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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 13,31-35

Jesus não apresenta o Reino de Deus como espetáculo de poder nem como estrutura opressora. Ele o revela em imagens simples: a semente de mostarda, o fermento na massa. Em vez de exibir grandeza, aponta para o invisível que transforma conforme Mateus 13, 31-35.  (Texto que visitei ontem) Esse Reino não se impõe,  germina, silencia, espera, age por dentro. Está presente no cotidiano como o grão que rompe a terra ou o fermento que leveda a massa. É a pedagogia divina do pequeno.
Mas o Evangelho de Lucas 13,31-35, proclamado na quinta-feira  da 30ª Semana.do Tempo Comum, revela a profundidade de uma pedagogia divina que se manifesta de forma silenciosa, paciente e persistente, desafiando as expectativas humanas de poder, espetáculo e rapidez. Este trecho, curto em extensão, é vasto em significado, pois retrata Jesus confrontando a lógica da violência e da opressão, representada por Herodes, e ao mesmo tempo lamentando a resistência de Jerusalém em acolher a ação de Deus. No anúncio do Reino, encontramos a pedagogia do pequeno, da vulnerabilidade e da esperança que se manifesta no tempo da história, no cotidiano e na intimidade do coração humano.
A narrativa começa com a advertência de que Herodes deseja eliminar Jesus: “Vai embora, pois Herodes quer matar-te” (Lc 13,31). Historicamente, Herodes Antipas é símbolo do poder humano, da coerção e da vigilância do Estado sobre os indivíduos. Ele representa a lógica da segurança pessoal e do controle social, da qual a teologia da prosperidade e do domínio são, em nossos dias, uma atualização disfarçada: a fé vinculada a prestígio, lucro ou controle. Psicologicamente, este momento reflete a tensão entre instinto de sobrevivência e vocação profética. Jesus, consciente da ameaça, não se submete, mas responde com autoridade moral: “Ide e dizei àquela raposa…” (Lc 13,32). A escolha da palavra “raposa” possui carga simbólica: indica astúcia, violência sutil e destruição silenciosa. No Antigo Testamento, a raposa surge como metáfora de destruição oculta ou de ameaça pequena, porém persistente (cf. Naum 1,14; Salmo 63,10), e Jesus a utiliza para criticar não apenas Herodes, mas toda lógica de poder que confunde força com autoridade legítima. O aviso de Herodes é também pretexto para que Jesus reafirme o modo como o Reino se constrói: invisível, paciente e atento às pessoas. A pedagogia do pequeno manifesta-se nos detalhes da história e da vida cotidiana, como mostram as imagens de Lucas: a semente de mostarda, o fermento na massa, o grão que precisa morrer para frutificar (Lc 13,18-21; Jo 12,24). Estas imagens indicam que o Reino de Deus não se impõe; germina silenciosamente, age por dentro, transforma estruturas, relações e corações sem recorrer à violência ou à exibição.
No clímax da passagem, Jesus lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, e não quiseste!” (Lc 13,34). Este lamento não é apenas uma denúncia de violência histórica; é também um gesto teológico e simbólico. A galinha, símbolo de cuidado materno e proteção, revela a pedagogia de Deus: a intimidade, a atenção e a paciência são mais poderosas que qualquer dominação externa. Jeremias havia anunciado uma disciplina de amor semelhante (Jr 31,20), e Oséias, no início da história de Israel, comparou o cuidado divino ao recolhimento da criança pelo colo materno (Os 11,3-4). A psicologia moderna, especialmente na abordagem da ética do cuidado, reconhece que a proteção, a atenção e a escuta ativa constituem elementos essenciais para o desenvolvimento emocional e social do indivíduo; sem isso, a sociedade se torna vulnerável à violência, ao medo e à alienação.
O paralelo com os Sinóticos revela diferentes nuances desta mesma realidade. Mateus 23,37-39 ecoa o lamento de Jesus sobre Jerusalém, destacando o contraste entre o desejo divino de reunir e a rejeição humana persistente. Marcos 13,34-37 enfatiza a vigilância constante e a ação invisível do Reino, lembrando que o amor e a fidelidade não se medem em resultados imediatos ou visíveis. Lucas combina estas perspectivas, mostrando que a pedagogia divina exige tempo, paciência e presença silenciosa, e que o crescimento do Reino depende da transformação interior, da abertura ao cuidado e da rejeição à lógica da dominação.
Os símbolos presentes no texto são múltiplos e significativos. Jerusalém representa o centro da história, o locus do povo escolhido, mas também a resistência humana ao amor e à justiça. A galinha e os pintinhos simbolizam a vulnerabilidade, a proteção e a necessidade de cuidado. Os profetas mortos ou rejeitados apontam para a persistência da violência estrutural, social e religiosa, denunciando a hipocrisia e a cegueira moral. A repetição do nome Jerusalém enfatiza a intensidade da frustração divina, mas também revela a paciência infinita de Deus. A hermenêutica patrística percebe nesta cena uma convocação à fidelidade silenciosa, à intercessão persistente e à esperança paciente: Santo Agostinho adverte que não se desprezam os pequenos começos, e São Gregório Magno reforça que a semente cresce no seu tempo, sem pressa, mas com zelo fiel.
A pedagogia do pequeno subverte todas as linhas de fé que buscam espetáculo, lucro ou poder. A teologia da prosperidade, ao vincular bênção a sucesso e riqueza, esquece que o Reino começa invisível, na vulnerabilidade, no cuidado e na justiça silenciosa. O clericalismo, que confunde autoridade com prestígio, também se distancia do modelo de Jesus, que viveu trinta anos no anonimato, lavou pés, cuidou dos marginalizados e pregou uma justiça que não se impõe, mas se oferece.
A pedagogia do pequeno também exige solidariedade concreta. Tiago afirma que “a religião pura e imaculada consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27), e Paulo exorta: “Cada um cuide também dos interesses dos outros” (Fl 2,4). O Reino não é individualista; não é privilégio de poucos, mas comunhão, corpo e vínculo. Este princípio desafia o individualismo religioso contemporâneo, a fé como espetáculo ou mercadoria e a busca por visibilidade. A verdadeira fé transforma o mundo através da solidariedade, da justiça e do cuidado silencioso, não do prestígio ou do lucro.
Os documentos da Igreja reforçam este compromisso. Evangelii Gaudium afirma que “o tempo é superior ao espaço” (EG, 222), lembrando que a ação de Deus não depende de conquista de territórios, mas de transformação paciente da história e das pessoas. Fratelli Tutti enfatiza que “a caridade política é a forma mais alta da caridade” (FT, 180), mostrando que o Reino se manifesta na justiça social, no cuidado pelo outro, no compromisso ético e político com a dignidade humana. A patrística também enriquece a compreensão: Santo Agostinho, São Gregório Magno e Santa Teresinha evidenciam que a fidelidade aos pequenos gestos, a paciência, a atenção aos detalhes e a confiança no tempo de Deus são caminhos seguros para a construção do Reino
Historicamente, Lucas apresenta Jerusalém como locus de rejeição e violência, mas também como palco da esperança e da ação paciente. O povo de Israel esperou séculos pelo Messias. Abraão foi escolhido apesar de velho e sem filhos (Gn 17,5), Moisés foi chamado apesar de suas limitações (Ex 3,11) e Davi foi ungido mesmo sendo o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, reafirma que Deus escolhe os fracos e desprezados para confundir os fortes e orgulhosos. Essa pedagogia histórica não se submete à pressa; ela cresce em silêncio, na fidelidade cotidiana, na presença paciente do amor.
O fermento da massa (Lc 13,20-21) é outro símbolo da ação do Reino: transforma de dentro para fora, sem alarde. Ele é a antítese do “fermento dos fariseus” (Lc 12,1; Mt 16,6), que simboliza legalismo, hipocrisia e controle. Psicologicamente, o fermento revela o poder da influência sutil, da transformação interior, do cultivo de virtudes. Sociologicamente, indica que mudanças profundas nas estruturas sociais dependem da ação paciente de indivíduos comprometidos, e não da coerção ou da força bruta. Filosoficamente, aponta para a ética da transformação, em que a virtude cresce através de hábitos, cuidado e disciplina, e não pela imposição externa.
O Evangelho, assim, nos convoca a uma espiritualidade ativa: ser fermento e semente no cotidiano, transformar corações e estruturas sem buscar reconhecimento, visibilidade ou lucro. Como afirma Gálatas 6,9: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo oportuno colheremos, se não desanimarmos.” O Salmo 126 reforça: “Os que semeiam em lágrimas colherão com alegria.” Apocalipse 3,8 lembra que mesmo a Igreja pequena e fiel é amparada: “Tens pouca força, mas guardaste a minha Palavra. Eis que pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar.” A força do Reino está na fraqueza (2Cor 12,9), seu poder no serviço (Mt 20,26-28), sua glória na cruz (Gl 6,14) e sua vitória no amor (Jo 13,1).
Por isso, somos chamados a cultivar a espiritualidade do pequeno. A confiar na semente lançada, mesmo sem ver os frutos. A ser fermento na massa da humanidade: na sala de aula, na fábrica, no hospital, na comunidade, no campo e na cidade. O Reino precisa de gente que semeia em silêncio e mistura a justiça nas estruturas da vida comum.
DNonato — Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 12,54-59

