quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Um breve olhar sobre Lucas 13,31-35
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Um breve olhar sobre Lucas 12,54-59
- A expressão grega kairós, traduzida como tempo ou momento oportuno, indica aqui mais do que a sucessão cronológica dos acontecimentos.
- Chronos designa o tempo em sua dimensão sucessiva, enquanto kairós pode expressar a ocasião decisiva, o momento carregado de significado e possibilidade.
- Amós 5,21-24 rejeita o culto separado da justiça; Isaías 1,11-17 associa a purificação religiosa à defesa do órfão e da viúva
- Miqueias 6,6-8 resume a exigência divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus.
- O pai acolhe o filho que retorna (Lc 15,11-32)
- Jesus oferece perdão e nova possibilidade de vida (Lc 7,36-50)
- O crucificado dirige uma palavra de esperança ao condenado que reconhece sua situação (Lc 23,39-43).
- Mateus apresenta uma tradição paralela em Mt16,1-4. Nesse episódio, fariseus e saduceus pedem a Jesus um sinal do céu para colocá-lo à prova. A resposta associa a leitura das condições atmosféricas à incapacidade de reconhecer os sinais dos tempos e culmina na referência ao sinal de Jonas. A ênfase mateana recai sobre a exigência de um sinal extraordinário e sobre a resistência daqueles que desejam submeter a ação de Deus às próprias condições.
- Marcos 8,11-13 também relata a exigência de um sinal por parte dos fariseus, seguida pela recusa de Jesus, mas não reproduz a comparação meteorológica presente em Lucas e Mateus. Não se deve, portanto, atribuir a Marcos palavras que seu relato não contém.
- Jeremias denuncia aqueles que proclamam a segurança do templo enquanto praticam injustiça (Jr 7,1-11).
- Ezequiel questiona os pastores que se alimentam às custas do rebanho e abandonam as ovelhas frágeis (Ez 34,1-10).
- Agostinho, ao refletir sobre o tempo nas Confissões, livro XI, investiga a experiência humana do passado, do presente e do futuro, mostrando como a consciência vive a memória, a atenção e a expectativa. Sua reflexão não equivale a um comentário direto de Lucas 12,54-59, mas ajuda a compreender por que o presente exige responsabilidade: é nele que a memória pode ser corrigida e a esperança transformada em ação.
- João Crisóstomo, em sua pregação, insistiu repetidamente na incompatibilidade entre honrar Cristo no culto e desprezá-lo nos pobres. Sua exortação pastoral recorda que a celebração cristã perde coerência quando a caridade não alcança a vida concreta.
- A Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, afirma a dignidade da pessoa humana e a necessidade de examinar os sinais dos tempos à luz do Evangelho.
- A Dignitatis Humanae defende a liberdade religiosa e rejeita a coerção em matéria de fé, reconhecendo que a resposta religiosa deve ser livre. Isso não significa que toda opinião seja imune à crítica, mas que a consciência não pode ser forçada a crer por violência ou imposição.
- A Evangelii Gaudium critica uma Igreja autorreferencial e convoca a comunidade cristã a sair de si mesma para encontrar as periferias humanas.
- A Laudato Si’ relaciona a crise ambiental à degradação social, mostrando que os danos ecológicos atingem de modo desproporcional as populações vulneráveis.
- A Fratelli Tutti desenvolve a fraternidade e a amizade social como exigências de uma política orientada ao bem comum. Esses documentos não substituem o texto bíblico; ajudam a discernir suas implicações diante de desafios históricos concretos.
domingo, 26 de julho de 2026
Um breve olhar em Mateus 13, 31-35
Na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum temos o texto de Mateus 13, 31-35, que já refletimos outras vezes em 2020 e 2023 o texto faz parte do Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A Mateus 13, 24-43 que refletimos em 2020 e 2023 em nosso canal do YouTube, convidamos você para assistir a Reflexão: Boa Nova de Jesus Cristo segundo São Mateus 13,31-35.
