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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 12,8-12.

Na liturgia da Igreja Católica Romana, Lucas 12,8-12 é proclamado no sábado da 28ª Semana do Tempo Comum e dá continuidade às palavras de Jesus contra a hipocrisia e o medo que ameaça silenciar a verdade da sexta-feira da 28ªsemana do Tempo Comum. Ao preparar seus discípulos para testemunhar publicamente a fé, mesmo diante de autoridades capazes de persegui-los, Jesus mostra que a fidelidade ao Evangelho exige coragem, coerência e confiança na ação do Espírito Santo. Essa mensagem também aparece em Mateus 10,17-22 proclamado  dentro da oitava  do natal e Marcos 13,9-13, embora cada evangelista a desenvolva de acordo com seu próprio contexto narrativo. Em todos esses relatos, o testemunho cristão não é apresentado como garantia de uma vida sem conflitos, mas como compromisso com a verdade que permanece firme mesmo quando a pressão, a perseguição e o medo tentam impor o silêncio. Para compreender a passagem, é necessário escutar o que a antecede. Em Lucas 11,37-54, Jesus confronta dirigentes religiosos que valorizam sinais exteriores de piedade, mas negligenciam a justiça e o amor de Deus. Em Lucas 12,1-3, diante de uma multidão numerosa, alerta contra o fermento dos fariseus, identificado com a hipocrisia, e afirma que aquilo que está oculto será revelado. Depois, em Lucas 12,4-7, distingue o poder humano, capaz de matar o corpo, do cuidado de Deus, que não abandona suas criaturas. Lucas 12,8-12 desenvolve essa tensão: o discípulo deve reconhecer Jesus, discernir a gravidade da resistência ao Espírito e confiar na assistência divina quando for chamado a responder diante das autoridades. Esses versículos não são frases independentes reunidas ao acaso. Formam uma sequência sobre verdade, medo, fidelidade e julgamento.

O mundo em que Jesus viveu estava submetido ao domínio romano, mas não era social nem religiosamente uniforme. Nesse cenário, o testemunho público podia trazer consequências sociais, religiosas e políticas. Ainda assim, seria incorreto apresentar todos os fariseus como hipócritas ou todos os judeus como adversários de Jesus. Os fariseus constituíam uma corrente diversificada, e a crítica de Jesus nasce de controvérsias específicas. Uma leitura cristã responsável não pode converter essa disputa interna do judaísmo em justificativa para antijudaísmo. A denúncia profética deve atingir práticas de falsidade e opressão, inclusive dentro das comunidades cristãs, e não transformar um povo inteiro em culpado.

Jesus declara que quem o reconhecer diante das pessoas será reconhecido pelo Filho do Homem diante dos anjos de Deus; quem o negar será negado diante deles. Em Daniel 7,13-14, uma figura semelhante a um filho de homem recebe autoridade e um reino que ultrapassa os impérios representados por forças violentas. Na tradição cristã, o título Filho do Homem está ligado à identidade de Jesus e à sua missão, que une autoridade, serviço, sofrimento e vindicação divina. O critério é a fidelidade concreta ao caminho de Jesus. Reconhecer Jesus, portanto, não significa apenas pronunciar seu nome em público ou afirmar uma identidade religiosa. Significa comprometer-se com sua pessoa, sua mensagem e a forma como tratava as pessoas. Em Lucas 9,23, o discipulado implica tomar a cruz cotidianamente e segui-lo; em Lucas 22,25-27, Jesus contrapõe a lógica dominadora dos governantes à autoridade de quem serve. Mateus 7,21 adverte que não basta dizer “Senhor, Senhor”, enquanto Mateus 25,31-46 relaciona o encontro com Cristo ao cuidado dos famintos, estrangeiros, enfermos e encarcerados. Essas passagens não autorizam reduzir a fé a um programa partidário, mas impedem separá-la das consequências éticas. O testemunho torna-se verdadeiro quando a palavra pronunciada corresponde à justiça praticada, especialmente quando não há recompensa pública por agir corretamente.

A advertência sobre negar Jesus deve ser lida também à luz da fragilidade humana. Pedro, que prometeu fidelidade, negou conhecer o Mestre durante sua prisão, conforme Lucas 22,54-62. Não se deve usar Lucas 12,9 para aterrorizar consciências, como se qualquer fraqueza condenasse irremediavelmente uma pessoa. Há diferença entre falhar sob pressão e transformar a mentira, de modo persistente, em princípio de vida. A coragem evangélica não significa ausência de medo, mas a decisão de não entregar a ele a direção definitiva da consciência. Às vezes, o testemunho exige uma declaração pública; em outras ocasiões, manifesta-se na proteção de uma vítima, na recusa de uma fraude, na denúncia de um abuso ou na defesa de alguém que não pode retribuir o favor. A comunidade cristã deve levar a sério a fidelidade sem abandonar a misericórdia. Quem reconhece o próprio fracasso pode recomeçar, assumir responsabilidades e reparar os danos causados. A graça não torna o mal irrelevante; torna possível sair dele. 

O versículo 10 apresenta uma das declarações mais difíceis do trecho: quem disser uma palavra contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado. Sua interpretação exige atenção ao contexto e aos paralelos bíblicos. Em Lucas 11,14-23, Jesus enfrenta acusações relacionadas à expulsão de demônios; em Marcos 3,22-30, seus adversários atribuem a Belzebu uma ação que o evangelista relaciona ao Espírito de Deus; e Mateus 12,22-32 apresenta uma controvérsia semelhante. O problema narrativo não é uma dúvida passageira, um pensamento involuntário ou uma crise emocional, mas a gravidade de atribuir ao mal aquilo que se manifesta como ação libertadora de Deus. Muitas tradições cristãs compreendem essa blasfêmia como resistência endurecida à verdade e à ação do Espírito, embora existam diferenças teológicas quanto à sua formulação. Por isso, é mais rigoroso apresentar essa leitura como uma interpretação contextual importante, e não como uma definição única e exaustiva. A advertência de Jesus não deve servir para manipular pessoas vulneráveis pelo medo de terem cometido um pecado imperdoável, mas para denunciar a inversão moral pela qual o bem é chamado de mal e a opressão recebe aparência de virtude.  Precisamos questionar toda tentativa de instrumentalizar a autoridade de Deus para legitimar interesses humanos. Invocar o Senhor para justificar mentiras, encobrir injustiças ou conferir aparência de santidade a projetos de dominação significa esvaziar o sentido de seu nome. A tradição profética denuncia precisamente essa contradição: em:

  •  Isaías 1,11-17, Deus rejeita um culto desvinculado da justiça.
  •  Amós 5,21-24, rejeita celebrações religiosas que convivem com a opressão e exige que o direito corra como as águas e a justiça como um rio permanente. 