Há palavras de Jesus que atravessam os séculos porque não se deixam aprisionar pelas circunstâncias em que foram pronunciadas. Lucas 12,54-59 pertence a essa categoria de textos que incomodam a consciência, desmascaram a religiosidade acomodada e convocam homens e mulheres a reconhecer a presença de Deus na história. Na liturgia romana, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 29ª Semana do Tempo Comum sendo a continuidade do texfo do dia anterior Lucas 12, 49-53 . Sua proximidade com os ensinamentos sobre a vigilância, a responsabilidade e as divisões provocadas pela missão de Jesus não é acidental: a Palavra conduz a comunidade da escuta à decisão, da observação dos acontecimentos ao compromisso com a justiça. Nas Igrejas históricas do Oriente e do Ocidente, as tradições de leitura bíblica também preservam a exigência de conversão e discernimento, embora os calendários e as perícopes variem conforme cada tradição. Por isso, não se deve presumir que todas proclamem esta passagem no mesmo dia. O que permanece comum à fé cristã é a convicção de que a Escritura não foi dada para ornamentar cerimônias, mas para iluminar a existência e transformar a relação com Deus, com o próximo e com o mundo. Jesus dirige-se às multidões e pergunta por que conseguem interpretar o aspecto da terra e do céu, mas não discernem o tempo presente. A pergunta nasce de uma contradição humana que continua atual: somos capazes de desenvolver instrumentos sofisticados para prever fenômenos naturais, calcular mercados, medir comportamentos e administrar sistemas, mas frequentemente não percebemos as consequências morais das decisões que tomamos. Podemos identificar uma tempestade aproximando-se e, ao mesmo tempo, permanecer indiferentes à tempestade que desabriga famílias, destrói comunidades e aprofunda desigualdades. Podemos reconhecer os sinais de uma crise econômica e ignorar os trabalhadores submetidos à precariedade. Podemos conhecer os números da violência e habituar-nos ao sofrimento das vítimas. A advertência de Jesus não condena o conhecimento, a ciência ou a inteligência humana; denuncia a inteligência colocada a serviço da conveniência, incapaz de reconhecer a exigência ética inscrita na realidade. O problema não é falta de informação, mas a resistência em aceitar aquilo que a informação revela sobre nossa responsabilidade.
Para compreender a força dessa palavra, é necessário situá-la no contexto narrativo de Lucas e ler o texto proclamado na quinta-feira da 29ª semana do.Tempo Comum. Nos versículos anteriores, Jesus fala do fogo que veio lançar sobre a terra e da divisão que sua missão provocaria, inclusive dentro das famílias (Lc 12,49-53). Antes disso, exorta os discípulos à vigilância, denuncia a falsa segurança dos bens acumulados e adverte contra a administração irresponsável daquilo que foi confiado a cada pessoa (Lc 12,13-48). O capítulo inteiro confronta a ilusão de que seja possível viver sem prestar contas da própria existência. A riqueza não protege contra a fragilidade, a autoridade não elimina a responsabilidade e a pertença religiosa não dispensa a conversão. Quando Jesus se volta para as multidões, sua pergunta sobre os sinais do tempo reúne esses temas: diante da presença do Reino, não basta escutar, admirar ou permanecer emocionalmente comovido. É preciso interpretar a realidade à luz da vontade de Deus e escolher um caminho coerente com ela. A Palavra não permite que a fé se transforme em abrigo contra a história, porque o Deus de Israel age dentro dela e chama seu povo a responder.
Na Palestina do primeiro século, observar os ventos e as nuvens fazia parte da experiência cotidiana de comunidades dependentes da agricultura, da criação de animais e das chuvas sazonais. A nuvem que chegava do ocidente, em direção ao Mediterrâneo, podia anunciar precipitação; o vento vindo do sul, associado a regiões quentes e áridas, anunciava calor intenso. Essas observações não eram previsões infalíveis, mas conhecimentos acumulados pela convivência com o ambiente. Jesus utiliza essa sabedoria popular para construir uma comparação compreensível aos ouvintes. Se as pessoas conseguem relacionar sinais visíveis a consequências prováveis, por que não reconhecem o significado de sua própria presença, de seus ensinamentos e de suas ações? Os sinais do Reino não são enigmas reservados a especialistas, nem códigos secretos para grupos que afirmam possuir acesso privilegiado à vontade divina. Manifestam-se na libertação dos oprimidos, na cura dos enfermos, no acolhimento dos excluídos e na restauração da dignidade humana, como mostram Lc 4,16-21 e Lc 7,18-23.
  • A expressão grega kairós, traduzida como tempo ou momento oportuno, indica aqui mais do que a sucessão cronológica dos acontecimentos. 
  • Chronos designa o tempo em sua dimensão sucessiva, enquanto kairós pode expressar a ocasião decisiva, o momento carregado de significado e possibilidade. 
Essa distinção ajuda a compreender a urgência da mensagem, embora não deva ser transformada numa oposição absoluta entre dois conceitos que, na linguagem bíblica, possuem usos diversos. Jesus anuncia que algo decisivo está acontecendo: a proximidade do Reino exige discernimento e resposta. O tempo da conversão não pode ser indefinidamente adiado, porque cada oportunidade desperdiçada consolida hábitos, estruturas e relações que tornam a mudança mais difícil. Paulo expressa urgência semelhante ao escrever que chegou a hora de despertar do sono (Rm 13,11-12). A questão não é descobrir uma data secreta para o fim do mundo, mas perceber o que Deus exige de nós no presente. A escatologia cristã, quando compreendida corretamente, não alimenta a fuga da realidade; fortalece a responsabilidade diante dela.
O termo hipócritas, empregado por Jesus,. No mundo antigo, a palavra podia designar o ator que representava um papel, mas, no uso moral do Evangelho, aponta para a distância entre aquilo que alguém aparenta e aquilo que efetivamente vive. A crítica não autoriza desprezar indiscriminadamente os judeus, os fariseus ou qualquer grupo religioso. Jesus pertence ao povo judeu, participa de suas tradições e dirige sua denúncia a partir da própria herança profética de Israel. Sua palavra deve ser compreendida como crítica à incoerência humana e religiosa, não como justificativa para antijudaísmo. Os profetas já haviam denunciado uma piedade que preservava sacrifícios enquanto tolerava a exploração. 
  • Amós 5,21-24 rejeita o culto separado da justiça; Isaías 1,11-17 associa a purificação religiosa à defesa do órfão e da viúva
  • Miqueias 6,6-8 resume a exigência divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. 
Jesus não inventa uma fé indiferente à sociedade para depois corrigi-la: ele recupera e radicaliza a exigência ética presente nas Escrituras de Israel. A Galileia e a Judeia estavam inseridas na ordem imperial romana, marcada por tributação, hierarquias sociais, concentração de recursos e relações desiguais de poder. A população rural enfrentava obrigações econômicas que podiam comprometer a subsistência, enquanto elites locais participavam, em diferentes graus, da administração e da preservação da ordem estabelecida. A situação não era idêntica em todos os lugares nem pode ser reduzida a uma descrição uniforme de miséria, mas a desigualdade e a vulnerabilidade econômica faziam parte da experiência de muitos camponeses. Nesse mundo, falar de discernimento significava também perceber que a realidade política e social não estava separada da responsabilidade religiosa. O Reino anunciado por Jesus não se identifica simplesmente com um programa partidário ou com a substituição de um governo por outro, mas questiona toda ordem que absolutiza o poder e sacrifica pessoas à manutenção de privilégios. Sua força profética reside em revelar que nenhuma instituição humana está acima do juízo ético de Deus.
