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domingo, 26 de julho de 2026

Um breve olhar em Mateus 13, 31-35


 Na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do  
Tempo Comum temos o texto de Mateus 13, 31-35, que   já  refletimos  outras  vezes  em 2020  e 2023  o texto faz parte do Evangelho  do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A Mateus 13, 24-43  que refletimos  em 20202023   em nosso canal do YouTube,  convidamos você  para assistir  a Reflexão: Boa Nova de Jesus Cristo segundo São Mateus 13,31-35.
A Igreja nos convida a mergulhar nas paráb0ol convoas breves, mas teologicamente vastas, em que Jesus fala do Reino de Deus com imagens de uma simplicidade desconcertante: a semente de mostarda e o fermento na massa (Mt 13,31-35). À primeira vista, são figuras domésticas, retiradas do cotidiano das aldeias agrícolas da Galileia. Contudo, nelas se revela o núcleo da pedagogia divina, a lógica da fé e a crítica radical às estruturas de poder, de religiosidade e de dominação que reduzem o sagrado à aparência ou ao espetáculo. Jesus fala de um Reino que não se impõe por força, mas se oferece por presença. Ele rompe com a lógica dos reinos humanos,  sejam os impérios de César, sejam as idolatrias contemporâneas do mercado e da vaidade espiritual e anuncia um Reino que germina no invisível, cresce em silêncio e transforma o mundo a partir de dentro.

A parábola do grão de mostarda introduz essa pedagogia do pequeno. “O Reino dos Céus é como um grão de mostarda que um homem semeou em seu campo. É a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se a maior das hortaliças e faz-se árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus ramos” (Mt 13,31-32). No contexto agrícola do século I, a mostarda era uma planta de crescimento rápido e imprevisível, frequentemente vista como erva daninha. Jesus inverte a expectativa: aquilo que o senso comum despreza é o que contém o potencial de abrigar vida, acolher os pássaros, dar sombra, a menor semente torna-se abrigo, hospitalidade e espaço de comunhão. No horizonte bíblico, as aves do céu evocam a universalidade das nações (cf. Ez 17,22-24; Dn 4,12), indicando que o Reino acolhe todos, sem discriminação de origem, poder ou mérito.

Essa parábola é uma resposta às expectativas messiânicas nacionalistas. O povo esperava um Messias guerreiro, um libertador político que restaurasse a glória de Israel pela força. Jesus, ao contrário, revela que o Reino não é espetáculo de poder, mas processo de transformação silenciosa. Sua linguagem ressoa em outros textos sinóticos: Marcos 4,30-32 e Lucas 13,18-19 reiteram a mesma imagem, mas com nuances próprias. Marcos sublinha a surpresa — “cresce e se torna maior do que todas as hortaliças”, enquanto Lucas destaca a hospitalidade “as aves do céu habitam nos seus ramos”. A tradição sinótica inteira converge na ideia de que a ação divina opera por meio do mínimo, do vulnerável, do que o mundo despreza. É a inversão teológica do critério humano de grandeza: Deus se revela na fragilidade.

O mesmo princípio é reforçado pela segunda parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que tudo ficasse levedado” (Mt 13,33). O fermento, na cultura judaica, possuía uma ambiguidade simbólica. Era associado, em alguns contextos, à corrupção (cf. Mt 16,6; 1Cor 5,6-8), mas aqui assume sentido positivo: uma força interior que transforma a massa de dentro para fora. O gesto da mulher invisível, cotidiano, silencioso,  torna-se imagem da ação divina no mundo. Ela mistura o fermento até que tudo seja transformado. O verbo usado, “misturar” (gr. enkrypto), tem conotação de esconder, sugerindo que o Reino age de modo oculto, quase imperceptível, mas eficaz. A presença feminina nessa parábola é igualmente significativa: Deus é simbolizado em gestos domésticos, maternos, cuidadosos. A mulher anônima é figura da sabedoria divina que age sem barulho, e sua ação aponta para a dimensão encarnada, artesanal e relacional do Reino.

As  imagens da parábola  nos convida a compreender que Jesus fala não de um projeto ideológico, mas de um processo histórico e espiritual. A semente e o fermento expressam o modo de agir de Deus: discreto, paciente e radicalmente transformador. O Reino não se identifica com impérios, com sistemas de poder religioso, nem com utopias autorreferenciais. Ele cresce no meio do mundo, mas não segundo os critérios do mundo. Santo Agostinho, em seu Sermão 101, observa que “Deus começa pelo que é pequeno para nos ensinar a humildade, e termina na plenitude para nos revelar a glória”. São Gregório Magno, em suas Homilias sobre os Evangelhos, acrescenta que “quem despreza as pequenas virtudes impede que cresçam as grandes”, lembrando que o Reino é tecido de gestos simples,  o perdão, a escuta, o cuidado e não de façanhas espetaculares.  Essa pedagogia do pequeno tem profundas implicações antropológicas e sociais. Em termos psicológicos, a semente e o fermento representam os processos internos de amadurecimento humano. A psique não se transforma por imposição, mas por cultivo paciente. O autoconhecimento, a cura e a santidade exigem o tempo da germinação, o silêncio do crescimento subterrâneo. A fé não é fuga da realidade, mas fermento que a transforma. A maturidade espiritual nasce do enfrentamento das próprias sombras, da integração dos opostos, da reconciliação entre o visível e o invisível. A parábola, assim, também fala da interioridade: o Reino é como um processo psicológico em que o amor e a graça vão transfigurando o interior até que toda a “massa” da vida seja levedada.

A  imagem do fermento sugere uma crítica às estruturas dominantes. O fermento age de baixo, invisivelmente, transformando a totalidade. É o símbolo das revoluções silenciosas, das mudanças que começam nos corações e se espalham pela convivência, pela solidariedade e pela justiça cotidiana. O Reino de Deus, portanto, não se impõe pelas armas, pelo poder econômico ou pela manipulação da fé; ele se propaga na prática concreta do amor. Nesse sentido, a parábola denuncia as formas religiosas e políticas que se apropriam do nome de Deus para controlar, enriquecer ou dominar. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio são distorções do Evangelho porque reduzem o Reino à lógica do sucesso e do poder, esquecendo que a força divina se manifesta na fraqueza (cf. 2Cor 12,9). O Reino é fermento que liberta, não estrutura que oprime.

A fé autêntica é sempre comunhão. Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, recorda que “Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes, o que é pequeno para confundir os grandes”. É a mesma lógica das parábolas: a força da fraqueza. No contexto contemporâneo, essa mensagem confronta o individualismo religioso que transforma a fé em produto de consumo, em busca de conforto e status espiritual. O Reino, ao contrário, é um projeto coletivo, uma teia de solidariedades, um caminho de comunhão e justiça. Tiago insiste: “A religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27). Essa é a tradução prática da parábola do fermento: uma fé que leveda a sociedade, que humaniza as relações e que transforma estruturas de exclusão.

