. Deus considera o caminho assumido e a possibilidade real de conversão. Os profetas nunca permitiram que o culto fosse utilizado como substituto da justiça. Jesus permanece dentro dessa tradição e a leva ao seu ponto máximo. Deus não se deixa impressionar pela aparência religiosa quando a vida contradiz aquilo que os lábios proclamam.
Salmo 24(25) transforma essa certeza em súplica: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão”. O salmista reconhece que precisa aprender novamente as veredas do Senhor. O Salmista oferece a atitude espiritual necessária para essa conversão: “Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos”. Essa oração pressupõe humildade. Quem pede para aprender reconhece que ainda não sabe tudo. A pessoa religiosa corre sempre o risco de confundir conhecimento sobre Deus com conhecimento da vontade de Deus. Pode dominar textos, doutrinas, fórmulas e tradições e, ainda assim, permanecer incapaz de reconhecer o caminho quando Deus o apresenta diante dela. O salmista pede que Deus o ensine porque sabe que a fidelidade é um caminho, não uma posse.
Filipenses 2,1-11 revela o rosto concreto dessa vontade divina em Cristo, que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e obedece até a cruz. Paulo aprofunda essa questão mostrando qual é a forma desse caminho. Cristo não utiliza sua condição para dominar. Ele se esvazia, assume a condição de servo e obedece até a morte. A verdadeira autoridade cristã passa pelo serviço. Isso ilumina diretamente a questão do clericalismo. O problema não está na existência de ministérios ou responsabilidades dentro da Igreja, mas quando o serviço se transforma em privilégio, controle e superioridade. Jesus estabelece outro princípio em Marcos 10,42-45: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor. Em João 13,1-15, o Mestre lava os pés.
Mateus 21,28-32 reúne essas perspectivas na parábola dos dois filhos. Um diz não, mas depois vai; o outro diz sim, mas não vai. A questão decisiva não é aquilo que se declara, mas aquilo que a vida realiza. O autor do primeiro evangelho situa a parábola num momento particularmente tenso do ministério de Jesus. Ele já entrou em Jerusalém, foi aclamado pelas multidões, confrontou a estrutura do Templo e agora enfrenta diretamente os sumos sacerdotes e os anciãos. Em Mateus 21,23, eles perguntam: “Com que autoridade fazes estas coisas?”. A pergunta não é meramente teológica. Trata-se de uma disputa sobre autoridade, legitimidade e controle do espaço religioso. Jesus responde remetendo-os a João Batista. Se reconhecessem que o batismo de João vinha de Deus, teriam de reconhecer sua própria resistência à conversão. Se o negassem, entrariam em conflito com o povo. Diante do “não sabemos”, Jesus conta a parábola. O contexto revela seu caráter profético. Ele não está oferecendo uma lição abstrata sobre boas maneiras, mas confrontando uma religião que pode conhecer a linguagem da vontade de Deus sem praticá-la.
A vinha, nesse cenário, possui enorme densidade simbólica. Israel conhecia a imagem da vinha como representação do povo de Deus. Isaías 5 apresenta a vinha cuidadosamente plantada pelo Senhor que, em vez de frutos bons, produz injustiça. O Salmo 79(80) compara Israel à videira que Deus tirou do Egito e plantou. Jeremias 2,21 utiliza a mesma imagem para denunciar a infidelidade do povo. Quando Jesus fala em trabalhar na vinha, portanto, seus ouvintes percebem imediatamente a referência à aliança. A vinha não é um espaço de contemplação passiva. É o lugar onde a fidelidade precisa produzir frutos. Trabalhar nela significa assumir responsabilidade pela obra de Deus no mundo. É nesse ponto que a parábola atinge sua força.
O primeiro filho recebe o chamado e responde: “Não quero”. Sua resposta é áspera, mas honesta. Depois, porém, arrepende-se e vai.
O segundo responde de maneira respeitosa: “Sim, senhor”, mas não cumpre o que prometeu.
O verbo utilizado para a mudança do primeiro filho indica uma reconsideração, uma mudança interior que produz uma ação diferente. A Bíblia conhece profundamente essa experiência.
Moisés resiste ao chamado em Êxodo 3 e 4.
Jeremias sente-se incapaz em Jeremias 1,6
Jonas foge em Jonas 1,3
Pedro nega Jesus e depois é restaurado em João 21,15-19.
A Escritura não considera a resistência boa, mas também não transforma o erro inicial em destino definitivo. A graça permite recomeçar. Essa é uma das grandes esperanças do texto. O primeiro filho não é apresentado como modelo porque disse não, mas porque não ficou prisioneiro do próprio não. Ele mudou de caminho. Ezequiel 18 oferece a mesma perspectiva: Deus não reduz uma pessoa ao seu passado. O pecador que abandona sua injustiça encontra novamente o caminho da vida. A conversão bíblica não consiste apenas em sentir culpa. É mudança de direção. É permitir que a verdade alcance as escolhas concretas.
O segundo filho representa um perigo diferente. Seu problema não é a palavra errada, mas a palavra correta sem consequência. Ele sabe responder como se espera que um bom filho responda. Seu “sim” preserva a aparência de fidelidade, mas não modifica sua vida. É exatamente essa tensão que Jesus denuncia em outros momentos. Em Mateus 7,21, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”. Em Mateus 15,8, retomando Isaías 29,13, denuncia aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. Lucas 6,46 formula a mesma pergunta: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”. Tiago 2,17 afirmará que uma fé sem obras está morta. Não se trata de opor fé e obras, como se a salvação pudesse ser comprada pelo desempenho humano. Trata-se de compreender que a fé verdadeira produz uma existência transformada. A ação não compra a graça; manifesta sua fecundidade. O problema do segundo filho é uma religião que permanece no discurso. Ele diz sim, mas não entra na vinha.
Jesus então produz o escândalo maior: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A frase não transforma o pecado em virtude. Publicanos e prostitutas não são apresentados como moralmente superiores. O que Jesus destaca é que eles acolheram a pregação de João e mudaram de caminho, enquanto aqueles que se consideravam guardiões da religião permaneceram fechados à conversão. A crítica de Jesus é dirigida à falsa segurança religiosa. Aqui a parábola se aproxima fortemente da tradição profética.