Essas advertência   nos remete ao terceiro mandamento: “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão” (Êxodo 20,7; cf. Deuteronômio 5,11). Embora frequentemente associado ao uso irreverente do nome de Deus ou aos juramentos falsos, esse mandamento também nos convida a refletir sobre a responsabilidade de invocar sua autoridade. O nome de Deus não pode ser utilizado para legitimar interesses particulares, encobrir injustiças ou conferir aparência de santidade àquilo que contradiz sua vontade. Não basta evitar o uso desrespeitoso de uma expressão religiosa; é necessário impedir que o próprio Deus seja transformado em instrumento de manipulação humana. Invocá-lo para justificar a mentira, a exploração ou a opressão significa esvaziar o sentido de seu nome e distorcer a fé que se afirma professar. Essa questão ganha especial relevância quando a religião entra no jogo eleitoral. Candidatos e lideranças políticas podem professar legitimamente sua fé e participar do debate público a partir de suas convicções religiosas. 

O problema surge quando o nome de Deus é utilizado como estratégia para conquistar votos, quando um projeto político é apresentado como se fosse a única expressão possível da vontade divina ou quando símbolos cristãos são empregados para blindar determinadas lideranças contra críticas e questionamentos. Nesse cenário, a fé corre o risco de deixar de ser uma experiência de compromisso com o Evangelho para se tornar instrumento de poder.

Não basta que um candidato fale de Deus, cite versículos, erga a Bíblia ou se apresente como defensor da família e dos valores cristãos. É preciso examinar suas propostas, suas alianças, suas decisões e as consequências de suas políticas para a vida concreta da população, especialmente dos mais pobres e vulneráveis. A linguagem religiosa não transforma uma injustiça em justiça, assim como a profissão pública de fé não constitui certificado automático de honestidade. Quando Deus é invocado para alimentar o medo, fabricar inimigos, justificar a exclusão ou encobrir práticas contrárias à dignidade humana, o sagrado é reduzido a propaganda e a consciência dos eleitores passa a ser tratada como instrumento de manipulação. É nesse ponto que a advertência de Jesus sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo estabelece uma relação importante com a crítica à instrumentalização religiosa. Não se trata de afirmar que todo político religioso seja hipócrita, nem de equiparar automaticamente o uso eleitoral da fé à blasfêmia mencionada no Evangelho. São questões distintas, que exigem rigor teológico. A ligação está no princípio do discernimento: atribuir a Deus aquilo que serve à dominação, enquanto se desprezam a verdade e a justiça, representa uma grave contradição com o testemunho bíblico. O Espírito, associado à verdade e à ação libertadora de Deus, não pode ser invocado como justificativa para práticas que ferem a dignidade humana.

A pergunta que permanece é tão simples quanto necessária:

O critério cristão não é a frequência com que uma pessoa pronuncia o nome do Senhor, mas a coerência entre sua profissão de fé e suas atitudes. Jesus não convocou seus discípulos para transformar Deus em instrumento de poder, mas para testemunhar a verdade, servir aos pequenos e produzir frutos de justiça. À luz de Êxodo, dos profetas e do próprio Evangelho, tomar o nome de Deus em vão pode significar também invocá-lo publicamente sem compromisso com a justiça que ele exige. Uma religião que fala de Deus, mas se cala diante da opressão, corre o risco de conservar a aparência da fé enquanto abandona seu conteúdo. É justamente contra essa hipocrisia que a palavra de Jesus continua a nos interpelar.

A tradição profética ilumina essa inversão: 

  •  Isaías 5,20 denuncia os que chamam o mal de bem e o bem de mal
  • Miqueias 6,8 resume a exigência divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na caminhada humilde com Deus. 
  • Amós 5,21-24 rejeita um culto que convive com a injustiça e exige que o direito corra como água. 
  • Jeremias 7,1-11 questiona a confiança em um templo transformado em proteção ilusória para quem pratica opressão. 
Tomemos  cuidado  com  manipulação religiosa contemporânea, quando o nome de Deus é usado para blindar líderes, conquistar poder, encobrir corrupção ou transformar adversários em inimigos absolutos demoníacos . Não se deve chamar qualquer divergência de blasfêmia contra o Espírito, pois isso repetiria a própria lógica de silenciamento que a reflexão procura combater. O discernimento cristão examina ações, frutos e consequências, reconhecendo que a linguagem sagrada também pode ser instrumentalizada para proteger interesses humanos. Em Lucas 12,11-12, Jesus prepara os discípulos para quando forem conduzidos às sinagogas, aos magistrados e às autoridades. A passagem antecipa uma situação de pressão, mas não descreve um julgamento específico. Atos 4,1-21 e 5,27-32 mostram os primeiros discípulos confrontados por autoridades que procuram limitar sua proclamação. Atos 7,54-60 narra o testemunho de Estêvão, e Atos 24 e 25 apresenta Paulo diante de representantes do poder romano. Mostram que a legalidade institucional não torna moralmente correta qualquer exigência. Quando o poder ordena silêncio diante de uma injustiça, a consciência precisa discernir se obedecer seria participar do mal. O testemunho cristão não autoriza violência ou desprezo indiscriminado pelas instituições; exige responsabilidade, coragem e disposição para responder pelos próprios atos. A promessa de que o Espírito Santo ensinará o que dizer naquela hora não dispensa estudo, preparação ou reflexão. O contexto é o testemunho diante da perseguição, quando o discípulo pode ser surpreendido por uma situação em que sua fé está sob pressão. O texto não afirma que toda opinião espontânea seja inspirada por Deus, nem autoriza líderes a evitar perguntas alegando possuir uma orientação incontestável do Espírito. Confiança espiritual e responsabilidade intelectual não são inimigas. Na sociedade contemporânea, marcada por desinformação, discursos inflamados e disputas pela atenção, esse princípio exige verificar fatos, reconhecer limites e resistir à tentação de repetir uma mentira porque ela favorece nosso grupo. O Espírito não é propriedade de uma liderança, partido ou denominação. A promessa fortalece o testemunho em circunstâncias difíceis; não transforma preferências pessoais em revelação divina. A palavra cristã pode ser firme sem ser cruel, crítica sem ser desonesta e corajosa sem confundir agressividade com profecia.