A parábola do grão de mostarda introduz essa pedagogia do pequeno. “O Reino dos Céus é como um grão de mostarda que um homem semeou em seu campo. É a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se a maior das hortaliças e faz-se árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus ramos” (Mt 13,31-32). No contexto agrícola do século I, a mostarda era uma planta de crescimento rápido e imprevisível, frequentemente vista como erva daninha. Jesus inverte a expectativa: aquilo que o senso comum despreza é o que contém o potencial de abrigar vida, acolher os pássaros, dar sombra, a menor semente torna-se abrigo, hospitalidade e espaço de comunhão. No horizonte bíblico, as aves do céu evocam a universalidade das nações (cf. Ez 17,22-24; Dn 4,12), indicando que o Reino acolhe todos, sem discriminação de origem, poder ou mérito.
Essa parábola é uma resposta às expectativas messiânicas nacionalistas. O povo esperava um Messias guerreiro, um libertador político que restaurasse a glória de Israel pela força. Jesus, ao contrário, revela que o Reino não é espetáculo de poder, mas processo de transformação silenciosa. Sua linguagem ressoa em outros textos sinóticos: Marcos 4,30-32 e Lucas 13,18-19 reiteram a mesma imagem, mas com nuances próprias. Marcos sublinha a surpresa — “cresce e se torna maior do que todas as hortaliças”, enquanto Lucas destaca a hospitalidade “as aves do céu habitam nos seus ramos”. A tradição sinótica inteira converge na ideia de que a ação divina opera por meio do mínimo, do vulnerável, do que o mundo despreza. É a inversão teológica do critério humano de grandeza: Deus se revela na fragilidade.
O mesmo princípio é reforçado pela segunda parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que tudo ficasse levedado” (Mt 13,33). O fermento, na cultura judaica, possuía uma ambiguidade simbólica. Era associado, em alguns contextos, à corrupção (cf. Mt 16,6; 1Cor 5,6-8), mas aqui assume sentido positivo: uma força interior que transforma a massa de dentro para fora. O gesto da mulher invisível, cotidiano, silencioso, torna-se imagem da ação divina no mundo. Ela mistura o fermento até que tudo seja transformado. O verbo usado, “misturar” (gr. enkrypto), tem conotação de esconder, sugerindo que o Reino age de modo oculto, quase imperceptível, mas eficaz. A presença feminina nessa parábola é igualmente significativa: Deus é simbolizado em gestos domésticos, maternos, cuidadosos. A mulher anônima é figura da sabedoria divina que age sem barulho, e sua ação aponta para a dimensão encarnada, artesanal e relacional do Reino.
As imagens da parábola nos convida a compreender que Jesus fala não de um projeto ideológico, mas de um processo histórico e espiritual. A semente e o fermento expressam o modo de agir de Deus: discreto, paciente e radicalmente transformador. O Reino não se identifica com impérios, com sistemas de poder religioso, nem com utopias autorreferenciais. Ele cresce no meio do mundo, mas não segundo os critérios do mundo. Santo Agostinho, em seu Sermão 101, observa que “Deus começa pelo que é pequeno para nos ensinar a humildade, e termina na plenitude para nos revelar a glória”. São Gregório Magno, em suas Homilias sobre os Evangelhos, acrescenta que “quem despreza as pequenas virtudes impede que cresçam as grandes”, lembrando que o Reino é tecido de gestos simples, o perdão, a escuta, o cuidado e não de façanhas espetaculares. Essa pedagogia do pequeno tem profundas implicações antropológicas e sociais. Em termos psicológicos, a semente e o fermento representam os processos internos de amadurecimento humano. A psique não se transforma por imposição, mas por cultivo paciente. O autoconhecimento, a cura e a santidade exigem o tempo da germinação, o silêncio do crescimento subterrâneo. A fé não é fuga da realidade, mas fermento que a transforma. A maturidade espiritual nasce do enfrentamento das próprias sombras, da integração dos opostos, da reconciliação entre o visível e o invisível. A parábola, assim, também fala da interioridade: o Reino é como um processo psicológico em que o amor e a graça vão transfigurando o interior até que toda a “massa” da vida seja levedada.