Isaías 1,11-17 rejeita um culto abundante quando a injustiça permanece
Amós 5,21-24 denuncia festas religiosas acompanhadas da opressão dos pobres
Miqueias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente.
Por isso, Mateus 21 também é uma palavra para a própria Igreja. Não basta falar de Cristo; é necessário assumir sua forma de vida. Uma comunidade pode possuir liturgias belas, doutrina elaborada, estruturas eficientes e grande capacidade de comunicação e ainda permanecer distante da vinha. A pergunta é sempre a mesma: onde estão os frutos? A autoridade cristã precisa ser reconhecida pelo serviço, pela capacidade de escutar, pela defesa dos vulneráveis e pela disposição de corrigir seus próprios erros..A vinha é também o mundo concreto, não podemos reduzir sua imagem a uma experiência espiritual privada. É na vinha da história que estão os pobres, os trabalhadores explorados, as famílias atingidas pela violência, os idosos abandonados, os migrantes, os que vivem sem moradia, os enfermos, os presos, os que sofrem discriminação e aqueles cuja existência perdeu sentido. Mateus 25,31-46 apresentará precisamente esse critério: a relação com os famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos torna-se critério do encontro com Cristo.
A fé cristã não pode permanecer indiferente diante da desigualdade, também não pode transformar a pobreza em sinal automático de fracasso espiritual. A Escritura jamais autoriza uma associação simplista entre sofrimento e culpa. O livro de Jó já desmonta essa interpretação, e Jesus a rejeita em João 9,1-3. Da mesma forma, o Evangelho não apresenta riqueza como prova automática da bênção divina. Jesus afirma em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em Lucas 12,15 adverte contra a ganância. Quando a religião promete prosperidade como consequência mecânica da fé, corre o risco de transformar Deus em instrumento de sucesso individual e de culpar o pobre por sua própria condição.
A crítica à religião vazia precisa alcançar também o individualismo. O Pai chama os filhos para uma vinha comum. Não existe aqui uma espiritualidade construída apenas para benefício pessoal. Filipenses 2 pede que os discípulos não ajam por competição ou vanglória, mas considerem também o bem do outro. A lógica de Cristo contradiz uma sociedade na qual cada pessoa é estimulada a competir por reconhecimento, dinheiro, influência e visibilidade. O Evangelho propõe outra grandeza: aquela que se expressa no serviço. Essa palavra possui também uma dimensão pública. A fé cristã não determina automaticamente escolhas partidárias, mas possui consequências éticas. Quem reconhece Deus como Pai não pode permanecer indiferente à dignidade dos seres humanos. Quem confessa Cristo como Senhor precisa confrontar qualquer forma de poder que transforme pessoas em objetos descartáveis. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes, comerciantes e sistemas que enriqueciam à custa dos vulneráveis. Jesus continua essa tradição quando coloca os pequenos no centro do Reino.
Mas seria fácil usar essa crítica contra os outros. A parábola não permite essa fuga. Jesus pergunta: “Que vos parece?”. A pergunta devolve o espelho ao ouvinte. Podemos denunciar a hipocrisia religiosa e permanecer hipócritas em nossas relações. Podemos falar de justiça e praticar pequenas injustiças quando nos convêm. Podemos defender a misericórdia e conservar ressentimentos. Podemos condenar o poder alheio e desejar poder para nós mesmos. Podemos dizer que acreditamos no Evangelho e escolher diariamente aquilo que contradiz sua lógica. Por isso o primeiro filho permanece como sinal de esperança. Ele nos recorda que mudar é possível. A graça não elimina a liberdade humana, mas a desperta. Ezequiel 18 afirma que o caminho pode ser refeito. O Salmo pede que Deus ensine novamente suas veredas. O Evangelho mostra alguém que inicialmente recusou, mas depois entrou na vinha. A conversão cristã não é perfeição instantânea. É disponibilidade para mudar quando a verdade nos alcança.
Mateus também estabelece uma ligação profunda com João Batista. Jesus afirma que os publicanos e as prostitutas acreditaram em João. O profeta havia anunciado em Mateus 3,8: “Produzi frutos que mostrem conversão”. A palavra frutos é fundamental. A conversão precisa tornar-se visível. Não porque Deus necessite de provas para amar, mas porque uma transformação verdadeira alcança a existência concreta. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, é um exemplo claro. Seu encontro com Jesus produz mudança na relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. O arrependimento se torna reparação. A sequência das parábolas da vinha em Mateus 20 e 21 aprofunda essa perspectiva. Em Mateus 20, os trabalhadores são chamados em diferentes horários e recebem a generosidade do proprietário. Em Mateus 21,28-32, a questão passa a ser a resposta ao chamado. Em 21,33-46, a vinha torna-se cenário de conflito entre os responsáveis e o proprietário. Mateus constrói uma progressão teológica: a graça chama, a pessoa responde e a responsabilidade pode ser acolhida ou rejeitada. A vinha pertence ao Pai. Ninguém recebe autorização para apropriá-la como propriedade particular.
Essa perspectiva é especialmente importante para uma Igreja que vive em sociedades marcadas por disputas de poder. Nenhuma instituição religiosa possui Deus. Nenhum grupo possui o monopólio da verdade. Nenhuma liderança está acima da necessidade de conversão. A tradição cristã não existe para blindar seus representantes contra a Palavra, mas para submetê-los continuamente à Palavra. A comunidade precisa preservar sua memória, mas também permitir que o Evangelho julgue suas práticas. A parábola também impede a criação de uma nova elite moral. Depois de ouvir Jesus, ninguém pode concluir que agora os marginalizados são automaticamente bons e os religiosos automaticamente maus. O texto não cria uma inversão permanente de privilégios. Ele desmonta a lógica do privilégio. Publicanos e prostitutas entram antes porque acolheram a conversão; os líderes permanecem fora porque recusaram o chamado. A questão continua sendo a resposta à Palavra. O mesmo Evangelho que denuncia os religiosos também chama os marginalizados à transformação. A misericórdia não elimina a verdade, e a verdade não elimina a misericórdia.