Na perspectiva filosófica, o fermento e a semente podem ser lidos como metáforas do ethos da esperança. Hannah Arendt falava da “natalidade” como capacidade humana de começar de novo; o Reino é o eterno nascimento de possibilidades novas dentro da história. Paul Ricoeur descreve a esperança como “a força que não nega o mal, mas aposta na fecundidade do bem”. Assim é o Reino: uma aposta paciente na fecundidade da graça, mesmo em meio à injustiça. Ele cresce em silêncio, mas nunca é passivo. A espera evangélica não é resignação; é resistência. É o cultivo do bem em meio ao caos, a insistência no amor em meio à indiferença.Teologicamente, essas parábolas revelam o coração da cristologia de Mateus. Jesus é o Semeador e o próprio grão que cai na terra e morre para dar fruto (cf. Jo 12,24). Ele é o fermento que se mistura na massa da humanidade, assumindo nossa carne, nossa história e nossa dor. O mistério pascal é a expressão máxima dessa pedagogia: da pequenez da cruz brota a plenitude da ressurreição. O Reino é o próprio Cristo atuando na história através da comunidade dos discípulos, que são chamados a ser semente e fermento. Por isso, Mateus conclui dizendo que “Jesus só lhes falava por parábolas, para se cumprir o que fora dito pelo profeta: abrirei a boca em parábolas, proclamarei coisas escondidas desde a criação” (Mt 13,35). O Evangelista cita o Salmo 78,2, interpretando Jesus como aquele que revela os mistérios ocultos do agir divino na história.

O Império Romano no primeiro  século  era o paradigma da grandiosidade e da força, as estruturas religiosas do Templo também se tornaram expressão de poder e segregação. Falar de um Reino que nasce de uma semente ou de um punhado de fermento era um escândalo. Era uma provocação contra o sistema, uma subversão das expectativas sociais e religiosas. O discurso de Jesus é, portanto, político e espiritual ao mesmo tempo. Ele propõe uma revolução da ternura, como diria o Papa Francisco: a mudança começa no detalhe, no gesto, no cuidado. A Evangelii Gaudium (n. 222) ensina que “o tempo é superior ao espaço”, indicando que o Reino cresce no tempo da paciência, não na conquista de territórios. E a Fratelli Tutti (n. 180) lembra que “a caridade política é a forma mais alta da caridade”, pois a fé autêntica tem implicações sociais concretas.

 Orígenes via na semente a Palavra de Deus que deve germinar no coração, São João Crisóstomo ensinava que o fermento representa o Espírito Santo, que transforma a comunidade desde dentro e Santa Teresinha do Menino Jesus viveu radicalmente essa pedagogia do pequeno: “Quero ser o amor no coração da Igreja”, dizia, mostrando que o Reino floresce nos gestos invisíveis, nas orações escondidas, nas fidelidades silenciosas.

Essa espiritualidade do pequeno é o antídoto contra o clericalismo, que transforma o serviço em prestígio e o ministério em poder. O clericalismo mata o fermento, porque cristaliza a fé em hierarquia e vaidade. O Evangelho de Mateus nos convida a uma Igreja fermento, não a uma Igreja monumental. Uma Igreja que se mistura à massa da humanidade, que age com ternura, justiça e proximidade. A Gaudium et Spes (n. 63-66) reforça essa dimensão social da fé, lembrando que a Igreja deve ser sinal e instrumento de unidade do gênero humano, comprometida com a dignidade, o trabalho e a justiça.

O Reino, assim, é um movimento contínuo de encarnação. Ele se manifesta na educação que liberta, na ciência que serve à vida, na arte que desperta, na política que busca o bem comum. É a presença do divino no cotidiano. Ser fermento significa fazer da própria vida um lugar de transformação: nas salas de aula, nos hospitais, nas favelas, nas fábricas, nos lares. Ser semente é confiar que cada gesto de amor, por menor que pareça, tem potencial de eternidade.

O mundo contemporâneo, seduzido pela lógica da velocidade, do espetáculo e da aparência, precisa reaprender a sabedoria da semente e a força silenciosa do fermento. O Reino de Deus não nasce do marketing religioso, nem se sustenta pelo poder, pelo prestígio ou pela imposição. Ele germina no escondimento, cresce na fidelidade e transforma a história a partir do interior. Enquanto os impérios erguem monumentos à própria grandeza e acabam reduzidos às ruínas da memória, a pequena semente continua rompendo a terra e anunciando que a vida é mais forte que o poder. Enquanto multidões se deixam seduzir pelo barulho das ideologias, do consumismo e de uma religiosidade vazia, o fermento do Evangelho continua agindo silenciosamente, levedando a massa da humanidade. Esta é a lógica desconcertante do Reino: Deus prefere os pequenos começos às grandes aparências, a fidelidade escondida aos triunfos passageiros, a cruz aos aplausos. Por isso, permanece atual a exortação do profeta: "Não desprezeis os pequenos começos" (Zc 4,10). E permanece viva a esperança proclamada por Paulo: "Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus" (Fl 1,6).

A parábola de Jesus é também um julgamento sobre o nosso tempo. Ela denuncia toda pretensão de construir o Reino pela força, pelo clericalismo, pelo autoritarismo ou pelo fascínio dos números. O Reino não se mede por estatísticas, mas pela capacidade de gerar vida, justiça, misericórdia e comunhão. Onde um coração se converte, uma ferida é curada, um pobre recupera a dignidade, um excluído encontra acolhida e a verdade vence a mentira, ali o Reino já está crescendo..Que ninguém despreze aquilo que Deus faz no silêncio. A semente lançada por Cristo jamais deixará de produzir fruto, e o fermento do Evangelho jamais perderá sua força. Deus continua misturando sua graça na massa da humanidade e nenhuma potência deste mundo poderá impedir a colheita que Ele mesmo preparou. O Reino cresce, muitas vezes sem alarde, mas com a certeza de que a última palavra da história não será da violência, da injustiça nem da morte. A última palavra pertence ao Deus da Vida, cujo Reino já está entre nós e um dia se manifestará em plenitude.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 20 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 10,26-33 / 12⁰ Domingo do Tempo Comum.