Essa mensagem interpela as estruturas sociais;

A fome não desaparece por meio de discursos religiosos, e a oração não substitui políticas públicas responsáveis, educação, saúde, trabalho digno e proteção social. A comunidade cristã não precisa tornar-se instrumento de um partido para avaliar criticamente projetos e decisões públicas. Pode perguntar quem suporta os custos de determinada política, quem recebe seus benefícios e quais vidas são tratadas como descartáveis. Quando a pobreza é atribuída exclusivamente a falhas individuais e a riqueza é apresentada como prova automática de bênção divina, as causas sociais da desigualdade desaparecem do debate. A denúncia profética recupera essas causas sem negar a responsabilidade pessoal. Justiça social e conversão individual não são alternativas: uma sociedade mais justa exige pessoas responsáveis, e a conversão precisa alcançar relações e estruturas que perpetuam a exclusão. 

A violência exige semelhante discernimento. Em Lucas 6,27-36, Jesus ensina o amor aos inimigos; em Lucas 22,49-51, interrompe a agressão contra o servo do sumo sacerdote e cura o ferido. A fidelidade ao Mestre não pode ser convertida em licença para atacar em seu nome. O Evangelho confronta o racismo, o feminicídio, a tortura, a perseguição de minorias e a banalização da morte, sem ignorar a responsabilidade de quem pratica crimes. Justiça não significa vingança, e misericórdia não exige que vítimas permaneçam expostas à violência. É necessário proteger quem sofre, responsabilizar agressores conforme a lei e recusar a desumanização como método de segurança. A mesma exigência vale para a vida eclesial. Em Lucas 22,24-27, Jesus critica a disputa por grandeza e apresenta o serviço como medida da autoridade. O clericalismo contradiz essa lógica quando concentra poder, evita prestação de contas ou protege a reputação institucional à custa de pessoas feridas. Transparência, escuta, responsabilização e reparação não são ameaças à fé; são práticas necessárias para que a comunidade corresponda ao Evangelho que anuncia. Em Atos. Atos 2,42-47 descreve uma comunidade que partilha a vida, enquanto Atos 4,32-35 destaca a atenção às necessidades concretas. Esses relatos não apresentam grupos sem conflitos, mas oferecem uma orientação ética: os bens não devem servir de justificativa para a indiferença diante da miséria. A Igreja que reconhece Jesus acolhe quem duvida, protege quem sofre, forma consciências críticas e organiza a solidariedade. Não basta denunciar os pecados da sociedade se a comunidade reproduz discriminação, autoritarismo ou competição por prestígio. A conversão começa no coração, mas não termina nele; transforma hábitos, relações, prioridades e estruturas. Essa dimensão também toca a crise contemporânea de sentido. Em uma cultura que recompensa aparências e exige aprovação constante, muitas pessoas experimentam solidão, insegurança e exaustão. Lucas 12,7, no contexto anterior, recorda que Deus conhece até os cabelos da cabeça dos discípulos. A imagem comunica cuidado e valor, não vigilância destinada a alimentar paranoia. A dignidade humana não depende da riqueza, da popularidade ou da aprovação de um grupo. A comunidade pode oferecer escuta e companhia, sem prometer respostas fáceis para o sofrimento.

Lucas 12,8-12 não promete uma existência sem riscos, perseguições ou conflitos; prepara os discípulos para permanecerem fiéis ao Evangelho quando o medo, a pressão e os interesses do poder tornam o silêncio mais conveniente do que a verdade. O Espírito Santo não nos torna infalíveis, mas nos conduz ao discernimento, à coragem e à conversão contínua. Por isso, a comunidade cristã precisa examinar a própria consciência e perguntar: quais silêncios protegem injustiças? Quais discursos religiosos escondem interesses particulares? Quantas vezes o nome de Deus é invocado para conquistar poder, enquanto os pobres, os excluídos e os vulneráveis continuam à margem? Reconhecer Jesus diante das pessoas não significa apenas professar sua fé publicamente, mas tornar visível, por meio das atitudes, a justiça, a misericórdia e a liberdade que caracterizam sua mensagem. Onde a verdade é sufocada, o Espírito chama à coragem; onde a violência desumaniza, chama à defesa da dignidade; onde a religião legitima a opressão, chama à conversão. O verdadeiro testemunho cristão não se mede pelo volume das palavras, pela ostentação da fé ou pela proximidade com os poderosos, mas pela coerência entre o Evangelho anunciado e a vida praticada. No momento decisivo, portanto, que a Igreja não escolha a mentira conveniente, a omissão cúmplice ou a agressividade disfarçada de zelo religioso, mas a palavra justa, a presença solidária e a fidelidade que não abandona os pequenos. Que o Espírito Santo nos livre de transformar a fé em máscara, Deus em instrumento de poder e o Evangelho em justificativa para nossos próprios interesses. Afinal, reconhecer Jesus é assumir o compromisso de não negar, com nossas atitudes, aquele que proclamamos com nossos lábios. A fé amadurece quando deixa de ser apenas discurso e se torna serviço, quando abandona os privilégios que a afastam do povo e quando encontra, na defesa da vida e na prática da justiça, sua expressão mais concreta. É assim que o testemunho cristão ultrapassa as palavras, confronta as contradições da história e anuncia, mesmo em meio aos conflitos do presente, que nenhum poder humano está acima da verdade, da dignidade e do amor que o Evangelho exige. 