Podemos resumir a liturgia de de hoje assim: Ezequiel anuncia a possibilidade de mudança, no Salmo pede que Deus ensine o caminho, em Filipenses mostra esse caminho configurado em Cristo servo e Mateus pergunta quem realmente o percorre. As leituras não são peças isoladas. Formam uma pedagogia espiritual. Deus chama, a pessoa precisa responder, a resposta deve tornar-se prática e a prática precisa assumir a forma do serviço. A palavra final, portanto, não é condenação, mas convocação. O Pai continua dizendo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Hoje. Não amanhã. Não quando estivermos plenamente preparados. Não quando a sociedade estiver perfeita. Não quando a Igreja estiver livre de todas as suas contradições. A missão acontece agora. O Reino precisa de mãos disponíveis no meio de uma história marcada por sofrimento e esperança.
Alguma vezes já dizemos não e o Evangelho nos anuncia que ainda podemos voltar e talvez outros tenham dito sim muitas vezes. O Evangelho lhes pergunta se seus pés acompanharam seus lábios. Ainda existem comunidades cansadas, instituições feridas e pessoas decepcionadas e a Palavra não permite o cinismo. A vinha continua aberta. O desafio de hoje é deixar que o “sim” se torne existência, que a oração produza misericórdia, que a liturgia produza compromisso, que a doutrina produza responsabilidade, que a fé produza justiça e que a esperança produza coragem. Jesus de Nazaré continua diante de nós perguntando: “Que vos parece?”.
A resposta mais verdadeira não será encontrada em nossas declarações religiosas, mas no lugar onde colocamos nossos pés. A vinha está diante de nós e ali está o pobre que precisa de dignidade, o ferido que precisa de cuidado, o injustiçado que precisa de justiça, o pecador que precisa de uma possibilidade de recomeçar e também a própria Igreja, que precisa continuamente converter-se ao Evangelho que anuncia. Dizer sim é importante, mas entrar na vinha é indispensável. O Reino de Deus não se constrói com palavras vazias, ele cresce quando homens e mulheres permitem que a Palavra se transforme em vida. Por isso, se ontem dissemos não, ainda podemos mudar. Se hoje dizemos sim, precisamos caminhar e se percebemos que permanecemos parados, a graça ainda nos chama. O Pai não desistiu da vinha. A última palavra continua sendo um chamado à conversão, à justiça, à misericórdia e ao serviço. O Evangelho não nos pergunta simplesmente o que pensamos sobre Deus. Pergunta o que fazemos depois de ouvi-lo. E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira fé.
O Evangelho de Lucas 4, 38-44 da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum nos conduz a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.
O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.
Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.
A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.
A reflexão do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.
Vale recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).
O texto é uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.
Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.
Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).
É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).
A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).
Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.
O Evangelho de Mateus 25,1-13, conhecido como a parábola das dez virgens, ocupa um lugar expressivo na liturgia cristã. No rito romano da Igreja Católica, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 21ª semana do Tempo Comum e também no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Na tradição bizantina, encontra lugar de destaque na Grande e Santa Terça-feira, especialmente nos chamados Ofícios do Esposo, nos quais a Igreja contempla Cristo como o Esposo que vem e chama seu povo à vigilância. As demais Igrejas históricas possuem calendários próprios, mas diversas tradições cristãs preservam, de diferentes maneiras, a mesma temática da espera vigilante diante da vinda do Senhor. A parábola das dez virgens é própria de Mateus, não possuindo uma narrativa paralela direta em Marcos ou Lucas, mas pertence a uma tradição sinótica mais ampla sobre a vigilância. Marcos 13,33-37 proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum que ordena vigiar porque ninguém sabe quando o senhor da casa chegará e Lucas 12,35-40, proclamado no Dia dos Fiéis Defuntos que fala de servos com as lâmpadas acesas esperando o retorno do seu senhor; Lucas 12,32-48 proclamado no 19º Domingo do Tempo Comum; Lucas 12, 35-38 proclamado na terças-feira e Lucas 12,39‑48 proclamado na quarta-feira da 29ª semana do Tempo Comum desenvolve a responsabilidade do servo fiel; Mateus 24,42-51 proclamado na quinta-feira da 21ª semana do Tempo Comum apresenta igualmente a necessidade de permanecer preparado. A convergência é evidente: Jesus não entrega aos discípulos um calendário para controlar o futuro, mas uma maneira de viver o presente. A pergunta fundamental não é quando Deus virá, mas que tipo de pessoas seremos quando Ele vier. Para compreender Mateus 25,1-13, precisamos respeitar o lugar que essa parábola ocupa dentro do Evangelho:
Jesus está em Jerusalém, depois de sua entrada messiânica narrada em Mateus 21,1-11.
Sua chegada à cidade não é apenas uma entrada triunfal; é uma visita profética ao centro religioso e político de Israel.
Ele entra no Templo e denuncia sua transformação em espaço de comércio e exploração, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, conforme Mateus 21,12-13.
Ele confronta sacerdotes, anciãos, fariseus e escribas. Em Mateus 23,1-12, denuncia autoridades que ensinam, mas não praticam, colocam pesados fardos sobre os outros e procuram os primeiros lugares.
Em Mateus 23,23, acusa uma religiosidade minuciosa que paga dízimos até das ervas, mas abandona “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Em Mateus 23,27, compara determinados representantes religiosos a sepulcros caiados, belos por fora e cheios de corrupção por dentro.
Esse pré-texto é decisivo para a leitura da parábola das dez virgens, porque Jesus não está simplesmente ensinando boas maneiras espirituais para pessoas assustadas diante do fim do mundo, mas colocando diante de seus discípulos uma questão muito mais profunda, relacionada à distância que pode existir:
Entre aparência religiosa e fidelidade verdadeira
Entre aquilo que se proclama com os lábios e aquilo que efetivamente se vive na realidade.