 

As leituras proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano A  são  as seguintes  Jeremias 20,10-13; Salmo  68(69),8-10.14.17.33-35 (R. 14c); Romanos 5,12-15 e a perícope de Mateus 10,26-33 que  constitui uma continuação indireta do Evangelho proclamado no domingo anterior Mateus 9,36-10,8 sem esquecer que ja refletimos essa passagem outras  vezes.. Esta observação é fundamental para uma leitura exegética consistente, pois Jesus não começa um novo ensinamento, mas dá continuidade ao discurso missionário iniciado quando, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, sentiu profunda compaixão por elas (Mt 9,36). Dessa compaixão nasce o chamado dos Doze (Mt 10,1-4), o envio missionário (Mt 10,5-15), as advertências sobre perseguições e rejeições (Mt 10,16-25) e, finalmente, a exortação à coragem proclamada neste domingo. A sequência é teologicamente significativa. A compaixão conduz à missão; a missão conduz ao conflito; o conflito exige coragem; e a coragem nasce da confiança em Deus. A mesma passagem, em formas paralelas, aparece em Lucas 12,2-9 e Marcos 4,21-25 na quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum e  encontra ecos outros  momentos do calendário litúrgico das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas que preservam a leitura contínua dos Evangelhos. Em todas elas, este texto é reconhecido como uma das mais importantes catequeses de Jesus sobre o discipulado, a perseverança e a confiança na providência divina.

A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso. 

  • A primeira leitura Jeremias 20,10-13:  apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
  • O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
  • A segunda leitura Romanos 5,12-15:  amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.

Podemos   perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção. 

  • O justo pode ser perseguido, mas não abandonado. 
  • O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus. 
  • A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
  •  O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina. 
  • A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.

E quando chegamos na liturgia  em  Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.

A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.

A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).

A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.

O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.

Jesus desafia frontalmente hoje  as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.

Ao  contemplarmos  as leituras  de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica: 

  1. Jeremias é perseguido, mas permanece fiel. 
  2. O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina. 
  3. Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
  4.  Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças. 

A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus: 

  •  Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
  • Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
  • Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
  •  Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
  • Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
  • Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
  • Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
  •  Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10) 
  • Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
  • Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.

Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7), 

A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.

É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade.. 

Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..

No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.

DNonato -Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27

Marcos 12,18-27 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da nona semana do Tempo Comum sendo uma continuidade do texto da terça-feira da nona semana. O mesmo episódio encontra seus paralelos em Mateus 22,23-33 e Lucas 20,27-40, sendo igualmente proclamado em diferentes momentos do Ano Litúrgico. Nas Igrejas Ortodoxas, nas tradições bizantinas, anglicanas, luteranas e em outras Igrejas históricas, esta passagem ocupa lugar de destaque entre os textos que narram os últimos debates de Jesus em Jerusalém antes de sua paixão. Situado no coração dos acontecimentos que antecedem a cruz, este Evangelho revela não apenas uma controvérsia doutrinal sobre a ressurreição, mas um confronto entre duas maneiras de compreender Deus, a Escritura, a história humana e o destino da criação. Há pessoas que encontram prazer em discutir religião. Nem sempre essas discussões nascem da busca sincera pela verdade ou do desejo de viver mais profundamente o Evangelho. Muitas vezes transformam-se em disputas de poder, em afirmações rígidas de posições previamente definidas, em tentativas de vencer debates e humilhar adversários. O resultado costuma ser o aprofundamento das divisões, a multiplicação dos preconceitos e o enfraquecimento da capacidade de escuta. O episódio de Marcos 12,18-27 apresenta exatamente esse cenário. Os saduceus não se aproximam de Jesus para aprender. Aproximam-se para testá-lo. Não desejam ampliar sua compreensão de Deus. Desejam defender uma visão religiosa fechada em seus próprios limites.

O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.

Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.

Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).

A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.

A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.

A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).

Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.

A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).

A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).

Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.

Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus.  O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.

Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.

Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).

Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.

Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).

O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos: 

  • Quem é o Deus em quem acreditamos? 
  • O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
  •  O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas? 
Diante das cruzes erguidas ao longo da história, diante das lágrimas dos pobres, diante das guerras, das injustiças e das inúmeras formas de sofrimento humano, a Igreja continua proclamando a mesma esperança. O túmulo não é o destino final da humanidade. O último capítulo da história não pertence à violência, nem à opressão, nem à morte. Pertence ao Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Por isso os discípulos continuam caminhando. Por isso os mártires continuaram testemunhando. Por isso os pobres continuam esperando. Por isso a Igreja continua anunciando que o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6), que Cristo ressuscitou dentre os mortos como primícias dos que adormeceram (1Cor 15,20) e que aquele que ressuscitou Jesus também dará vida aos nossos corpos mortais por meio de seu Espírito (Rm 8,11).

Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).



DNonato -  Teólogo  do Cotidiano 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 10,28-31


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 10,28-31 é proclamado no Tempo Comum,  na terça-feira da oitava semana, aparecendo como continuação imediata da narrativa do homem rico em Marcos 10,17-27. A perícope integra uma unidade maior sobre discipulado, riqueza, Reino de Deus, desapego e seguimento, formando uma das catequeses mais profundas do Evangelho de Marcos sobre a identidade do discípulo. Suas variantes paralelas aparecem em Mateus 19,27-30 e Lucas 18,28-30, sendo igualmente recebidas no Lecionário Romano e nas tradições litúrgicas das Igrejas históricas. No Oriente cristão, especialmente nas Igrejas Ortodoxas, o texto encontra eco na espiritualidade ascética e monástica, associando-se ao chamado à kenosis, ao esvaziamento e à comunhão fraterna; nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, a perícope é frequentemente vinculada ao discipulado radical e à ética do Reino. A proclamação litúrgica desta passagem não possui apenas caráter memorial. A Igreja, ao ouvi-la, é colocada diante de uma pergunta permanente e desconcertante: o que significa seguir Jesus quando o Evangelho alcança exatamente os lugares onde construímos segurança, poder, prestígio, identidade e nossas próprias imagens de Deus?  

Marcos 10,28-31 não nasce isolado, mas dentro de uma sequência narrativa cuidadosamente construída. Seu ponto de partida está no encontro entre Jesus e o homem rico. Um homem corre até Jesus, ajoelha-se diante dele e pergunta: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10,17). O gesto possui grande densidade cultural. No mundo mediterrâneo do primeiro século, homens adultos e socialmente estabelecidos não corriam em público. A honra possuía expressão corporal. Aquele homem corre porque existe urgência em sua alma. Existe busca. Existe inquietação. A pergunta que ele faz atravessa toda a história humana. Jó perguntou sobre o sentido do sofrimento (Jó 7,17-21); o salmista buscou a felicidade do justo (Sl 1,1-6); Qohelet interrogou o sentido da existência (Ecl 1,2-11); Nicodemos perguntou sobre o novo nascimento (Jo 3,1-10). A antropologia das religiões demonstra que toda civilização desenvolveu ritos, narrativas e símbolos para enfrentar o mistério da morte e da transcendência. O homem rico torna-se imagem universal da humanidade que busca vida eterna, mas ainda imagina a salvação como conquista ou mérito.   Jesus inicialmente conduz o diálogo pelos mandamentos: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe” (Mc 10,19; Ex 20,12-16; Dt 5,16-20). O homem responde que tudo isso observava desde a juventude. Então Marcos registra uma das expressões mais belas e teologicamente profundas do Evangelho: “Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10,21). Antes da exigência existe amor. Antes da renúncia existe encontro. Antes da cruz existe misericórdia. Antes da entrega existe um olhar que reconhece dignidade.  