A mesma advertência alcança a sociedade contemporânea, na qual a abundância de dados nem sempre produz consciência crítica. Informações circulam continuamente, mas são selecionadas por interesses econômicos, estratégias políticas e mecanismos digitais que podem favorecer indignação instantânea, desinformação e polarização. A pessoa pode acreditar que está bem informada porque recebe diariamente notícias alinhadas às próprias convicções, embora permaneça incapaz de escutar argumentos diferentes ou verificar a veracidade do que compartilha. Discernir exige mais do que reagir: implica examinar fontes, reconhecer interesses, distinguir fatos de interpretações e considerar as consequências humanas das escolhas coletivas. A fé cristã não dispensa essa responsabilidade intelectual. Ao contrário, a busca da verdade pertence ao compromisso com o próximo, pois a mentira deliberada pode destruir reputações, alimentar perseguições e justificar violências. Quando a religião se torna instrumento de propaganda, perde sua capacidade de julgar os poderes e passa a abençoar interesses que deveria submeter à crítica do Evangelho.
A passagem, entretanto, não termina com a denúncia dos sinais mal interpretados. Jesus pergunta por que os ouvintes não julgam por si mesmos o que é justo e, em seguida, apresenta a imagem de duas pessoas que caminham em direção ao magistrado. Enquanto estão a caminho, a parte envolvida deve procurar resolver a disputa, para evitar que o processo avance e termine em prisão. A mudança de imagem é decisiva. O discernimento não se comprova apenas por uma interpretação correta da realidade; manifesta-se na capacidade de tomar decisões justas antes que as consequências se tornem mais graves. O caminho representa a oportunidade ainda disponível, e o tribunal recorda que ações e omissões produzem consequências. O texto não oferece uma descrição completa do sistema jurídico romano nem deve ser reduzido a uma alegoria em que cada personagem corresponda obrigatoriamente a uma figura divina. Sua força imediata é prática: quando existe possibilidade de reconciliação, adiar indefinidamente a solução pode aprofundar o conflito e aumentar o sofrimento.
A recomendação de resolver a questão durante o caminho não significa que toda disputa deva terminar em acordo, independentemente da verdade ou da segurança das pessoas envolvidas. A reconciliação cristã não exige que vítimas de violência permaneçam junto de seus agressores, nem que pessoas exploradas renunciem à justiça para preservar uma aparência de paz. Em situações de abuso, coerção ou ameaça, buscar proteção, estabelecer limites e recorrer às autoridades competentes pode ser necessário. A justiça bíblica não é cumplicidade com o agressor, e o perdão não elimina automaticamente as consequências legais e sociais de uma conduta. A imagem de Jesus denuncia sobretudo a negligência que deixa o conflito crescer quando ainda existe possibilidade de agir com responsabilidade. Há momentos em que a reconciliação requer verdade, reparação, reconhecimento do dano e mudança concreta. Sem esses elementos, a paz pode tornar-se apenas o silêncio imposto a quem sofreu.
A referência à prisão e ao último centavo acrescenta gravidade à advertência. Jesus apresenta uma consequência extrema para mostrar que certas decisões, uma vez consumadas, restringem a liberdade de quem poderia ter agido antes. A imagem não deve ser usada para afirmar que Deus mantém uma contabilidade mecânica de dívidas humanas ou que toda prisão corresponde a um castigo divino. A linguagem do Evangelho convoca à responsabilidade, não à construção de uma teologia do terror. No conjunto de Lucas, a misericórdia de Deus permanece inseparável do chamado à conversão.
  •  O pai acolhe o filho que retorna (Lc 15,11-32)
  • Jesus oferece perdão e nova possibilidade de vida (Lc 7,36-50) 
  • O crucificado dirige uma palavra de esperança ao condenado que reconhece sua situação (Lc 23,39-43).
A misericórdia não banaliza o mal; abre um caminho para que a verdade seja enfrentada sem que a pessoa seja reduzida definitivamente ao seu erro.
  • Mateus apresenta uma tradição paralela em Mt16,1-4. Nesse episódio, fariseus e saduceus pedem a Jesus um sinal do céu para colocá-lo à prova. A resposta associa a leitura das condições atmosféricas à incapacidade de reconhecer os sinais dos tempos e culmina na referência ao sinal de Jonas. A ênfase mateana recai sobre a exigência de um sinal extraordinário e sobre a resistência daqueles que desejam submeter a ação de Deus às próprias condições. 
  • Marcos 8,11-13 também relata a exigência de um sinal por parte dos fariseus, seguida pela recusa de Jesus, mas não reproduz a comparação meteorológica presente em Lucas e Mateus. Não se deve, portanto, atribuir a Marcos palavras que seu relato não contém.
Em Lucas 12,54-56, por sua vez, Jesus dirige-se às multidões e destaca a contradição entre a competência cotidiana e a incapacidade de discernir o presente. As diferenças de cenário, interlocutores e formulação mostram que os evangelistas organizam tradições de Jesus segundo seus propósitos narrativos e teológicos.  Existe ainda uma aproximação significativa entre Lc 12,58-59 e Mt 5,25-26. No Sermão da Montanha, Mateus aconselha a reconciliação com o adversário durante o caminho para o tribunal, antes que a disputa resulte em prisão. Em Lucas, a imagem integra a exortação sobre o discernimento do tempo e a necessidade de reconhecer o que é justo. Essa aproximação evidencia um tema comum da tradição de Jesus: a urgência da reconciliação e a responsabilidade pelas consequências das relações rompidas. Em Mateus, a passagem aparece dentro de uma instrução mais ampla sobre a justiça que deve superar a mera observância exterior, incluindo a reconciliação entre irmãos (Mt 5,21-26). Em Lucas, a sequência aproxima discernimento histórico e decisão moral. Em ambos, a fé não se reduz a uma declaração interior; exige atitudes concretas que enfrentem a hostilidade e impeçam que o ressentimento governe a vida. Essa unidade entre fé e prática atravessa toda a Bíblia. 
  • Jeremias denuncia aqueles que proclamam a segurança do templo enquanto praticam injustiça (Jr 7,1-11).
  •  Ezequiel questiona os pastores que se alimentam às custas do rebanho e abandonam as ovelhas frágeis (Ez 34,1-10).