Mateus 24–25 apresenta justamente essa tensão, pois, antes de falar da chegada do Filho do Homem, Jesus adverte: “Cuidado para que ninguém vos engane” (Mt 24,4), e essa advertência não pode ser tratada como uma introdução secundária, já que constitui uma das chaves para compreender todo o discurso escatológico. Jesus fala de guerras, perseguições, sofrimento, falsos profetas e enganos e, em Mateus 24,23-27, alerta contra aqueles que afirmam que o Cristo está aqui ou ali, como se a presença de Deus pudesse ser capturada por determinadas pessoas, lugares, grupos ou discursos. O problema escatológico, portanto, não consiste apenas em não estar preparado para Deus, mas também em confundir Deus com aquilo que não é Deus, transformar interesses humanos em vontade divina e utilizar a linguagem religiosa para produzir medo, controle e submissão; por isso, o verdadeiro discernimento cristão não nasce da propaganda apocalíptica, das previsões sensacionalistas ou da exploração religiosa do medo, mas da fidelidade ao Evangelho, porque o Cristo que vem não pode ser separado da misericórdia, da justiça, da verdade, do serviço e da entrega da própria vida. É nesse horizonte que Mateus introduz a parábola: “Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mt 25,1), e esse “então” estabelece uma ligação direta com o discurso anterior, mostrando que a parábola não aparece como uma história isolada, mas como parte do grande ensinamento de Jesus sobre a vigilância diante da vinda do Filho do Homem. A narrativa matrimonial, portanto, não é um simples enfeite literário nem uma história destinada a ensinar etiqueta religiosa, mas uma imagem social reconhecível pelos ouvintes de Jesus para falar de uma realidade muito mais profunda: a espera pelo Reino e a necessidade de uma fidelidade capaz de atravessar a demora. O casamento possuía enorme importância social no mundo judaico do século I, envolvendo famílias, parentes, alianças, honra, celebração e participação comunitária, embora seja importante não imaginar que existisse um único rito matrimonial judaico, idêntico em todas as regiões e famílias, nem transformar a parábola numa descrição litúrgica completa de um casamento; Mateus apresenta uma cena reconhecível para sua comunidade, na qual uma comitiva espera a chegada do noivo e precisa estar preparada para acompanhá-lo à celebração. Essas mulheres, por isso, não devem ser identificadas automaticamente com as modernas “damas de honra”, pois são participantes da expectativa festiva e carregam lâmpadas porque a chegada do esposo acontece durante a noite, e é justamente essa noite que permitirá a Jesus transformar uma cena cotidiana em uma poderosa imagem da existência humana diante do mistério da espera.
A escolha da figura do esposo, porém, ultrapassa o costume social e mergulha profundamente na tradição bíblica, na qual a relação entre Deus e seu povo é frequentemente expressa por meio da linguagem matrimonial:
Israel é apresentado como esposa de Deus em Isaías 54,5
Oseias 2,19-20 descreve a renovação da aliança utilizando a linguagem do compromisso matrimonial e associando essa relação à justiça, ao direito, à misericórdia e à fidelidade.
Jeremias 2,2 recorda o amor do povo nos primeiros tempos da aliança.
No Novo Testamento, essa imagem ganha uma dimensão cristológica ainda mais evidente quando João Batista identifica Jesus como o esposo e a si mesmo como o amigo do esposo, dizendo: “Quem tem a esposa é o esposo” (Jo 3,29) e Marcos 2,19-20, também retomado em Mateus 9,15, o próprio Jesus utiliza a imagem do esposo para interpretar sua presença entre os discípulos. Assim, quando Mateus coloca o esposo no centro da parábola, existe uma afirmação profundamente cristológica: o Cristo é aquele que vem ao encontro de seu povo, e o Reino é apresentado como encontro, aliança, comunhão e festa; a salvação não aparece simplesmente como uma recompensa individual concedida àqueles que conseguiram cumprir determinadas regras religiosas, mas como participação numa comunhão preparada por Deus, de modo que o horizonte escatológico se torna essencialmente relacional, porque aquilo que esperamos não é apenas alguma coisa, mas alguém que vem ao nosso encontro.
As dez virgens possuem lâmpadas, todas esperam, todas desejam encontrar o esposo e todas fazem parte exteriormente da mesma comitiva, de modo que, aos olhos de quem observa apenas a aparência, não existe inicialmente uma diferença decisiva entre elas; contudo, justamente quando a espera se prolonga é que a diferença começa a aparecer, pois cinco são chamadas prudentes e cinco insensatas. Mateus utiliza para “prudentes” o termo grego phronimos, palavra que aparece também em Mateus 7,24 para descrever aquele que ouve as palavras de Jesus e as pratica, construindo sua casa sobre a rocha, e essa aproximação é fundamental porque a prudência bíblica não significa simplesmente astúcia, esperteza, inteligência estratégica ou capacidade de prever o futuro, mas sabedoria prática, discernimento e coerência entre aquilo que se escuta e aquilo que se vive. As prudentes não receberam uma informação secreta sobre a hora da chegada do esposo, não conhecem uma fórmula capaz de antecipar o futuro e não possuem um calendário escatológico escondido; elas simplesmente compreenderam que a espera exige preparação e que uma esperança verdadeira precisa organizar a maneira como se vive o presente. É justamente aí que encontramos uma das grandes chaves da parábola: a fé cristã não consiste em descobrir a data do futuro, mas em organizar o presente à luz da esperança.mTodas possuem lâmpadas, mas nem todas possuem óleo suficiente, e aqui é preciso evitar uma interpretação excessivamente rígida, porque o texto não afirma diretamente que o óleo represente graça, boas obras, caridade, Espírito Santo ou qualquer outra realidade específica; essas associações pertencem a interpretações desenvolvidas posteriormente pela tradição cristã, enquanto a própria narrativa deixa clara a função concreta do óleo: ele mantém a lâmpada acesa durante a demora. Por isso, sem transformar o óleo numa alegoria fechada, podemos compreendê-lo simbolicamente como aquilo que sustenta a fidelidade ao longo do tempo, aquilo que impede que a luz desapareça quando a espera se torna cansativa, quando a emoção diminui e quando a realidade deixa de corresponder às expectativas imediatas. Essa compreensão encontra eco no próprio Evangelho de Mateus, pois em 5,14-16 os discípulos são chamados de “luz do mundo” e essa luz deve brilhar por meio das boas obras, enquanto em 7,21 Jesus ensina que não basta dizer “Senhor, Senhor”, sendo necessário fazer a vontade do Pai, e em 22,37-40 resume a Lei no amor a Deus e ao próximo. A questão, portanto, não é simplesmente possuir uma lâmpada religiosa nas mãos, mas possuir aquilo que permite que essa lâmpada permaneça acesa quando a noite se prolonga, porque uma fé que depende exclusivamente da emoção, do entusiasmo, do aplauso ou da aprovação dos outros inevitavelmente entra em crise quando chega o tempo da demora.