Jesus então diz: “Falta-te uma coisa. Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me” (Mc 10,21). A exegese mostra que o problema não é simplesmente econômico. O texto alcança uma dimensão antropológica. O homem não apenas possuía riquezas; estava existencialmente estruturado por elas. Sua identidade, segurança e visão de bênção estavam ligadas ao acúmulo. O Evangelho alcança o centro de sua existência e ele se entristece. Esta cena encontra ressonância nas advertências proféticas do Antigo Testamento: “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo” (Is 5,8); “vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias” (Am 2,6); “cobiçam campos e os arrebatam” (Mq 2,1-2). O homem rico torna-se símbolo de toda espiritualidade incapaz de abandonar aquilo que ocupa o lugar de Deus.   É deste contexto que surge a fala de Pedro: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10,28). Mateus explicita ainda mais a tensão ao acrescentar: “Que receberemos?” (Mt 19,27). Pedro representa a humanidade do discípulo. Já caminhou, já deixou redes, barcos e segurança (Mc 1,16-20), mas continua buscando confirmação.   Ele  não condena a pergunta; ele a purifica. Para compreender sua resposta é necessário entrar no contexto histórico do primeiro século. A Palestina vivia sob domínio romano. A Galileia experimentava concentração fundiária, aumento da tributação e empobrecimento das famílias camponesas. A terra, no mundo bíblico, não era apenas bem econômico; era herança, identidade, sobrevivência e memória. A promessa da terra atravessa toda a Escritura, desde Abraão (Gn 12,1-9), passando pela libertação do Egito (Ex 3,7-8), pela entrada em Canaã (Js 1,1-9) e pela esperança profética da restauração (Ez 36,24-28). Perder a terra significava perder parte da própria história.  

Quando Jesus fala sobre deixar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos e campos por causa dele e do Evangelho (Mc 10,29), toca os pilares da organização social mediterrânea. Casa significava pertencimento; família significava honra; campos significavam continuidade histórica. O chamado de Jesus não destrói vínculos humanos. O quarto mandamento permanece (Ex 20,12). Jesus condena tradições que anulam o cuidado com os pais (Mc 7,9-13). Contudo, o Reino relativiza todas as estruturas quando estas se tornam absolutas.   Marcos introduz um detalhe singular: “por causa de mim e do Evangelho” (Mc 10,29). O discipulado não é devoção intimista nem espiritualidade alienada. Seguir Jesus significa aderir ao projeto do Reino anunciado desde o início do Evangelho: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).   Este Reino possui implicações espirituais, sociais, antropológicas e históricas. Ele toca leprosos (Mc 1,40-45), acolhe pecadores (Mc 2,15-17), cura a mulher hemorroíssa (Mc 5,25-34), ressuscita a filha de Jairo (Mc 5,35-43), alimenta famintos (Mc 6,30-44; Mc 8,1-10), acolhe estrangeiros (Mc 7,24-30), dignifica mulheres (Lc 8,1-3), anuncia libertação aos cativos (Lc 4,18-19), proclama felizes os pobres (Lc 6,20), identifica-se com os pequenos (Mt 25,31-46) e declara que o sábado foi feito para o ser humano (Mc 2,27).  Jesus promete cem vezes mais nesta vida, mas Marcos acrescenta algo frequentemente esquecido: “com perseguições” (Mc 10,30). Esta expressão desmonta toda leitura triunfalista. O seguimento não elimina sofrimento. A fé não remove conflito. O Reino não anula a cruz. O Cristo de Marcos caminha para Jerusalém, anuncia sua paixão três vezes (Mc 8,31; Mc 9,31; Mc 10,32-34) e chama os discípulos a tomarem a cruz (Mc 8,34).  

Por isso a promessa do cem por um não é prosperidade econômica. Jesus não promete palácios; promete irmãos. Não promete hegemonia; promete comunhão. Não promete poder; promete Reino.   Atos dos Apóstolos mostra esta promessa tornando-se realidade: a comunidade coloca bens em comum (At 2,42-47; At 4,32-35), mas também enfrenta perseguições (At 5,17-42), prisão (At 12,1-5), martírio (At 7,54-60) e dispersão (At 8,1-4). O Evangelho não oferece imunidade histórica; oferece fidelidade.   

Aqui emerge uma crítica necessária ao presente. Muitas expressões religiosas contemporâneas transformaram a fé em tecnologia de sucesso. A chamada teologia da prosperidade deslocou o centro do Evangelho, reduzindo bênção ao acúmulo e Reino à ascensão individual. O sofrimento foi espiritualizado. O pobre tornou-se suspeito. A cruz desapareceu.   Contudo, Jesus afirma: “Bem-aventurados os pobres” (Lc 6,20), “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), “onde está teu tesouro aí estará teu coração” (Mt 6,21). Tiago denuncia comunidades que honram ricos e desprezam pobres (Tg 2,1-9). João pergunta: “Quem possuir bens e fechar o coração ao irmão, como permanece nele o amor de Deus?” (1Jo 3,17).  

O Antigo Testamento já havia denunciado o culto vazio separado da justiça: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6); “aprendei a fazer o bem, buscai a justiça” (Is 1,17); “corra o direito como água” (Am 5,24). Jesus encontra-se nesta tradição profética. Seu Reino não é neutro diante da injustiça.   Quando conclui dizendo que muitos primeiros serão últimos e muitos últimos serão primeiros (Mc 10,31), realiza uma das maiores inversões teológicas do Novo Testamento. O mundo romano estava organizado por honra, patronagem e hierarquia. Existiam centros e periferias humanas. Jesus rompe esta lógica. “Quem quiser ser o maior seja servo” (Mc 10,43); “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45); “quem se exaltar será humilhado” (Mt 23,12).   Esta crítica alcança também a vida eclesial. O clericalismo continua sendo deformação da missão quando transforma ministério em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. O sacerdócio comum dos fiéis é reafirmado. O serviço volta ao centro. Jesus lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). Pedro exorta os presbíteros a não dominarem o rebanho (1Pd 5,1-4). Paulo afirma que a autoridade existe para edificar e não destruir (2Cor 10,8).  

A sociologia da religião mostra que toda instituição corre o risco de transformar pertença em exclusão. A religião pode libertar ou legitimar opressões. A América Latina leu esta tensão de modo profético. Conferência de Medellín denunciou estruturas de pecado; Conferência de Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; Conferência de Aparecida convocou a Igreja à missão.   O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças dos pobres são as alegrias e esperanças da Igreja. Marcos 10 obriga então a perguntar que cristianismo estamos construindo. Uma religião do prestígio ou uma espiritualidade do Reino? Uma Igreja servidora ou autorreferencial? Uma fé libertadora ou instrumentalizada?  