Não se trata de condenar pessoas, determinar quem está certo ou errado em todas as circunstâncias, nem transformar a fé em disputa ideológica. Mas, se precisamos escolher um lado, que seja o lado dos pobres, dos excluídos, dos esquecidos e de todos aqueles cuja dignidade é negada. Esse foi o lado que Jesus escolheu. Não porque a pobreza torne alguém automaticamente justo, mas porque o Evangelho nos revela um Jesus que se aproxima dos marginalizados, acolhe os desprezados e denuncia estruturas que colocam o poder e os privilégios acima da vida. Em Lucas 4,18, ele anuncia sua missão de levar a Boa-Nova aos pobres; em Mateus 25,40, identifica-se com os pequeninos. Seguir Jesus, portanto, não é apenas falar de Deus, mas reconhecer sua presença naqueles que a sociedade insiste em deixar para trás. Afinal, a fé cristã não se prova pela bandeira que levantamos, mas pelo compromisso que assumimos com a dignidade humana. E, se alguém perguntar de que lado estamos, que nossas atitudes respondam antes de nossas palavras: do lado da vida, da justiça e dos que mais precisam,  porque foi entre eles que Jesus escolheu estar.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,47-54

O Evangelho de Lucas 11,47-54 é proclamado na quinta-feira da 28ª semana do Tempo Comum, em meio a um ciclo de leituras que revelam a tensão entre o desígnio amoroso de Deus e a recusa humana em acolhê-lo. Nesse mesmo dia, a liturgia propõe a carta aos Efésios (1,1-10), na qual Paulo anuncia o projeto divino de recapitular todas as coisas em Cristo. É belo e provocante perceber o contraste: enquanto o Apóstolo contempla a unidade de todas as criaturas no amor, Jesus denuncia o fechamento religioso que mata os profetas. A Igreja reza, portanto, entre dois mundos — o do plano de Deus, que reconcilia, e o do coração humano, que ainda resiste.

jesus pronuncia palavras cortantes: “Ai de vós, que construís os túmulos dos profetas, mas vossos pais os mataram! Assim sois testemunhas e aprovais as obras de vossos pais” (Lc 11,47-48). O termo “ai” não é maldição, mas lamento. É a dor de Deus diante da cegueira humana. O grego ouai exprime compaixão indignada, como um suspiro de quem ama e sofre com o endurecimento do outro. Jesus não fala como juiz, mas como amante ferido: lamenta o destino de um povo que se acostumou a calar as vozes que o chamavam à conversão.O contexto é tenso: os fariseus e doutores da Lei se consideravam guardiões da tradição, mas haviam transformado a Lei em muralha. Construíam túmulos para os profetas não por veneração verdadeira, mas para controlar sua memória. Ao sepultar os profetas, sepultavam a exigência de conversão que vinha com eles. É mais fácil homenagear o mártir do passado do que escutar o profeta do presente. Assim, a hipocrisia religiosa se perpetua sob o disfarce da piedade.

A ironia de Jesus é amarga: aqueles que honram os profetas mortos são os mesmos que perseguem os vivos. O profetismo é sempre incômodo, porque desinstala, desmascara e denuncia. Do Gênesis ao Apocalipse, o fio da história bíblica é o mesmo: Deus fala, e o homem resiste. Desde o sangue de Abel até o de Zacarias, a Escritura narra uma longa genealogia da violência contra a verdade. O Evangelho de Lucas retoma essa linha para mostrar que Jesus é o ponto culminante dessa história — o último e definitivo Profeta, o Verbo que encarna a Palavra que o mundo tenta silenciar.

Mas a sabedoria de Deus é paciente. “Eu lhes enviarei profetas e apóstolos”, diz o texto, “a uns matarão e perseguirão” (Lc 11,49). Essa Sabedoria, personificada no Antigo Testamento, é expressão do Espírito que sopra onde quer. Negar o profeta é apagar o Espírito. E apagar o Espírito é sufocar o sopro mesmo da vida. Onde o Espírito é livre, há profecia; onde o Espírito é controlado, há túmulos.

O “ai” de Jesus, portanto, é também um grito pneumatológico: é o Espírito que chora dentro dele, lamentando o endurecimento humano. A profecia nasce sempre do Espírito, não da vaidade. Ela é sopro, não discurso. É fogo que aquece e queima. Por isso os profetas nunca são neutros: eles trazem o oxigênio da verdade, e o mundo os asfixia.

Sabemos que o  profeta é o mediador entre o divino e o humano. Vive a tensão entre o céu e a terra, entre a transcendência e o chão da história. Em toda cultura, ele representa a voz da alteridade — o Outro que nos convoca a sair de nós mesmos. O fariseu, ao contrário, teme a alteridade: quer um Deus espelho, não um Deus outro. Quer um Deus que confirme suas certezas, não um Deus que o desinstale. Por isso, o fariseu não suporta o profeta. A profecia é a pedagogia da alteridade: nela aprendemos que o rosto do outro é a primeira página do Evangelho.

O texto denuncia uma religião que espiritualiza a injustiça. Aqueles que matam os profetas o fazem em nome da ordem, da tradição, da pureza doutrinal. São defensores da moral, mas traidores da vida. Transformam a fé em instrumento de poder e o sagrado em moeda. É o mesmo mecanismo que sustenta, hoje, as teologias da prosperidade e do domínio. A religião-mercado vende milagres como produtos e transforma Deus em patrocinador de sucesso. É a nova idolatria: dourada, triunfalista, espetacular. Uma espiritualidade líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que o sagrado se consome e se descarta conforme o humor do mercado.

O profeta, no entanto, não se curva a essa lógica. Ele não vende conforto, oferece conversão. E por isso é sempre perseguido. Quando o púlpito vira palco, o altar se torna vitrine e o Evangelho se reduz a marketing, os profetas se tornam subversivos perigosos. Mas são eles que mantêm acesa a chama da autenticidade espiritual..Do ponto de vista psicológico, o fariseísmo é o mecanismo de defesa da alma religiosa. Freud chamaria de recalque da verdade; Jung, de sombra espiritual. O ser humano teme o profeta porque ele obriga a olhar para dentro. O profeta é o espelho que revela o que escondemos sob nossas certezas. Carl Rogers diria que a autenticidade é a base da maturidade. O fariseu, então, é o imaturo espiritual — aquele que vive de máscaras, com medo da transparência. A religião, quando se torna disfarce do ego, mata o Evangelho.