E é precisamente a demora do esposo que revela a profundidade da parábola, porque esperar quando tudo acontece rapidamente é relativamente fácil, enquanto permanecer fiel quando a resposta tarda, quando a justiça parece distante, quando a oração parece não ser ouvida, quando o sofrimento se prolonga e quando aqueles que procuram fazer o bem experimentam cansaço exige uma qualidade diferente de fé. A Bíblia conhece profundamente essa experiência:
Habacuque pergunta: “Até quando, Senhor, clamarei, sem que me escutes?” (Hab 1,2)
O Salmo 13 insiste na pergunta “até quando?”
Paulo, em Romanos 8,22-25, descreve a criação inteira gemendo e esperando a redenção
Hebreus 10,36 chama à perseverança.
A fé bíblica não elimina a demora nem transforma o sofrimento numa ilusão, mas ensina a atravessá-lo sem abandonar a promessa; por isso, a esperança cristã não é uma certeza infantil de que tudo acontecerá imediatamente, mas a capacidade de permanecer fiel quando ainda não vemos o cumprimento daquilo que esperamos. É significativo, nesse sentido, que todas as dez virgens adormeçam, inclusive as prudentes, porque esse detalhe impede uma leitura moralista da vigilância e mostra que Jesus não está ensinando que o discípulo precisa permanecer fisicamente acordado, vivendo numa tensão permanente e incapaz de descansar. O ser humano possui limites, precisa dormir, repousar e reconhecer sua própria fragilidade, e a diferença entre prudentes e insensatas não está em umas dormirem e outras permanecerem acordadas, mas na preparação que foi realizada antes do sono. A vigilância cristã não é ansiedade permanente, hipercontrole ou medo obsessivo do futuro; é uma disposição interior que permite até mesmo descansar porque a vida está orientada para aquilo que espera. O problema, portanto, não é o descanso do corpo, mas o adormecimento da consciência, não é dormir durante a noite, mas viver espiritualmente adormecido diante de Deus, do próximo, da injustiça e da própria responsabilidade.
Então, à meia-noite, surge o grito: “Eis o esposo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25,6), e a meia-noite representa o momento inesperado que rompe a normalidade, aquele instante em que aquilo que estava sendo esperado se torna presente e obriga cada pessoa a revelar aquilo que realmente preparou. A noite, na Bíblia, pode ser lugar de medo, mas também de revelação: Samuel ouve a voz de Deus durante a noite em 1 Samuel 3,1-10, os pastores recebem o anúncio do nascimento de Jesus durante a noite em Lucas 2,8-20, e Jesus atravessa a noite de sua paixão no Getsêmani em Marcos 14,32-42. A noite, portanto, não significa necessariamente ausência de Deus; muitas vezes é justamente quando as falsas seguranças desaparecem que somos obrigados a descobrir em que realmente confiamos. Toda existência humana conhece suas meias-noites, sejam elas perdas, fracassos, lutos, crises, injustiças, rupturas, decepções ou momentos em que aquilo que parecia sólido deixa de sustentar-nos, e a pergunta do Evangelho não é se teremos noites, mas o que teremos cultivado enquanto elas chegarem. Quando o grito rompe a noite, as mulheres levantam-se e preparam suas lâmpadas, e a espera transforma-se em ação, porque ouvir, levantar, preparar e sair ao encontro formam uma verdadeira pedagogia espiritual. Esperar Deus não significa ficar imóvel, pois o futuro esperado reorganiza o presente e transforma a maneira de viver hoje; quem espera a justiça precisa começar a praticá-la, quem espera a paz precisa recusar a violência, quem espera a reconciliação precisa aprender a perdoar e reparar, e quem espera o Reino precisa resistir àquilo que contradiz sua lógica. A vigilância, portanto, não é passividade religiosa, mas responsabilidade diante do tempo, porque aquilo que esperamos determina aquilo que fazemos enquanto esperamos. É nesse momento que as insensatas percebem que suas lâmpadas estão se apagando e pedem óleo às prudentes, e a resposta destas últimas pode causar estranhamento se lida superficialmente, como se Jesus estivesse ensinando egoísmo ou indiferença, mas esse não é o sentido da cena. A Escritura inteira condena a indiferença diante do necessitado:
Levítico 19,18 manda amar o próximo
Deuteronômio 15,7-11 ordena abrir a mão ao pobre
Isaías 58,6-10 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão
Tiago 2,14-17 afirma que uma fé incapaz de responder à necessidade concreta do outro é uma fé morta.