A imagem do fermento sugere uma crítica às estruturas dominantes. O fermento age de baixo, invisivelmente, transformando a totalidade. É o símbolo das revoluções silenciosas, das mudanças que começam nos corações e se espalham pela convivência, pela solidariedade e pela justiça cotidiana. O Reino de Deus, portanto, não se impõe pelas armas, pelo poder econômico ou pela manipulação da fé; ele se propaga na prática concreta do amor. Nesse sentido, a parábola denuncia as formas religiosas e políticas que se apropriam do nome de Deus para controlar, enriquecer ou dominar. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio são distorções do Evangelho porque reduzem o Reino à lógica do sucesso e do poder, esquecendo que a força divina se manifesta na fraqueza (cf. 2Cor 12,9). O Reino é fermento que liberta, não estrutura que oprime.
A fé autêntica é sempre comunhão. Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, recorda que “Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes, o que é pequeno para confundir os grandes”. É a mesma lógica das parábolas: a força da fraqueza. No contexto contemporâneo, essa mensagem confronta o individualismo religioso que transforma a fé em produto de consumo, em busca de conforto e status espiritual. O Reino, ao contrário, é um projeto coletivo, uma teia de solidariedades, um caminho de comunhão e justiça. Tiago insiste: “A religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27). Essa é a tradução prática da parábola do fermento: uma fé que leveda a sociedade, que humaniza as relações e que transforma estruturas de exclusão.
Na perspectiva filosófica, o fermento e a semente podem ser lidos como metáforas do ethos da esperança. Hannah Arendt falava da “natalidade” como capacidade humana de começar de novo; o Reino é o eterno nascimento de possibilidades novas dentro da história. Paul Ricoeur descreve a esperança como “a força que não nega o mal, mas aposta na fecundidade do bem”. Assim é o Reino: uma aposta paciente na fecundidade da graça, mesmo em meio à injustiça. Ele cresce em silêncio, mas nunca é passivo. A espera evangélica não é resignação; é resistência. É o cultivo do bem em meio ao caos, a insistência no amor em meio à indiferença.Teologicamente, essas parábolas revelam o coração da cristologia de Mateus. Jesus é o Semeador e o próprio grão que cai na terra e morre para dar fruto (cf. Jo 12,24). Ele é o fermento que se mistura na massa da humanidade, assumindo nossa carne, nossa história e nossa dor. O mistério pascal é a expressão máxima dessa pedagogia: da pequenez da cruz brota a plenitude da ressurreição. O Reino é o próprio Cristo atuando na história através da comunidade dos discípulos, que são chamados a ser semente e fermento. Por isso, Mateus conclui dizendo que “Jesus só lhes falava por parábolas, para se cumprir o que fora dito pelo profeta: abrirei a boca em parábolas, proclamarei coisas escondidas desde a criação” (Mt 13,35). O Evangelista cita o Salmo 78,2, interpretando Jesus como aquele que revela os mistérios ocultos do agir divino na história.
O Império Romano no primeiro século era o paradigma da grandiosidade e da força, as estruturas religiosas do Templo também se tornaram expressão de poder e segregação. Falar de um Reino que nasce de uma semente ou de um punhado de fermento era um escândalo. Era uma provocação contra o sistema, uma subversão das expectativas sociais e religiosas. O discurso de Jesus é, portanto, político e espiritual ao mesmo tempo. Ele propõe uma revolução da ternura, como diria o Papa Francisco: a mudança começa no detalhe, no gesto, no cuidado. A Evangelii Gaudium (n. 222) ensina que “o tempo é superior ao espaço”, indicando que o Reino cresce no tempo da paciência, não na conquista de territórios. E a Fratelli Tutti (n. 180) lembra que “a caridade política é a forma mais alta da caridade”, pois a fé autêntica tem implicações sociais concretas.
Orígenes via na semente a Palavra de Deus que deve germinar no coração, São João Crisóstomo ensinava que o fermento representa o Espírito Santo, que transforma a comunidade desde dentro e Santa Teresinha do Menino Jesus viveu radicalmente essa pedagogia do pequeno: “Quero ser o amor no coração da Igreja”, dizia, mostrando que o Reino floresce nos gestos invisíveis, nas orações escondidas, nas fidelidades silenciosas.