Nietzsche denunciava  a religião que reprime a vida, e Jesus denunciava  exatamente isso: a fé usada para dominar. Hannah Arendt alertou que o mal se banaliza quando o coração se acostuma à injustiça. E é disso que fala o Evangelho: a banalização do mal em nome do bem. Quando a fé se torna rotina, o Evangelho morre no hábito. A palavra “ai” é o choque necessário para despertar a consciência..A patrística reconheceu a atualidade desse perigo. Santo Agostinho advertia: “Ai daqueles que amam mais a honra dos homens do que a glória de Deus, pois constroem monumentos aos santos e matam a verdade que os santos pregaram.” João Crisóstomo denunciava que os ministros da Igreja podem tornar-se cúmplices da morte espiritual do povo quando buscam prestígio em vez de serviço. Orígenes acrescentava que o profeta vive já no tempo de Deus, e por isso é sempre estrangeiro entre os homens — a história tenta domesticá-lo, mas ele fala com acento do céu.

Essa denúncia se dirige também a nós, Igreja do século XXI. O clericalismo, que o Papa Francisco tantas vezes denunciou, é a forma moderna de trancar a porta do Reino. “Ai de vós, doutores da Lei, que tomastes a chave da ciência: vós mesmos não entrastes e impedistes os que queriam entrar!” (Lc 11,52). A imagem da chave é símbolo poderoso: representa o acesso ao mistério. Quando o ministro se coloca como dono da chave, transforma a mediação em barreira. O Evangelho não precisa de guardiões, mas de testemunhas.

A Gaudium et Spes recorda que o homem só se realiza no dom sincero de si. A Evangelii Gaudium denuncia o clericalismo como desfiguração da missão. E a Fratelli Tutti amplia o horizonte: a fé só é verdadeira quando gera fraternidade. O profeta, portanto, é o guardião da comunhão. Ele reconecta o humano ao divino, o pobre ao rico, o centro à periferia. É a ponte viva entre mundos que o medo separa.

A exegese nos mostra que, após essas palavras, “os escribas e fariseus começaram a pressioná-lo fortemente e a armar-lhe ciladas” (Lc 11,53). É o início da perseguição. A luz provoca a escuridão. O mesmo Espírito que o impulsiona à verdade desperta a ira dos que preferem as trevas. Assim também na história: quanto mais o Evangelho é fiel, mais ele incomoda os poderes deste mundo. O sangue dos profetas continua a clamar da terra (Ap 6,9).

Mas mesmo entre os escombros da religião morta, o Espírito sopra. O mesmo vento que ergueu Ezequiel diante do vale de ossos secos continua a percorrer a história. Há sempre um resto fiel, um pequeno grupo que, entre feridas e esperança, resiste ao império da morte e prepara o caminho da vida. A profecia é o suspiro de Deus que insiste.

Hoje, a perseguição aos profetas se dá por meios sutis. Não se apedreja mais, mas se cancela. O martírio acontece em pixels e algoritmos. As redes sociais se tornaram tribunais públicos onde a superficialidade julga a profundidade. O Evangelho da vida é abafado pelo ruído do espetáculo. Mas o profeta continua a falar, mesmo que sua voz pareça frágil. É no sussurro do vento, e não no trovão, que Deus se revela (1Rs 19,11-13).

Há, portanto, uma dimensão espiritual que atravessa o texto: a vitória silenciosa da vida. O Reino de Deus não triunfa pela força, mas pela fidelidade. A cruz é o túmulo e o berço da profecia. No corpo transpassado de Cristo, o sangue de todos os profetas encontra sentido. O profetismo não termina no Gólgota; ressuscita com o Ressuscitado.

O cristão autêntico, portanto, é aquele que assume o risco do profeta. Ser discípulo é viver na contramão da cultura da morte. É preferir a verdade à conveniência, a compaixão ao poder, o serviço ao prestígio. É enfrentar o sistema com o poder desarmado do amor. A fé autêntica é sempre subversiva, porque nasce da liberdade interior do Espírito.

Assim, o texto de Lucas não é apenas denúncia — é também promessa. Promessa de que o Espírito continua a suscitar profetas em cada geração. Talvez não usem batina, talvez não falem em templos, talvez cantem nas ruas ou escrevam nas redes; mas sua voz é a mesma: a da Sabedoria que clama nas praças, convidando à vida. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

E quando o último túmulo for aberto, quando o último profeta silenciado for reabilitado pela verdade, compreenderemos que o Reino de Deus não é o império dos poderosos, mas a comunhão dos que amam. Porque os túmulos dos profetas se tornarão berços da esperança. Toda vez que o amor renasce em meio à perseguição, o Reino da Vida rompe o silêncio da pedra e faz do sepulcro um altar de ressurreição

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,5-13

 
Há textos que o Espírito Santo faz ecoar mais de uma vez na liturgia, como se dissesse: “Vocês ainda não compreenderam tudo o que há aqui.” Lucas 11,5-13 é um desses. Ele atravessa todos os anos litúrgicos, proclamado integralmente no 17º Domingo do Tempo Comum no ano C, em continuidade com o ensinamento do “Pai-Nosso”, e retorna, dividido, nas quartas e quintas-feiras da 27ª semana do Tempo Comum. Essa repetição não é acaso: é insistência do próprio Espírito, que sabe o quanto resistimos em aprender o sentido da oração perseverante. Jesus não fala de pedir como quem busca objetos; fala de permanecer diante do Pai com fé, mesmo quando o silêncio é a única resposta.

A parábola é simples e profundamente humana: um homem, surpreendido pela chegada de um amigo, vai à casa do vizinho à meia-noite para pedir três pães. É um gesto inconveniente, quase absurdo, mas a urgência o move. O vizinho, do lado de dentro, responde: “Não me incomodes; a porta já está fechada, e meus filhos e eu estamos deitados.” Contudo, Jesus afirma que, mesmo que não se levante por amizade, acabará cedendo “por causa da importunação”. E, em seguida, vem a promessa: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei, e vos será aberto.” O contraste final é de uma ternura desarmante: se até os pais humanos, frágeis e limitados, sabem dar boas coisas aos filhos, “quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo àqueles que o pedirem”. Lucas, mais do que qualquer outro evangelista, transforma a oração num lugar teológico de encontro com o Espírito. Em Mateus, o paralelo termina dizendo que o Pai dará “coisas boas”; em Lucas, o dom é o Espírito Santo. É como se Jesus purificasse nossas intenções: não se trata de pedir coisas, mas de deixar que o Espírito seja o dom que nos transforma. A oração não é instrumento de poder, mas caminho de transformação. Deus não é fornecedor de milagres, é presença que amadurece.