A questão da parábola é outra: existem responsabilidades que ninguém pode assumir em nosso lugar, pois ninguém pode arrepender-se por nós, ninguém pode construir nosso caráter por nós e ninguém pode responder por nossa consciência diante de Deus. A comunidade pode acompanhar, ensinar, corrigir, perdoar e sustentar, mas não pode produzir, no último instante, uma vida que foi sistematicamente negligenciada. Aqui a parábola toca uma questão profundamente contemporânea, porque vivemos numa época em que muitas pessoas desejam terceirizar a própria consciência, entregando a um líder a tarefa de pensar por elas, a uma instituição a responsabilidade de fornecer todas as respostas, a um pregador o poder de determinar quem são os inimigos e a uma ideologia religiosa a função de dispensar o discernimento. Jesus, porém, chama discípulos à responsabilidade, e “vigiar” significa também discernir, examinar, comparar, avaliar e não entregar a consciência a qualquer autoridade que se apresente como representante absoluto de Deus. Mateus 7,15-20 manda examinar os frutos, Paulo recomenda em 1 Tessalonicenses 5,21: “Examinai tudo e conservai o que é bom”, e 1 João 4,1 orienta a provar os espíritos. Uma fé madura, portanto, não teme perguntas, porque o Evangelho não produz pessoas incapazes de pensar, mas discípulos capazes de discernir. Quando o esposo chega, as prudentes entram no banquete e a porta se fecha, e essa imagem possui caráter escatológico, recordando que a existência possui consequências e que nem todas as oportunidades permanecem abertas indefinidamente. Existem palavras que não podem ser retiradas, feridas que permanecem, pessoas que partem antes que consigamos pedir perdão e oportunidades de solidariedade que passam, razão pela qual a escatologia cristã não pretende produzir pânico, mas seriedade. A vida possui peso, cada escolha participa da construção de nossa humanidade e cada omissão também, de modo que a afirmação de Paulo em 2 Coríntios 6,2 — “Agora é o tempo favorável” — ganha aqui uma força especial, pois a urgência cristã não significa viver desesperado diante do fim, mas compreender que o presente é o lugar da decisão, da responsabilidade e da graça.
Por isso, a resposta do esposo “não vos conheço” (Mt 25,12), precisa ser compreendida dentro da linguagem bíblica de relacionamento, especialmente porque Mateus 7,23 utiliza linguagem semelhante. No universo bíblico, “conhecer” não significa simplesmente possuir informação sobre alguém, mas envolve uma dimensão relacional profunda, e o problema da parábola não é apresentar Deus como arbitrário ou cruel, mas mostrar a ruptura entre aquilo que se esperava encontrar e a realidade da vida de quem esperava. A crítica é severa justamente porque pode existir atividade religiosa sem discipulado, ortodoxia verbal sem prática, autoridade sem serviço, culto sem misericórdia e aparência de fé sem transformação da vida, e é exatamente nesse horizonte que a parábola encontra a denúncia de Mateus 23. Uma instituição pode possuir lâmpadas brilhantes e pouco óleo, pode organizar grandes celebrações e possuir pouca misericórdia, pode falar constantemente de Deus e tratar mal as pessoas, pode defender a tradição e abandonar os feridos, pode proteger sua reputação enquanto pessoas concretas sofrem e pode exigir obediência dos outros enquanto resiste à própria conversão. Jesus não autoriza essa religião, porque já havia afirmado: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7), e em Mateus 23,23 coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de uma religiosidade que cumpre minúcias e esquece o essencial. O problema, portanto, não é a tradição religiosa em si, nem a existência da instituição, nem a organização comunitária, mas o momento em que a estrutura passa a proteger a si mesma mais do que a dignidade das pessoas, quando a religião passa a exigir reverência para seus representantes enquanto deixa de ouvir o grito daqueles que sofrem.
É nesse ponto que a parábola também confronta o clericalismo, porque toda autoridade que deixa de ser serviço e passa a ser mecanismo de domínio contradiz a lógica do Reino. Jesus já havia estabelecido esse princípio quando afirmou: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26), mostrando que os governantes das nações dominam, enquanto entre seus discípulos a grandeza deve assumir a forma do serviço. Isso vale para ministros ordenados, dirigentes, lideranças comunitárias e também para qualquer pessoa que utilize a religião como instrumento de superioridade, pois nenhum cargo religioso produz automaticamente fidelidade, nenhum título substitui conversão e nenhuma posição institucional garante reconhecimento diante de Deus. Diante do Esposo, todos permanecem discípulos, e justamente por isso a autoridade cristã só permanece legítima quando se deixa julgar pelo Evangelho, especialmente pelo serviço aos pequenos. Essa crítica alcança inevitavelmente a instrumentalização política da fé, porque a religião pode ser transformada em instrumento de poder, identidade e controle, o nacionalismo pode vestir símbolos cristãos, o autoritarismo pode apresentar-se como defesa da ordem, a violência pode ser chamada de justiça, a exclusão pode ser apresentada como proteção e a pobreza pode ser tratada apenas como fracasso individual. O Evangelho, entretanto, não diviniza partido, líder, mercado, Estado ou nação, pois Jesus afirma em Mateus 20,25-28 que os governantes dominam, mas entre seus discípulos não deve ser assim; em Mateus 5,9, os pacificadores são chamados filhos de Deus, e em Mateus 5,7 os misericordiosos são proclamados bem-aventurados. Qualquer projeto político que utilize o nome de Cristo para legitimar desumanização precisa ser confrontado pela própria palavra de Cristo.
Isso não significa reduzir o Evangelho a uma disputa partidária, porque a crítica profética é muito mais profunda e alcança qualquer ideologia que transforme o poder em absoluto, desumanize o adversário, instrumentalize a religião ou coloque interesses econômicos acima da vida; entretanto, diante do uso contemporâneo de símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência e exclusão por setores da extrema direita, a Igreja não pode permanecer silenciosa, porque o silêncio diante da desumanização pode transformar-se em cumplicidade. O profeta não escolhe a conveniência, mas a fidelidade, e é justamente essa fidelidade que encontramos em Amós 5,21-24, quando Deus rejeita celebrações religiosas acompanhadas de injustiça e exige que o direito corra como água, e em Isaías 1,11-17, quando o culto é denunciado porque não corresponde à prática da justiça. Miqueias 6,8 resume essa exigência divina em três movimentos inseparáveis: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Por isso, a vigilância cristã não pode permanecer confinada ao interior da consciência individual, porque precisa enxergar também as estruturas sociais que produzem sofrimento. Mateus 25 não permite uma espiritualidade indiferente à fome, à sede, à migração, à doença, à prisão e à pobreza, já que, na cena do julgamento, em Mateus 25,31-46, o critério decisivo aparece nos gestos concretos de cuidado. O Cristo esperado é encontrado no pequeno e, por isso, a esperança cristã não pode servir como fuga da história; quando trabalhadores são explorados, quando crianças crescem cercadas pela violência, quando migrantes são tratados como ameaça, quando moradores das periferias são vistos como vidas de menor valor e quando a desigualdade naturaliza privilégios, a pergunta da parábola retorna com força: onde está nossa lâmpada? A questão não é apenas se somos individualmente religiosos, mas que tipo de sociedade estamos ajudando a construir, porque a lâmpada cristã não pode iluminar somente o interior do templo, devendo também lançar luz sobre a vida concreta.