Estas perguntas tornam-se urgentes quando a religião é usada para projetos de poder. Jesus recusou o messianismo militar (Jo 6,15), entrou em Jerusalém montado num jumento (Mc 11,1-10), chorou sobre a cidade (Lc 19,41-44) e morreu perdoando (Lc 23,34).  .Contudo, setores religiosos aproximaram-se de discursos autoritários e ideologias de extrema direita que substituem misericórdia por guerra cultural e Evangelho por identidade política. O Reino não cresce assim. Jesus comparou o Reino ao grão de mostarda (Mc 4,30-32), ao fermento escondido (Mt 13,33), à semente que morre (Jo 12,24).  Também a teologia do domínio entra em tensão com o Evangelho quando transforma missão em hegemonia. O Reino não é império. O discípulo não é conquistador. O Evangelho não é supremacia.   Pouco depois desta passagem, Tiago e João pedirão lugares de honra (Mc 10,35-45). Jesus responde: “Quem quiser ser o primeiro seja servo de todos”. A psicologia da espiritualidade ajuda a compreender esta cena. O ser humano deseja reconhecimento. Pedro busca confirmação. Tiago e João buscam proximidade privilegiada. Jesus não destrói esta humanidade; ele a converte. O amadurecimento espiritual acontece quando o desejo de poder se torna serviço.  

Também hoje comunidades reproduzem estas tensões. Disputam cargos, visibilidade e reconhecimento. Criam primeiros e segundos escalões. Mas o Reino não possui lado A e lado B.  

A conclusão do texto conduz à vida eterna. Na linguagem bíblica, vida eterna não é apenas futuro; é participação na vida de Deus (Jo 17,3). Apocalipse fala da nova Jerusalém onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,4). Isaías anuncia um banquete universal (Is 25,6). Ezequiel fala do rio que gera vida (Ez 47,1-12). Jesus fala repetidamente de mesas e festas (Mt 22,1-14; Lc 14,15-24).   A imagem da estrada torna-se profundamente escatológica. Uns caminham rapidamente; outros lentamente. Há feridos como o homem caído na estrada de Jericó (Lc 10,25-37). Há cansados como Elias sob o zimbro (1Rs 19,4-8). Há exilados como os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Contudo, todos caminham para uma mesa. Não para um trono, mas para uma mesa.  

Ali não haverá competição, clericalismo, exclusão ou prosperidade usada como medida de fé. Contará apenas a fidelidade. Marcos 10,28-31 permanece então como espelho diante da Igreja e do discípulo. Pergunta o que ainda seguramos, quais riquezas interiores nos impedem de caminhar, quais poderes desejamos conservar e quais medos nos fazem parar quando o Evangelho chega à cruz.  Porque muitas vezes aceitamos o cem por um e esquecemos as perseguições; queremos a glória e evitamos o serviço; desejamos a festa e rejeitamos a estrada.   Contudo, Jesus continua chamando, continua desinstalando, continua libertando e continua dizendo: segue-me.  

  • O maior milagre não é chegar primeiro, mas permanecer caminhando. 

Porque ao final da estrada não haverá vencedores nem vencidos, primeiros nem últimos segundo as medidas humanas. Não haverá títulos convertidos em privilégio, nem distinções erguidas como muros; não haverá bispos, padres, diáconos ou qualquer outro nome transformado em superioridade. O que na história foi ministério retornará plenamente ao seu sentido original: serviço. O que foi vocação encontrará sua plenitude na comunhão. Haverá apenas irmãos e irmãs reunidos pela graça. O Povo de Deus reconciliado. Não existirão tronos sustentados pela vaidade, lugares reservados pelo poder ou honras disputadas. Diante do Cordeiro, toda grandeza humana perderá seu brilho e permanecerá apenas o amor que serviu.

Estaremos  em um  unica mesa. A mesa do Reino. Não um palácio para poucos, mas o banquete preparado pelo Deus da aliança (Is 25,6). Nela se sentarão os que caminharam depressa e os que avançaram lentamente; os fortes e os cansados; os que sustentaram e os que precisaram ser sustentados; os que chegaram com passos firmes e os que chegaram carregando suas feridas; os que conservaram a esperança e os que sobreviveram apenas pela misericórdia. Sentar-se-ão também os esquecidos da história, os pobres, os pequenos, os feridos da estrada, os exilados e os que permaneceram fiéis apesar da noite. Os últimos ouvirão seu nome pronunciado com ternura, e aqueles que buscaram ser primeiros compreenderão que o maior sempre foi aquele que serviu (Mc 10,43-45).

Toda lágrima será enxugada (Ap 21,4). Toda fome encontrará pão (Is 25,6). Todo exílio encontrará casa. Toda ferida encontrará cura. Toda saudade encontrará abraço. A criação inteira, que geme esperando redenção (Rm 8,22-23), participará da plenitude prometida. Então cessarão as disputas, cairão as coroas, silenciarão os orgulhos e desaparecerão as fronteiras construídas entre irmãos. Todos reconciliados. Todos acolhidos. Todos participantes da festa sem ocaso.

Porque ao final não permanecerão cargos, títulos ou lugares de honra. Permanecerão a graça, a misericórdia e o amor.



E Deus será tudo em todos (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 11,45-56.

 
A perícope de João 11,45-56, proclamada neste sábado da quinta semana da Quaresma, ocupa um lugar de extraordinária densidade no ano litúrgico da Igreja. Ela não apenas se situa no limiar da Semana Santa, mas constitui a continuação imediata e orgânica do Evangelho proclamado no domingo passado, quando a assembleia contemplou, especialmente no ciclo do Ano A, o sinal supremo da ressurreição de Lázaro em João 11,1-44. A pedagogia litúrgica da Igreja, em sua sabedoria espiritual, conduz a comunidade por um verdadeiro itinerário pascal. Em Betânia, o Cristo se revela Senhor da vida diante do túmulo do amigo. Em Efraim, Ele recolhe-se no silêncio do deserto, discernindo a hora. Amanhã, no Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a liturgia abrirá solenemente a Semana Santa, fazendo-nos acompanhar a entrada messiânica em Jerusalém, quando o mesmo Jesus cuja morte hoje é tramada será acolhido com ramos e aclamações. Assim, Betânia, Efraim, Jerusalém, Gólgota e túmulo vazio não são lugares dispersos, mas uma única geografia teológica da Páscoa. O texto de hoje nasce como consequência direta do sinal de Betânia. Depois que Jesus clamou “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43), revelando-se como “a ressurreição e a vida” (Jo 11,25), a narrativa não se encerra na alegria do retorno do amigo à vida. O quarto Evangelho, com sua profundidade dramática, mostra que toda manifestação da vida divina dentro de um mundo organizado pela morte produz decisão. Alguns creem, como diz João 11,45; outros, porém, dirigem-se aos fariseus para denunciar Jesus (Jo 11,46). O sinal da vida torna-se, paradoxalmente, a aceleração histórica das forças de morte. A glória revelada no túmulo aberto de Lázaro precipita a conspiração que conduzirá o próprio Senhor ao seu sepulcro.