O contexto torna o sentido mais claro. Logo antes, os discípulos pedem: “Senhor, ensina-nos a orar.” Jesus lhes ensina o “Pai-Nosso”, e, em seguida, conta esta parábola. A estrutura é pedagógica: primeiro, a forma da oração; depois, o espírito da oração. O “Pai-Nosso” revela quem é Deus e quem somos nós; a parábola revela como devemos perseverar. E não é um convite a uma piedade intimista, mas a uma fé madura, forjada no conflito e na espera. Os discípulos de Jesus enfrentarão prisões, perseguições e injustiças. A oração perseverante será o fôlego da fé, o modo de respirar quando o mundo tentar sufocá-los. O pedido à meia-noite simboliza o clamor humano nas horas sombrias, quando as forças se esgotam e Deus parece distante. É nessas madrugadas da existência que a fé se revela. O homem que pede encarna a alma orante que não desiste; o vizinho relutante, a aparente resistência divina. Os três pães representam o necessário — não o luxo, mas o essencial. Três é o número da plenitude mínima, da suficiência. E o fato de ele pedir não para si, mas para outro — “um amigo me chegou de viagem” — revela a alma intercessora da oração cristã: quem ora verdadeiramente, ora pelo mundo.

A oração é, portanto, compromisso com o bem do outro. Não se reza para fugir, mas para permanecer de pé. O dom prometido, o Espírito Santo, é o sopro que sustenta a comunhão e refaz o amor. Deus não concede qualquer coisa; concede o que nos torna mais humanos. “Bater”, no texto grego, exprime continuidade: “continuem pedindo, continuem buscando, continuem batendo.” A oração é movimento constante, perseverança existencial, estado de abertura. Santo Agostinho dizia que “Deus quer ser vencido pela oração, não porque resista, mas porque deseja despertar o desejo.” A oração muda o orante antes de mudar o mundo.

O contraste da parábola é pedagógico. O vizinho relutante representa o limite humano; Deus, ao contrário, é aquele que abre antes mesmo que batamos. Contudo, Jesus usa a figura do homem cansado para dizer: se até um homem dormindo pode atender, quanto mais o Deus que é Amor. O aparente silêncio de Deus não é indiferença, é pedagogia: Ele amadurece o desejo pela demora, fortalece a fé pela espera.

Essa lógica reaparece em Lucas 18,1-8, com a viúva insistente diante do juiz injusto, e em Mateus 15,21-28, com a mulher cananeia. Em ambos, a insistência é expressão de confiança. O silêncio divino é o ventre da esperança: onde não há resposta, nasce a fidelidade. Orar é suportar o silêncio com amor.

Psicologicamente, essa parábola ensina a lidar com a frustração. Vivemos numa cultura da pressa e do controle; queremos resultados instantâneos, respostas imediatas, orações de “entrega express”. Mas a fé não é aplicativo de entrega, é caminho de gestação. Orar é treinar o coração para esperar. É o exercício espiritual da paciência. Em tempos de ansiedade e burnout, a oração perseverante é revolução interior. O homem da parábola não se fecha, não se resigna; ele age. Ele vai, pede, insiste. Sua oração é ativa. É a imagem da espiritualidade que une contemplação e ação. Pedir, buscar e bater são três dimensões da existência orante: pensar, desejar e agir.

O pedido de  pão no meio da noite remete à cultura da hospitalidade no mundo semita. Acolher o viajante era dever sagrado. Negar pão a um hóspede era desonra coletiva. A parábola, portanto, revela também a conversão social que o Reino exige: abrir a porta da compaixão em meio à indiferença. Na casa trancada está a imagem de um mundo egoísta; no homem que bate, a imagem da Igreja que insiste por justiça. Hoje, as portas fechadas têm outros nomes: templos que não acolhem os pobres, instituições religiosas que protegem estruturas eclesiásticas mas não pessoas, fiéis que confundem espiritualidade com consumo religioso. O chamado de Jesus é claro: abrir as portas.

Orar é, pois, ato político e profético. É a recusa de se conformar com o sistema da indiferença. Cada súplica é um protesto contra o fatalismo. Quando o mundo diz “não há saída”, o orante responde “há um Deus”. A oração insistente é resistência à desesperança. Ela impede que a alma se acomode. O discípulo que ora se torna subversivo da lógica dominante, porque acredita que o amor ainda é possível.

O “bater à porta” é gesto ontológico: o ser humano é aquele que reconhece sua carência e se abre ao Outro. Orar é o gesto do ser incompleto que busca plenitude. A oração destrói o narcisismo espiritual e nos faz seres relacionais. Kierkegaard dizia: “A oração não muda Deus, muda quem reza.” Nela, o desejo egoísta se purifica até se tornar comunhão.

A teologia lucana culmina num ponto de virada: o dom que o Pai dá não são “coisas boas”, mas o Espírito Santo. É um golpe na teologia da prosperidade, que transforma a fé em mercado. O Pai não é distribuidor de milagres, é Amor que dá o que mais precisamos, não o que mais queremos. O Evangelho liberta da idolatria dos milagres, do clericalismo que faz da oração um privilégio, da espiritualidade de palco que transforma a fé em show. Jesus fala de um homem qualquer — um leigo, um vizinho, um amigo —, não de um sacerdote. O Reino começa nas casas, nas cozinhas, nas madrugadas em que alguém ainda ousa bater.

O Vaticano II recorda que todos os batizados participam do sacerdócio comum de Cristo. A oração, portanto, não é monopólio, mas missão compartilhada. E a Gaudium et Spes lembra que as alegrias e dores do mundo são também as da Igreja. Orar é solidarizar-se. A Evangelii Gaudium insiste que a oração missionária abre o coração. O discípulo que ora não foge da realidade; mergulha nela com compaixão. Quem recebe o Espírito se torna pão partilhado.