Jesus retoma essa crítica quando condena dirigentes que impõem fardos aos outros sem assumir a responsabilidade de servi-los (Mt 23,1-12). Tiago, por sua vez, afirma que a fé sem obras está morta e denuncia comunidades que honram os ricos enquanto humilham os pobres (Tg 2,1-17). Esses textos impedem que Lucas 12 seja interpretado como uma advertência exclusivamente privada, limitada à preparação individual para a morte. A responsabilidade pessoal é indispensável, mas se realiza também nas estruturas econômicas, nas decisões públicas, nas práticas comunitárias e nas relações de poder. A conversão bíblica não termina na consciência: transforma os comportamentos e questiona os mecanismos que produzem sofrimento evitável. Por isso, a desigualdade social constitui um campo incontornável de discernimento. Quando famílias não conseguem acesso adequado à alimentação, à moradia, à saúde e à educação, não basta atribuir sua situação à falta de esforço individual. É necessário examinar as condições de trabalho, a distribuição de oportunidades, as políticas públicas e os mecanismos de exclusão que restringem a liberdade real das pessoas. A responsabilidade pessoal existe, mas não apaga a responsabilidade coletiva nem transforma privilégios herdados em mérito absolutoe o Evangelho não oferece uma fórmula econômica pronta, mas estabelece critérios morais exigentes: a dignidade de cada pessoa, a prioridade do cuidado com os vulneráveis e a rejeição da riqueza convertida em ídolo. Em Lc 16,19-31, a distância entre o rico e Lázaro revela uma indiferença que termina em condenação moral. Em Mt 25,31-46, o encontro com Cristo é associado ao modo como tratamos quem tem fome, sede, está desabrigado, doente ou encarcerado. O sinal de Deus não deve ser procurado apenas em acontecimentos extraordinários, mas também no rosto daqueles cuja dignidade a sociedade prefere não enxergar.
A violência exige discernimento igualmente rigoroso com a  naturalização de mortes, o desprezo pelas vítimas, a celebração da vingança, a transformação de adversários em inimigos absolutos e a política  de armas para todos contradizem a dignidade humana proclamada pelo Evangelho. Jesus não podemos  confundi  justiça com brutalidade,  nem autoridade com licença para humilhar, matar etc. Quando repreende o discípulo que recorre à espada durante sua prisão, recusa a lógica segundo a qual a causa justa legitima qualquer meio (Mt 26,51-52). Isso não elimina a necessidade de proteger pessoas ameaçadas ou de responsabilizar quem pratica crimes. Exige, antes, que a segurança pública esteja comprometida com a vida, a legalidade e a proteção de todos, inclusive dos mais vulneráveis. Uma sociedade que só reconhece a dor de determinados grupos e considera descartáveis os demais perdeu a capacidade de discernir moralmente. O cristão é chamado a defender as vítimas, combater a impunidade e recusar a desumanização, sem transformar o sofrimento alheio em espetáculo ou instrumento de ódio.
Precisamos  discernir as formas de manipulação religiosa que utilizam o nome de Deus para conquistar obediência, riqueza ou influência política e nosso voto. A promessa de prosperidade automática, a comercialização da bênção e a ideia de que a fidelidade espiritual garante sucesso material distorcem a mensagem bíblica quando convertem a graça em mercadoria e atribuem a pobreza à insuficiência da fé. A teologia do domínio, quando procura submeter a sociedade ao controle de determinados grupos religiosos, confunde missão evangelizadora com conquista de poder através de políticos de índole duvidosa. O Reino de Deus não se estabelece pela imposição de uma identidade religiosa, mas pelo testemunho da verdade, da justiça, da misericórdia e do serviço. A crítica vale também para os os diáconos,  padres, bispos católicos e demais igrejas, que transforma ministérios em privilégios e dificulta a participação responsável dos fiéis. Em Mc 10,42-45, Jesus contrapõe o modo de governar dos poderosos àquele que deve caracterizar seus discípulos: servir, em vez de dominar. A autoridade eclesial perde legitimidade evangélica quando se protege da prestação de contas ou silencia pessoas para conservar prestígio.
A tradição cristã  na patrística nos  oferece recursos para aprofundar esse discernimento.
  •  Agostinho, ao refletir sobre o tempo nas Confissões, livro XI, investiga a experiência humana do passado, do presente e do futuro, mostrando como a consciência vive a memória, a atenção e a expectativa. Sua reflexão não equivale a um comentário direto de Lucas 12,54-59, mas ajuda a compreender por que o presente exige responsabilidade: é nele que a memória pode ser corrigida e a esperança transformada em ação. 
  • João Crisóstomo, em sua pregação, insistiu repetidamente na incompatibilidade entre honrar Cristo no culto e desprezá-lo nos pobres. Sua exortação pastoral recorda que a celebração cristã perde coerência quando a caridade não alcança a vida concreta. 
Nos tempos atuais  onde há  católicos  mais católicos  que o papa,  o povo escolhe  a verdade que lhe  convém  ou lhe convence e frequentemente resistem a informações que ameaçam sua identidade, seus interesses ou a imagem que construíram de si mesmos. A negação, a racionalização e a projeção podem funcionar como mecanismos de defesa diante da culpa e do medo. No plano coletivo, esses processos ajudam a explicar por que grupos inteiros justificam práticas injustas enquanto se apresentam como moralmente superiores. A linguagem teológica chama à conversão essa passagem da autodefesa para o reconhecimento da verdade. O exame de consciência, quando realizado com honestidade, não é instrumento de autodesprezo, mas caminho de liberdade. Reconhecer a própria participação em relações injustas permite interromper hábitos, reparar danos e construir formas mais responsáveis de convivência. O discernimento cristão exige coragem para rever convicções, escutar os atingidos pelas decisões e aceitar que a fidelidade a Deus pode questionar tradições humanas que pareciam intocáveis.
No horizonte da doutrina social católica, essa responsabilidade possui dimensões pessoais, comunitárias e institucionais. 
  • A Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, afirma a dignidade da pessoa humana e a necessidade de examinar os sinais dos tempos à luz do Evangelho. 
  • A Dignitatis Humanae defende a liberdade religiosa e rejeita a coerção em matéria de fé, reconhecendo que a resposta religiosa deve ser livre. Isso não significa que toda opinião seja imune à crítica, mas que a consciência não pode ser forçada a crer por violência ou imposição. 
  • A Evangelii Gaudium critica uma Igreja autorreferencial e convoca a comunidade cristã a sair de si mesma para encontrar as periferias humanas. 
  • A Laudato Si’ relaciona a crise ambiental à degradação social, mostrando que os danos ecológicos atingem de modo desproporcional as populações vulneráveis. 
  • A Fratelli Tutti desenvolve a fraternidade e a amizade social como exigências de uma política orientada ao bem comum. Esses documentos não substituem o texto bíblico; ajudam a discernir suas implicações diante de desafios históricos concretos.
A história das Igrejas demonstra que a linguagem religiosa pode servir tanto à libertação quanto à opressão. Essa contradição ganha particular relevância à luz de Lucas 12,54-59, quando Jesus questiona a capacidade de seus contemporâneos de interpretar os sinais dos tempos, embora nem sempre consigam compreender as exigências do momento em que vivem. O problema não é apenas a dificuldade de perceber a realidade, mas a resistência em reconhecer o que ela exige de cada pessoa e de suas instituições. Ao longo dos séculos, comunidades cristãs participaram de mecanismos de censura, coerção e perseguição, inclusive em processos inquisitoriais distintos conforme os contextos históricos e políticos. Não é rigoroso reduzir todas as inquisições a um único sistema, nem equiparar indistintamente as experiências católicas e protestantes. Compreender as particularidades históricas, porém, não significa minimizar os abusos, mas identificar suas causas e responsabilidades. Quando uma instituição utiliza o medo para silenciar perguntas, protege abusadores ou transforma divergências em infidelidade a Deus, ela deixa de acolher a exigência evangélica da verdade e passa a defender a si mesma. O discernimento pedido por Jesus começa justamente quando a fé deixa de ser instrumento de autoproteção institucional e se torna disposição para reconhecer os próprios erros, reparar injustiças e mudar de direção.