A própria sequência de Mateus 25 aprofunda essa responsabilidade:
Porque as virgens perguntam se estamos preparados
A parábola dos talentos, em Mateus 25,14-30, pergunta o que fazemos com aquilo que recebemos
O julgamento das nações, em Mateus 25,31-46, pergunta o que fazemos diante dos vulneráveis
Vigiar, portanto, não é simplesmente esperar, mas esperar, agir e responder. A escatologia cristã não retira o discípulo do mundo, mas responsabiliza-o ainda mais diante do mundo, de maneira que esperamos o Reino futuro construindo sinais desse Reino no presente, esperamos a justiça definitiva praticando justiça agora, esperamos a paz de Deus recusando a glorificação da violência e esperamos a mesa definitiva aprendendo desde já a repartir o pão. Essa mensagem ganha força particular numa sociedade marcada por uma profunda crise de sentido, porque vivemos num mundo capaz de produzir informação em quantidade gigantesca, mas nem sempre capaz de produzir sabedoria, no qual temos comunicação instantânea e, simultaneamente, solidão profunda, tecnologias sofisticadas e persistência de desigualdades brutais, enquanto o consumo promete felicidade, o desempenho promete reconhecimento e a exposição pública promete pertencimento. A parábola pergunta o que permanece quando essas promessas perdem sua força e aquilo que parecia garantir nossa segurança revela sua fragilidade, lembrando que a vida não pode ser reduzida àquilo que possuímos, mostramos ou acumulamos, pois a esperança cristã devolve ao presente uma direção: viver hoje de maneira coerente com o futuro de Deus.
Existe ainda uma crítica à procrastinação moral, porque muitas mudanças são adiadas indefinidamente e o pedido de perdão fica para amanhã, a reparação de uma injustiça fica para amanhã, o cuidado com alguém fica para amanhã, a reconciliação fica para amanhã e a conversão fica para amanhã, como se tivéssemos domínio sobre o tempo. Entretanto, o amanhã não está sob nosso controle, e justamente por isso a ansiedade tenta controlar o futuro enquanto a vigilância cristã transforma o presente. O Evangelho não manda viver aterrorizado pelo fim, mas manda levar a vida a sério, compreendendo que cada momento pode tornar-se espaço de graça, responsabilidade e transformação. A verdadeira vigilância consiste, então, em permanecer humano durante a espera, não permitindo que a demora destrua nossa capacidade de amar, nem que a injustiça nos torne semelhantes aos injustos, nem que a mentira se torne conveniente a ponto de abandonar nossa busca pela verdade, nem que a desumanização se torne popular a ponto de nos fazer aceitar como normal aquilo que contradiz a dignidade humana. Vigiar é preservar a misericórdia sem abandonar a justiça, denunciar o mal sem transformar o adversário em objeto de ódio, permanecer desperto diante do sofrimento e reconhecer que Cristo pode encontrar-nos justamente onde nossa religião aprendeu a não procurá-lo.
Por isso, a pergunta de Mateus 25,1-13 precisa chegar à consciência pessoal e comunitária:
Há óleo em nossa lâmpada?
Nossa fé continua viva quando ninguém está olhando?
Nossa oração nos torna mais misericordiosos ou apenas mais convencidos de que temos razão?
Nossa leitura da Bíblia amplia nossa compaixão ou apenas fornece argumentos para condenar os outros?
Nossa comunidade acolhe os feridos ou somente aqueles que se encaixam em seus padrões?
Nossa autoridade serve ou domina?
Nossa Igreja espera Cristo ou apenas protege suas estruturas?
Essas perguntas são incômodas justamente porque retiram da religião o direito de esconder-se atrás da aparência, pois a parábola não pergunta apenas se temos uma lâmpada, mas se existe óleo, aquilo que sustenta nossa vida quando o aplauso desaparece, quando a emoção religiosa diminui, quando a noite se prolonga e quando ninguém mais está observando. E a parábola das dez virgens não termina com uma explicação detalhada sobre o óleo nem oferece uma fórmula para calcular a chegada de Cristo, mas termina com uma palavra que permanece como advertência e convite: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Vigiar é manter a consciência desperta, discernir os sinais do tempo sem transformar cada acontecimento em espetáculo apocalíptico, perceber quando a injustiça se normaliza, quando a mentira se torna método, quando a violência é celebrada, quando a religião é utilizada para dominar e quando o pobre é tornado invisível; é reconhecer, acima de tudo, que Deus não pode ser separado da justiça, da misericórdia e da verdade. Ainda há tempo para preparar a lâmpada, e essa é uma das dimensões mais importantes da palavra de Jesus, porque sua advertência não é somente ameaça, mas oportunidade de conversão. Ainda podemos pedir perdão, reparar danos, abandonar a mentira, romper com a violência, enfrentar preconceitos, questionar o clericalismo, rejeitar a manipulação religiosa, aproximar-nos dos pobres e recuperar a centralidade do Evangelho.