 Orígenes via nesse homem noturno a alma que busca o Pão da Vida até ser alimentada. João Crisóstomo ensinava que “Deus tarda para acender o desejo do dom”. Gregório Magno dizia: “Se paramos de rezar, o Espírito se apaga em nós.” Para os Padres, orar era manter o fogo aceso — um fogo que se alimenta de paciência.

Sabemos que Lucas escrevia para comunidades cansadas, decepcionadas com o atraso da volta do Senhor. O convite à perseverança era resistência espiritual. O homem que bate à meia-noite é imagem da Igreja que, na escuridão do Império, continua batendo — e, no nosso tempo, continua batendo nas portas da injustiça, das guerras, da desigualdade e da indiferença. A oração é o modo de não desistir do Reino.

Por isso, essa parábola é profundamente profética. Em um tempo em que muitos se acomodam à frieza do mundo e à superficialidade da fé, Jesus nos pede para continuar batendo. Mesmo quando as portas da Igreja se fecham por medo ou elitismo, a fé popular continua insistindo — nas novenas, nas romarias, nas velas acesas nas janelas das periferias. É ali que o Espírito mora: no povo que insiste.

A oração insistente é, portanto, o contrário da resignação. É resistência, é amor que não desiste. Como dizia São Romero da América, “na semana injusta, a oração é a força dos que não têm força.” É essa fé que mantém o mundo respirando. Orar é manter o fogo da esperança aceso nas noites longas da história. Não é fugir, é resistir amando.

Lucas 11,5-13 nos recorda que a fé não é pressa, é perseverança. Orar é insistir na bondade de Deus quando tudo parece contrário. É continuar batendo porque sabemos que, do outro lado, há um Pai — não um tirano, mas um Amor. É aprender a desejar o que Deus quer dar, e não o que nosso ego exige receber. É descobrir que o maior dom não é a resposta, mas o Espírito que nos ensina a esperar.

Que esse Evangelho, repetido ano após ano, encontre em nós um coração que não se cansa de pedir, buscar e bater. Que a insistência se torne forma de amor, e o amor, forma de oração. Que, quando a noite do mundo parecer longa, sejamos nós os amigos que continuam batendo até que a porta da esperança se abra e o pão da vida seja partilhado entre todos.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,51-56

O Evangelho de Lucas, no capítulo 9, versículos 51 a 56, nos coloca diante de um momento decisivo da vida de Jesus: a sua decisão firme de subir a Jerusalém. O texto litúrgico recorda que, “ao se completarem os dias de sua elevação, Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). A liturgia proclama esse trecho específico na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, mas convém lembrar que a narrativa aparece de forma mais ampla, até o versículo 62, no 13º Domingo do Tempo Comum do Ano C, quando o chamado radical ao discipulado se torna ainda mais evidente. Essa contextualização litúrgica é importante porque nos ajuda a perceber como a Igreja distribui, ao longo do ano, os momentos pedagógicos da caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, caminho que é, ao mesmo tempo, histórico e teológico, pessoal e comunitário, pedagógico e profético.

Lucas organiza o Evangelho de tal maneira que Jerusalém se torna o ponto de chegada e, ao mesmo tempo, o lugar da revelação do verdadeiro sentido da missão. Não se trata apenas de um deslocamento geográfico, mas de um caminho de entrega radical, de revelação da identidade messiânica de Jesus e de desmascaramento das falsas compreensões do poder religioso e político. Ao tomar a firme decisão, Jesus se coloca em oposição ao fluxo da história marcada pela dominação imperial de Roma e pela cumplicidade de setores do judaísmo oficial. Essa decisão é também a manifestação da liberdade plena de quem sabe que amar exige atravessar o risco, enfrentar as rejeições e expor-se à violência.

A recusa dos samaritanos em acolher Jesus neste caminho (Lc 9,53) tem raízes históricas e culturais. Os samaritanos não acolheram Jesus nem aqueles que iam a Jerusalém porque a divisão histórica e religiosa entre judeus e samaritanos era profunda. Após a conquista assíria do Reino do Norte, os israelitas foram deportados e povos estrangeiros se estabeleceram na região, misturando-se com os remanescentes locais (2Rs 17,24-34). Essa mistura gerou uma identidade religiosa diferente, centrada no monte Garizim e em práticas que os judeus de Jerusalém consideravam ilegítimas. Para os samaritanos, os judeus representavam exclusão, arrogância e centralização do culto em Jerusalém, o que gerava desconfiança e ressentimento. Assim, qualquer judeu que se dirigisse a Jerusalém era visto como representante de uma tradição que os marginalizava e desautorizava sua fé local, tornando natural a rejeição a Jesus e aos mensageiros que anunciavam a boa nova do Reino.

Quando Tiago e João, inflamados de zelo, pedem que desça fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54), a cena não é apenas histórica, mas profética. Ela denuncia a tentação humana de transformar Deus em instrumento de vingança, poder ou exclusão. No mundo contemporâneo, essa mesma lógica aparece nas polarizações ideológicas que atravessam sociedades inteiras. Há aqueles que, de extrema-direita ou de extrema-esquerda, acreditam que a verdade política ou religiosa que defendem justifica ataques simbólicos ou reais sobre os adversários. A violência não é apenas física; é também cultural, econômica e espiritual. O fogo que Tiago e João queriam fazer cair sobre os samaritanos encontra ecos nos discursos de ódio que se espalham entre setores de diferentes tradições políticas, muitas vezes travestidos de zelo religioso ou moral.

Entre católicos e evangélicos, por exemplo, percebe-se a mesma tentação de fazer “descer fogo” sobre o outro. É a disputa pelo controle do discurso público, o julgamento moral, a demonização do diferente, transformando a fé em arma de imposição. Entre cristãos e grupos de matriz africana, essa mesma lógica se manifesta quando há tentativa de deslegitimar práticas religiosas ou de coagir sincretismos, esquecendo que o Evangelho de Jesus atravessa fronteiras culturais e reconhece a alteridade como parte da criação divina. A recusa em acolher o diferente, que Jesus confronta na Samaria, se repete hoje quando se deseja impor uma fé única e uniforme, negando a pluralidade legítima da experiência humana.