Essa leitura também ilumina a crise ambiental. Jesus recorre às nuvens e aos ventos para mostrar que a realidade apresenta sinais que podem ser interpretados por quem observa atentamente (Lc 12,54-55). Embora o contexto original da passagem trate da capacidade de discernir o tempo presente, sua aplicação contemporânea nos convida a não fechar os olhos diante dos acontecimentos que ameaçam a vida. Secas, enchentes, queimadas e eventos climáticos extremos não devem ser atribuídos automaticamente a castigos divinos nem transformados em previsões sensacionalistas sobre o fim do mundo. Exigem investigação científica, prevenção e políticas públicas que protejam sobretudo as populações mais vulneráveis. A fé cristã não precisa competir com a ciência para afirmar sua relevância; precisa contribuir para que o conhecimento se traduza em cuidado com a vida. Gênesis 2,15 apresenta o ser humano como alguém incumbido de cultivar e guardar o jardim, imagem que contrasta com modelos de exploração ilimitada da natureza. Quando interesses econômicos destroem ecossistemas e comprometem a sobrevivência de comunidades inteiras, o problema ultrapassa a questão ambiental e alcança a justiça social. Discernir os sinais dos tempos significa reconhecer que a criação não pode ser reduzida a mercadoria e que a esperança cristã não autoriza a indiferença diante de sua destruição.
A mesma exigência evangélica se manifesta nas relações humanas. Famílias divididas, comunidades religiosas feridas por disputas, ambientes de trabalho marcados por humilhação e sociedades polarizadas revelam a dificuldade de reconhecer o outro sem transformá-lo em inimigo. Na parte final de Lucas 12,54-59, Jesus utiliza a imagem de duas pessoas a caminho do magistrado para advertir sobre a urgência de buscar uma solução antes que o conflito chegue ao julgamento. A passagem não deve ser reduzida a uma fórmula genérica de reconciliação, pois sua linguagem também contém um alerta sobre as consequências de não enfrentar a tempo aquilo que exige uma decisão. Aplicada às relações contemporâneas, ela convida à busca de soluções justas antes que ressentimentos e injustiças se tornem ainda mais profundos. Isso não significa exigir que vítimas se reconciliem com seus agressores nem confundir perdão com impunidade. A reconciliação só pode ser autêntica quando reconhece os danos, estabelece limites e não sacrifica a verdade para preservar aparências. Ao exortar os cristãos a viverem a verdade no amor (Ef 4,15) e a vencerem o mal pela prática do bem (Rm 12,21), Paulo aponta para uma transformação que enfrenta a injustiça sem reproduzir a desumanização.
É também nesse horizonte que a advertência de Jesus questiona a própria vivência religiosa. Conhecer as Escrituras, frequentar celebrações e defender símbolos sagrados não garante, por si só, que alguém tenha compreendido a vontade de Deus. A advertência de Lucas não é uma condenação da religião, mas um questionamento dirigido a quem consegue interpretar fenômenos exteriores e, ainda assim, resiste a reconhecer as exigências espirituais e éticas do presente. O ritual cristão tem sentido quando conduz a comunidade ao encontro com Deus e a educa para o serviço, a partilha e a misericórdia. Torna-se contraditório quando é utilizado como certificado de superioridade moral, enquanto a pobreza, o abuso de autoridade e a exclusão permanecem naturalizados. Nesse ponto, a crítica de Jesus converge com a tradição profética de Israel, que denuncia um culto separado da justiça e da defesa dos vulneráveis (Is 1,11-17; Am 5,21-24). A questão não é escolher entre liturgia e compromisso social, mas recuperar a unidade entre ambos. Uma comunidade que celebra a libertação de Deus, mas tolera práticas de dominação, contradiz com a própria vida aquilo que proclama em suas orações. Por isso, o critério de discernimento não é a intensidade das manifestações religiosas, mas a capacidade de reconhecer o sofrimento humano e responder a ele de maneira coerente com o Evangelho.
A advertência de Lucas 12,54-59 permanece, assim, profundamente atual. Jesus não oferece um método para calcular o futuro nem autoriza especulações sobre datas apocalípticas; exige que seus ouvintes compreendam o momento presente e não adiem indefinidamente as decisões necessárias. A imagem do caminho para o tribunal ressalta que as escolhas têm consequências e que há situações nas quais a demora em agir agrava o conflito. No plano pessoal, isso significa rever atitudes, reconhecer erros e abandonar práticas que ferem outras pessoas. No plano comunitário, implica enfrentar o clericalismo, impedir a proteção institucional de abusadores e submeter o exercício da autoridade aos critérios do serviço e da justiça. No plano político e social, significa recusar discursos religiosos utilizados para legitimar a violência, a desigualdade e a desumanização de adversários. A profecia cristã não se mede pela agressividade de suas denúncias nem pela capacidade de anunciar catástrofes, mas pela lucidez com que identifica as forças que ameaçam a vida e pela esperança que sustenta a transformação. Da mesma forma, a misericórdia não exige silêncio diante da injustiça, mas coragem para enfrentá-la sem abandonar a dignidade de ninguém.
Discernir os sinais dos tempos é, portanto, deixar que a Palavra de Deus questione nossas interpretações, confronte nossos interesses e ilumine as decisões que moldam a vida comum. Isso exige diálogo com a ciência, a cultura e a sociedade, sem medo de reconhecer a verdade, e disposição para transformar a fé em práticas coerentes com aquilo que se anuncia. A autoridade religiosa ou política perde sua legitimidade moral quando se converte em instrumento de dominação; encontra seu sentido quando promove a vida, protege os vulneráveis e reconhece os limites do próprio poder. Em vez de procurar sinais extraordinários que anunciem o fim, o cristão é chamado a perceber as urgências que já estão diante de seus olhos: a fome, a desigualdade, a violência, a degradação ambiental e o sofrimento daqueles que não encontram espaço para sua voz.
O momento decisivo, à luz do Evangelho, não é uma data escondida no calendário, mas o presente em que a realidade interpela a consciência e exige uma resposta. Lucas 12,54-59 nos lembra que interpretar os sinais sem modificar a conduta é permanecer na superfície do discernimento. A conversão começa quando reconhecemos que também podemos estar equivocados, quando abandonamos a indiferença e quando permitimos que a verdade transforme nossas relações e instituições. Que as comunidades cristãs encontrem na Palavra não uma justificativa para seus privilégios, mas um chamado à revisão de suas práticas; não um refúgio contra as contradições da história, mas uma força para enfrentá-las. A hora da conversão é agora, porque discernir o tempo presente significa reconhecer onde a vida está sendo ameaçada e escolher, à maneira de Jesus, o caminho da justiça, da misericórdia e do serviço. É nessa fidelidade concreta, e não na aparência de uma religiosidade impecável, que a esperança do Reino de Deus se torna sinal visível no mundo.DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 26 de julho de 2026