Essa progressão é fundamental para compreender a unidade entre o domingo passado, este sábado e o Domingo de Ramos de amanhã. A Igreja não está apenas justapondo leituras, mas conduzindo os fiéis a penetrar na lógica interna da revelação. O dom da vida a Lázaro aponta para a hora de Jesus. João insiste desde o início em que tudo converge para essa hora. Em Caná, Jesus afirma: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Em Jerusalém, repetem-se as referências de que ainda não era chegada sua hora (Jo 7,30; 8,20). Agora, porém, a conspiração do Sinédrio torna-se o sinal histórico de que o momento se aproxima irreversivelmente, até explodir em João 12,23: “Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado”. Em João, paixão e glória são inseparáveis. A cruz não é fracasso, mas entronização paradoxal. O pré-texto histórico e narrativo da passagem revela que a ressurreição de Lázaro não é mero milagre de consolação privada. Trata-se do último e maior dos sinais joaninos, aquele que torna pública e inescapável a identidade de Jesus. Se nos sinóticos a decisão de matar Jesus se intensifica após a purificação do templo (Mc 11,18; Mt 21,45-46; Lc 19,47-48), João desloca o centro dramático para o sinal da vida. Isso não é divergência, mas aprofundamento redacional. A tradição sinótica enfatiza a tensão messiânica no espaço do templo; João radicaliza a questão cristológica. Jesus é condenado porque manifesta vida onde a morte já havia sido normalizada. O conflito não é apenas cultual ou político, mas ontológico: a vida de Deus entrou na história.

O contexto histórico da Judeia do século I ajuda a compreender a reação das autoridades. Sob o jugo romano, a liderança sacerdotal vivia numa delicada engenharia de poder. O templo era centro religioso, econômico e político. O Sinédrio administrava a ordem interna em constante negociação com Roma. Um líder popular que mobilizasse multidões em torno de sinais extraordinários poderia ser interpretado como ameaça messiânica e desencadear intervenção militar. Quando dizem: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele; virão os romanos e destruirão o nosso lugar santo e a nossa nação” (Jo 11,48), não falam apenas de teologia, mas de geopolítica religiosa. É justamente nesse ponto que emerge a figura dramática de Caifás. Sua frase em João 11,50, “é melhor que um só homem morra pelo povo”, tornou-se uma das formulações mais densas de ironia teológica do quarto Evangelho. Caifás fala por cálculo institucional, não por fé. Seu raciocínio pertence à lógica sacrificial dos sistemas históricos: eliminar um para preservar a estrutura. Contudo, João relê a frase à luz do mistério pascal e afirma que, sem saber, ele profetizou (Jo 11,51-52). Aqui se abre uma profundidade extraordinária. A racionalidade sacrificial do poder é subvertida pelo amor redentor de Deus. Jesus morrerá, sim, mas não para preservar privilégios do templo; morrerá para reunir na unidade os filhos de Deus dispersos.

A morte tramada contra Jesus, antes de tornar-se execução pública, começou como construção  em sequencia de  uma narrativa de eliminação:

  1. Suas obras foram reinterpretadas como ameaça; 
  2. Sua presença foi convertida em risco político; 
  3. sua própria existência foi declarada incompatível com a preservação da ordem. 
Esse processo revela que todo assassinato físico é precedido por um assassinato simbólico, moral e reputacional. Antes de se derramar o sangue do justo, procura-se destruir sua credibilidade, desfigurar suas intenções e transformar o bem que realiza em perigo social. A paixão de Cristo, nesse sentido, ilumina um mecanismo humano permanente: 

Mata-se primeiro a verdade sobre a pessoa para, depois, justificar sua eliminação concreta. Esse é um mecanismo antigo, mas brutalmente atual.Na contemporaneidade, isso se manifesta em campanhas de difamação, discursos de ódio, linchamentos digitais, perseguições ideológicas e moralismos seletivos, muitas vezes impulsionados por setores religiosos capturados por projetos autoritários e por extremismos políticos. A fé, então, é instrumentalizada para legitimar exclusão, violência e morte simbólica.

  1.  Constrói-se uma narrativa;  destrói-se a reputação; 
  2. Acusa-se de heresia, desordem, imoralidade, ameaça ou perigo à instituição;
  3.   Acontece  a   perseguição, se deslegitima o ministério e se faz a exclusão. 
  4. Por fim a morte digital / social, da reputação  e até física passam a parecer legítimas 
  5. justificada  muitas vezes, inclusive, “dentro do direito eclesial, penal e  civil”.

A história mostra que esse processo não é exceção: é método. Ao longo dos séculos, a excomunhão, o afastamento institucional e a deslegitimação pública funcionaram, não raras vezes, como etapas preliminares de uma eliminação simbólica. Em muitos casos, porém, o processo não parou no simbólico: avançou também para a eliminação física. No século XXI, essa lógica ganha uma camada ainda mais sofisticada e silenciosa: a morte digital. Antes de se eliminar a pessoa socialmente, elimina-se sua presença pública, sua voz, sua capacidade de comunicar e sua autoridade simbólica. Silencia-se, restringe-se, bloqueia-se, retira-se alcance e visibilidade. A supressão da palavra prepara o terreno para a irrelevância social e, por fim, para a destruição pública.

O caso do padre Júlio Lancellotti é emblemático nesse sentido. Sacerdote reconhecido por sua atuação profética junto à população em situação de rua, ele se tornou alvo de restrições institucionais, acusações públicas e campanhas sistemáticas de descredibilização. O gesto aparentemente disciplinar de limitar sua comunicação possui enorme peso simbólico: retira-se a voz justamente de quem fala pelos invisíveis.

A dinâmica é conhecida e perigosa seguindo o modo citado acima:

  • primeiro, levanta-se a suspeita;
  • depois, espalha-se a acusação;
  • por fim, cria-se um ambiente de desconfiança permanente.

Mesmo quando não há condenação, a marca permanece. A absolvição jurídica raramente consegue reparar a destruição simbólica já realizada. É isso que se pode chamar de morte reputacional: a pessoa continua viva biologicamente, mas sua credibilidade, sua palavra e sua imagem pública são feridas de modo profundo.