Essa espiritualidade do pequeno é o antídoto contra o clericalismo, que transforma o serviço em prestígio e o ministério em poder. O clericalismo mata o fermento, porque cristaliza a fé em hierarquia e vaidade. O Evangelho de Mateus nos convida a uma Igreja fermento, não a uma Igreja monumental. Uma Igreja que se mistura à massa da humanidade, que age com ternura, justiça e proximidade. A Gaudium et Spes (n. 63-66) reforça essa dimensão social da fé, lembrando que a Igreja deve ser sinal e instrumento de unidade do gênero humano, comprometida com a dignidade, o trabalho e a justiça.
O Reino, assim, é um movimento contínuo de encarnação. Ele se manifesta na educação que liberta, na ciência que serve à vida, na arte que desperta, na política que busca o bem comum. É a presença do divino no cotidiano. Ser fermento significa fazer da própria vida um lugar de transformação: nas salas de aula, nos hospitais, nas favelas, nas fábricas, nos lares. Ser semente é confiar que cada gesto de amor, por menor que pareça, tem potencial de eternidade.
O mundo contemporâneo, seduzido pela lógica da velocidade, do espetáculo e da aparência, precisa reaprender a sabedoria da semente e a força silenciosa do fermento. O Reino de Deus não nasce do marketing religioso, nem se sustenta pelo poder, pelo prestígio ou pela imposição. Ele germina no escondimento, cresce na fidelidade e transforma a história a partir do interior. Enquanto os impérios erguem monumentos à própria grandeza e acabam reduzidos às ruínas da memória, a pequena semente continua rompendo a terra e anunciando que a vida é mais forte que o poder. Enquanto multidões se deixam seduzir pelo barulho das ideologias, do consumismo e de uma religiosidade vazia, o fermento do Evangelho continua agindo silenciosamente, levedando a massa da humanidade. Esta é a lógica desconcertante do Reino: Deus prefere os pequenos começos às grandes aparências, a fidelidade escondida aos triunfos passageiros, a cruz aos aplausos. Por isso, permanece atual a exortação do profeta: "Não desprezeis os pequenos começos" (Zc 4,10). E permanece viva a esperança proclamada por Paulo: "Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus" (Fl 1,6).
A parábola de Jesus é também um julgamento sobre o nosso tempo. Ela denuncia toda pretensão de construir o Reino pela força, pelo clericalismo, pelo autoritarismo ou pelo fascínio dos números. O Reino não se mede por estatísticas, mas pela capacidade de gerar vida, justiça, misericórdia e comunhão. Onde um coração se converte, uma ferida é curada, um pobre recupera a dignidade, um excluído encontra acolhida e a verdade vence a mentira, ali o Reino já está crescendo..Que ninguém despreze aquilo que Deus faz no silêncio. A semente lançada por Cristo jamais deixará de produzir fruto, e o fermento do Evangelho jamais perderá sua força. Deus continua misturando sua graça na massa da humanidade e nenhuma potência deste mundo poderá impedir a colheita que Ele mesmo preparou. O Reino cresce, muitas vezes sem alarde, mas com a certeza de que a última palavra da história não será da violência, da injustiça nem da morte. A última palavra pertence ao Deus da Vida, cujo Reino já está entre nós e um dia se manifestará em plenitude.
sábado, 20 de junho de 2026
Um outro olhar sobre Mateus 10,26-33 / 12⁰ Domingo do Tempo Comum.
A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso.
- A primeira leitura Jeremias 20,10-13: apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
- O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
- A segunda leitura Romanos 5,12-15: amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.
Podemos perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção.
- O justo pode ser perseguido, mas não abandonado.
- O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus.
- A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
- O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina.
- A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.
E quando chegamos na liturgia em Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.
A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.
A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).
A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.
O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.
Jesus desafia frontalmente hoje as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.
Ao contemplarmos as leituras de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica:
- Jeremias é perseguido, mas permanece fiel.
- O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina.
- Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
- Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças.
A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus:
- Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
- Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
- Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
- Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
- Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
- Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
- Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
- Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10)
- Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
- Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.
Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7),
A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.
É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade..
Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..
No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.
terça-feira, 2 de junho de 2026
Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27
O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.
Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.
Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).
A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.
A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.
A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).
Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.
A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).
A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).
Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.
Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus. O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.
Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.
Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.
O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).
Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.
Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).
O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos:
- Quem é o Deus em quem acreditamos?
- O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
- O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas?
Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).
DNonato - Teólogo do Cotidiano