Um breve olhar em Mateus 13, 31-35


 Na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do  
Tempo Comum temos o texto de Mateus 13, 31-35, que   já  refletimos  outras  vezes  em 2020  e 2023  o texto faz parte do Evangelho  do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A Mateus 13, 24-43  que refletimos  em 2020 e  2023   em nosso canal do YouTube,  convidamos você  para assistir  a Reflexão: Boa Nova de Jesus Cristo segundo São Mateus 13,31-35.
A Igreja nos convida a mergulhar nas paráb0ol convoas breves, mas teologicamente vastas, em que Jesus fala do Reino de Deus com imagens de uma simplicidade desconcertante: a semente de mostarda e o fermento na massa (Mt 13,31-35). À primeira vista, são figuras domésticas, retiradas do cotidiano das aldeias agrícolas da Galileia. Contudo, nelas se revela o núcleo da pedagogia divina, a lógica da fé e a crítica radical às estruturas de poder, de religiosidade e de dominação que reduzem o sagrado à aparência ou ao espetáculo. Jesus fala de um Reino que não se impõe por força, mas se oferece por presença. Ele rompe com a lógica dos reinos humanos,  sejam os impérios de César, sejam as idolatrias contemporâneas do mercado e da vaidade espiritual e anuncia um Reino que germina no invisível, cresce em silêncio e transforma o mundo a partir de dentro.

A parábola do grão de mostarda introduz essa pedagogia do pequeno. “O Reino dos Céus é como um grão de mostarda que um homem semeou em seu campo. É a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se a maior das hortaliças e faz-se árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus ramos” (Mt 13,31-32). No contexto agrícola do século I, a mostarda era uma planta de crescimento rápido e imprevisível, frequentemente vista como erva daninha. Jesus inverte a expectativa: aquilo que o senso comum despreza é o que contém o potencial de abrigar vida, acolher os pássaros, dar sombra, a menor semente torna-se abrigo, hospitalidade e espaço de comunhão. No horizonte bíblico, as aves do céu evocam a universalidade das nações (cf. Ez 17,22-24; Dn 4,12), indicando que o Reino acolhe todos, sem discriminação de origem, poder ou mérito.

Essa parábola é uma resposta às expectativas messiânicas nacionalistas. O povo esperava um Messias guerreiro, um libertador político que restaurasse a glória de Israel pela força. Jesus, ao contrário, revela que o Reino não é espetáculo de poder, mas processo de transformação silenciosa. Sua linguagem ressoa em outros textos sinóticos: Marcos 4,30-32 e Lucas 13,18-19 reiteram a mesma imagem, mas com nuances próprias. Marcos sublinha a surpresa — “cresce e se torna maior do que todas as hortaliças”, enquanto Lucas destaca a hospitalidade “as aves do céu habitam nos seus ramos”. A tradição sinótica inteira converge na ideia de que a ação divina opera por meio do mínimo, do vulnerável, do que o mundo despreza. É a inversão teológica do critério humano de grandeza: Deus se revela na fragilidade.

O mesmo princípio é reforçado pela segunda parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que tudo ficasse levedado” (Mt 13,33). O fermento, na cultura judaica, possuía uma ambiguidade simbólica. Era associado, em alguns contextos, à corrupção (cf. Mt 16,6; 1Cor 5,6-8), mas aqui assume sentido positivo: uma força interior que transforma a massa de dentro para fora. O gesto da mulher invisível, cotidiano, silencioso,  torna-se imagem da ação divina no mundo. Ela mistura o fermento até que tudo seja transformado. O verbo usado, “misturar” (gr. enkrypto), tem conotação de esconder, sugerindo que o Reino age de modo oculto, quase imperceptível, mas eficaz. A presença feminina nessa parábola é igualmente significativa: Deus é simbolizado em gestos domésticos, maternos, cuidadosos. A mulher anônima é figura da sabedoria divina que age sem barulho, e sua ação aponta para a dimensão encarnada, artesanal e relacional do Reino.