Esse padrão não é isolado. Ele se repete com teólogos, agentes pastorais, lideranças populares e todos aqueles que ousam vincular fé, justiça e transformação social — especialmente os identificados com a Teologia da Libertação. A memória eclesial recente oferece exemplos eloquentes: Leonardo Boff; Gustavo GutiérrezJon Sobrino, e os menos  conhecidos  das nossas  Dioceses, Paróquias e comunidades, leigos,  clérigos e religiosos 

Em um nível ainda mais radical, alguns passaram do silenciamento à morte concreta. Óscar Romero foi assassinado ao altar; Ignacio Ellacuría e seus companheiros jesuítas foram executados por uma lógica de poder que não tolerava a denúncia profética. 

Há ainda casos em que a violência ultrapassa o silenciamento e revela a brutalidade extrema das estruturas humanas e religiosas. O assassinato do jovem Lucas Terra tornou-se símbolo doloroso de como ambientes religiosos também podem ser atravessados por abuso de poder, encobrimento, manipulação da verdade e violência letal. Quando a instituição demora a permitir que a verdade venha à luz, mata-se novamente a vítima no plano da memória, da justiça e da dignidade. Em outra dimensão, o assassinato do padre Kazimierz Wojno, em Brasília, mostra como a violência estrutural de uma sociedade desigual torna vulnerável até mesmo quem exerce o ministério em espaço sagrado. Sua morte brutal, dentro do ambiente paroquial, evidencia uma sociedade na qual a vida humana pode se tornar descartável, inclusive a de líderes religiosos. Também as trajetórias de figuras como o padre Beto, em São Paulo, ajudam a perceber como conflitos institucionais, disputas morais, acusações públicas e mecanismos disciplinares podem se transformar em formas de exclusão e morte simbólica. Em muitos contextos, acusações de erros administrativos ou morais,  algumas jamais plenamente esclarecidas produzem efeitos imediatos: paróquias interditadas, ministérios suspensos, comunidades desorganizadas e reputações destruídas e a crucificação  pública da reputação ou fogueira  das vaidades queimando  a moral  de quem ousa desafiar as estruturas  pré- estabelecidas 

É justamente nesse ponto que a reflexão se torna mais delicada e necessária: há situações em que a acusação não visa apenas corrigir um erro, mas produzir um ambiente propício ao afastamento, ao silenciamento e à perda de legitimidade pastoral. Ainda que nem tudo possa ser dito publicamente, por razões de prudência e segurança, o padrão sociológico é reconhecível: constrói-se primeiro a suspeita, para depois justificar a eliminação do sujeito ou a interdição do espaço que ele ocupa.

O  mecanismo é claro: quem ameaça a ordem estabelecida precisa ser neutralizado. Primeiro no imaginário coletivo; depois na realidade concreta. Trata-se de um rito de expulsão simbólica, no qual a comunidade é preparada para aceitar a eliminação do dissidente como algo necessário para a preservação da ordem. É  exatamente essa lógica que o Evangelho denuncia em João 11,53: “Então, daquele dia em diante, decidiram matá-lo.” Mas a decisão de matar Jesus não nasce no vazio. Antes da sentença, houve a construção da narrativa: ele era perigoso, perturbava a ordem, ameaçava a estabilidade religiosa e política. A morte foi preparada pela acusação, pelo medo e pela manipulação do imaginário coletivo.

Aqui emerge uma chave hermenêutica decisiva: toda vez que uma instituição, religiosa ou política, precisa destruir a reputação de alguém para justificar sua exclusão, estamos diante de uma lógica profundamente anti-evangélica. Não é a verdade que conduz o processo, mas a preservação do poder.   O resultado permanece o mesmo, ontem e hoje: mata-se primeiro a verdade sobre a pessoa; depois, sua dignidade, sua voz, sua existência social e, quando possível, o próprio corpo.

Como no caso de Jesus, tudo isso ainda pode ser realizado sob a aparência de legalidade, ortodoxia e até mesmo “em nome de Deus”.

Nos dias de hoje, essa lógica permanece dolorosamente atual. Quantas lideranças populares, defensores dos pobres, agentes pastorais, jornalistas, intelectuais, movimentos sociais e vozes proféticas são antes submetidos a campanhas de difamação, calúnia e demonização pública. O assassinato de reputação tornou-se uma sofisticada tecnologia de poder, muitas vezes operada por discursos ideológicos de extrema direita e por setores religiosos extremistas que transformam a fé em máquina de guerra cultural. Produz-se medo moral, inventam-se inimigos internos, associam-se defensores da justiça a ameaças imaginárias, e assim se prepara o terreno para a exclusão, o silenciamento ou até a eliminação física dos que se colocam ao lado da vida.

A lógica de Caifás ressurge quando projetos autoritários precisam fabricar culpados para consolidar hegemonias. O mesmo mecanismo que em João 11 declarou ser “melhor que um homem morra pelo povo” reaparece quando pessoas são expostas ao ódio coletivo por denunciarem desigualdades, racismo estrutural, violência policial, misoginia, fome, devastação ambiental ou manipulação da religião. A morte social precede a morte física. A difamação precede o linchamento. A mentira reiterada prepara a aceitação da violência. É o mesmo movimento denunciado pelos profetas quando o justo é perseguido por sua palavra, como em Jeremias 18,18: “Vinde, tramemos contra Jeremias”.

Isso se agrava quando setores religiosos extremistas abandonam a lógica do Evangelho e assumem a lógica do inimigo absoluto. Nesse cenário, a fé deixa de ser espaço de conversão e misericórdia para tornar-se instrumento de exclusão, perseguição e legitimação de discursos violentos. Pessoas passam a ser demonizadas não por seus pecados, mas por sua defesa da dignidade humana, da democracia, dos pobres e dos vulneráveis. O Cristo perseguido de João 11 continua presente em cada homem e mulher cuja reputação é destruída por sustentar a verdade, a justiça e a compaixão contra as alianças entre religião, mercado e poder autoritário.

Por isso, esta passagem adquire uma força profética incontornável para a Igreja contemporânea. Toda comunidade cristã precisa discernir se está do lado dos que tramam a morte, hoje muitas vezes mediada por fake news, difamação sistemática, violência simbólica e fanatismo ideológico, ou do lado daquele que veio para que todos tenham vida (Jo 10,10). O Evangelho nos impede de naturalizar a destruição moral do outro como método político ou religioso. Seguir Jesus na entrada da Semana Santa significa também rejeitar toda cultura de ódio que mata primeiro a honra, depois a voz, depois o corpo.

O versículo 52 deJoão 11, merece um aprofundamento eclesiológico decisivo. A morte de Cristo tem finalidade congregadora. Em um mundo fraturado por divisões religiosas, sociais, nacionais e ideológicas, a cruz torna-se lugar de reunião. A Igreja nasce dessa força centrípeta do amor crucificado. Aqui ressoa Efésios 2,14: “Ele é a nossa paz; do que era dividido fez uma unidade”. Em tempos de polarização, tribalismos políticos e instrumentalização religiosa, este versículo confronta comunidades que absolutizam ideologias e esquecem a unidade no Crucificado.