A Conversão não é apenas sentimento individual, mas mudança de caminho, transformação das relações, das comunidades e também das estruturas que produzem sofrimento; por isso, o profeta não anuncia simplesmente condenação, mas chama o povo a voltar para Deus antes que seja tarde. O esposo vem, mas a hora permanece desconhecida, e a noite continua fazendo parte da história, porque a humanidade ainda convive com guerras, desigualdade, violência, exclusão, sofrimento, manipulação e desesperança; entretanto, o Evangelho continua chamando pessoas a manter a luz acesa, não uma luz artificial produzida para as câmeras nem uma religiosidade construída para impressionar, mas a luz humilde e concreta de quem serve quando poderia dominar, de quem acolhe quando poderia excluir, de quem denuncia a injustiça quando seria mais conveniente permanecer calado, de quem protege a dignidade humana quando a sociedade prefere descartá-la e de quem mantém a esperança quando a realidade parece dizer que não vale mais a pena. No fim, a parábola não permite que nos escondamos atrás de nossas lâmpadas, porque ela nos coloca diante daquilo que sustenta nossa existência, e o óleo torna-se imagem daquilo que permanece quando a noite se prolonga, quando o aplauso desaparece e quando a aparência já não consegue esconder a realidade. É justamente aqui que Mateus 25 alcança seu ponto mais radical: o Cristo que esperamos é também aquele que, na cena do julgamento, se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso; o Esposo que aguardamos é reconhecido no rosto daqueles que muitas vezes nossa sociedade prefere não enxergar. Manter a lâmpada acesa significa, portanto, permanecer capaz de reconhecer o rosto humano diante de nós, porque uma espiritualidade que espera Cristo mas não reconhece o sofrimento humano corre o risco de esperar um Cristo fabricado à sua própria imagem.
A Igreja precisa recuperar essa espiritualidade da espera, não uma Igreja aterrorizada pelo fim, mas desperta para o Reino, não uma Igreja obcecada por datas, mas comprometida com pessoas, não uma Igreja que utiliza o medo para controlar consciências, mas uma comunidade que forma homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de discernir, e não uma Igreja preocupada apenas em conservar suas lâmpadas institucionais, mas disposta a perguntar se ainda possui o óleo da misericórdia, da justiça, da verdade e do serviço. Porque uma Igreja pode conservar sua estrutura e perder sua alma, pode defender seus símbolos e esquecer seu Senhor, pode preservar sua autoridade e perder sua capacidade de servir, pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecê-lo no rosto daquele que sofre. Quando chegar o grito da meia-noite, não será suficiente apresentar símbolos, títulos, discursos ou aparências religiosas, porque a questão será se existe luz, se existe amor, se existe justiça, se existe misericórdia e se existe fidelidade, isto é, se existe uma vida preparada para reconhecer o Esposo. Jesus não ensina seus discípulos a descobrir quando o Reino chegará; ensina-os a viver de tal maneira que, quando o Reino se manifestar, sua existência já esteja em sintonia com ele. Por isso, vigiar é não deixar a alma adormecer diante do sofrimento, conservar os olhos abertos quando muitos preferem fechar as cortinas, indignar-se diante da injustiça sem perder a capacidade de amar, buscar a verdade sem transformar a verdade em arma de arrogância, esperar Cristo reconhecendo seus sinais na história e preparar-se para o banquete construindo desde agora relações de justiça, fraternidade e misericórdia. É compreender que o Reino começa a ser percebido quando a vida humana deixa de ser tratada como mercadoria, quando o pobre deixa de ser invisível, quando a autoridade se transforma em serviço, quando a religião deixa de ser instrumento de dominação e quando a misericórdia deixa de ser discurso para tornar-se prática. “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13), e essa palavra atravessa os séculos e chega até nós não como convite ao pânico, mas como convocação à responsabilidade, porque o Cristo vem, embora talvez não venha segundo nossos calendários, nossas previsões ou nossas expectativas religiosas, e talvez nos encontre exatamente onde não costumamos procurá-lo.
Por isso, que nossas lâmpadas estejam acesas e que exista óleo, que nossa fé tenha raízes na justiça, nossa espiritualidade tenha mãos para servir, nossa esperança tenha coragem para resistir e nossa religião tenha humanidade suficiente para reconhecer Deus no rosto do outro. Que não sejamos uma comunidade que apenas sabe falar da chegada do Esposo, mas uma comunidade que aprendeu a viver segundo aquilo que espera; que não sejamos encontrados com as mãos cheias de símbolos religiosos e o coração vazio de misericórdia; que não confundamos autoridade com poder, tradição com imobilismo, doutrina com arrogância ou fé com submissão cega; que não permitamos que a religião seja sequestrada pelo medo, pelo dinheiro, pelo nacionalismo, pelo autoritarismo ou pela lógica daqueles que transformam o nome de Deus em instrumento de dominação. Porque, quando a meia-noite chegar, não será suficiente estar com uma lâmpada na mão; será preciso que exista luz, e essa luz não será medida pela aparência da lâmpada, pelo tamanho da instituição, pela quantidade de discursos, pelo número de seguidores ou pela força de quem ocupa posições de autoridade, mas pela vida que conseguimos construir enquanto esperávamos. Será a luz de uma fé que não fugiu da realidade, de uma esperança que não se entregou ao desespero, de uma justiça que não se vendeu ao poder, de uma misericórdia que não se tornou ingenuidade e de uma verdade que não perdeu a humanidade. Então compreenderemos que o óleo nunca foi apenas aquilo que carregávamos nas mãos, mas aquilo que permitiu que permanecêssemos fiéis durante a noite; e, quando o Esposo chegar, que Ele encontre não apenas uma lâmpada acesa, mas uma vida inteira transformada em luz pelo Evangelho.
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.
A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.
Sabedoria12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento.
O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.
Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.
Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e sendo uma referência de forma indireta do Evangelho do dia anterior, O evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.
No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.
O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.
Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).
Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.
É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.
Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..
É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade.
Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:
Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3).
Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10).
Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13).
Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22).
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.
A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.
Esse detalhe possui profundo significado simbólico.
Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.
Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.
A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.
O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas,
A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.
A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.
A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.
Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.
Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).
Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.
A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.
Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé.
O Deus do livro da Sabedoria manifesta sua força na misericórdia.
O Salmista canta sua bondade e fidelidade.
Paulo em Romanos 8, 26-27 revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo.
Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade do mundo onde se semeia joio e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto que o discípulo é chamado a ser fermento.