As  imagens da parábola  nos convida a compreender que Jesus fala não de um projeto ideológico, mas de um processo histórico e espiritual. A semente e o fermento expressam o modo de agir de Deus: discreto, paciente e radicalmente transformador. O Reino não se identifica com impérios, com sistemas de poder religioso, nem com utopias autorreferenciais. Ele cresce no meio do mundo, mas não segundo os critérios do mundo. Santo Agostinho, em seu Sermão 101, observa que “Deus começa pelo que é pequeno para nos ensinar a humildade, e termina na plenitude para nos revelar a glória”. São Gregório Magno, em suas Homilias sobre os Evangelhos, acrescenta que “quem despreza as pequenas virtudes impede que cresçam as grandes”, lembrando que o Reino é tecido de gestos simples,  o perdão, a escuta, o cuidado e não de façanhas espetaculares.  Essa pedagogia do pequeno tem profundas implicações antropológicas e sociais. Em termos psicológicos, a semente e o fermento representam os processos internos de amadurecimento humano. A psique não se transforma por imposição, mas por cultivo paciente. O autoconhecimento, a cura e a santidade exigem o tempo da germinação, o silêncio do crescimento subterrâneo. A fé não é fuga da realidade, mas fermento que a transforma. A maturidade espiritual nasce do enfrentamento das próprias sombras, da integração dos opostos, da reconciliação entre o visível e o invisível. A parábola, assim, também fala da interioridade: o Reino é como um processo psicológico em que o amor e a graça vão transfigurando o interior até que toda a “massa” da vida seja levedada.

A  imagem do fermento sugere uma crítica às estruturas dominantes. O fermento age de baixo, invisivelmente, transformando a totalidade. É o símbolo das revoluções silenciosas, das mudanças que começam nos corações e se espalham pela convivência, pela solidariedade e pela justiça cotidiana. O Reino de Deus, portanto, não se impõe pelas armas, pelo poder econômico ou pela manipulação da fé; ele se propaga na prática concreta do amor. Nesse sentido, a parábola denuncia as formas religiosas e políticas que se apropriam do nome de Deus para controlar, enriquecer ou dominar. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio são distorções do Evangelho porque reduzem o Reino à lógica do sucesso e do poder, esquecendo que a força divina se manifesta na fraqueza (cf. 2Cor 12,9). O Reino é fermento que liberta, não estrutura que oprime.

A fé autêntica é sempre comunhão. Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, recorda que “Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes, o que é pequeno para confundir os grandes”. É a mesma lógica das parábolas: a força da fraqueza. No contexto contemporâneo, essa mensagem confronta o individualismo religioso que transforma a fé em produto de consumo, em busca de conforto e status espiritual. O Reino, ao contrário, é um projeto coletivo, uma teia de solidariedades, um caminho de comunhão e justiça. Tiago insiste: “A religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27). Essa é a tradução prática da parábola do fermento: uma fé que leveda a sociedade, que humaniza as relações e que transforma estruturas de exclusão.

Na perspectiva filosófica, o fermento e a semente podem ser lidos como metáforas do ethos da esperança. Hannah Arendt falava da “natalidade” como capacidade humana de começar de novo; o Reino é o eterno nascimento de possibilidades novas dentro da história. Paul Ricoeur descreve a esperança como “a força que não nega o mal, mas aposta na fecundidade do bem”. Assim é o Reino: uma aposta paciente na fecundidade da graça, mesmo em meio à injustiça. Ele cresce em silêncio, mas nunca é passivo. A espera evangélica não é resignação; é resistência. É o cultivo do bem em meio ao caos, a insistência no amor em meio à indiferença.Teologicamente, essas parábolas revelam o coração da cristologia de Mateus. Jesus é o Semeador e o próprio grão que cai na terra e morre para dar fruto (cf. Jo 12,24). Ele é o fermento que se mistura na massa da humanidade, assumindo nossa carne, nossa história e nossa dor. O mistério pascal é a expressão máxima dessa pedagogia: da pequenez da cruz brota a plenitude da ressurreição. O Reino é o próprio Cristo atuando na história através da comunidade dos discípulos, que são chamados a ser semente e fermento. Por isso, Mateus conclui dizendo que “Jesus só lhes falava por parábolas, para se cumprir o que fora dito pelo profeta: abrirei a boca em parábolas, proclamarei coisas escondidas desde a criação” (Mt 13,35). O Evangelista cita o Salmo 78,2, interpretando Jesus como aquele que revela os mistérios ocultos do agir divino na história.

O Império Romano no primeiro  século  era o paradigma da grandiosidade e da força, as estruturas religiosas do Templo também se tornaram expressão de poder e segregação. Falar de um Reino que nasce de uma semente ou de um punhado de fermento era um escândalo. Era uma provocação contra o sistema, uma subversão das expectativas sociais e religiosas. O discurso de Jesus é, portanto, político e espiritual ao mesmo tempo. Ele propõe uma revolução da ternura, como diria o Papa Francisco: a mudança começa no detalhe, no gesto, no cuidado. A Evangelii Gaudium (n. 222) ensina que “o tempo é superior ao espaço”, indicando que o Reino cresce no tempo da paciência, não na conquista de territórios. E a Fratelli Tutti (n. 180) lembra que “a caridade política é a forma mais alta da caridade”, pois a fé autêntica tem implicações sociais concretas.

 Orígenes via na semente a Palavra de Deus que deve germinar no coração, São João Crisóstomo ensinava que o fermento representa o Espírito Santo, que transforma a comunidade desde dentro e Santa Teresinha do Menino Jesus viveu radicalmente essa pedagogia do pequeno: “Quero ser o amor no coração da Igreja”, dizia, mostrando que o Reino floresce nos gestos invisíveis, nas orações escondidas, nas fidelidades silenciosas.

Essa espiritualidade do pequeno é o antídoto contra o clericalismo, que transforma o serviço em prestígio e o ministério em poder. O clericalismo mata o fermento, porque cristaliza a fé em hierarquia e vaidade. O Evangelho de Mateus nos convida a uma Igreja fermento, não a uma Igreja monumental. Uma Igreja que se mistura à massa da humanidade, que age com ternura, justiça e proximidade. A Gaudium et Spes (n. 63-66) reforça essa dimensão social da fé, lembrando que a Igreja deve ser sinal e instrumento de unidade do gênero humano, comprometida com a dignidade, o trabalho e a justiça.

O Reino, assim, é um movimento contínuo de encarnação. Ele se manifesta na educação que liberta, na ciência que serve à vida, na arte que desperta, na política que busca o bem comum. É a presença do divino no cotidiano. Ser fermento significa fazer da própria vida um lugar de transformação: nas salas de aula, nos hospitais, nas favelas, nas fábricas, nos lares. Ser semente é confiar que cada gesto de amor, por menor que pareça, tem potencial de eternidade.