O deslocamento de Jesus para Efraim (Jo 11,54) possui profundo valor simbólico. Geograficamente, a região se aproximava do deserto, espaço bíblico por excelência do discernimento e da preparação. O deserto foi escola de Israel (Dt 8,2), lugar da escuta de Elias (1Rs 19,12) e ambiente de purificação profética (Os 2,16). A retirada de Jesus não expressa medo, mas consciência do tempo. Antes da entrada pública em Jerusalém, há o silêncio fecundo do recolhimento. O Cristo que amanhã veremos aclamado com ramos é o mesmo que hoje escolhe a solidão de Efraim. O gesto ensina que a paixão nasce da intimidade com o Pai.

Essa passagem ganha densidade ainda maior por estar colocada na vigília do Domingo de Ramos. Amanhã, a multidão tomará ramos e cantará o Salmo 118: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Sl 118,26; Mc 11,9; Jo 12,13). Aquele cuja morte hoje está decidida será amanhã aclamado como rei. A tensão entre aclamação e condenação revela a ambiguidade das adesões humanas. A mesma cidade que canta hosana será capaz de entregar o Justo. Isso já havia sido intuído pelo Salmo 2,2: “Os reis da terra se levantam e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido”. Atos 4,25-28 retomará esse salmo para interpretar a paixão como expressão histórica da resistência das estruturas humanas ao Reino.

A proximidade da Páscoa em João 11,55 reforça a unidade entre esta leitura e a Semana Santa que se inicia. A antiga libertação do Egito, narrada em Êxodo 12,1-14, encontra aqui sua plenitude cristológica. Jesus caminha para tornar-se o Cordeiro definitivo, como o próprio João Batista já anunciara em João 1,29. O detalhe de João 19,36, em eco a Êxodo 12,46, “nenhum de seus ossos será quebrado”, mostra que o evangelista lê toda a paixão à luz da Páscoa mosaica. O êxodo antigo libertou da escravidão faraônica; a nova Páscoa libertará do pecado, da morte e de todas as estruturas históricas de opressão.

A referência à purificação ritual dos peregrinos que sobem a Jerusalém (Jo 11,55) oferece um poderoso espelho espiritual para a comunidade de hoje. A liturgia nos conduz ao Tríduo não para uma repetição estética, mas para a conversão do coração. O profeta Ezequiel já anunciava: “Dar-vos-ei um coração novo” (Ez 36,26). A verdadeira purificação não se limita aos ritos, mas alcança as estruturas internas da pessoa e da sociedade. Aqui o texto confronta toda forma de religião vazia, reduzida a observâncias sem transformação ética.

A narrativa expõe mecanismos permanentes da condição humana. As autoridades não negam os sinais de Jesus; ao contrário, reconhecem: “Este homem faz muitos sinais” (Jo 11,47). O problema não é ausência de evidência, mas resistência da subjetividade quando a verdade ameaça privilégios. A psicologia da autodefesa institucional, o medo da perda de status, a ansiedade diante da ruptura do conhecido, tudo isso emerge com força. A fé, portanto, não depende apenas de informação, mas de disposição existencial à conversão. A  lógica de Caifás permanece dramaticamente atual. Quantas vezes sistemas econômicos, jurídicos e políticos continuam afirmando que é melhor sacrificar alguns para salvar o todo. Essa racionalidade reaparece na naturalização da desigualdade, no encarceramento seletivo, na necropolítica das periferias, no abandono dos pobres, no descarte dos vulneráveis. A paixão de Cristo desmascara todas as formas contemporâneas de sacrifício social legitimado.

Nesse horizonte, a tradição profética bíblica ilumina a leitura. Isaías 53,5 interpreta o Servo sofredor como aquele que carrega as feridas do povo. Jeremias 11,19 descreve o justo levado ao matadouro sem perceber a conspiração. O Salmo 22 antecipa o clamor do inocente perseguido. Jesus recapitula essa linhagem profética e a leva à plenitude. Sua morte não é mera tragédia, mas denúncia histórica de todo poder que se organiza contra a vida.

A partir do Magistério, a Dei Verbum 2 recorda que Deus se revela na história por palavras e acontecimentos intimamente conexos. Aqui, o acontecimento da conspiração é também palavra reveladora. A Dei Verbum 12 exige leitura atenta ao contexto, gênero e unidade da Escritura, o que nos permite compreender João 11,45-56 como elo indispensável do drama pascal. A Gaudium et Spes 1 recorda que as angústias dos homens são também as dos discípulos de Cristo. Por isso, a conspiração contra Jesus prolonga-se em cada sofrimento humano produzido por estruturas injustas. Na recepção latino-americana, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente Aparecida insistem que Cristo veio para que todos tenham vida (Jo 10,10). A opção preferencial pelos pobres não é adendo ideológico, mas consequência direta da lógica do Evangelho. O Jesus condenado neste texto é precisamente aquele que devolve vida ao morto, dignidade ao excluído e esperança ao povo. Toda vez que a Igreja se afasta dos pobres para preservar seus próprios privilégios, ela se aproxima perigosamente da lógica do Sinédrio.

Amanhã, ao erguer os ramos, a Igreja deverá recordar que a aclamação só é autêntica se conduz à fidelidade na cruz. Os ramos sem compromisso com os crucificados da história tornam-se folclore litúrgico. O jumentinho de Zacarias 9,9 confronta os cavalos de guerra dos impérios. O Rei que entra humilde desmonta as fantasias religiosas de triunfo e poder.

Jesus em Betânia, Jesus ordenou que retirassem a pedra do túmulo de Lázaro (Jo 11,39). Hoje, por causa desse gesto, Ele próprio se coloca no caminho do seu sepulcro. O Senhor que chama o amigo para fora entra voluntariamente no itinerário que o levará ao túmulo vazio da manhã pascal. Aqui está a beleza absoluta do Evangelho. Aquele que dá vida aceita atravessar a morte para romper definitivamente todos os túmulos humanos, espirituais, sociais e históricos. Entre Betânia e Jerusalém, entre Efraim e o Gólgota, entre os ramos de amanhã e o silêncio do sábado santo, a Igreja aprende novamente que a glória de Deus não se manifesta na dominação, mas no amor que vai até o fim (Jo 13,1). Seguir esse Cristo significa rejeitar toda religião vazia, toda manipulação ideológica da fé, toda estrutura que sacrifica vidas, e assumir a radicalidade do Reino que escolhe sempre a vida, a justiça, a misericórdia e a esperança. É assim que a Palavra deste sábado nos introduz, com profundidade espiritual e lucidez histórica, no coração da Semana Santa.

DNonato - Teólogo do Cotidiano