Essa lógica de exclusão também se observa nas tensões entre heterossexuais e a comunidade LGBTQIAPN+. Muitos querem transformar diferenças de orientação e identidade em justificativa para discriminação, agressão simbólica ou até física, ignorando o princípio cristão da dignidade de cada pessoa, criada à imagem de Deus (Gn 1,27). O fogo que se deseja fazer cair sobre os outros é sempre expressão de medo, insegurança e incapacidade de conviver com a alteridade. Lucas nos lembra, com clareza, que a missão de Jesus não é consumir ou destruir, mas atravessar as barreiras do ódio e da incompreensão, abrindo caminho para reconciliação e diálogo.

A polarização religiosa e ideológica, portanto, não é neutra. Ela reproduz a lógica de Tiago e João, que preferem a destruição do outro à paciência pedagógica de Jesus. Extremismos de qualquer lado — políticos, religiosos ou culturais — tendem a reduzir a complexidade do humano, transformando pessoas em inimigos a serem apagados. A repreensão de Jesus é, assim, uma advertência atemporal: Deus não é instrumento de vingança, e o verdadeiro discípulo não se deixa arrastar pela lógica da intolerância, mas pela coragem de caminhar, dialogar e testemunhar o amor, mesmo diante da rejeição.

Jerusalém  é o lugar do poder religioso e político, mas também o lugar do sacrifício pascal. Ao decidir subir a Jerusalém, Jesus sabe que enfrentará o sinédrio, Herodes, Pilatos e o templo transformado em mercado (cf. Lc 19,46). Ele caminha para o coração do sistema que transforma a fé em mercadoria, que instrumentaliza Deus para legitimar privilégios. Essa crítica é profundamente atual diante das novas formas de “templo” erigidas por pastores digitais, padres empresários e políticos messiânicos, que vendem prosperidade e domínio como se fossem o Evangelho. A teologia da prosperidade, ao prometer bênçãos materiais em troca de dízimos e fidelidade, repete a lógica da barganha que Jesus denunciou. A teologia do domínio, ao confundir fé com poder político e imposição cultural, reedita o pedido dos discípulos: fazer descer fogo contra os outros. Ambas negam a cruz, porque não aceitam que a vitória de Deus se manifeste na fragilidade do amor crucificado. Orígenes, comentando este trecho, dizia que Jesus não veio para destruir os pecadores, mas para destruir o pecado, e que o fogo que ele traz não é o da vingança, mas o da purificação interior. Santo Agostinho, por sua vez, advertia que os discípulos, ao pedirem fogo, estavam cegos pelo desejo de glória humana, enquanto o Mestre os chamava a um caminho de humildade. Essa tensão entre a tentação da glória e a pedagogia da cruz atravessa toda a história da Igreja, manifestando-se hoje no clericalismo, que transforma o ministério em privilégio, e na religião-espetáculo, que busca aplausos em vez de conversão.

Aqui  se revela  uma cena  de um confronto entre duas concepções de poder: a potência como dom de si ou a potência como imposição sobre o outro. Nietzsche criticava o cristianismo como moral dos fracos; mas, em Jesus, vemos que a verdadeira força não está em dominar, mas em entregar-se. Hannah Arendt lembrava que a violência nunca cria poder verdadeiro, apenas destrói; poder autêntico nasce do consenso, da palavra e da ação conjunta. Jesus, ao rejeitar o fogo da vingança, funda um poder novo, que é o poder do amor reconciliador.

Precisamos  saber que as culturas humanas sempre usaram o sagrado como justificativa para eliminar inimigos. René Girard mostrou como os mecanismos do bode expiatório estruturaram sociedades inteiras, legitimando a violência contra minorias. Jesus, ao repreender os discípulos, rompe com essa lógica sacrificial: ele não autoriza a violência, mas se oferece a si mesmo como vítima inocente, revelando a injustiça do sistema e abrindo o caminho da reconciliação.

O Magistério da Igreja também insiste nessa chave. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 78), afirma que a paz nunca é fruto da violência, mas da justiça e do amor. A Evangelii Gaudium (n. 93-97) denuncia a mundanidade espiritual que leva muitos a buscar prestígio e poder em nome da fé. E a Fratelli Tutti (n. 25-28) recorda que as guerras e divisões sempre nascem da incapacidade de reconhecer o outro como irmão. Assim, ao repreender os discípulos, Jesus já antecipa o coração do Evangelho social: não se trata de excluir, mas de abrir espaço para o encontro.

Se olharmos para os paralelos sinóticos, veremos que esse episódio é exclusivo de Lucas, mas a lógica da rejeição e da incompreensão aparece em Marcos e Mateus em outras formas, como na rejeição de Jesus em Nazaré (Mc 6,1-6; Mt 13,54-58) ou no envio dos discípulos em meio a perseguições (Mt 10,16-23). O tema é constante: seguir Jesus significa enfrentar incompreensões, rejeições, até mesmo da parte dos mais próximos. A Samaria é, assim, um espelho das nossas próprias resistências: quantas vezes recusamos acolher Jesus porque ele não vem confirmar nossos preconceitos, mas desinstalar nossas seguranças?

O texto conclui de modo sóbrio: “E seguiram para outra aldeia” (Lc 9,56). Não há vingança, não há fogo, não há espetáculo. Apenas a continuidade do caminho. Jesus não se prende à recusa, não perde tempo em guerras inúteis. Ele segue adiante, porque sua missão é maior do que as pequenas disputas humanas. Esse detalhe é profundamente pedagógico: a Igreja também precisa aprender a seguir adiante, sem se enredar em polarizações vazias, sem gastar energia em guerras culturais que apenas alimentam o ódio.

O caminho para Jerusalém é, portanto, o caminho da fidelidade ao amor até o fim. É o caminho que rejeita o clericalismo, a fé como mercadoria, a violência travestida de zelo, a religião que se vende ao poder. É o caminho que chama cada discípulo a vencer a tentação de fazer descer fogo sobre os outros, para deixar que o fogo do Espírito desça primeiro sobre si. Só assim a missão se cumpre, e a história encontra novo rumo.

DNonato – Teólogo do Cotidiano