O mundo contemporâneo, seduzido pela lógica da velocidade, do espetáculo e da aparência, precisa reaprender a sabedoria da semente e a força silenciosa do fermento. O Reino de Deus não nasce do marketing religioso, nem se sustenta pelo poder, pelo prestígio ou pela imposição. Ele germina no escondimento, cresce na fidelidade e transforma a história a partir do interior. Enquanto os impérios erguem monumentos à própria grandeza e acabam reduzidos às ruínas da memória, a pequena semente continua rompendo a terra e anunciando que a vida é mais forte que o poder. Enquanto multidões se deixam seduzir pelo barulho das ideologias, do consumismo e de uma religiosidade vazia, o fermento do Evangelho continua agindo silenciosamente, levedando a massa da humanidade. Esta é a lógica desconcertante do Reino: Deus prefere os pequenos começos às grandes aparências, a fidelidade escondida aos triunfos passageiros, a cruz aos aplausos. Por isso, permanece atual a exortação do profeta: "Não desprezeis os pequenos começos" (Zc 4,10). E permanece viva a esperança proclamada por Paulo: "Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus" (Fl 1,6).

A parábola de Jesus é também um julgamento sobre o nosso tempo. Ela denuncia toda pretensão de construir o Reino pela força, pelo clericalismo, pelo autoritarismo ou pelo fascínio dos números. O Reino não se mede por estatísticas, mas pela capacidade de gerar vida, justiça, misericórdia e comunhão. Onde um coração se converte, uma ferida é curada, um pobre recupera a dignidade, um excluído encontra acolhida e a verdade vence a mentira, ali o Reino já está crescendo..Que ninguém despreze aquilo que Deus faz no silêncio. A semente lançada por Cristo jamais deixará de produzir fruto, e o fermento do Evangelho jamais perderá sua força. Deus continua misturando sua graça na massa da humanidade e nenhuma potência deste mundo poderá impedir a colheita que Ele mesmo preparou. O Reino cresce, muitas vezes sem alarde, mas com a certeza de que a última palavra da história não será da violência, da injustiça nem da morte. A última palavra pertence ao Deus da Vida, cujo Reino já está entre nós e um dia se manifestará em plenitude.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 20 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 10,26-33 / 12⁰ Domingo do Tempo Comum.

 

As leituras proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano A  são  as seguintes  Jeremias 20,10-13; Salmo  68(69),8-10.14.17.33-35 (R. 14c); Romanos 5,12-15 e a perícope de Mateus 10,26-33 que  constitui uma continuação indireta do Evangelho proclamado no domingo anterior Mateus 9,36-10,8 sem esquecer que ja refletimos essa passagem outras  vezes.. Esta observação é fundamental para uma leitura exegética consistente, pois Jesus não começa um novo ensinamento, mas dá continuidade ao discurso missionário iniciado quando, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, sentiu profunda compaixão por elas (Mt 9,36). Dessa compaixão nasce o chamado dos Doze (Mt 10,1-4), o envio missionário (Mt 10,5-15), as advertências sobre perseguições e rejeições (Mt 10,16-25) e, finalmente, a exortação à coragem proclamada neste domingo. A sequência é teologicamente significativa. A compaixão conduz à missão; a missão conduz ao conflito; o conflito exige coragem; e a coragem nasce da confiança em Deus. A mesma passagem, em formas paralelas, aparece em Lucas 12,2-9 e Marcos 4,21-25 na quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum e  encontra ecos outros  momentos do calendário litúrgico das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas que preservam a leitura contínua dos Evangelhos. Em todas elas, este texto é reconhecido como uma das mais importantes catequeses de Jesus sobre o discipulado, a perseverança e a confiança na providência divina.

A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso. 

  • A primeira leitura Jeremias 20,10-13:  apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
  • O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
  • A segunda leitura Romanos 5,12-15:  amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.

Podemos   perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção. 

  • O justo pode ser perseguido, mas não abandonado. 
  • O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus. 
  • A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
  •  O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina. 
  • A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.

E quando chegamos na liturgia  em  Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.

A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.

A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).

A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.

O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.

Jesus desafia frontalmente hoje  as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.

Ao  contemplarmos  as leituras  de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica: 

  1. Jeremias é perseguido, mas permanece fiel. 
  2. O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina. 
  3. Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
  4.  Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças. 

A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus: 

  •  Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
  • Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
  • Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
  •  Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
  • Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
  • Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
  • Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
  •  Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10) 
  • Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
  • Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.

Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7), 

A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.

É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade.. 

Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..

No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.

DNonato -Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27

Marcos 12,18-27 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da nona semana do Tempo Comum sendo uma continuidade do texto da terça-feira da nona semana. O mesmo episódio encontra seus paralelos em Mateus 22,23-33 e Lucas 20,27-40, sendo igualmente proclamado em diferentes momentos do Ano Litúrgico. Nas Igrejas Ortodoxas, nas tradições bizantinas, anglicanas, luteranas e em outras Igrejas históricas, esta passagem ocupa lugar de destaque entre os textos que narram os últimos debates de Jesus em Jerusalém antes de sua paixão. Situado no coração dos acontecimentos que antecedem a cruz, este Evangelho revela não apenas uma controvérsia doutrinal sobre a ressurreição, mas um confronto entre duas maneiras de compreender Deus, a Escritura, a história humana e o destino da criação. Há pessoas que encontram prazer em discutir religião. Nem sempre essas discussões nascem da busca sincera pela verdade ou do desejo de viver mais profundamente o Evangelho. Muitas vezes transformam-se em disputas de poder, em afirmações rígidas de posições previamente definidas, em tentativas de vencer debates e humilhar adversários. O resultado costuma ser o aprofundamento das divisões, a multiplicação dos preconceitos e o enfraquecimento da capacidade de escuta. O episódio de Marcos 12,18-27 apresenta exatamente esse cenário. Os saduceus não se aproximam de Jesus para aprender. Aproximam-se para testá-lo. Não desejam ampliar sua compreensão de Deus. Desejam defender uma visão religiosa fechada em seus próprios limites.

O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.

Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.

Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).

A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.

A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.

A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).

Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.

A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).

A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).

Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.

Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus.  O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.

Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.

Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).

Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.

Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).

O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos: 

  • Quem é o Deus em quem acreditamos? 
  • O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
  •  O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas? 
Diante das cruzes erguidas ao longo da história, diante das lágrimas dos pobres, diante das guerras, das injustiças e das inúmeras formas de sofrimento humano, a Igreja continua proclamando a mesma esperança. O túmulo não é o destino final da humanidade. O último capítulo da história não pertence à violência, nem à opressão, nem à morte. Pertence ao Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Por isso os discípulos continuam caminhando. Por isso os mártires continuaram testemunhando. Por isso os pobres continuam esperando. Por isso a Igreja continua anunciando que o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6), que Cristo ressuscitou dentre os mortos como primícias dos que adormeceram (1Cor 15,20) e que aquele que ressuscitou Jesus também dará vida aos nossos corpos mortais por meio de seu Espírito (Rm 8,11).

Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).



DNonato -  Teólogo  do Cotidiano